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domingo, 30 de novembro de 2014

Problemas de tradução do russo (2)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/russo2


Por Erick Fishuk


Este é o segundo de uma série de textos em que pretendo abordar várias questões com que me deparei ao traduzir textos da língua russa para a portuguesa, em especial discursos e canções dos tempos soviéticos. São apontamentos que salvei como notas no Facebook e, após algumas revisões, estou publicando agora. Para mais informações sobre minhas leituras a respeito de teoria da tradução que me inspiraram a escrever, consulte o primeiro texto da coletânea.

Esta segunda postagem, como prometido na primeira, trata de questões mais específicas, e é a fusão (ou quase) de duas notas do Facebook: uma a respeito da manutenção de estrangeirismos no texto de chegada e outra sobre as diferentes traduções para o português de um mesmo substantivo, a depender se ele está no singular ou no plural. Também é recomendável que as leitoras e leitores tenham algum conhecimento de russo, mesmo apenas do alfabeto cirílico, porque nem sempre vou traduzir ou transliterar as palavras e frases dos textos de partida.



ESTRANGEIRISMOS

Teoria da tradução faz bem, mas é mesmo traduzindo que se aprende a traduzir. Em algumas traduções de Lenin que fiz, surgiu o pouco explorado problema da flexão de substantivos não assimilados à língua portuguesa, ou seja, os famosos “estrangeirismos”.

Deparei-me com o problema de como traduzir os plurais de “кулак” (“kulak”, o camponês médio da Rússia e da URSS) e “погром” (“pogrom”, onda de perseguição em massa aos judeus na Europa Oriental), que no nominativo são respectivamente “кулаки” (transl. “kulaki”) e “погромы” (transl. “pogromy”). Esses plurais em russo são pouco conhecidos nossos e convivem com alternativas aclimatadas às línguas euro-ocidentais, como “kulaks” e “pogroms”. Quais delas escolher? Após realizar, em alguns casos, traduções que agora eu não realizaria, acabei estabelecendo quatro níveis em que as traduções poderiam ser diferentes.

No primeiro nível, os iniciados em língua russa (ao menos em nível incipiente) e história da URSS. Obviamente, em se tratando de um texto em português, eu faria a transliteração, mas da forma no nominativo plural em russo: “kulaki” e “pogromy”. Claro que a coisa ficaria mais fácil se as palavras fossem acompanhadas por elementos plurais, como “os”, “alguns”, “certos”, “aqueles” etc.

No segundo nível, os livros de divulgação, mas ainda com um caráter científico e acadêmico. Eu escreveria os plurais originais “kulaki” e “pogromy” no texto, mas colocaria as respectivas notas de rodapé:

* Nominativo plural de “kulak” em russo

e

* Nominativo plural de “pogrom” em russo.

É de se lembrar, claro, que se no texto russo essas palavras estão em outros casos (genitivo, dativo, instrumental etc.), mesmo assim translitero como no nominativo em português.

No terceiro nível, os textos de divulgação política, geralmente os discursos e textos dos grandes líderes, mas criados especialmente para um suporte escrito fixo ou de consulta culta (mesmo que originalmente tenham sido, por exemplo, discursos orais ou panfletos), como por exemplo sites marxistas e coletâneas de documentos. É uma inversão da solução anterior: escreve-se “kulaks” e “pogroms” no texto, e, apenas para fins de informação, colocam-se as respectivas notas de rodapé:

* Nominativo plural em russo: “kulaki”

e

* Nominativo plural em russo: “pogromy”.

Essa inversão se justifica por uma questão de economia de energia mental: no caso anterior, a lentidão da leitura e o nível intelectual dos leitores justificam a espera em se saber do que se tratam “kulaki” e “pogromy”, até que se leia a nota. No presente caso, capta-se imediatamente o que são “kulaks” e “pogroms”, sendo dispendida aí toda a energia mental e não se gastando praticamente nada na consulta às notas, que ficam como uma informação secundária.

E no quarto nível, enfim, os panfletos, os textos militantes mais circulantes e fluidos, as legendas de vídeo e, possivelmente, a reinterpretação de discursos ou falas em filmes e outras ocasiões de encenação. É melhor usar aí as formas “kulaks” e “pogroms”, imediatamente compreensíveis aos receptores ocidentais.

Poderia ainda estabelecer um quinto nível de tradução, no âmbito explicativo, em que, em certos casos, ou eu trocaria “kulaks” e “pogroms” por “camponeses médios” e “massacres/perseguições antissemitas/contra os judeus”, respectivamente, ou expressões ou circunlóquios equivalentes, ou ainda poderia me valer do procedimento técnico da “explicitação” citado por Vázquez-Ayora, escrevendo “os kulaks, camponeses médios” ou “os pogroms, perseguições...” etc. Mas estou focado nos leitores que já têm algum conhecimento sobre história da Rússia e da URSS, especialmente historiadores e militantes políticos, e por isso me centro no uso de “kulak” e “pogrom”.

Em todo caso, o que eu jamais faria era utilizar formas pouco usuais e não consagradas como “cúlaque” e “pogron” (esta, incrivelmente, dada como vinda do iídiche!), listadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), havendo na primeira a marcação errada da sílaba tônica e apenas a segunda (escrita erroneamente com N) sendo listada na seção de estrangeirismos.


PLURAIS

Existem casos na tradução em que nos deparamos com “falsos amigos”, ou seja, palavras parecidas nas duas línguas, mas de significado absolutamente diferente. Estes dias, ao traduzir Lenin, descobri, digamos, um tipo intermediário dessa confusão: palavras transparentes, ou muito comuns, que no singular sabemos muito bem o que significa, mas que no plural, por vezes, podem assumir acepções levemente diferentes.

“Продукт” (produkt), por exemplo, é fácil: significa “produto” de uma forma geral. Porém, o plural “продукты” (produkty) pode nomear também “gêneros alimentícios”, “víveres”. Aliás, foi consultando o verbete “gêneros” no Aurélio que fiz uma acrobacia na tradução: a expressão “необходимые для них продукты” (neobkhodimye dlia nikh produtky), dentre outras possibilidades, pode ser traduzida por “produtos/víveres/gêneros que lhes são indispensáveis”, se formos seguir ao pé da letra. Mas como vi no dicionário brasileiro a expressão “gêneros de primeira necessidade”, e ainda significando “Mercadorias, esp[ecialmente]. alimentos, indispensáveis às necessidades básicas do homem”, decidi traduzir “необходимые для них продукты” por “gêneros de primeira necessidade”, deixando subentendidos os destinatários já mencionados.

Outra palavra enganadora é “работа” (rabota), que, em geral, significa “trabalho”, mas que no plural, “работы” (raboty), pode designar também “obras” (em geral de engenharia). No trecho “Все работы, необходимые для восстановления транспорта” (Vse raboty, neobkhodimye dlia vosstanovlenia transporta), “работы” também poderia ser traduzido por “trabalhos”, mas veja como ficaria melhor, ainda mais em se levando em conta o que o contexto oferece: “Todas as obras necessárias à restauração dos transportes”.

Lembrando ainda que no texto inteiro não traduzi “транспорт” (transport) pelo singular, mas pelo plural “transportes”, já que aí havia a acepção de “sistema de transportes”! Ou seja, como dizia o sábio Geir Campos, que o tradutor consciencioso procure no dicionário todas as palavras, especialmente as que julga conhecer melhor...



domingo, 23 de novembro de 2014

Problemas de tradução do russo (1)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/russo1


Por Erick Fishuk


Estou começando aqui uma série de textos em que pretendo abordar várias questões com que me deparei ao traduzir textos da língua russa para a portuguesa, especialmente discursos e canções dos tempos soviéticos. São apontamentos que escrevi, salvei como notas no Facebook e, após algumas revisões, estou publicando agora. Embora a bibliografia sobre teoria e técnicas de tradução já seja considerável em português (e muitíssimo maior em inglês, francês, espanhol e alemão), nenhuma obra trata diretamente da tradução a partir do russo (ou mesmo da versão do português para o russo, na qual literalmente não sou “versado”...), se limitando apenas ao intercâmbio entre línguas euro-ocidentais. Quanto às obras propriamente russas sobre tradutologia, meu contato com elas ainda está apenas começando.

Porém, as sugestões que os livros brasileiros fazem são igualmente aplicáveis a qualquer tipo de tradução ou a qualquer par de línguas, e podemos encontrar inspiração até mesmo em livros mais focados em tradução de poesia (como no ótimo Tradução: teoria e prática, de John Milton ‒ São Paulo, Martins Martins Fontes, 2010). Por isso, baseado em minhas leituras, e na minha incipiente experiência tradutória, publico essas anotações, as quais, repito, se aplicam em especial à tradução de textos soviéticos com vocabulário do movimento comunista. Assim, nem todo tradutor do russo pode achar aqui algo proveitoso, contudo podem se interessar pelos meus textos os curiosos em história da União Soviética e dos Partidos Comunistas ou aqueles a quem atraem os problemas de tradução de um modo geral.

Esta primeira postagem mais longa trata de alguns problemas genéricos divididos em casos pontuais, e nas próximas postagens, que por enquanto são em número de duas, vou abordar outras questões mais específicas. Também é recomendável que as leitoras e leitores tenham algum conhecimento de russo, mesmo apenas do alfabeto cirílico, porque nem sempre vou traduzir ou transliterar as palavras e frases dos textos de partida.



PROBLEMAS DE VOCABULÁRIO

De 1919 a 1952, o órgão dirigente do Partido Comunista soviético entre cada congresso se chamava “Politburo do Comitê Central” (“Политбюро ЦК”, ou “Политбюро Центрального комитета”). De 1952 a 1966, ele foi chamado de “Presidium do CC” (“Президиум ЦК”), e a partir de 1966 ele retomou o nome antigo.

Embora no meu sistema de transliteração se devesse em tese escrever “Politbiuro” e “Prezidium”, prefiro manter aquelas grafias tradicionais (exceto em textos russos); aliás, “politburo” também está registrado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

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O russo tem uma infinidade de palavras para se referir às classes trabalhadoras. Vou mostrar como eu traduzo algumas delas:

- Пролетарий = é a mais transparente. Eu traduzo como “proletário”. O mesmo para o adjetivo “пролетарский”. Пролетарии всех стран, соединяйтесь! = Proletários de todos os países, uni-vos!

- Рабочий/Рабочая = tem forma de adjetivo, mas também pode atuar como substantivo. Eu traduzo como “operário/operária”. Российская социал-демократическая рабочая партия = Partido Operário Social-Democrata da Rússia.

- Трудящийся/Трудящаяся = outro adjetivo usado como substantivo ou adjetivo. Eu traduzo como “trabalhador/trabalhadora”.

- Работник/Работница = esse é mais polivalente, mas geralmente pode servir, em boa parte das situações, como “funcionário(a)” ou “empregado(a)”. Mas também toma uma das traduções acima em várias situações e expressões prontas. Existem também as expressões “работник партии” е “работник Советов”, que podem ser respectivamente traduzidas como “funcionário do Partido” e “funcionário dos sovietes”, ou ainda, especialmente se estiverem no plural, como “quadro(s) do Partido” e “quadro(s) dos sovietes”

Enfim, ocorre que esses termos, especialmente os dois primeiros, podem ter as traduções intercambiadas. Tudo depende do bom-senso, da criatividade e da análise correta da situação que devem fazer parte das competências do tradutor! ;-D


PROCEDIMENTOS TÉCNICOS DA TRADUÇÃO

Segundo Heloísa Gonçalves Barbosa (Procedimentos técnicos da tradução: uma proposta, 2.ª edição, Campinas, SP, Pontes, 2004), a MODULAÇÃO é um procedimento tradutório que consiste na inversão da perspectiva quando se passa de uma língua para outra, resultado de modos diversos de apreender e circunscrever a realidade.

No russo, temos um exemplo claro disso na tradução de datas incertas de certos documentos, em que se lê, por exemplo:

“Не ранее 30 ноября 1925 г.” = lit. “Não antes de (ou “Não mais cedo que”) 30 de novembro de 1925”

“Не позднее 25 апреля 1930 г.” = lit. “Não depois de 25 de abril de 1930”

A primeira ainda passa, mas a segunda, não. Sem contar que não posso usar simplesmente “depois de” ou “antes de”, porque neste caso as datas mencionadas não estariam incluídas como a de composição do documento. Então, para padronizar, eu inverto a perspectiva e escrevo respectivamente: “30 de novembro de 1925 ou depois” e “25 de abril de 1930 ou antes”.

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Outro exemplo de modulação que exige criatividade: vejam este sintagma, referente a um político: “символ преданности революционера своему делу”.

Literalmente, ficaria “um símbolo de devoção de um revolucionário a sua causa”. Além do atropelamento de dois “de”, em português soa feio e sem muito sentido.

Então, lancei mão do procedimento e transformei o substantivo “devoção” no adjetivo “devotado”. Deu nisto: “um símbolo do revolucionário devotado a sua causa”.

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Na tradução deste trecho, eu teria usado dois dos procedimentos que ela lista no livro:

“И вот, на другой день после первого сообщения о венгерской революции, я послал радиотелеграмму в Будапешт, прося Бела Кун прийти к аппарату [...]”

Literalmente, isso ficaria mais ou menos assim, já com algumas modificações:

“E então, no dia seguinte ao primeiro comunicado sobre a revolução húngara, enviei um radiotelegrama a Budapeste pedindo a Béla Kun que se aproximasse do aparelho [...]”

Eu apliquei dois procedimentos: a EXPLICITAÇÃO, colocando “recebimento” após “dia seguinte”, pra deixar a frase mais “brasileira”; e a COMPENSAÇÃO, em que jogo um significado pra outra parte do texto, a fim de adequar à redação mais comum, tirando, assim, a ideia de “radiotelegrafia” da “mensagem” (“radiotelegrama”) e jogando-a ao “aparelho”, já que em português “radiotelegrafia” é mais comum de aparecer e soa mais natural do que “radiotelegrama” (que aparece no VOLP, mas não na minha versão do Aurélio, ao menos).

Assim, deu nisto:

“E então, no dia seguinte ao recebimento do primeiro comunicado sobre a revolução húngara, enviei uma mensagem a Budapeste pedindo a Béla Kun que se aproximasse do aparelho de radiotelegrafia [...]”

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A tradução do discurso de Stalin na Praça Vermelha a 7 de novembro de 1941, em plena invasão nazista à URSS, também deu muito o que pensar. Vou listar algumas modificações que fiz.

“Враг не так силен, как изображают его некоторые перепуганные интеллигентики.”

Literalmente, ficaria algo assim: “O inimigo não é tão forte como o retratam/pintam/figuram/representam alguns intelectuaizinhos atemorizados.” Contudo, a frase não está natural. Por duas vezes, lancei mão do procedimento da TRANSPOSIÇÃO, que é dizer a mesma coisa com partes diferentes do discurso. Então, substituí “forte” por “poderoso”, que tem mais a ver com a ideia de potência militar, e “retratar (alguém)” por “pretender”, se bem que talvez aí já seja mais parecido com a MODULAÇÃO.

Porém, meu maior “orgulho”, por assim dizer, foi o tratamento de “intelectuaizinhos”. Na verdade, “intelligentik”, nos dicionários especializados, é dado como mero sinônimo de “intelligent” (intelectual, ou o famoso intelligent), mas tem o sufixo diminutivo “-ik”, que por vezes passa uma ideia pejorativa. A tradução “intelectuaizinhos”, ou “intelectualecos”, ou “intelectualoides”, não ficaria boa nesse discurso, e “pseudointelectuais”, uma opção que vi em outras línguas, não quer dizer a mesma coisa. Assim, usei a COMPENSAÇÃO, jogando a ideia pejorativa no “atemorizados” ou “apavorados”, trocando por um sinônimo que fosse mesmo pejorativo, e cheguei a “acovardados” (com a ideia de “covarde”), porque os primeiros não têm uma ideia pejorativa explícita ou necessária. Assim, conseguindo manter a marca de pejoratividade, cheguei a esta tradução:

“O inimigo não é tão poderoso como pretendem alguns intelectuais acovardados [...]” (as reticências são porque emendei uma frase posterior).

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No mesmo discurso de Stalin, cometi mais alguns “desvarios” que quero listar aqui. Por exemplo, neste pedaço de frase:

“Если судить не по хвастливым заявлениям немецких пропагандистов, а по действительному положению Германии [...]”

Literalmente, teríamos: “Se julgarmos/A julgar não pelas afirmações vaidosas/jactanciosas/gabosas dos propagandistas alemães, mas pela real situação da Alemanha [...]”. Mas com uma TRANSPOSIÇÃO logo no começo e uma MODULAÇÃO logo após (especialmente trocando a ideia de “afirmar” pela de “difundir”), deixei a frase mais leve, principalmente após ter tirado três coisas “pesadas”: a preposição “por”, os plurais em sucessão e a repetição da ideia de “alemão” (“alemães” e “Alemanha”):

“Considerando não a propaganda vaidosa difundida pela Alemanha, mas a real situação do país [...]”.

Também achei interessante a mexida nesta frase:

“Украина, Кавказ, Средняя Азия, Урал, Сибирь, Дальний Восток были временно потеряны нами.”

Literalmente, tratando de regiões geográficas, a expressão “были временно потеряны нами” significa “foram temporariamente perdidas por nós”. Mas sabemos que voz passiva com pronome pessoal como agente não fica muito bonito em português, e também transformar em voz ativa (“Perdemos temporariamente...”) ia mexer muito na forma da frase, jogando o “foram temporariamente perdidas por nós” muito pra longe do lugar original, e atrapalhando também na hora de legendar, já que eu também tinha a versão em vídeo do discurso. Assim, cometi uma MODULAÇÃO, invertendo a ideia de “perder” para a ideia de “tomar”. Vejam:

“A Ucrânia, o Cáucaso, a Ásia Central, os Urais, a Sibéria e o Extremo Oriente foram temporariamente tomados de nós.”



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A Marselhesa da Comuna


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Considerada o Hino Nacional da Comuna de Paris, a “Marselhesa da Comuna”, atendendo a pedidos, abriu uma exceção no meu canal de vídeos O Eslavo, por ter sido escrita originalmente em francês, e não numa língua eslava. A melodia é a mesma da famosa canção revolucionária “A Marselhesa”, composta por Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792 e vigente como Hino Nacional da França desde 1879. A nova letra foi composta por Madame Jules Faure em 1871, adotada como hino do governo communard em março e abolida em maio, quando os rebeldes foram derrotados.

A tradução que fiz não é artística (ou seja, não tem as mesmas rimas nem a mesma métrica/ritmo), nem extremamente literal, e me permiti mudar um pouco as palavras que seriam esperadas para que se retivesse o sentido que suponho ter a autora buscado passar, para que tentasse provocar o mesmo efeito que o hino causaria a um falante do francês, mas com palavras diferentes, para um falante do português.

Esta gravação pelo ator e cantor francês Armand Mestral foi feita para o LP La Commune en chantant em 1971, depois reeditado em CD em 1988. Como se nota, além do refrão, cantam-se apenas as estrofes 1, 2 e 5. Para maiores informações, mas não muitas, sugiro uma consulta rápida ao verbete “La Marseillaise de la Commune” na Wikipédia em francês e em inglês, onde há também a letra completa em francês e em inglês, já que para a legendagem só traduzi as referidas estrofes, que estão aqui em francês e em português.

Abaixo o vídeo no meu canal, para o qual não fiz alterações na letra, já que com música temos limites mais flexíveis para fazer legendagem:


____________________


1. Français, ne soyons plus esclaves !,
Sous le drapeau, rallions-nous.
Sous nos pas, brisons les entraves,
Quatre-vingt-neuf, réveillez-vous. (bis)
Frappons du dernier anathème
Ceux qui, par un stupide orgueil,
Ont ouvert le sombre cercueil
De nos frères morts sans emblème.

Refrain :
Chantons la liberté,
Défendons la cité,
Marchons, marchons, sans souverain,
Le peuple aura du pain.

2. Depuis vingt ans que tu sommeilles,
Peuple français, réveille-toi,
L’heure qui sonne à tes oreilles,
C’est l’heure du salut pour toi. (bis)
Peuple, debout ! que la victoire
Guide au combat tes fiers guerriers,
Rends à la France ses lauriers,
Son rang et son antique gloire.

(Refrain)

5. N’exaltez plus vos lois nouvelles,
Le peuple est sourd à vos accents,
Assez de phrases solennelles,
Assez de mots vides de sens. (bis)
Français, la plus belle victoire,
C’est la conquête de tes droits,
Ce sont là tes plus beaux exploits
Que puisse enregistrer l’histoire.

(Refrain)

____________________


1. Franceses, saiamos da escravidão!
Reunamo-nos sob a bandeira.
Esmaguemos nossos grilhões,
Renasce, ano de 1789. (bis)
Lancemos a condenação final
Aos que por estúpido orgulho
Abriram a tumba escura
De nossos irmãos mortos sem glórias.

Refrão:
Cantemos a liberdade,
Defendamos a Cidade,
Marchemos, marchemos,
Sem soberanos o povo terá pão.

2. Após vinte anos adormecido,
Desperta, povo francês,
O chamado que te soa ao ouvido,
É o chamado de tua salvação. (bis)
De pé, ó povo! Que a vitória
Guie teus altivos guerreiros no combate,
Restitui à França seus louros,
Seu lugar e sua antiga glória.

(Refrão)

5. Não mais exalteis vossas leis novas,
O povo ignora vossa prepotência,
Chega de frases pomposas,
Chega de faladeira sem sentido. (bis)
Francês, a mais nobre vitória
É a conquista de teus direitos,
Que são as mais altas façanhas
Que podes gravar na história.

(Refrão)




terça-feira, 11 de novembro de 2014

Do direito ao ateísmo


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NOTA: Artigo do filósofo ateu francês Michel Onfray publicado no site do jornal francês Le Monde a 5 de fevereiro de 2011 e traduzido por mim logo depois de seu aparecimento. Como parte do interesse maior que eu tinha na época pela filosofia ateísta, publiquei-o em fevereiro de 2012 no outro blog que administro, o Materialismo.net. Antes de repostar aqui, fiz uma nova revisão que resultou em algumas modificações. O original, “Du droit à l'athéisme” pode ser lido aqui. Para um aprofundamento maior nas ideias de Onfray a respeito do ateísmo, recomendo especialmente suas obras Tratado de ateologia, A arte de ter prazer: por um materialismo hedonista e sua série Contra-história da filosofia, todas já traduzidas.

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O ateísmo é uma ideia recente na Europa, tão recente que parece ainda estar para nascer... Através dos séculos, os detentores do poder clerical rotularam de ateus um agnóstico como Protágoras, um politeísta como Epicuro, um fideísta (1) como Montaigne, um panteísta como Spinoza ou um deísta como Rousseau, porque eles não acreditavam muito no Bom Deus, em outras palavras, no deus que encarna a lei do lugar e do momento. Por muito tempo o epíteto foi um insulto, antes que desaparecesse seu efeito injurioso na segunda metade do século 20, até voltar a ser, recentemente, a ofensa que fora por séculos.

Foram necessários, no século 17, os escritos de um Pierre Bayle para que enfim se cogitasse a ideia de um ateu virtuoso, de tanto que o sem Deus passava naturalmente por uma pessoa sem lei, visto que sem fé. Ora, sabe-se desde então que a fé não impede ninguém de ser também sem lei, como mostra Simão de Monforte: (2) a crença em Deus justifica racionalmente assassinatos em seu nome. Inúmeros crentes pós-modernos se conformam, de fato, ao grito de guerra do assassino de cátaros que afirmava: “Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!” (Sim, eu sei, na verdade era o núncio Arnaud Amaury, (3) não precisam se precipitar à coluna dos leitores...)

Queiramos ou não, a França é realmente “a filha primogênita da Igreja”, pois, no sentido etológico, a impregnação judaico-cristã em nossa civilização por mais de um milênio é hoje incontestável. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, conforme seu prólogo, foi redigida “na presença e sob os auspícios do Ser Supremo”, e não segundo os princípios descrentes de um Jean Meslier, para nomearmos o primeiro ateu francês – um padre, diga-se de passagem, cujo Testamento (a Bíblia dos ateus, se me permitem a expressão...), descoberto logo após sua morte, em 1729, deve ser lido com toda urgência.

Hoje em dia, a laicidade está na moda. Mas quase sempre essa laicidade é um balaio de gatos que permite aos judeo-cristãos conservarem as numerosas conquistas da antiga religião longamente dominante, e aos muçulmanos reivindicarem um lugar no concerto monoteísta para defender sua crença, tudo em detrimento do ateísmo.

O serviço público, por exemplo, transmite a missa nas manhãs de domingo, e a France-Culture cumpre essa tarefa sem que ninguém ache certo. Talvez fosse oportuno lançar uma petição para tirar do ar essa liberdade de expressão – petição que a milícia freudiana havia a seu tempo lançado contra mim em nome... “da liberdade de expressão”!

Sou ateu declarado, e mesmo assim não me viria a ideia de pedir um direito de resposta, envolto numa petição, para proibir a retransmissão de um ofício dominical! A laicidade de uma Marine Le Pen é hemiplégica: ela é um combate às pretensões sociais do islã, claro, mas em nome do cristianismo. Tal como o feno das charretes nos filmes de faroeste que esconde as carabinas dos insurgentes, essa laicidade dissimula uma arma de guerra contra o que seu pai chamava outrora de “imigração” e em prol dos valores cristãos, europeus, brancos, conservadores e reacionários. Em outras palavras, essa neolaicidade jura sobre a Bíblia que é preciso acabar com o Corão. Ora, podemos não escolher nenhum desses livros ditos sagrados e deplorar igualmente as cruzadas e as contracruzadas.

Ao contrário do que muitos dizem, sou ateu, mas não sou anticlerical. Penso, por exemplo, que a barulheira de pretensos descrentes que insistem em se desbatizar dá crédito à tese de que essa banal cerimônia assimilável ao termalismo é mais do que isso, ou seja, é o que os padres pretendem, já que seria preciso apagar totalmente o vestígio do que eles consideram uma infâmia. Estar ou não estar no rol dos batizados conta tanto quanto figurar entre os titulares de um cartão de fidelidade num supermercado – um verdadeiro ateu tem preocupações melhores... Tampouco me recuso a cruzar a porta de uma igreja para o casamento de um amigo, o batismo dos filhos de conhecidos ou o enterro de alguém próximo, sob o pretexto de que entrar no templo seria como pactuar com... o diabo, que não é mais real do que Deus! Meu pai foi sepultado há um ano na igreja de seu povoado natal, que é também o meu, numa cerimônia concelebrada, a pedido meu, por um amigo dominicano de Bordeaux e um outro amigo, um padre operário, porque eu sabia que meu pai não cogitava deixar este mundo sem uma cerimônia no lugar onde ele havia vivido sua espiritualidade na tradição de seu país – como Montaigne, que se dizia católico na França, como teria sido protestante na Suíça ou muçulmano na Pérsia... Gesto de um filho ateu para com seu pai fideísta.

(1) Fideísta: pessoa que antepõe a fé à razão, ou adepto da corrente doutrinária católica com essa atitude.

(2) Simão de Monforte (ou Simon de Montfort): nobre franco-normando que protagonizou, em 1209, a cruzada dos albigenses contra os hereges cátaros no sul da França.

(3) Arnaud Amaury (ou Arnau Amalric): abade cisterciense que liderou a referida cruzada dos albigenses.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Apelo de Igor Strelkov a 18/5/2014


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/strelkov



Igor Strelkov fala à imprensa na cidade ucraniana de Donetsk a 10 de julho de 2014.


Introdução (Erick Fishuk)

Este é o texto traduzido para o português (não sei se chegou a ser traduzido para outras línguas) da gravação em vídeo, datada de 18 de maio de 2014, em que o coronel Igor Ivanovich Strelkov, comandante das milícias armadas da autoproclamada República Popular de Donetsk, convoca a população local para repelir as unidades armadas ucranianas enviadas para deter a rebelião dos separatistas pró-Rússia. Foi traduzido diretamente do original russo, sem o cotejamento com qualquer outra versão. A transcrição foi comparada com o vídeo para se levantarem as poucas diferenças, expostas nas notas ao final.

Após a queda do governo pró-Rússia de Viktor Ianukovych na Ucrânia, na esteira dos protestos centrados na Praça da Independência (“Maidan”) em Kyiv, milícias armadas formadas por habitantes das regiões em que o russo é língua predominante e mesmo por cidadãos russos iniciaram uma rebelião na província de Donetsk, no leste do país. Em 7 de abril, líderes separatistas proclamaram a chamada República Popular de Donetsk, desencadeando a intervenção das forças armadas ucranianas e o conflito na região do Donbass que se prolonga até hoje. Embora o novo governo tenha montado toda uma estrutura institucional paralela que funciona de forma praticamente normal e goza de amplo apoio popular, entidades internacionais de direitos humanos têm acusado as milícias de cometer violência contra homossexuais, judeus, ciganos e outras minorias culturais.

Igor Ivanovich Strelkov, que se presume ser na verdade Igor Vsevolodovich Girkin, foi o segundo Ministro da Defesa dessa república entre 16 de maio e 14 de agosto, assim como o segundo Comandante Militar de Donetsk de 6 de julho a 14 de agosto. Teria deixado seus postos de comando por razões de férias e para cumprir missões em outros lugares, mas alegam-se também desentendimentos com as lideranças políticas dos separatistas e mesmo com figuras que lhe dariam apoio a partir de Moscou. Fontes de informação russas ressaltam sua popularidade na Rússia como ex-coronel do serviço secreto russo e seu destaque pelas ideias monarquistas, ortodoxas e fortemente antiliberais. Do ponto de vista ocidental, contudo, é considerado um terrorista que teria supostamente atuado na Bósnia nos anos 1990 e na Tchetchênia nos anos 2000, de forma violenta a favor dos interesses da Rússia.

No apelo apresentado abaixo, Igor Strelkov se queixa rispidamente que os esforços de voluntários da Rússia e da Ucrânia em enfrentar as forças armadas ucranianas, atendendo ao próprio pedido da população local da província de Donetsk, estariam sendo pouco reconhecidos e que muitos poucos nativos haviam se apresentado para lutar nas milícias rebeldes. Escasseariam especialmente os homens jovens, abundando os mais velhos que haviam vivido os tempos soviéticos, ao que Strelkov visa responder pelo recrutamento também de mulheres, algo bastante destacado por analistas estrangeiros. Embora as tropas separatistas estivessem passando por momentos bastante difíceis, os jovens estariam se aproveitando da anarquia reinante para saquear e praticar vandalismo, enquanto os que obtinham armas por meio das milícias não as estariam usando nos combates principais, mas na defesa das próprias casas contra bandidos. Strelkov define rigidamente as condições para que os cidadãos de Donetsk pudessem receber armas e lutar contra as tropas de Kyiv, intimida os que desejam continuar na criminalidade e expressa confiança no reforço de seus efetivos e na vitória final.

O texto original do apelo pode ser lido nesta página. Por meio da audição, e com a ajuda de vários amigos russos do Facebook, decodifiquei algumas passagens que estão diferentes, ou em acréscimo, na fala e na transcrição. Quanto aos vários nomes de cidades ucranianas citados em sua variante russa, nesta postagem anterior justifico, ou tento problematizar, minha opção em colocar na tradução suas variantes em ucraniano. Abaixo você pode ver também o próprio vídeo legendado, postado no meu canal O Eslavo no YouTube, no qual, claro, sempre são feitas as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


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APELO
do Comandante da Milícia da República Popular de Donetsk
18 de maio de 2014

[Eu mesmo escrevi o apelo. Agora só vou ler em voz alta. É um tanto comprido.]

Cidadãos da República Popular de Donetsk!

Dirijo-me a vocês com um pedido. Peço que se levantem em defesa de sua Pátria, suas casas, suas famílias e seu povo.

Cumpre-me lhes pedir que façam algo impossível de se exigir conforme todas as medidas humanas. Pois levantar-se por sua Pátria e sua liberdade na Mãe-Rússia sempre foi uma tarefa honrosa, a cujo apelo avidamente atenderam desde o início dos tempos aqueles que se consideravam varões.

Entretanto, preciso lhes dizer a verdade. Direto na cara! São palavras duras, que talvez até ofendam a dignidade de vocês. Já faz mais de um mês que nós, um pequeno grupo de voluntários da Rússia e da Ucrânia, atendendo a um pedido de socorro saído da boca dos líderes manifestantes que vocês promoveram, chegamos aqui e de armas na mão estamos enfrentando o exército ucraniano inteiro e uma enorme gentalha de mercenários louca por dinheiro.

O mês passado inteiro ouvimos várias vezes o apelo desesperado: “Deem-nos armas! Deem armas para que possamos lutar por nossa liberdade, por nosso direito de ler e falar em russo, nossa língua materna, e pelo direito de honrar nossos antepassados, heróis da Grande Guerra Pátria, e não os lacaios dos bandidos nazistas!” Atendendo a esse apelo, conseguimos armas. Tomamos em depósitos, tiramos de militares e milícias ucranianos ou compramos no mercado negro a preços exorbitantes. E eis que agora temos armas. Elas não estão no fundo da retaguarda ‒ nem em Donetsk, Luhansk ou Makiivka, nem em Shakhtarsk ou Antratsyt. Estão na linha de frente da luta, na cidade sitiada de Sloviansk (1). Estão aqui, onde são mais necessárias! Aqui, com os voluntários que defendem todo o resto do Donbass ‒ incluindo Donetsk e Luhansk. E bem aqui, nos arredores de Sloviansk e Kramatorsk, de Krasny Lyman e Kostiantynivka, onde se encontram nossas guarnições, a junta de Kyiv concentrou as forças mais combativas e numerosas. A seu lado se dispuseram dois terços da tropa punitiva e o estado-maior do que chamam “operação antiterrorista”.

E eis que chega a hora em que cada cidadão de Donetsk, apto a usar armas e disposto a mirá-las contra os inimigos de seu povo, pode chegar e recebê-las direto em mãos. Receber e se juntar às fileiras dos voluntários para expulsar as tropas punitivas para fora de sua terra natal. Mas o que estamos vendo? Qualquer coisa, menos multidões de voluntários às portas de nossos estados-maiores. Sloviansk tem 120 mil habitantes. Kramatorsk, o dobro. Só na província de Donetsk vivem 4,5 milhões de pessoas. Claro que nem todos os homens têm idade para combater. Nem todos são saudáveis ou livres de ocupações importantes para a subsistência. Nem todos podem nos procurar por terem obrigações familiares ou de qualquer outra natureza. Mas confesso sinceramente que jamais esperava não se apresentarem em toda a província nem mil homens dispostos a arriscar a vida não na própria cidade, numa barricada do lado de casa, distante a meio dia de carro do “guarda nacional” mais próximo, mas na linha de frente, onde realmente se dispara todos os dias.

A verdade é essa. Para não soar mentiroso, vou dar exemplos. Anteontem (2) chegou um grupo de 12 “heróis” de Artemivsk, selecionados e recomendados por uma pessoa de altíssima estima. Ao saber que deveriam servir imediatamente em Sloviansk (e não em sua Artemivsk natal), e que o prazo não terminaria em poucos dias, nem quiseram receber as armas. Ontem a história se repetiu. Dos 35 “voluntários” vindos de Donetsk, ressoando os estrondos dos morteiros ao longe e ficando claro que por três dias eles não poderiam ir para casa com as armas recebidas, 25 voltaram alegremente para seus lares... Talvez queixar-se das “duras condições” (sem tê-las vivido sequer um minuto) é mostra de seu heroísmo, revelado no trajeto do ônibus de passageiros. E não são casos isolados, (3) pois ocorrem com frequência entre nós.

Ainda na Crimeia, tive que ouvir dos ativistas do movimento popular relatos de que “quando os mineiros se levantarem, matarão todos com as próprias mãos!”. Ora, talvez isso ocorresse no passado. Mas ainda não é o que se vê. Dezenas e centenas de pessoas se arregimentaram para lutar. E dezenas e centenas de milhares (4) assistem a tudo tranquilas pela TV, de latinha na mão. Pelo visto, esperam que os irmãos da Rússia ou mandem um exército capaz de fazer tudo por eles, ou enviem uma quantidade suficiente de voluntários descabeçados prontos a morrer pelo direito deles de viver mais dignamente do que viviam sob os 23 anos de governo dos nacionalistas de Kyiv. (5) Onde estão os 27 mil voluntários de que falam os jornalistas? Não estou vendo. Chegar em casa com ar orgulhoso declarando “Eu me alistei na milícia!” para as mulheres admiradas é tudo o que sabem fazer?



Casas destruídas perto do Aeroporto Internacional de Donetsk, em outubro de 2014.

Em nossa fileira de voluntários estão entrando cada vez mais homens “bem acima dos 40”, crescidos e educados ainda nos tempos da URSS. Mas há pouquíssimos jovens. Onde estão os jovens e saudáveis rapazes locais? (6) Talvez nas “brigadas” bandidas que, tendo percebido a anarquia, correram “expropriar os expropriadores” e alvoroçar por todos os cantos da província de Donetsk? Sim, recebemos diariamente notícias sobre suas repetidas “façanhas”. E muitos falsos “milicianos” exigem armas antes de tudo para defender as próprias casas dos bandidos e delinquentes. Ora, é um desejo compreensível. Mas surge a questão ‒ e o que os comandantes da milícia devem fazer ‒: quem são os que vêm lhes pedir armas? Um cidadão honesto ou um bandido qualquer disfarçado de “patriota de Donetsk”? A resposta que damos é simples: só será considerado “miliciano” aquele que pessoalmente, compondo uma subdivisão, participar diretamente das operações de combate contra as tropas da junta! Onde e quando seus comandantes acharem necessário. Pois sem disciplina, não haverá nada! Nem vitória e nem ordem. Se cada um for “guerrear” onde e quanto mais lhe agrada ou convém pessoalmente, a milícia de Donetsk vai degenerar em algo a meio termo entre uma corja de desertores dissolutos e um bando reacionário contra tudo e todos.

Mas não será assim! Somente a quem demonstrar combater bem o inimigo e realizar outras missões de combate daremos o direito de pôr ordem na própria casa integrando a milícia! E imporemos essa ordem, não tenham dúvida! Os que hoje “acobertam” lojas e empresas, traficam drogas e simplesmente assaltam gente indefesa, não esperem que “as regras do jogo serão as mesmas” ou que “a guerra perdoará tudo”. O “Donbass Bandido” chegou ao fim! O novo poder dará a todos a possibilidade de renunciar à atividade criminosa, mas quem não quiser, receberá uma resposta firme. (7) Dessa resposta não se poderá resgatar por dinheiro algum! Não sob a legislação de guerra!

Voltando ao principal. A terra de Donetsk precisa de defensores, e a milícia, de soldados voluntários disciplinados. Se os homens não estão aptos a isso, devemos convocar mulheres. A partir de hoje emiti ordem para que sejam aceitas na milícia.

Lamentável não haver sequer uma oficial mulher, nem na ativa, nem na reserva. Mas que diferença faz, se nenhum oficial homem vem nos procurar? Em toda a província não se encontrou ainda nem duas dúzias de militares profissionais dispostos a comandar as subdivisões de combate! Uma vergonha, uma infâmia! (8) Há duas semanas peço que me enviem o chefe do estado-maior e ao menos uns cinco comandantes de companhias e pelotões. E nada! Nenhum! Minhas companhias e batalhões se guiam por soldados rasos e sargentos da reserva. Alguns comandam bem razoavelmente, mas no decorrer é que vai se sentindo a falta dos conhecimentos militares necessários... Bem, aprenderão com o tempo. Mas advirto que nenhum desses ditos “oficiais”, agora empoleirados em seus apartamentos como pardais sob o telhado apavorados com a tempestade e não tendo ocupado seu posto na milícia, jamais será a nossos olhos (9) considerado oficial! E tornar nossa opinião difundida também entre os cidadãos simples será outra tarefa.

Talvez restem poucos dias até que as ações de combate, até agora sem serem encarniçadas demais, atinjam as dimensões de uma verdadeira luta com dezenas e centenas de mortos e feridos. O inimigo está intimidado, mas ainda é muito forte! Ele tem o patrocínio de oligarcas dispostos a pagar enormes quantias para cada assassinato, cada casa destruída, cada crime contra o povo russo! Para vencê-lo, devemos lutar. Os cidadãos capazes de me ouvir e mostrar devoção a sua terra natal e seu povo, que venham aos estados-maiores da milícia, nas cidades de Sloviansk, Kramatorsk, Krasny Lyman, Kostiantynivka, Horlivka. Os comandantes que designei formarão aí subdivisões de reserva, organizarão a instrução e as enviarão, conforme sua preparação, ao exército na ativa. E mesmo que ele ainda pareça uma guerrilha pequena e muito mal organizada, está lutando e vai vencer! É caminhando que se faz o caminho!

Deus e a Verdade estão conosco!

O comandante da milícia da RPD
Coronel I. I. Strelkov

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Notas
(Clique no número para voltar ao texto)

(1) Segue-se no vídeo: “em Kramatorsk, em Kostiantynivka.”

(2) No vídeo: “Três dias atrás”.

(3) No vídeo: “E estão longe de serem casos isolados”.

(4) No vídeo: “E dezenas de milhares e centenas de milhares”.

(5) No vídeo: “nacionalistas ucranianos.”

(6) No vídeo Strelkov não usa a palavra “locais”.

(7) No vídeo: “receberá a resposta merecida.”

(8) No vídeo: “Uma vergonha, uma desonra!” Na verdade, está escrito no texto “Styd i pozor!”, enquanto Strelkov pronuncia “Styd i sram!”: as palavras russas “styd”, “sram” e “pozor” são sinônimas, e podem ser traduzidas aleatoriamente por “vergonha”, “desonra”, “infâmia” ou outros sinônimos ainda.

(9) No vídeo Strelkov titubeia: “aos olhos... a nossos olhos, nenhum será”.



Bandeira da República de Donetsk: faixa aludindo à Mãe-Rússia e São Miguel Arcanjo.