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31 de agosto de 2018

G. Kasparov e o pintocóptero de Putin


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/pintocoptero




Esse foi um daqueles lampejos que costumo ter na cabeça de repente, na parte da tarde. Me lembrei por acaso de um vídeo circulado há alguns anos, em que alguém direcionava um pênis teleguiado, munido de hélice, no rumo da bancada ou do discursante num evento político ou empresarial. Não me lembrava do que se tratava, embora tivesse a vaga lembrança de que fosse russo, e foi batata: xeretando o YouTube e o Google, descobri que era uma alocução feita por Garry Kasparov, o famoso enxadrista, durante a campanha presidencial da Rússia em 2008. Mais uma mitada cossaca que estava esquecida na rede.

Eu busquei no YouTube pela palavra “pintocóptero”, e apareceram uns vídeos de qualidade meio ruim que não faziam alusão a que evento se tratava. Daí num deles, alguém cometou sobre Kasparov e consegui achar em inglês no Google Notícias sobre o assunto. Como Kasparov fala muito rápido e pra dentro, pesquei algumas palavras em russo e taquei novamente na busca. Resolvido o mistério: há algum tempo, Kasparov já tinha se decidido a passar à oposição ativa contra Vladimir Putin e seu governo, e por isso percorria o país em busca de apoio. Em 2008, tentou se candidatar à Presidência, mas não obteve forças suficientes e encontrou os obstáculos do regime.

Especificamente, esse evento foi em 17 de maio, na primeira reunião da que era então chamada “Assembleia Nacional – Protoparlamento Alternativo”, que dizia reunir “representantes do mais amplo espectro político oposicionista, de nacional-patriotas a defensores dos direitos humanos, de socialistas e comunistas a liberais”. Está transcrito todo em russo o discurso de Kasparov, e embora não haja indícios diretos da ação de Putin, tá na cara que foi zoeira de algum simpatizante da situação. Saiu na imprensa internacional que quando o “peniscóptero” foi derrubado, Kasparov disse que esse era o nível de discurso que deviam enfrentar na campanha, em geral com argumentos “abaixo da cintura”. Alguém do público gritou: “O poder político revelou sua face!” Kasparov respondeu: “Se essa é a face, imagine o resto...”

Parafraseando Manuel Bandeira: “Eles passarão, e eu passaralho”!

A parte semântica inteira da fala, com o áudio sublinhado, é esta:

Стало очевидно: прежде чем договариваться о совместных действиях, необходимо договориться об общих правилах политической борьбы. В основе этих правил – уважительное отношение к политическому оппоненту; признание равноправия политиков, придерживающихся различных взглядов; стремление к открытому диалогу; приверженность ненасильственным, демократическим методам борьбы.

Tradução: Ficou evidente que, antes de combinarmos ações conjuntas, é preciso combinar as regras gerais da luta política. O básico dessas regras são a relação respeitosa para com o oponente político, a admissão de direitos iguais aos políticos que tenham visões divergentes, o esforço pelo diálogo aberto e a fidelidade aos métodos democráticos e não violentos de luta.

Ironicamente, o elemento voador apareceu logo depois que Kasparov falou em “relação respeitosa”, “admissão de direitos iguais” e “esforço pelo diálogo aberto”: de fato, se essa era a cara do governo Putin, poderíamos dizer sem receio que ele tinha “cara de pau”! Imaginem que resposta pra quem pedia diálogo, respeito, compreensão e direitos iguais... O vídeo sem legendas que eu usei está com a qualidade bem melhor do que a dos outros clones, e eu o cortei em comprimento e enquadramento. Também traduzi direto do russo e legendei, tendo postado a legendagem no canal Eslavo (YouTube):




29 de agosto de 2018

Michel Teló em esperanto e interlíngua


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/eutepego


Em meados de 2012, eu estava ainda começando meu canal Eslavo (YouTube) e sequer tinha uma internet decente em casa. Porém, tendo acabado de terminar minha graduação em História, me preparando pro mestrado e incrementando meus conhecimentos linguísticos, já tinha algumas ideias de vídeos zoeiros pra criar, quando os “virais” e canais como o SAM sequer eram cogitados. Pior: quando ninguém sonhava que youtuber podia ser profissão e, no Brasil, o Facebook ainda estava começando a bombar!

Pra chegar até onde cheguei com meu site e meu canal, eu precisava ainda de muito estudo de russo, muita leitura, muita tradução, muito dicionário e muito material melhor e mais acessível do que havia à época. Por isso, meu poliglotismo e comunicações internacionais ainda se limitavam aos projetos de línguas auxiliares esperanto e interlíngua, ou ao menos eram predominantemente neles, e um pouco também em inglês e francês. Mas como vocês viram em outras postagens, vinham já de anos minhas traduções da música brasileira pro esperanto. A novidade é que agora eu acrescentava um razoável conhecimento da interlíngua, projeto mais “naturalista” e próximo do grupo românico, lançado em 1951 e que eu estudava sem compromisso desde 2009.

Qual hit internacional estava bombando lá em 2012? A canção Ai, se eu te pego, do cantor sertanejo Michel Teló, que ficou grudada por anos na cabeça dos brasileiros e de muito mais gente pelo planeta! Claro que foram feitas paródias em muitas línguas, a maioria seguindo muito mais o som do que o significado da letra. Mas... num sábado daquele ano, eu estava tão “artisticamente” aceso que minha cabeça começou a fazer sozinha uma tradução em esperanto e interlíngua, que eram os idiomas que eu mais dominava na época. Mas não me contentei com isso: fiz minha primeira experiência, que só repetiria anos depois (e que você também já conhecem), de gravar minha voz por cima de uma melodia de videokê, mas cantando a letra em outra língua! Esse vídeo, portanto, foi inaugural pra mim.

Ai, se eu te pego teve a versão de Teló lançada em 2011, a qual rodou o mundo em 2012, mas a história da canção, que não cabe retraçar aqui (leiam a Wikipédia em português), é bem mais complexa. Ela está registrada com a autoria de Antonio Dyggs e Sharon Acioly, datada de 2008, mas tem coautoria de algumas garotas paraibanas que, em 2006, criaram numa brincadeira as palavras que deram origem ao refrão. Antes de Teló, algumas bandas de forró já a tinham gravado, e era bem conhecida, portanto, no Nordeste.

Muita gente do círculo dos idiomas auxiliares planejados achou por acaso esse vídeo e saudou a iniciativa, e até compartilhei em alguns grupos do Facebook do qual eu participava. Mas sobrou um grande problema: em geral, os “adeptos” do esperanto ou da interlíngua costumam rivalizar entre si, então os mais fanáticos não gostaram nada da mistura dos dois textos... Nem liguei, porque não acho que ambos se excluam mutuamente, mas hoje penso que talvez teria mais compartilhamentos se tivesse feito um vídeo pra cada língua, o que obviamente me daria muito mais trabalho. Porém, o grande lance é que deixei o vídeo vegetando no canal, nem dei mais tanta bola, e vez ou outra era achado, mas foi passado por outras produções minhas.

Só que agora, como tenho um longo plano de trazer pra este site tudo do canal Eslavo que ainda não tem uma “base HTML”, decidi contar essa história que vocês leram e dar a forma escrita final pros textos em esperanto e interlíngua. Assim, vocês podem compartilhar muito mais fácil o material e ainda cantar junto! Até porque até hoje o vídeo nunca teve uma descrição no YouTube, e pretendo que esta postagem sirva a tal papel. Portanto, seguem a tosca montagem com as legendas nos dois idiomas, o texto em português e as traduções em esperanto e interlíngua. Pra fins didáticos, vou trazer também as traduções literais das novas versões, pra vocês verem que não são totalmente literais, mas se aproximam muito do original, ou até o completam:



____________________

Nossa, nossa,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda.
Tomei coragem e comecei a falar:

Nossa, nossa,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.

____________________

Esperanto:

Ho Dio, ho Dio,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.
Delico, delico,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.

Semajnfin’, ĝoja festo,
Ni distriĝis per drinko,
Kis’ kaj danc’.
Kiam pasis knabin’
La plej bela,
Al ŝi mi diris,
En ĝusta horo de ŝanc’:

Ho Dio, ho Dio,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.
Delico, delico,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.

Tradução literal:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.

Fim de semana, festa alegre,
Nos distraíamos com bebida,
Beijo e dança.
Ao passar a menina
Mais linda,
Eu disse a ela,
Na hora certa de sorte:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.

____________________

Interlíngua:

O Deo, o Deo,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.
Delicia, delicia,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.

Sabbato in le festa
Nos allegre
Comenciava a dansar
E passava le plus
Belle pupa.
Incoragiate,
Io comenciava a parlar:

O Deo, o Deo,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.
Delicia, delicia,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.

Tradução literal:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.

Sábado na festa
Nós começamos
A dançar alegres
E passou a menina
Mais linda.
Encorajado,
Eu comecei a falar:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.




27 de agosto de 2018

Capitulação incondicional nazista, 1945


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/rendicao


O documento dado hoje é o Ato de Capitulação Militar da Alemanha, também conhecido como Instrumento da Rendição Alemã, assinado em Berlim pelo Alto Comando das Forças Armadas nazistas em 8 de maio de 1945 e transmitido em russo pela rádio soviética na voz de Iuri Levitan, o mais conhecido locutor do período de Iosif Stalin. Há um bom tempo eu já tinha postado o áudio legendado no meu canal Eslavo (YouTube), mas só agora me lembrei de postar no site.

Já em 1944, as potências aliadas na 2.ª Guerra Mundial preparavam o rito da rendição incondicional alemã, prevendo a iminente derrota de um Adolf Hitler que recuava cada vez mais. Com o suicídio do Führer, os líderes remanescentes que tomaram o Terceiro Reich nas mãos enfim se entregaram em maio de 1945. O primeiro documento de rendição foi assinado em 7 de maio, na cidade de Reims, e o segundo documento, lido neste vídeo, foi assinado no dia 8, em instalações soviéticas de Berlim. Em nome da Alemanha, puseram assinaturas o marechal-de-campo Wilhelm Keitel, o general-almirante Hans-Georg von Friedeburg e o coronel-general Hans-Jürgen Stumpff. Pelo lado aliado, estiveram o marechal Georgi Zhukov (URSS), o marechal da Royal Air Force Arthur Tedder (Reino Unido), o general Carl Spaatz (Estados Unidos) e o general Jean de Lattre de Tassigny (França).

Quem está falando o áudio em russo é o famoso locutor Iuri Borisovich Levitan (1914-1983), que por ter narrado a maioria dos grandes fatos históricos da Era Stalin, pode ser justamente conhecido como o “Cid Moreira soviético”, até pela semelhança na voz. Radialista da Rádio Soviética desde 1931, era membro do partido comunista desde 1941 e narrava a maioria dos documentários oficiais. Condecorado Artista Popular da URSS em 1980, possuía uma locução de expressividade e timbre raros, e até hoje está muito presente na cultura popular. Vivia com simplicidade num apartamento em Moscou, junto com a filha e a sogra, não se casando mais após sua esposa ter lhe deixado.

O áudio e o texto em russo transcrito podem ser encontrados no ótimo site de material histórico soviético SovMusic.ru (em russo e inglês). O conteúdo do ato de rendição está dado conforme foi publicado no jornal Izvestia em 9 de maio de 1945, p. 1, e pode-se ler ainda no link mencionado a matéria “Esta noite em Moscou”, de correspondentes do Izvestia nas ruas da capital na madrugada de 8 pra 9 de maio. Eu mesmo traduzi, montei o vídeo e legendei. Seguem a legendagem no meu canal, a tradução e, pelo alto valor didático, o original em russo:


____________________


Moscou Fala!

ATO DE CAPITULAÇÃO MILITAR
Assinatura do ato de rendição incondicional pelas forças armadas alemãs.

1. Nós, subscreventes, em nome do Alto Comando Alemão, aceitamos a rendição incondicional de todas as nossas forças armadas em terra, água e ar e de todas as forças encontradas atualmente sob comando alemão ao Comando Superior do Exército Vermelho e ao Alto Comando das Forças Aliadas Expedicionárias.

2. O Alto Comando Alemão expedirá imediatamente a ordem para que todos os comandantes alemães de forças terrestres, marítimas e aéreas e todas as forças encontradas sob comando alemão cessem as atividades militares às 23h01min, horário da Europa Central, de 8 de maio de 1945, permaneçam nos lugares onde então se encontrarem e se desarmem totalmente, entregando todas as suas armas e pertences bélicos aos comandantes ou oficiais aliados locais escolhidos como representantes do Alto Comando Aliado, não destruam nem causem quaisquer avarias a vapores, navios e aviões, a seus cascos, motores e equipamentos, nem a máquinas, munições, aparelhos e a todos os meios técnico-militares em geral de gestão da guerra.

3. O Alto Comando Alemão entregará imediatamente os comandantes correspondentes e garantirá o cumprimento de todas as ordens que serão emitidas pelo Comando Superior do Exército Vermelho e pelo Alto Comando das Forças Expedicionárias Aliadas.

4. Este ato não impedirá que ele seja substituído por outro documento geral sobre a capitulação, assinado pelas nações unidas ou em nome delas e aplicável à Alemanha e às forças armadas alemãs como um todo.

5. No caso do Alto Comando Alemão ou de quaisquer forças armadas que se encontrem sob seu comando não agirem de acordo com este ato de capitulação, o Comando Superior do Exército Vermelho e o Alto Comando das Forças Expedicionárias Aliadas tomarão as medidas punitivas ou outras atitudes que eles considerarem necessárias.

6. Este ato está redigido nas línguas russa, inglesa e alemã. Apenas os textos em russo e em inglês gozam de autenticidade.

Assinado a 8 de maio de 1945, na cidade de Berlim.

Em nome do Alto Comando Alemão:
KEITEL, FRIEDEBURG, STUMPFF.

Na presença de:

representando o Comando Superior do Exército Vermelho
o Marechal da União Soviética G. ZHUKOV;

representando o Alto Comandante das Forças Expedicionárias Aliadas
o Marechal da Royal Air Force TEDDER.

Também estiveram na assinatura na qualidade de testemunhas:

o comandante das Forças Aéreas Estratégicas dos EUA
general SPAATZ;

o Comandante em Chefe do Exército Francês
general DE LATTRE DE TASSIGNY.

Transmitimos o Ato de Capitulação Militar da Alemanha!

____________________


Говорит Москва!

АКТ О ВОЕННОЙ КАПИТУЛЯЦИИ
Подписание акта о безоговорочной капитуляции германских вооруженных сил.

1. Мы, нижеподписавшиеся, действуя от имени Германского Верховного Командования, соглашаемся на безоговорочную капитуляцию всех наших вооруженных сил на суше, на море и в воздухе, а также всех сил, находящихся в настоящее время под немецким командованием, – Верховному Главнокомандованию Красной Армии и одновременно Верховному Командованию Союзных экспедиционных сил.

2. Германское Верховное Командование немедленно издаст приказы всем немецким командующим сухопутными, морскими и воздушными силами и всем силам, находящимся под германским командованием, прекратить военные действия в 23-01 часа по центрально-европейскому времени 8-го мая 1945 года, остаться на своих местах, где они находятся в это время и полностью разоружиться, передав всё их оружие и военное имущество местным союзным командующим или офицерам, выделенным представителями союзного Верховного Командования, не разрушать и не причинять никаких повреждений пароходам, судам и самолётам, их двигателям, корпусам и оборудованию, а также машинам, вооружению, аппаратам и всем вообще военно-техническим средствам ведения войны.

3. Германское Верховное Командование немедленно выделит соответствующих командиров и обеспечит выполнение всех дальнейших приказов, изданных Верховным главнокомандованием Красной Армии и Верховным Командованием Союзных экспедиционных сил.

4. Этот акт не будет являться препятствием к замене его другим генеральным документом о капитуляции, заключенным объединенными нациями или от их имени, применимым к Германии и германским вооруженным силам в целом.

5. В случае, если немецкое Верховное Командование или какие-либо вооруженные силы, находящиеся под его командованием, не будут действовать в соответствии с этим актом о капитуляции, Верховное Командование Красной Армии, а также Верховное командование Союзных экспедиционных сил, предпримут такие карательные меры, или другие действия, которые они сочтут необходимыми.

6. Этот акт составлен на русском, английском и немецком языках. Только русский и английский тексты являются аутентичными.

Подписано 8 мая 1945 года в гор. Берлине.

От имени Германского Верховного Командования:
КЕЙТЕЛЬ, ФРИДЕБУРГ, ШТУМПФ.

в присутствии:

по уполномочию Верховного Главнокомандования Красной Армии
Маршала Советского Союза Г. ЖУКОВА.

по уполномочию Верховного командующего экспедиционными cилами союзников
Главного Маршала Авиации ТЕДДЕРА.

При подписании также присутствовали в качестве свидетелей:

командующий стратегическими воздушными силами США
генерал СПААТС.

Главнокомандующий Французской армией
генерал ДЕЛАТР де ТАССИНЬИ.

Мы передавали Акт о военной капитуляции Германии!


Acrescento ainda uma breve montagem com música e diversos trechos de filmes e discursos, criada e lançada nas redes sociais em maio de 2015 pelo russo Dmitri Babich, em homenagem aos 70 anos da vitória dos Aliados sobre o Eixo na 2.ª Guerra Mundial. A alusão também é à Parada da Vitória que Vladimir Putin organizaria na Praça Vermelha pra essa comemoração, a maior inclusive em comparação com os tempos da URSS. Eu mesmo traduzi e legendei.

O vídeo original tem o título “9 мая. Жизнь за победу” (9 maia. Zhizn za pobedu) e pode ser assistido também no canal de Dmitri Babich (Дмитрий Бабич), seu produtor. A música de fundo se chama Dream Chasers, e é executada pela banda orquestral Future World Music. No fuso horário de Moscou, já era 9 de maio no momento da capitulação.

O discurso de Stalin, do qual se pode ver um pequeno trecho depois do início do vídeo, foi pronunciado na Praça Vermelha no aniversário da Revolução Bolchevique, em 7 de novembro de 1941. É o trecho em que ele diz: “Великая освободительная миссия выпала на вашу долю. Будьте же достойными этой миссии!” A tradução e o vídeo legendado podem ser vistos na íntegra nesta página.

O anúncio da invasão nazista à União Soviética tinha sido feito pelo rádio em 22 de junho de 1941 por Iuri Levitan, que também narrou muitos outros materiais importantes, como o famoso filme A batalha de Stalingrado, produzido em 1942-43, que pretendo lançar legendado no canal Eslavo. O anúncio pode ser escutado nesta página, e o texto em russo, lido na descrição do vídeo.

O discurso do presidente russo Vladimir Putin, do qual também se usa um breve trecho, foi pronunciado numa festa solene em comemoração ao Dia da Defesa da Pátria, em 20 de fevereiro de 2015. Ele diz o seguinte: “... и в нашей памяти, и в нашем сердце всегда будут места для тех, кто совершил уникальный подвиг во имя нашей Родины, защищая её ценою своей жизни, своего здоровья, беззаветно служа Отечеству.”




25 de agosto de 2018

“Беларусачка” (A mocinha bielo-russa)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/mocinha


Esta música, talvez gravada por volta de 2011 (quando foi postada no canal original), tem o nome “Дзяўчынка-беларусачка” (Dziauchynka-belarusachka), Uma mocinha bielo-russa (ou A mocinha...). Está na língua bielo-russa, e quem canta é Angelina Pipper, garota de Belarus então com 10 anos de idade, que ficou famosa na internet ao gravar canções típicas e históricas da Rússia e da antiga URSS. Assista ao clipe sem legendas num dos canais da cantora, que tem muitas outras músicas de quando ela era criancinha.

Eu copiei a letra original do site Lyricstranslate.com, onde há também traduções em russo e inglês, que facilitaram minha tarefa. A língua bielo-russa é do ramo eslavo oriental, como o russo e o ucraniano, então mesmo eu não sendo fluente em bielo-russo, essa genética facilita a tarefa. Isso é verdadeiro, sobretudo, quando a estrutura do idioma, em especial da gramática, é a mesma, devendo-se apenas procurar as palavras no dicionário. Pra isso, além do Google Tradutor e do Wiktionary, me vali principalmente do dicionário bidirecional russo e bielo-russo Skarnik.by. Em poucos pontos, o texto não bate com o áudio, então este foi minha referência pra fixar o escrito.

Infelizmente, não achei nenhuma informação adicional sobre a canção, nem os compositores, nem a data de surgimento. Eu supus, portanto, que fosse popular e anônima, inclusive por uma indicação que vi num site obscuro de arquivos MP3. Nos próprios canais da Angelina, quase não há pistas, o que dificulta o trabalho de se citarem as origens. Eu mesmo traduzi e legendei o vídeo, e embora a tradução seja bem fiel, não está estritamente literal. Uma das coisas difíceis é traduzir os inúmeros diminutivos das línguas eslavas, que são usados com muito mais frequência do que em português, mas não deixam as palavras tão pesadas. O tema é bem “feudal-romântico”, e acho que isso deu alegria aos críticos do comunismo no meu YouTube.

Angelina Pipper, cuja língua principal de trabalho é o russo, nasceu em 14 de maio de 2000, mora atualmente na cidade de Brest e já ganhou vários prêmios, tendo sido inclusive finalista do Festival de Sanremo Junior. Hoje com 18 anos, permanece ativa e sempre se renovando, tendo começado no ano passado seu trabalho com o nome “Jolya Pi”. Como redes sociais e canais, ela tem seu VK oficial, seu grupo no VK, seus Instagrams como Angelina e como Jolya Pi, seu site oficial com fotos, vídeos, áudios, biografia e notícias, seu canal antigo no YouTube e seu canal novo. Mas não criem esperanças: ela tem namorado...

O russo é a língua mais falada em Belarus, sobretudo nas cidades e como idioma profissional, enquanto o bielo-russo e seus vários dialetos se limitam ao campo e aos mais velhos, mas com novos movimentos de ressurgimento. Eu mesmo legendei o vídeo original, e abaixo se encontram a legendagem no meu canal Eslavo (YouTube), a letra em bielo-russo e a tradução em português:


____________________


1. Ручаёнак, ручаёнак, ручаіначка,
Я дзяўчынка-беларуска, белалічанька.
Светлы броўкі быццам бы шнурочкі,
Ну а вочкі, нібы ў жыце васілёчкі.
Светлы броўкі быццам бы шнурочкі,
Ну а вочкі, нібы ў жыце васілёчкі.

Прыпеў:
Вось так я, Вось такая я,
Дзяўчынка-беларусачка.
Вось так я, Вось такая я,
Дзяўчынка-беларусачка.

2. Ручаёнак, ручаёнак, ручаіначка,
Я дзяўчынка-беларуска, белалічанька.
Дома маме я заўсёды памагаю,
Калі сумна мне, то песенькі спяваю.
Дома маме я заўсёды памагаю,
Калі сумна мне, то песенькі спяваю.

(Прыпеў)

3. Я жыву ў нашай роднай Беларусі
І сваёй Радзімай любай ганаруся.
Размаўляць на роднай мове мне не сорам,
Хай узлятае мая песня на прасторі.
Размаўляць на роднай мове мне не сорам,
Хай узлятае мая песня на прасторі.

(Прыпеў)

____________________


1. Riachinho, riachinho, ribeirinho,
Sou uma mocinha bielo-russa, de rostinho branco,
Sombrancelhas clarinhas como um fio,
Olhos azuis como um campo de centáureas.
Sombrancelhas clarinhas como um fio,
Olhos azuis como um campo de centáureas.

Refrão:
Eis como sou, assim que sou,
Uma mocinha bielo-russa.
Eis como sou, assim que sou,
Uma mocinha bielo-russa.

2. Riachinho, riachinho, ribeirinho,
Sou uma mocinha bielo-russa, de rostinho branco.
Sempre ajudo mamãe em casa,
Quando estou tristinha, entoo uma canção.
Sempre ajudo mamãe em casa,
Quando estou tristinha, entoo uma canção.

(Refrão)

3. Vivo em nossa Belarus natal
E me orgulho da querida Pátria.
Não me envergonho da língua materna,
Que minha canção voe pela imensidão.
Não me envergonho da língua materna,
Que minha canção voe pela imensidão.

(Refrão)




23 de agosto de 2018

“Світи, місяченько” (Brilhe, luazinha)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/luazinha


Esta foi a segunda vez que Tiago Rocha Gonçalves colaborou com meu canal Eslavo (YouTube) traduzindo uma linda canção folclórica ucraniana. Agora se chama “Світи, місяченько” (Svity, misiachenko), Brilhe, luazinha, e não tem autor conhecido. Em algumas versões, a protagonista é feminina, mas nesta é um rapaz que chora pelo amor de sua amada. A Lua, também conhecida nas línguas eslavas pela palavra equivalente a “mês”, tem um papel importante na mitologia e no folclore, como símbolo máximo da noite.

Quem canta no áudio é o conjunto folclórico ucraniano Pikkardiiska Tertsia, em faixa gravada no álbum Antologia. Tomo 2. Folk, de 2006. Nesse disco de 16 canções, predominam cantos populares cantados a cappella, ou seja, apenas o coro sem acompanhamento instrumental, como é o caso deste vídeo. O grupo Pikkardiiska Tertsia foi formado em 1992 na cidade de Lviv, famosa por sua resistência nacionalista, e desde então tem ganhado muitos prêmios na Ucrânia. Seu nome vem da expressão “terceira/cadência picarda” (em francês, tierce/cadence picarde), sequência melódica muito utilizada no tipo de música que eles interpretam. Contando hoje com seis membros, já fez shows em muitos países, sobretudo nos EUA, e sua música Plyve kacha foi conhecida no estrangeiro em 2014 durante o funeral de manifestantes do Euromaidan. No repertório do grupo, que tem site oficial, existem canções modernas, folclóricas, religiosas e até do século 15.

O Tiago legendou a montagem que já estava pronta neste vídeo. Ele mesmo traduziu direto do ucraniano e sugeriu que eu podia trocar as imagens, mas resolvi deixar assim mesmo. Também não fiz nenhuma correção na tradução, mas quem quiser dar uma sugestão ou opinião, pode escrever direto pro tradutor. Seguem abaixo a legendagem do Tiago, a letra em ucraniano e a tradução em português:


____________________


Світи, місяченько, світи на діброву,
Нехай я перейду, нехай я перейду
До дівчини на розмову.
Нехай я перейду, нехай я перейду
До дівчини на розмову.

Світи, місяченько, світи через річку,
Нехай я перейду, нехай я перейду
До милої на всю нічку.
Нехай я перейду, нехай я перейду
До милої на всю нічку.

Нехай я перейду, чобіт не замочу,
Най ніхто не знає, най ніхто не чує
До якої я ходжу.
Най ніхто не знає, най ніхто не чує
До якої я ходжу.

Світив місяченько та й зайшов за хмари,
А я бідний плачу, а я бідний тужу,
Що не маю собі пари.
А я бідний плачу, а я бідний тужу,
Що не маю собі пари.

Світи, місяченько, світи на діброву,
Нехай я перейду, нехай я перейду
До дівчини на розмову.
Нехай я перейду, нехай я перейду
До дівчини на розмову.

____________________


Brilhe, luazinha, brilhe no carvalho
E deixe que eu vá, e deixe que eu vá
Até a menina pra conversar.
E deixe que eu vá, e deixe que eu vá
Até a menina pra conversar.

Brilhe, luazinha, brilhe pelo rio
E deixe que eu fique, e deixe que eu fique
Com meu amor a noite inteira.
E deixe que eu fique, e deixe que eu fique
Com meu amor a noite inteira.

Deixe que eu vá, as botas não molho,
Ninguém sabe e ninguém escuta
Até onde eu vou.
Ninguém sabe e ninguém escuta
Até onde eu vou.

Brilhou luazinha, e se escondeu na nuvem,
E eu, pobre, choro, eu, pobre, remoo
Que não tenho companheira.
E eu, pobre, choro, eu, pobre, remoo
Que não tenho companheira.

Brilhe, luazinha, brilhe no carvalho
E deixe que eu vá, e deixe que eu vá
Até a menina pra conversar.
E deixe que eu vá, e deixe que eu vá
Até a menina pra conversar.




21 de agosto de 2018

Novo Dia (Nossa Pátria é a Revolução)


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Como pedido de um fã do meu canal Eslavo (YouTube), apresento a canção “Новый день” (Novy den), Um novo dia, também chamada “Наша Родина – Революция” (Nasha Rodina – Revoliutsia), Nossa Pátria é a Revolução, de 1977, com letra de Nikolai Dobronravov (n. 1928) e melodia de Aleksandra Pakhmutova (n. 1929). Como eu disse outras vezes, esse casal foi famoso por compor músicas ufanistas soviéticas, num tempo em que a URSS já começava a viver de glórias passadas e recorria à sacralização de seus mitos, com consequente ar de catecismo dado à cultura política. Os dois vídeos têm o mesmo áudio, mas no segundo vocês podem ver os rostos cantando e uma tela em cores. Eu ia também legendar esta montagem (vejam que pôsteres lindos), ou fazer a minha própria com o áudio, gravado só pelo coral infantil, mas não quis saturar o público.

Esta canção podia muito bem ser usada em aulas de história política e cultural soviética. Nos anos 70, tornaram-se muito comuns músicas em estilo bélico, incorporando inclusive elementos do rock ocidental, com chamado à juventude pra apoiar o país em todas as ocasiões e manter o legado ideológico da revolução. Aquela década foi de crescente descrédito internacional da URSS e incipiente declínio econômico e social, e as alusões a Lenin, cada vez mais próximas da linguagem religiosa cristã, procuravam suprir a lacuna deixada pelo líder Leonid Brezhnev e sua burocracia cinzenta. E isso, envolvendo um conteúdo ateísta, como vemos em “Somos mestres e deuses no trabalho” e “Cremos em milagres humanos”: “humanos” que, literalmente, é o adjetivo pra “feitos/produzidos com as mãos”. Na evidente vitória americana da corrida espacial, a nostalgia ainda mastigava Gagarin e o sputnik, e a hipertrofia estatal contradizia a crença de Lenin que a Rússia seria o mero elo de uma cadeia: “Nossa Pátria é a Revolução”.

Quem canta nos vídeos é o famoso azerbaijano Muslim Magomaiev, junto com o Grande Coral Infantil soviético. Magomaiev (1942-2008) nasceu em Baku, capital da RSS do Azerbaijão, numa família com várias gerações de músicos e artistas, tendo o pai morrido na 2.ª Guerra Mundial. Fez estudos em conservatório musical e nos anos 60 começou a embalar sua carreira, tendo inclusive se apresentado no exterior, não sem chios da emigração anticomunista. Foi condecorado Artista Popular da URSS (1973), Artista Popular da RSS do Azerbaijão (1971) e com a Ordem da Honra (2002) pelo próprio Putin. Em 1998 encerrou voluntariamente a carreira, tendo se dedicado à pintura e a correspondências até morrer do coração.

Esta montagem foi feita com cenas de documentário (talvez de 1969) por um canal russo, enquanto a gravação ao vivo deve datar dos anos 80 ou do fim dos anos 70. Baixando os vídeos sem legendas, eu mesmo traduzi, legendei e cortei os quadros, e embora não em todos os pontos, minha tradução foi basicamente literal. Nas legendas tive que reduzir um pouco o texto pra cumprir os padrões do ofício ou tornar a leitura melhor, mas sem mudar o sentido. Seguem abaixo as duas legendagens, o texto em russo e a tradução em português:




____________________


1. Новый день берёт своё начало
На бескрайних улицах Москвы.
Никогда у неба не бывало
Глаз такой влюблённой синевы.

Припев:
Светом солнца озарены,
Светом правды своей сильны.
Наша Родина – Революция,
Ей единственной мы верны.
Наша Родина – Революция,
Ей единственной мы верны.

2. Мы в труде и мастера, и боги.
Рукотворным верим чудесам.
Бесконечно дороги дороги,
Если их прокладываешь сам.

(Припев)

3. Мы улыбкой честной и открытой
Освещаем праздничный парад.
И от счастья светятся орбиты,
Где друзья Гагарина летят.

(Припев 2x)

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1. Está começando um novo dia
Nas infinitas ruas de Moscou.
Nunca esteve no céu
Um olho de azul tão amoroso.

Refrão:
A luz do Sol nos ilumina,
A luz de nossa verdade nos reforça.
Nossa Pátria é a Revolução,
Só a ela somos fiéis.
Nossa Pátria é a Revolução,
Só a ela somos fiéis.

2. Somos mestres e deuses no trabalho.
Cremos em milagres humanos.
Os caminhos são infinitamente queridos
Se você mesmo os constrói.

(Refrão)

3. Com um sorriso franco e aberto
Iluminamos o desfile festivo.
E de alegria brilham as órbitas
Onde voam os amigos de Gagarin.

(Refrão 2x)




19 de agosto de 2018

“Варшавянка” (A Varsoviana de 1905)


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Esta é uma canção que pediam pra legendar desde que lancei o canal Eslavo (YouTube), em 2010. Trata-se da canção socialista polonesa A Varsoviana, traduzida a partir de sua versão russa. Em polonês, ela é conhecida como Warszawianka, e em russo, “Варшавянка”, ambas com a mesma pronúncia: “Varshavianka”. Às vezes se diz também A Varsoviana de 1905, pra não ser confundida com A Varsoviana de 1831, hino nacionalista polonês composto durante uma revolta contra o Império Russo em 1830-31.

A música de 1905 teve a letra escrita em 1879 por Wacław Święcicki (1848-1900), que então estava preso por militância socialista. Mesmo assim, dependendo de quem executa, a letra varia bastante. Ela foi publicada inicialmente em 1883 na revista ilegal polonesa Proletariat, quando Święcicki voltou de seu exílio na Sibéria. O título A Varsoviana fixou-se depois dos protestos do 1.º de Maio na capital polonesa em 1905, quando 30 trabalhadores morreram sob tiroteio, iniciando uma revolta local mais ampla contra o tsarismo.

A melodia foi composta por Józef Pławiński (1853 ou 1854-1880), que esteve na cadeia com Święcicki e se inspirou na Marcha dos Zuavos, símbolo de outra revolta polonesa de 1863-64. O autor desta melodia é desconhecido, mas há quem suponha ser ele o compositor Stanisław Moniuszko (1819-1872). Considera-se que o tradutor pro russo tenha sido Gleb Krzhizhanovski (1872-1959), que a teria feito na prisão em 1897 e publicado no início de 1900. Como na Polônia, a difusão se ampliou também em 1905, na dita Primeira Revolução Russa.

Sendo duas línguas eslavas de mútua influência, as versões em russo e polonês têm sentido muito parecido, apenas o refrão original sendo: “Naprzód Warszawo!/Na walkę krwawą,/Świętą a prawą!/Marsz, marsz, Warszawo!” (Avante, Varsóvia!/À luta cruenta,/Santa e justa!/Marche, marche, Varsóvia!). No século 20, foram feitas traduções em inúmeras línguas, sendo talvez a mais famosa A las barricadas, criada em 1936 por Valeriano Orobón Fernández e tornada popular entre anarquistas durante a guerra civil na Espanha. Em inglês, é conhecida a tradução Whirlwinds of Danger (Tempestades de perigo) de Douglas Robson, membro da IWW, nos anos 20. Uma letra bastante modificada foi feita por Randall Swingler e publicada em 1938, mas nunca se popularizou.

Conheçam este canal de onde eu tirei a montagem sem legendas, pois ele tem muito mais material histórico sobre o comunismo, embora seja partidário. Eu mesmo traduzi do russo (não do polonês), legendei e cortei o quadro em proporção moderna. O Prof. Daniel Aarão Reis também publicou em 2017 a própria tradução, na coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa (p. 181-182), que ele organizou e comentou, e em que contribuí com algumas traduções. Mas o resultado dele ficou levemente diferente do meu. Pelas informações que achei no site Sovmusic.ru, o áudio foi gravado em 1993 pelo coral do Conjunto de Canto e Dança “Estrela Vermelha”, fundado no seio do Exército em 1977 e ainda muito atuante. Ele tem um site oficial e, como percebemos, também conta com mulheres.

Seguem abaixo minha legendagem, o texto em russo, a tradução em português e a transcrição traduzida das inscrições que aparecem no vídeo. Vocês podem lê-las na escrita original em que aparecem (caso tenha sido diferente antes de 1918), na grafia atual e em português:


____________________


1. Вихри враждебные веют над нами,
Тёмные силы нас злобно гнетут.
В бой роковой мы вступили с врагами,
Нас ещё судьбы безвестные ждут.
Но мы подымем гордо и смело
Знамя борьбы за рабочее дело,
Знамя великой борьбы всех народов
За лучший мир, за святую свободу.

Припев (2x):
На бой кровавый,
Святой и правый
Марш, марш вперёд,
Рабочий народ.

2. Мрёт в наши дни с голодухи рабочий,
Станем ли, братья, мы дольше молчать?
Наших сподвижников юные очи
Может ли вид эшафота пугать?
В битве великой не сгинут бесследно
Павшие с честью во имя идей.
Их имена с нашей песней победной
Станут священны мильонам людей.

(Припев 2x)

3. Нам ненавистны тиранов короны,
Цепи народа-страдальца мы чтим.
Кровью народной залитые троны
Кровью мы наших врагов обагрим!
Смерть беспощадная всем супостатам!
Всем паразитам трудящихся масс!
Мщенье и смерть всем царям-плутократам!
Близок победы торжественный час.

(Припев 2x)

____________________


1. Ventanias inimigas sopram sobre nós,
Forças obscuras nos oprimem com maldade.
Entramos em luta fatal contra os inimigos,
Um destino ainda desconhecido nos espera.
Mas levantaremos com orgulho e coragem
A bandeira da luta pela causa operária,
Bandeira da grande luta de todos os povos
Por um mundo melhor e uma santa liberdade.

Refrão (2x):
À luta sangrenta,
Santa e justa
Marche, marche avante,
Povo operário.

2. Atualmente o operário morre de fome,
Irmãos, devemos continuar calados?
Pode a visão do cadafalso assustar
Os jovens olhos de nossos camaradas?
Não ficarão esquecidos os que tombaram
Lutando com grande honra pelos ideais.
Seus nomes, com nosso canto da vitória,
Se tornarão sagrados a milhões de pessoas.

(Refrão 2x)

3. Nós detestamos as coroas dos tiranos,
Respeitamos as cadeias do povo sofredor.
Os tronos cobertos com sangue do povo
Regaremos com o dos nossos inimigos!
Morte impiedosa a todos os canalhas!
A todos que parasitam os trabalhadores!
Vingança e morte aos reis plutocratas!
A hora solene da vitória está próxima!

(Refrão 2x)


Петиція рабочихъ царю = Петиция рабочих царю (Petição dos operários ao tsar)

“... наш девиз: ... свобода для всего народа.” Слава народным героям Потёмкинцам! (“... nossa divisa é: ... liberdade para todo o povo.” Glória aos heróis populares do encouraçado Potiomkin!)

Слава буревестникам пролетарской революции! (Glória aos albatrozes da revolução proletária!)

Забастовка на Ленскихъ пріискахъ = Забастовка на Ленских приисках (Greve dos garimpeiros do rio Lena)

Позоръ палачамъ! = Позор палачам! (Malditos os carrascos!)

Просили хлѣба, дали пулю = Просили хлеба, дали пулю (Pedimos pão, deram balas)

Рабочее движеніе. Стачки = Рабочее движение. Стачки (Movimento operário. Greves)

Правда – ежедневная рабочая газета. Открыта подписка. (Pravda/Verdade – jornal operário diário. Abriram-se as assinaturas.)

Долой самодержавіе! = Долой самодержавие! (Abaixo o absolutismo!)

Долой старую власть (Abaixo o antigo regime)

Февраль 1917 (Fevereiro de 1917)

Народъ и армія. Братскій союзъ и свобода. = Народ и армия. Братский союз и свобода. (O povo e o exército. União fraterna e liberdade.)

Долой десять министровъ капиталистовъ = Долой десять министров капиталистов (Abaixo os dez ministros dos capitalistas)

(Faixas diversas) Долой, долой, долой (Abaixo, abaixo, abaixo)

(Sendo tirada e rasgada) Да здравствуетъ Временное правительство = Да здравствует Временное правительство (Viva o Governo Provisório)

Власть совѣтамъ = Власть советам (O poder aos sovietes)

Пролетаріи всѣхъ странъ, соединяйтесь! = Пролетарии всех стран, соединяйтесь! (Proletários de todos os países, uni-vos! – Marx)

Нарвскій районъ = Нарвский район (Bairro Narva – São Petersburgo, que fica muito próxima da Estônia, em cuja fronteira com a Rússia está a cidade de Narva)

Октябрь 1917 (Outubro de 1917)

Вся власть совѣтамъ = Вся власть советам (Todo o poder aos sovietes)




17 de agosto de 2018

A natureza pede socorro (poema, 2005)


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Mais um poema dos muitos meus que vocês já leram, mas este tem uma história peculiar. Originalmente, devia ser a letra de uma canção a ser musicada por uma banda formada por antigos colegas da escola Viverde, em Bragança Paulista. A Viverde, onde estudei de 1994 a 2005 (ou seja, dos 6 aos 17 anos, praticamente toda a escolaridade básica) e que fica muito perto de casa, tem uma proposta ecológica muito interessante incorporada à sua estrutura pedagógica. O casal de mantenedores fundou-a em 1991 num antigo sítio da família, e por isso pudemos aproveitar tudo o que um ambiente assim oferece: ar puro, mata, animais, espaço livre, vizinhança a um ribeirão... O currículo é o mesmo de qualquer colégio tradicional, mas toda a conscientização ambiental e valores afins são incorporados no dia a dia das aulas.

Eu fiz parte da primeira turma da escola, progredindo de série em série até integrarmos a primeira formatura de “terceirão” (2005). Recuando algumas turmas antes da minha, os garotos eram muito talentosos, e vários tocavam instrumentos musicais. Alguns deles, hoje renomados profissionais formados ou até pós-graduados, tinham criado uma banda chamada “Opu_c”, ainda um sucesso na região. Em 2005, não me lembro se pra um evento da escola ou algo parecido, tínhamos combinado meio vagamente de eu fazer a letra de uma canção com tema ecológico, e eles musicarem e tocarem em público (da minha classe, só eu participava). De alguma forma, o poema chegou até eles, mas por razão que desconheço, ele foi negligenciado. Se não me engano, a iniciativa até foi realizada, mas sem minha participação.

O poema “A natureza pede socorro” constituiu, desde então, uma música sem melodia, por assim dizer. O papel com o texto estava guardado havia uns anos, até que em março de 2010, provavelmente por volta do começo das aulas na Unicamp, resolvi publicá-lo em meu antigo blog “Pensadores Libertos”. Eu cursava meu quinto ano da graduação, e as informações que tenho até agora em meu backup são ainda mais reveladoras: eu tinha acabado de voltar pra casa, de uma aula de russo, e elogiava os “velhos amigos e colegas” da Unicamp... Eu estaria então “inspirado para postar coisas antigas”, e então digitei a referida música pela primeira vez, na esperança que alguém se interessasse em compor uma melodia. Infelizmente, alguns meses depois apaguei meu blog, desinteressado em postar coisas novas e em continuar com a mesma proposta crítico-política.

Eu mesmo, exibindo a criação, pedi que relevassem ou porventura corrigissem o “tique parnasiano” típico das minhas poesias, mas hoje penso que o problema pode ser outro: a incerteza da adaptação da letra a qualquer melodia. Pensando que um músico pudesse acertar a situação, não segui métricas rigorosas, embora tentasse equilibrar as sílabas poéticas, mas como apenas no meu pensamento fiz uma “sugestão de melodia”, o texto segue como hipótese não testada. Agora, ao menos, vocês podem lê-lo como um dos muitos frutos de minha educação ecológica!

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Aquela árvore que você está vendo
Na sombra da qual você descansa
Está morrendo aos poucos nas mãos dos homens
Vítima de uma matança.

Ela lhe dá madeira para os seus móveis
E a celulose para fazer papel,
Além da cura para suas doenças,
Mas tratada tão cruel

Queimadas e cortes ilegais
Até nas reservas demarcadas.
Nos tiram o filtro do nosso ar
Em proporções tão desenfreadas.

Belezas já não se encontram mais,
Os bichos já não têm onde morar,
E por lixo são contaminadas.
Será que isso um dia vai parar?

Refrão:
Queremos natureza
Para nossos passeios e canções.
Queremos as paisagens
De presente às futuras gerações.
Queremos rios e matas
Para equilibrar nossos ecossistemas.
Nós não desistiremos
De acabar de uma vez com esses problemas.
Vida para sempre,
Dela somos parte,
Viver é uma ordem,
Preservar é arte!

É hora da conscientização
E fazer das tripas coração.
Usando nossa imaginação
Daremos a nossa proteção.

Quando o útlimo rio apodrecer
E a última mata perecer
Só então é que vamos perceber:
Dinheiro não podemos comer!

(Refrão)




15 de agosto de 2018

Um abraço à vida e à realidade (2009)


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NOTA: Mesmo sendo mais antigo, este texto parece, tanto na forma quanto no conteúdo, “intermediário” entre os dois últimos, publicado originalmente em 6 de julho de 2009 no meu extinto blog “Pensadores Libertos”. Sua tinta anticlerical, politizada e intelectualista antecedeu de certa forma o ainda ativo Materialismo.net, mas refletiu uma fase minha mais espontânea e bem menos sistemática do que as reflexões lançadas pelo Giuliano Casagrande. Em 2008, eu tinha feito matérias com a historiadora Margareth Rago, bastante atenta às temáticas libertárias, e pra agravar, no começo de 2009 estava no quarto ano da graduação e fiz uma matéria com o petista César Nunes. Eram apenas partes do caldeirão que estava me tirando do catolicismo e me levando à esquerda política. Começava então a ler também textos do filósofo libertário francês Michel Onfray, que me impressionaram e ajudaram a nutrir minha jovem rebeldia, que hoje não subscrevo totalmente, mas cujos pressupostos ainda acho válidos. Parece estranho alinhar uma leitura anarquista com atitudes mais bolcheviques, mas pra mim é outro capítulo da minha história intelectual digno de ser revelado.




Michel Onfray, com um viés libertário, privilegia a valorização do indivíduo em detrimento das “falsas coletividades” e põe o prazer, desde que não faça mal a si e aos outros, como principal meio de realização do ser humano. [Legenda da postagem original, mas com imagem de 2018]


Se alguém ferir seu escravo ou escrava a pauladas,
e o ferido lhe morrer nas mãos, aquele será punido.
Porém, se sobreviver um dia ou dois, não será punido,
pois aquele foi comprado a dinheiro.
(Êxodo 21, 20.)

Quais são esses direitos naturais? Viver e sobreviver, é o mínimo, supõe a satisfação das necessidades do corpo e do espírito à medida que, assim apaziguados, permitam a existência de um corpo que seja e dure livre de todo sofrimento, assim como a de uma alma, nas mesmas condições, desde que ela, por si própria, seja conservada dentro da dignidade. (Michel Onfray, A política do rebelde, p. 51.)


É provável que todas as pessoas, desde o operário braçal que mal tem tempo de refletir sobre sua vida, até o playboy ou socialite que vive da herança biliardária deixada pelo pai ou avô industrial, já pensaram sobre o propósito de sua existência. Parece uma coisa óbvia, pois o ser humano diferencia-se dos outros animais pela faculdade do raciocínio, da abstração e do planejamento. Porém, às vezes os acontecimentos passam tão depressa e preocupamo-nos tanto com os detalhes mais “importantes”, que costumamos esquecer-nos do que parece menor, mas na verdade tem uma importância fundamental na compreensão de nossa natureza. Qual é, pois, a finalidade da vida humana, e por que, embora tenhamos os mais belos sonhos, o mundo parece nunca querer enquadrar-se nem às utopias dos mais nobres pensadores da humanidade, nem aos humildes desejos dos que apenas dispõem de sua força de trabalho para vender?

À primeira vista, são notáveis as mazelas sociais e econômicas que afligem as sociedades contemporâneas, como a fome, o desemprego, a violência, a ausência de fraternidade entre as pessoas, as crises cíclicas do capitalismo, a desorientação das pessoas quanto ao que fazer de sua vida e quais referências seguir (e isso parece ser endêmico nos jovens à beira do vestibular...) etc. Todos os anos são dedicadas páginas e mais páginas impressas ou online para descrevê-las ou tentar dar-lhes uma solução definitiva. Embora seja comprovada a falácia de qualquer teodiceia, de qualquer conciliação entre a teórica primazia do Bem e a onipresença do Mal, todos concordam que as aflições e flagelos que comovem e castigam o planeta possuem causas puramente humanas. “Encardidos” à parte, parece ser verdadeiro aquele chavão de que o homem é o lobo do próprio homem.

A cultura brasileira possui outro clichê, talvez mais autoexplicativo, que afirma a predominância dos interesses particulares, pessoais (arrisco-me a dizer ainda, grupais), sobre os gerais, coletivos: é a famosa lei de Gérson e a “teoria do jeitinho”... Paralelamente, contradizendo a malícia do “jeito” e do egoísmo, nossas tradições são bastante moralistas, autoritárias e acríticas, qualidades típicas da herança ibérica e jesuítica trazida pelos portugueses há aproximadamente 500 anos. Essa sisudez pode ter a ver com o particularismo de grupos fechados, que citei acima, quando uns digladiam-se contra os outros e arrogam-se o domínio da “verdade”, supostamente válida para todos os cidadãos do Brasil, quiçá do globo. Tal é a materialização de um paradoxo que algumas pessoas expuseram sem saber: ao mesmo tempo em que somos expostos a moralismos, leis e regras ditados por cúpulas supostamente mais “vividas” e mais “sábias”, a busca da satisfação e prazer pessoal, geralmente sem grandes resultados, tornou-se para muitos a única razão de sua existência.

Mas será que uma vida regrada e controlada, visando à moderação que leve, por sua vez, à abundância constante, é incompatível com a colocação da satisfação e do desfrute (diria ainda, bem-estar) em primeiro lugar? Não concordo. Para mim, o segundo fato é condição primordial para o primeiro. Se não possuímos uma vida que nos satisfaça plenamente, o descontrole nas horas de “fome e sede”, e mesmo o excesso de autoimposições psicológicas, pode levar-nos até mesmo a adoecer. As amarras mentais, seja do vício pelo gozo, seja da tara pelas restrições, fazem-nos viver para o futuro, pensar apenas no que virá, e não concluir que a razão de nossa existência está no PRESENTE. “Só terei satisfação no amanhã, quando cumprir uma série de regras que me anestesiem (para os libidinosos) ou me aumentem (para os ascéticos) o sofrimento”, dizem essas pessoas. Elas esquecem-se de que o esforço para o sucesso é necessário, mas nem de mais, nem de menos. A vida é agora, e não amanhã.

O filósofo francês Michel Onfray, na primeira parte de seu magnífico livro A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão (minha edição é da Rocco, 2001), expõe magistralmente uma apologia do individualismo e do amor pela vida para que nos mantenhamos equilibrados, satisfeitos e, creio eu (embora ele não diga), aptos para fazermos as melhores coisas pelos outros. Os regimes totalitários, e mesmo o mundo capitalista de hoje, pregaram uma “igualdade” entre as pessoas que termina por formatá-las, privá-las de sua individualidade, de suas particularidades; igualdade, lembre-se, que só existe dentro da Pátria, da Família, da Religião, do Partido e outros grupelhos. A um tempo só, contudo, alguns são mais “iguais” do que os outros, surgindo as diferenciações hierárquicas.

Sua filosofia postula que todos os seres humanos fazem parte de uma só espécie (e, para mim, a palavra “espécie” ressalta nossa condição de meros animais, parte da natureza, sem qualquer traço divino ou humanístico que nos desse qualquer superioridade sobre os outros seres), mas que devemos manter a unidade indivisível que compõe essa “grande família”, que é a individualidade, base de todo o direito que se pretenda justo. Os únicos princípios aplicados a todos os lugares e épocas, assim, longe de toda ideologia, são os da manutenção da vida e do direito à sobrevivência, desrespeitados pelas inúmeras ditaduras do século XX. Assim, longe da pregação de um individualismo egoísta, Onfray valoriza a satisfação pessoal, o desfrute da existência (que, para ele, já é o mais puro prazer), longe do ideal ascético e de “renúncia do eu” pregado pela direita e outros setores mais conservantistas. Ou seja, é um hedonista, sem que esse termo tenha qualquer sentido negativo.

Retornemos, então, às questões postas no início do texto: por que o sofrimento no mundo? O que fazer diante dele? Como todo bom materialista (se bem que ainda não me considero um tão bom assim...), acredito que suas causas são puramente materiais, em outras palavras, relacionam-se basicamente a problemas da péssima distribuição material nas sociedades capitalistas e da exploração desenfreada do trabalho alheio, não diferindo em nada da “boa e velha” escravidão. Na atualidade, a ânsia pelo lucro faz com que o proletariado possua apenas o mínimo para viver, sem espaço para o estudo, a reflexão e o lazer. Outros, porém, caem na miséria por terem sido expulsos de seus empregos, sob o pretexto, dizem as empresas, de “otimizar a produção”. Junte falta de educação e lazer aos mais pobres com pessoas sem as mínimas condições de vida: o que temos? Explosões materializadas na violência e na indigência, da qual os exploradores acabam sendo vítimas, com os assaltos a suas mansões ou carros de luxo. Aí, sim, é que se começa a falar em “problemas sociais”!!!!!

Novamente entra a ênfase na individualidade: é este bem precioso que perdem os explorados políticos e econômicos, que se tornam números, seja na prisão, na fábrica ou mesmo no cemitério. Aliás, quase todos nós já somos um número, o RG, para o Estado! Todas as elites da sociedade interessam-se pelo ocultamento do conhecimento ao povo, pois seu esclarecimento abri-los-ia para a verdadeira raiz do problema e poderia causar uma insatisfação generalizada jamais vista antes. E os intelectuais, embora não devam tornar-se uma espécie de “vanguarda messiânica”, deveriam ter o papel de tornar esse conhecimento mais acessível e basear toda a sua produção nas necessidades das classes subalternas; deveriam ajudar na elaboração de soluções aos problemas científicos e sociais do mundo. Mas não! A televisão, as revistas, os jornais sensacionalistas, as religiões, o cinema e certos sites estão aí para eternizar a “política do pão e circo”: benefícios rápidos a custo baixo, vendidos como verdades imutáveis! Enquanto isso, a intelectualidade é paga pelas classes dominantes para fazer sua apologia e legitimar suas ideias diante do público leitor, que “compra” todos os “analgésicos” oferecidos para a escamoteação de suas chagas.

Por isso, manter e afirmar uma individualidade própria e dedicar-se ao conhecimento da história, da natureza e dos sistemas sociais é fundamental para fazermo-nos agentes daquela mesma história, para fortalecermo-nos como verdadeiros modificadores, ainda que com pequenas ações, do meio que nos rodeia, seja o bairro, a cidade, o estado ou o país; e, potencialmente, do mundo e do opressivo regime capitalista, a ser reformado ou, se necessário, derrubado. Chegou a hora de abraçarmos a vida e a realidade a fim de sabermos quais são as verdadeiras causas dos males da humanidade e que sua solução não exige mais do que o esclarecimento racional dos indivíduos, a vivência do presente e a consciência da materialidade do mundo; sem idealismos, “analgésicos” ou tapa-olhos.



13 de agosto de 2018

A sociedade da saturação (texto, 2012)


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NOTA: Comparar este texto com o da postagem anterior é um belo exercício. Com um intervalo de quase três anos, ele foi publicado pela primeira vez no blog Materialismo.net, ainda em atividade, em 18 de março de 2012, dois dias depois de eu tê-lo escrito. Agora, a única cópia está aqui, embora eu não tenha feito nenhuma alteração ou correção (exceto em formatações pontuais). A linguagem já está mais fluida, e a redação ganhou qualidade, apesar do certo “carregamento” que ela ainda guarda em relação a meu estilo atual. Eu tinha acabado de terminar a graduação e ganhado muito conhecimento, mas sem o presente aparato da atividade acadêmica, minhas reflexões eram bem especulativas e um tanto prolixas. Mesmo assim, me impressiono como o tema e os problemas continuam atuais, e como em seis anos a coisa piorou tanto! O engraçado é que o Brasil já se deliciava com os smartphones, mas eu seguia atado ao desktop, e contraditoriamente só iria me apegar ainda mais ao Facebook, abandonando-o apenas em 2015. Pouco se falava ainda da SPA, mas parece que minhas ideias já estavam bem avançadas, pra quem só anos depois leria a decisiva série Ansiedade de Augusto Cury.

Não é fácil aventurar-se a observar um fenômeno da vida real e tentar sistematizá-lo na linguagem científica, filosófica ou mesmo na prosa de divulgação. Hoje em dia, como se fala muito na área, não há mais filósofos ou pensadores, mas historiadores da filosofia e comentadores de filósofos. Mais difícil ainda é o escrevinhador confessar que há inúmeras obras atuais refletindo sobre a vida moderna, mas que não leu nenhuma ou só teve contato indireto com seus principais argumentos. Assim, a pessoa comum que tenta descrever criticamente o mundo ao redor por meio do raciocínio independente passa por especuladora vã, especialmente aos olhos da academia, e a blogosfera de qualidade se perde no meio do lixo virtual cometido por pseudointelectuais e revolucionários de gabinete.

Por falar em internet, ela é um dos cenários privilegiados de um fenômeno que se tornou uma praga da atualidade e que afeta a qualidade das relações humanas, da inteligência individual e do conteúdo transmitido nos sistemas de ensino básico. Trata-se de uma espécie de saturação mental de informações e dados muitas vezes inúteis e quase sempre sem qualquer valor intelectual. Não sou o primeiro a levantar a questão, tanto que o que faço agora é sintetizar essas leituras prévias, e o fenômeno não se restringe à esfera da aquisição de conhecimento, como veremos adiante. Mas é melhor começar por uma descrição geral do cenário social.

O avanço da tecnologia mudou nossa noção do tempo, e tarefas que demoravam para ser cumpridas agora se realizam rapidamente. As autopistas e os carros mais eficientes tornam certas viagens muito menos penosas, o telefone celular permite que ligações telefônicas e várias outras funções sejam realizadas em qualquer lugar e o computador facilita consideravelmente a produção de sons, textos e imagens. A internet, certamente a ferramenta mais revolucionária das últimas décadas, transformou totalmente a concepção de comunicação, pesquisa, entretenimento e até mesmo de amizade, tornando-se uma espécie de mundo paralelo não por acaso chamado de virtual.

Com as tarefas cotidianas podendo se realizar tão rapidamente, os gestores do trabalho não poderiam deixar de exigir mais produção num prazo menor, e, com tanta mobilidade e praticidade tecnológica, extravasando o velho local de serviço e invadindo o lar, como não escapou a alguns observadores. Resultou que, como me ensinou bem cedo minha antiga professora de História do Fundamental e do Médio, tais avanços não diminuíram a carga horária dos trabalhadores, mas a aumentaram, o que obviamente afetou o período de lazer, de refeições, de descanso, de amor e de reflexão sobre a vida. Com o que se tornou não um alívio, mas uma sobrecarga de trabalho, começaram a aparecer problemas como o estresse, a depressão, a ansiedade e outras afetações psicológicas ou de humor.

Mas o que tem a ver a ideia de saturação com isso? É necessário retornar mais adiante aos referidos problemas mentais, mas por enquanto vamos explicar o título do texto. Mesmo sem recorrer a definições de dicionários, fica claro que a saturação é um conceito contrário ao de saciedade. A referência ao processo digestivo ajuda a explicar melhor: quando comemos alimentos saudáveis e ricos em substâncias necessárias ao organismo, e quando o fazemos de maneira calma e frugal, chega um momento em que nos sentimos saciados e livres da vontade de comer por algumas horas, até que nosso corpo necessite de comida novamente. Contudo, com menos tempo para realizarmos o ritual da refeição que, embora muitos não saibam, é tão importante culturalmente para a coesão das pessoas e para o conhecimento mútuo, comemos em qualquer canto ou banqueta que nos surja por sorte, comemos alimentos rapidamente preparados, artificiais, que enchem o estômago, mas não evitam o aparecimento da fome pouco tempo depois, e comemos com pressa, não atentando para a mastigação e a degustação. Em resumo, nós nos tornamos saturados, ou seja, empanturrados sem qualquer benefício para o corpo, enquanto a saciedade é apenas ilusão, e mesmo uma irrealidade, pois é muito diferente a sensação de já termos comido o suficiente daquela de estarmos com a comida subindo pela garganta.

A novidade que quero trazer aqui é a passagem desse conceito de saturação para a atividade intelectual. Como já sabiam nossos antepassados, livros bem lidos, lidos com calma, atenção e dedicação exclusiva nos trazem a satisfação de termos adquirido um conhecimento sólido, termos ativado criticamente nossa inteligência e termos passado momentos agradáveis de distração e concentração, o que vale para livros de entretenimento, de autoajuda ou de conteúdo mais denso. Atualmente, não se leem mais livros, mas fica-se navegando na internet acessando os mais diversos conteúdos. São de boa qualidade? Depende: há coisas muito boas, mas a maioria é mera pipoca intelectual, daquelas que empanturram, mas não ensinam nada. Em outras palavras, temos acesso a uma quantidade enorme de informações, mas não as peneiramos nem selecionamos e apenas saturamos nossa mente com nomes e fatos os mais desconexos e descontextualizados possíveis.

O fenômeno dos telejornais comuns já prenunciava a saturação de informações, quando éramos bombardeados por notícias, fofocas e dados aleatórios sem qualquer utilidade para nosso cotidiano e vendidos como suposto conteúdo essencial para cosmopolitas e cidadãos do mundo. A internet banda larga e as tecnologias informáticas, atualizadas a cada dia, potencializaram essa enxurrada descontrolada, privilegiando, além de tudo, a brevidade da mensagem e a produção em massa de várias delas. O Twitter é o ápice desse processo, quando devemos nos restringir a escrever futilidades em 140 caracteres, o que nos obriga a escrever sem parar e ainda nos viciarmos a ler cada coisa que escrevem os perfis que seguimos. O Facebook não fica atrás, e os históricos de atualizações de nossos amigos são um convite para distrairmos nossa atenção e perdermos um bom tempo atados a seus compartilhamentos de vídeos e a suas postagens de fotos. Mesmo vários serviços de e-mail tentam seus usuários com tarjas de notícias alternantes por cima da caixa de mensagens, de títulos vagos, mas com palavras chamativas e, por isso mesmo, irresistíveis.

As pessoas comuns, muitas vezes sem qualquer preparo diante dessa democratização súbita da produção e da aquisição de informações, terminam por se tornar protagonistas de duas degradações, uma subjetiva e outra objetiva. A subjetiva, relativa aos já citados problemas psicológicos, trata da necessidade que criamos de aparecer na rede mundial, de dar qualquer opinião que seja e de estar informados sobre piadas, memes, jargões, vídeos e assuntos que estão na moda virtual. Tanto esforço mental somente leva a fadigas, ansiedade, insônia e a chamada atualmente SPA, ou síndrome do pensamento acelerado: passamos tanto tempo conectados a tantas coisas, com tanta ânsia de produzir e assimilar, que nossa mente não desliga mais, não conseguimos mais relaxar nem nos relacionar socialmente de forma satisfatória. O vício em jogos eletrônicos é outra faceta mais antiga desse problema.

A degradação objetiva causada por esse vale-tudo comunicativo é relacionada à primeira, mas tem mais a ver com a produção em massa de informações e opiniões. Qualquer pessoa sem preparo intelectual ou psicológico suficiente se sente apta a aparecer para o máximo possível de internautas, e proliferam as mensagens com erros gramaticais, ideias falaciosas, preconceitos e os famosos xingamentos e outras brigas entre usuários, por causa do fácil descontrole de muitos ao serem contrariados, o que também afeta no subjetivo com transtornos de humor e até mesmo depressão.

Certamente o uso racional das ferramentas mais avançadas e de rápida atualização rápida pode ajudar, com atitudes como o controle do tempo que elas são usadas, a execução de pausas entre certos períodos de uso, a fuga de contendas ou discussões que podem se tornar muito acaloradas ou baixas e a difusão de um conteúdo cultural e informacional mais sólido, qualitativo e ligado à realidade dos leitores. Porém, sabemos que ideologia e tecnologia não são realidades totalmente independentes, mas também se ligam à situação material, real, concreta do nível intelectual e de conhecimento de um grupo humano. Assim, a disposição para ler apenas mensagens de até cinco linhas e a frequência das falhas vocabulares, ortográficas e gramaticais na escrita são um reflexo da incapacidade de nossas famílias, de nossas escolas e de nossa política em produzir inteligências disciplinadas, críticas, independentes e cultas, enquanto o gosto pelo efêmero e pelo impactante advém de uma lógica de mercado consumista e fútil que enxerga em cada cidadão apenas números, consumidores e massa de manobra para a divulgação de marcas, produtos e modas.

Uma reviravolta cultural geral, antes de tudo, é mais do que necessária, e a persistência e a força de vontade talvez possam transformar os meios virtuais em transformadores positivos da realidade, como se provou em várias mobilizações recentes ao redor do mundo. Basta tomarmos os controles de assalto e virarmos as rédeas para o lado do progresso, da harmonia e da fraternidade.


Bragança Paulista, 16 de março de 2012



11 de agosto de 2018

Escrita à mão e sensações particulares


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NOTA: Este é mais um texto que publiquei no antigo blog “Pensadores Libertos”, em 14 de novembro de 2009, tendo-o criado sete dias antes. Constitui mais uma baliza transparente de minha vida intelectual, e achei útil trazê-la de volta, sem nenhuma correção ou alteração, pra que pensemos um pouco a respeito de nossa vida cheia de tablets e smartphones. O mais grave é que estamos os jogando às crianças pequenas sem saber direito ainda quais consequências isso pode ter em seu desenvolvimento cerebral e emocional. Mais interessantes do que as próprias reflexões são o registro de meu cotidiano passado, a linguagem empolada que eu usava e o “saudosismo” ante recursos eletrônicos ainda não tão atraentes ou evoluídos.

Não, chega por um momento de criar com as mãos sobre um teclado e os olhos voltados para um cansativo monitor. Não é improvável que estas reflexões cheguem alguma hora a meu blogue Pensadores Libertos, mas o processo de criação diretamente no computador pessoal tem-me deixado um tanto enfastiado. Os pulsos começam a doer, a vista seca pela falta de piscadas e começa a arder, gasta-se energia elétrica, lida-se com os frequentes piripaques dos programas de texto, distrai-se facilmente, com a internet ligada, a qualquer outro site que se venha à cabeça... Isso sem contar a questão das pausas: por vezes, devido à chamada a uma refeição, a uma saída ou à necessidade de assistir a um programa de TV, sou obrigado ou a desligar o computador, ou a desligar apenas o monitor e deixar a máquina funcionando, praticamente sem qualquer atividade. Sim, eu sei que PCs ligados quase não gastam energia... mas gastam alguma coisa, pelo menos. Tenho uma cisma inexplicável contra deixar aparelhos ligados sem uso, também, não sei. O mais importante é que escrevendo à mão sinto-me com mais liberdade para refletir, parar a hora que desejar, sair para tomar um ar no jardim simplesmente levantando minha bunda da escrivaninha e atravessando a porta que separa meu quarto da varanda...

Outrossim, escrever à mão parece ter um encanto a mais. Também não é fácil explicar, e isso poderia até soar estranho para quem passou a maior parte de sua formação intelectual na frente de um monitor e com as mãos sobre o teclado e o mouse digitando os trabalhos e, quando necessário, utilizando-se do ratinho cibernético para eventuais correções. Afinal, que encanto é esse? Ele parece ter brotado em minhas ideias desde que comecei a fazer um estágio no CLE (Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência) da Unicamp, mais precisamente no setor de arquivos históricos, o lugar mais apropriado quando esse estágio é matéria obrigatória do curso de Licenciatura em História. Foi quando comecei a catalogar as correspondências ativa e passiva do Dr. Walter Hugo de Andrade Cunha, pioneiro da etologia e da psicologia animal no Brasil. Ele trocou várias cartas com especialistas do Brasil e de várias partes do mundo, e embora várias delas fossem datilografadas, inúmeras eram manuscritas, o que às vezes me deixava desanimado em se tratando de epístolas do Dr. Cunha a seus homólogos, pois o sujeito tem uma caligrafia do cão... (Não que eu seja a reencarnação de um calígrafo imperial chinês, de um escriba egípcio ou de qualquer outra pessoa que tenha exercido tal arte na era cristã, mas minha subjetividade não é muito alterófila para com letras rabiscadas, mesmo sabendo que outras pessoas tiveram e terão a mesma sensação ao ler manuscritos meus.)

Enfim, o que me tem atraído para a escrita e a correspondência manuais, bem na era da internet banda larga e apesar de eu não ter o mínimo dom para a paleografia? (No semestre que vem haverá no IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp – um tópico tratando de paleografia de documentos de nossa era colonial, do qual passarei longe, por ser um aficionado pelo século XX e mesmo com a crescente demanda pela matéria no instituto, incluindo a de alguns colegas meus de turma.) Bem, acho tudo uma questão de personalidade e de revelação de suas características pessoais, pois a letra de uma pessoa é algo só dela, particular, insubstituível, e muitas pessoas dizem até que a caligrafia, assim como a data de nascimento, o nome, o desenho das palmas das mãos e a posição dos astros no natalício da(o) escrevente, pode revelar muita coisa sobre sua essência, pensamentos, aspirações e outras características particulares de sua vida, suas atitudes e seu físico. (Pasmem, todavia, que identifiquei, por meio de algumas cartas datilografadas do Dr. Cunha das décadas de 1960 e 1970, uma particularidade: o O minúsculo possuía a lateral esquerda apagada, de modo que se assemelhava a um C minúsculo invertido...) Não sei, escrever à mão faz com que nos sintamos mais próximos do texto, mais colaboradores em sua produção, mais íntimos, pode-se rabiscá-lo, desenhar nas margens, amassá-lo ou até chorar sobre ele! (Um escritor, não me recordo exatamente se foi José Saramago, falou justamente que não podemos derramar prantos sobre o monitor de um computador...)

Pois então, podemos fazer tudo isso escrevendo em nosso amigo ordenador? Obviamente, como traços pessoais, podem-se contar nele o uso de maiúsculas e minúsculas, a tabulação, o espaçamento (seja entre palavras ou entre um sinal de pontuação e a palavra seguinte), a própria ortografia, os erros ou a polidez gramaticais e outras formas de construir as frases ou escolher as palavras que costumam ser diretamente relacionados a fulano, beltrano ou sicrano. Entretanto, não deixo de pensar que o texto digitado torna-se bastante despersonalizado, já que tanto erros como acertos na escrita costumam ser mais ou menos padronizados de acordo com o nível de instrução e a idade da pessoa, e porque textos digitados possuem sempre a mesma fonte, pelo menos se se escolhe a mesma (por exemplo, o Times New Roman padrão dos trabalhos universitários); é claro que em certas modalidades de texto a escolha da fonte é livre, mas fontes são sempre padronizadas, caligrafias não. Além do mais, estas não deixam de expressar o estado de espírito daquela(e) que escreve, pois temos uma letra mais corrida no caso da pressa, uma letra mais arredondada em momentos mais tranquilos; traços finos feitos por alguém que se encontra calmo, traços grossos indicando fúria ou o esforço de fazer a caneta (pelo menos no meu caso) escrever quando ela falha, como acabou de acontecer comigo alguns minutos atrás (troquei uma caneta promocional gorda e emperiquitada por uma boa, velha, esbelta e singela Bic).

Escrever à mão ainda é um recurso acessível para a maioria das pessoas em qualquer lugar em que se encontrem. Não tenho laptop, por isso só posso escrever na praia, no jardim ou num café a lápis ou a caneta, sobre o sempre disponível caderno, aquele fiel companheiro que me seguiu do primeiro rabisco até o bê-a-bá, como canta Toquinho. Acredito que grandes intelectuais revolucionários, descontados seus ranços despóticos, como Lenin e Mao Zedong, não dispunham, nos momentos mais difíceis, de máquinas de escrever, muito menos de computadores, e mesmo assim nos legaram importantes obras teóricas, como Que fazer? e Sobre a contradição, só para citar as mais exaustivamente conhecidas, além de alguns poemas, como no caso do líder chinês. É assim que me parece que a escrita manual toma um tom revolucionário, de crítica, de contestação, de nado contra a titânica maré da digitação informática, sujeita às mutilações da necessidade de composição rápida (o famoso “internetês”), a qual assumo praticar no MSN. Mas fazer o quê, é como eu já disse, este texto vai, uma hora ou outra, parar em meu blogue, e pode ser que perca seu encanto. Foram sete páginas dum caderno em formato 14,4 x 20,2 cm ocupadas frente e verso, o que dá ao texto humilde majestade e magnitude, ainda mais para quem foi criado intelectualmente grudado a um computador. Mas não, no editor de texto as margens talvez aumentarão, a letra ficará menor e esta produção que tanta energia e inspiração me custou não parecerá mais do que uma nota esparsa.

Paciência, é o condicionamento da necessidade de quem ainda não entrou no Panteão dos grandes prosadores do mundo, sequer de sua cidade, mas tem como obrigação moral garantir seu mínimo lugar ao sol para que sua modesta tentativa de transformar o mundo, nem que seja em sua rua, não seja relegada ao esquecimento. Ah, o esquecimento: a dor maior dos que acreditam que após esta vida não há nada além do vazio, do silêncio e duma inútil sepultura.


Bragança Paulista, 7 de novembro de 2009



9 de agosto de 2018

Eu, poetinha: sonetos escritos em 2005


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Muitas(os) de vocês já conhecem meus sonetos em esperanto e meus diversos tipos de poema em português. Só que ainda não comecei a publicar em massa outro segredo que guardo: os sonetos que escrevi em português no fim da minha adolescência. Como escrevi em outra ocasião, foi então que comecei a compô-los sistematicamente, até mais ou menos o começo da minha graduação em História. Depois, a atividade foi ficando bem mais esporádica. Diversos dos que escrevi entre 2004 e 2006 foram descartados, sem que eu guardasse qualquer cópia, mas outros julguei por bem conservar, dado o tema interessante e a razoável elaboração.

Inicialmente, digitei meus sonetos no computador e imprimi em folhas repartidas. Mas quando quis me livrar delas pra desocupar espaço, digitalizei-as em arquivos de imagem, e guardo em backup meus poemas preferidos. Três interessantes textos formam uma unidade de trabalho que o Paulo, meu professor de Português no início do 3.º ano do Ensino Médio, pediu-nos pra fazer logo depois das férias de verão. Ele ficou com a gente apenas uns dois meses, ou nem isso, e cedeu o posto à Prof.ª Graça Betânia, notável acadêmica e uma ótima pessoa que nos acompanhou até a formatura. Mas ele me marcou por seu aparente interesse nos mesmos temas que eu, a começar pela língua latina, tanto que foi ele quem me indicou o livro Não perca o seu latim, de Paulo Rónai, que só agora tive tempo de comprar e degustar.

Nas primeiras aulas, ele propôs que escrevêssemos três poemas, com os seguintes títulos/temas: “Eu procuro você” (31 de janeiro), “Eu em você” (4 de fevereiro) e “Depois de você” (11 de fevereiro). Não sei o que meus colegas acharam, mas eu estava no Paraíso: adorava atividades criativas, sobretudo relacionadas à escrita e poesia, e na 7.ª série, por exemplo, adorava quando a Prof.ª Sandra Del Roio pedia pra fazermos redação de tema livre. Era como o momento em que a “tia” do primário, querendo matar tempo, mandava desenhar em folhas brancas de sulfite! Realmente, nunca descobri qual era a intenção pedagógica do Paulo, mas guardo até agora as cópias dos papéis escritos à mão e a digitação posterior pro acervo. Neste eu me baseei pra corrigir os primeiros e repostar aqui.

Modifiquei ligeiramente os títulos, e parece que não segui uma regra métrica fixa quanto à quantidade e tonicidade das sílabas. Inclusive, como eu estava no começo, fiz coisas aí que não repito hoje: misturar vogais tônicas e átonas numa mesma sílaba, forçar ditongos em hiatos e “abreviar” palavras que geralmente são comidas na música popular, como “minha”, contada como uma sílaba só. Por isso, a leitura ritmada é impossível. Também parece haver uma mistura de registros, com construções informais onde predominam palavras formais, e o uso de vocabulário informal numa estrutura formal: isso é normal quando se tem pouca bagagem de leitura. A ressalva é que nos sonetos 1 e 2, tentei deliberadamente usar o pronome “tu”, e no 3, apenas “você”.

As rimas pobres até podem ser perdoadas, mas há dois problemas de redação que decidi não corrigir: no soneto 2, a expressão “em seu castelo for reinando” se refere a “quem estás amando” ou à “princesa” (a quem trato por “tu”)? É provável que se refira a ela, mas deveria evidentemente ser “em teu castelo fores reinando” (aliás, princesas reinam?...), concordância que pode ter sido quebrada pelo bem de uma já estropiada métrica. No soneto 3, o verso “A felicidade sua ausência atrasa” obscurece qual é o sujeito e qual é o objeto. O contexto esclarece que “Sua ausência atrasa a felicidade”, mas como num poema romântico também é possível que “A felicidade atrasa sua ausência”, o entendimento imediato fica prejudicado.

Também é interessante que o segundo soneto figura minha atração, não exatamente uma “paixão”, por alguma garota da classe, a qual nem externei e muito menos esperava que pudesse ser correspondida. Até desconfio quem possa ter sido ela, mas naquela turma, minhas explosões hormonais quase sempre eram repelidas... Enfim, espero que vocês tenham gostado de eu ter compartilhado um pouco de mim e aguardem por “novos velhos” sonetos! Pra mim é salutar revisitar as criações do passado, pois compõem parte da longa trilha intelectual que me fez chegar até aqui. Mas se há quem pense que eu queria deixar elementos pra um futuro biógrafo, por que não? Rs.



Eu te procuro (31/1/2005)

Em que lugar do mundo estás, amor?
Em todo lugar vou te procurar
E se, ao acaso, puder te encontrar,
A minha vida terá mais um fervor.

Dize-me já onde posso te buscar,
Assim me farás um grande favor.
Quero de novo sentir teu sabor
E o prazer vindo na hora de te amar.

Sem ti, apenas sou metade de mim,
Sempre ajudas na minha outra metade.
Por que foste tu me deixar assim?

Volta, amor, acaba com essa saudade,
Aos meus chamados dize só “sim”
E caminhemos à felicidade.

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Eu em você (4/2/2005)

Cobre teu semblante felicidade
Enquanto vejo teu braço moreno.
Calças tênis baixos nos pés pequenos.
És tão nova que nem descubro a idade.

Teus olhos instigantes são serenos,
Te adornam brincos largos de verdade.
Tua boca brilha como a rica jade,
Tua altura pequena é belo veneno.

Calça jeans nas pernas grossas: beleza,
Tua inteligência está me impressionando,
Mas fazer desenhos é tua destreza.

Agora não sei quem estás amando,
Mas sei que muitos te acharão princesa
Enquanto em seu castelo for reinando.

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Depois de você (11/2/2005)

Você me abandonou, me fez tristonho,
Só suas roupas deixou dentro de casa.
Agora é que meu coração se arrasa,
Pois só poderei ver você nos sonhos.

Sua partida deixou minha mente em brasas,
Não penso mais no que me faz risonho.
Minhas mãos sobre seus braços não mais ponho,
A felicidade sua ausência atrasa.

Sem você, não há tempo posterior,
Meu futuro já não tem mais sentido,
Está morrendo meu eu interior.

Se as lembranças houvesse ressarcido,
Talvez seria bem menor minha dor
E tão forte não teria nascido.




7 de agosto de 2018

Guia completo dos adjetivos em russo


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Finalmente, eis o que acredito ser a última postagem com o material resultante do minicurso que ministrei em outubro e novembro de 2017, no programa TOPE da Unicamp, sobre noções básicas da língua russa pra iniciantes. É a última, porque não há outros textos prontos, feitos pra ocasião, que possam ser transformados em postagens, e porque outras coisas surgidas durante aulas particulares são muito complexas ou longas. Estas, certamente, serão reaproveitadas no futuro curso autodidata em russo que planejo criar em breve pro meu canal Eslavo (YouTube). Enquanto isso, sobram os escritos maçantes.

Embora em postagem anterior eu tenha abordado os adjetivos russos, incluindo dados que vão se repetir aqui, só agora me aprofundei em sua morfologia e sua flexão. Este não é um guia exaustivo, mesmo podendo se considerar “completo” ao iniciante brasileiro ou que fala português, pois não discorro, por exemplo, sobre as funções sintáticas do adjetivo (significado, posição, utilização etc.). Limito-me apenas às flexões básicas de gênero, número e caso, trazendo ainda questões de pronúncia e ortografia (relativas, sobretudo, às consoantes guturais e chiantes) que sempre confundem os estudantes. O emprego correto dos adjetivos em russo exige estudo e repetição, principalmente se comparados ao inglês, que só utiliza uma única forma em qualquer ocasião (o que não deixa, claro, de gerar frases ambíguas).

Este guia sintetiza e repassa tudo o que pode ser estudado num curso regular presencial ou à distância. Obviamente, desde as postagens passadas, deve-se ter percebido que a leitura exige um conhecimento básico do idioma, sobretudo do alfabeto, da pronúncia e da complexa noção de “consoantes brandas”. O sistema de adjetivos curtos muda levemente o significado das palavras originais e tem uma formação diferenciada em terminações e sílabas tônicas.

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Os adjetivos russos (palavras que indicam qualidade, propriedade, origem, pertencimento, natureza, avaliação subjetiva etc.) têm dada no dicionário sua forma longa no nominativo singular masculino. Os adjetivos russos também possuem, em sua maioria, uma forma curta, cujas regras de uso são levemente diferentes, mas ela não será abordada aqui. Em todo caso, o radical das duas formas é o mesmo, e quem conhece a forma longa pode identificar o significado básico da forma curta. Ao contrário da forma curta, a forma longa dos adjetivos flexiona-se em gênero e número e declina em caso, concordando, em tudo isso, com o substantivo que modifica. (Nos exemplos textuais, a vogal tônica será indicada pelo sublinhado, exceto se a palavra tiver uma vogal Ё – iô, que é sempre tônica.)

Os adjetivos são classificados em dois modelos, de acordo com as terminações que eles possuem na forma longa: as terminações duras e as terminações brandas. As duas terminações duras são ЫЙ e ОЙ, com a única diferença que a terminação ЫЙ é sempre átona, e a terminação ОЙ é sempre tônica. A terminação branda dos adjetivos é ИЙ, sempre átona. Essa classificação influencia no modo como cada adjetivo é flexionado e declinado. Cada adjetivo possui formas pro masculino, pro feminino e pro neutro no nominativo singular. As formas do plural valem pros três gêneros.

Eis as terminações dos adjetivos pra cada gênero no caso nominativo:

  • ЫЙ (masc. sing.), АЯ (fem. sing.) ОЕ (neutro sing.) e ЫЕ (plural);
  • ОЙ (masc. sing.), АЯ (fem. sing.), ОЕ (neutro sing.) e ЫЕ (plural) – todas essas terminações são sempre tônicas;
  • ИЙ (masc. sing.), ЯЯ (fem. sing.), ЕЕ (neutro sing.) e ИЕ (plural).

Certos adjetivos modernos, indeclináveis e de origem estrangeira, têm terminações diversas: секси (sexy) супер (super, ótimo, legal) etc.

Seguem os modelos completos de declinação nas três categorias citadas. Note-se o seguinte: Pros substantivos masculinos animados, o adjetivo no acusativo singular vai ter a mesma forma do genitivo singular, e pros animados em geral, o acusativo plural é igual ao genitivo plural. Pros substantivos masculinos inanimados, o adjetivo no acusativo singular vai ter a mesma forma do nominativo singular, e pros inanimados em geral, o acusativo plural é igual ao nominativo plural. O instrumental singular feminino em -ОЙ/-ЕЙ tem uma forma alternativa em -ОЮ/-ЕЮ usada em poesia e em textos antigos.


добрый (bom, bondoso)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.добрыйдобраядоброедобрые
Gen.доброгодобройдоброгодобрых
Dat.добромудобройдобромудобрым
Acus.доброгодобруюдоброедобрых
Instr.добрымдобройдобрымдобрыми
Prep.о добромо добройо добромо добрых


земной (terrestre)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.земнойземнаяземноеземные
Gen.земногоземнойземногоземных
Dat.земномуземнойземномуземным
Acus.земногоземнуюземноеземных
Instr.земнымземнойземнымземными
Prep.о земномо земнойо земномо земных


синий (azul-marinho)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.синийсиняясинеесиние
Gen.синегосинейсинегосиних
Dat.синемусинейсинемусиним
Acus.синегосинююсинеесиних
Instr.синимсинейсинимсиними
Prep.о синемо синейо синемо синих


Curiosidade: Na ortografia pré-1918, algumas terminações adjetivas eram um pouco diferentes. A terminação -ИЙ dos adjetivos masculinos se escrevia -ІЙ, e no acusativo e genitivo, as terminações -ОГО/-ЕГО, quando átonas, eram -АГО/ЯГО (preste atenção: “хорошего” era “хорошаго”, e não “хорошяго”!). Quando as terminações -ЫЕ e -ИЕ indicavam um feminino e/ou neutro plural, escreviam-se -ЫЯ e -ІЯ, mas escreviam-se -ЫЕ e -ІЕ caso modificassem um substantivo masculino, junto com um feminino e/ou neutro. Essas regras não influíam na pronúncia, praticamente igual à moderna.

Observações:

  • Ao contrário do que se dá na forma curta dos adjetivos, a forma longa mantém a mesma sílaba tônica, em todos os gêneros, números e casos.
  • Exceto no nominativo e no acusativo, as formas do neutro singular são sempre iguais às do masculino singular.
  • As formas do feminino singular são sempre as mesmas no genitivo, dativo, instrumental e prepositivo.
  • As formas do genitivo, acusativo (animados) e prepositivo são iguais no plural.
  • A forma do dativo plural é igual à do masculino e neutro singulares no instrumental. A terminação tônica dura do nominativo singular masculino é idêntica à do feminino singular no genitivo, dativo, instrumental e prepositivo.

Alguns adjetivos brandos (terminados em ИЙ no masculino singular), em especial relacionados a animais, têm as seguintes terminações excepcionais: третий (terceiro), третья (feminino singular), третье (neutro singular), третьи (plural); медвежий (de “медведь” – urso), медвежья (feminino singular), медвежье (neutro singular), медвежьи (plural): медвежье объятие (abraço de urso). Essa particularidade, em geral, é indicada em bons dicionários. Seguem abaixo duas tabelas com esses dois adjetivos declinados; repare que a pronúncia do Ж se mantém dura, enquanto as vogais brandas finais são pronunciadas com seu som pleno (iá, iê, iú):


третий (terceiro)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.третийтретьятретьетретьи
Gen.третьеготретьейтретьеготретьих
Dat.третьемутретьейтретьемутретьим
Acus.третьеготретьютретьетретьих
Instr.третьимтретьейтретьимтретьими
Prep.о третьемо третьейо третьемо третьих


медвежий (de urso)

caso/
gên.
masc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.медвежиймедвежьямедвежьемедвежьи
Gen.медвежьегомедвежьеймедвежьегомедвежьих
Dat.медвежьемумедвежьеймедвежьемумедвежьим
Acus.медвежьегомедвежьюмедвежьемедвежьих
Instr.медвежьиммедвежьеймедвежьиммедвежьими
Prep.о медвежьемо медвежьейо медвежьемо медвежьих


Observações:

  • As terminações são as mesmas dos adjetivos brandos comuns. A diferença é que, ao tirarmos a terminação -ИЙ do nominativo singular masculino, adiciona-se ainda um sinal brando (Ь) após a última consoante.
  • Outra diferença é que, nas terminações onde se repete uma consoante branda (nom. sing. fem. -ЯЯ, nom. e acus. sing. neut. -ЕЕ e acus. sing. fem. -ЮЮ), a primeira consoante branda dá lugar a um Ь (-ЬЯ, -ЬЕ, -ЬЮ).
  • E mais: a terminação do nominativo plural (e do acusativo plural dos adjetivos que mudam substantivos inanimados) não é -ИЕ, mas apenas -И (mais precisamente, -ЬИ).

Alguns adjetivos (de terminações duras por definição), por conta de sua última consoante e seguindo as regras da língua russa, sofrerão alterações automáticas na pronúncia e na ortografia. Elas não são indicadas nos dicionários em geral, porque a(o) aluna(o) inteligente conseguirá declinar corretamente esses adjetivos. As alterações se referem às chamadas consoantes guturais e consoantes chiantes, e consistem no seguinte:

  • Após Г, К e Х nunca se usa Ы, somente И: краткий (curto), краткая, краткое, краткие; строгий (rigoroso, severo), строгая, строгое, строгие; тихий (calmo, silencioso), тихая, тихое, тихие.
  • Após Ж, Ч, Ш e Щ nunca se usa Я, somente А; nunca se usa Ы, somente И; usa-se О quando a vogal é tônica e Е quando a vogal é átona: похожий (semelhante), похожая, похожее, похожие; горячий (quente, fervente), горячая, горячее, горячие; общий (comum, geral), общая, общее, общие; большой (grande), большая, большое, большие; хороший (bom), хорошая, хорошее, хорошие.

Seguem as tabelas que ilustram as três probabilidades citadas:


caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.тихийтихаятихоетихие
Gen.тихоготихойтихоготихих
Dat.тихомутихойтихомутихим
Acus.тихоготихуютихоетихих
Instr.тихимтихойтихимтихими
Prep.о тихомо тихойо тихомо тихих


caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.общийобщаяобщееобщие
Gen.общегообщейобщегообщих
Dat.общемуобщейобщемуобщим
Acus.общегообщуюобщееобщих
Instr.общимобщейобщимобщими
Prep.*об общемоб общейоб общемоб общих

* Usa-se “об”, e não “о”, antes de palavras iniciadas em А, Э, И, О e У.


caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.большойбольшаябольшоебольшие
Gen.большогобольшойбольшогобольших
Dat.большомубольшойбольшомубольшим
Acus.большогобольшуюбольшоебольших
Instr.большимбольшойбольшимбольшими
Prep.о большомо большойо большомо больших