Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

22 de novembro de 2017

Во саду дерево цветёт: canto cossaco


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/vosadu


Linda canção cossaca russa, que há muitos anos me pediram pra legendar, mas só há algum tempo fiz isso. Ela se chama “Во саду дерево цветёт” (Vo sadu derevo tsvetiot), Uma árvore floresce no jardim, às vezes também intitulada Da v sadu derevo tsvetiot. É mais uma composição que não tem autor e época definidos, mas faz parte do patrimônio cultural dos cossacos.

A cultura dos soldados cossacos livres é comum à Rússia e à Ucrânia, nesta tendo uma presença ainda mais forte. Muitas de suas músicas sobrevivem e são executadas até hoje, por grupos folclóricos (e também pelo exército russo) que incrementaram ainda mais a parte musical e coreográfica. Esse trânsito mútuo entre russos e ucranianos faz com que muitas letras, embora escritas formalmente em russo, tenham muitas características do sul do país, ou seja, muito próximas às da língua ucraniana.

Vou dar alguns exemplos. O uso da preposição u no lugar de v indicando alvo de movimento é muito mais comum no ucraniano do que no russo, embora neste haja uma evidente intenção eufônica. Ou seja, u pokhod (pra marcha), e não v pokhod. Devka ao invés de devushka (moça) também é dialetal e antigo, às vezes designando uma prostituta, como ocorre na ambiguidade que os brasileiros dão ao termo “rapariga”. O uso de kari no lugar de karie (castanhos) lembra igualmente a terminação de adjetivos ucranianos no plural. O verbo pobachit empregado como uvidet (ver, olhar) é outro decalque direto do ucraniano. E enfim, o que parece ser mais evidente: a pronúncia de gore ne beda (não adianta lamentar) no refrão como hore ne beda, dando pronúncia ucraniana padrão à letra Г (que, de fato, às vezes também é falada “g” no ucraniano do leste).

Eu mesmo traduzi e legendei, tendo postado meu vídeo no meu canal Eslavo (YouTube). A filmagem sem legendas, postada em 2012, consiste numa apresentação de artistas do Teatro Dramático Popular de Irkutsk, em evento folclórico lembrando os 75 anos da Província de Irkutsk, no museu Taltsy (Тальцы). Eu tirei a letra em russo do site do conjunto Kazachi Krug, onde também pode-se ouvir sua própria gravação. Seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português:


____________________


Да в саду дерево цветёт,
Да казак у поход идёт.
Раз-два, горе не беда,
Да казак у поход идёт.
Раз-два, горе не беда,
Да казак у поход идёт.

Ой, да казак у поход идёт,
Да за ним девка слёзы льёт.
Раз-два, горе не беда,
Да за ним девка слёзы льёт.
Раз-два, горе не беда,
Да за ним девка слёзы льёт.

Эй, да не плачь, девка, не рыдай,
Да кари очи не стирай.
Раз-два, горе не беда,
Да кари очи не стирай.
Раз-два, горе не беда,
Да кари очи не стирай.

Ой, да тогда, девка, заплачешь,
Да как у строю побачешь.
Раз-два, горе не беда,
Да как у строю побачешь.
Раз-два, горе не беда,
Да как у строю побачешь.

Да как у строю, у строю,
Да на вороненьком коню.
Раз-два, горе не беда,
Да на вороненьком коню.
Раз-два, горе не беда,
Да на вороненьком коню.

Да на вороненьком коне,
Да на казачем на седле.
Раз-два, горе не беда,
Да на казачем на седле.
Раз-два, горе не беда,
Да на казачем на седле.

____________________


Uma árvore floresce no jardim,
O cossaco está indo em marcha.
Um, dois, não adianta lamentar,
O cossaco está indo em marcha.
Um, dois, não adianta lamentar,
O cossaco está indo em marcha.

O cossaco está indo em marcha,
Atrás dele uma mocinha chora.
Um, dois, não adianta lamentar,
Atrás dele uma mocinha chora.
Um, dois, não adianta lamentar,
Atrás dele uma mocinha chora.

Não chore, menina, não soluce,
Enxugue seus olhos castanhos.
Um, dois, não adianta lamentar,
Enxugue seus olhos castanhos.
Um, dois, não adianta lamentar,
Enxugue seus olhos castanhos.

Então, menina, você vai chorar
Quando for olhar para as tropas.
Um, dois, não adianta lamentar
Quando for olhar para as tropas.
Um, dois, não adianta lamentar
Quando for olhar para as tropas.

Olhar para as tropas, as tropas
E olhar para o cavalinho negro.
Um, dois, não adianta lamentar,
E olhar para o cavalinho negro.
Um, dois, não adianta lamentar,
E olhar para o cavalinho negro.

Ao olhar para o cavalinho negro,
Ao olhar para a sela do cossaco.
Um, dois, não adianta lamentar
Ao olhar para a sela do cossaco.
Um, dois, não adianta lamentar
Ao olhar para a sela do cossaco.




19 de novembro de 2017

Igor Rasteriaiev – “Проводы” (cômica!)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/provody


Não sei se essa era mesmo uma canção que me pediram há algum tempo pra legendar. Ela se chama “Проводы” (Provody), palavra que designa uma festa de despedida ou um “bota-fora” pra alguém que vai mudar de condição ou ficar um tempo afastado do convívio familiar. É o caso, por exemplo, dos jovens que vão servir o exército como internos, tema recorrente no folclore musical russo desde a era soviética. E com muito humor o canta Igor Rasteriaiev, criativo cantor, compositor e acordeonista, em vídeo de 2016.

Há na música evidentes elementos da cultura cossaca, como o acordeão de botões (harmônica), o rápido compasso e o sotaque com elementos parecidos ao ucraniano padrão. É a velha tradição da Rússia rural, renascida e reciclada conforme os gostos modernos. Em vista do que buscaram e sonhavam os bolcheviques, até podemos pensar como sua titânica empreitada teve esse resultado... A letra é de autoria do próprio Rasteriaiev, que a gravou em seu CD Dozhd nad Medveditsei, tendo postado este vídeo de estreia, sem legendas, em seu próprio canal do YouTube. Como outros artistas, tem seu sucesso e visibilidade impulsionados por essa plataforma.

Igor Rasteriaiev nasceu em 1980, numa família de artistas, e fez formação superior em artes cênicas, tendo atuado em alguns filmes e na TV. Porém, ficou mais famoso como músico, ao se inspirar nas próprias raízes rurais, a partir da viralização de seus vídeos, em 2010. Em 2011 gravaria seu primeiro álbum e não pararia com os shows. Baseia suas composições em fatos reais, alguns ocorridos com parentes e amigos, e tem seus vídeos gravados por um amigo que assessora suas produções.

Eu tirei a letra escrita desta página especializada, onde também colhi as informações acima. Eu mesmo traduzi e legendei, tendo postado o resultado no meu canal Eslavo (YouTube). Recomendo que visitem e divulguem também os dois canais YouTube de Rasteriaiev, o pessoal e o profissional, aonde ele joga todos os seus clipes. Lá tem os endereços de seu site e de suas redes sociais! Seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português, em duas colunas pra poupar espaço:


____________________


– Батя! Собирай гостей –
Будем есть и пить.
Завтра утром ухожу
В армию служить.

– Что ты говоришь,
Миленький сынок?
Я уже бегу,
Не жалея ног.

Приходи, родня!
Будем есть и пить!
Мой сынок идёт
В армию служить!

– Батя! Водочки налей –
Опустел сосуд.
Кстати, почему курей
Долго не несут?

– Миленький сынок,
Щас всё принесут,
И водка с холодцом
Будут тут как тут.

Ну-ка, гармонист,
Дёрни от души!
Мой сынок идёт
В армию служить.

– Батя, чё-то я устал,
Хочу отдыхать.
Отнеси-ка на руках
Меня на кровать.

– Миленький сынок,
Вот уже несу!
Набирайся сил,
Отходи ко сну.

Ну-ка тихо все,
Быстро свет туши!
Мой сынок идёт
В армию служить.

Миленький, сынок, вставай!
В армию пора.
Проводили мы вчера
Тебя «на ура».

– Батя, отойди,
В ухо не гуди,
Да не надо мне
В армию идти!

Не хотел никто
Меня призывать –
Захотелось мне
Просто погулять.

Papai, chame o pessoal
Pra comermos e bebermos.
Amanhã de manhã vou
Começar o serviço militar.

É verdade mesmo,
Filhinho querido?
Vou correndo já,
Sem poupar passos.

Venha, parentada!
Vamos comer e beber!
Meu filhinho vai
Servir o exército!

Papai, mete mais vodca
Que o pote esvaziou.
Aliás, porque demoram
Pra trazer as galinhas?

Filhinho querido,
Já já trazem tudo,
A vodca e a galantina
Vão logo ser servidas.

Eia, sanfoneiro,
Rasga esse fole!
Meu filhinho vai
Servir o exército.

Papi, tô meio fatigado,
Eu quero descansar.
Me pega nos braços
E me leva pra cama.

Filhinho querido,
Já vou te levar!
Recobre suas forças
Fazendo sua naninha.

Opa, todos quietos,
Apaguem logo a luz!
Meu filhinho vai
Servir o exército.

Levanta, filhinho lindo!
Hora de ir ao quartel.
Ontem fizemos a sua
Festa de despedida.

Papai, vá embora,
Poupe meus ouvidos,
Pois não tenho que
Servir o exército!

Não fui convocado,
Ninguém quis isso:
Eu apenas desejei
Farrear um pouco.




15 de novembro de 2017

Rajoy lamenta o atentado em Barcelona


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/rajoy-atentado


Logo após o atentado terrorista com uma van que atropelou inúmeros turistas na avenida de pedestres Las Ramblas, em Barcelona, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy expressou sua condolência às famílias dos mortos na noite de 17 de agosto de 2017. Mais um ataque a civis desarmados, reivindicado pelo grupo Estado Islâmico e executado por um marroquino, em suposta vingança à participação da Espanha na coalizão que combate o dito “califado” no Oriente Médio.

Lembremos que Barcelona é a capital e maior cidade da Região Autônoma da Catalunha, território com língua e costumes muito distintos que não se considera parte da nação espanhola. Notem como Rajoy, ao falar que “a Espanha é um povo unido”, parece gaguejar e recear um pouco. Os espanhóis e os catalães divulgaram, naquele instante, hashtags em suas respectivas línguas: Yo soy Barcelona e Jo sóc Barcelona. Também se usou muito nas manifestações públicas a frase catalã No tinc por (Não tenho medo). Por é uma palavra aparentada à italiana paura e à francesa peur.

Eu mesmo traduzi e legendei de ouvido, sem recorrer a uma cópia escrita. É aquele famoso “3 em 1”: ouvir/transcrever, entender/traduzir e já adaptar à legendagem. Eu baixei desta página o vídeo sem legendas, mas há outra versão com boa qualidade nesta página. Seguem abaixo a legendagem, que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube), e a tradução escrita em português:


____________________


Senhoras e senhores, muito boa noite, muito obrigado por sua presença.

Neste momento, quero que minhas primeiras palavras esta noite em Barcelona sejam de luto, lembrança e solidariedade para com as vítimas deste ataque, suas famílias e amigos. Eles são neste momento nossa prioridade máxima. Quero expressar também a solidariedade de toda a Espanha para com a cidade de Barcelona, hoje agredida pelo terrorismo jihadista, como antes o foram outras cidades no mundo todo.

Os moradores de cidades como Madri, Paris, Nice, Bruxelas, Berlim ou Londres sofreram a mesma dor e a mesma incerteza que estão hoje sofrendo os barcelonenses. E eu desejo que sejam para eles essas primeiras palavras, para transmitir-lhes o carinho, a solidariedade e o aconchego de toda a Espanha e do resto do mundo.

Como demonstração da dor da nação espanhola ante o criminoso atentado, o governo está decretando luto oficial a partir da zero hora do dia 18 de agosto de 2017 até as 24 horas do dia 20 de agosto, tempo em que a bandeira nacional tremulará a meio mastro em todos os prédios públicos e navios da Marinha.

Hoje, a Espanha, e mais concretamente Barcelona, recebe o carinho e a solidariedade que em outros momentos nós mesmos partilhamos com outras cidades e com outros países agredidos pela mesma barbárie terrorista. E quero dizer também que não estamos unidos somente no luto, estamos unidos principalmente na firme vontade de derrotar os que querem destruir nossos valores e nosso modo de vida.

Assim, desejei vir a Barcelona logo que pude para reunir-me com as forças e corpos de segurança do Estado e dar-lhes meu apoio à sua colaboração intensa e exata com a Polícia da Catalunha e a Guarda Municipal no momento de enfrentar o selvagem atentado terrorista.

Também é importante que, num dia tão duro e tão triste como hoje, todas as forças de segurança e nossos serviços de informação, ajuda civil, socorro e decisivamente todos os que fazem nossa segurança, saibam que contam com o firme apoio do governo e da totalidade dos espanhóis.

É certo que estamos sofrendo hoje com a dor de um terrível golpe. Mas também é verdade que o esforço abnegado destes homens e mulheres durante tantos anos conseguiu proteger-nos por muito tempo e desbaratar inúmeros planos criminosos. Sem dúvida continuarão assim fazendo no futuro.

Infelizmente, os espanhóis conhecem muito bem a dor absurda e irracional causada pelo terrorismo. Recebemos pancadas parecidas em nossa história mais recente, mas também sabemos que os terroristas não são infalíveis. São vencidos com instituições unidas, prevenção, cooperação policial, aporte internacional e a determinação firme em defender os valores de nossa civilização: a liberdade, a democracia e os direitos humanos. E são vencidos também com acordos amplos, como ocorre na Espanha, entre os partidos políticos. Em datas próximas, convocaremos o Pacto Antiterrorista para reafirmar nossa unidade e para trabalharmos todos juntos, como estamos fazendo até agora, também futuramente.

Senhoras e senhores, esta terrível tragédia que vivemos hoje em Barcelona fraterniza-nos na dor com vários outros países do mundo. Quero manifestar também desde já, esta noite, minha gratidão a todos os governantes estrangeiros que me buscaram para transmitir suas mensagens de solidariedade e apoio. Não pude falar com eles por ter sido mais urgente seguir os acontecimentos, porém os agradecerei pessoalmente por suas mensagens nos próximos dias.

Quero reiterar, por fim, o que já transmiti privadamente ao presidente Puigdemont, que conta com todo o apoio do Estado e do governo para ajudar as vítimas e confortar as famílias, retomar o quanto antes a normalidade civil e levar os culpados por esta barbárie diante da justiça. Devem saber também que toda a Espanha está comovida pelo mesmo sentimento que é vivido hoje aqui em Barcelona.

A luta contra o terrorismo é hoje a prioridade máxima das sociedades livres e abertas como a nossa. É uma ameaça global, e a resposta deve ser global. Todos os que partilham do mesmo amor à liberdade, à dignidade do ser humano e a uma sociedade baseada na justiça, e não no medo ou no ódio, são nossos aliados nesta causa.

Como eu dizia há pouco, é verdade que estamos unidos na dor, mas estamos principalmente unidos na vontade de acabar com esse disparate e com essa barbárie. Não esqueçamos nunca que a Espanha é um povo unido em torno de valores dos quais muito nos orgulhamos: a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Travamos muitas lutas contra o terrorismo ao longo da história, e ganhamos sempre. E também nesta ocasião, nós, espanhóis, vamos vencer.

Muito obrigado!



12 de novembro de 2017

Professores também devem ter direitos


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/professor


Recentemente, foi publicada na página do recém-fundado partido Patriota, apoiador do famigerado projeto Escola sem Partido, uma pequena lista com uns seis “deveres” a serem seguidos por todo professor em sala de aula. Por razões óbvias, eles concernem só à política, e não às ciências naturais, às artes, à geografia etc. O projeto ESP toca na ferida errada, culpando o ocasional partidarismo docente, quando deveria focar-se na má formação pedagógica que, muitas vezes, acomete estudantes recém-formados de História e Ciências Sociais, de passagem pelo magistério como “bico temporário”.

Como filho e neto de professoras do ensino público paulista e paulistano, tendo ouvido a vida inteira relatos de como é péssimo o estado das escolas e vergonhoso o descaso dos políticos, tenho raiva dessa gente sem formação pedagógica ou vivência dessa realidade, querendo meter o bedelho na vida já sofrida dos mestres! Num comentário à referida postagem, sugeri aos “patriotas” que propusessem, ao lado daqueles preceitos, uma lista de DIREITOS do professor, a serem resguardados principalmente pelos pais e pelo Estado. Sugeri os seguintes, na forma de um decálogo ou Dez Mandamentos, que podiam ser enriquecidos, e decidi pôr aqui.



1) O professor terá DIREITO a toda a assistência médica, psicológica e legal no caso de ser agredido física ou verbalmente por estudantes ou por seus pais, algo que infelizmente ocorre todos os dias, em todo lugar, mas nossos partidos se calam.

2) O professor terá o DIREITO de receber uma remuneração digna de sua formação, de forma a não se desgastar lecionando em diversas escolas de uma só vez.

3) O professor RECEBERÁ todos os benefícios que hoje recebe um parlamentar ou juiz: carro de graça, auxílio-moradia, auxílio-doença, auxílio-paletó, auxílio-refeição, auxílio-creche ou escola para os filhos, e assessores à disposição.

4) O professor RECEBERÁ aumentos salariais todos os anos, conforme ou acima da inflação, além de reposição de tudo o que lhe foi privado de direito, a começar pelo fim de bônus e gratificações que tapeiam os já precarizados ativos, mas deixam os aposentados na lama.

5) O professor terá DIREITO a uma formação superior de qualidade, com reforço tanto teórico quanto prático, não espremida em meros dois ou três anos e de caráter eminentemente humanístico, e não técnico, além de formação continuada para acompanhar o desenvolvimento tecnológico e geracional dos estudantes.

6) O professor terá DIREITO a uma jornada de trabalho decente, de fixar-se em apenas uma escola, de ter tempo para o planejamento das aulas e, sobretudo, uma infraestrutura básica, sendo que em muitas escolas das regiões pobres não há sequer teto ou cadeiras nas salas.

7) Os estudantes terão DIREITO a transporte escolar gratuito, legal, seguro, profissional e contínuo, além de segurança policial reforçada nas escolas, esta dirigida também aos professores.

8) O professor terá o dever de deixar-se avaliar continuamente, mas essa avaliação, bem como a avaliação das escolas, DEVE dar-se não no sentido da meritocracia, mas de atestar as deficiências no ensino e garantir, por todos os meios, infraestrutura adequada e capacitação atualizada.

9) O professor terá o DIREITO de ser o profissional mais valorizado da sociedade, devendo ser esse um caráter básico de nossa nacionalidade, e receberá todo o incentivo da mídia, propaganda, redes sociais e lobbies, em total detrimento do culto às celebridades, da mitificação do hedonismo e ostentação e da divulgação de música, novela e cinema de qualidade duvidosa.

10) O professor tem o DIREITO de ser tratado não como um mero empregado que passe conhecimentos mastigados aos estudantes, mas um EDUCADOR respeitado que transmita suas experiências aos jovens e também aprenda com eles, numa relação de troca, debate e confiança; da mesma forma, a educação, sobretudo em sua modalidade de ensino escolar, NÃO DEVE ser tratada como mercadoria, mas como o MAIS IMPORTANTE PATRIMÔNIO TRANSGERACIONAL PARA UM PAÍS RICO, LIVRE E SOBERANO; os pais não serão privados do direito de matricular os filhos em escolas particulares conforme seus valores pessoais, mas será dado ao ensino estatal, pelas razões supracitadas, um caráter PÚBLICO, GRATUITO, ACONFESSIONAL, UNIVERSAL, OBRIGATÓRIO, LAICO, HUMANISTA-PROFISSIONALIZANTE E DE QUALIDADE.







Cid Gomes, então governador do Ceará, respondeu no início de 2011 a uma greve de professores, que incluiu agressão policial a manifestantes na Assembleia Legislativa, dizendo que “O professor tem que trabalhar por amor. Se quer trabalhar por salário, que vá pra rede particular”. Como uma cuspida na cara do cidadão, Dilma Rousseff o escolheu Ministro da Educação no início de 2015, mas não durou muito. O governador paulista Geraldo Alckmin também não é um grande amigo do magistério, mas essa frase foi atribuía a ele falsamente. Por que os políticos também não trabalham por amor e não doam seu salário?...

9 de novembro de 2017

Textos da independência da Catalunha


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/declaracio


Hoje posto aqui a Declaração dos Representantes da Catalunha e as primeiras indicações pra constituição da República Catalã, um documento de inegável importância histórica, por duvidosos que possam ser seus efeitos. Deputadas e deputados independentistas do Parlamento da Catalunha apresentaram à mesa diretora dois projetos de resolução que delineiam as primeiras medidas pra constituir a estrutura da nova nação. A proclamação da República foi feita no dia 27 de outubro de 2017, quando o Parlamento aprovou o texto abaixo, por maioria de votos, embora vários deputados tivessem se retirado da sessão. Traduzi direto do catalão, original em PDF nesta página.


À MESA DO PARLAMENTO

Lluís M. Corominas i Díaz, presidente da Fração Parlamentar do Junts pel Sí (Juntos pelo Sim), Marta Rovira i Vergés, porta-voz da Fração Parlamentar do Junts pel Sí, Mireia Boya e Busquet, presidenta da Fração Parlamentar da Candidatura d’Unitat Popular – Crida Constituent (Candidatura de Unidade Popular – Apelo Constituinte), Anna Gabriel i Sabaté, porta-voz da Fração Parlamentar da Candidatura d’Unitat Popular – Crida Constituent, de acordo com o que estabelecem os artigos 151 e 152 do Regimento do Parlamento, apresentam as seguintes propostas de resolução, originadas do Debate Geral sobre a Aplicação do Artigo 155 da Constituição Espanhola na Catalunha e seus possíveis efeitos.


PROPOSTAS DE RESOLUÇÃO


Proposta de resolução 1
Declaração dos Representantes da Catalunha


Os deputados da Fração Parlamentar do Junts pel Sí e da CUP – Crida Constituent assinaram no último dia 10 de outubro, no Parlamento da Catalunha, a seguinte:


DECLARAÇÃO DOS REPRESENTANTES DA CATALUNHA


Ao povo da Catalunha e a todos os povos do mundo.

A justiça e os direitos humanos individuais e coletivos intrínsecos, fundamentos irrenunciáveis que dão sentido à legitimidade histórica e à tradição jurídica e institucional da Catalunha, são a base da constituição da República Catalã.

A nação catalã, sua língua e sua cultura têm mil anos de história. Durante séculos, a Catalunha dotou-se e desfrutou de instituições próprias que exerceram o autogoverno com plenitude, com a Generalitat (Generalidade) como a máxima expressão dos direitos históricos da Catalunha. O parlamentarismo foi, durante os períodos de liberdade, o esteio sobre o qual se sustentaram essas instituições, canalizou-se por meio das Cortes Catalãs e cristalizou-se nas Constituições da Catalunha.

A Catalunha restaura hoje sua plena soberania, perdida e longamente desejada, depois de décadas tentando, honesta e lealmente, conviver institucionalmente com os povos da Península Ibérica.

Desde a aprovação da Constituição Espanhola de 1978, a política catalã teve um papel-chave com uma atitude exemplar, leal e democrática para com a Espanha, e com um profundo senso de Estado.

O Estado espanhol retribuiu essa lealdade com a recusa em reconhecer a Catalunha como nação, e concedeu uma autonomia limitada, mais administrativa do que política e hoje sofrendo recentralização, além de um tratamento econômico profundamente injusto e uma discriminação linguística e cultural.

O Estatuto de Autonomia, aprovado pelo Parlamento e pelo Congresso, e referendado pelos cidadãos catalães, deveria ser o novo marco estável e duradouro da relação bilateral entre a Catalunha e a Espanha. Porém, tornou-se um acordo político quebrado pela sentença do Tribunal Constitucional e que fez emergir novas contestações cidadãs.

Recolhendo as exigências de uma grande maioria dos cidadãos da Catalunha, o Parlamento, o Governo e a sociedade civil solicitaram repetidamente que se combinasse a celebração de um referendo de autodeterminação.

Diante da constatação de que as instituições do Estado repeliram toda negociação, violentaram o princípio de democracia e autonomia e ignoraram os mecanismos legais disponíveis na Constituição, a Generalitat da Catalunha convocou um referendo para o exercício do direito à autodeterminação reconhecido no direito internacional.

A organização e celebração do referendo acarretaram a suspensão do autogoverno da Catalunha e a aplicação de facto do estado de exceção.

A brutal operação policial de dimensão e estilo militares, orquestrada pelo Estado espanhol contra cidadãos catalães, feriu suas liberdades civis e políticas e os princípios dos Direitos Humanos em muitas e repetidas ocasiões e desobedeceu aos acordos internacionais assinados e ratificados pelo Estado espanhol.

Milhares de pessoas, entre as quais centenas de políticos, funcionários públicos e profissionais vinculados ao setor de comunicação, administração e sociedade civil, foram investigados, detidos, processados, interrogados e ameaçados com duras penas de prisão.

As instituições espanholas, que deveriam ter permanecido neutras, protegido os direitos fundamentais e arbitrado diante do conflito político, tornaram-se parte e instrumento desses ataques e deixaram indefesos os cidadãos da Catalunha.

Apesar da violência e da repressão para tentar impedir a celebração de um processo democrático e pacífico, os cidadãos da Catalunha votaram majoritariamente a favor da constituição da República Catalã.

A constituição da República Catalã está fundamentada na necessidade de proteger a liberdade, a segurança e a convivência de todos os cidadãos da Catalunha e avançar rumo a um Estado de direito e a uma democracia de maior qualidade, e responde ao impedimento por parte do Estado espanhol de tornar efetivo o direito à autodeterminação dos povos.

O povo da Catalunha é amante do direito, e o respeito à lei é e será uma das pedras angulares da República. O Estado catalão acatará e fará cumprir legalmente todas as disposições que modelem esta declaração e garante que a segurança jurídica e a manutenção dos acordos assinados integrarão o espírito fundacional da República Catalã.

A constituição da República é uma mão estendida ao diálogo. Honrando a tradição catalã de pactuar, mantemos nosso compromisso com a concórdia como forma de resolver os conflitos políticos. Ao mesmo tempo, reafirmamos nossa fraternidade e solidariedade para com os demais povos do mundo e, em especial, aqueles com os quais partilhamos a língua, a cultura e a região euromediterrânea, em defesa das liberdades individuais e coletivas.

A República Catalã é uma oportunidade para corrigir as atuais carências democráticas e sociais e construir uma sociedade mais próspera, mais justa, mais segura, mais sustentável e mais solidária.

Em virtude de tudo o que acabamos de expor, nós, representantes democráticos do povo da Catalunha, no livre exercício do direito à autodeterminação, e conforme o mandato recebido dos cidadãos da Catalunha,

CONSTITUÍMOS a República Catalã como Estado independente e soberano, de direito, democrático e social.

PREPARAMOS a entrada em vigor da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.

INICIAMOS o processo constituinte, democrático, de base cidadã, transversal, participativo e vinculante.

AFIRMAMOS a vontade de abrir negociações com o Estado espanhol, sem imposições prévias, destinadas a estabelecer um regime de colaboração em benefício de ambas as partes. As negociações deverão dar-se, necessariamente, em pé de igualdade.

DAMOS AO CONHECIMENTO da comunidade internacional e das autoridades da União Europeia a constituição da República Catalã e a proposta de negociações com o Estado espanhol.

INSTAMOS a comunidade internacional e as autoridades da União Europeia a intervir para interromper a corrente violação de direitos civis e políticos, a fiscalizar o processo de negociação com o Estado espanhol e ser suas testemunhas.

MANIFESTAMOS a vontade de construir um projeto europeu que reforce os direitos sociais e democráticos dos cidadãos, assim como de comprometer-se a continuar aplicando, de maneira ininterrupta e unilateral, as normas do ordenamento jurídico da União Europeia e as do ordenamento do Estado espanhol e da autonomia catalã que incorporem aquelas primeiras.

AFIRMAMOS que a Catalunha tem a vontade inequívoca de integrar-se o mais rapidamente possível à comunidade internacional. O novo Estado compromete-se a respeitar as obrigações internacionais que se apliquem atualmente em seu território e a continuar integrando os tratados internacionais dos quais o Reino da Espanha é signatário.

APELAMOS aos Estados e às organizações internacionais que reconheçam a República Catalã como Estado independente e soberano.

INSTAMOS o Governo da Generalitat a adotar as medidas necessárias para possibilitar a plena efetividade desta Declaração de Independência e das disposições da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.

FAZEMOS um apelo a todos e cada um dos cidadãos e cidadãs da República Catalã para que nos tornem dignos da liberdade que conquistamos e construam um Estado que traduza as inspirações coletivas em atos e atitudes.

ASSUMIMOS o mandato do povo da Catalunha expressado no Referendo de Autodeterminação de 1.º de outubro e declaramos que a Catalunha agora é um Estado independente em forma de República.


PROPOSTA DE RESOLUÇÃO


O Parlamento da Catalunha expressa seu repúdio ao acordo do Conselho de Ministros do Estado espanhol propondo ao Senado do Estado espanhol as medidas para concretizar o que dispõe o artigo 155 da Constituição Espanhola. As medidas propostas, marginais ao próprio corpo jurídico atual, preveem a eliminação do autogoverno da Catalunha. Ao mesmo tempo, colocam o Governo do Estado espanhol como substituto do Governo da Generalitat e censor do Parlamento da Catalunha, uma medida que não somente é inaceitável como também constitui um ataque à democracia sem precedentes nos últimos 40 anos.

Oferecemos negociação e diálogo e fomos confrontados com o artigo 155 da Constituição e a eliminação do autogoverno: a resposta foi de uma contundência política similar ao uso da força no dia 1.º de outubro.

O Parlamento decidiu instar o Governo a ditar todas as resoluções necessárias para desenvolver-se a Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República, e em especial:

  • A promulgar os decretos necessários, dotando com pessoal e recursos os serviços administrativos encarregados de expedir aos cidadãos os documentos comprobatórios da nacionalidade catalã.
  • A estabelecer a regulação do procedimento para a aquisição da nacionalidade catalã, por força das disposições previstas no artigo 8 e na disposição final 2.ª.
  • A promover a assinatura de um tratado de dupla nacionalidade com o governo do Reino da Espanha, em conformidade com o artigo 9.
  • A ditar, em conformidade com o artigo 12.1, as disposições necessárias para a adaptação, modificação e inaplicação do direito local, autonômico e estatal vigente antes da entrada em vigor da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.
  • A ditar, fundamentado no que dispõe o artigo 12.3, os decretos necessários para a recuperação e eficácia das normas anteriores à sucessão de ordenamentos jurídicos, anuladas ou suspensas por motivos de competência pelo Tribunal Constitucional e pelos demais tribunais, dando atenção especial a todos aqueles reguladores de impostos e outras figuras impositivas, assim como àqueles que desenvolvam instrumentos para combater a pobreza e a desigualdade social.
  • A promover, diante de todos os Estados e instituições, o reconhecimento da República Catalã.
  • A estabelecer, pelo procedimento correspondente e em conformidade com o que dispõe o artigo 15, a relação de tratados internacionais que devam continuar vigendo, assim como daqueles que devam resultar inaplicados.
  • A estabelecer, de acordo com o artigo 17, o regime de integração à Administração da Generalitat da Catalunha, exceto por renúncia expressa dos mesmos, de todos os funcionários, vinculados ao Estado espanhol, que até esta data prestavam seus serviços à administração geral da Catalunha, à administração local da Catalunha, às universidades catalãs, à administração de justiça e à administração institucional do Estado na Catalunha, ou dos funcionários, vinculados ao Estado espanhol, de nacionalidade catalã que prestem seus serviços fora da Catalunha.
  • A dar ao conhecimento do Parlamento a relação de contratos, convênios e acordos objeto de sub-rogação por parte da República Catalã, de acordo com o que dispõe o artigo 19.
  • A promover um acordo com o Estado espanhol para a integração do pessoal e a sub-rogação dos contratos previstos nos incisos IV e V, em conformidade com o que dispõe o artigo 20.
  • A sancionar tudo o que se expôs acima, assim como adotar as medidas necessárias para o exercício da autoridade fiscal, da previdência social, alfandegária e cadastral de acordo com o que dispõem 80, 81, 82 e 83, estabelecendo, se for o caso, os períodos de transição entre administrações para que se garanta um serviço público adequado.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação de um banco público de desenvolvimento a serviço da economia produtiva.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação do Banco da Catalunha, com as funções de banco central, que deverá zelar pela estabilidade do sistema financeiro.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação das demais autoridades reguladoras, com as funções que lhes são inerentes.
  • A abrir um período de negociações com o Estado espanhol, segundo o que dispõe o artigo 82, para determinar, e em que grau, se for o caso, a sucessão do Estado catalão, conforme se acordar, em direitos e obrigações de caráter econômico e financeiro assumidos pelo Reino da Espanha.
  • A elaborar um inventário dos bens de titularidade do Estado espanhol, radicados no território nacional da Catalunha, a fim de tornar efetiva a sucessão em sua titularidade por parte do Estado catalão, em conformidade com o que dispõe o artigo 20.
  • A elaborar uma proposta de repartição de ativos e passivos entre o Reino da Espanha e a República da Catalunha, fundamentada nos critérios internacionalmente padronizados, abrindo um período de negociação entre os representantes de ambos os Estados e submetendo o acordo obtido, se for o caso, à aprovação do Parlamento da Catalunha.

O Parlamento abrirá uma investigação para determinar as responsabilidades do Governo do Estado espanhol, suas instituições e órgãos dependentes na perpetração de delitos relativos à agressão de direitos fundamentais, individuais e coletivos buscando evitar o exercício do direito ao voto pelo povo da Catalunha no último 1.º de outubro.

Essa Comissão de Investigação será formada por deputados das frações parlamentares e peritos do âmbito nacional e internacional, da Agência Antifraude, da Sindicatura de Greuges (Ministério Público da Catalunha) e da advocacia catalã, e por representantes das entidades de defesa dos direitos humanos, fazendo com que sejam representadas as organizações internacionais.


Proposta de resolução 2
Processo constituinte


O parlamento da Catalunha decide:

Declarar o início e a abertura do processo constituinte.

Instar o Governo da Generalitat a:

  1. Ativar de maneira imediata todos os recursos humanos, públicos e sociais, bem como meios materiais a seu alcance, para efetivar o processo constituinte democrático, de base cidadã, transversal, participativo e vinculante, que deve culminar na redação e aprovação da Constituição da República por parte do Parlamento constituído em Assembleia Constituinte e que resulte das eleições constituintes.
  2. Constituir no prazo de quinze dias o Conselho Assessor do processo constituinte, liderado pela sociedade civil organizada, a fim de assessorar na fase deliberativa constituinte.
  3. Convocar, difundir e executar a fase decisória do processo constituinte, recolhendo as propostas sistematizadas no Fórum Social Constituinte e submetendo-as a consulta cidadã, que constituirá um mandato vinculante para o Parlamento constituído em Assembleia Constituinte e que resulte das eleições constituintes.
  4. Convocar eleições constituintes, uma vez terminadas todas as fases do processo constituinte.

Encorajar todos os agentes cívicos e sociais para que no prazo de um mês constituam a plataforma promotora do processo constituinte ou Pacto Nacional pelo Processo Constituinte.

Constituir, no prazo de quinze dias, a Comissão Parlamentar que fiscalizará o processo constituinte, visando preservar, se não direcionar, a tarefa da plataforma promotora e garantindo o desdobramento de seus trabalhos e o cumprimento do prazo semestral legalmente definido para seu desenvolvimento e conclusões.

Encorajar as prefeituras a fomentar os debates constituintes a partir do âmbito local, promovendo a participação da sociedade civil e fornecendo os recursos e espaços adequados e necessários ao correto desenvolvimento do debate cidadão.


Palácio do Parlamento, 27 de outubro de 2017



6 de novembro de 2017

A ortografia russa antes da Revolução


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/russo1918



Por Erick Fishuk

Introdução

Amigas e amigos! Infelizmente, por causa da correria do doutorado, não pude carregar vídeos novos no canal Eslavo (YouTube) sobre a história da URSS e do comunismo pra marcar os 100 anos da Revolução Russa! Porém, como não quero deixar a data passar em branco, decidi misturar os interesses meus e talvez os de quem frequenta este blog, e escrevi esta postagem a respeito da ortografia da língua russa usada até 1918, quando houve a reforma determinada pelos bolcheviques. Espero que vocês gostem, e que este seja um bom material informativo.

O alfabeto cirílico russo tomou sua forma mais ou menos atual sob o reinado do imperador Pedro 1.º, o Grande, no início do século 18, o qual escolheu pessoalmente quais letras seriam mantidas e quais se abandonariam. Basicamente, como a tendência estava sendo retirar a influência da Igreja sobre as leis e a administração, e a influência do eslavo eclesiástico sobre o russo formal e escrito, a literatura foi aos poucos se apossando de temas profanos, e a língua foi se tornando (me permitam dizer) mais “russa” (o dialeto monástico tinha muitos traços búlgaros), menos hermética e mais próxima do falar popular. As letras que serviam mais pra reproduzir palavras sagradas emprestadas do grego caíram em desuso, e as poucas que ficaram não impedem brutalmente um falante moderno de ler textos da era tsarista.

A última grande reforma da ortografia russa ocorreu em 1918, quando foi alterada a grafia de algumas formas gramaticais e foram retiradas do alfabeto algumas letras sem valor prático. Dessa forma, a ortografia ficou bem mais próxima da fala real (ainda que hoje se mantenham algumas discrepâncias), abrindo caminho à difusão do letramento que se daria durante o período soviético. Mesmo durante a Era Stalin, houve algumas oscilações nas regras, mas em 1956 a grafia tomou a forma definitiva conservada até hoje. Eu tirei da Wikipédia russa o material fundamental pra este texto, em especial dos verbetes “Орфография русского языка” (Ortografia da língua russa), “Русская дореформенная орфография” (A ortografia russa antes da reforma), “Реформа русской орфографии 1918 года” (A reforma de 1918 da ortografia russa) e “Орфография русского языка до 1956 года” (A ortografia da língua russa até 1956).


Antecedentes

Inicialmente, quem escrevia russo o fazia conforme regras pessoais e individuais. Devemos lembrar os seguintes fatos a respeito da língua: 1) Até a fundação da URSS, a esmagadora maioria da população era analfabeta e inculta, então imaginem como devia ser até o século 18, mesmo no seio da nobreza. 2) Até o século 18, como eu disse acima, a língua literária, administrativa e (tal como ainda hoje) litúrgica era o eslavo eclesiástico, uma forma simplificada e um tanto russificada do antigo eslavônio, dialeto codificado pelos santos Cirilo e Metódio pra traduzir textos sagrados e evangelizar a maior parte dos povos eslavos; este idioma artificial, por sua vez, tinha como base o dialeto falado em torno de Tessalônica, mais ou menos próximo ao atual macedônio, ambos de extração eslava meridional (o russo é eslavo oriental). 3) Até as amplas reformas de Pedro, o Grande, a língua russa era essencialmente uma língua falada, e pelo povo, pois enquanto a escrita era em eslavo eclesiástico, boa parte da nobreza era educada em francês, e às vezes só falava este idioma; apenas no começo do século 18 lançou-se o processo de padronização da língua russa literária moderna, baseada no dialeto de Moscou (que faz parte do grupo central de dialetos russos), mas com influências também dos dialetos do norte e do sul. 4) A literatura russa como uma instituição consolidada, portanto, só vai surgir no século 18, até atingir seu ápice e idade de ouro no século 19.

Entre os primeiros grandes trabalhos que tentaram sistematizar a escrita da língua russa, estão um manual do poeta, tradutor e filólogo Vasili Trediakovski, saído em 1748, e a famosa e pioneira Gramática russa (1755) de Mikhail Lomonosov, químico e físico que atuava como uma espécie de polímata à la Leonardo da Vinci. Foi este intelectual que deu seu nome à atual Universidade Federal de Moscou (MGU). Em 1873, o filólogo Iakov Grot alçou o princípio morfológico, em algum grau influído pela fonética, como guia pra ortografia, enquanto deram-lhe ainda mais peso os linguistas Aleksandr Gvozdev, Aleksandr Tomson, Mikhail Peterson e Dmitri Ushakov, um dos artífices da reforma de 1918. Em 1904, no âmbito da Academia de Ciências, criou-se uma comissão especial de ortografia, cuja subcomissão concluiu em 1912 um projeto de reforma ortográfica, efetivado apenas em 1918.

Embora o projeto de reforma fosse anterior às Revoluções Russas de 1917, pra todos os efeitos a mudança na ortografia passou a ser algo associado aos bolcheviques e à sua destruição do tsarismo. Por isso mesmo, os núcleos da emigração política liberal ou “branca”, exilados em diversos países do Ocidente capitalista, utilizaram a velha grafia até a segunda metade dos anos 40, por vezes até os anos 60, não raro com mudanças, como a eliminação do tviordy znak em fim de palavra e das letras fita e izhitsa. Na Rússia soviética, o grau de implantação das novas regras variava conforme o controle vermelho se expandia, mas na própria URSS algumas obras científicas chegaram a sair à moda antiga até o fim dos anos 20. Atualmente, apenas a Igreja Orotodxa Russa do Exterior, sediada em Nova York, ainda edita livros com as normas passadas, enquanto na Rússia é mais reivindicada por grupos monarquistas e usada em lugares, inclusive comerciais, com alusões históricas, onde muitas vezes vem até com erros no emprego.

A principal mudança, que vou explicar em mais detalhes adiante, foi a supressão das letras “iat” (que representava uma vogal primitiva do proto-eslavo e do eslavônio, que evoluiu pra diferentes sons nas línguas eslavas), “fita”, “izhitsa” (que transcreviam letras gregas sem som equivalente em russo) e “i decimal” (cujo nome se deve a seu uso como o número 10 antes da adoção dos algarismos indo-arábicos). Outra mudança de vulto foi a retirada da letra “tviordy znak”, o sinal duro, do final de palavras que terminavam em vogal dura, em contraposição às que terminavam em “miagki znak” (Ь ь), o sinal brando; de fato, ambas as letras primitivamente representavam vogais fracas cujo som real até hoje é motivo de debate. Em 1956, quando se traçaram as regras atuais, fixou-se a pontuação, mudou-se a grafia de algumas palavras e regulou-se o uso da letra “iô”, até então oscilante.


A ortografia pré-1918

Eu pressuponho que a leitora ou leitor deste texto já tenha algum conhecimento da língua russa, ou ao menos do alfabeto. Mas creio que a explicação poderá ser acompanhada por qualquer pessoa instruída, com as ocasionais recorrências a material externo. O alfabeto cirílico russo atual possui 33 letras (vocês podem conhecê-las nesta postagem minha, e os acentos aqui presentes são apenas um auxílio à pronúncia), mas até 1918 possuía 35. Por quê? Estas duas letras não eram consideradas: “Ё ё” () e “Й й” (i krátkoie, ou i curto). Havia quatro letras que foram depois abolidas: “І і” (и десятеричное, i desiateríchnoie, ou i decimal), “Ѣ ѣ” (ять, iat), “Ѳ ѳ” (фита, fitá) e “Ѵ ѵ” (ижица, ízhitsa). O “i decimal” era contado entre o И (i) e o К (ka), e as outras letras apareciam no fim do alfabeto: Ы, Ь, Ѣ, Э, Ю, Я, Ѳ, Ѵ.

As letras da ortografia antiga contudo, não recebiam os nomes simples que têm hoje (com poucas exceções), mas nomes feitos por palavras que começavam com essas letras. Eles eram os seguintes: аз (az), буки (búki), веди (védi), глаголь (glagól), добро (dobró), есть (iest), живете (zhivéte), земля (zemliá), иже (ízhe), и десятеричное (i desiateríchnoie = І), како (káko), люди (liúdi), мыслете (mysléte), наш (nash), он (on), покой (pokói), рцы (rtsy), слово (slóvo), твердо (tvérdo), ук (uk), ферт (fert), хер (kher), цы (tsy), червь (tcherv), ша (sha), ща (scha), ер (ier = Ъ), еры (ierý = Ы), ерь (ier’ = Ь), ять (iat), э (e), ю (iú), я (iá), фита (fitá), ижица (ízhitsa).

As letras Ё е Й apenas não entravam formalmente no alfabeto, mas eram usadas exatamente como hoje. A grafia “й” era chamada “и с краткой” (i s krátkoi, i com breve/braquia, o mesmo sinal usado hoje sobre vogais breves no ensino de latim). Curiosamente, o izhitsa não foi formalmente abolido, porque no decreto reformador sequer havia menção a ele. Os nomes “ier” das atuais letras tviordy znak (Ъ, sinal duro) e miágki znak (Ь, sinal brando) se devem aos nomes que possuíam quando eram vogais do eslavônio, cujos sons reais hoje são desconhecidos. As duas vogais, que se fundiram no eslavo eclesiástico, eram genericamente chamadas “iers”. Vejam também o nome das duas primeiras letras: az e buki. A combinação delas gerou a palavra “азбука” (ázbuka), um sinônimo de “alfabeto” que também significa “cartilha de alfabetização” e “abecê/abecedário” (como “princípios de um ofício ou atividade”). Embora seja comum os russos usarem hoje “алфавит” (alfavít), azbuka é particularmente usado pra indicar os abecedários cirílicos das línguas eslavas.

Quais eram os sons das letras excluídas do alfabeto, e quando deviam se usar? O “i decimal”, como a letra “iota” do alfabeto grego, servia nos textos medievais pra indicar o número dez (10), ambas por virem na décima posição do abecedário. Daí esse nome inusitado. Em alguns textos anteriores ao século 19, a minúscula chegou a ser escrita com dois pontos em cima (ї), mas a grafia com apenas um seria depois padronizada. O “i decimal”, até 1918, era usado em russo basicamente nos seguintes casos: 1) antes de vogais (que em russo são as letras А, Е, Ё, И, О, У, Ы, Э, Ю, Я, bem como o iat até a reforma) e antes de Й; 2) na palavra “міръ” (mir), com o sentido de “mundo”, “planeta Terra”, em contraste com “миръ” (também “mir”), significando “paz” ou “comunidade agrária”, hoje se usando a grafia “мир” em ambos os casos. No primeiro caso, temos os exemplos de “исторія” (istória, história) e “русскій” (rússki, russo), agora “история” e “русский”.

Em 1918, o “i decimal” foi plenamente substituído pelo izhe (И), hoje chamado simplesmente i. A letra ainda é usada em bielo-russo, ucraniano (que usa também a versão com dois pontos, representando o ditongo “yi”) e nas línguas cazaque e komi. A regra do uso antes de vogal não se aplicava a palavras compostas, como “семиэтажный” (semietazhny, de sete andares) e “восьмиугольникъ” (vosmiugolnik, octógono). Conforme a etimologia popular, o nome da cidade de Vladímir também se escrevia “Владиміръ”, mas mesmo antes da reforma a grafia com И se fixou. No começo de palavra (sempre antes de outra vogal) e entre vogais, seu som era o do “i” semivocálico, hoje representado pela letra Й e pela qual o “i decimal”, nesses casos, foi substituído: іодъ > йод (iod, iodo), маіоръ > майор (maiór, major).

A letra “Ъ ъ” se chama tviórdy znak (sinal duro) no russo moderno, porque é usada somente quando se quer evitar a palatização de uma consoante antes de vogal branda (Я, Е, Ё, Ю), após alguns prefixos – съезд (siézd, congresso), объятие (obiátie, abraço) – e dentro de certos radicais importados – субъект (subiékt, sujeito), адъютант (adiutánt, ajudante de campo). Porém, seu emprego era bem mais amplo antes de 1918, quando atendia, além disso, pelo nome ier (ер), em alusão ao fato de ser uma antiga vogal dura (traseira) no proto-eslavo e no eslavônio. Perdendo seu som antigo, manteve-se na ortografia do eslavo eclesiástico e do russo, na qual jamais era pronunciada. Basicamente, usava-se no fim de toda palavra terminada em consoante (домъ/dom, народъ/naród, врачъ/vrach), exceto se já terminada em “sinal brando” (путь/put, стиль/stil, лань/lan) ou em Й (май/mai, покой/pokói), bem como na palavra “сверхъчувственный” (sverkhchúvstvenny, suprassensível) e no fim de elementos seguidos de hífen (изъ-за, iz-za; контръ-адмиралъ, kontr-admiral).

Fora os casos mencionados ao iniciar o parágrafo anterior (houve um breve intervalo que vou explicar depois), todos os usos descritos acima do tviordy znak foram suprimidos, o que se pode considerar um enorme avanço, dada a quantidade de tinta e o volume de folhas que ocupavam ao mesmo tempo sua compleição larga e seu uso constante! Ainda mais sabendo que há muitíssimas palavras em russo terminadas em consoante simples, todas masculinas... Atualmente, o diário de grande circulação Kommersant ainda utiliza o sinal no fim da palavra, que também serve como abreviação do título: “Коммерсантъ” (“Ъ”). O jornal foi fundado em 1909, mas fechado em 1917 após a censura bolchevique à imprensa, e reaberto em 1989.

A antiga letra mais difícil de se explicar e utilizar é o iat (Ѣ ѣ), talvez o sinal que mais simboliza a Rússia antiga. No eslavônio de Cirilo e Metódio, provavelmente representava o som “iê”, com duração longa, mas pra alguns especialistas seu som equivalia ao do inglês cat, ou seja, um meio-termo entre “á” e “é”. Os que defendem a primeira opção se baseiam na evolução pra “iê” ou “ié” que teve em russo, tcheco e croata, e os favoráveis à segunda citam a evolução sofrida pelo eslovaco e a adoção, por línguas não eslavas, de algumas palavras do proto-eslavo que em eslavônio iam ter iat e naquelas línguas iam ter “a”. Mesmo perdendo seu possível som original na maioria das línguas eslavas, continuou a ser escrita nas diversas variantes do eslavo eclesiástico e, por isso e sobretudo, nas primeiras formas escritas das línguas eslavas orientais, nas quais o iat adquiriu sons próprios. Com o tempo, a própria letra cairia em desuso (no búlgaro, chegou a ser usada até 1945), e em 1918 quase sempre seria substituída pela letra Е (ié) na língua russa. O estudo do uso do iat nos vários idiomas eslavos é uma rica ferramenta de comparação entre a evolução histórica de cada um.

Em que casos se empregava o iat no lugar do ? Cabe dizer, primeiramente, que embora houvesse regras determinadas, com poucas exceções, seu uso devia no essencial ser decorado, assim como o uso do H ou do C/SS em português, e com tal objetivo eram correntes poemas mnemônicos, que continham quase todas as palavras em questão. Era empregado em 128 raízes vocabulares da língua russa, bem como em alguns sufixos e terminações, a começar por um caso bem simples: a terceira pessoa do singular do verbo “быть” (byt, ser, estar, haver), “есть”, hoje só usada no sentido de “há”, “existe(m)” e na construção equivalente ao verbo “ter”, é homófona ao verbo “есть” (iest, comer), por isso o último era grafado “ѣсть”. O atual pronome “все” (vse, todos, todas) também era escrito “всѣ”, enquanto a grafia “все” equivalia ao atual “всё” (vsio, todo, tudo).

O número de ocorrências é indigesto a quem não é iniciada(a), portanto, à leitora ou leitor curioso listo apenas os mais interessantes de saber, lembrando que na maioria dos casos, pra simples leitura, basta trocá-lo pela atual letra :

  • A terminação dos casos dativo e prepositivo no singular: “о столѣ” (o stolé, a respeito da mesa), “въ/къ школѣ” (v/k shkóle, à/para a escola), “о морѣ” (o móre, a respeito do mar), “о счастьѣ” (o schástie, sobre a felicidade). Não substituía o possível Е que existisse no caso nominativo ou acusativo desses e outros nomes. Nomes estrangeiros terminados em Е (pronunciado “é”, e não “ié”), sempre indeclináveis, não usavam iat: “въ кафе” (v kafé, no café/bar), “на шоссе” (na shossé, na estrada/rodovia), “въ фойе” (v foié, na antessala/foyer) etc.
  • As formas oblíquas “мне” (mne), “тебе” (tebé) e “себе” (sebé) dos pronomes pessoais “я” (, eu) e “ты” (ty, tu, você) e do pronome reflexivo “себя” (sebiá), que servem aos casos dativo e prepositivo: “мнѣ, тебѣ, себѣ”.
  • As formas singulares do caso instrumental “кем” (kem), “чем” (chem), “тем” (tem) e “всем” (vsem) dos pronomes “кто” (kto, quem), “что” (chto, o quê), “тот” ou “то” (tot ou to, aquele ou aquilo) e “весь” ou “всё” (ves ou vsio, todo ou tudo), que eram grafadas “кѣмъ, чѣмъ, тѣмъ, всѣмъ”. Em todos os casos do plural dos pronomes “тѣ > те” (te, aqueles/as) e “всѣ > все” (vse, todos/as), também se usava o iat. Notar bem que o prepositivo de “что” (о чёмъ, o chom) e de “весь” ou “всё” (о/обо всёмъ, o/óbo vsiom) já se escreviam com “iô”.
  • O numeral “двѣ > две” (dve, duas), derivados como “двѣсти > двести” (dvésti, duzentos) e “двѣнадцать > двенадцать” (dvenádtsat, doze) e suas formas ordinais também se escreviam com iat.
  • Todos os casos do plural feminino do numeral “обе” (óbe, ambas), ou seja, “обѣ”, “обѣихъ > обеих” (obéikh, acusativo animado, genitivo e prepositivo), “обѣимъ > обеим” (obéim, dativo) etc.
  • A combinação ЕЙ que provenha de sufixação, histórica ou não, bem como os derivados dessas palavras: “индѣецъ > индеец” (indéiets, índio), “индѣйскій > индейский” (indéiski, de índio/adjetivo), “индѣйка > индейка” (indéika, peru), “змѣй > змей” (zmei, dragão, pipa de empinar), “змѣя > змея” (zmeiá, cobra, serpente), “змѣиться > змеиться” (zmeítsia, serpentear, serpear) etc. Por vezes, contra a regra, também se escrevia “копѣйка > копейка” (kopéika, copeque), e em outros casos só se usava o Е.
  • O prefixo “нѣ- > не-” em palavras de sentido indefinido: “нѣкто” (nékto, alguém, um fulano, um tal de, um certo), “нѣчто” (néchto, algo, alguma coisa, um quê), “нѣкій” (néki, um certo, um verdadeiro, um tal de), “нѣсколько” (néskolko, algum, alguns/quantidade), “нѣкогда” (nékogda, outrora, não se sabe quando), “нѣкоторый” (nékotory, algum, um certo) etc. A palavra “некогда” (nékogda) significando “não há tempo (de)” já era grafada como hoje.
  • O prefixo “внѣ- > вне-” com o sentido de “ex-”, “extra-”, “fora”, “não”: “внѣплановый” (vneplánovy, fora dos planos, não planejado), “внѣпартійный” (vnepartíiny, apartidário, suprapartidário, apolítico), “внѣочередной” (vneocherednói, extraordinário) etc.
  • Prenomes e sobrenomes com raízes que exigem o iat, como “Свѣтлана” (Svetlana), “Нѣжинскій” (Nezhinski), “Онѣгинъ” (Onegin), bem como os nomes “Алексѣй” (Aleksei), “Глѣбъ” (Gleb), “Елисѣй” (Ielisei), “Еремѣй” (Ieremei), “Матвѣй” (Matvei), “Рогнѣда” (Rogneda) e “Сергѣй” (Sergei); os gentílicos “нѣмцы” (némtsy, alemães), “печенѣги” (pechenégi, pechenegues, antigo povo da Ásia Central) e o já citado “индѣйцы” (índios, mas nunca indianos); os nomes geográficos “Вѣна” (Viena), “Бѣлгородъ” (Belgorod), “Бѣлградъ” (Belgrado), “Днѣпръ” (Dnepr), “Днѣстръ” (Dnestr), lugares poloneses com “-ie-” e outros; e o mês de abril (апрѣль, aprel).

Eram raríssimos os casos em que o iat se pronunciava como outras vogais, mas eles existiam:

  • Era pronunciado como (e foi trocado por) И (“i”) no pronome pessoal da 3.ª pessoa do plural “они” (oní, eles, elas), que hoje é usado pros três gêneros, mas se escrevia “онѣ” quando se referia apenas ao feminino (elas); quando “они” se referia a substantivos femininos e ao mesmo tempo de outros gêneros, mantinha-se essa forma.
  • Caso idêntico quando se tratava do numeral “одни” (odní, uns, umas), que é o plural dos três gêneros, mas se escrevia “однѣ”, bem como com iat nos outros casos gramaticais, quando se referia a substantivos femininos. Explicando com a grafia atual, isso acontecia quando se usava “uns/umas” com substantivos plurais (pluralia tantum) cujo gênero feminino era depreendido da forma do genitivo plural, que não terminava em “-ов” ou “-ев”: “брюки” (briúki, calças) no nominativo, “брюк” (briuk) no genitivo; “бусы” (búsy, colar) no nom., “бус” (bus) no gen.
  • Por regra, o iat não substituía o Ё, mas dentre as poucas palavras em que isso ocorria (que incluem também os derivados), selecionei: “гнѣзда” (gniózda, ninhos, tocas, covis), “звѣзды” (zviózdy, estrelas), “издѣвка” (izdióvka, escárnio, chacota), “смѣтка” (smiótka, sagacidade, sutileza, jeito) e “сѣдла” (siódla, selas, selins). Após 1918, todos passaram a se escrever com Ё.

Isso sem contar que, além das regras que mandavam evitar o iat perto de certas letras e em certos morfemas e as inúmeras exceções a elas mesmas, muitas vezes não havia acordo entre os acadêmicos sobre o uso dessa letra ou de outras em determinadas palavras! Imaginem a confusão e o hermetismo que não foram abolidos após a revolução...

A letra fitá (Ѳ ѳ) se empregava em palavras russas, que não eram poucas, emprestadas do grego antigo por meio do eslavônio e do eslavo eclesiástico, nas quais se usava a letra “teta” (Θ θ), pronunciada desde os últimos séculos antes de Cristo (e no grego moderno) como o TH do inglês thing e o Z na maior parte da Espanha, ou seja, linguodental. O fita se pronunciava como o “Ф ф” moderno (F), e por ele foi trocado com a reforma, em diversos nomes próprios, topônimos, gentílicos, termos gramaticais, religiosos e científicos. Na primeira grande reforma ortográfica, Pedro 1.º inclusive substituiu em 1707-08 o Ф pelo fita em todos os casos, mas em 1710 a dualidade foi restaurada, até ser de novo eliminada em 1918, desta vez em favor do Ф. Mais de uma centena de nomes próprios do Antigo Testamento, em geral hebraicos e de uso geral raro, também se escreviam com fita.

Eis alguns substantivos na grafia antiga e sua tradução: Аѳанасій (Atanásio), Аѳина (Atena), Варѳоломей (Bartolomeu), Голіаѳъ (Golias), Марѳа (Marta), Меѳодій (Metódio), Пиѳагоръ (Pitágoras), Руѳь (Rute), Тимоѳей (Timóteo), Іудиѳь (Judite), Ѳемистоклъ (Temístocles), Ѳеодоръ/Ѳёдоръ (Teodoro), Ѳеофилъ (Teófilo); Аѳины (Atenas), Виѳлеемъ (Belém), Геѳсиманія (Getsêmani), Голгоѳа (Gólgota), Коринѳъ (Corinto), Мараѳонъ (Maratona), Ѳаворъ (Tabor), Ѳессалоники (Tessalônica), Ѳракія (Trácia); коринѳяне (coríntios), скиѳы (citas), эѳіопы (etíopes); анаѳема (anátema), апоѳеозъ (apoteose), ариѳметика (aritmética), каѳедра (cátedra), киѳара (cítara), левіаѳанъ (leviatã), логариѳмъ (logaritmo), миѳологія (mitologia), орѳографія (ortografia), эѳиръ (éter). Contudo, se o “teta” grego fosse pronunciado como T, e não como F, ele se tornava o “Т т” cirílico: аметистъ (ametista), антипатія (antipatia), тезисъ (tese).

E o ízhitsa (Ѵ, ѵ), coitado, é o café-com-leite dessa história: última letra do alfabeto pré-1918, era tão pouco usado que por vezes aparecia até entre parênteses no abecedário, e as reformas ortográficas nem se incomodavam em excluí-lo explicitamente! Era usado apenas em palavras relacionadas à Igreja, tiradas diretmente do grego antigo, e substituía o “ípsilon” (Υ υ) dessa língua, que antes da era cristã já se pronunciava não mais como o U francês ou o Ü alemão, mas como nosso “i”. Os vocábulos mais comuns eram “мѵро > миро” (míro, crisma/óleo de unção religiosa) e “сѵнодъ > синод” (sinód, sínodo), mas também se encontrava, no início do século 20, em “ѵпакои > ипакои” (ipakoí, canto de missas ortodoxas especiais), “ѵподіаконъ > иподиакон” (ipodiákon, subdiácono), “ѵпостась > ипостась” (ipostás, hipóstase), “полѵелей > полиелей” (polieléi, canto ortodoxo dos salmos 134 a 136 nos ritos especiais) e “сѵмволъ > символ” (símvol, a oração do Credo numa Igreja específica). Até Pedro, o Grande, quis suprimir essa letra, mas até 1802 foi um vaivém de supressões e restaurações, até que desistiram de tirar, de tão rara que era... Na reforma de 1918 esqueceram de mencioná-la, o que não ocasionou sua abolição oficial, mas a restrição da circulação de textos religiosos a fez sumir de fato, substituída pelo И onde fosse o caso.


Mudanças de caráter gramatical

Antes de 1918, as diferenças ortográficas não se limitavam ao uso de letras antiquadas, mas ao modo como se escreviam certos morfemas gramaticais. Os prefixos terminados com a letra З, por exemplo (из-, воз-, раз-, роз-, низ- = iz-, voz-, raz-, roz-, niz-), conservavam-na antes de radicais começados em С (S), enquanto hoje ela também se torna С: “разсказъ > рассказ” (rasskáz, conto), “разсуждать > рассуждать” (rassuzhdát, raciocinar), “возстановить > восстановить” (vosstanovít, restaurar) etc. Os prefixos “без-, через-, чрез-” (bez-, cherez-, chrez-) mantinham a letra final mesmo antes de consoantes surdas: “безполезный > бесполезный” (bespolézny, inútil), “черезчуръ > чересчур” (chereschúr, em demasia, em excesso) etc.

Quando, no nominativo singular masculino, os adjetivos, pronomes, particípios ou numerais terminassem em -ЫЙ ou -ІЙ (hoje -ИЙ), a forma acusativa singular dos masculinos animados e a forma genitiva singular dos masculinos e neutros deveria terminar, respectivamente, em -АГО ou -ЯГО, e não -ОГО ou -ЕГО, como atualmente. Exs. “каждый” (kázhdy, cada, todo) > “каждаго”, hoje “каждого” (kázhdogo); “синій”, hoje “синий” (síny, azul-marinho) > “синяго”, hoje “синего” (sínego). Após Ж, Ч, Ш e Щ, o sufixo -АГО se tornaria -ЕГО, e não -ОГО: “лучший” (lúchshi, o melhor) > “лучшаго”, hoje “лучшего” (lúchshego). Nos demais casos, como os adjetivos em -ОЙ tônico e os pronomes “этотъ > этот” (étot, este) e “самъ > сам” (sam, mesmo, próprio), já se usava a grafia atual: “большой” (bolshói, grande) > “большого” (bolshógo), “этого” (étogo), “самого” (samogó).

Duas terminações de caso que apareciam alternativamente eram -ІЮ junto com o atual -ЬЮ no instrumental singular dos substantivos femininos terminados em -Ь, e -ЬИ junto com o atual -ЬЕ no prepositivo singular dos substantivos neutros com a mesma terminação no nominativo. Exs. “кость” (kost, osso) > “костію”, hoje “костью” (kóstiu); “платье” (plátie, vestido) > “платьи”, hoje “платье”.

Hoje em dia, no nominativo plural, todos os adjetivos têm a mesma terminação nos três gêneros: -ЫЕ (adjetivos duros) e -ИЕ (adjetivos brandos). Mas quando o adjetivo modificava substantivos femininos e/ou neutros, as terminações no plural eram -ЫЯ (dura) e -ІЯ (branda): “русскія пѣсни > русские песни” (rússkie pésni, canções russas), “новыя кресла > новые кресла” (nóvye krésla, poltronas novas), “новыя пѣсни и кресла > новые песни и кресла” (nóvye pésni i krésla, canções e poltronas novas). As terminações -ЫЕ (dura) e -ІЕ (branda) se mantinham antes de nomes masculinos, ou femininos e/ou neutros acompanhados de masculinos: “новые столы” (nóvye stolý, mesas novas), “хорошіе дома > хорошие дома” (khoróshie domá, casas novas), “новые журналы и книги” (nóvye zhurnály i knígi, revistas e livros novos). As mesmas regras valiam pros substantivos plurais (femininos, em especial), como já visto na seção sobre o iat.

O pronome russo “её” (ieió, “неё”/neió após preposições) pode ter hoje três significados: as formas genitiva e acusativa do pronome pessoal “она” (oná, ela) ou a forma possessiva (“dela”, ou “seu/sua/seus/suas” referindo-se a um possuidor feminino). Até 1918, como genitivo e possessivo, escrevia-se “(н)ея”, e como acusativo, “(н)ее”. Exs. “лишиться ея > её” (lishítsia ieió, privar-se dela, gen.), “любить ее > её” (liubít ieió, amá-la, acus.), “ея мужъ > её муж” (ieió muzh, seu marido/o marido dela, poss.).

Essas são, enfim, as principais características da ortografia da língua russa na época do tsarismo, antes de 1918, entre várias outras que a diferenciavam do que se tornaria a norma no período da URSS. Deve-se lembrar que antes da Revolução Russa, também as teorias e práticas eram muito diversas, portanto diferentes autores podiam prescrever diferentes normas, e uma mesma palavra podia aparecer de várias formas em vários textos. Outra característica que vale a pena mencionar, pra quem lê textos antigos, é a ocorrência de -ЪИ- (tviordy znak e “i”), geralmente no encontro entre um prefixo e uma raiz, sendo pronunciado como Ы e assim passado a grafar-se desde 1915: “съиграть > сыграть” (sygrát, jogar um jogo), “предъидущій > предыдущий” (predydúschi, anterior, precedente) etc. Também era comum, e isso eu vi pessoalmente até mesmo em livros soviéticos dos anos 20 e 30, escrever-se “итти” (itti), e não “идти” (idti), como é a norma atual, pro infinitivo do verbo “ir a pé”.


História e conteúdo da reforma de 1918

Como eu escrevi inicialmente, a reforma ortográfica da língua russa não foi uma invenção bolchevique, nem sequer republicana. As primeiras diretivas foram elaboradas em 1904 no seio da Academia Imperial de Ciências, até o trabalho da subcomissão concernente ser aprovado em 1911 e publicado em 1912, mas a reforma só foi anunciada e recomendada em maio de 1917 (sob o Governo Provisório). O decreto tornando definitiva a virada foi publicado e assinado no comecinho de 1918 (pelo calendário ocidental), sob a responsabilidade de Anatoli Lunacharski, Comissário do Povo para a Educação sob o regime comunista, numa iniciativa que sofreu interessante continuidade através de três regimes políticos discrepantes. As mudanças gerais são as já arroladas: retirada das letras fita, iat e “i decimal” (e o sumiço informal do izhitsa); supressão do “sinal duro” após consoantes finais e sem função separadora; regulação do uso de С e З no final de prefixos; transformação das terminações adjetivas masculinas e neutras -АГО em -ОГО ou -ЕГО, e -ЯГО em -ЕГО, e das terminações adjetivas femininas e neutras -ЫЯ e -ІЯ em -ЫЕ e -ИЕ; supressão das formas particulares femininas “онѣ”, “однѣ” e derivadas (agora “они”, “одни” etc.); e fusão das formas pronominais femininas “(н)ея” e “(н)ее” em “(н)её”.

Na prática, também se alteraram normas de gramática e pronúncia, pois por vezes as formas abolidas de “они”, “одни” e “(н)её”, seguindo a etimologia do eslavo eclesiástico, também eram diferenciadas na fala, sobretudo em poesia. A partir de 15 de outubro de 1918, todos os documentos e publicações do governo saíram na nova ortografia, o que foi facilitado pelo monopólio estatal que foi imposto à imprensa, e não foram aprovados decretos estipulando aulas obrigatórias a quem já dominava a velha escrita. Mas alguns livros científicos relacionados à reedição de obras e documentos antigos, bem como edições cuja preparação começou antes da revolução, ainda seguiram as regras anteriores até 1929 (à exceção das folhas de rosto e prefácios já atualizados). Do ponto de vista prático, as vantagens da reforma foram evidentes, mas houve quem a criticasse do ponto de vista linguístico, filosófico e estético, e até a associasse aos bolcheviques, mesmo estando fora das discussões políticas. Nas zonas dominadas pelo Exército Branco na guerra civil, a maioria dos textos ainda se imprimia à antiga, e na emigração ocidental apenas nos anos 50 passou-se de todo ao novo, diante da “segunda grande onda” de exilados da URSS.

Notavelmente, após a aprovação da reforma, começou-se a praticar algo que ela não previa, e até mesmo desaconselhava: a substiuição do “sinal duro” (Ъ) por um simples apóstrofo (’), como também reparei em muitos livros da Era Stalin, ou até por um apóstrofo duplo (”) em documentos datilografados. Palavras como “подъём” (podióm, subida, ascensão) e “адъютант”, por exemplo, eram usualmente escritas “под’ём” e “ад’ютант”. O uso do apóstrofo com função separadora é a regra oficial nas línguas bielo-russa e ucraniana.


Retificações feitas em 1956

Ao longo dos anos 30, resoluções oficiais trouxeram mudanças pontuais na hifenização, abreviação e pontuação, em 1934 a letra Й entrou no alfabeto logo após o И (mas de fato, muito poucas palavras começam em “i curto”) e em 1938 foi proibido o uso do apóstrofo com função de “sinal duro”. No texto da reforma de 1918, dizia-se apenas que o uso da letra Ё quando o Е era pronunciado “iô” era “desejável, porém não obrigatório”, mas em 1942 o Ё entrou oficialmente no alfabeto e seu uso se tornou obrigatório. De fato, pouquíssimas palavras começam em “iô”, e as palavras com as duas versões, com ponto e sem ponto, são misturadas na mesma seção do dicionário. Finalmente, em 1956, o uso do Ё, ou seja, dos pontos em cima do Е, tornou-se facultativo com a finalidade de indicar a pronúncia correta (e muitas publicações atuais sequer fazem a distinção).

Outra mudança adotada em 1956 foi a obrigatoriedade do uso do hífen em nomes compostos de cores (como “светло-жёлтый”, svetlo-zhólty, amarelo-claro), e sua eliminação em nomes geográficos (como “Чехо-Словакия”, Tchecoslováquia, hoje “Чехословакия”, е “Юго-Славия”, Iugoslávia, hoje “Югославия”). Além disso, modificou-se a ortografia de diversas palavras individuais, como a já mencionada “итти”, que virou de vez “идти”, e reduziu-se o número de casos em que se deviam obrigatoriamente usar as terminações -у/-ю no genitivo singular dos substantivos masculinos, ao invés do -а/-я regulares. A normatização mais relevante, obviamente, foi a normatização do alfabeto cirílico russo com 33 letras (10 vogais, 20 consoantes, uma semivogal e dois sinais sem som próprio – “duro” e “brando”) como conhecemos e aprendemos na atualidade.


Bragança Paulista, 4-5 de novembro de 2017



1 de novembro de 2017

Puigdemont, líder empossado/afastado


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/puigdemont



O imbróglio diplomático e geopolítico entre a Espanha, reino soberano, e a Catalunha, sua região autônoma, continua. Em 27 de outubro, o Parlamento de Barcelona proclamou a República Catalã de forma unilateral, sem a aprovação do Estado espanhol, de seu rei Felipe 6.º e de seu primeiro-ministro Mariano Rajoy. Estes, pelo contrário, investiram violentamente contra a secessão e decretaram no mesmo dia o controle provisório da Generalitat, o governo local, que passava a ter depostos seu presidente, Carles Puigdemont, seu vice-presidente, Oriol Junqueras, e sua presidente parlamentar, Carme Forcadell. Estes, contudo, resistiram e se consideram um país independente, falando agora, portanto, em “nossa nação”, e não “nossa região”.

O povo da Catalunha está nas ruas permanentemente e em número massivo, mas a grande mídia brasileira só mostra os protestos em Madri pela unidade da Espanha, cuja representatividade entre os catalães é duvidosa. (Nesses protestos do tipo “Viva España” é conhecida a participação de xenófobos, fascistas e franquistas com sua saudação do braço erguido.) Não parece provável que a independência se mantenha sem uma nova abertura de diálogo conjunto entre Puigdemont e Rajoy, que até agora têm se recusado a ceder um ao outro. Mas um fato é certo: o sentimento dos catalães como um povo ou até país separado dos espanhóis (que falam a língua castelhana), tal como ocorre entre os galegos e os bascos, é secular, e infelizmente o governo central está ignorando isso. Claro que isso, por si só, não justifica a cisão (e o Brexit nos dá uma pista dos custos de tal reconfiguração), mas já é um fator de enorme peso.

Alguns analistas de esquerda, como o site Resistir.info, pensam que boa parte do movimento operário catalão está alijada do processo separatista, cujo protagonismo sempre teria sido da burguesia regional, que nos últimos anos promoveu profundos cortes nos investimentos sociais. Contudo, essa imagem, muito associada ao antecessor de Puigdemont, Artur Mas, fez com que ele justamente ficasse só um mandato no cargo, tendo sido substituído pelo jornalista com a peruca dos Beatles. O diferencial de Carles é justamente mostrar-se como um “outsider”, não saído dessa burguesia catalã, filho de profissionais liberais e que seria mais consequente no processo de independência. Eu mesmo acho que esse projeto é essencialmente esquerdista, como se nota pela maioria dos que apoiam a cisão na Catalunha e pela composição básica do Junts pel Sí, coligação a que pertence o atual presidente. Agrava ainda mais o fato de que Rajoy e seu Partido Popular são de um evidente nacionalismo direitista.

Mas a empreitada continua soando muito quixotesca (ai de mim, Cervantes!), a começar por este vídeo gravado no dia 28 de outubro. A bandeira da União Europeia, colocada à força pelos líderes catalães, destoa com o silêncio que o bloco lhes dedicou, quando não com o repúdio aberto de seus principais membros, França (que tem no sul uma minoria occitana muito próxima culturalmente dos catalães), Alemanha e Reino Unido. Vemos também que o púlpito já não tem mais a marca “Generalitat de Catalunya”, mas somente o brasão nacional; só que o bizarro fica por conta da posição aparentemente torta em que ele está. O “Quixote” Puigdemont pensa que é agora o presidente da recém-proclamada República Catalã, com o “mandato do povo” que ele evoca de forma enjoativa. Pra Rajoy ele não passa de um rebelde recém-deposto, trocado agora pela sua vice-premiê.

Recomendo que, se vocês entendem catalão ou até espanhol, procurem mais mídia local que aluda aos interesses catalães, e não apenas o El País ou a grande mídia brasileira. O canal de onde eu tirei o vídeo sem legendas, por exemplo, é de um periódico muito bom em catalão, o ElNacional.cat. Sugiro que leiam ou folheiem também o Ara.cat, outro site bastante informativo (ara = agora), e o ElPeriodico.cat. Acabei de descobrir que o site oficial da Presidência da Generalitat tem transcrita a maioria dos discursos, inclusive este legendado, com PDF disponível pra baixar. Por fim, vejam o próprio site do governo, também em inglês, espanhol e occitano, com dados sobre turismo, estudos, serviço social etc.

Eu mesmo traduzi e diretamente legendei o vídeo, baseado naquela transcrição que mencionei, tendo o carregado no meu canal Eslavo (YouTube). Depois, revisei o texto das legendas novamente pra poder fazer uma tradução escrita que não precisasse ser abreviada, mas mais clara e literal. Seguem a legendagem e a reescrita em português:


____________________


Caros e caras compatriotas,

Vivemos ontem um dia histórico, um dia carregado de sentido democrático e de sentido cívico. O Parlamento da Catalunha cumpriu com o que os cidadãos escolheram no dia 27 de setembro, quando a maioria surgida das urnas encarregou o Parlamento de proclamar a independência.

Também ontem, o Conselho de Ministros espanhol decidiu pela demissão de todo o Governo da Catalunha, pela censura em nosso autogoverno e pela dissolução do Parlamento. São decisões contrárias à vontade mostrada pelos cidadãos de nosso país nas urnas, o qual sabe perfeitamente que numa sociedade democrática são os parlamentos que elegem ou demitem os presidentes.

Porém, nestas primeiras horas, todos vocês, cidadãos e cidadãs, entenderam que a etapa na qual entramos deve continuar sendo defendida com um incansável senso cívico e um engajamento pacífico. A reação de vocês foi digna de um país maduro, que sabe aonde quer chegar e como quer chegar. Continuemos assim: sejamos perseverantes na única atitude que nos pode fazer vencer. Sem violência, sem insultos, de maneira inclusiva, respeitando pessoas e símbolos, opiniões e respeitando também os protestos dos catalães que não concordam com o que decidiu a maioria parlamentar.

Nossa vontade é a de continuar trabalhando para cumprir os mandatos democráticos, bem como buscar a estabilidade e tranquilidade máximas, sabendo das dificuldades lógicas que comporta uma etapa desta natureza, que nosso país nunca havia percorrido, ou melhor, nunca antes do jeito que está fazendo agora.

A mensagem que eu gostaria de lhes dar é: tenhamos paciência, perseverança e perspectiva. Por isso, saibamos bem que a melhor maneira de defender as conquistas que até hoje alcançamos é a oposição democrática à aplicação do artigo 155, que é a consumação de uma agressão premeditada à vontade dos catalães, que de forma muito majoritária e ao longo de muitos anos têm se sentido como Nação da Europa.

Faremos isso preservando-nos da repressão e das ameaças, sem jamais abandonar, nunca na vida, em nenhum momento, uma conduta cívica e pacífica. Não podemos e não queremos vencer pela força. Nós, não. Peço-lhes isso convicto de que essa condição é a que todos esperam, também fora de nosso país.

Seguiremos trabalhando para construir um país livre, para garantir uma sociedade com menos injustiças, mais igualdade, mais solidariedade, mais fraternidade com todos os povos do mundo, a começar pelos povos da Espanha, com os quais queremos vincular-nos em respeito e reconhecimento mútuos.

Muito obrigado, e viva a Catalunha!