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19 de janeiro de 2019

Socialismo e política do PCB, anos 50


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NOTA: Este texto se chama “Inevitabilidade do socialismo e as linhas políticas do PCB nos anos 1950”, e eu o escrevi na segunda metade de 2011, quando estava redigindo minha monografia (TCC) ao concluir a graduação em História pela Unicamp. Sempre orientado pelo Prof. Claudio H. M. Batalha, eu retomei o tema que já tinha pesquisado na iniciação científica em 2008 e 2009, o impacto do “relatório secreto” de Nikita Khruschov criticando Stalin em fevereiro de 1956 sobre o Partido Comunista do Brasil (PCB) e a recepção das reformas na URSS pelos comunistas brasileiros. Durante a iniciação científica, eu tinha estado recebendo uma bolsa federal do CNPq por meio do programa interno PIBIC. Eu estava então com as ideias bem frescas na cabeça, e não seria o único texto refletindo sobre meu tema de estudo, mas antes de 2014, quando comecei meu mestrado, infelizmente perdi a prática no assunto. Tendo um tom ensaístico, sem muito retorno às fontes, eu ainda subscrevo o conteúdo do texto, mas só não escreveria hoje a conclusão muito condescendente. Não mudei os dados, mas fiz umas correções redacionais em prol da clareza e da atualização.



Introdução – O Partido Comunista do Brasil, ou PCB (que trocou o “do Brasil” por “Brasileiro” em 1961), sempre foi conhecido, desde sua fundação, em 1922, pela constante oscilação entre linhas políticas diversas, ora mais radicais, ora mais conciliatórias; ora sedentas da necessidade de derrubar a ordem vigente, ora propensas a adequar-se ao Estado capitalista; ora apressadas em passar o poder às mãos do proletariado, ora dispostas a dividir a liderança com setores das classes dominantes tidos como progressistas. Entre as décadas de 1950 e 1960, nota-se a passagem gradual de um programa considerado, posteriormente, “esquerdista”, “sectário” e “aventureiro” a outro visto por muitos como “direitista”, “revisionista” e “reformista”.

Essa transformação está ligada tanto a fatores nacionais, como a política estatal, as mobilizações operárias e as condições econômicas produtivas e populares, quanto a fatores internacionais – em última instância, importantes sempre e muito para o País –, como o equilíbrio diplomático entre soviéticos e norte-americanos (os dois polos mundiais de poder da época), a situação do mercado financeiro mundial, as mudanças sociais em outros países e as vicissitudes do chamado “bloco socialista”, então liderado pela URSS, a matriz orientadora dos comunistas brasileiros.

Além disso, a referida virada tática abarca uma discussão antiga sobre dois temas caros ao pensamento comunista do século 20: a presumida inevitabilidade da marcha global rumo ao socialismo e ao comunismo, que mais cedo ou mais tarde triunfariam inevitavelmente sobre o capitalismo e cuja suposição foi realimentada pelo líder soviético Nikita Khruschov; e a leitura feita pelo PC brasileiro a respeito da “revolução democrático-burguesa”, pregada na maior parte de sua existência e frequente legitimadora, embora de um modo particular, de uma orientação contrária a certas mobilizações operárias e favorável ao alinhamento com as demandas da grande burguesia nativa.

Breve histórico dos programas pecebistas – Em 1947, acirrada a “guerra fria”, o PCB teve seu registro cassado e, no ano seguinte, seus parlamentares perderam os mandatos. Em resposta, é adotada uma linha política insurrecionalista, de derrubada do governo do presidente Eurico Dutra, de rupturas com a maioria dos aliados, de combate ao “imperialismo” de todos os grandes países, de oposição à burguesia como um todo e de boicote as eleições, vistas como uma “farsa” de um regime opressor “de latifundiários e grandes capitalistas”. (Cabe lembrar que desde 1945, quando se tornou legal e elegeu vários deputados federais e Luiz Carlos Prestes, seu secretário-geral, como senador, o Partido seguia uma prática de centralidade na política institucional e de abstenção em confrontos trabalhistas diretos por reivindicações imediatas. Fruto de uma conjuntura global de distensão e prestígio dos comunistas, desapareceu junto com o cenário que lhe favorecia.)

A radicalização foi verbalizada pela primeira vez no Manifesto de Janeiro de 1948 e ratificada no Manifesto de Agosto de 1950. Com os posteriores fracassos na agitação ideológica, na atuação sindical e na participação política e com a maciça adesão popular a Vargas e ao trabalhismo do PTB, os comunistas aprovaram um novo Programa no seu 4.º Congresso de novembro de 1954. Ele ainda postulava a sublevação contra o Estado e, embora documentos anteriores do mesmo ano já exaltassem a alternativa contrária, não previa a colocação eleitoral de suas propostas, mas aceitava o apoio da chamada “burguesia nacional” (um setor de capitalistas brasileiros que, na concepção pecebista, recusavam a dominação financeira de outras nações), cujas propriedades ficariam intocadas no processo revolucionário, e a concentração do fogo apenas no “imperialismo” norte-americano. Também se voltou a tolerar alianças mais variadas, especialmente com os dirigentes trabalhistas.

O clima de otimismo com o desenvolvimento sob Juscelino Kubitschek, a onda de nacionalismo patriótico emancipatório entre os povos subdesenvolvidos ou colonizados e o abalo no mundo socialista com a revelação dos excessos de Stalin em 1956 levaram a mais uma revisão progressiva da linha partidária, em consonância com os novos tempos de paz e distensão. A partir da Declaração de Março de 1958 e com maior força no 5.º Congresso, em agosto de 1960, o PCB passará a valorizar as eleições nas suas tentativas de obter visibilidade, como já fizera apoiando JK e o vice João Goulart em 1955, apostará na possibilidade do caminho pacífico para as transformações sociais, lutará pelo registro eleitoral e se comprometerá ainda mais com o nacionalismo, mesmo que isso implicasse a convivência com inimigos de classe históricos.

Aceitações e resistências às mudanças da linha – É ingenuidade pensar, contudo, que a troca de diretrizes era imediata, como que por clarividência súbita da direção e sem demora em sua aplicação. Conforme as necessidades internas e externas iam forçando o Partido, a linha oficial era progressivamente desobedecida ou até discretamente posta de lado pelo dinamismo das bases, pelo paulatino recuo ou giro em algumas posições ou atitudes e mesmo por documentos diretivos que consolidavam o que o Comitê Central, uma das instâncias superiores do organismo, inicialmente não queria enxergar nesses agentes. Além disso, muitos militantes ou frações por vezes demonstravam certa relutância ou até rejeição explícita a iminentes modificações programáticas. Assim, a evolução das táticas comunistas só pode se revelar após um minucioso trabalho de genealogia das correções e resistências.

Por exemplo, durante o segundo período Vargas, com o PCB isolado na clandestinidade, mas buscando criar sindicatos paralelos aos atrelados ao Ministério do Trabalho, o insucesso foi tão evidente que a chamada “Resolução Sindical” de 1952 voltou a favorecer a inserção dos trabalhadores no sindicalismo oficial, além de sugerir a religação às movimentações trabalhistas capitalizadas pelo Presidente da República. Da mesma forma, enquanto o Projeto de Programa, lançado em dezembro de 1953 para ser discutido e aprovado no 4.º Congresso, clamava pela derrubada do governo Vargas, sua versão final, instruída pela comoção popular decorrente do suicídio de 24 de agosto, substituiu aquele nome próprio pelo genérico “atual governo”. Já em agosto de 1955, quando o Programa oficial ainda cogitava a luta armada, os comunistas lançaram um manifesto de apoio às candidaturas de JK e Jango e incentivaram a participação ativa no pleito presidencial.

Quanto às resistências, pode-se citar inicialmente a discordância de Fernando de Lacerda, nos debates do 4.º Congresso, com a ordem de “derrubada do governo”, pelo que foi extremamente censurado e marginalizado. Mais tarde, a declaração de 1958 e a Resolução Política do 5.º Congresso não foram impostos sem amarga luta interna, em que os elementos ligados às antigas ideias se opunham à valorização da “via pacífica” ou à sobrestimação do papel da burguesia na frente revolucionária. (Isso sem contar, é claro, as relativas novidades analíticas e o rebaixamento de alguns dirigentes já em 1957.) Como se vê, as guinadas são fruto de longas maturações e vivências matizadas, enquanto as recalcitrâncias podem igualmente forçar conciliações junto a uma cúpula muitas vezes tida como impenetrável e onipotente.

A ideia da “inevitabilidade do socialismo” – As reviravoltas no Partido, como já se falou, têm entre seus condicionantes as viragens no movimento comunista internacional, devidas a complexas mutações geopolíticas e econômicas nas relações entre os Estados nacionais, estando a inevitabilidade da transição ao modo de produção socialista entre as diversas concepções que vez ou outra entram e saem de cena. Emergente de modo cíclico desde a consolidação da social-democracia na Europa, essa ideia consiste na crença, por parte dos governos ou movimentos marxistas, de que as condições mundiais seriam tão favoráveis que a chegada ao socialismo e ao comunismo seria questão de tempo, ou seja, não seriam necessárias revoluções violentas ou revoltas de massa para a mudança do regime político. Bastaria, por exemplo, que a simples espera ou atuação parlamentar deixassem o desenvolvimento capitalista desembocar pacificamente no cenário pretendido.

Esse princípio é estranho aos principais “clássicos”, sobretudo a Marx e Engels, e a Lenin em algum grau. Para eles, o socialismo era uma possibilidade a ser construída com base no que as contradições do capitalismo ofereciam ao proletariado, e não algo que tivesse de ser erigido do nada ou que florescesse sozinho. Era, antes, uma espécie de consequência, na acepção mais ampla, “necessária” do desenvolvimento capitalista, a meio caminho entre a mera alternatividade e a mera inexorabilidade: havia uma pedra preciosa escondida nas profundezas da terra, mas era preciso cavar, trabalhar para encontrá-la.

De forma oposta pensavam os sociais-democratas do Ocidente europeu entre os séculos 19 e 20, que se ativeram ao trabalho legislativo e não evitaram a eclosão da Primeira Guerra Mundial; os stalinistas do imediato pós-guerra, que confiavam na criação de um sistema mundial de nações socialistas para a realização segura de seus ideais; e os khruschovistas herdeiros do 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, para os quais fatores como a descolonização, os nacionalismos anti-imperialistas e a dissuasão atômica bastariam para atrair mais adeptos a seu “campo da paz”. Por isso, momentos como a revolução bolchevique e a agressividade contra Tito e outros “revisionistas” podem ser considerados ciclos em que as forças socialistas se consideravam cercadas pelo inimigo capitalista e sem garantia de vitória, em outras palavras, seriam fortalezas sitiadas em torno das quais seria necessária a mais ampla união disciplinada e homogênea.

A noção de “revolução democrático-burguesa” – De forma permanente, mas com maior vigor justamente nessas horas mais cômodas, preponderou no PCB a noção de que a etapa atual da revolução brasileira não seria socialista, mas “democrático-burguesa”. Esse termo foi decalcado das análises leninianas da situação russa, tão atrasada que exigiria primeiramente, para que surgissem as condições necessárias à construção do socialismo, as conquistas básicas que haviam caracterizado a burguesia revolucionária nos países capitalistas avançados nos séculos 18 e 19, quais sejam a industrialização, a democracia política e a popularização da cultura e da educação. Na etapa socialista, esses traços seriam dialeticamente aperfeiçoados e levados além nas suas melhores consequências, mas sua implantação seria obra do próprio operariado, e não exclusivamente da burguesia nem da consolidação do capitalismo “selvagem” na Rússia. O nome “democrático-burguês” deriva da origem histórica de tais conquistas; se fosse o caso de implantar o capitalismo, a etapa se chamaria “revolução capitalista”.

Todavia, a Internacional Comunista – que desapareceu em 1943, mas fincou sólidas raízes teóricas –, buscando exportar a revolução, aplicou o rótulo a todos os países ditos “semicoloniais” ou “dependentes” em 1928, e também à América Latina em 1929, com o agravante de supor que viria a calhar uma aliança mal-explicada com as “burguesias nacionais”, que presumivelmente guardariam rancores do capital estrangeiro. E isso sem analisar mais detidamente as particularidades locais que poderiam fazer a teoria cair por terra. No caso do Brasil, classificado pelo PCB como “dependente sob risco iminente de colonização pelos EUA”, aqueles três requisitos pareciam encontrar-se num meio-termo total: na década de 1950, a industrialização era suficientemente ampla e a democracia, razoavelmente estável, ainda que incompleta, mas a educação e a cultura restavam sofríveis.

Eis uma “revolução democrático-burguesa” já feita pela metade e cujos pré-requisitos, descontada a escala maior, parecem atualmente continuar os mesmos. Não obstante, os comunistas brasileiros, no processo de “desradicalização”, reviraram a terminologia: a tomada do poder era adiada indefinidamente, quando originalmente ela era mesmo adiantada no tempo; a chance de evitar os males do capitalismo é trocada pela sua perpetuação; e a hegemonia proletária, tão cara ao patrimônio marxista, cedia espaço à liderança de quem já era líder, aliás, contra a vontade do público-alvo, visto que a burguesia dita nacional não se julgava de forma alguma revolucionária, ao menos do modo como colocavam os seguidores de Prestes. Não foi outro o motivo que levou o “Cavaleiro da Esperança” a dizer por duas vezes, em 1945 e em 1958, que os trabalhadores brasileiros sofriam mais da estagnação do capitalismo do que de seu desenvolvimento.

Conclusão – Sempre foi cômodo para certos juízes impertinentes mandar a objetividade às favas e formatar seu tema de estudo dentro de sua idílica e experiente contemporaneidade. Como é bonito atribuir erros, pecados e má-fé a nossos antepassados, ignorantes de uma trajetória que temos resumida ao alcance das mãos, mas que lhes foi permitido tatear apenas com muito sacrifício! Sacrifício de bens materiais, de tempo livre, de prazeres, de uma vida que poderiam ter levado na santa paz de seus lares e trabalhos, mas que optaram depor no altar do bem comum e da justiça social. E se hoje temos a arrogância de dizer que sua luta enveredou por caminhos equivocados e por leituras dogmáticas da realidade, também somos capazes de saber que a história não pode ser reescrita nem é passível de conjeturas.

Assim, deve-se reconhecer com humildade a esperança que se depositava na vitória do socialismo como advinda de uma conjuntura de relaxamento das tensões políticas e militares entre os dois “blocos”, de retomada do desenvolvimento econômico em escala mundial e de profusão do sentimento de emancipação patriótica e de regimes que respeitavam os valores democráticos, ou ao menos implantavam as primeiras formas de representação popular em sociedades bastante conservadoras. Pode não haver justificativas estritamente racionais para a manutenção da matriz terceiro-internacionalista, mas entende-se que o exemplo russo, ainda o único que havia edificado uma grande potência, mantinha-se atual e com prestígio renovado, e não desgastado, desde os anos 1940, até que a pluralização dos marxismos na década de 1960, com o avanço da “desestalinização”, alterasse lentamente a situação; o tigre chinês ainda era um gatinho de papel.

De qualquer forma, como dizia o comunista francês Georges Cogniot, a Comintern era o começo da caminhada daquela geração. Geração que tarde compreendeu a indomabilidade das forças que não permitem ao ser humano fazer a história como ele quer e que não assistiu ao desmoronamento do sistema mundial em que residiam suas expectativas de dias melhores, sem desigualdade e opressão.


Bragança Paulista, 14 de setembro de 2011.


Referências bibliográficas

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Periódicos consultados

Novos Rumos, Rio de Janeiro, 1959 a 1960.

Problemas, Rio de Janeiro, 1954 a 1956.

Voz Operária, Rio de Janeiro, 1956 a 1959.



17 de janeiro de 2019

Tripulação é uma só família: URSS 1973


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Voltando um pouco ao hábito de legendar canções militares soviéticas, estou apresentando um vídeo sugerido pelo pessoal do nosso grupo no WhatsApp. Essa montagem tem a música que se chama “Экипаж – одна семья” (Ekipazh – odna semia), A tripulação é uma só família, e é um dos patrimônios da Marinha da URSS, agora Marinha da Rússia. Mesmo hoje, os militares ainda a cantam muito, e os russos em geral têm especial carinho por ela. Foi composta em 1973 por Iuri Pogorelski (letra) e Viktor Pleshak (melodia).

Quando nós vemos a letra em russo traduzida, achamos que muitas canções possuem um texto bobo e um conteúdo banal, por causa da simplicidade que se aparenta a nós. Contudo, se conhecemos a língua russa, ficamos sabendo que as músicas desse período eram muito bem feitas no sentido do jogo com as palavras e com sua ordem, das variações sonoras e das ricas rimas. E além de seu vocabulário ser mais amplo, a expressão é mais concisa, permitindo que muito mais coisa seja dita num espaço menor, e de formas muito variadas. No caso específico soviético, a profissão artística era muito valorizada, e as canções de propaganda tinham um papel central na simbolização do regime. Muito do que lá foi composto em russo continua sendo popular na cultura da Rússia republicana, e além disso, o papel das guerras em sua história torna muito próximo do povo, bem mais do que no Brasil, o dia a dia das Forças Armadas.

Iuri Mikhailovich Pogorelski (1933-2008) nasceu em Leningrado (hoje São Petersburgo) e foi um dramaturgo, jornalista, escritor, letrista e poeta. Seu pai trabalhava no Ministério dos Transportes Fluviais, mas ele morreu quando Iuri ainda era pequeno, o que o obrigou a cedo trabalhar numa fábrica, onde seus primeiros poemas foram publicados. Após servir no Exército Vermelho, estudou pra trabalhar na imprensa, mas até o fim da vida permaneceu nas artes. Uma de suas letras mais famosas é esta mesma, cuja melodia é de Viktor Vasilievich Pleshak (n. 1946), célebre compositor de música teatral, orquestral e popular. Também nascido em Leningrado, teve excelente formação acadêmica e participou das principais uniões nacionais de compositores e por outras causas. Recebeu muitos títulos e prêmios por sua vasta obra, que já teve a interpretação de artistas tão famosos como Eduard Khil, Iosif Kobzon e Anna Kovalchuk.

A montagem em vídeo foi feita pelo russo Aleksei Ivanov, que tem um perfil no VKontakte, e apenas legendei e cortei o quadro. Eu mesmo traduzi direto do russo, com base na letra oferecida no conhecido site SovMusic.ru. A expressão Voienny flot significa literalmente “marinha de guerra” ou “frota militar”, mas como geralmente temos no Brasil as Forças Armadas subentendidas, traduzi apenas como “marinha”. Uma das versões mais famosas é com o Mr. Trololo, sob o nome As estrelas nos chamam (Zovut nas zviozdy), mas não parece ele que está no áudio abaixo. Seguem minha legendagem, que postei no canal Eslavo (YouTube), a letra em russo e a tradução em português:




1. Нам нужны такие корабли на море,
Чтобы мы могли с любой волной поспорить.
Маяки нужны и нужен нам локатор,
А ещё нам верные нужны ребята.

Припев (2x):
И тогда вода нам как земля.
И тогда нам экипаж семья.
И тогда любой из нас не против –
Хоть всю жизнь служить в военном флоте.

2. Нам для службы на море нужны походы,
И приветы из дому в далёких водах,
И чтоб не терять минут свободных даром
Нам, конечно, в кубрике нужна гитара.

(Припев 2x)

3. Нам нужны для службы якоря и тросы,
Нужен нам устав, что помнят все матросы.
Нужен флаг, что реет над волною синей,
А всего нужнее Родина-Россия.

(Припев 2x)

____________________


1. Precisamos destes navios no mar
Para podermos encarar qualquer onda.
Precisamos de faróis, precisamos do radar,
E também precisamos de rapazes devotados.

Refrão (2x):
E então a água nos será como terra.
E então a tripulação nos será família.
E então nenhum de nós vai se recusar
A servir por toda sua vida na marinha.

2. Para servir no mar, precisamos de missões
E de lembranças de casa nas águas distantes,
E para não desperdiçarmos os minutos livres
Precisamos, é claro, do violão no alojamento.

(Refrão 2x)

3. Para servir, precisamos de âncoras e cabos,
E do regulamento que todo marinheiro decora,
E da bandeira que tremula sobre a onda azul,
E mais que tudo precisamos da Pátria Russa.

(Refrão 2x)




15 de janeiro de 2019

Como o ateu pode lidar com religiões?


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NOTA: “Como o ateu pode lidar com as religiões?” é mais um texto da série reflexiva que escrevi em 2011, desta vez em pleno dia de Natal, quando eu estava levando a ruptura com o catolicismo. Hoje mesmo, nem sempre reivindico o rótulo de “ateu”, embora eu viva como se seres ou lugares sobrenaturais não existissem, mas creio que o texto traz uma marca de tolerância cultural da qual compartilho (ou tento) até agora. Tenho a impressão de que essa “ruptura”, que se deu em fases graduais, tinha muito mais a ver com meu próprio psicológico, que ainda era dependente da “muleta” espiritual, do que com grupos religiosos ainda na minha cola. Mas justamente por ter se dado no meu íntimo, a transformação não me levou a ser totalmente intolerante com quem pensava diferente. Essa tolerância, infelizmente, é o que mais falta no Ocidente moderno, e hoje até mesmo consigo conviver com o estudo da Bíblia e da história católica sem torcer o nariz.



Estas observações não são um receituário, mas um levantamento de possibilidades. O ateu ou a ateia é uma pessoa insubmissa por natureza e não aceita enquadramentos, mesmo vindos de quem diz compartilhar sua opinião. O ateísmo não é um conjunto de dogmas prontos, mas uma postura para com as religiões, e a relação de cada um com elas é muito subjetiva e dificilmente quantificável.

As religiões não se confundem necessariamente com a experiência religiosa, ou melhor, com a experiência espiritual. A separação de ambas é um fenômeno recente, pois até a eclosão dos movimentos rebeldes dos anos 1960, ao menos no Ocidente cristão, as instituições religiosas quase monopolizavam a espiritualidade individual e coletiva, condenando desvios e oposições às normas. Esse modelo institucional não é bem aplicável às fés orientais (não incluo aqui o islã), que sempre foram mais abertas ao misticismo pessoal, mas é certo que tal novidade só ganhou espaço por aqui com a atomização das relações humanas, a laicização da sociedade, a consolidação da liberdade de pensamento e a valorização das subjetividades. Hoje, portanto, apesar dos esperados chios clericais, podemos separar tranquilamente a religião como organização humana e a espiritualidade como vivência íntima, às vezes coletiva.

Já o ateísmo ainda não tem uma história tão bonita assim para contar. Corrente originariamente ocidental, surgiu como palavra na Grécia antiga para rotular os que contestavam os deuses oficiais (mas sem necessariamente descrer em outros de sua escolha) e assim permaneceu, apropriada pelo cristianismo, até o século 18. Então, manifestaram-se os primeiros pensadores que refutavam de modo sistemático e articulado a crença em qualquer divindade ou realidade sobrenatural, sem reunir, porém, a adesão esperada com a Revolução Francesa e com o progresso científico do século 19. A partir daí, e até hoje, o ateísmo, jamais claramente definido pelos seus adeptos ou pelos seus detratores, foi declarado pelos três grandes monoteísmos e suas crias como seu maior inimigo, junto com o secularismo, que visa livrar a esfera pública da ditadura das religiões (e não as afastar totalmente dela, como interpretam alguns), e com todos os matizes do socialismo, cujo objetivo é fazer as pessoas comuns dirigirem seus próprios destinos, e não os entregarem a chefões ou manipuladores.

Felizmente, a maioria das religiões soube se adaptar às mudanças das sociedades em que nasceram ou se implantaram. As heterodoxias puderam florescer para atender às necessidades da modernidade ou de grupos em ascensão antes marginalizados ou inexistentes. Todo grande sistema doutrinário de qualquer natureza, se não se presta à abertura para o diálogo e à leitura atualizada da realidade circundante, corre o risco de se tornar um cadáver exposto e de mais atrapalhar do que ajudar seus seguidores e as instituições vizinhas. Contudo, mudar implica extinguir ou reduzir os privilégios de algumas facções, e então surgem os radicalismos, extremismos e fundamentalismos, nem sempre fisicamente violentos, mas já ultrapassados de nascença. Em determinado momento histórico, se ocorre de triunfarem, inevitavelmente terminam derrotados tão cruelmente quanto pernicioso tenha sido seu domínio. Os heterodoxos vencem, enfim, para fazer a sociedade circular.

Os ateus costumam ser muito duros com as grandes religiões, pois respondem à dureza com que elas lhe tratam e deixam aflorar a revolta natural que uma minoria estigmatizada dirige a um poder dominante. Mas nem sempre fica evidente a distinção entre os institucionalismos majoritários e os dois maiores obstáculos naturais à sua integridade e influência já citados acima, ou seja, a fé pessoal e as dissidências progressistas. As manifestações mais frequentes da espiritualidade individual no Brasil costumam ser a crença em Deus ou Jesus Cristo sem filiação religiosa ou a transigência com as regras oficiais, por exemplo, na interpretação de um sonho, numa suposta visão, no recurso a simpatias, na relação particular com as entidades sobrenaturais, entre outras. É difícil medir o quanto alguém ou um grupo se apega a um velho preconceito, mas, na maioria dos casos, especialmente com a população comum, o mais seguro é conscientizar para a convivência pacífica e tolerante na diversidade, sem atacar frontalmente os antigos valores, a não ser que eles estejam causando prejuízos sérios e evidentes a seus aderentes.

Quanto aos dissidentes religiosos, sejam líderes de instituições novas, mas pequenas, sejam correntes marginais de grandes grupos, o diálogo é quase sempre possível (mais até do que com certos ateus, diga-se de passagem), especialmente se forem progressistas: é natural que busquem contatos variados para adquirir força e visibilidade e se aliem à luta pelo direito à pluralidade e pelo Estado laico, coisas que os ateus geralmente desejam. A troca de ideias e as concessões mútuas são praticamente uma necessidade, desde que haja intercompreensão e renúncia ao proselitismo. Às cisões conservadoras nem vale a pena dar muita atenção, pois costumam ser frutos ainda mais apodrecidos do que a árvore da qual caíram.

Parece irrealista dispensar um mesmo tratamento a todas as grandes denominações religiosas, isso quando é possível tirar alguma conclusão. Como poderes realmente fortes, vale empregar com elas o pragmatismo e a coerência. Pragmatismo para saber que não cairão apenas pelo berro de um ou outro inconformado e que podem muito facilmente jogar a opinião pública e popular contra qualquer um de seus oponentes. E coerência para, apesar das barreiras, não deixar esmorecerem a crítica aos aspectos enganadores, abusivos e corruptos das religiões e a batalha contra a tirania de assuntos privados sobre esferas que originalmente devem atender e representar todos os grupos e indivíduos de uma sociedade.

Há outros elementos que, por serem subjetivos, podem ficar de fora, como o comparecimento a cerimônias religiosas familiares, o porte de algum enfeite religioso, o cumprimento de feriados e a fruição de arte sacra. Mas, em qualquer caso, devem prevalecer o bom-senso, a educação, o conhecimento histórico, a consciência de que nenhuma força invisível vai lhe escravizar por executar este ou aquele ritual e até a lembrança daquele ditado popular: “Em Roma, faça como os romanos”. Todas as formas de expressão cultural merecem espaço, desde que respeitem a integridade e a dignidade física e psicológica de outras pessoas e não exijam regalias que lhes permitam transitar acima da lei.


Bragança Paulista, 25 de dezembro de 2011.
Levemente modificado a 25 de julho de 2012.



13 de janeiro de 2019

Karel Gott – Tam, kam chodí vítr spát


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Estou continuando a coleção lançada no início de 2018 no meu canal Eslavo (YouTube), com nosso célebre croata Vice Vukov, após notar que a música brasileira em 2017 tinha se tornado um verdadeiro lixo. E, pelo que constatei, ela piorou ainda mais em 2018, sem perspectiva boa pra 2019, por isso decidi seguir minha missão. Vou redescobrindo pérolas populares e românticas do mundo eslavo, pra que possam inspirar nossos artistas e agradar a todo brasileiro.

Esta é a segunda canção que traduzi diretamente do tcheco, se não contarmos o próprio hino da República Tcheca, pro qual, porém, contei também com outras traduções. De novo agora, eu mesmo traduzi do próprio original, sem outros cotejos, usando a prática de aprendizado autodidata desde outubro de 2017 e o conhecimento adquirido após traduzir uma peça teatral completa do tcheco de outubro a dezembro últimos. O nome da música, surgida ainda na antiga Tchecoslováquia, é Tam, kam chodí vítr spát (Lá aonde o vento vai dormir), interpretada por Karel Gott, considerado o maior cantor nacional.

Gott (n. 1939), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua tcheca, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta (Gott significa “Deus” na língua alemã). Ele também é pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi nos anos 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele seria também admirado. Gott, que tem um site oficial em tcheco, encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou.

Tam, kam chodí vítr spát tem melodia de Ivan Kotrč e letra de Zbyněk Vavřín, e foi gravada pela primeira vez em 1965. Os arranjos ficaram por conta da orquestra de Karel Vlach, e o coral soando ao fundo tem a direção de Lubomír Pánek. O vídeo foi extraído do programa de TV Z levého rukávu, emitido em 1967, e tem um upload oficial da gravadora de Karel Gott no YouTube. Eu copiei a letra original desta página, cujo site também tem muita coisa de Gott, como biografia, fotos, letras de música, pinturas etc. Seguem abaixo minha legendagem, o texto em tcheco (original) e a tradução em português:




Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já cestu znám,
Tam, kam chodí vítr spát,
V údolí svůj domov mám.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam svůj domov mám,
Tam, kam chodí vítr spát,
Tam i já se vracívám.

Měsíční gong po větru volá,
Měsíční gong svá hejna svolává,
Tomu, kdo sám, sám se toulá
Zpáteční lístek po větru posílá.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já domov mám,
Zpátky každý se vrátí rád
Tam, kam vítr šel spát.

Měsíční gong po větru volá,
Měsíční gong svá hejna svolává,
Tomu, kdo sám, sám se toulá
Zpáteční lístek po větru posílá.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já domov mám,
Zpátky každý se vrátí rád
Zpátky, kam vítr šel spát

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Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu conheço o caminho,
Lá aonde o vento vai dormir,
No vale, eu tenho meu lar.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho meu lar,
Lá aonde o vento vai dormir,
Pra lá também volto às vezes.

O gongo da Lua chama no vento,
O gongo convoca suas revoadas,
Àquele que é um solitário errante
Manda no vento passagem de volta.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho um lar,
Todos vão gostar de retornar
Lá aonde o vento foi dormir.

O gongo da Lua chama no vento,
O gongo convoca suas revoadas,
Àquele que é um solitário errante
Manda no vento passagem de volta.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho um lar,
Todos vão gostar de retornar,
Voltar aonde o vento foi dormir.




11 de janeiro de 2019

Buscar as coisas do alto, ainda hoje?


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NOTA: Mais um desses textos que escrevi em 2011, no florescimento da minha aptidão crítica, juntando religião, política e comportamento. Não está datado, e talvez seja do final de abril, no máximo começo de maio, embora a última modificação do meu arquivo Word esteja datada de 9 de setembro. Como se verá, era uma época em que eu ainda não me incomodava de continuar acompanhando minha família na missa, sendo que atualmente quase não vou, e até os meus relaxam cada vez mais. O interessante é que eu acabei articulando isso com leituras que estava fazendo na época, e fiquei bem feliz de ter reencontrado notas de impressão desses textos. Da mesma forma, hoje não uso mais a torto e a direito o rótulo “ateu”, como fazia nos tempos em que a dessacralização era a moda. Mesmo que muitos agora considerem o neoateísmo como uma “modinha”, essas minhas reflexões da época se fazem mais atuais do que nunca, dado o presente emburrecimento geral do Brasil e do mundo. Quem não se incomoda com parágrafos longos, pode entender cada parte como um só.



Apresentação – O magnânimo padre Marcelo Falsarela, da Diocese de Bragança Paulista, fez um sermão instigante, no fim da tarde de 24 de abril de 2010, a respeito, entre outras leituras, de uma carta de São Paulo que exortava seus fiéis a buscarem as coisas “celestes, do alto”, e não as coisas terrenas. Esse pároco, embora jovem, ou talvez por isso mesmo, é um dos poucos ainda vivos no Brasil que não se põe acima de seu rebanho e comunga com o povo, fazendo as vezes de psicólogo, amigo, parente, arrecadador de verbas e várias outras funções.

A loquacidade de sua pregação, minha simpatia por sua pessoa e meu cruzamento de certas ideias e leituras com o tema da prédica fez-me concluir que devemos, sim, se não aspirar ao “celeste”, pelo menos visar ao duradouro, ao longo prazo e à qualidade, e não ao imediato, ao fugaz e ao quantitativo.

O ateu na missa – A primeira pergunta que a leitora ou o leitor podem fazer ao que escreve é o que alguém que declarou seu ateísmo em outros textos estaria fazendo no serviço dominical de um templo católico. A resposta só pode ser dada por quem já superou a mera repulsa aos aspectos exteriores da religião e, tendo adquirido o senso crítico diante dos sermões e compreendido as incontáveis determinações materiais e antropológicas que resultam no que se presencia em um culto, vê a este mais como uma bela manifestação artística, semelhante a um concerto, uma exposição de arte ou mesmo à narração de contos literários, do que como algo realmente sobrenatural e, por isso mesmo, inevitavelmente maligno.

Deve-se dizer ainda que é tranquilizante, às vezes, descansar das críticas materialistas à fé católica e simplesmente vivenciar o momento presente e a convivência com pessoas desinteressadas e familiares, porque o ódio não faz relaxar e nos cega ao desfrute de presenciar o desfile simultâneo, em apenas uma hora e na era da banda larga, de inúmeras culturas da Antiguidade e da Idade Média, cujo estudo ainda não está difundido à maioria da população, com seus deuses, roupas, gestos, alimentação, filosofia e língua. Uma verdadeira aula de história gratuita!

As pessoas “incultas” estão sendo “enganadas”? Ora, lembremos que a Igreja Católica não é um bloco monolítico – assim como nunca o foi o mundo do “socialismo real” – e que seus frequentadores mais comuns hoje são pessoas de cabeça aberta e sincrética e mais preocupadas com o pão do dia seguinte do que com a “compra” de terrenos no céu.

Einstein e suas aspirações – A leitura de um livro em especial – e a lembrança que ele me evocou de outras leituras – me fez criar uma forte associação entre os pensamentos religiosos de um formidável cientista e a homilia daquele domingo: é Einstein e a religião, de Max Jammer, editado no Brasil em 2000 pela Contraponto. Eu já havia travado conhecimento com o livro Como vejo o mundo, também de Einstein, e suas ideias, logo no início da obra, a respeito da condição humana, dos valores existências do físico alemão e de sua tão comentada e controvertida “religião cósmica”, que deu ensejo tanto a imputações de ateísmo quanto de teísmo ou de panteísmo.

Aqui não é o espaço para se destrinchar tal filosofia complexa e edificante, o que Jammer já faz com inimitável maestria, mas algumas mensagens básicas de Einstein me têm ocupado a mente nesse processo intelectual. O criador da “teoria da relatividade” afirmava desprezar, desde moço, os objetivos humanos puramente materiais, mesquinhos e passageiros, como a glória, a fama e o poder, e pensava que a pessoa verdadeiramente religiosa era aquela que se havia libertado de seu “eu”, entrando em sintonia e fusão com o universal, o todo da humanidade e a essência verdadeiramente eterna e incompreensível por trás das leis perfeitas e imutáveis da natureza, essência que não raro foi considerada como o “Deus einsteiniano”.

Se forem levados em conta, ainda, os exemplos que Einstein deu em sua vida e que são relatados em suas muitas biografias, notam-se também um imenso desprendimento do luxo e da celebridade, uma ânsia ininterrupta de levar uma vida simples e comedida e uma explícita humildade de caráter e de conduta. Em suma, estamos diante de um exemplo teórico e prático de economia material e espiritual e de uma lhaneza interna e externa bem refletida na qualidade de seu trabalho científico.

O cristianismo e o estresse – Passando para a mídia atual, tem-se, ainda que de forma bastante incipiente, representantes dos diversos cristianismos alertando para os riscos do concorrentismo capitalista e de suas nefastas consequências no padrão de vida da população mundial, seja na deterioração de valores éticos e das condições psicofísicas, seja na destruição dos recursos naturais e da biodiversidade. Um exemplo notável, ainda que tardio, é a Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB para 2011, com o tema “A criação geme em dores de parto”, relativo à poluição atmosférica e hídrica, à extinção de florestas e de espécies animais e às consequentes alterações das condições climáticas e do ritmo ecossistêmico do planeta.

Por outro lado, e aqui assumo o risco de ser tendencioso, a maioria das igrejas evangélicas, sobretudo as pentecostais e as neopentecostais, com largo alcance na televisão, no rádio e na internet, mantêm-se distantes das preocupações sociais que não concirnam a seus próprios interesses políticos – à exceção de iniciativas esporádicas, mas não generalizadas, de combate à miséria, à orfandade e à marginalização civil – e ainda atraem seguidores com a promessa de prosperidade financeira, pessoal e profissional, sem qualquer esforço adicional além do sacrifício de boa parte de suas economias às denominações nem a previsão das consequências de uma ascensão tão súbita.

Se a Igreja Católica lhes “cede” membros por não oferecer soluções imediatas para os tormentos cotidianos, ao menos tem colaborado de modo decrescente com os grandes capitalistas na aceleração do pensamento dos trabalhadores, no fomento da luxúria e da busca desenfreada por dinheiro e na falta de previsão de gastos, metas futuras e resultados dos excessos. No fundo, opõem-se um cristianismo “terreno” demais e outro um pouco mais “celeste”.

O papel da existência de Deus – E Deus, estaria ligando para a correria do dia a dia e para a caça humana cada vez mais desenfreada ao progresso e à vitória a qualquer custo? Ele poderia ajudar a encerrar essa correria e retornar a civilização a sua velocidade primitiva? Bem, primeiramente se deveria definir de qual Deus estamos falando: do Deus que prometeu um país e uma ampla descendência a um povo pequeno e oprimido, do Deus que redimiu o mundo do pecado e o salvou por meio do sacrifício de seu filho único ou do Deus que falou aos homens do deserto e incitou-os a conquistar o máximo possível de terras conhecidas à sua fé e à mensagem da única e onipotente divindade?

Obviamente são considerados, aqui, os dogmas internos, e não os condicionamentos mútuos entre essas três crenças ou de sua parte visível por influências de outras culturas e hábitos. O que ocorre, de fato, é a criação de deuses de acordo com as necessidades e prioridades de cada conglomerado, de forma que presenciamos, na história do ser humano, desde a “ingerência” de deuses que curavam doenças por meio da incorporação em iniciados extasiados ou que guerreavam junto com os soldados que os cultuavam até os “milagres” de um deus que distribui bênçãos e graças em troca de dinheiro vivo e abundante.

Infelizmente, são poucas as esperanças de uma intervenção sobrenatural para o fim do estresse e do gládio entre os indivíduos, pois, a cada vez que uma nova classe ascende ao controle de uma sociedade, ela trata de criar entidades e rituais sagrados que representem seus próprios ideais e empurram-nos goela abaixo das massas dominadas. Assim, parece que, até ser criado um Deus da tranquilidade e da moderação, a humanidade já estará quase destruída pela ambição e pelo tecnicismo cego.

Os valores de longo prazo – Está bem claro, agora, que apesar do renascimento religioso e dos misticismos surgidos, volta e meia, na forma de barulhentos best-sellers, a maioria dos cidadãos comuns dos países ocidentalizados perdeu os valores mais básicos que os uniam entre si, com o meio-ambiente e com os outros terráqueos, e perderam até mesmo a capacidade de criar e recriar aquilo que lhes é realmente sagrado. A ética se resume às regras de “ter” e de “parecer”, de possuir riquezas ou de passar uma falsa impressão de que se as tem, por meio do engano e do autoengano, em um sistema moral não ensinado, mas vendido, não adotado pela persuasão interna, mas pela coerção externa.

A pressa imposta pela rapidez do trabalho e do estudo e pelo bombardeio das crianças e dos adolescentes com uma quantidade inassimilável de informações, aliada, às vezes, a predisposições genéticas, gera cada vez mais ansiedade, depressão e outras doenças psíquicas que fazem cada vez mais vítimas no plano físico e mental. Como resultado da mesma saturação e resultando nos mesmos males, o espírito de competição, extravasado do nível saudável à compulsão doentia, extingue os últimos resquícios de cooperação e respeito ao próximo das culturas tradicionais e descamba no bullying infanto-juvenil, na criminalidade, na trapaça e no preconceito adultos e no abandono durante o que a propaganda chama, ironicamente, de “melhor idade”.

Como síntese desse desespero espiritual, o presente é deixado de lado, remói-se o passado, preocupa-se em demasia com o futuro e o mediato, o inalienável, o justo e o holístico são menosprezados em prol do rápido, do excitante, do superficial e do eficiente. A sociedade, sem paciência para escutar e pensar sobre si mesma, não edifica estruturas sólidas sobre as quais se assentar e a chamada literatura “pós-moderna” é menos um acinte à intelectualidade do que a descrição fiel de um mundo caótico que precisa dar-se conta disso para reinventar-se.

Conclusão – Se eu pregasse um retorno maciço de adeptos à Igreja Católica, a esta ou aquela religião, ou o abraçamento desta ou daquela ladainha sobrenatural, estaria mentindo para mim mesmo e trapaceando aqueles que pretendo ajudar. Contudo, à exceção dos cúmplices do materialismo ingênuo e dos perpetuadores de desavenças e hierarquizações, sejam crentes ou apóstatas, sejam capitalistas ou socialistas, creio que nada pode separar aqueles que lutam pela integridade individual, pelo amor sem limites, pelo prazer sem tabus, pela moderação dos impulsos irracionais e pela liberdade de conhecimento, de expressão e de crença.

Mas nada disso pode ser pensado sem os pés fincados na atualidade e sem uma largueza de visão direcionada à posteridade, para que, apesar das forças contrárias, crie-se uma aldeia global simultaneamente humilde e rica, desça-se o que é santo dos altares para as ruas e impere não uma filosofia celestial, porém imediatista, mas uma filosofia terrena, porém longeva e solidária.



9 de janeiro de 2019

Karel Gott – Měl jsem rád a mám (1975)


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Estou continuando a coleção lançada no início de 2018 no meu canal Eslavo (YouTube), com nosso célebre croata Vice Vukov, após notar que a música brasileira em 2017 tinha se tornado um verdadeiro lixo. E, pelo que constatei, ela piorou ainda mais em 2018, sem perspectiva boa pra 2019, por isso decidi seguir minha missão. Vou redescobrindo pérolas populares e românticas do mundo eslavo, pra que possam inspirar nossos artistas e agradar a todo brasileiro.

Esta é a primeira canção que traduzi diretamente do tcheco, se não contarmos o próprio hino da República Tcheca, pro qual, porém, contei também com outras traduções. Desta vez eu mesmo traduzi do próprio original, sem cotejar com outras versões, usando minha experiência de estudo autodidata desde outubro de 2017 e o conhecimento adquirido após ter traduzido uma peça teatral completa do tcheco de outubro a dezembro de 2018. O nome desta música, surgida ainda na extinta Tchecoslováquia, é Měl jsem rád a mám (Gostei e ainda gosto), na voz de Karel Gott, considerado o maior cantor nacional.

A versão original de 1974, chamada Soleado, era apenas melódica, e foi composta pelos italianos Ciro Dammicco (n. 1947) e Dario Baldan Bembo (n. 1948), baseada em outra composição deles de 1972, Le rose blu, com letra de Alberto Salerno (n. 1949) e Francesco Specchia (n. 1929). A mais recente foi gravada primeiro pelo conjunto italiano Daniel Sentacruz, do qual Dammicco era integrante, mas a “letra” era apenas vocalização das mulheres. Em seguida, a canção se tornou um sucesso internacional, e em 1974 recebeu em alemão a primeira letra, à qual seguiriam as de outras línguas. Em tcheco, a letra foi escrita por Zdeněk Borovec (1932-2001) e gravada por Karel Gott em 1975.

Gott (n. 1939), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua tcheca, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta (Gott significa “Deus” na língua alemã). Ele também é pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi nos anos 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele seria também admirado. Gott, que tem um site oficial em tcheco, encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou.

Eu copiei a letra original desta página, mas tive ainda que fazer umas poucas correções. Nesta página, especializada em resgatar originais que depois foram muitos traduzidos, encontrei algumas informações adicionais sobre a canção. Este outro site também tem muita coisa de Karel Gott, como biografia, fotos, letras de música, pinturas etc. Em 1975, Moacyr Franco também gravou sua própria versão no Brasil.

Seguem abaixo minha legendagem dupla com montagem em tcheco e em português, o texto original tcheco e a tradução em português. Vejam o vídeo duas vezes, lendo uma legenda de cada vez:




Na kterou z vás vzpomínám si říct,
Na kterou z vás, netroufám si říct.
Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám.

Já fotek tvých plnou měl jsem skříň,
Jak jsem byl stár? Sedmnáct či míň?
Óo, lásko má, kde teď jsou, se ptám,
Jen úsměv tvůj měl jsem rád a mám.

Ty vílo z hor, měňavá jak sníh,
Tvůj vzdech se vpil do polštářů mých,
Óo, lásko má, pak jsem spal v nich sám,
Jen povzdech tvůj měl jsem rád a mám.

Ty krásko zlá, zvyklá pouze brát,
Dík tobě já poznal jsem i pád.
Óo, lásko má, tisíckrát mě zklam,
Vždyť vůni tvou měl jsem rád a mám.

Ty kvítku můj, o němž se mi zdá,
Snad někdy též zklamal jsem tě já.
Óo, lásko má, vinu svou už znám,
Tím víc tvou tvář měl jsem rád a mám.

Na kterou z vás vzpomínám teď víc,
Na kterou z vás, netroufám si říct.
Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám.

Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám!

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Com qual de vocês me lembro de falar,
Com qual de vocês, eu não ouso falar.
Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.

Eu tinha o armário cheio de fotos suas,
Qual era minha idade? Dezessete ou menos?
Oh, meu amor, pergunto onde estão agora,
Mas gostei e ainda gosto do seu sorriso.

Oh, fada dos montes, brilhante como a neve,
Meus travesseiros absorveram seu suspiro,
Oh, meu amor, depois dormi neles sozinho,
Mas gostei e ainda gosto da sua respiração.

Oh, beldade má, habituada a ter tudo,
Agradeço a você até mesmo pela queda.
Oh, meu amor, me desaponte mil vezes,
Mas gostei e ainda gosto do seu cheiro.

Oh, florzinha minha, que vejo em sonho,
Talvez um dia também desapontei você.
Oh, meu amor, já sabendo de sua culpa,
Tanto mais gostei e ainda gosto da sua face.

De qual de vocês mais me lembro agora,
De qual de vocês, eu não ouso falar.
Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.

Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.




7 de janeiro de 2019

A possibilidade do Estado laico (2011)


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NOTA: Este é outro texto que escrevi no começo de 2011 e revisei levemente em 2012, pra postá-lo iniciamente no blog Materialismo.net. Minha intenção nestes dias é revezar postagens de textos antigos meus com traduções e conteúdos novos. Naquela época, quando eu estava chegando ao fim da graduação em História e lendo muitos livros sobre política, filosofia e marxismo, sem estar ainda influenciado pelos estresses das redes sociais, teci muitas reflexões pessoais sobre esses temas e guardei os textos pra mim. Eu também estava em processo de ruptura filosófica com o catolicismo, e atento aos debates “neoateus” que então ocorriam em redes sociais antigas, era muito interessado pelo tema da laicidade estatal. Influenciado, além disso, pela visão gramsciana da sociedade como um complexo orgânico, eu imaginava suas instituições como fluidas e com fronteiras instáveis, algo que hoje não penso ser exatamente assim. Esse meu “marxismo” nunca foi partidário ou militante, e mesmo puramente intelectual, me deu base pra futura vida acadêmica. Vejo agora essas ideias como um tanto utópicas, mas sem mudar o texto, ainda as subscrevo na íntegra.



Uma das questões mais candentes do atual pensamento social é a da necessidade de que todo Estado deve ser laico para garantir liberdade de crença e igualdade de condições na profissão de seus cultos, para que não haja conflitos religiosos – por vezes violentos – e que nenhuma religião se sobreponha às demais por meio da máquina estatal. Porém, antes de mergulhar de cabeça nessa luta, é preciso fazer uma análise realista que avalie a real possibilidade de haver uma total separação entre Igrejas e Estado e, assim, traçar as diretrizes de ações políticas eficazes e sóbrias.

Numa perspectiva histórica, nota-se que a separação entre religiões e poder político institucional é algo muito recente, portanto pensá-la como dada há muitos séculos é um anacronismo. Nas primeiras civilizações e na Antiguidade Clássica – e mesmo, lembre-se, entre povos ditos primitivos –, não havia uma distinção muito nítida entre as funções de governança e de regência sobrenatural, e, quando os líderes espirituais não faziam parte da instância governamental, o próprio chefe da comunidade exercia o mando sobre a forma, o conteúdo e o andamento dos rituais – e é algo que se vê até hoje, de certa forma, na Inglaterra e na maioria dos países nórdicos.

Com o advento dos primeiros reinos cristãos da Idade Média e o crescente poder papal, a religião passou a adquirir um formato mais independente, mas ainda mantinha sob seu domínio as esferas da orientação moral daqueles soberanos e da educação. Apenas entre o Renascimento e a Revolução Francesa é que vários campos do conhecimento passaram a destacar-se da fé – embora sem sair totalmente de sua influência –, grosso modo na seguinte ordem: arte, política, ciência, filosofia e ensino.

A “descristianização” do Ocidente é um fenômeno tardio, do século 20 – apesar de ter sido gestado no anterior –, e seria muito pedir que todas aquelas áreas também hoje não sofressem séria influência do cristianismo e que este não continuasse sendo uma força cultural considerável. Um último aparte: deve-se restringir essa análise ao mundo de cultura ocidental, pois em muitos outros lugares não houve ainda essa cisão entre religião e outras práticas sociais.

A análise da sociedade ocidental contemporânea mostra que as religiões cristãs prosseguem como uma voz muito poderosa e considerada na tomada de decisões que afetem o grosso da população, que, na Europa, ainda é, em grande parte e em diversos matizes, seguidora de Jesus. As Igrejas são um forte “aparelho privado de hegemonia”, ou seja, como componentes da “sociedade civil” – o que significa que intermedeiam as relações entre as pessoas comuns e a “sociedade política”, o Estado propriamente dito –, têm o poder de influenciar a opinião comum e, por esse meio indireto ou por meios diretos, direcionar ou condicionar as decisões públicas conforme sua vontade ou seus interesses. Se isso ocorre para o bem ou para o mal, não é algo em questão aqui; este texto visa fazer um rascunho de análise materialista, quer dizer, científica, do tema, e não uma valoração filosófica.

Em poucas palavras, o fato é que as religiões, acima de tudo as cristãs, possuem um peso que não pode ser desconsiderado na hora de traçar planos políticos alternativos ou institucionais, e sua penetração nos poderes Executivo e Legislativo é considerável, seja nas comissões parlamentares constituídas para a orientação a determinadas legislações, seja nas bancadas religiosas formadas nas câmaras e nas assembleias, seja nas demonstrações de fé que os governantes encenam para atrair a simpatia de seus eleitores ou governados, seja na reverência que presidentes, governadores e prefeitos prestam aos clérigos em reuniões oficiais ou outras ocasiões, nas quais ambos prometem conciliar suas metas e, assim, comprometer-se à manutenção material e moral de seu interlocutor.

O Estado e as Igrejas, sobretudo as majoritárias em determinado país ou região, funcionam umbilicalmente e, repartindo o controle dos corpos e das mentes do povo, atuam sob um mesmo modelo de negociação, barganha, “guerra de posições” e apelo ao emocional ou ao irracional. Essa aliança, forjada em milênios de colaboração entre os poderes ou âmbitos temporal e espiritual, não pode ser rompida por nenhuma revolução ou decreto; ainda que tal dedução nem sempre tivesse sido feita, a política nasceu no bojo da religião, e vice-versa. A principal consequência disso é que, se uma desaparecer, a outra desaparecerá junto.

Cabe dizer, portanto, que apenas uma superação dos atuais modelos de política e de religião fará com que o problema do Estado laico seja igualmente superado; na verdade, como é de se esperar, esse problema também se extinguirá. Uma vez que não haverá uma instituição política onipotente para bajular o sacerdócio, e que não haverá ajuntamentos religiosos para ordenar seus fiéis a “dar a César o que é de César”, a autogestão popular, instruída por um ensino escolar livre de compromissos e de formatações, dará conta de suprir as necessidades práticas e transcendentais de todas e todos: o controle dos meios de vida, diálogo e reprodução científica e econômica por seus próprios usuários e a ciência das formas particulares de cada um de alcançar o mais completo prazer erótico-estético, dois campos que se complementam na formação de nossa condição humana, serão, respectivamente, as características objetivas e subjetivas que manterão as pessoas em paz consigo mesmas e, portanto, com seus semelhantes.

Enquanto esse sonho distante não se concretiza, pode-se considerar que o Estado laico, realizado ao menos na teoria, é uma solução temporária de compromisso, apesar de tênue, para evitar – o que, como se nota, nem sempre ocorre – a apropriação das esferas públicas por interesses privados e a marginalização de grupos ideológicos minoritários por outro mais potente.

É plausível afirmar, num campo ideal, que a expressão “Estado laico” é uma contradição, pois se tanto as Igrejas quanto a política institucional nascem dentro de um mesmo caldo cultural, é óbvio que um lado procurará influir no outro, deverão acordar entre si para viver juntos e, como que “por osmose”, intercambiarão suas características, objetivos e visões de mundo. Mesmo não professando nenhum credo específico, cada governo se guiará por determinados valores “sagrados”, às vezes caros também à nacionalidade, e não apenas para o grupo que a dirige, nem sempre coincidentes com as vontades e carências das massas, o que torna o Estado uma entidade claramente confessional.

O mais importante, em qualquer ocasião, é que a “sociedade civil”, sem qualquer restrição ditatorial imposta pela “sociedade política”, possa servir como campo de acordos e conversações entre os diversos grupos sociais a fim de se atingir tolerância mútua, e, acima de tudo, que as aspirações coletivas não sejam sufocadas nem tenham seu substrato material furtado por picuinhas esotéricas.


Bragança Paulista, 6 de fevereiro de 2011.
Levemente alterado a 21 de maio de 2012.