Família Reck: música vêneta gaúcha


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Estou continuando a iniciativa inovadora de publicar músicas e álbuns raros. Quando fui à Serra Gaúcha, mais exatamente Gramado, RS, pela segunda vez, em janeiro de 2010, fizemos como sempre o passeio “Raízes coloniais” pela agência CVC. Ele consistia num tour de ônibus pelas principais produções e casas de família em que se ofereciam palestras, encenações, músicas e comida típica aos visitantes. Uma das casas era a da família Foss, na Linha Bonita, em que também tocava e cantava, enquanto comíamos, a Família Reck.

Ela consistia, basicamente, do casal Selvino e Angelina e da filha Mônica, que tocavam respectivamente acordeão, pandeirola e violão. Especializados na cultura vêneta, vêneto-brasileira (talian) e italiana do norte em geral, gravaram em 2008 o álbum Per ricordarsi dei nostri imigranti (Para lembrarmos nossos imigrantes), do qual comprei um CD naquela ocasião. A última vez que fui lá, em março de 2013, eles não estavam tocando na ocasião, mas mesmo assim a música estava muito boa. Apesar dos muitos vídeos que têm aparecido no YouTube sobre a cultura talian e italiana imigrante em geral, bem como das iniciativas que estão codificando e divulgando esse legado, não havia nada na internet sobre a Família Reck.

No início pensei em fazer ainda as legendas com as letras completas e as traduções, mas achei que seria um trabalho demorado e que não valeria tanto a pena de imediato. Por isso hesitei em fazer esses vídeos prontos só com o áudio e os encartes. Se eu for achando exemplares na rede e conseguindo traduzir, vou colocar aqui na descrição! Em 2010 eu também achava que esse “italiano” era “errado” e “inculto”, mas só anos depois descobri que muitas dessas canções eram compostas na variante "talian", ou seja, um substrato vêneto que mistura outros dialetos do norte da Itália e o português brasileiro do Sul interiorano. Como os imigrantes eram de várias regiões setentrionais, é natural que também encontremos, por exemplo, canções ou palavras lombardas e tirolesas.

Atenção especial às faixas 1 (La Mérica), que integrava a trilha sonora do filme O quatrilho, 12 (Bella Polenta), que é muito conhecida nas festas da imigração e descendentes, e 13 (Parabéns Gaúcho), que é a peculiar canção de aniversário do Rio Grande do Sul (na verdade há muitas versões). As informações técnicas (fichas) estão nas imagens do vídeo. Bom divertimento!


1. La Mérica


2. Filandia


3. Quattro cavalli che trottano


4. La murichella


5. Bella bionda


6. Quel mazzolin di fiori
(leia também a história e tradução desta canção)


7. Festa de lucce e color


8. Rataplan


9. Te ricordi Adelina


10. La verginella


11. La strada del bosco


12. Bella polenta


13. Parabéns gaúcho


“Tom & Tim” (animação de T. Neuttiens)


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Minha última homenagem de Natal e festas a quem está assiduamente acompanhando o site! Em 1998-99, quando eu era criança, passava na extinta TVE um programinha com animações importadas, Desenhando, no fim da manhã e no começo da noite. Algumas eram dubladas, mas outras dependiam apenas da parte visual pro entendimento (tipo Pingu, mas esse não passava na ocasião), como Tom en Tim (pronúncia holandesa de “Tom e Tim”), cuja origem eu nunca soube. Ao pesquisar no YouTube, descobri que foi criada em 1994 pelo animador e design gráfico holandês Tom Neuttiens.

Ao contrário da “vida louca” Auguszta, os episódios de Tom & Tim, difíceis de achar na rede, são muito mais simples e infantis, pois consistem apenas de cenários e personagens montados com bloquinhos de brinquedo. Isso gera, claro, mais identificação dos pequenos com seu mundo de cores e montagens. Tom, o homenzinho principal, vive rápidos enredos com seu cãozinho Tim, mas antes disso sempre passam curtíssimas vinhetas misturando a animação dos bloquinhos com alguma música simples.

Não achei mais nada sobre Tom Neuttiens, a não ser pouquíssimos fragmentos pelo Google, segundo os quais ele estaria na casa dos 50 anos e daria aulas em faculdades de arte e design gráfico. Soltas por aí, também achamos algumas mídias sociais de material artístico, com várias montagens semelhantes à do desenho, mas geralmente abandonadas e com pouco conteúdo. Assim como Auguszta e Zénó, eu tinha postado os vídeos abaixo no YouTube em algum momento de 2020. Não me lembro bem quais eram os endereços originais, mas alguns provavelmente são:
http://youtu.be/t1UK_LqXg8E
http://youtu.be/7VJAk5tgJb8
http://youtu.be/A5-90-nmqCI











Zeno (animação húngara, Ferenc Cakó)


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Mais um presente de Natal a meu velho público! Por volta do fim de 2020, no rastro da animação húngara Auguszta (ou “Augusta”), que eu tinha postado no antigo canal Pan-Eslavo Brasil e acabei de pôr aqui, encontrei outro personagem de animação em massinha criado na Hungria na década de 1980. O boneco Zénó foi criado pelo diretor gráfico e de animação Ferenc Cakó (nascido em 1950), produzido pelo Estúdio Pannónia e exibido pela TV estatal húngara de 1985 a 1988. Assim como a Augusta, criada pelo também húngaro Csaba Varga, ele tenta fazer coisas novas, mas sempre acaba se dando mal.

O nome Zénó na verdade é a versão húngara do prenome grego Zénon, traduzido em espanhol como Zenón (quem se lembra do “Zenón Barriga y Pesado”, nome real do Seu Barriga?...) e em português como Zenão. Mas como a forma “Zeno” também é largamente usada no Brasil, podemos assim traduzir nosso querido amiguinho. Os títulos e os enredos são extremamente simplórios, como em toda animação do gênero, e alguns têm em húngaro literalmente os mesmos nomes dos da Augusta, como “Zeno fazendo dieta”, “Zeno e o rato/ratinho” e “Zeno escreve uma carta de amor”.

Segundo a Wikipédia em húngaro (cujo artigo traduzi pro inglês com a ajuda do Google), que tem a lista completa dos títulos, a animação foi produzida em quatro temporadas, abrangendo cada ano de 1985 a 1988. A primeira vai de “Zeno e o aspirador de pó” até “Zeno e as notícias”, a segunda de “Zeno escreve uma carta de amor” até “Zeno na casa do terror”, a terceira de “Zeno costureiro” a “Zeno está com frio”, e a quarta de “Zeno e a mancha” a “Zeno fumando cigarro”. A voz de Zeno é sempre feita pelo ator Gyula Szombathy, nascido em 1945.

Em 2005 a Budapest Film lançou uma edição em DVD de todos os episódios do Zeno em alta qualidade, e um upload desse material no YouTube tinha sido minha fonte. Soube que o canal do vídeo foi apagado, mas encontrei outro canal com material de DVDs húngaros, trazendo os vídeos das quatro temporadas e o menu daquele DVD. Aí, a ordem é um pouco diferente daquela em que os episódios foram produzidos na década de 1980, mas foi esta original que segui.

Nem sempre minhas traduções são literais, e me baseei na tradução do Google pro português, nos títulos oferecidos por um site em inglês e em de consultas ao Wikicionário. Junto de cada vídeo, você encontra o título original em húngaro, o título que dei ao postar no YouTube em 2020 e o título em inglês:


Zénó és a porszívó (Zeno e o aspirador de pó) Zénó and the vacuum


Zénó és a léggömb (Zeno e a bexiga) Zénó and the balloon


Zénó és a pók (Zeno e a aranha) Zénó and the spider


Zénó és az autómodell (Zeno e o carrinho) Zénó and the model car


Zénó fogat mos (Zeno escova os dentes) Zénó brushes his teeth


Zénó és a hírek (Zeno e as notícias) Zénó and the news


Zénó szerelmeslevelet ír (Zeno escreve uma carta de amor) Zénó writes a love letter


Zénó horgászik (Zeno pescando) Zénó is fishing


Zénó álmatlan (Zeno está com insônia) Zénó is sleepless


Zénó beteg (Zeno está doente) Zénó is sick


Zénó és a horror (Zeno na casa do terror) Zénó is frightened


Zénó varr (Zeno costurando) Zénó is stitching


Zénó fogyókúrázik (Zeno fazendo dieta) Zénó is on a diet


Zénó locsol (Zeno regando a terra) Zénó sprinkles the soil


Zénó fázik (Zeno está com frio) Zénó is freezing


Zénó és a folt (Zeno e a mancha) Zénó and the stain


Zénó ragaszt (Zeno e a cola instantânea) Zénó and the instant glue


Zénó barkácsol (Zeno e o faça-você-mesmo) Zénó doing it himself


Zénó és a húsvét (Zeno na Páscoa) Zénó and Easter


Zénó kopasz (Zeno contra a calvície) Zénó against baldness


Zénó és az egér (Zeno e o ratinho) Zénó and the mouse


Zénó füstöl (Zeno fumando cigarro) Zénó is smoking


Augusta (animação húngara, C. Varga)


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Como presente de Natal a meu velho público, uma das pérolas raras que só conhece quem viveu muita coisa! Em 1998-99, quando eu era criança, passava na extinta TVE um programinha com animações importadas, Desenhando, no fim da manhã e no começo da noite. Algumas eram dubladas, mas outras dependiam apenas da parte visual pro entendimento (tipo Pingu, mas esse não passava na ocasião), como Auguszta (ou “Augusta”), cuja origem eu nunca soube. No fim de 2020 descobri que era húngara, do começo dos anos 80, e que foi criada pelo animador Csaba Varga.

O mais bizarro é que a criatura feminina de massinha não só tem uma voz esquisita, como também se envolve em situações muitas vezes beirando o humor negro e tá sempre zen, apesar de ocorrerem as maiores cagadas! Como eu disse, pra curtir a animação não é preciso saber línguas estrangeiras, a não ser que se queira entender os créditos. Espero que você tenha achado engraçado, mesmo com passagens meio nojentinhas... e que outros brasileiros fascinados pelo antigo Leste europeu também deem algumas risadas!

Csaba Varga (“tchóbó vórgó”, 1945-2015) foi inicialmente professor de matemática, mas fez carreira como diretor de cinema e animação e escritor. Embora também tivesse realizado pesquisas linguísticas, a validade científica desses trabalhos é contestada. Ele fez sua primeira animação em 1970 e seu primeiro longa-metragem em 1977. Muito premiado, Varga filmou a maioria dos episódios de Auguszta durante os anos 80, sobretudo na primeira metade, e começo dos 90.

Em 2020 eu tinha postado no meu extinto YouTube todos os episódios disponíveis na internet com os títulos em húngaro e sua tradução. Como este é um material muito raro, e como minha conta gratuita do BitChute não permitia criar um número suficiente de playlists pra que os vídeos pudessem todos ser vistos em sequência, todos os dados seguem aqui, não necessariamente em ordem cronológica. Só acho que o episódio “Augusta fazendo almoço” surgiu primeiro, por causa do estilo mais tosco e da diferença gráfica em relação aos demais.


Az ebéd/Kedvesem főz (Augusta fazendo almoço)


Auguszta etet (Augusta dando comida)


Auguszta szépitkezik (Augusta fazendo a beleza)


Auguszta csókja (Augusta beijando)


Auguszta szerelmeslevelet ír (Augusta escreve uma carta de amor)


Auguszta altat (Augusta põe pra dormir)


Auguszta fogyókúrázik (Augusta fazendo dieta)


Auguszta vendégei (Augusta recebe visitas)


Auguszta beteget ápol (Augusta cuidando de um doente)


Auguszta és az egér (Augusta e o rato/caçando um rato)


Auguszta a parafenomén (Augusta, a paranormal/se torna paranormal)


Auguszta és a kutya (Augusta e o cachorro/adota um cãozinho)
O mais ownnn de todos, na minha opinião, rs.


Treze dias em que a URSS quase voltou


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“Todo o poder aos sovietes”... Só que não?


Não sei se foi algum visitante do antigo canal Pan-Eslavo Brasil que me recomendou este vídeo, mas quando o vi na íntegra e descobri seu potencial, decidi baixá-lo, editar o quadro e o áudio e postar sem tradução ou legendas, já que a maior parte são apenas imagens e uma boa parte é falada em inglês por repórteres. Segundo o dono do canal original, trata-se de cenas da crise constitucional na Rússia em 1993, conflito geral desencadeado entre 21 de setembro e 4 de outubro, quando o Soviete Supremo da Rússia e o Congresso dos Deputados do Povo decidiram opor-se às políticas de austeridade e desmonte estatal levadas a cabo pelo presidente pós-soviético Bóris Iéltsin. A edição, obviamente, com informações escritas no começo e no fim, ressalta a propaganda anticapitalista e pró-URSS, mas aqui deixei apenas o material com estas explicações históricas, pra você refletir.

Aquelas duas casas legislativas, herança dos tempos comunistas, ainda existiam em 1993, e em meio à devastação econômica e social provocada pela “terapia de choque” neoliberal sob o comando de Ieltsin e o FMI, começaram a se opor aos projetos de reforma constitucional e às medidas econômicas. O presidente desejou dissolver o legislativo, embora não lhe coubesse essa competência, e os deputados tentaram depô-lo (impeachment), colocando no ligar o vice-presidente Aleksándr Rutskói.

Se em 1991 o povo apoiou Gorbachóv e Ieltsin contra a tentativa de golpe da “linha-dura”, em 1993 o povo que protestava contra a miséria foi duramente reprimido pela polícia, enquanto o exército bombardeava o prédio do Parlamento (a “Casa Branca”) e quebrava a resistência dos legisladores. Em meio aos combates de rua mais letais em Moscou desde as revoluções de 1917 e a prisões em massa, Ieltsin terminou ganhando e conduzindo a adoção da nova Constituição da Federação Russa em 12 de dezembro de 1993. Ela consolidou o atual regime bicameral com a Duma de Estado e o Conselho da Federação, além de maiores poderes ao presidente.

O que indigna, contudo, é a brutalidade com que a população em protesto foi tratada pelo exército e pela polícia. Na primeira parte, vemos o início dos choques, com o povo chegando perto do Parlamento e as primeiras brigas com policiais. Na segunda parte, com ampla cobertura internacional, sobretudo de TVs americanas, vemos soldados atirando nos manifestantes com balas de verdade, assim aumentando ainda mais a letalidade da “resistência” governamental. E no fim, seguem-se as passeatas pacíficas do povo (não sei se durante ou depois da crise), com a ostentação de inúmeros símbolos da antiga URSS, como a foice-e-martelo e a bandeira nacional vermelha.

Na Rússia (as outras velhas RSS fizeram referendos em que o povo aprovou a independência), um referendo realizado em 1991 teve mais de 70% dos votos contra a dissolução da União Soviética, mas o resultado foi solenemente ignorado por Ieltsin e Gorbachov. As reformas iniciadas em 1992 levaram a uma inflação de 2600% naquele ano, e a queda no PIB chegou a estas cifras: -3% (1990), -5% (1991), -14,5% (1992), -8,7% (1993) e -12,7% (1994). Nos anos 90, criminalidade e corrupção dispararam, o serviço de saúde desmoronou e a expectativa de vida despencou.



Gorbachov e o fim da União Soviética


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Pra nos lembrarmos dos 30 anos do fim da União Soviética, que serão completados no dia 25 de dezembro de 2021, estou trazendo algumas matérias do Jornal Nacional que achei por acaso, enquanto procurava outros vídeos históricos. Alguns vídeos são do YouTube, outros do próprio site do Globoplay, de cuja seção de jornalismo eu consegui craquear algumas pérolas pra lá de históricas.

A razão pra eu ter feito esta postagem, além do próprio aniversário redondo desses importantes eventos, foi que eu queria ter um suporte pros referidos vídeos, já que originalmente eu os tinha postado no antigo canal Pan-Eslavo Brasil, do YouTube, que foi, porém, derrubado pelo Google em agosto de 2021. Infelizmente, por eu não ter feito o backup de algumas informações antes que ocorresse esse incidente, não pude indicar de novo o endereço original de alguns dos vídeos.

Não repostei nem incorporei aqui a famosa reportagem de Pedro Bial falando de Moscou, quando Mikhail Gorbachov deixou a presidência da URSS (fato que selou a dissolução da União), porque ela pode ser facilmente encontrada no YouTube. Porém, há muitos anos já postei aqui o célebre discurso de renúncia nas versões escrita e legendada. Após cada vídeo, seguem também as descrições reconstituídas ou originais que podiam ser lidas no Pan-Eslavo Brasil.

Quem na prática governava a URSS desde Stalin era o secretário-geral do Partido Comunista único, embora nunca houvesse uma lei a respeito. Gorbachov assumiu o posto em 11 de março de 1985, e em 1.º de outubro de 1988 passou a acumular a liderança do Soviete Supremo (parlamento), renunciando ao segundo em 15 de março de 1990. Nesse mesmo dia, assumiu o recém-criado posto de “presidente da União Soviética”, que absorveu parte das funções da chefia parlamentar e deveria comportar o chefe de Estado.

Gorbachov só renunciou à liderança do partido em 24 de agosto de 1991, pouco antes da organização ser suspensa após a tentativa de golpe de Estado, e no Natal passaria a presidência da URSS a Boris Ieltsin, presidente da Rússia eleito em 1990. Com as independências nacionais das repúblicas gradualmente proclamadas, o cargo perdia sua razão de ser.



Gorbachov diz que pode renunciar se as reformas falharem (Jornal Nacional, 4 de julho de 1990)

O então presidente da antiga União Soviética, Mikhail Gorbachov, disse no dia 4 de julho de 1990 que se as reformas econômicas em curso, batizadas de “perestroika” (reconstrução, reestruturação), não dessem certo, ele poderia renunciar ao cargo. Era uma espécie de chantagem emocional contra os “conservadores”, que ainda estavam pesando nas decisões do último congresso do PCUS, o partido único. Foi profético: a URSS se dissolveu, a economia foi pro saco e ele renunciou no Natal de 1991.

Em maio de 2021 eu assisti no YouTube à íntegra do Jornal Nacional daquele dia, e encontrei a referida matéria por acaso. Além da chamada no bloco inicial, deixei uma cômica referência ao Maradona no final (que era o final daquele bloco), hehehe. Na época, Cid Moreira e Sérgio Chapelin ainda apresentavam em épica dupla, e Sílio Boccanera fazia a cobertura de Moscou. Este repórter tinha ficado famoso após cobrir a queda do Muro de Berlim em 1989 e ser filmado na célebre reportagem em cima da obra, em ângulo de aproximação gradual. Após 31 anos de serviço, Boccanera se aposentaria em 2019.



Mikhail Gorbachov sofre tentativa de golpe de Estado na URSS (Jornal Nacional, 19 de agosto de 1991)

Mikhail Gorbachov foi eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética em 1985, assumindo, portanto, o comando efetivo da superpotência comunista. Porém, ele mesmo criou logo depois o cargo de “presidente da URSS”, que o próprio também ocupou, como forma de separar o partido único do aparelho de Estado. Altamente impopular e com um governo desgastado pela saída militar do Afeganistão, pelas privatizações corruptas, pela perda do bloco comunista na Europa Oriental, pelo fracasso das reformas estruturais e pelo colapso econômico, Gorbachov sofreu uma tentativa de golpe militar da chamada “linha dura” do PCUS, mais ligada às antigas práticas.

Em 19 de agosto de 1991, ele estava tirando férias na península da Crimeia (hoje parte da Ucrânia, mas ocupada pela Rússia desde 2014), quando uma parte opositora das Forças Armadas tomou os principais prédios públicos de Moscou, encontrando, porém, resistência popular. Essa resistência ao golpe, que visava retroceder em todas as reformas liberalizantes instauradas por Gorbachov, foi comandada do parlamento da RSFS da Rússia pelo presidente russo eleito no ano anterior, Boris Ieltsin. Ocidentalizante e liberal, ele tinha rompido com Gorbachov e agora protagonizava o combate ao comunismo e às velhas práticas.

Naquela madrugada, o parlamento foi bombardeado e severamente avariado, e a população estava sob toque de recolher, mesmo não o respeitando plenamente. Ainda noite no Brasil, o Jornal Nacional com os lendários Cid Moreira e Sérgio Chapelin informava que, na falta de informações exatas, dizia-se que Gorbachov tinha sido levado dos balneários da Crimeia a um local desconhecido, ou mesmo a Moscou. Como saberíamos depois, o golpe fracassou e Gorbachov retomaria suas funções, renunciando ao cargo de secretário-geral e, finalmente, ao de presidente da URSS em 25 de dezembro, data que ficou marcada como a dissolução efetiva da União. Ieltsin promulgaria a constituição da Federação Russa em 1993 (alterada em meados de 2021 por emendas propostas por Vladimir Putin), e seria reeleito presidente em 1996, mas não impediria, naquela década, de levar a Rússia a um abismo muito maior.

Como correspondente especial em Moscou, usando o velho telefone fixo, num tempo em que a popularização da internet (então já inventada) ainda era um sonho, falava Pedro Bial, ex-apresentador do BBB antes de Tiago Leifert e atual apresentador, ainda na Globo, do programa Conversa com Bial.



Gorbachov nos 25 anos da queda do muro (Berlim, Jornal da Globo, 7 de novembro de 2014)

Reportagem do Jornal da Globo apresentada pelo ex-global William Waack em 7 de novembro de 2014 mostra Mikhail Gorbachov participando da celebração dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, na capital da Alemanha hoje unificada. O último dirigente da União Soviética (como secretário-geral do Partido Comunista e como seu único “presidente”) teve um papel fundamental no fim da chamada “guerra fria” e do antigo bloco comunista da Europa, mas deixou seu país falido e desorganizado.

Admirado, contudo, como um grande líder pela comunidade internacional, participou então do aniversário, deixando a marca de suas mãos no Checkpoint Charlie, o mais famoso posto de fronteira entre as duas Alemanhas. De 1949 a 1989, o país foi dividido pelas potências vencedoras da 2.ª Guerra Mundial em um lado ocidental (capitalista) e outro oriental (comunista), sendo Berlim, encravada no lado comunista, também dividida em duas. A fuga de pessoal qualificado do lado oriental levou o então líder comunista Walter Ulbricht, com a anuência do soviético Nikita Khruschov, a construir em 1961 um grande muro de concreto, cheio de postos de vigia armados, cortando as duas partes de Berlim.

O muro se tornou na “guerra fria” um símbolo infame da hostilidade e ruptura entre os dois blocos mundiais, mas terminou sendo retirado pela pressão popular, em 1989, durante protestos sociais que sucederam a comemoração dos 40 anos da Alemanha comunista. Evento inesperado que levou abaixo os já terminais regimes comunistas vizinhos, escapou ao controle de Gorbachov, que teve de ver passivo a reunificação das Alemanhas em 1990 e a dissolução da própria URSS em 1991.

Após sua renúncia, Gorbachov nunca mais ocupou cargos públicos, tendo recebido uma votação irrisória como candidato à presidência da Rússia em 1996. O próprio William Waack, mesmo sendo jornalista, escreveu vários livros sobre partidos e regimes comunistas, sendo o mais famoso deles Camaradas, com uso pioneiro, embora ilegal, da documentação da Comintern em Moscou no início dos anos 90.




Viva Belarus (hino de belarussos livres)


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Neste canal cultural (o vídeo está privado) foi postada uma canção muito interessante, chamada “Жыве Беларусь: гімна свабодных беларусаў”, literalmente Viva Belarus: o hino dos belarussos livres. Por quase um ano, desde julho de 2020, a população de Belarus (Bielo-Rússia até 1991), antiga república da URSS encravada entre a Rússia, a Polônia e a Ucrânia, realizou manifestações contra mais uma reeleição, claramente fraudada, do presidente Aleksandr Lukashenko. Ele está no poder desde 1994, foi o único deputado local a votar contra a independência da União Soviética e evitou políticas de “choque de mercado” e liberalização econômica que causaram, ao menos de início, problemas aos países saídos do comunismo.

Várias dessas nações, porém, prosperaram, enquanto Belarus sofreu aos poucos o desgaste da intervenção estatal e do autoritarismo político de Lukashenko, que eliminou quase toda a oposição, boa parte dela exilada na Europa Ocidental ou na América. Lukashenko é um aliado fiel e incondicional da Rússia, sobretudo do governo de Vladimir Putin. Além disso, há um conflito cultural concernente à língua: enquanto boa parte da população usa o russo (língua dominante no espaço público) dentro da família, outros criticam que durante a era soviética o uso do belarusso foi desencorajado, e que mesmo depois seu uso não foi estimulado. A bandeira histórica que você vê no vídeo foi adotada por Belarus logo após a independência, mas Lukashenko restaurou a da RSS da Bielo-Rússia, sem os símbolos comunistas.

O belarusso (chamado de “russo branco” no passado, sem relação com o Exército Branco da guerra civil de 1918-20) é uma língua eslava oriental, irmã do russo e do ucraniano, com algumas pitadas de polonês, e por isso pra mim não foi difícil traduzir o poema do original. Não sei o quanto essa música é difundida em Belarus, mas essa ressurgência cultural não é unânime entre a população. No início do vídeo pode-se ler: “Pelo bem de todos os que não se calam. Pelo bem dos que deram a vida. Pelo bem da Nova Belarus.” No canal há também esta mensagem: “Гэты цяжкі час пройдзе. І наступіць іншы: свабодны, светлы, справядлівы. Мы ўвойдзем у яго з гімнам нашай барацьбы. Жыве Беларусь!” (Este tempo difícil vai passar. E vai começar outro: livre, luminoso, justo. Vamos entrar nele com o hino de nosso combate. Viva Belarus!)

No canal do Telegram da iniciativa cultural pode-se baixar o MP3. Aparecem também os seguintes créditos na descrição original:
– Letra: Vadzim Kalatsei, Uladzislau Kalatsei e Pavel Kalatsei
– Melodia: Pavel Kalatsei e Illiá Kalatsei
– Vozes: Ievan’helina Kalatsei, Pilip Dzmitruk, Bahdan Haraieu, Pavel Kalatsei, Illiá Kalatsei e Vol’ha Kalatsei
– Vídeo: Vadzim Kalatsei

Nota: Se porventura aparecer a forma “bielo-russo/a/s” ao invés de “belarusso/a/s” no vídeo, é porque na época eu não sabia que em português o substantivo pátrio e o adjetivo também deveriam seguir a mesma mudança estabelecida pro nome do país. Como não consegui mudar as partes correspondentes no vídeo, portanto me desculpem!



Свабодны мы народ,
У якога годнасць ёсць.
Шануем мы сваю зямлю
І сэрцаў прыгажосць.
Так праўды прагнем мы
І душаў чысціні.
Адзін за аднаго
І з Богам
Разам мы.

Жыве Беларусь!
Жыве Беларусь!
Адзіны дом.
Свабоды шлях.
Яна
У глыбінях сэрцаў
І ў вяках.
Жыве Беларусь!

Мы ўсё перамаглі:
Навалы, боль і страх.
Крывёю змагароў паліты
Наш свабоды сцяг.
Будуем мірны лёс
Мы на сваёй зямлі.
Адзін за аднаго
І з Богам
Разам мы.

Жыве Беларусь!
Жыве Беларусь!
Спявае гімн свабодная зямля
З агнём ў сэрцы і вачах.
Жыве Беларусь!

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Somos um povo livre
Que tem dignidade.
Respeitamos nossa terra
E a beleza dos corações.
Assim, ansiamos pela verdade
E pela pureza das almas.
Uns pelos outros
E junto com Deus
Seguimos unidos.

Viva Belarus!
Viva Belarus!
Um lar unificado.
Um caminho de liberdade.
Ela
No fundo dos corações
E através dos séculos.
Viva Belarus!

Nós passamos por tudo:
Desastres, dor e medo.
Regada com sangue de lutadores
Está nossa bandeira de liberdade.
Estamos criando um rumo pacífico
Nós em nossa terra.
Uns pelos outros
E junto com Deus
Seguimos unidos.

Viva Belarus!
Viva Belarus!
A terra livre entoa um hino
Com fogo no coração e olhos.
Viva Belarus!




Merkel e Scholz prestando juramento


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Hoje, 8 de dezembro de 2021, a ex-chanceler federal (primeira-ministra, ou presidente do governo) alemã Angela Merkel, do partido conservador democrata-cristão (CDU), transmitiu seu cargo ao líder da nova coalizão formada, Olaf Scholz, presidente do Partido Social-Democrata Alemão (SPD). Embora a CDU liderada por Armin Laschet tenha conseguido o segundo lugar nas eleições parlamentares deste ano, o governo vai consistir numa aliança entre sociais-democratas, liberal-democratas livres e o Partido Verde.

Merkel, nascida e criada na antiga Alemanha Oriental comunista (RDA, ou DDR), tinha tomado posse em 22 de novembro de 2005, tornando-se uma das chanceleres mais longevas da história alemã desde a formação do país, em meados do século 19. Nesse tempo, ficou muito popular e admirada pelos alemães ao promover progresso econômico, protagonismo dentro da União Europeia e a superação de crises sanitárias, climáticas e econômicas. Pra termos uma noção, Adolf Hitler foi empossado como chanceler no fim de janeiro de 1933, depois se apropriou do cargo de presidente deixado por Hindenburg, tornou-se assim “Führer” da Alemanha e se suicidou no fim de abril de 1945. Ou seja, apesar dos estragos, permaneceu “apenas” 12 anos no poder supremo. Merkel foi reeleita pra quatro mandatos consecutivos, de quatro anos cada um, já que em países parlamentaristas não é comum premiês terem limite de mandatos. Também ficará famosa como a primeira mulher a ocupar o cargo, e a única até o momento.

Scholz tem 63 anos e nos últimos três anos já tinha sido ministro das Finanças de Merkel, pois o SPD tinha então passado a integrar a coalizão de governo. Já se encontrou com Lula na recente turnê deste pela Europa, e embora não tenha prometido rupturas muito radicais, anunciou várias reformas liberalizantes que dariam um novo rumo à Alemanha. Você pode ler o texto original do juramento de posse determinado pela lei no verbete “Amtseid” da Wikipédia alemã, mas a fonte principal pra minha tradução em português foi “Oath of office” da Wikipédia em inglês e sua respectiva versão. O vídeo de 2005 com Angela Merkel já ficou célebre no YouTube, e o vídeo de 2021 foi gravado hoje e postado pelo canal local de notícias Tagesschau.

A frase final “Que Deus me ajude”, devido ao pluralismo de crenças na Alemanha, é de pronúncia opcional, e como Scholz não é uma pessoa religiosa, ele escolheu não a dizer. O antecessor de Merkel, o social-democrata Gerhard Schröder, mesmo sendo luterano, teve a mesma atitude. Eu mesmo cortei os trechos e inseri as legendas:



Alemão: Ich schwöre, dass ich meine Kraft dem Wohle des deutschen Volkes widmen, seinen Nutzen mehren, Schaden von ihm wenden, das Grundgesetz und die Gesetze des Bundes wahren und verteidigen, meine Pflichten gewissenhaft erfüllen und Gerechtigkeit gegen jedermann üben werde. So wahr mir Gott helfe.

Inglês: I swear that I will dedicate my efforts to the well-being of the German people, promote their welfare, protect them from harm, uphold and defend the Basic Law and the laws of the Federation, perform my duties conscientiously, and do justice to all. So help me God.

Português: Prometo dedicar meus esforços ao bem-estar do povo alemão, promover sua prosperidade, protegê-lo da desgraça, preservar e defender a Constituição e as leis federais, cumprir atenciosamente com meus deveres e fazer justiça a todos. Que Deus me ajude.

Alphadi, estilista que fala desafinando


Link curto pra esta postagem : fishuk.cc/alphadi


Já viu aquelas pessoas que falam desafinando, ou quando às vezes alguém desafina quando não está prestando atenção no próprio jeito de falar (como o próprio “marreco” Sergio Moro)? Numa das reportagens deste boletim jornalístico da TV5 Monde de 18 de outubro de 2021, o célebre estilista tuaregue Alphadi, cidadão do Níger, desafina o tempo todo, sobretudo quando enfatiza as sílabas tônicas.

Não é nenhum preconceito, mas simplesmente achei engraçado o jeito dele de falar, hehehe. Nascido Sidahmed Seidnaly em 1957, na cidade de Timbuktu (Mali), Alphadi vive desde criança no Níger, quando este obteve sua independência da França, e tem fortes ligações com o Marrocos. Seguem abaixo o vídeo legendado, a transcrição da fala em francês e a tradução e português, ambas feitas por mim:



Un homme européen porte une couleur comme ça sans problème... Une couleur encore mieux [sic], sans problème. La haute couture c’est d’abord francophone, “chu” désolé. Les meilleurs créateurs aujourd’hui sur ce continent, c’est des créateurs francophones. Ceux qui font la haute couture, ceux qui font les travails de qualité, c’est des créateurs francophones. Les créateurs anglophones n’ont même pas de matière première pour travailler.

(Um homem europeu veste uma cor assim sem problemas... Uma cor ainda melhor, sem problemas. A alta costura é antes de tudo francófona, sinto muito. Hoje os melhores estilistas deste continente são estilistas francófonos. Os que fazem a alta costura, os que produzem os trabalhos de qualidade, são estilistas francófonos. Os estilistas anglófonos não têm sequer matéria-prima para trabalhar.)