quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A morte de Gorbachov pela TV russa


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Não pude deixar desapercebida a morte de Mikhail Sergeievich Gorbachov, político russo-soviético que foi escolhido em 1985 como secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), cargo que na prática dava o poder máximo, e em 1990 se fez eleger indiretamente como presidente da URSS, cargo que ele criou numa espécie de reforma política. Porém, não houve tempo pra que o posto tivesse futuro, pois o país foi dissolvido em 1991, quando surgiu a Rússia republicana como conhecemos hoje. Não preciso repetir a história, que tantas vezes já contei aqui e que pode ser encontrada em bons livros e sites.

O importante é mostrar como a carreira e a morte de Gorbachov foram narradas pelo atual governo de Vladimir Putin, na prática uma ditadura que transformou o novo Estado russo num monstro violento, belicista e autoritário. Várias vezes, o atual presidente se referiu à dissolução da URSS como a maior catástrofe geopolítica do século 20, mas jamais expressou qualquer saudade pelo comunismo. Pelo contrário, enquanto evita mencionar Stalin, que venceu a guerra da qual Putin ainda tenta ordenhar tanto capital político, desceu a lenha em Lenin quando invadiu a Ucrânia, por causa do projeto federalista original do bolchevique. No passar dos anos, Gorbachov foi se tornando cada vez mais crítico ao Kremlin, o qual o abandonou no discurso político.

Não por menos, esta reportagem transmitida ontem pelo canal oficial de notícias Rossia 24 fez um balanço bastante negativo, não faltando passagens irônicas e rancorosas. O atual cenário geopolítico ajuda a explicar tudo. Eu fiz a tradução, que pode conter erros, com base nesta transcrição, também de site estatal, e apenas incluí algumas passagens orais que não foram publicadas. Pra mim, o valor do texto é essencialmente histórico, mas serve como um contraponto à babação de ovo da Globo em cima de um Gorbachov bastante controverso.


O primeiro e único presidente da URSS, Mikhail Gorbachov, faleceu aos 91 anos após uma doença grave e prolongada. Assim foi anunciado no Hospital Clínico Central. Durante a atuação de Mikhail Gorbachov, ocorreram importantíssimas mudanças no âmbito geopolítico. Iliá Kanavin tem os detalhes.

Ele apareceu quando era mais necessário do que nunca.

“O humor das pessoas está mudando. Toda nossa sociedade começou a movimentar-se.”

Em 1984 recebeu poderes quase absolutos no maior país do mundo. O sorridente secretário-geral de terno impecável e sotaque do Sul fez esse país se apaixonar por ele. Gorbachov também não se parecia com seus predecessores, assim como as propostas de perestroika e glasnost não se pareciam com os morosos slogans soviéticos. A “perestroika” significa que as coisas devem ser feitas por conta própria, e não apenas pra cumprir ordens. “Glasnost” significa que se pode falar, e não sussurrar. Ler Solzhenitsyn, Dovlatov, Nabokov, Rybakov e Brodski não levaria à prisão nem sequer à demissão do trabalho.

“– Fique mais perto do povo, nunca vamos lhe fazer mal. – E como poderia estar mais próximo?”

Assim então o recebiam por toda a parte. Ele começou a falar com as pessoas à maneira delas. Até mesmo a palavra perestroika entrou no uso político não depois do pleno do Comitê Central em janeiro de 1987, mas em abril de 1986, depois que o secretário-geral discursou aos operários da Montadora Volga. Foi então que se tomou a decisão de se criar a AvtoVAZ.

Ele tirou Andrei Sakharov da prisão, decretou a aposentadoria de quase todo o Birô Político de Brezhnev e insistiu na retirada de nossas tropas do Afeganistão. Foram coisas percebidas como bons sinais. Ele nutria em si esperanças tão grandes que nenhuma pessoa no mundo poderia realizá-las. Gorbachov foi literalmente embriagado pelo amor popular. E o povo também foi embriagado.

Num ingênuo arroubo democrático, os diretores das grandes fábricas começaram a ser escolhidos pelos operários. Resultado: as empresas frequentemente quebravam e se dissolviam em cooperativas. Assim era a iniciativa popular em ação. Ele iniciou uma campanha antiálcool pra reduzir a mortalidade. Resultado: parreirais foram desplantados, o açúcar foi racionado, perderam-se 62 bilhões de rublos soviéticos e faziam-se piadas sobre casamentos sem álcool. As primeiras eleições livres se tornaram tão indicativas daquele tempo quanto as prateleiras vazias das lojas. A catástrofe em Chornobyl e o terremoto na Armênia também eram maus sinais.

A URSS estava abalada, e se nada fosse mudado, os economistas lhe davam mais 10 ou 15 anos de vida. Mas não se pode mudar tudo, a economia e a organização política do Estado, de uma vez só, diziam a Gorbachov, mas ele queria tudo e imediatamente, acreditava que daria certo.

A queda do muro de Berlim foi o exemplo mais evidente de como a perestroika soviética mudou a organização do mundo. Da tribuna da ONU, em 1988, Gorbachov anunciou que a URSS estava adotando o princípio de não interferência nos assuntos internos da Alemanha Oriental. E um ano depois, o muro ruiu, apesar das objeções do Reino Unido e da França. Até na Alemanha Ocidental muitos diziam que era necessário um período de transição.

Mas Gorbachov queria derrubar imediatamente todos os muros. Para o cidadão ocidental médio, Gorbachov estava na moda, como um astro do rock. E que cidadão: Thatcher se encantou com Gorbachov nos primeiros encontros. Ainda mais que ele lhe mostrou um mapa com os alvos de foguetes soviéticos no Reino Unido e nos EUA. Tirado os sapatos e subindo com os pés na poltrona, a Dama de Ferro, não escondia sua admiração. Depois ela viajou aos EUA e lá disse sua conhecida frase:

“Eu gosto do sr. Gorbachov. Podemos fazer negócios juntos. Acreditamos em nossos sistemas políticos. Ele acredita firmemente no dele, e eu no meu. Nenhum de nós pode obrigar o outro a mudar seu sistema.”

Mas hoje poucos se lembram de que ela também disse isto a Gorbachov:

“Eu lhe disse que penso que não devemos nos desfazer do arsenal nuclear. O arsenal nuclear é o melhor fator de dissuasão: caso renunciemos a ele, aumenta o risco de uma guerra comum ou com uso de armas químicas.”

Nos seis anos em que permaneceu no poder, Gorbachov se encontrou 11 vezes com os presidentes dos EUA: cinco com Reagan e seis com Bush pai.

E nós, soviéticos, pela primeira vez nos orgulhamos de como nosso líder era recebido no Ocidente. Primeiro, a URSS anunciou unilateralmente uma moratória nos testes nucleares, e depois assinou com os EUA o acordo de liquidação dos foguetes de pequeno e médio alcance. Já o Ocidente percebeu esses passos como uma demonstração de fraqueza, pois Moscou sequer exigiu garantias de que a OTAN não se ampliaria até nossas fronteiras. Bem, prometeram nas palavras.

“Os EUA eram obcecados pela vitória na ‘guerra fria’. Mas que vitória?”

Aliás, então confiando em Gorbachov, o país não pensava haver tal perigo do bloco militar estrangeiro em suas fronteiras. O confronto com o Ocidente parecia coisa do passado. E nas apertadas cozinhas soviéticas se falava não das doenças senis dos líderes nem de inimigos externos. O novo tema em voga eram Gorbachov e Raisa. Ocorre que um secretário-geral pode amar com tamanho desinteresse e ser amado com tamanha intimidade. Anos depois, depois que

Raisa Gorbachova já tinha falecido, Gorbachov, avaliando tudo pelo que ele teve de passar, vai dizer que os piores meses da sua vida foram os dois em que ela desfalecia diante de seus olhos.

“Nenhuma provação, nem mesmo o golpe de 1991, sequer se compara a isso.”

Ainda é impossível entender quando se deu a ruptura depois da qual surgiram como que dois Gorbachov. Um é respeitado pela liberdade entre os cidadãos dos países ocidentais, outro é o que tem despertado cada vez mais perguntas em seu país. Ele ora lutava contra os professores e taxistas privados, ora os incentivava por todos os meios. No início se opôs com bastante rigidez ao desejo de separação dos países bálticos, depois simplesmente deixou pra lá. Não deu atenção aos acontecimentos em Tbilisi. Tornou-se presidente não pelo voto popular, mas num Congresso de Deputados do Povo.

“Juro servir fielmente ao povo de nosso país, cumprir honestamente com as altas responsabilidades a mim atribuídas como Presidente da URSS.”

Depois foi derrotado por Ieltsin. Mas vai ser pra sempre o primeiro e último presidente de um país que não existe mais. E a vila de Forós, na Crimeia, sempre vai se lembrar do golpe de 1991. Os cidadãos não perdoaram Gorbachov pelas esperanças decepcionadas, e os pesos-pesados da burocracia – comunistas e anticomunistas –, por ele sequer ter tomado o partido de ninguém. Forós foi o único golpe soviético que se realizou às vistas de todos. Eis aí a ironia da glasnost (transparência).

“Isolaram-me da sociedade.”

Ele ficou completamente sozinho. Ele passou por tudo o que era possível a uma pessoa: da adoração geral à humilhação geral. A morte do país que ele amava e que ele tanto queria reavivar.

“Estou deixando meu posto com preocupação, mas também com esperança, com fé em vocês, em sua sabedoria e em sua força de espírito.”

Depois de renunciar, encontrou em si forças pra mostrar que uma vida plena e normal é possível com o fim do exercício do poder. E além disso, exatamente no próprio país. Ele não deixou a Rússia embora saísse pra dar palestras. E seu aniversário de 80 anos foi celebrado em Londres junto com Sharon Stone e Arnold Schwarzenegger. Andrei Makarevich cantou pra ele em inglês.

Especialistas da Biblioteca do Congresso dos EUA incluíram Gorbachov na lista das 100 personalidades mais célebres da história mundial. Ou seja, pra eles está tudo certo com Gorbachov. Já pra nós tudo é mais complexo. Em junho de 2014, uma de suas últimas entrevistas televisionadas foi sobre os acontecimentos na Ucrânia.

“Exceto pela parte ocidental da Ucrânia, é um povo muito próximo de nós, muito próximo, mesmo agora, sem contar a história longínqua. Na liderança da URSS, em todos os anos do Poder Soviético, mais que outros participaram russos e ucranianos.”

Gorbachov considerou então a reincorporação da Crimeia à Rússia a correção de um erro histórico. É verdade que não explicou de quem foi o erro. Pois pra Moscou, a Crimeia foi perdida quando a bandeira soviética foi retirada do Kremlin.

“Só a mim, do que não chamaram, por assim dizer, de Satã, de diabo, de Deus que desceu à Terra pra salvar nosso azarado país... foi tudo isso.”

O tempo que passou desde que ele esteve no poder é curto demais pra esclarecer todos os pontos. Todos correram pro espaço de liberdade aberto por Gorbachov, mas nem todos encontraram o que esperavam. Gorbachov nos libertou não somente da estreiteza comunista, mas também das ilusões pós-comunistas. E essa libertação foi obtida de forma dolorosa. Pra ele também.



segunda-feira, 22 de agosto de 2022

O presidente dançarino do Tajiquistão


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No meu antigo canal Pan-Eslavo Brasil, eu sempre gostava de postar os presidentes do antigo espaço soviético dançando, sobretudo Boris Ieltsin, e às vezes até Vladimir Putin. Um dos que mais me atraiu foi Emomali Rahmon, ditador e praticamente dono do Tajiquistão desde 1994, quando ainda ocorria a guerra civil que se sucedeu à dissolução da URSS. No conflito que durou de 1992 a 1997, ele sofreu várias tentativas de golpe e assassinato, e desde então conseguiu se tornar líder absoluto do pequeno país de cultura persa, inclusive com mudanças sucessivas na constituição. Hoje o Tajiquistão é o país mais pobre entre as antigas repúblicas soviéticas, mas de alta importância estratégica pro combate ao terrorismo islâmico na região, sobretudo em proveito da Rússia.

País pobre, ditador e sua família vivendo no luxo e na abundância. Eu postei o primeiro vídeo no antigo canal, juntando cenas de um dos festejos públicos do Nowruz, o Ano Novo persa, e do casamento em 2013 do filho mais velho de Rahmon, Rustam Emomali, que de quebra também é prefeito de Dushanbe, capital do Tajiquistão. Mas descobrindo este vídeo por acaso, que contém muito mais cenas do casamento comentadas pelo jornalista oposicionista Dodojon Atovulloyev (em tadique, Dodojoni Atovullo), resolvi cortar as cenas principais e também repostar aqui. Gosto muito do estilo de música deles, e as danças dos tiozinhos são hilárias! O vídeo foi postado em maio de 2013, e infelizmente não entendo sua narração em tajique. Ironicamente, alguns comentários em russo e tajique (cuja escrita posso deduzir um pouco), mesmo recentes, elogiam o ditador e dizem que ele também tinha o direito de se divertir. Alguém chegou a comentar: “Por que não criticam da mesma forma quando fazem igual na monarquia britânica?”...

Atovulloyev (n. 1956) ainda possui conta no Facebook, embora eu não saiba se está ativa, e em 2013 ele tinha gravado de seu exílio em Hamburgo, na Alemanha. Segundo esta curta nota biográfica feita pela agência russa RIA Novosti, após um atentado que ele sofreu em Moscou em janeiro de 2012, Atovulloyev é opositor de Rahmon desde 1992, e há anos está fugido do Tajiquistão. Várias vezes Dushanbe abriu processos e ordenou sua prisão e deportação, mas ironicamente a própria Rússia (outros tempos...) nunca obedecia. Em dezembro de 2019, a agência Fergana (também russa) anunciou que a ditadura tajique tinha anistiado o jornalista de todos os processos, e que o próprio Atovulloyev estava pensando em voltar à pátria. Não achei nada mais a respeito do homem e de seu destino, embora também haja um pequeno verbete dedicado a ele no Historical Dictionary of Tajikistan, de Kamoludin Abdullaev (p. 65-66), parcialmente disponível no Google Livros, embora a obra seja de 2018.

Enfim, chega, vamos nos divertir!


Este foi o primeiro vídeo que postei no antigo canal, misturando as duas cenas e, no caso do casamento, com uma música que deve ter sido posta após edição. Lembrando que em persa tajique, a palavra Nowruz (Ano Novo persa) se lê e se escreve Navruz. A parte mais engraçada é quando aparece aquele camelo sustentado por dois caras fantasiados cujas pernas aparecem bem, hehehe. Infelizmente não tenho mais as fontes originais.


Enfim, o casalzinho real: Rustam Emomali, filho do ditador, e a noiva sortuda. Vejam a felicidade de ambos, sobretudo da donzela. Uma produção digna daqueles profissionais que gravavam batizados e casamentos em VHS nos anos 90!


Agora vem a cereja do bolo: seis minutos de muita dança, música e tiozinho passando vexame! É notável de onde tiram tanta energia e alegria, sendo que no islã o álcool é proibido. Mas vai saber o que fumaram, né... Não tenho certeza se a música também é a original: acredito que sim, pois até a banda aparece cantando. O astro principal, claro, é Emomali Rahmon, com seus passos originais, seu sorriso inextinguível e sua ginga digna de um Silvio Santos no auge do Show de Calouros ou do Topa Tudo por Dinheiro!


Esta é talvez a parte mais constrangedora: o ditador pega ele mesmo o microfone e começa a fazer uma espécie de karaokê improvisado, com outro senhor que deve ser artista com algum grau de profissionalismo. Embora, na verdade, não seja muito agradável ouvir a voz de nenhum dos dois... Constrangidos ficam os noivos, que não desfazem a cara de paisagem, seja por fome, seja mesmo por pensarem “Que que eu tô fazendo aqui?”. Ainda fico me perguntando quem filmou, por que filmou e pra quem filmou, porque podia ser uma recordação pessoal (que vazou?), ou até foi coberto pela mídia, embora eu não saiba se o povo não ia mesmo era ficar com raiva.


Se o tiozinho do karaokê já tinha uma voz pouco suportável, pelo menos nos poupamos de ouvir Emomali Rahmon cantando com sua voz de quem abocanhou batata quente. Como disse, quase não entendo tajique, mas separei esta cena pra que vocês o vissem falando alguma coisa, talvez saudando o público e o agradecendo por participar desse cringe festival.


Finalmente, separei este trecho sem esperar muita utilidade, porque mal se ouve a música, e o jornalista Atovulloyev fala por cima. Mas como a dança dos tiozões continua engraçada e como ela podia inspirar outros memes, deixo à disposição pra concluir nossa diversão, hehehe.


domingo, 14 de agosto de 2022

Nova anaplasmose chegaria ao Brasil?


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No último dia 10 de agosto, escutei no programa “Journal d’Haïti et des Amériques” (Jornal do Haiti e das Américas) da rádio francesa RFI o alerta de que um novo tipo de anaplasmose tinha sido descoberto na Guiana Francesa, território francês que faz fronteira com o estado brasileiro do Amapá. A anaplasmose é uma infecção que, nesse caso, foi transmitida por um carrapato e pela primeira vez era detectada num ser humano. O novo tipo foi batizado pela localização geográfica da descoberta, justamente um garimpo ilegal, igual a vários que temos espalhados pela Amazônia brasileira.

Parece que a nova doença não oferece muito perigo no momento, mas fiquei alarmado, porque em 2014 eu já escutava na RFI sobre o surto de febre chicungunha (chikungunya) na mesma Guiana, e pra meu espanto também começou um surto no Brasil entre 2015 e 2016. A chicungunha também circula por África e Ásia, e aparentemente o surto brasileiro não começou com gente que veio da Guiana, mas ainda assim resolvi alertar pro que ainda não sabemos no que pode se transformar. Primeiro, porque como podemos ver, garimpos ilegais também são um ninho de doenças. E segundo, parece que o sujeito infectado pela nova anaplasmose mora ou morava no Brasil.

Após uma busca no Google, traduzi esta reportagem publicada no site de notícias France-Guyane no mesmo 10 de agosto, que parecia ser então a única a falar mais a respeito, e publiquei aqui na página. Ela tinha também o link pra outro texto lançado em 2 de agosto pelo Instituto Ecologia e Meio-Ambiente (INEE) do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, sobre o mesmo assunto, que também decidi traduzir pra continuar o serviço público aqui na página. Escrito por Olivier Duron e Katia Grucker, o título é “L’anaplasmose de Sparouine, une nouvelle zoonose transmise par les tiques découverte en Guyane” (A anaplasmose de Sparouine, uma nova zoonose transmitida por carrapatos e descoberta na Guiana). Apesar do alarmismo ser desnecessário, se você é especialista ou apenas se interessa pelo assunto, espero que goste desses materiais e compartilhe entre interessados!



Diversas espécies de carrapatos da Guiana (foto: Florian Binetruy e Olivier Duron).


Os carrapatos são responsáveis pela transmissão de inúmeras zoonoses, que são doenças infecciosas transmitidas dos animais aos seres humanos. Um estudo publicado na revista Emerging Infectious Diseases em 8 de agosto de 2022 acaba de divulgar uma nova zoonose transmitida por carrapatos numa região remota da Guiana Francesa. Essa doença, a anaplasmose de Sparouine, foi descoberta depois que um garimpeiro foi infectado, vivendo no coração da floresta tropical úmida. A infecção de seus glóbulos vermelhos por uma bactéria desconhecida até então provocou uma degradação severa de seu estado de saúde e requereu sua hospitalização. Esses trabalhos mostram igualmente que bactérias geneticamente próximas circulam entre os carrapatos e mamíferos da América do Sul que poderiam constituir repositórios naturais da infecção.

Vetores maiores de agentes patogênicos, os carrapatos são especialmente bem conhecidos na Europa por seu papel na propagação de zoonoses como a doença de Lyme. Nutrindo-se às expensas da fauna selvagem, os carrapatos podem a seguir transmitir patógenos zoonóticos aos seres humanos. Na Guiana Francesa, a exploração de zonas naturais remotas levou à emergência de uma nova zoonose dos carrapatos, até então desconhecida, a anaplasmose de Sparouine.

A anaplasmose de Sparouine é no dia de hoje uma doença rara com apenas um caso conhecido. Porém, as condições nas quais essa doença foi descoberta são ilustrativas dos riscos associados à exploração de zonas naturais remotas. A anaplasmose de Sparouine apareceu num garimpo ilegal no coração da floresta tropical úmida da Guiana Francesa. Pras populações que vivem no garimpo, seu medo das autoridades entrava o acesso aos centros de saúde, e as epidemias de malária surgem aí regularmente. Foi exatamente uma campanha de estudo da malária, com o exame de mais de 360 amostras sanguíneas, que evidenciou a presença de uma nova bactéria patogênica, a Anaplasma sparouinense, e assim a descoberta imprevista da anaplasmose de Sparouine.

Durante a primeira coleta sanguínea em 2019, o paciente não apresentava nenhum sintoma especial, embora vários glóbulos vermelhos apresentassem então inclusões citoplasmáticas que indicavam uma quantidade importante de bactérias. 18 meses depois, o paciente deu entrada no Centro Hospitalar de Caiena sentido febre, dores musculares e de cabeça, sangramentos nasais e anemia severa. Uma ampla investigação microbiológica tinha então permitido descartar a presença de agentes infecciosos comuns, e somente um exame de DNA, realizado a posteriori, permitiu a descoberta da Anaplasma sparouinense. O paciente apresentava um fator de comorbidade, tendo passado anteriormente por uma esplenectomia (remoção cirúrgica do baço após uma ferida traumática) que pode ter agravado os efeitos da infecção. Felizmente, um tratamento antibiótico de três semanas levou à recuperação do paciente, que em seguida pôde deixar o hospital.

Esse novo agente patogênico pertence ao gênero bacteriano Anaplasma, cuja bactéria mais conhecida é a Anaplasma phagocytophilum, responsável pela anaplasmose granulocitária humana. Essa zoonose emergente é responsável todos os anos por várias centenas de casos, por vezes letais. Os estudos genéticos revelaram que a Anaplasma sparouinense é um novo agente infeccioso, diferente de todas as espécies conhecidas de Anaplasma. Análises filogenéticas estabeleceram igualmente que cepas bacterianas próximas estão naturalmente presentes em bichos-preguiça e em carrapatos retirados de quatis no Brasil. Essas análises mostram que existe na realidade todo um grupo sul-americano de Anaplasma emergentes, do qual o Anaplasma sparouinense é o primeiro membro descrito como infeccioso pro ser humano. A vida no garimpo, em contato direto com a fauna selvagem, sem dúvida foi um fator determinante pra passagem do agente infeccioso ao ser humano. Ainda é cedo demais pra definir a importância que a anaplasmose de Sparouine vai ter no futuro, e qual risco sanitário a doença poderia então apresentar às populações sul-americanas. Todavia, sua mera existência nos recorda que nosso conhecimento da diversidade dos agentes patogênicos que circulam nas zonas naturais remotas continua sendo muito parcial. A expansão das atividades humanas nessas regiões vai inevitavelmente levar as populações a se exporem ao risco de emergência de zoonoses similares.



A dra. Maylis Douine, médica na Guiana e uma das autoras da descoberta.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Nova doença da Guiana virá ao Brasil?


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No último dia 10 de agosto, escutei no programa “Journal d’Haïti et des Amériques” (Jornal do Haiti e das Américas) da rádio francesa RFI o alerta de que um novo tipo de anaplasmose tinha sido descoberto na Guiana Francesa, território francês que faz fronteira com o estado brasileiro do Amapá. A anaplasmose é uma infecção que, nesse caso, foi transmitida por um carrapato e pela primeira vez era detectada num ser humano. O novo tipo foi batizado pela localização geográfica da descoberta, justamente um garimpo ilegal, igual a vários que temos espalhados pela Amazônia brasileira.

Parece que a nova doença não oferece muito perigo no momento, mas fiquei alarmado, porque em 2014 eu já escutava na RFI sobre o surto de febre chicungunha (chikungunya) na mesma Guiana, e pra meu espanto também começou um surto no Brasil entre 2015 e 2016. A doença também circula pela África e pela Ásia, e aparentemente o surto brasileiro não começou com gente que veio da Guiana, mas ainda assim resolvi alertar pro que ainda não sabemos no que pode se transformar. Primeiro, porque como podemos ver, garimpos ilegais também são um ninho de doenças. E segundo, parece que o sujeito infectado pela nova anaplasmose mora ou morava no Brasil.

Após uma busca no Google, traduzi esta reportagem publicada no site de notícias France-Guyane no mesmo 10 de agosto, que parecia ser então a única a falar mais a respeito. O título é “Anaplasmose : une nouvelle maladie transmise par les tiques découverte chez un orpailleur illégal” (Anaplasmose: uma nova doença transmitida por carrapatos e detectada num garimpeiro ilegal), cuja fonte indicada é uma newsletter da Agência Regional de Saúde (ARS) da Guiana, lançada no dia anterior. Todos os possíveis problemas de tradução são meus, e estou disponível pra ouvir críticas, correções e sugestões.



Uma nova bactéria transmitida por carrapatos foi descoberta na Guiana Francesa

Pesquisadores do Hospital de Caiena e do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) em Montpellier descreveram uma nova doença transmitida por carrapatos: a anaplasmose de Sparouine. Ela foi descoberta em paralelo ao projeto Malakit num garimpeiro clandestino que tinha passado por uma remoção do baço. Ele teve de permanecer hospitalizado por várias semanas por estar sofrendo de febre, dores musculares, dores de cabeça, sangramentos nasais e anemia severa. Até então, a bactéria era desconhecida. Batizada de Anaplasma sparouinense, foi descoberta nos glóbulos de um garimpeiro clandestino doente. Ele teve de permanecer hospitalizado por várias semanas em Caiena.

Num artigo publicado este mês na revista Emerging Infectious Diseases (Doenças Infecciosas Emergentes) e resumido pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) [clique aqui, em breve também vou traduzir], as equipes do Hospital de Caiena e do CNRS em Montpellier comunicaram sua descoberta.

Como os anaplasmas foram identificados – Tudo começou com o Malakit. Esse projeto de pesquisa visava determinar a eficácia da distribuição de kits de autodiagnóstico e automedicação dados a garimpeiros ilegais. “Enquanto realizávamos nossos estudos, que concernem principalmente à malária, aproveitamos pra observar o estado de saúde geral das pessoas. Existe um interesse individual pela pessoa e um interesse de saúde pública”, recorda a dra. Maylis Douine, do Centro Hospitalar de Caiena (CHC). Desde o primeiro estudo Orpal, em 2015, os pesquisadores estudam as infecções sexualmente transmissíveis dos garimpeiros clandestinos. Durante a avaliação Orpal 2, em 2019, eles adicionaram as zoonoses: febre Q, hanseníase, leptospirose...

O CNRS em Montpellier, que trabalha com as doenças transmitidas por carrapatos, entrou em contato com eles. Ele desejava estudar as amostras recolhidas juntos aos garimpeiros clandestinos. Ele recuperou o DNA de bactérias, o amplificou pela técnica PCR e o comparou com as bases de dados do mundo inteiro. Foi assim que ele chegou a um anaplasma nunca antes descrito. Isso ocorreu há um ano. Alertados, os pesquisadores do Hospital de Caiena e do Instituto Pasteur da Guiana Francesa, onde estava armazenada uma parte das amostras, retomaram o material do paciente e os estudaram no microscópio pra tentar identificar os anaplasmas que penetram nos glóbulos vermelhos. “Efetivamente, visualizamos essas bactérias nos glóbulos vermelhos”, relembra a dra. Douine.

A bactéria foi então batizada de Anaplasma sparouinense, do nome do esteiro [crique] de Sparouine, onde o paciente dizia estar procurando ouro. “Esse novo agente patogênico pertence ao gênero bacteriano Anaplasma, cuja bactéria mais conhecida é a Anaplasma phagocytophilum, responsável pela anaplasmose granulocitária humana”, recorda o CNRS. “Essa zoonose emergente é responsável todos os anos por muitas centenas de casos, por vezes letais. Os estudos genéticos revelaram que o Anaplasma sparouinense é um novo agente infeccioso, diferente de todas as espécies conhecidas de Anaplasma.”

O Anaplasma sparouinense detectado num intervalo de 18 meses junto ao paciente – Os pesquisadores do Hospital de Caiena tentaram então saber que fim levou o garimpeiro clandestino. No momento da coleta, em 2019, ele não apresentava sintomas. Mas a dra. Douine e seus colegas descobriram que em abril de 2021, 18 meses depois das coletas efetuadas num ponto de apoio do garimpo clandestino e cerca de três meses antes da descoberta do anaplasma nas amostras, ele foi internado na Unidade de Doenças Infecciosas e Tropicais (Umit) pela equipe do Centro Deslocalizado de Prevenção e Cuidados (CDPS) de Grand Santi, devido a febre, dores musculares, dores de cabeça, sangramentos nasais e anemia severa. A bateria de exames realizada não revelou a origem de seus sintomas. Ele recebeu um tratamento antibiótico durante três semanas e retomou seu caminho.

Seu prontuário médico informa que ele tinha passado por uma esplenectomia (remoção cirúrgica do baço). O fato de não ter mais o baço pra exercer suas diferentes funções imunológicas de fato aumentou o risco de certas infecções. Seu prontuário permitiu igualmente retomar seu contato. Por telefone, ele indicou ter voltado a viver em casa, no Brasil. Ele autorizou igualmente o Hospital de Caiena a continuar com as pesquisas sobre seu caso. O anaplasma foi encontrado, sobretudo, nas amostras coletadas enquanto ele estava internado no hospital. O paciente, portanto, foi portador da bactéria por pelo menos 18 meses.

De sua parte, o CNRS ressalta que “na realidade existe todo um grupo sul-americano de anaplasmas emergentes, do qual o Anaplasma sparouinense é o primeiro membro descrito como infeccioso pro ser humano. A vida no garimpo, em contato direto com a fauna selvagem, sem dúvida foi um fator determinante pra passagem do agente infeccioso ao ser humano. Ainda é cedo demais pra afirmar a importância que a anaplasmose de Sparouine vai ter no futuro e qual risco sanitário a doença vai então poder apresentar pras populações sul-americanas. Porém, sua mera existência nos relembra que nosso conhecimento da diversidade dos agentes patogênicos que circulam nas zonas naturais isoladas continua sendo muito parcial. A expansão das atividades humanas nessas regiões vai inevitavelmente levar as populações a se exporem ao risco de emergência de zoonoses similares.”

Não há doença de Lyme na Guiana Francesa – Geralmente, quando alguém chega à Guiana vindo da França, a pessoa ouve que não há “problemas com os carrapatos da Guiana, porque eles não transmitem a doença de Lyme”. Isso é confirmado pela dra. Maylis Douine, do CHC: “O CNRS em Montpellier procurou a doença de Lyme em milhares de carrapatos da Guiana e nunca a encontrou. Ela também nunca foi diagnosticada por um clínico.” O prof. Loïc Epelboin (CHC) acrescenta: “Certas pessoas se convencem de que pegaram a doença de Lyme na Guiana, mas não se tem certeza de que realmente a tiveram, e no caso das que tiveram, não se tem certeza de que realmente a pegaram na Guiana.”

A descoberta de um caso de anaplasmose presumivelmente transmitida por um carrapato também não deve gerar preocupação: “Esse caso isolado apareceu num contexto particular, com um paciente que já não tinha o baço e, portanto, sem dúvida mais exposto. Não é preciso ter pânico dos carrapatos.”

No ano passado, o prof. Epelboin tinha aludido a 11 casos de alfa-gal, uma alergia à carne vermelha que poderia ser provocada por uma mordida de carrapatos. Porém, ele matizava: “Nossos resultados não permitem afirmar com clareza que as mordidas de carrapatos são a causa dessa alergia, mas todos os pacientes declararam estar regularmente expostos a esses artrópodes”. Pra ele, o principal problema que a população pode ter com os carrapatos é “o incômodo causado por suas mordidas”.



Visão parcial do esteiro (crique em francês) de Sparouine.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

O Hitler angolano e outros memes afro


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Provável ancestral dos Samussuku, rs. (Tô brincando, leia aqui o contexto da foto!)


Quando assisti a esta reportagem de maio de 2022 do canal France 24, intitulada “Angola : le lourd héritage de la guerre civile” (Angola: a pesada herança da guerra civil), não pude deixar de fazer o meme (ou algo parecido) sobre um dos rapazes que era entrevistado. Hitler Samussuku (sim, isso mesmo que você leu) é um artista que vive ao norte da capital Luanda e é filho de uma ex-combatente da UNITA, movimento armado que se opunha aos marxistas do MPLA, hoje força governante de lá. A UNITA era financiada e apoiada pelos EUA, pelo regime do apartheid sul-africano e por outros países capitalistas, e depois da independência ante Portugal travou uma guerra civil com o MPLA até 2002, quando o líder daquela, Jonas Savimbi, foi morto.

O pior de tudo é que a senhora que batizou seu filho de Hitler ainda aparece na reportagem, mas não é questionada sobre o assunto. Nem na própria edição do programa foi feita qualquer menção crítica. Como se pode supor, o jovem faz canções contra o governo do MPLA, hoje comandado por José Lourenço, sucessor do longevo ditador José Eduardo dos Santos, falecido recentemente. Muitos marxistas roxos poderiam argumentar que a escolha do prenome foi natural, devido à militância de direita e ao suporte dado até pelos racistas da África do Sul. Porém, não dá pra se alegar que aquela mulher era totalmente ignorante e isolada do mundo, e que se precisa de muita idiotice e falta de noção pra batizar alguém com o sobrenome de um dos maiores assassinos e perseguidores de negros da história.

Como já faz um ano que perdi meu canal do YouTube, primeiramente divulguei o trecho, com leves montagens minhas (o que o transformou, a princípio, num meme), entre amigos do WhatsApp, sem tradução na narração francesa. Finalmente segue abaixo a versão em outra plataforma, mais a tradução em português e a transcrição em francês. Aproveitei a ocasião pra começar a republicar outros memes relativos à África que já estavam no antigo Pan-Eslavo Brasil, lançando assim a coleção “Afro memes”. Por sorte, a maior parte deles já tinha a descrição do vídeo salva, e elas formam o grosso desta publicação.

Espero de coração que você tenha gostado da brincadeira e que você não veja aí nenhuma forma de racismo ou preconceito. Se realmente tenha ficado ofendido ou pensa que algo poderia ser mudado, não deixe de me escrever, pois minha atenção será sincera. Já adianto: não há nada aqui relacionado ao grande Rei do Kuduro, o youtuber angolano mais famoso no Brasil, hehehe... “Ai, minha vuaida!”


NOTA: Exceto pelo que transcrevi diretamente do português, todo o resto é uma tradução do francês, que não pôde ser cotejado com o que foi falado pelo angolano.

Hitler Samussuku é um dos militantes políticos mais conhecidos em Angola. Ele escolheu o hip-hop pra reivindicar a mudança em seu país.

[Português no original] “Sempre que vier a noite, desejarás o dia, e quando vier o dia, desejarás a noite. E um aviso pra polícia: não entrem no processo, ou entrem e estejam da nossa parte!”

E em seus textos ele não hesita em afrontar diretamente o Presidente da República e encoraja os angolanos a sair às ruas.

“Vivemos numa sociedade em que a participação política é débil e as pessoas têm muito medo de se expressar, porque elas temem represálias e a repressão do governo. E encontramos no movimento hip-hop uma porta, uma janela pra transmitir nossa mensagem.”

Hitler é filho de Dorca, a antiga combatente que encontramos em Luena. Se ela abandonou a política, traumatizada por 27 anos de guerra, ele considera que a paz não pode se limitar a um simples silêncio das armas. De sua localidade, ele reivindica uma vida melhor pros angolanos.

“Estamos no município de Cacuaco, localizado ao norte de Luanda. É uma localidade com índices muito elevados de pobreza, criminalidade, prostituição e analfabetismo. Este é o portão de uma casa. O esgoto passa bem em frente, e todo mundo pensa que isso é normal.”

Seu engajamento lhe valeu detenções e prisões por várias vezes: em 2015 junto com 16 outros militantes, por terem animado um grupo de estudos em torno do conceito de resistência não violenta; depois novamente em 2019, acusado de ter insultado o presidente num vídeo publicado no YouTube.

“Pra mim, viver em paz seria viver numa sociedade de justiça. Não digo numa sociedade justa, mas pelo menos com uma justiça, com a separação dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Eu estou me engajando, exatamente como minha mãe tinha se engajado a lutar pela paz, estou me engajando a lutar pra que o MPLA deixe o poder, pra termos alternância em Angola e contribuirmos pro desenvolvimento do país.”

Portanto, pra Hitler e seus camaradas, 20 anos após o fim da guerra, a paz ainda está pra ser construída.

[Português no original] “Água, luz, saúde, educação! Água, luz, saúde, educação! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Iééé, resistência, sempre! Resistência, sempre!”

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Hitler Samussuku est l’un des militants politiques les plus connus en Angola. Il a choisi le hip hop pour réclamer le changement dans son pays.

“Sempre que vier a noite, desejarás o dia, e quando vier o dia, desejarás a noite. E um aviso pra polícia: não entrem no processo, ou entrem e estejam da nossa parte!”

Et dans ses textes il n’hésite pas à s’attaquer directement au Président de la République et encourage les Angolais à descendre dans les rues.

“Nous vivons dans une société où la participation politique est faible et les gens ont très peur de s’exprimer, parce qu’ils ont peur de représailles et de la répression du gouvernement. Et nous avons trouvé dans le mouvement hip hop une porte, une fenêtre pour transmettre notre message.”

Hitler est le fils de Dorca, l’ancienne combattante que nous avons rencontrée à Luena. Si elle a abandonné la politique, traumatisée par 27 [vingt-sept] années de guerre, lui considère que la paix ne peut pas se limiter à un simple silence des armes. Depuis son quartier, il réclame une vie meilleure pour les Angolais.

“Nous sommes dans la municipalité de Cacuaco, dans le quartier nord de Luanda. C’est un quartier avec des indices très élevés de pauvreté, de criminalité, de prostitution et d’analphabétisme. Ça c’est le portail d’une maison. Les eaux usées passent juste devant, et tout le monde pense que c’est normal.”

Son engagement lui a valu d’être plusieurs fois arrêté et emprisonné : en 2015 [deux-mille-quinze], au côté de 16 [seize] autres militants, pour avoir animé un groupe d’études autour du concept de résistence non-violente ; puis de nouveau en 2019 [deux-mille-dix-neuf], accusé d’avoir insulté le président dans une vidéo posté sur YouTube.

“Pour moi, vivre en paix, ce serait vivre dans une société de justice. Je ne dis pas dans une société juste, mais au moins avec une justice, avec la séparation des pouvoirs législatif, exécutif et judiciaire. Moi, je suis engagé, tout comme ma mère s’était engagée à lutter pour la paix, je me suis engagé à lutter pour que le MPLA quitte le pouvoir, pour avoir l’alternance en Angola et contribuer au développement du pays.”

Pour Hitler et ses camarades, 20 [vingt] ans après la fin de la guerre, la paix reste donc encore à construir.

“Água, luz, saúde, educação! Água, luz, saúde, educação! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Cacuaco, mais humilhado na gestão! Iééé, resistência, sempre! Resistência, sempre!”


Este meme francês é antigo, de 2015, e vários canais fizeram remix com ele, como o Khaled Freak, onde descobri tal figura. Mesmo assim, pela quantidade de visualizações e comentários, outra publicação pode ter sido a original. Um cidadão gabonês chama o presidente Ali Ben Bongo de “Cafaaaard!” (Baraaaata!), na frente das câmeras do canal de notícias France 24, de uma forma bastante louca e alterada.

Ali Bongo Ondimba (ou ainda Ali Ben Bongo), nascido Alain-Bernard Bongo em 1959, é presidente da república africana do Gabão desde 2009, e foi reeleito em 2016, ambas as votações contestadas por seus opositores. Ele próprio é filho do presidente anterior, Omar Bongo, que praticamente foi dono do país de 1967 até a morte, algo não incomum na África pós-colonial. Pra você ver, o Gabão, que tem mais de 80% da população cristã, ficou independente da França em 1960, e de lá até 1967 governou seu primeiro presidente, Gabriel Léon M’ba

Cafard” (barata) em francês é masculino, por isso Ali Bongo é assim chamado. Equivaleria a ser chamado de “rato”, “cachorro”, “porco” ou algo assim em português. Curiosidade: “avoir le cafard” (literalmente “ter/estar com a barata”) é um idiomatismo que significa “estar triste, deprimido”). Divirta-se com esse carinha que, à maneira do corajoso haitiano do Alvorada, parece ter adivinhado a atual situação brasileira!

Texto do clássico: “Nous voulons parler avec de vraies personnes [sic]. Ali Ben c’est un cafaaaard. Allez montrer ça à toutes les télévisions ! Ali Ben c’est un cafaaaard !”


O professor Imran Hamza Alawiye, nigeriano radicado em Londres, tem o canal que considero ser o melhor instrumento pra aprender o árabe padrão moderno, e mesmo alguma coisa de vários dialetos. Sua própria playlist especial só pra ensinar todos os detalhes da escrita árabe (não é apropriado falar em alfabeto, mas antes em abjad) já valeria pelo canal todo, mas ele continua atualizando constantemente seu YouTube com exercícios e explicações gramaticais!

E além de seus livros físicos constituírem um excelente e agradável material de estudo (comprei alguns deles no fim de 2021), o professor mantém sua jovialidade, leveza e bom-humor, sem forçar nenhum desses sentimentos, e suas explicações são claras e detalhadas. Claro que sua pessoa não seria “engraçada“ por si só pra constituir um meme (como fizeram com a diplomata Cláudia Assaf ensinando a falar a letra “ayin”), mas volta e meia alguns detalhes podem fazer rir.

Veja por exemplo este momento em que ele ensina a palavra árabe sákana, apenas pra ilustrar o aprendizado da escrita. Depois descobri que é a palavra equivalente a “morar, residir, descansar etc.” (o árabe não tem infinitivo, então literalmente significa “ele mora/morou etc.”), mas pros não iniciados, parece que ele fala a palavra portuguesa “sacana”. Assim, o meme tinha ficado no YouTube como “Professor ensina a dizer político em árabe”, hehehe. Mas agora que já expliquei, deve ter perdido a graça!


É uma pena que este vídeo perdido de junho de 2010 esteja num canal igualmente perdido, tenha poucas visualizações e nenhuma apresentação. Parece ter sido feito exatamente por brasileiros!

Alguém já ouviu falar de uma “língua dos cliques” usada na África subsaariana? Acabei indo pesquisar sobre ela e, como muitos, caí nesse vídeo, no qual apenas alguns comentaristas bem posteriores explicam do que se trata. Prepare-se: o nome dessa língua é “tâa ǂâã”, e também é conhecida como “ǃxóõ”, ou apenas “língua taa”.

Nativa dos atuais Botsuana e Namíbia, em 2011 tinha cerca de apenas 2500 falantes nativos. Pertence à família khoisan (ou coissã) e considera-se que é a língua com mais sons no mundo, tendo 31 vogais pelo menos e 86 sons “clique”, grafados por diversos símbolos misturados ao alfabeto latino (isso nas raras ocasiões em que se escreve, claro). Sem contar a multitude de sons que pode ser feita com diversas partes do aparelho fonador!

Esta matéria da revista Superinteressante (2014) fala sobre os idiomas considerados mais “estranhos” e inclui essa língua !xóõ.


Infelizmente, após 12 anos, este “meme raiz” só obteve pouco mais de 20 mil visualizações. Eu mesmo, naquela época mesmo ou antes, devo tê-lo recebido pela primeira vez no e-mail, que era onde o humor circulava antes das redes sociais. Ele tem inclusive legendas, e foi filmado numa rua movimentada de Moçambique, talvez da capital Maputo, quando um militante do partido Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) dava um suposto comício improvisado aos passantes. Ele estava acompanhado de outra pessoa, que fazia uma espécie de interpretação pra surdos, mais humorística do que prática, e seus trejeitos acabaram criando esse “meme antes dos memes”!

Afora o fato da usuária (talvez portuguesa) Joana Gonçalves ter indicado “linguagem gestual” na descrição, não há outras informações sobre o contexto. Essa foi a primeira vez em que ouvi a palavra “suruma”, uma expressão pra “maconha” em Moçambique, dando em “surumáticos” (maconheiros), talvez uma alusão a dependentes em geral. Apenas fiz algumas edições, removendo as tarjas pretas e melhorando o áudio e a imagem.

Uma coisa que pode enganar é que Viva a Frelimo é justamente o nome do hino desse partido de esquerda. O “texto” completo é o seguinte, cada frase repetida 2 vezes: “Viva a Frelimo! Viva a agricultura, que é a base da alimentação do nosso povo! Abaixo os corruptos! Abaixo os surumáticos! Abaixo a prostituição! Muito obrigado, meus amigos.”

English: A militant of the party Frelimo in Mozambique speaking to the people, with a joking gesture language “interpreter” (ca. 2010): “Long live Frelimo! Long live agriculture, that is the basis of our people’s alimentation! Down with the corrupt politicians! Down with the potheads! Down with prostitution! Thank you very much, my friends.”

Français : Un militant du parti Frelimo à Mozambique parle au peuple, accompagné par une personne qui « interprète » son discours vers une langue des signes humoristique (ca. 2010) : « Vive la Frelimo ! Vive l’agriculture, qui est la base de l’alimentation de notre peuple ! À bas les politiciens corrompus ! À bas les fumeurs de marijuana ! À bas la prostitution ! Merci beaucoup, mes amis. »


Não há muito o que explicar: este é Fezinho Patatyy, o maior astro da dança popular de rua chamada “passinho do romano”, colocado numa montagem cuja canção de fundo foi trocada pelo nashiid de alguma organização terrorista islamo-sunita com leve remix de funk. Humor bem nerd mesmo. Devido à origem musical (embora eu nunca tivesse descoberto o significado da letra), quando publiquei no antigo Pan-Eslavo Brasil, o YouTube o apagou quase imediatamente... Mas quem me passou primeiro foi alguém no antigo grupo do canal no WhatsApp.

Em árabe, nashiid significa hino político ou nacional, ou também hino religioso islâmico. Em outra oportunidade, vou publicar também antigos vídeos do canal que tinham brasileiros dançando passinho ao som de música georgiana e um tártaro dançando ao som do “passinho maloca”, hehehe.