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27 de maio de 2018

Hino da Grécia no tempo dos coronéis


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Enquanto buscava material sobre a ditadura da junta militar na Grécia de 1967 a 1974, liderada por Georgios Papadopoulos (principalmente discursos dele em grego), achei esta linda marcha por acaso. Depois, descobri que ela tinha sido o hino nacional no mesmo período, sendo que nem mesmo na Wikipédia grega, mas apenas em inglês, existe informação a respeito. A canção se chama “Ο Ύμνος της 21ης Απριλίου” (O Ýmnos tis 21is Aprilíou), Hino do 21 de Abril, data do golpe militar, como o 31 de Março no Brasil. A esse hino sucedeu-se o célebre Hino à Liberdade, usado várias outras vezes e ainda em vigor.

A letra é de Giórgos Oikonomídis, a melodia é de Giórgos Katsarós, foi composta no próprio ano de 1967 e quem está cantando é o grego Fotis Dimas. De fato, parece uma daquelas músicas ufanistas dos tempos de nossa ditadura, mas o conteúdo não fica devendo nada aos poemas soviéticos (Sol, corações, sorrisos, jovens, operários). A união “primeiramente com o soldado” mostra o caráter absolutamente militar do regime, que era considerado de extrema-direita, uma espécie de movimento protofascista e com membros simpatizantes de Hitler. Há até uma metáfora interessante: diz-se que “a estação do dia 21” se funde com “o próprio 21 de Abril”, ou seja, a primavera (na Europa) emociona junto com a suposta alegria pelo movimento golpista. De resto, como vemos, instrumentos e batida são bem gregos mesmo.

A Junta Militar Grega de 1967-1974 também é chamada simplesmente “Junta”, Regime dos Coronéis, A Ditadura ou Os Sete Anos, e marcou profundamente a história e a mentalidade da Grécia. De caráter cristão conservador e anticomunista, decorreu de uma crise política devida à falha em formar um governo parlamentar estável, ainda nos quadros da antiga monarquia. De 1970 a 1974, vigorou justamente essa bandeira com azul mais escuro, que vocês veem: a atual é de tom mais claro. O monarca seguiu como chefe simbólico até 1973, quando o coronel Papadopoulos proclamou a república e foi presidente ao longo desse ano. Ele também foi regente monárquico em 1972 e 1973 e primeiro-ministro de 1967 a 1973. Julgado, condenado à morte e passado à perpétua residencial, Papadopoulos morreu em 1999 e, pelo menos no YouTube, ainda parece dividir as opiniões dos gregos.

Esta foi minha primeira experiência de tradução direta do grego moderno, língua que estive aprendendo gradualmente. Baseei-me também na tradução em inglês que a Wikipédia oferecia, mas olhei palavra por palavra no Wiktionary, já que conheço a estrutura básica do grego. Eu mesmo montei o vídeo, usando uma transliteração que também é mostrada na Wikipédia, baseada ao mesmo tempo na ortografia e pronúncia originais. Vocês verão que nem sempre a cada som corresponde uma letra, pois também no alfabeto grego, as combinações “oi” e “ei” soam como um “i” simples, o “ai” soa como um “é” e o “ou” soa como um “u” simples. Além disso, o som real de “gk” é “nk”, e o de “nt” é “nd”. Notem ainda que o grego faz muitas elisões ou reduções de vogais, assim como na poesia de língua portuguesa.

Seguem abaixo a legendagem que postei no canal Eslavo (YouTube), a letra em grego e a tradução em português. Já que as legendas são bilíngues, assistam ao vídeo duas vezes, lendo uma parte de cada vez! Como brinde pra vocês, adicionei também a transliteração que eu tinha escrito pra pôr no vídeo:


____________________


Μέσα στ’ Απρίλη τη Γιορτή
Το Μέλλον χτίζει η Νιότη
Αγκαλιασμένοι – δυνατοί
Μ’ Εργάτη, Αγρότη, Φοιτητή
Και πρώτο τον Στρατιώτη,
Μ’ Εργάτη, Αγρότη, Φοιτητή
Και πρώτο τον Στρατιώτη.

(Mésa st’ Apríli ti Giortí
To Méllon chtízei i Nióti
Agkaliasménoi – dynatoí
M’ Ergáti, Agróti, Foitití
Kai próto ton Stratióti,
M’ Ergáti, Agróti, Foitití
Kai próto ton Stratióti.)

Τραγούδι αγάπης αντηχεί
Γελούν όλα τα χείλη
Και σμίγουν μέσα στην ψυχή
Του Εικοσι-ένα η εποχή
Κι η Εικοσι-μιά τ’ Απρίλη,
Του Εικοσι-ένα η εποχή
Κι η Εικοσι-μιά τ’ Απρίλη.

(Tragoúdi agápis anticheí,
Geloún óla ta cheíli
Kai smígoun mésa stin psychí
Tou Eikosi-éna i epochí
Ki i Eikosi-miá t’ Apríli,
Tou Eikosi-éna i epochí
Ki i Eikosi-miá t’ Apríli.)

Μες στις καρδιές φτάνει ζεστή
Του Απριλιού η λιακάδα
Κι έχουν στα στήθια μας χτιστεί
Θρησκεία, Οικογένεια
Και πάνω απ’ όλα Ελλάδα!
Θρησκεία, Οικογένεια
Και πάνω απ’ όλα Ελλάδα!

(Mes stis kardiés ftánei zestí
Tou Aprilioú i liakáda
Ki échoun sta stíthia mas chtisteí
Thriskeía, Oikogéneia
Kai páno ap’ óla Elláda!
Thriskeía, Oikogéneia
Kai páno ap’ óla Elláda!

____________________


Durante a Celebração do Abril
A Juventude constrói o Futuro
Abraçada, forte
Com o Operário, Fazendeiro, Universitário
E primeiramente com o Soldado,
Com o Operário, Fazendeiro, Universitário
E primeiramente com o Soldado.

Ressoa uma canção de amor,
Todos os lábios sorriem
E se fundem dentro da alma
A estação do dia Vinte e Um
E o próprio dia 21 de Abril,
A estação do dia Vinte e Um
E o próprio dia 21 de Abril.

Dentro dos corações chegam calorosos
Os raios do Sol de Abril
E estão edificadas em nossos peitos
A Religião, a Família
E acima de tudo a Grécia!
A Religião, a Família
E acima de tudo a Grécia!




25 de maio de 2018

Russos fazendo russice: a roleta russa


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Daquelas coisas que parecem só acontecer na Rússia. Por vários meses, o caso teve repercussão nacional e gerou um rápido debate sobre o tipo de arma utilizada. Em 12 de dezembro de 2009, um jovem casal festejava em Astrakhan, cidade no sul da Rússia, a formalização das bodas no café “Aristokrat”. Os convidados estavam comendo, bebendo e se divertindo, até que Artur Dotsaiev, um amigo do noivo, chamou todos os homens à mesa principal pra conduzir um brinde especial. Ninguém tinha notado a pistola não letal em sua mão.

Eis que o convidado, no alto de sua esperteza, propôs que os varões fizessem uma “roleta russa”, como se percebe um mocinho falando: “Russkaia ruletka?”. O tamadá (vou explicar), o homem de camisa vinho com microfone, tenta impedir que Artur se dê um tiro na cabeça, mas ele acaba apertando o gatilho e nada acontece. Os poucos caras que seguiram começam o desafio, e o primeiro a pegar a arma é Sergei Fiodorov, outro convidado. Ele mal leva à arma perto da orelha, e num mínimo toque involuntário, dispara a bala! Os jornais dizem que foi toque mínimo, mas pelo que vi, Artur deu-lhe foi um tabefe na mão.

Sergei saiu de ambulância, e Artur, nascido na Tchetchênia, saiu de camburão, dando fim à alegre festa. O delito que ele cometeu poderia render-lhe 10 anos de prisão, enquanto o colega se encontrava em estado grave, dando trabalho aos médicos. Assim se informava nas primeiras notícias em dezembro de 2009 e janeiro de 2010, e então tive de pesquisar qual foi o desfecho da história. Em agosto de 2010, Artur foi logo julgado, mas o disparo foi considerado acidental, e o tribunal o absolveu, permitindo-lhe sair livremente já no fim da sessão. Mas Sergei, embora tenha sobrevivido, ficou inválido pra vida toda.

Achei o vídeo sem legendas muito por acaso, daqueles relacionados como memes antigos russos, mas encontrei vários desafios tradutórios na reportagem feita pelo canal NTV. Primeiro, o repórter fala numa travmaticheski pistolet, que de fato se traduz como “pistola traumática”, mas que diabo é isso? É uma espécie de arma não letal criada na Rússia nos anos 90, de fácil aquisição por civis. Ela é programada, com suas balas especiais, pra imobilizar rapidamente a vítima, mas não a matar. Isso, claro, se o tiro vem de longe, mas Sergei disparou na cara, ou seja, uma arma de fogo obviamente seria fatal. A atitude já idiota de Artur despertou ainda mais a ira dos russos comuns por ele ser tchetcheno: como um muçulmano comum na Europa Ocidental, foi logo alvo de preconceito e taxado de má companhia.

Abro um parêntese: alguns espectadores me alertaram pra diferença existente entre “revólver” e “pistola”, a qual infelizmente ignorei nas legendas. O primeiro tem um tamborete giratório de balas; a segunda, um cartucho inteiro, o que faz a famosa “roleta russa” possível apenas com o revólver. Perdão pela ignorância! Um rapaz até fez a seguinte zoeira: “Use pistolas num jogo para revólveres, só pode dar nisso.”

O segundo obstáculo foi tamadá. Segundo meu dicionário, que não traduz a palavra, trata-se de um “organizador de brindes”, mas tive de pesquisar mais no Google. A origem está na cultura georgiana, e numa festa grande ou pequena, é chamado pelos anfitriões pra puxar a cerimônia e, de fato, organizar os brindes (chamar a todos, recitar as fórmulas etc.), tendo nos inícios um papel moral muito importante. Hoje a função se banalizou, e mais parecida ao “mestre de cerimônias” ocidental, mas neste contexto podia ser também traduzido “animador” (que escolhi), “locutor” ou “orador”. Seu desafio é contar piadas, fazer jogos, criar um clima, mas não raro é desafiado pelos engraçadinhos, como vimos, que querem tomar seu papel de organizar brindes.

E enfim, o sledovatel, que o dicionário dá como “juiz de instrução”, mas que acabei verificando não existir na justiça brasileira, com seu papel de coletar provas dado à própria polícia. Assim, usei “investigadores” mesmo. Não vou citar fontes, porque fui caçando informações em diversas páginas russas. Felizmente, estava ativado o recurso do Google pra transcrição em texto, daí adaptei o que ia saindo ao que eu realmente escutava. Eu mesmo traduzi direto do russo, legendei, recortei o quadro e fiz umas montagens. Seguem a legendagem, que postei no canal Eslavo (YouTube), a tradução em português (sem as reduções exigidas pelas legendas) e a transcrição em russo:



Um vídeo enviado por um espectador de Astrakhan não deveria estar no ar. A filmagem privada que lembraria o casamento tornou-se o roteiro dramático que embasa um processo criminal: um dos convidados de repente saca um revólver. Come-se e bebe-se no restaurante em festa. Um tanto animado, um amigo do noivo leva os homens para um brinde. Nem todos notam a pistola não letal em sua mão. O animador tenta pará-lo, mas explicam-lhe que é um simples gesto bonito. O homem feriu-se gravemente e os médicos ainda lutam para salvar sua vida. Por que a pistola disparava? Seu dono de 38 anos, nascido na República da Tchetchênia, falhou em explicar. Afirma que havia tirado as balas, mas os investigadores não acreditaram. O amante das felicitações originais aguarda julgamento.

Видео, которое прислал наш зритель из Астрахани не должно было попасть в телеэфир. Снимали это на свадьбе для себя на память, теперь драматичные кадры – улика в уголовном деле: один из гостей неожиданно достал пистолет. Отмечают в кафе, гости выпивают и закусывают. Небольшое оживление, друг жениха водит произносить тост. Не все замечают травматический пистолет в его руке. Тамада пытается остановить, но ему объяснают: это просто красивый жест. Ранение очень тяжёлое, врачи до сих пор борются за жизнь мужчины. Почему пистолет выстрелял? Его владелец, 38-летний уроженец Чеченской республики, объяснить не смог. Утверждает, что извлёк все патроны. Следователи не поверили. Любитель оригинальных поздравлений ждёт суд.

23 de maio de 2018

Merkel fala em inglês (Parlamento, UK)


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Perambulando pelo YouTube, este foi mais um vídeo que achei bem por acaso, e que por causa de sua facilidade e brevidade, também resolvi legendar. Trata-se da chanceler (primeira-ministra) alemã Angela Merkel num dos trechos de seu discurso às duas casas do Parlamento do Reino Unido (a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns), na visita de um dia ao país em 27 de fevereiro de 2014. Existe na internet o texto do discurso inteiro em inglês, mas apenas a primeira e a última página, mais ou menos, foram realmente faladas nessa língua. O vídeo sem legendas, que baixei, contém a transcrição, mas informa erroneamente que a visita foi em 28 de fevereiro.

Como se vê, face à crise econômica e de refugiados, já esquentavam as discussões sobre o Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia. Sabemos que em 2016 um referendo aprovaria o desligamento, causando uma crise no governo conservador de David Cameron. Na visita de Merkel, ele aparece logo à frente do público, à direita, de gravata roxa. Ao seu lado estão Nick Clegg (gravata dourada), então líder dos Liberais Democratas, e Ed Miliband (gravata azul), chefe do Partido Trabalhista. Nenhum dos três atualmente comanda suas respectivas legendas, e hoje o governo conservador encabeçado por Theresa May (que assumiu logo após o Brexit) lida com problemas de confiança, terrorismo e imigração.

Angela Merkel sempre foi vista como a mulher forte da UE, por causa da desproporcional preponderância política e econômica da Alemanha sobre o bloco, tanto que ela foi recentemente reeleita pra chancelaria. Mas o acolhimento dos refugiados africanos e asiáticos pelo seu governo, considerado excessivo, abalou-lhe a confiança e tornou mais difícil formar um governo em 2018. As desavenças entre os parceiros europeus, várias delas voltadas contra os alemães, também são muitas, e o futuro da União, assim como da democracia representativa, está sendo posto em cheque.

Nesta parte do discurso em inglês, Merkel fala justamente, com sua típica sinceridade, que não era o caso nem de remodelar a UE ao bel-prazer dos britânicos, nem de dar um aviso coletivo de que eles poderiam sair à vontade. Sabemos que fim levou a história, e quem paga o preço não é o continente, mas o Reino Unido. A rápida visita incluiu também conversas privadas com David Cameron e um chá com a rainha. Eu mesmo traduzi direto do inglês e legendei, e seguem abaixo minha legendagem no canal Eslavo (YouTube), a transcrição em inglês e a tradução, sem as reduções exigidas pelas legendas:



I have been told many times during the last few days that there are very special expectations of my speech here today. Supposedly, or so I have heard, some expect my speech to pave the way for a fundamental reform of the European architecture which will satisfy all kinds of alleged or actual British wishes. I am afraid they are in for a disappointment. I have also heard that others are expecting the exact opposite and are hoping that I will deliver the clear and simple message here in London that the rest of Europe is not prepared to pay almost any price to keep Britain in the European Union. I am afraid these hopes will be dashed, too.

Nestes últimos dias, ouvi de muita gente que havia elevadas expectativas quanto a este meu discurso de hoje. Suponho, ou ao menos ouvi, que alguns esperam que ele abra a via para uma profunda reforma do edifício europeu, a qual satisfaria todo tipo de desejo suposto ou real dos britânicos. Temo que eles vão se decepcionar. Ouvi também que outros aguardam exatamente o oposto, esperando que eu dirija a clara e simples mensagem, aqui em Londres, de que o resto da Europa está pouco disposto a pagar o preço de manter o Reino Unido na União Europeia. Receio que também essas esperanças se esvairão.

21 de maio de 2018

Inezita: marvada pinga, marvada vodca


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/marvada


Uma das minhas criações mais inusitadas, mas que mais esperei pra fazer. A descrição do vídeo no meu canal Eslavo (YouTube) está toda em russo, por isso aqui no blog estou a repostando traduzida, com mais algumas informações que acrescentei. Esta célebre “moda de viola” foi eternizada na voz de Inezita Barroso, sob o título Marvada pinga, embora muitos outros também tenham gravado, sob outros nomes. A um russo, o nome mais famoso não passaria de uma “Злая водка” (Zlaia vodka), mais literalmente uma Vodca maldosa. Ambas as bebidas destiladas ocupam o mesmo lugar nas respectivas culturas.

Na Rússia deve-se aprender que a pinga, também conhecida como “cachaça”, “caninha” e “aguardente”, entre outros nomes, não é feita de cereais, mas da cana de açúcar. É uma planta cultivada em sua maioria no estado de São Paulo, lugar onde justamente mais se bebe pinga no Brasil e onde foi composta nossa referida canção. Outro nome com que é conhecida é Moda da pinga, a um russo Canção sobre a vodca. Mas tendo sido composta por Ochelsis Laureano, foi gravada pela primeira vez por Raul Torres em 1937, em faixa chamada Festança no Tietê. A versão mais famosa viria na voz de Inezita em 1954, e a partir daí surgiram as inúmeras regravações.

Nesta filmagem, Inezita Barroso está cantando na edição de 19 de fevereiro de 1982 do programa Viola Minha Viola, o qual ela mesma apresentou de 1980 a 2015, ano de sua morte. Mas eu mesmo não sei quem estava apresentando nesse dia, e o vídeo sem legendas é uma versão abreviada e melhorada de uma outra gravação disponível no YouTube. Eu mesmo traduzi “literalmente” (as aspas se devem às inquebráveis barreiras regionais!) o texto da música do português “caipira” pro russo padrão e pus as legendas.

Vocês devem imaginar que não é fácil levar a cabo tal iniciativa transcultural, tentando passar aos russos ou aos falantes da língua russa uma noção do estilo sertanejo de raiz, sua linguagem e sua temática. Pra mim, o que facilitou foi o fato de eu viver desde os seis anos de idade no interior de São Paulo, por isso estou bastante familiarizado com o jeito como o pessoal fala “no sítio”. Mas muitas palavras do próprio poema me eram desconhecidas, seja por diferença regional, seja pelo modo muito peculiar de dicção. Nem preciso reproduzir de novo a letra em português, tão conhecida por muitos, embora eu lhe tenha dado uma redação mais “decente” no YouTube.

Portanto, seguem abaixo apenas o vídeo legendado e a transcrição do texto em russo. Pra quem está aprendendo uma língua estrangeira, sugiro que faça com frequência esses exercícios de versão (da língua materna pra língua estrangeira), porque nos ajudam a pesquisar sobre os “modos de dizer” em outros idiomas, já que o palavra por palavra é sempre impossível. As canções têm a vantagem de ser textos curtos, muito consumidos no mundo todo e, por sua linguagem em geral figurada, nos ajuda a tentar entendê-la e explicá-la em outra língua!


____________________


Злой водкой я растеряюсь,
Вхожу в лавку и уже запиваю,
Беру стакан и оттуда не выхожу,
Там же пью, там же падаю.
Трудно только унести меня,
Ой ла...

Я ухожу из города и уже пою,
Ношу бутылку, которую сосаю,
Иду спотыкаясь по дороге
Ударю овраги головой, кривлю ноги
И куда падаю, там уже засыпаю,
Ой ла...

Муж сказал мне, он просил меня:
«Будь добра, броси пьянство».
Никогда не уважаю мужского совета,
Пью под солнцем, чтоб охлаждаться
И пью вечером, чтоб согреваться,
Ой ла...

Каждый раз я падаю различно:
Хочу назад, падаю вперёд,
Падаю медленно, падаю внезапно,
Верчусь при падении, падаю прямо,
Но из-за водки падаю весело,
Ой ла...

Я беру бутылку и качаю её,
Чтоб проверить, полна ли же она.
Допивать сразу считаю неприличным:
Первым глотком, половину бутылки,
Только вторым осушаю бутылку,
Ой ла...

Я пью водку, ведь мне нравится,
Пью белую или жёлтую водку,
Пью стаканом или чашкой
Или приправленную гвоздикой и корицей.
При любой погоде, водку из горла,
Ой ла... Эх, злая водка!

Я пошла на вечеринку на берегу реки Тиете,
Туда пришла на рассвете,
Сразу мне дали водку, чтоб пить,
Сразу мне дали водку, чтоб пить:
Не была кипячена!

Я слишком много пила, опьянела,
Упала на землю и там лежала
И вернулась домой под руку,
Под руку с двумя полицейскими,
Ой, большое спасибо!




19 de maio de 2018

Dois modos de ver a juventude da RDA


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/jovens-rda




Eu traduzi, legendei e postei no meu canal Eslavo (YouTube) esses dois vídeos em momentos diferentes, mas decidi abordá-los na mesma postagem, porque falam de um assunto semelhante. O primeiro vídeo achei por acaso, decidi procurar o texto e encontrei tanto a descrição da parte que Margot Honecker pronuncia quanto informações sobre o contexto do evento. Margot Feist se casou em 1953 com Erich Honecker, líder da Alemanha Oriental (RDA, ou DDR) de 1971 a 1989, e foi Ministra da Educação (praticamente por uma era geológica) de 1963 a 1989, quando o marido foi deposto. Ela nasceu em 1927 e morreria exilada em Santiago do Chile, em 2016.

Legendei um pequeno trecho de seu discurso na abertura do 9.º Congresso de Pedagogia da RDA, em 12 de junho de 1989. Segundo Margot, a educação escolar e familiar deveria reforçar sua orientação socialista. Contudo, Anna Saunders escreve em seu livro Honecker’s Children: Youth and Patriotism in East(ern) Germany, 1979-2002 (p. 5 do capítulo 3) que até aquela época, mais de 400 sugestões foram enviadas por cidadãos comuns e opositores com pedidos de reformas. Mas apesar do congresso ter tocado na questão da liberalização do sistema, pouco foi feito pra pôr isso em prática, e a Sr.ª Honecker, como vemos, reafirma a orientação marxista-leninista do currículo. Apenas com a ascensão dos protestos de massa seriam removidos os conteúdos mais abertamente partidários e patrióticos, e a renúncia de Margot, em 2 de novembro, pareceu abrir uma nova era no ensino. Mesmo assim, uma enxurrada de cartas continuaria aumentando pro Ministério da Educação no fim de 1989 e começo de 1990.

Vejam que texto sugestivo. Ironicamente, o Muro de Berlim logo ia cair. Já que hoje se cria tanta celeuma em torno da batida “pedagogia do oprimido” de Paulo Freire, e já que tivemos a “pedagogia da cinta” do jornalista Luiz Carlos Prates, parece que Tia Margô dá uma prévia da política que Trump quer seguir na educação: a pedagogia do rifle. Não é mágico? “Uma arma para cada aluno”, na linguagem do marketing tucano paulista. O interessante é que, analisando o “debate” partidário atual no Brasil, a nova pedagogia podia ter duas interpretações:

1) “Mortadela” “petralha” Lula: Tem que pegar em armas contra a burguesia mesmo. Já tínhamos que ter nos oposto ao golpe de 2016 com a força das armas. Reformismo e esquerdismo soft não dá, tem que ter tiro, porrada e bomba pra fazer a revolução!

2) “Coxinha” “reaça” Bolsonaro: Agora sabemos que o PT se inspira nos países comunistas pra aparelhar as escolas e fazer as crianças defender esse sistema. Eles querem transformar o ensino numa fonte de baderna e num diretório partidário. Os socialistas defendem a violência, mesmo por crianças, em todos os âmbitos!

Da “pedagogia do rifle” à “pedagogia da picaretagem”, a presente chanceler alemã Angela Merkel, em rara entrevista, participou de uma conversa com Günter Gaus em 1991, na gravação, talvez, de algum documentário sobre a recém-extinta RDA. Ela diz que a maioria dos jovens que participavam da FDJ (a juventude comunista oficial) nem ligava pra ideologia. Quase não se fala nada neste trecho, mas ele é revelador por causa da sinceridade e do estágio físico em que estava uma pessoa hoje célebre no mundo inteiro. Merkel, hoje filiada à democracia cristã, nasceu e cresceu na antiga Alemanha comunista e diz que sempre ia mal nas aulas de marxismo-leninismo, mas não nas de língua russa, a qual domina até hoje.

A transcrição e mais algumas informações sobre a fala de Honecker estão nesta página, e entre colchetes está um trecho do mesmo parágrafo que não aparece no vídeo. Na busca, achei por acaso um equivalente ao TCC defendido em alemão na Suíça, sobre a educação profissional e patriótica na RDA. Do vídeo com Merkel eu apenas eliminei um trecho e reenquadrei, e uma transcrição em alemão pode ser lida nesta postagem do Facebook. Eu mesmo traduzi os textos diretamente do alemão e legendei, seguindo abaixo as legendagens, as falas originais e as traduções mais ou menos literais em português:



[Noch ist nicht Zeit, die Hände in den Schoß zu legen,] unsere Zeit ist eine kämpferische Zeit, sie braucht eine Jugend, die kämpfen kann, die den Sozialismus stärken hilft, die für ihn eintritt, die ihn verteidigt mit Wort und Tat und, wenn nötig, mit der Waffe in der Hand.

[Ainda não é hora de cruzar os braços.] Nós estamos num tempo de combate, ele demanda uma juventude que saiba lutar, que ajude a reforçar o socialismo, que o conserve, que o defenda em atos, palavras e, se preciso, de armas nas mãos.



Ich war gern in der FDJ, muss ich sagen, aus einer Unterbetätigung in der FDJ, dass man nämlich in Seminargruppen, unter jungen Leuten im Institut, auch Dinge unternommen hat, die mit dem System und seiner Ideologie eigentlich wenig zu tun hatten. Das will ich zugeben. Aber ansonsten war’s auch 70% Opportunismus, natürlich.

Posso dizer que gostava da FDJ, que tendo atuado pouco na FDJ, também se faziam coisas, sobretudo nas monitorias, entre os jovens da faculdade, que quase nada tinham a ver com o sistema e sua ideologia. Quero admitir isso. Mas por outro lado, havia também obviamente 70% de oportunismo.

17 de maio de 2018

“As andorinhas” – esperanto e francês


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/andorinhas


No dia 2 de fevereiro de 2016, traduzi pro esperanto a famosa canção sertaneja As andorinhas, composta pelos brasileiros Rossi, Alcino Alves e Rosa Quadros e gravada pelo Trio Parada Dura em 1985. No dia 3 seguinte, traduzi-a também pro francês, e depois eu mesmo gravei. Nos dois vídeos que carreguei no canal Eslavo (YouTube), coloquei duas legendas: a tradução em esperanto ou francês e a letra original em português. As duas traduções são poéticas, e não literais, mas o sentido ficou praticamente igual. Neste vídeo pode-se escutar a gravação original do Trio Parada Dura.

La 2-an februaro 2018 mi tradukis ĉi tiun konatan kanzonon, La hirundetoj, lanĉitan de la Trio Parada Dura (1985), de la portugala lingvo al Esperanto, kaj poste mi mem gravuris ĝin per mia voĉo. Ĝi estis komponita de la brazilanoj Rossi, Alcino Alves kaj Rosa Quadros. Mi enmetis du subtekstojn: mian Esperantan tradukon kaj la originalan tekston en la portugala. La traduko ne estas laŭlitera, sed la signifo restis preskaŭ tute egala. Brazila versio en ĉi tiu video.

Le 3 février 2018 j’ai traduit cette célèbre chanson, Les hirondelles, lancée par le Trio Parada Dura (1985), du portugais vers le français, et puis moi-même l’ai enregistrée de ma voix. Elle a été composée par les Brésiliens Rossi, Alcino Alves et Rosa Quadros. J’ai mis deux sous-titres sur la vidéo : ma traduction française et les paroles originales en portugais. La traduction n’est pas littérale, mais le sens est presque totalement resté le même. Version brésilienne dans cette vidéo.

La hirundetoj revenis,
Revenis ankaŭ mi
Sidiĝi sur la nesto
Lasita tie ĉi.

Ni estas hirundetoj,
Ni iras, ni venas
En serĉo por am’.

Kelkfoje lacaj revenas,
Doloro ĉirkaŭprenas,
Sed hejme reflugas,
La brakoj korpon skurĝas
Kun granda dram’.

Mi, kiel hirundeto,
Revante forflugis,
Sed estis pere’:

Revenis tre malfeliĉa,
Jen laŭ saĝo riĉa
Unu hirundeto
Sunbrilan printempon
Alportas ne!




Les hirondelles reviennent,
Et je reviens aussi :
Retour au nid des proches
Laissé longtemps ici.

Nous sommes des hirondelles
Qui viennent et qui vont
Pour détendre le cœur.

Mais quelquefois la fatigue
Nous blesse, fustige
Et on bat les ailes
Vers la maison réelle
Avec douleur.

Et comme une hirondelle
J’ai suivi mes rêves,
J’ai fui vainement :

Rentrée gonflée de tristesse,
Car dit la sagesse :
L’hirondelle qui vole
Toute seule ne bricole
Aucun printemps !




15 de maio de 2018

Jdun, boneco Homunculus loxodontus


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/zhdun


O Homunculus loxodontus é uma estátua criada pela artista plástica holandesa Margriet van Breevoort, originalmente colocada no Centro Médico da Universidade de Leiden (Holanda) na primavera de 2016. A intenção da autora era que a obra simbolizasse o sentimento daqueles que esperavam por uma consulta médica, mas ao ser acessada pela primeira vez por russos em fevereiro de 2017, o destino da foto online acabou sendo outro. Na Rússia, o personagem virou um meme de internet muito popular e difundido, aí rebatizado de “Ждун” (lê-se “jdúnn”), que vem do verbo zhdat (esperar, aguardar), aparecendo nas mais diversas montagens humorísticas. Também viralizou na Ucrânia (onde foi chamado Pochekun), Belarus (onde virou Pachakun) e outros países vizinhos. Podemos transliterar “Zhdun” ou “Jdun”.

Neste vídeo curto que baixei sem legendas do canal russo IQ Trading, com variedades e curiosidades da internet, há uma breve história do meme Jdun, mostrando várias imagens e outras coisas sobre a origem na Holanda. Em outras mídias, explica-se o sucesso do personagem pelo papel que ocupam a espera e as filas nas culturas russa e ucraniana, algo nada estranho ao brasileiro comum. Mas na Rússia, esse cenário é temperado pelo atávico autoritarismo estatal, que sempre gerou sátiras geniais e também deixa a internet como o único meio de expressão e protesto, e pela atual crise econômica e social no país, ante o baixo preço do petróleo e as sanções do Ocidente.

Aliás, 2018 foi ano de eleições presidenciais, e como no Brasil, os pró e contra Putin se arranhavam nas redes sociais quando postei a legendagem no canal Eslavo (YouTube); os segundos diziam que seus gastos militares dilapidaram o investimento previdenciário e social. Por isso, mais do que representar a eterna espera por apartamentos, bens de consumo e vagas diversas na era soviética, o Jdun satiriza pra muitos uma espera por mudanças do atual cenário, seja no modo de vida, seja dos políticos no poder (um tanto frustrada pela reeleição de Putin). Eu mesmo traduzi e legendei, usando a ferramenta de leitura automática do YouTube pra saber o que o narrador estava falando.

Abaixo estão as legendas, seguidas pelo texto da fala traduzido em português. No vídeo, eu adaptei um pouco pra facilitar a leitura, mas sem prejudicar o sentido; apenas não transcrevi novamente o original russo, porque traduzi diretamente enquanto lia o texto no YouTube:


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Olá a todos! Vocês estão no canal IQ Trading, eu sou Valentin Krokodil.

Certamente em muitas redes sociais vocês viram essa imagem: uma estranha criatura como misturando um inseto e um elefante, sentada num banco e esperando por alguma coisa. Chamado popularmente de “Jdun”, quem é ele? Por que virou um meme? Quem o inventou? Vou agora responder a essas perguntas!

O Jdun é a foto de uma escultura da artista holandesa Margriet van Breevoort, que a criou pra Universidade de Leiden, na Holanda, e chamou-a de início “Homunculus loxodontus”, uma mistura de inseto e elefante. É um ser esquisito, sem pernas, com mãos humanas e olhos de elefante marinho.

Os internautas deram à escultura seu nome “Jdun”, que pegou perfeitamente. A intenção da artista era assentar o Jdun no banco em frente ao hospital infantil, dedicando sua obra aos pacientes que aguardam a consulta. Essa escultura está no Centro Médico da Universidade de Leiden.

Os habitantes da Rússia e países vizinhos curtiram na hora a incomum figura e começaram a usar sua imagem em diversas situações reais: o Jdun espera na fila do médico, arranja um trabalho... Hoje se podem encontrar na internet dezenas de montagens com a imagem do Jdun nos mais variados cenários cotidianos.

A estranha criatura se tornou de pronto a heroína de brincadeiras de humor gráfico e de memes demotivators, pois ela é tão meiga e incomum! São muitos os personagens assim em nossa vida real, e o Jdun absorveu todos os seus melhores traços.

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