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19 de agosto de 2018

“Варшавянка” (A Varsoviana de 1905)


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Esta é uma canção que pediam pra legendar desde que lancei o canal Eslavo (YouTube), em 2010. Trata-se da canção socialista polonesa A Varsoviana, traduzida a partir de sua versão russa. Em polonês, ela é conhecida como Warszawianka, e em russo, “Варшавянка”, ambas com a mesma pronúncia: “Varshavianka”. Às vezes se diz também A Varsoviana de 1905, pra não ser confundida com A Varsoviana de 1831, hino nacionalista polonês composto durante uma revolta contra o Império Russo em 1830-31.

A música de 1905 teve a letra escrita em 1879 por Wacław Święcicki (1848-1900), que então estava preso por militância socialista. Mesmo assim, dependendo de quem executa, a letra varia bastante. Ela foi publicada inicialmente em 1883 na revista ilegal polonesa Proletariat, quando Święcicki voltou de seu exílio na Sibéria. O título A Varsoviana fixou-se depois dos protestos do 1.º de Maio na capital polonesa em 1905, quando 30 trabalhadores morreram sob tiroteio, iniciando uma revolta local mais ampla contra o tsarismo.

A melodia foi composta por Józef Pławiński (1853 ou 1854-1880), que esteve na cadeia com Święcicki e se inspirou na Marcha dos Zuavos, símbolo de outra revolta polonesa de 1863-64. O autor desta melodia é desconhecido, mas há quem suponha ser ele o compositor Stanisław Moniuszko (1819-1872). Considera-se que o tradutor pro russo tenha sido Gleb Krzhizhanovski (1872-1959), que a teria feito na prisão em 1897 e publicado no início de 1900. Como na Polônia, a difusão se ampliou também em 1905, na dita Primeira Revolução Russa.

Sendo duas línguas eslavas de mútua influência, as versões em russo e polonês têm sentido muito parecido, apenas o refrão original sendo: “Naprzód Warszawo!/Na walkę krwawą,/Świętą a prawą!/Marsz, marsz, Warszawo!” (Avante, Varsóvia!/À luta cruenta,/Santa e justa!/Marche, marche, Varsóvia!). No século 20, foram feitas traduções em inúmeras línguas, sendo talvez a mais famosa A las barricadas, criada em 1936 por Valeriano Orobón Fernández e tornada popular entre anarquistas durante a guerra civil na Espanha. Em inglês, é conhecida a tradução Whirlwinds of Danger (Tempestades de perigo) de Douglas Robson, membro da IWW, nos anos 20. Uma letra bastante modificada foi feita por Randall Swingler e publicada em 1938, mas nunca se popularizou.

Conheçam este canal de onde eu tirei a montagem sem legendas, pois ele tem muito mais material histórico sobre o comunismo, embora seja partidário. Eu mesmo traduzi do russo (não do polonês), legendei e cortei o quadro em proporção moderna. O Prof. Daniel Aarão Reis também publicou em 2017 a própria tradução, na coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa (p. 181-182), que ele organizou e comentou, e em que contribuí com algumas traduções. Mas o resultado dele ficou levemente diferente do meu. Pelas informações que achei no site Sovmusic.ru, o áudio foi gravado em 1993 pelo coral do Conjunto de Canto e Dança “Estrela Vermelha”, fundado no seio do Exército em 1977 e ainda muito atuante. Ele tem um site oficial e, como percebemos, também conta com mulheres.

Seguem abaixo minha legendagem, o texto em russo, a tradução em português e a transcrição traduzida das inscrições que aparecem no vídeo. Vocês podem lê-las na escrita original em que aparecem (caso tenha sido diferente antes de 1918), na grafia atual e em português:


____________________


1. Вихри враждебные веют над нами,
Тёмные силы нас злобно гнетут.
В бой роковой мы вступили с врагами,
Нас ещё судьбы безвестные ждут.
Но мы подымем гордо и смело
Знамя борьбы за рабочее дело,
Знамя великой борьбы всех народов
За лучший мир, за святую свободу.

Припев (2x):
На бой кровавый,
Святой и правый
Марш, марш вперёд,
Рабочий народ.

2. Мрёт в наши дни с голодухи рабочий,
Станем ли, братья, мы дольше молчать?
Наших сподвижников юные очи
Может ли вид эшафота пугать?
В битве великой не сгинут бесследно
Павшие с честью во имя идей.
Их имена с нашей песней победной
Станут священны мильонам людей.

(Припев 2x)

3. Нам ненавистны тиранов короны,
Цепи народа-страдальца мы чтим.
Кровью народной залитые троны
Кровью мы наших врагов обагрим!
Смерть беспощадная всем супостатам!
Всем паразитам трудящихся масс!
Мщенье и смерть всем царям-плутократам!
Близок победы торжественный час.

(Припев 2x)

____________________


1. Ventanias inimigas sopram sobre nós,
Forças obscuras nos oprimem com maldade.
Entramos em luta fatal contra os inimigos,
Um destino ainda desconhecido nos espera.
Mas levantaremos com orgulho e coragem
A bandeira da luta pela causa operária,
Bandeira da grande luta de todos os povos
Por um mundo melhor e uma santa liberdade.

Refrão (2x):
À luta sangrenta,
Santa e justa
Marche, marche avante,
Povo operário.

2. Atualmente o operário morre de fome,
Irmãos, devemos continuar calados?
Pode a visão do cadafalso assustar
Os jovens olhos de nossos camaradas?
Não ficarão esquecidos os que tombaram
Lutando com grande honra pelos ideais.
Seus nomes, com nosso canto da vitória,
Se tornarão sagrados a milhões de pessoas.

(Refrão 2x)

3. Nós detestamos as coroas dos tiranos,
Respeitamos as cadeias do povo sofredor.
Os tronos cobertos com sangue do povo
Regaremos com o dos nossos inimigos!
Morte impiedosa a todos os canalhas!
A todos que parasitam os trabalhadores!
Vingança e morte aos reis plutocratas!
A hora solene da vitória está próxima!

(Refrão 2x)


Петиція рабочихъ царю = Петиция рабочих царю (Petição dos operários ao tsar)

“... наш девиз: ... свобода для всего народа.” Слава народным героям Потёмкинцам! (“... nossa divisa é: ... liberdade para todo o povo.” Glória aos heróis populares do encouraçado Potiomkin!)

Слава буревестникам пролетарской революции! (Glória aos albatrozes da revolução proletária!)

Забастовка на Ленскихъ пріискахъ = Забастовка на Ленских приисках (Greve dos garimpeiros do rio Lena)

Позоръ палачамъ! = Позор палачам! (Malditos os carrascos!)

Просили хлѣба, дали пулю = Просили хлеба, дали пулю (Pedimos pão, deram balas)

Рабочее движеніе. Стачки = Рабочее движение. Стачки (Movimento operário. Greves)

Правда – ежедневная рабочая газета. Открыта подписка. (Pravda/Verdade – jornal operário diário. Abriram-se as assinaturas.)

Долой самодержавіе! = Долой самодержавие! (Abaixo o absolutismo!)

Долой старую власть (Abaixo o antigo regime)

Февраль 1917 (Fevereiro de 1917)

Народъ и армія. Братскій союзъ и свобода. = Народ и армия. Братский союз и свобода. (O povo e o exército. União fraterna e liberdade.)

Долой десять министровъ капиталистовъ = Долой десять министров капиталистов (Abaixo os dez ministros dos capitalistas)

(Faixas diversas) Долой, долой, долой (Abaixo, abaixo, abaixo)

(Sendo tirada e rasgada) Да здравствуетъ Временное правительство = Да здравствует Временное правительство (Viva o Governo Provisório)

Власть совѣтамъ = Власть советам (O poder aos sovietes)

Пролетаріи всѣхъ странъ, соединяйтесь! = Пролетарии всех стран, соединяйтесь! (Proletários de todos os países, uni-vos! – Marx)

Нарвскій районъ = Нарвский район (Bairro Narva – São Petersburgo, que fica muito próxima da Estônia, em cuja fronteira com a Rússia está a cidade de Narva)

Октябрь 1917 (Outubro de 1917)

Вся власть совѣтамъ = Вся власть советам (Todo o poder aos sovietes)




17 de agosto de 2018

A natureza pede socorro (poema, 2005)


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Mais um poema dos muitos meus que vocês já leram, mas este tem uma história peculiar. Originalmente, devia ser a letra de uma canção a ser musicada por uma banda formada por antigos colegas da escola Viverde, em Bragança Paulista. A Viverde, onde estudei de 1994 a 2005 (ou seja, dos 6 aos 17 anos, praticamente toda a escolaridade básica) e que fica muito perto de casa, tem uma proposta ecológica muito interessante incorporada à sua estrutura pedagógica. O casal de mantenedores fundou-a em 1991 num antigo sítio da família, e por isso pudemos aproveitar tudo o que um ambiente assim oferece: ar puro, mata, animais, espaço livre, vizinhança a um ribeirão... O currículo é o mesmo de qualquer colégio tradicional, mas toda a conscientização ambiental e valores afins são incorporados no dia a dia das aulas.

Eu fiz parte da primeira turma da escola, progredindo de série em série até integrarmos a primeira formatura de “terceirão” (2005). Recuando algumas turmas antes da minha, os garotos eram muito talentosos, e vários tocavam instrumentos musicais. Alguns deles, hoje renomados profissionais formados ou até pós-graduados, tinham criado uma banda chamada “Opu_c”, ainda um sucesso na região. Em 2005, não me lembro se pra um evento da escola ou algo parecido, tínhamos combinado meio vagamente de eu fazer a letra de uma canção com tema ecológico, e eles musicarem e tocarem em público (da minha classe, só eu participava). De alguma forma, o poema chegou até eles, mas por razão que desconheço, ele foi negligenciado. Se não me engano, a iniciativa até foi realizada, mas sem minha participação.

O poema “A natureza pede socorro” constituiu, desde então, uma música sem melodia, por assim dizer. O papel com o texto estava guardado havia uns anos, até que em março de 2010, provavelmente por volta do começo das aulas na Unicamp, resolvi publicá-lo em meu antigo blog “Pensadores Libertos”. Eu cursava meu quinto ano da graduação, e as informações que tenho até agora em meu backup são ainda mais reveladoras: eu tinha acabado de voltar pra casa, de uma aula de russo, e elogiava os “velhos amigos e colegas” da Unicamp... Eu estaria então “inspirado para postar coisas antigas”, e então digitei a referida música pela primeira vez, na esperança que alguém se interessasse em compor uma melodia. Infelizmente, alguns meses depois apaguei meu blog, desinteressado em postar coisas novas e em continuar com a mesma proposta crítico-política.

Eu mesmo, exibindo a criação, pedi que relevassem ou porventura corrigissem o “tique parnasiano” típico das minhas poesias, mas hoje penso que o problema pode ser outro: a incerteza da adaptação da letra a qualquer melodia. Pensando que um músico pudesse acertar a situação, não segui métricas rigorosas, embora tentasse equilibrar as sílabas poéticas, mas como apenas no meu pensamento fiz uma “sugestão de melodia”, o texto segue como hipótese não testada. Agora, ao menos, vocês podem lê-lo como um dos muitos frutos de minha educação ecológica!

____________________


Aquela árvore que você está vendo
Na sombra da qual você descansa
Está morrendo aos poucos nas mãos dos homens
Vítima de uma matança.

Ela lhe dá madeira para os seus móveis
E a celulose para fazer papel,
Além da cura para suas doenças,
Mas tratada tão cruel

Queimadas e cortes ilegais
Até nas reservas demarcadas.
Nos tiram o filtro do nosso ar
Em proporções tão desenfreadas.

Belezas já não se encontram mais,
Os bichos já não têm onde morar,
E por lixo são contaminadas.
Será que isso um dia vai parar?

Refrão:
Queremos natureza
Para nossos passeios e canções.
Queremos as paisagens
De presente às futuras gerações.
Queremos rios e matas
Para equilibrar nossos ecossistemas.
Nós não desistiremos
De acabar de uma vez com esses problemas.
Vida para sempre,
Dela somos parte,
Viver é uma ordem,
Preservar é arte!

É hora da conscientização
E fazer das tripas coração.
Usando nossa imaginação
Daremos a nossa proteção.

Quando o útlimo rio apodrecer
E a última mata perecer
Só então é que vamos perceber:
Dinheiro não podemos comer!

(Refrão)




15 de agosto de 2018

Um abraço à vida e à realidade (2009)


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NOTA: Mesmo sendo mais antigo, este texto parece, tanto na forma quanto no conteúdo, “intermediário” entre os dois últimos, publicado originalmente em 6 de julho de 2009 no meu extinto blog “Pensadores Libertos”. Sua tinta anticlerical, politizada e intelectualista antecedeu de certa forma o ainda ativo Materialismo.net, mas refletiu uma fase minha mais espontânea e bem menos sistemática do que as reflexões lançadas pelo Giuliano Casagrande. Em 2008, eu tinha feito matérias com a historiadora Margareth Rago, bastante atenta às temáticas libertárias, e pra agravar, no começo de 2009 estava no quarto ano da graduação e fiz uma matéria com o petista César Nunes. Eram apenas partes do caldeirão que estava me tirando do catolicismo e me levando à esquerda política. Começava então a ler também textos do filósofo libertário francês Michel Onfray, que me impressionaram e ajudaram a nutrir minha jovem rebeldia, que hoje não subscrevo totalmente, mas cujos pressupostos ainda acho válidos. Parece estranho alinhar uma leitura anarquista com atitudes mais bolcheviques, mas pra mim é outro capítulo da minha história intelectual digno de ser revelado.




Michel Onfray, com um viés libertário, privilegia a valorização do indivíduo em detrimento das “falsas coletividades” e põe o prazer, desde que não faça mal a si e aos outros, como principal meio de realização do ser humano. [Legenda da postagem original, mas com imagem de 2018]


Se alguém ferir seu escravo ou escrava a pauladas,
e o ferido lhe morrer nas mãos, aquele será punido.
Porém, se sobreviver um dia ou dois, não será punido,
pois aquele foi comprado a dinheiro.
(Êxodo 21, 20.)

Quais são esses direitos naturais? Viver e sobreviver, é o mínimo, supõe a satisfação das necessidades do corpo e do espírito à medida que, assim apaziguados, permitam a existência de um corpo que seja e dure livre de todo sofrimento, assim como a de uma alma, nas mesmas condições, desde que ela, por si própria, seja conservada dentro da dignidade. (Michel Onfray, A política do rebelde, p. 51.)


É provável que todas as pessoas, desde o operário braçal que mal tem tempo de refletir sobre sua vida, até o playboy ou socialite que vive da herança biliardária deixada pelo pai ou avô industrial, já pensaram sobre o propósito de sua existência. Parece uma coisa óbvia, pois o ser humano diferencia-se dos outros animais pela faculdade do raciocínio, da abstração e do planejamento. Porém, às vezes os acontecimentos passam tão depressa e preocupamo-nos tanto com os detalhes mais “importantes”, que costumamos esquecer-nos do que parece menor, mas na verdade tem uma importância fundamental na compreensão de nossa natureza. Qual é, pois, a finalidade da vida humana, e por que, embora tenhamos os mais belos sonhos, o mundo parece nunca querer enquadrar-se nem às utopias dos mais nobres pensadores da humanidade, nem aos humildes desejos dos que apenas dispõem de sua força de trabalho para vender?

À primeira vista, são notáveis as mazelas sociais e econômicas que afligem as sociedades contemporâneas, como a fome, o desemprego, a violência, a ausência de fraternidade entre as pessoas, as crises cíclicas do capitalismo, a desorientação das pessoas quanto ao que fazer de sua vida e quais referências seguir (e isso parece ser endêmico nos jovens à beira do vestibular...) etc. Todos os anos são dedicadas páginas e mais páginas impressas ou online para descrevê-las ou tentar dar-lhes uma solução definitiva. Embora seja comprovada a falácia de qualquer teodiceia, de qualquer conciliação entre a teórica primazia do Bem e a onipresença do Mal, todos concordam que as aflições e flagelos que comovem e castigam o planeta possuem causas puramente humanas. “Encardidos” à parte, parece ser verdadeiro aquele chavão de que o homem é o lobo do próprio homem.

A cultura brasileira possui outro clichê, talvez mais autoexplicativo, que afirma a predominância dos interesses particulares, pessoais (arrisco-me a dizer ainda, grupais), sobre os gerais, coletivos: é a famosa lei de Gérson e a “teoria do jeitinho”... Paralelamente, contradizendo a malícia do “jeito” e do egoísmo, nossas tradições são bastante moralistas, autoritárias e acríticas, qualidades típicas da herança ibérica e jesuítica trazida pelos portugueses há aproximadamente 500 anos. Essa sisudez pode ter a ver com o particularismo de grupos fechados, que citei acima, quando uns digladiam-se contra os outros e arrogam-se o domínio da “verdade”, supostamente válida para todos os cidadãos do Brasil, quiçá do globo. Tal é a materialização de um paradoxo que algumas pessoas expuseram sem saber: ao mesmo tempo em que somos expostos a moralismos, leis e regras ditados por cúpulas supostamente mais “vividas” e mais “sábias”, a busca da satisfação e prazer pessoal, geralmente sem grandes resultados, tornou-se para muitos a única razão de sua existência.

Mas será que uma vida regrada e controlada, visando à moderação que leve, por sua vez, à abundância constante, é incompatível com a colocação da satisfação e do desfrute (diria ainda, bem-estar) em primeiro lugar? Não concordo. Para mim, o segundo fato é condição primordial para o primeiro. Se não possuímos uma vida que nos satisfaça plenamente, o descontrole nas horas de “fome e sede”, e mesmo o excesso de autoimposições psicológicas, pode levar-nos até mesmo a adoecer. As amarras mentais, seja do vício pelo gozo, seja da tara pelas restrições, fazem-nos viver para o futuro, pensar apenas no que virá, e não concluir que a razão de nossa existência está no PRESENTE. “Só terei satisfação no amanhã, quando cumprir uma série de regras que me anestesiem (para os libidinosos) ou me aumentem (para os ascéticos) o sofrimento”, dizem essas pessoas. Elas esquecem-se de que o esforço para o sucesso é necessário, mas nem de mais, nem de menos. A vida é agora, e não amanhã.

O filósofo francês Michel Onfray, na primeira parte de seu magnífico livro A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão (minha edição é da Rocco, 2001), expõe magistralmente uma apologia do individualismo e do amor pela vida para que nos mantenhamos equilibrados, satisfeitos e, creio eu (embora ele não diga), aptos para fazermos as melhores coisas pelos outros. Os regimes totalitários, e mesmo o mundo capitalista de hoje, pregaram uma “igualdade” entre as pessoas que termina por formatá-las, privá-las de sua individualidade, de suas particularidades; igualdade, lembre-se, que só existe dentro da Pátria, da Família, da Religião, do Partido e outros grupelhos. A um tempo só, contudo, alguns são mais “iguais” do que os outros, surgindo as diferenciações hierárquicas.

Sua filosofia postula que todos os seres humanos fazem parte de uma só espécie (e, para mim, a palavra “espécie” ressalta nossa condição de meros animais, parte da natureza, sem qualquer traço divino ou humanístico que nos desse qualquer superioridade sobre os outros seres), mas que devemos manter a unidade indivisível que compõe essa “grande família”, que é a individualidade, base de todo o direito que se pretenda justo. Os únicos princípios aplicados a todos os lugares e épocas, assim, longe de toda ideologia, são os da manutenção da vida e do direito à sobrevivência, desrespeitados pelas inúmeras ditaduras do século XX. Assim, longe da pregação de um individualismo egoísta, Onfray valoriza a satisfação pessoal, o desfrute da existência (que, para ele, já é o mais puro prazer), longe do ideal ascético e de “renúncia do eu” pregado pela direita e outros setores mais conservantistas. Ou seja, é um hedonista, sem que esse termo tenha qualquer sentido negativo.

Retornemos, então, às questões postas no início do texto: por que o sofrimento no mundo? O que fazer diante dele? Como todo bom materialista (se bem que ainda não me considero um tão bom assim...), acredito que suas causas são puramente materiais, em outras palavras, relacionam-se basicamente a problemas da péssima distribuição material nas sociedades capitalistas e da exploração desenfreada do trabalho alheio, não diferindo em nada da “boa e velha” escravidão. Na atualidade, a ânsia pelo lucro faz com que o proletariado possua apenas o mínimo para viver, sem espaço para o estudo, a reflexão e o lazer. Outros, porém, caem na miséria por terem sido expulsos de seus empregos, sob o pretexto, dizem as empresas, de “otimizar a produção”. Junte falta de educação e lazer aos mais pobres com pessoas sem as mínimas condições de vida: o que temos? Explosões materializadas na violência e na indigência, da qual os exploradores acabam sendo vítimas, com os assaltos a suas mansões ou carros de luxo. Aí, sim, é que se começa a falar em “problemas sociais”!!!!!

Novamente entra a ênfase na individualidade: é este bem precioso que perdem os explorados políticos e econômicos, que se tornam números, seja na prisão, na fábrica ou mesmo no cemitério. Aliás, quase todos nós já somos um número, o RG, para o Estado! Todas as elites da sociedade interessam-se pelo ocultamento do conhecimento ao povo, pois seu esclarecimento abri-los-ia para a verdadeira raiz do problema e poderia causar uma insatisfação generalizada jamais vista antes. E os intelectuais, embora não devam tornar-se uma espécie de “vanguarda messiânica”, deveriam ter o papel de tornar esse conhecimento mais acessível e basear toda a sua produção nas necessidades das classes subalternas; deveriam ajudar na elaboração de soluções aos problemas científicos e sociais do mundo. Mas não! A televisão, as revistas, os jornais sensacionalistas, as religiões, o cinema e certos sites estão aí para eternizar a “política do pão e circo”: benefícios rápidos a custo baixo, vendidos como verdades imutáveis! Enquanto isso, a intelectualidade é paga pelas classes dominantes para fazer sua apologia e legitimar suas ideias diante do público leitor, que “compra” todos os “analgésicos” oferecidos para a escamoteação de suas chagas.

Por isso, manter e afirmar uma individualidade própria e dedicar-se ao conhecimento da história, da natureza e dos sistemas sociais é fundamental para fazermo-nos agentes daquela mesma história, para fortalecermo-nos como verdadeiros modificadores, ainda que com pequenas ações, do meio que nos rodeia, seja o bairro, a cidade, o estado ou o país; e, potencialmente, do mundo e do opressivo regime capitalista, a ser reformado ou, se necessário, derrubado. Chegou a hora de abraçarmos a vida e a realidade a fim de sabermos quais são as verdadeiras causas dos males da humanidade e que sua solução não exige mais do que o esclarecimento racional dos indivíduos, a vivência do presente e a consciência da materialidade do mundo; sem idealismos, “analgésicos” ou tapa-olhos.



13 de agosto de 2018

A sociedade da saturação (texto, 2012)


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NOTA: Comparar este texto com o da postagem anterior é um belo exercício. Com um intervalo de quase três anos, ele foi publicado pela primeira vez no blog Materialismo.net, ainda em atividade, em 18 de março de 2012, dois dias depois de eu tê-lo escrito. Agora, a única cópia está aqui, embora eu não tenha feito nenhuma alteração ou correção (exceto em formatações pontuais). A linguagem já está mais fluida, e a redação ganhou qualidade, apesar do certo “carregamento” que ela ainda guarda em relação a meu estilo atual. Eu tinha acabado de terminar a graduação e ganhado muito conhecimento, mas sem o presente aparato da atividade acadêmica, minhas reflexões eram bem especulativas e um tanto prolixas. Mesmo assim, me impressiono como o tema e os problemas continuam atuais, e como em seis anos a coisa piorou tanto! O engraçado é que o Brasil já se deliciava com os smartphones, mas eu seguia atado ao desktop, e contraditoriamente só iria me apegar ainda mais ao Facebook, abandonando-o apenas em 2015. Pouco se falava ainda da SPA, mas parece que minhas ideias já estavam bem avançadas, pra quem só anos depois leria a decisiva série Ansiedade de Augusto Cury.

Não é fácil aventurar-se a observar um fenômeno da vida real e tentar sistematizá-lo na linguagem científica, filosófica ou mesmo na prosa de divulgação. Hoje em dia, como se fala muito na área, não há mais filósofos ou pensadores, mas historiadores da filosofia e comentadores de filósofos. Mais difícil ainda é o escrevinhador confessar que há inúmeras obras atuais refletindo sobre a vida moderna, mas que não leu nenhuma ou só teve contato indireto com seus principais argumentos. Assim, a pessoa comum que tenta descrever criticamente o mundo ao redor por meio do raciocínio independente passa por especuladora vã, especialmente aos olhos da academia, e a blogosfera de qualidade se perde no meio do lixo virtual cometido por pseudointelectuais e revolucionários de gabinete.

Por falar em internet, ela é um dos cenários privilegiados de um fenômeno que se tornou uma praga da atualidade e que afeta a qualidade das relações humanas, da inteligência individual e do conteúdo transmitido nos sistemas de ensino básico. Trata-se de uma espécie de saturação mental de informações e dados muitas vezes inúteis e quase sempre sem qualquer valor intelectual. Não sou o primeiro a levantar a questão, tanto que o que faço agora é sintetizar essas leituras prévias, e o fenômeno não se restringe à esfera da aquisição de conhecimento, como veremos adiante. Mas é melhor começar por uma descrição geral do cenário social.

O avanço da tecnologia mudou nossa noção do tempo, e tarefas que demoravam para ser cumpridas agora se realizam rapidamente. As autopistas e os carros mais eficientes tornam certas viagens muito menos penosas, o telefone celular permite que ligações telefônicas e várias outras funções sejam realizadas em qualquer lugar e o computador facilita consideravelmente a produção de sons, textos e imagens. A internet, certamente a ferramenta mais revolucionária das últimas décadas, transformou totalmente a concepção de comunicação, pesquisa, entretenimento e até mesmo de amizade, tornando-se uma espécie de mundo paralelo não por acaso chamado de virtual.

Com as tarefas cotidianas podendo se realizar tão rapidamente, os gestores do trabalho não poderiam deixar de exigir mais produção num prazo menor, e, com tanta mobilidade e praticidade tecnológica, extravasando o velho local de serviço e invadindo o lar, como não escapou a alguns observadores. Resultou que, como me ensinou bem cedo minha antiga professora de História do Fundamental e do Médio, tais avanços não diminuíram a carga horária dos trabalhadores, mas a aumentaram, o que obviamente afetou o período de lazer, de refeições, de descanso, de amor e de reflexão sobre a vida. Com o que se tornou não um alívio, mas uma sobrecarga de trabalho, começaram a aparecer problemas como o estresse, a depressão, a ansiedade e outras afetações psicológicas ou de humor.

Mas o que tem a ver a ideia de saturação com isso? É necessário retornar mais adiante aos referidos problemas mentais, mas por enquanto vamos explicar o título do texto. Mesmo sem recorrer a definições de dicionários, fica claro que a saturação é um conceito contrário ao de saciedade. A referência ao processo digestivo ajuda a explicar melhor: quando comemos alimentos saudáveis e ricos em substâncias necessárias ao organismo, e quando o fazemos de maneira calma e frugal, chega um momento em que nos sentimos saciados e livres da vontade de comer por algumas horas, até que nosso corpo necessite de comida novamente. Contudo, com menos tempo para realizarmos o ritual da refeição que, embora muitos não saibam, é tão importante culturalmente para a coesão das pessoas e para o conhecimento mútuo, comemos em qualquer canto ou banqueta que nos surja por sorte, comemos alimentos rapidamente preparados, artificiais, que enchem o estômago, mas não evitam o aparecimento da fome pouco tempo depois, e comemos com pressa, não atentando para a mastigação e a degustação. Em resumo, nós nos tornamos saturados, ou seja, empanturrados sem qualquer benefício para o corpo, enquanto a saciedade é apenas ilusão, e mesmo uma irrealidade, pois é muito diferente a sensação de já termos comido o suficiente daquela de estarmos com a comida subindo pela garganta.

A novidade que quero trazer aqui é a passagem desse conceito de saturação para a atividade intelectual. Como já sabiam nossos antepassados, livros bem lidos, lidos com calma, atenção e dedicação exclusiva nos trazem a satisfação de termos adquirido um conhecimento sólido, termos ativado criticamente nossa inteligência e termos passado momentos agradáveis de distração e concentração, o que vale para livros de entretenimento, de autoajuda ou de conteúdo mais denso. Atualmente, não se leem mais livros, mas fica-se navegando na internet acessando os mais diversos conteúdos. São de boa qualidade? Depende: há coisas muito boas, mas a maioria é mera pipoca intelectual, daquelas que empanturram, mas não ensinam nada. Em outras palavras, temos acesso a uma quantidade enorme de informações, mas não as peneiramos nem selecionamos e apenas saturamos nossa mente com nomes e fatos os mais desconexos e descontextualizados possíveis.

O fenômeno dos telejornais comuns já prenunciava a saturação de informações, quando éramos bombardeados por notícias, fofocas e dados aleatórios sem qualquer utilidade para nosso cotidiano e vendidos como suposto conteúdo essencial para cosmopolitas e cidadãos do mundo. A internet banda larga e as tecnologias informáticas, atualizadas a cada dia, potencializaram essa enxurrada descontrolada, privilegiando, além de tudo, a brevidade da mensagem e a produção em massa de várias delas. O Twitter é o ápice desse processo, quando devemos nos restringir a escrever futilidades em 140 caracteres, o que nos obriga a escrever sem parar e ainda nos viciarmos a ler cada coisa que escrevem os perfis que seguimos. O Facebook não fica atrás, e os históricos de atualizações de nossos amigos são um convite para distrairmos nossa atenção e perdermos um bom tempo atados a seus compartilhamentos de vídeos e a suas postagens de fotos. Mesmo vários serviços de e-mail tentam seus usuários com tarjas de notícias alternantes por cima da caixa de mensagens, de títulos vagos, mas com palavras chamativas e, por isso mesmo, irresistíveis.

As pessoas comuns, muitas vezes sem qualquer preparo diante dessa democratização súbita da produção e da aquisição de informações, terminam por se tornar protagonistas de duas degradações, uma subjetiva e outra objetiva. A subjetiva, relativa aos já citados problemas psicológicos, trata da necessidade que criamos de aparecer na rede mundial, de dar qualquer opinião que seja e de estar informados sobre piadas, memes, jargões, vídeos e assuntos que estão na moda virtual. Tanto esforço mental somente leva a fadigas, ansiedade, insônia e a chamada atualmente SPA, ou síndrome do pensamento acelerado: passamos tanto tempo conectados a tantas coisas, com tanta ânsia de produzir e assimilar, que nossa mente não desliga mais, não conseguimos mais relaxar nem nos relacionar socialmente de forma satisfatória. O vício em jogos eletrônicos é outra faceta mais antiga desse problema.

A degradação objetiva causada por esse vale-tudo comunicativo é relacionada à primeira, mas tem mais a ver com a produção em massa de informações e opiniões. Qualquer pessoa sem preparo intelectual ou psicológico suficiente se sente apta a aparecer para o máximo possível de internautas, e proliferam as mensagens com erros gramaticais, ideias falaciosas, preconceitos e os famosos xingamentos e outras brigas entre usuários, por causa do fácil descontrole de muitos ao serem contrariados, o que também afeta no subjetivo com transtornos de humor e até mesmo depressão.

Certamente o uso racional das ferramentas mais avançadas e de rápida atualização rápida pode ajudar, com atitudes como o controle do tempo que elas são usadas, a execução de pausas entre certos períodos de uso, a fuga de contendas ou discussões que podem se tornar muito acaloradas ou baixas e a difusão de um conteúdo cultural e informacional mais sólido, qualitativo e ligado à realidade dos leitores. Porém, sabemos que ideologia e tecnologia não são realidades totalmente independentes, mas também se ligam à situação material, real, concreta do nível intelectual e de conhecimento de um grupo humano. Assim, a disposição para ler apenas mensagens de até cinco linhas e a frequência das falhas vocabulares, ortográficas e gramaticais na escrita são um reflexo da incapacidade de nossas famílias, de nossas escolas e de nossa política em produzir inteligências disciplinadas, críticas, independentes e cultas, enquanto o gosto pelo efêmero e pelo impactante advém de uma lógica de mercado consumista e fútil que enxerga em cada cidadão apenas números, consumidores e massa de manobra para a divulgação de marcas, produtos e modas.

Uma reviravolta cultural geral, antes de tudo, é mais do que necessária, e a persistência e a força de vontade talvez possam transformar os meios virtuais em transformadores positivos da realidade, como se provou em várias mobilizações recentes ao redor do mundo. Basta tomarmos os controles de assalto e virarmos as rédeas para o lado do progresso, da harmonia e da fraternidade.


Bragança Paulista, 16 de março de 2012



11 de agosto de 2018

Escrita à mão e sensações particulares


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NOTA: Este é mais um texto que publiquei no antigo blog “Pensadores Libertos”, em 14 de novembro de 2009, tendo-o criado sete dias antes. Constitui mais uma baliza transparente de minha vida intelectual, e achei útil trazê-la de volta, sem nenhuma correção ou alteração, pra que pensemos um pouco a respeito de nossa vida cheia de tablets e smartphones. O mais grave é que estamos os jogando às crianças pequenas sem saber direito ainda quais consequências isso pode ter em seu desenvolvimento cerebral e emocional. Mais interessantes do que as próprias reflexões são o registro de meu cotidiano passado, a linguagem empolada que eu usava e o “saudosismo” ante recursos eletrônicos ainda não tão atraentes ou evoluídos.

Não, chega por um momento de criar com as mãos sobre um teclado e os olhos voltados para um cansativo monitor. Não é improvável que estas reflexões cheguem alguma hora a meu blogue Pensadores Libertos, mas o processo de criação diretamente no computador pessoal tem-me deixado um tanto enfastiado. Os pulsos começam a doer, a vista seca pela falta de piscadas e começa a arder, gasta-se energia elétrica, lida-se com os frequentes piripaques dos programas de texto, distrai-se facilmente, com a internet ligada, a qualquer outro site que se venha à cabeça... Isso sem contar a questão das pausas: por vezes, devido à chamada a uma refeição, a uma saída ou à necessidade de assistir a um programa de TV, sou obrigado ou a desligar o computador, ou a desligar apenas o monitor e deixar a máquina funcionando, praticamente sem qualquer atividade. Sim, eu sei que PCs ligados quase não gastam energia... mas gastam alguma coisa, pelo menos. Tenho uma cisma inexplicável contra deixar aparelhos ligados sem uso, também, não sei. O mais importante é que escrevendo à mão sinto-me com mais liberdade para refletir, parar a hora que desejar, sair para tomar um ar no jardim simplesmente levantando minha bunda da escrivaninha e atravessando a porta que separa meu quarto da varanda...

Outrossim, escrever à mão parece ter um encanto a mais. Também não é fácil explicar, e isso poderia até soar estranho para quem passou a maior parte de sua formação intelectual na frente de um monitor e com as mãos sobre o teclado e o mouse digitando os trabalhos e, quando necessário, utilizando-se do ratinho cibernético para eventuais correções. Afinal, que encanto é esse? Ele parece ter brotado em minhas ideias desde que comecei a fazer um estágio no CLE (Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência) da Unicamp, mais precisamente no setor de arquivos históricos, o lugar mais apropriado quando esse estágio é matéria obrigatória do curso de Licenciatura em História. Foi quando comecei a catalogar as correspondências ativa e passiva do Dr. Walter Hugo de Andrade Cunha, pioneiro da etologia e da psicologia animal no Brasil. Ele trocou várias cartas com especialistas do Brasil e de várias partes do mundo, e embora várias delas fossem datilografadas, inúmeras eram manuscritas, o que às vezes me deixava desanimado em se tratando de epístolas do Dr. Cunha a seus homólogos, pois o sujeito tem uma caligrafia do cão... (Não que eu seja a reencarnação de um calígrafo imperial chinês, de um escriba egípcio ou de qualquer outra pessoa que tenha exercido tal arte na era cristã, mas minha subjetividade não é muito alterófila para com letras rabiscadas, mesmo sabendo que outras pessoas tiveram e terão a mesma sensação ao ler manuscritos meus.)

Enfim, o que me tem atraído para a escrita e a correspondência manuais, bem na era da internet banda larga e apesar de eu não ter o mínimo dom para a paleografia? (No semestre que vem haverá no IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp – um tópico tratando de paleografia de documentos de nossa era colonial, do qual passarei longe, por ser um aficionado pelo século XX e mesmo com a crescente demanda pela matéria no instituto, incluindo a de alguns colegas meus de turma.) Bem, acho tudo uma questão de personalidade e de revelação de suas características pessoais, pois a letra de uma pessoa é algo só dela, particular, insubstituível, e muitas pessoas dizem até que a caligrafia, assim como a data de nascimento, o nome, o desenho das palmas das mãos e a posição dos astros no natalício da(o) escrevente, pode revelar muita coisa sobre sua essência, pensamentos, aspirações e outras características particulares de sua vida, suas atitudes e seu físico. (Pasmem, todavia, que identifiquei, por meio de algumas cartas datilografadas do Dr. Cunha das décadas de 1960 e 1970, uma particularidade: o O minúsculo possuía a lateral esquerda apagada, de modo que se assemelhava a um C minúsculo invertido...) Não sei, escrever à mão faz com que nos sintamos mais próximos do texto, mais colaboradores em sua produção, mais íntimos, pode-se rabiscá-lo, desenhar nas margens, amassá-lo ou até chorar sobre ele! (Um escritor, não me recordo exatamente se foi José Saramago, falou justamente que não podemos derramar prantos sobre o monitor de um computador...)

Pois então, podemos fazer tudo isso escrevendo em nosso amigo ordenador? Obviamente, como traços pessoais, podem-se contar nele o uso de maiúsculas e minúsculas, a tabulação, o espaçamento (seja entre palavras ou entre um sinal de pontuação e a palavra seguinte), a própria ortografia, os erros ou a polidez gramaticais e outras formas de construir as frases ou escolher as palavras que costumam ser diretamente relacionados a fulano, beltrano ou sicrano. Entretanto, não deixo de pensar que o texto digitado torna-se bastante despersonalizado, já que tanto erros como acertos na escrita costumam ser mais ou menos padronizados de acordo com o nível de instrução e a idade da pessoa, e porque textos digitados possuem sempre a mesma fonte, pelo menos se se escolhe a mesma (por exemplo, o Times New Roman padrão dos trabalhos universitários); é claro que em certas modalidades de texto a escolha da fonte é livre, mas fontes são sempre padronizadas, caligrafias não. Além do mais, estas não deixam de expressar o estado de espírito daquela(e) que escreve, pois temos uma letra mais corrida no caso da pressa, uma letra mais arredondada em momentos mais tranquilos; traços finos feitos por alguém que se encontra calmo, traços grossos indicando fúria ou o esforço de fazer a caneta (pelo menos no meu caso) escrever quando ela falha, como acabou de acontecer comigo alguns minutos atrás (troquei uma caneta promocional gorda e emperiquitada por uma boa, velha, esbelta e singela Bic).

Escrever à mão ainda é um recurso acessível para a maioria das pessoas em qualquer lugar em que se encontrem. Não tenho laptop, por isso só posso escrever na praia, no jardim ou num café a lápis ou a caneta, sobre o sempre disponível caderno, aquele fiel companheiro que me seguiu do primeiro rabisco até o bê-a-bá, como canta Toquinho. Acredito que grandes intelectuais revolucionários, descontados seus ranços despóticos, como Lenin e Mao Zedong, não dispunham, nos momentos mais difíceis, de máquinas de escrever, muito menos de computadores, e mesmo assim nos legaram importantes obras teóricas, como Que fazer? e Sobre a contradição, só para citar as mais exaustivamente conhecidas, além de alguns poemas, como no caso do líder chinês. É assim que me parece que a escrita manual toma um tom revolucionário, de crítica, de contestação, de nado contra a titânica maré da digitação informática, sujeita às mutilações da necessidade de composição rápida (o famoso “internetês”), a qual assumo praticar no MSN. Mas fazer o quê, é como eu já disse, este texto vai, uma hora ou outra, parar em meu blogue, e pode ser que perca seu encanto. Foram sete páginas dum caderno em formato 14,4 x 20,2 cm ocupadas frente e verso, o que dá ao texto humilde majestade e magnitude, ainda mais para quem foi criado intelectualmente grudado a um computador. Mas não, no editor de texto as margens talvez aumentarão, a letra ficará menor e esta produção que tanta energia e inspiração me custou não parecerá mais do que uma nota esparsa.

Paciência, é o condicionamento da necessidade de quem ainda não entrou no Panteão dos grandes prosadores do mundo, sequer de sua cidade, mas tem como obrigação moral garantir seu mínimo lugar ao sol para que sua modesta tentativa de transformar o mundo, nem que seja em sua rua, não seja relegada ao esquecimento. Ah, o esquecimento: a dor maior dos que acreditam que após esta vida não há nada além do vazio, do silêncio e duma inútil sepultura.


Bragança Paulista, 7 de novembro de 2009



9 de agosto de 2018

Eu, poetinha: sonetos escritos em 2005


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Muitas(os) de vocês já conhecem meus sonetos em esperanto e meus diversos tipos de poema em português. Só que ainda não comecei a publicar em massa outro segredo que guardo: os sonetos que escrevi em português no fim da minha adolescência. Como escrevi em outra ocasião, foi então que comecei a compô-los sistematicamente, até mais ou menos o começo da minha graduação em História. Depois, a atividade foi ficando bem mais esporádica. Diversos dos que escrevi entre 2004 e 2006 foram descartados, sem que eu guardasse qualquer cópia, mas outros julguei por bem conservar, dado o tema interessante e a razoável elaboração.

Inicialmente, digitei meus sonetos no computador e imprimi em folhas repartidas. Mas quando quis me livrar delas pra desocupar espaço, digitalizei-as em arquivos de imagem, e guardo em backup meus poemas preferidos. Três interessantes textos formam uma unidade de trabalho que o Paulo, meu professor de Português no início do 3.º ano do Ensino Médio, pediu-nos pra fazer logo depois das férias de verão. Ele ficou com a gente apenas uns dois meses, ou nem isso, e cedeu o posto à Prof.ª Graça Betânia, notável acadêmica e uma ótima pessoa que nos acompanhou até a formatura. Mas ele me marcou por seu aparente interesse nos mesmos temas que eu, a começar pela língua latina, tanto que foi ele quem me indicou o livro Não perca o seu latim, de Paulo Rónai, que só agora tive tempo de comprar e degustar.

Nas primeiras aulas, ele propôs que escrevêssemos três poemas, com os seguintes títulos/temas: “Eu procuro você” (31 de janeiro), “Eu em você” (4 de fevereiro) e “Depois de você” (11 de fevereiro). Não sei o que meus colegas acharam, mas eu estava no Paraíso: adorava atividades criativas, sobretudo relacionadas à escrita e poesia, e na 7.ª série, por exemplo, adorava quando a Prof.ª Sandra Del Roio pedia pra fazermos redação de tema livre. Era como o momento em que a “tia” do primário, querendo matar tempo, mandava desenhar em folhas brancas de sulfite! Realmente, nunca descobri qual era a intenção pedagógica do Paulo, mas guardo até agora as cópias dos papéis escritos à mão e a digitação posterior pro acervo. Neste eu me baseei pra corrigir os primeiros e repostar aqui.

Modifiquei ligeiramente os títulos, e parece que não segui uma regra métrica fixa quanto à quantidade e tonicidade das sílabas. Inclusive, como eu estava no começo, fiz coisas aí que não repito hoje: misturar vogais tônicas e átonas numa mesma sílaba, forçar ditongos em hiatos e “abreviar” palavras que geralmente são comidas na música popular, como “minha”, contada como uma sílaba só. Por isso, a leitura ritmada é impossível. Também parece haver uma mistura de registros, com construções informais onde predominam palavras formais, e o uso de vocabulário informal numa estrutura formal: isso é normal quando se tem pouca bagagem de leitura. A ressalva é que nos sonetos 1 e 2, tentei deliberadamente usar o pronome “tu”, e no 3, apenas “você”.

As rimas pobres até podem ser perdoadas, mas há dois problemas de redação que decidi não corrigir: no soneto 2, a expressão “em seu castelo for reinando” se refere a “quem estás amando” ou à “princesa” (a quem trato por “tu”)? É provável que se refira a ela, mas deveria evidentemente ser “em teu castelo fores reinando” (aliás, princesas reinam?...), concordância que pode ter sido quebrada pelo bem de uma já estropiada métrica. No soneto 3, o verso “A felicidade sua ausência atrasa” obscurece qual é o sujeito e qual é o objeto. O contexto esclarece que “Sua ausência atrasa a felicidade”, mas como num poema romântico também é possível que “A felicidade atrasa sua ausência”, o entendimento imediato fica prejudicado.

Também é interessante que o segundo soneto figura minha atração, não exatamente uma “paixão”, por alguma garota da classe, a qual nem externei e muito menos esperava que pudesse ser correspondida. Até desconfio quem possa ter sido ela, mas naquela turma, minhas explosões hormonais quase sempre eram repelidas... Enfim, espero que vocês tenham gostado de eu ter compartilhado um pouco de mim e aguardem por “novos velhos” sonetos! Pra mim é salutar revisitar as criações do passado, pois compõem parte da longa trilha intelectual que me fez chegar até aqui. Mas se há quem pense que eu queria deixar elementos pra um futuro biógrafo, por que não? Rs.



Eu te procuro (31/1/2005)

Em que lugar do mundo estás, amor?
Em todo lugar vou te procurar
E se, ao acaso, puder te encontrar,
A minha vida terá mais um fervor.

Dize-me já onde posso te buscar,
Assim me farás um grande favor.
Quero de novo sentir teu sabor
E o prazer vindo na hora de te amar.

Sem ti, apenas sou metade de mim,
Sempre ajudas na minha outra metade.
Por que foste tu me deixar assim?

Volta, amor, acaba com essa saudade,
Aos meus chamados dize só “sim”
E caminhemos à felicidade.

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Eu em você (4/2/2005)

Cobre teu semblante felicidade
Enquanto vejo teu braço moreno.
Calças tênis baixos nos pés pequenos.
És tão nova que nem descubro a idade.

Teus olhos instigantes são serenos,
Te adornam brincos largos de verdade.
Tua boca brilha como a rica jade,
Tua altura pequena é belo veneno.

Calça jeans nas pernas grossas: beleza,
Tua inteligência está me impressionando,
Mas fazer desenhos é tua destreza.

Agora não sei quem estás amando,
Mas sei que muitos te acharão princesa
Enquanto em seu castelo for reinando.

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Depois de você (11/2/2005)

Você me abandonou, me fez tristonho,
Só suas roupas deixou dentro de casa.
Agora é que meu coração se arrasa,
Pois só poderei ver você nos sonhos.

Sua partida deixou minha mente em brasas,
Não penso mais no que me faz risonho.
Minhas mãos sobre seus braços não mais ponho,
A felicidade sua ausência atrasa.

Sem você, não há tempo posterior,
Meu futuro já não tem mais sentido,
Está morrendo meu eu interior.

Se as lembranças houvesse ressarcido,
Talvez seria bem menor minha dor
E tão forte não teria nascido.




7 de agosto de 2018

Guia completo dos adjetivos em russo


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Finalmente, eis o que acredito ser a última postagem com o material resultante do minicurso que ministrei em outubro e novembro de 2017, no programa TOPE da Unicamp, sobre noções básicas da língua russa pra iniciantes. É a última, porque não há outros textos prontos, feitos pra ocasião, que possam ser transformados em postagens, e porque outras coisas surgidas durante aulas particulares são muito complexas ou longas. Estas, certamente, serão reaproveitadas no futuro curso autodidata em russo que planejo criar em breve pro meu canal Eslavo (YouTube). Enquanto isso, sobram os escritos maçantes.

Embora em postagem anterior eu tenha abordado os adjetivos russos, incluindo dados que vão se repetir aqui, só agora me aprofundei em sua morfologia e sua flexão. Este não é um guia exaustivo, mesmo podendo se considerar “completo” ao iniciante brasileiro ou que fala português, pois não discorro, por exemplo, sobre as funções sintáticas do adjetivo (significado, posição, utilização etc.). Limito-me apenas às flexões básicas de gênero, número e caso, trazendo ainda questões de pronúncia e ortografia (relativas, sobretudo, às consoantes guturais e chiantes) que sempre confundem os estudantes. O emprego correto dos adjetivos em russo exige estudo e repetição, principalmente se comparados ao inglês, que só utiliza uma única forma em qualquer ocasião (o que não deixa, claro, de gerar frases ambíguas).

Este guia sintetiza e repassa tudo o que pode ser estudado num curso regular presencial ou à distância. Obviamente, desde as postagens passadas, deve-se ter percebido que a leitura exige um conhecimento básico do idioma, sobretudo do alfabeto, da pronúncia e da complexa noção de “consoantes brandas”. O sistema de adjetivos curtos muda levemente o significado das palavras originais e tem uma formação diferenciada em terminações e sílabas tônicas.

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Os adjetivos russos (palavras que indicam qualidade, propriedade, origem, pertencimento, natureza, avaliação subjetiva etc.) têm dada no dicionário sua forma longa no nominativo singular masculino. Os adjetivos russos também possuem, em sua maioria, uma forma curta, cujas regras de uso são levemente diferentes, mas ela não será abordada aqui. Em todo caso, o radical das duas formas é o mesmo, e quem conhece a forma longa pode identificar o significado básico da forma curta. Ao contrário da forma curta, a forma longa dos adjetivos flexiona-se em gênero e número e declina em caso, concordando, em tudo isso, com o substantivo que modifica. (Nos exemplos textuais, a vogal tônica será indicada pelo sublinhado, exceto se a palavra tiver uma vogal Ё – iô, que é sempre tônica.)

Os adjetivos são classificados em dois modelos, de acordo com as terminações que eles possuem na forma longa: as terminações duras e as terminações brandas. As duas terminações duras são ЫЙ e ОЙ, com a única diferença que a terminação ЫЙ é sempre átona, e a terminação ОЙ é sempre tônica. A terminação branda dos adjetivos é ИЙ, sempre átona. Essa classificação influencia no modo como cada adjetivo é flexionado e declinado. Cada adjetivo possui formas pro masculino, pro feminino e pro neutro no nominativo singular. As formas do plural valem pros três gêneros.

Eis as terminações dos adjetivos pra cada gênero no caso nominativo:

  • ЫЙ (masc. sing.), АЯ (fem. sing.) ОЕ (neutro sing.) e ЫЕ (plural);
  • ОЙ (masc. sing.), АЯ (fem. sing.), ОЕ (neutro sing.) e ЫЕ (plural) – todas essas terminações são sempre tônicas;
  • ИЙ (masc. sing.), ЯЯ (fem. sing.), ЕЕ (neutro sing.) e ИЕ (plural).

Certos adjetivos modernos, indeclináveis e de origem estrangeira, têm terminações diversas: секси (sexy) супер (super, ótimo, legal) etc.

Seguem os modelos completos de declinação nas três categorias citadas. Note-se o seguinte: Pros substantivos masculinos animados, o adjetivo no acusativo singular vai ter a mesma forma do genitivo singular, e pros animados em geral, o acusativo plural é igual ao genitivo plural. Pros substantivos masculinos inanimados, o adjetivo no acusativo singular vai ter a mesma forma do nominativo singular, e pros inanimados em geral, o acusativo plural é igual ao nominativo plural. O instrumental singular feminino em -ОЙ/-ЕЙ tem uma forma alternativa em -ОЮ/-ЕЮ usada em poesia e em textos antigos.


добрый (bom, bondoso)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.добрыйдобраядоброедобрые
Gen.доброгодобройдоброгодобрых
Dat.добромудобройдобромудобрым
Acus.доброгодобруюдоброедобрых
Instr.добрымдобройдобрымдобрыми
Prep.о добромо добройо добромо добрых


земной (terrestre)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.земнойземнаяземноеземные
Gen.земногоземнойземногоземных
Dat.земномуземнойземномуземным
Acus.земногоземнуюземноеземных
Instr.земнымземнойземнымземными
Prep.о земномо земнойо земномо земных


синий (azul-marinho)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.синийсиняясинеесиние
Gen.синегосинейсинегосиних
Dat.синемусинейсинемусиним
Acus.синегосинююсинеесиних
Instr.синимсинейсинимсиними
Prep.о синемо синейо синемо синих


Curiosidade: Na ortografia pré-1918, algumas terminações adjetivas eram um pouco diferentes. A terminação -ИЙ dos adjetivos masculinos se escrevia -ІЙ, e no acusativo e genitivo, as terminações -ОГО/-ЕГО, quando átonas, eram -АГО/ЯГО (preste atenção: “хорошего” era “хорошаго”, e não “хорошяго”!). Quando as terminações -ЫЕ e -ИЕ indicavam um feminino e/ou neutro plural, escreviam-se -ЫЯ e -ІЯ, mas escreviam-se -ЫЕ e -ІЕ caso modificassem um substantivo masculino, junto com um feminino e/ou neutro. Essas regras não influíam na pronúncia, praticamente igual à moderna.

Observações:

  • Ao contrário do que se dá na forma curta dos adjetivos, a forma longa mantém a mesma sílaba tônica, em todos os gêneros, números e casos.
  • Exceto no nominativo e no acusativo, as formas do neutro singular são sempre iguais às do masculino singular.
  • As formas do feminino singular são sempre as mesmas no genitivo, dativo, instrumental e prepositivo.
  • As formas do genitivo, acusativo (animados) e prepositivo são iguais no plural.
  • A forma do dativo plural é igual à do masculino e neutro singulares no instrumental. A terminação tônica dura do nominativo singular masculino é idêntica à do feminino singular no genitivo, dativo, instrumental e prepositivo.

Alguns adjetivos brandos (terminados em ИЙ no masculino singular), em especial relacionados a animais, têm as seguintes terminações excepcionais: третий (terceiro), третья (feminino singular), третье (neutro singular), третьи (plural); медвежий (de “медведь” – urso), медвежья (feminino singular), медвежье (neutro singular), медвежьи (plural): медвежье объятие (abraço de urso). Essa particularidade, em geral, é indicada em bons dicionários. Seguem abaixo duas tabelas com esses dois adjetivos declinados; repare que a pronúncia do Ж se mantém dura, enquanto as vogais brandas finais são pronunciadas com seu som pleno (iá, iê, iú):


третий (terceiro)

caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.третийтретьятретьетретьи
Gen.третьеготретьейтретьеготретьих
Dat.третьемутретьейтретьемутретьим
Acus.третьеготретьютретьетретьих
Instr.третьимтретьейтретьимтретьими
Prep.о третьемо третьейо третьемо третьих


медвежий (de urso)

caso/
gên.
masc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.медвежиймедвежьямедвежьемедвежьи
Gen.медвежьегомедвежьеймедвежьегомедвежьих
Dat.медвежьемумедвежьеймедвежьемумедвежьим
Acus.медвежьегомедвежьюмедвежьемедвежьих
Instr.медвежьиммедвежьеймедвежьиммедвежьими
Prep.о медвежьемо медвежьейо медвежьемо медвежьих


Observações:

  • As terminações são as mesmas dos adjetivos brandos comuns. A diferença é que, ao tirarmos a terminação -ИЙ do nominativo singular masculino, adiciona-se ainda um sinal brando (Ь) após a última consoante.
  • Outra diferença é que, nas terminações onde se repete uma consoante branda (nom. sing. fem. -ЯЯ, nom. e acus. sing. neut. -ЕЕ e acus. sing. fem. -ЮЮ), a primeira consoante branda dá lugar a um Ь (-ЬЯ, -ЬЕ, -ЬЮ).
  • E mais: a terminação do nominativo plural (e do acusativo plural dos adjetivos que mudam substantivos inanimados) não é -ИЕ, mas apenas -И (mais precisamente, -ЬИ).

Alguns adjetivos (de terminações duras por definição), por conta de sua última consoante e seguindo as regras da língua russa, sofrerão alterações automáticas na pronúncia e na ortografia. Elas não são indicadas nos dicionários em geral, porque a(o) aluna(o) inteligente conseguirá declinar corretamente esses adjetivos. As alterações se referem às chamadas consoantes guturais e consoantes chiantes, e consistem no seguinte:

  • Após Г, К e Х nunca se usa Ы, somente И: краткий (curto), краткая, краткое, краткие; строгий (rigoroso, severo), строгая, строгое, строгие; тихий (calmo, silencioso), тихая, тихое, тихие.
  • Após Ж, Ч, Ш e Щ nunca se usa Я, somente А; nunca se usa Ы, somente И; usa-se О quando a vogal é tônica e Е quando a vogal é átona: похожий (semelhante), похожая, похожее, похожие; горячий (quente, fervente), горячая, горячее, горячие; общий (comum, geral), общая, общее, общие; большой (grande), большая, большое, большие; хороший (bom), хорошая, хорошее, хорошие.

Seguem as tabelas que ilustram as três probabilidades citadas:


caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.тихийтихаятихоетихие
Gen.тихоготихойтихоготихих
Dat.тихомутихойтихомутихим
Acus.тихоготихуютихоетихих
Instr.тихимтихойтихимтихими
Prep.о тихомо тихойо тихомо тихих


caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.общийобщаяобщееобщие
Gen.общегообщейобщегообщих
Dat.общемуобщейобщемуобщим
Acus.общегообщуюобщееобщих
Instr.общимобщейобщимобщими
Prep.*об общемоб общейоб общемоб общих

* Usa-se “об”, e não “о”, antes de palavras iniciadas em А, Э, И, О e У.


caso/gêneromasc. sing.fem. sing.neut. sing.plural 3 gên.
Nom.большойбольшаябольшоебольшие
Gen.большогобольшойбольшогобольших
Dat.большомубольшойбольшомубольшим
Acus.большогобольшуюбольшоебольших
Instr.большимбольшойбольшимбольшими
Prep.о большомо большойо большомо больших