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14 de outubro de 2018

Orações faladas em latim eclesiástico


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Nesta postagem, vocês podem aprender as seguintes orações, escritas e recitadas na língua oficial do Vaticano, a versão eclesiástica da língua latina: o Sinal da Cruz, o Credo (Creio), o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Glória, a Oração de Fátima e o Salve-Rainha. Todas essas preces constituem o conjunto geralmente chamado Santo Rosário ou, como parte dele, o Terço Mariano. Recitei ainda dois apêndices com os nomes de todos os Mistérios do Rosário em latim e o texto do chamado Credo de Niceia, ou “símbolo niceno-constantinopolitano”, ainda rezado tradicionalmente em missas. A ortografia está atualizada conforme os padrões estabelecidos na Idade Moderna, e a pronúncia segue o padrão romano, ou seja, baseado essencialmente na língua italiana contemporânea. O latim eclesiástico (que se desenvolveu em 2 mil anos de uso pelos católicos) tem algumas diferenças com o latim clássico (calcado na língua culta escrita no século 1 a.C.), principalmente a sintaxe mais simples e o vocabulário mais próximo dos atuais idiomas românicos ou neolatinos.

O Pai-Nosso é baseado numa oração que Jesus Cristo teria enunciado em seu Sermão da Montanha, cujo relato começa no capítulo 5 do Evangelho segundo são Mateus. A Ave-Maria, cuja tradição se iniciou na cristandade bem depois e que reúne trechos de evocações proféticas feitas no Antigo Testamento, é conservada, sobretudo, pela Igreja Católica, que lhe deu a versão latina final. Nos primeiros séculos, a liturgia cristã era feita em grego, língua na qual também foi escrito o Novo Testamento (variante koiné comum, e não o antecessor ático clássico dos séculos 6 a 4 a.C.). Mas com o gradual aumento da primazia de Roma, o latim passou a ser cada vez mais usado, conservando o idioma que já não era mais falado após a queda do Império Romano do Ocidente.

A pronúncia da língua latina entre os romanos variou muito, pois a língua também era diversa, conforme a classe social, origem geográfica e época em questão. A chamada pronúncia reconstituída, que teria sido usada pelos romanos cultos no século 1 a.C., pronuncia, por exemplo, a palavra Caesar como “káiçar”, e tem uma abrangência muito limitada. Ao longo dos séculos, a pronúncia real do latim pós-romano também variou muito, e essencialmente cada região onde ele ainda era usado como idioma culto o pronunciava conforme os vernáculos regionais. Além disso, até o século 19, a pronúncia eclesiástica em nada diferia da usada na ciência, tecnologia, filosofia, artes e literatura: o latim era considerado um só, cada país pronunciando conforme peculiaridades locais. Apenas no final do século 19 a pronúncia dita “romana” (Caesar = “tchézar”) se consolidou entre os católicos, mas na liturgia os vernáculos ganhavam cada vez mais espaço, deixando de ser obrigatória em 1961 a missa tridentina (em latim).

Nesta postagem eu apresentei a vocês o vídeo que montei, ensinando a pronúncia do latim eclesiástico (romano), e as regras citadas foram aplicadas também aqui. Minhas duas principais fontes pros textos das orações foram este blog que faz apologia à reza em latim e este blog que ensina a rezar o Terço na língua litúrgica. Mas a correção e completação finais das preces devo a este ótimo site inglês, que contém ainda as traduções em vernáculo. Eu mesmo não traduzi, porque são orações conhecidas e fáceis de pesquisar em suas versões modernas; apenas o Pater Noster usa a variante, menos comum em português, “perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Da mesma forma, não ensino aqui como rezar o Rosário ou o Terço, porque compete aos fiéis aprendê-los.

Vou fazer algumas observações sobre a linguagem. Minha escolha mais evidente foi o uso da letra “j” pro som do “i” semivocálico, e o uso das ligaturas “æ” e “œ” no lugar das letras “ae” e “oe” separadas. Neste segundo caso, as ligaturas indicam os ditongos “ái” e “ói” clássicos, que na língua medieval passaram a pronunciar-se “é” aberto. Inclusive, optei por escrever apenas cœlum (céu), que é padrão nos textos medievos, segundo o Wiktionary, e não cælum, embora esta também apareça na liturgia. A escolha pelo “j” explica por que se leem, por exemplo, Jesus, judicare, Jordanem, bajulavit (Jesus, julgar, Jordão, carregou – cf. “bajular”), e não Iesus, iudicare, Iordanem, baiulavit. Apenas escrevi errado no vídeo eius (seu, dele) e Eia (eia!), que em coerência deveriam ser ejus e Eja. Lembre-se, então: a letra “i” é sempre vogal, nunca consoante, então dizemos “fi-li-us”, e não “fi-lius”, “ter-ti-a”, e não “ter-tia”, “ho-di-e”, e não “ho-die”.

Notavelmente, na Nova Vulgata (a Bíblia latina autorizada pelo Vaticano), a expressão panem nostrum quotidianum (o pão nosso de cada dia) traz supersubstantialem como adjetivo. Ele é um decalque do original grego epioúsios, mas mesmo neste caso não se sabe exatamente o que o autor quis dizer, porque a palavra não aparece fora desse texto (ou seja, seria um hapax). Sugerem-se como traduções “essencial”, “substancial”, “diário” ou “sustento para a vida”. Sobre a Oração de Fátima, um dos autores dos blogs citados escreveu: “Existem algumas variações para a tradução desta oração, mas preferimos traduzir ‘conduzi’ por pérduc e não cónduc pois o verbo perdúco, -ere tem sentido mais forte do que condúco, -ere, significando conduzir até o fim. O termo misericórdiae túa às vezes se encontra como misericórdia túa, sendo ambas corretas, uma vez que o verbo indigeo, -ére pode reger tanto ablativo quanto genitivo.” E atenção: inferi, aqui declinado como inferos, significa “almas dos mortos” ou “mundo dos mortos”, e não “inferno”! Por isso, em muitas traduções aparece como “mansão dos mortos”.

Concluindo, a sílaba tônica está bem audível na pronúncia dos vídeos, mas ela também vem marcada com um acento agudo nas transcrições abaixo. Textos latinos, mesmo os eclesiásticos, em geral, não levam sinais diacríticos, mas pra comodidade do leitor, acentuei todas as palavras com duas ou mais sílabas, mesmo parecendo evidente, exceto a ligatura “œ”, por razões técnicas, mas que aqui é sempre tônica. Eu falo o “a” sempre aberto, o “e” (ou “æ” e “œ”) e “o” abertos em sílaba tônica, e o “e” (ou “æ” e “œ”) e “o” fechados em sílaba átona. Também removi a distinção entre vogais curtas e longas, não as indicando nem com braquia, nem com mácron. Desta forma, perde-se a diferença entre terra (nominativo) e in terrā (ablativo).

Integrando os dois vídeos que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube) hoje mesmo e em julho do ano passado, este material é utilizável tanto por católicos ou cristãos em geral, quanto por estudiosos ou simples curiosos. Sei que muitos tradicionalistas não concordam com a criação dos “mistérios luminosos” (ou “da luz”) pelo papa São João Paulo 2.º, mas inseri-os aqui por mero fim de documentação. Consegui a tradução deles em português no manual Terço na mão e fé no coração!, de Sônia Venâncio, publicado pela Canção Nova e disponível no Google Books. A música de fundo no primeiro vídeo são partes da Marcha da Igreja (instrumental), composta por David Julien.






SINAL DA CRUZ

Per sígnum Crúcis de inimícis nóstris líbera nos, Déus nóster. In nómine Pátris, et Fílii, et Spíritus Sáncti. Ámen.


CREDO (CREIO)

Crédo in Déum Pátrem omnipoténtem, Creatórem cœli et térræ. Et in Jésum Chrístum, Fílium éjus únicum, Dóminum nóstrum, qui concéptus est de Spíritu Sáncto, nátus ex María Vírgine, pássus sub Póntio Piláto, crucifíxus, mórtuus, et sepúltus, descéndit ad ínferos, tértia díe resurréxit a mórtuis, ascéndit ad cœlos, sédet ad déxteram Déi Pátris omnipoténtis, índe ventúrus est judicáre vívos et mórtuos. Crédo in Spíritum Sánctum, sánctam Ecclésiam cathólicam, sanctórum communiónem, remissiónem peccatórum, cárnis resurrectiónem, vítam ætérnam. Ámen.


PAI-NOSSO

Páter Nóster, qui es in cœlis, sanctificétur nómen túum. Advéniat régnum túum. Fíat volúntas tua, sícut in cœlo et in térra. Pánem nóstrum quotidiánum da nóbis hódie, et dimítte nóbis débita nóstra sícut et nos dimittímus debitóribus nóstris. Et ne nos indúcas in tentatiónem, sed líbera nos a málo. Ámen.


AVE-MARIA

Áve María, grátia pléna, Dóminus técum. Benedícta tu in muliéribus, et benedíctus frúctus véntris túi, Jésus. Sáncta María, Máter Déi, óra pro nóbis peccatóribus, nunc, et in hóra mórtis nóstræ. Ámen.


GLÓRIA

Glória Pátri, et Fílio, et Spíritui Sáncto. Sícut érat in princípio, et nunc, et sémper, et in sǽcula sæculórum. Ámen.


ORAÇÃO DE FÁTIMA

O píe Jésu, dimítte nóbis débita nóstra, líbera nos ab ígne inférni, pérduc in cœlum ómnes ánimas, præsértim íllas, quæ máxime indígent misericórdiæ túæ.

*Às vezes também se inicia O mi (píe) Jésu, “Ó meu (bom) Jesus”.


SALVE-RAINHA

Sálve, Regína, máter misericóridiæ, víta, dulcédo, et spes nóstra, sálve. Ad te clamámus éxsules fílii Évæ. Ad te suspirámus, geméntes et fléntes in hac lacrimárum válle. Éja, érgo, advocáta nostra, íllos túos misericórdes óculos ad nos convérte. Et Jésum, benedíctum frúctum véntris túi, nóbis post hoc exsílium osténde. O clémens, O pía, O dúlcis, Vírgo María. Ámen. Ora pro nóbis, sáncta Déi Génetrix. Ut dígni efficiámur promissiónibus Chrísti.


CREDO DE NICEIA (SÍMBOLO NICENO)

Crédo in únum Déum, Pátrem omnipoténtem, factórem cœli et térræ, visibílium ómnium et invisibílium. Et in únum Dóminum Jésum Chrístum, Fílium Déi unigénitum, et ex Pátre nátum ánte ómnia sǽcula. Déum de Déo, Lúmen de Lúmine, Déum vérum de Déo véro, génitum non fáctum, consubstantiálem Pátri; per quem ómnia fácta sunt. Qui própter nos hómines et própter nóstram salútem descéndit de cœlis. Et incarnátus est de Spíritu Sáncto ex María Vírgine, et hómo fáctus est. Crucifíxus étiam pro nóbis sub Póntio Piláto, pássus et sepúltus est, et resurréxit tértia díe, secúndum Scriptúras, et ascéndit in cœlum, sédet ad déxteram Pátris. Et íterum ventúrus est cum glória, judicáre vívos et mórtuos, cújus régni non érit fínis. Et Spíritum Sánctum, Dóminum et vivificántem, qui ex Pátre Filióque procédit. Qui cum Pátre et Fílio símul adorátur et conglorificátur: qui locútus est per prophétas. Et únam, sánctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam. Confíteor únum baptísma in remissiónem peccatórum. Et expécto ressurrectiónem mortuórum, et vítam ventúri sǽculi. Ámen.

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Os dias da semana em latim eclesiástico:

domínica, féria secúnda, féria tértia, féria quárta, féria quínta, féria séxta, sábbatum.


Mystéria Gaudiósa (Mistérios Gozosos)
In féria secunda et sábbato (Às segundas e sábados)

1. Quem, Vírgo, concepísti
(Aquele que, virgem, concebeste)

2. Quem visitándo Elísabeth portásti
(Aquele que, visitando Isabel, portaste)

3. Quem, Vírgo, genuísti
(Aquele que, virgem, deste à luz)

4. Quem in témplo præsentásti
(Aquele que, no templo, apresentaste)

5. Quem in témplo invenísti
(Aquele que, no templo, encontraste)


Mystéria Luminósa (Mistérios Luminosos)
In féria quínta (Às quintas)

1. Qui ápud Jórdanem baptizátus est
(Aquele que foi batizado no rio Jordão)

2. Qui ípsum revelávit ápud Canénse matrimónium
(Aquele que se revelou nas bodas de Caná)

3. Qui Régnum Déi annuntiávit
(Aquele que anunciou o Reino de Deus)

4. Qui transfigurátus est
(Aquele que foi transfigurado)

5. Qui Eucharístiam instítuit
(Aquele que instituiu a Eucaristia)


Mystéria Dolorósa (Mistérios Dolorosos)
In féria tértia et féria séxta (Às terças e sextas)

1. Qui pro nóbis sánguinem sudávit
(Aquele que, por nós, suou sangue)

2. Qui pro nóbis flagellátus est
(Aquele que, por nós, foi flagelado)

3. Qui pro nóbis spínis coronátus est
(Aquele que, por nós, foi coroado de espinhos)

4. Qui pro nóbis crúcem bajulávit
(Aquele que, por nós, carregou a cruz)

5. Qui pro nóbis crucifíxus est
(Aquele que, por nós, foi crucificado)


Mystéria Gloriósa (Mistérios Gloriosos)
In féria quárta et domínica (Às quartas e domingos)

1. Qui resurréxit a mórtuis
(Aquele que ressuscitou dos mortos)

2. Qui in cœlum ascéndit
(Aquele que subiu aos céus)

3. Qui Spíritum Sánctum mísit
(Aquele que enviou o Espírito Santo)

4. Qui te assúmpsit
(Aquele que te ascendeu aos céus)

5. Qui te in cœlis coronávit
(Aquele que nós céus te coroou)



12 de outubro de 2018

Клен зелений (Smuglianka ucraniana)


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Faz tempo que me pediram pra postar este vídeo no meu canal Eslavo (YouTube), e penso que esta semana é ideal por causa de seu tom feminista e antifascista. Esta canção gravada pelo conjunto ucraniano Made in Ukraine tem o título “Клен зелений” (Klen zeleny), O bordo verde, e consiste numa adaptação, pro idioma ucraniano e em ritmo techno-pop, da célebre música soviética “Смуглянка” (Smuglianka), A morena em russo, por Ol’ha Pavelets, uma das integrantes da banda. Os autores originais de 1940 são Iakov Zakharovich Shvedov (letra) e Anatoli Grigorievich Novikov (melodia). A letra ucraniana data de 2010, mas este clipe, dedicado ao Dia da Vitória, surgiu em 2014, quando explodiram os protestos de Maidan.

A Smuglianka russa foi considerada em 2015 pela revista sociológica Russki reportior a 24.º letra mais popular do país, colocando-a assim, também, como clássico mundial. Falando sobre uma jovem guerrilheira da Guerra Civil Russa (1918-1921), ela integra uma série composta por Shvedov e Novikov, dirigida ao conjunto do Distrito Militar Especial de Kyiv. Mas a forma hoje conhecida não era tocada antes da guerra, pois a partitura inicial pra piano se perdeu, ficando apenas rascunhos. Só em 1943 Novikov se lembrou dela, quando Aleksandr Aleksandrov, autor da melodia do hino da URSS e da Rússia atual, solicitou novas composições pra serem tocadas pelo Coral do Exército Vermelho. Por um acaso, Novikov pôs Smuglianka na lista, e justamente ela agradou a Aleksandrov, que a reelaborou pra coro e solistas.

Cantada ao vivo pela primeira vez em 1944 pelo solista Nikolai Ustinov, que deve muito a isso seu sucesso, Smuglianka logo se tornou famosa ao ser transmitida pelo rádio, sendo ouvida inclusive nas retaguardas e fronts da guerra mundial. A música falava de uma jovem moldávia que tinha a pele morena, e embora se referisse à guerra civil, também foi tomada como uma descrição da libertação da Moldávia pelo Exército Vermelho. Entrou na trilha sonora de muitos filmes soviéticos depois de 1945 e foi regravada por cantores como o pró-Putin Iosif Kobzon e a ucraniana Sofia Rotaru.

Lembro mais uma vez que eu não traduzi aqui a Smuglianka a partir da língua russa, mas a reelaboração feita por Pavelets, imbuída de um propósito diferente. Isso de deu em 2010, quando a Ucrânia celebrou os 65 anos da vitória na 2.ª Guerra Mundial, ou seja, no célebre Dia da Vitória comemorado na Europa. Intitulada Klen zeleny (O bordo verde), árvore que também figura no original russo (klion zeliony), só em 2014 teve clipe com o Made in Ukraine, dirigido por Oleksandr Filatovych. No próprio começo da filmagem aparece escrito “Dedicado ao Dia da Grande Vitória”, mas pra quem prefere escutar apenas o áudio, vá ao próprio canal da banda.

O grupo ucraniano Made in Ukraine existe desde 1996 e se dedica em especial ao eurodance, europop, pop-folk e techno. Sua especialidade é dar arranjos dançantes a músicas conhecidas do folclore ucraniano, e desde o começo a principal cantora, que aparece à frente, é Tetiana Dehtiariova. Ainda ativo em toda a Ucrânia, o grupo gravou 11 álbuns de 1996 a 2013, e outros nove clipes, além deste, de 1998 a 2002, tendo filmado outro em 2016. Em 2014, ele se apresentou em vários comícios de defesa do movimento Euromaidan, inclusive no centro de Kyiv. Ajudem a incrementar a página das moças no Facebook, que ainda tem poucas curtidas. Em seu site oficial, infelizmente todo em ucraniano, estão listadas outras redes sociais.

“Bordo” é o nome de uma árvore do gênero Ácer, nativa da América do Norte, mas também comum na Europa, raríssima no Brasil. Por vezes, só era possível saber que a protagonista era uma mulher pela flexão verbal do passado, que nas línguas eslavas também indica o gênero do sujeito. Por isso, em alguns casos, pra apontar essa “feminilidade”, inseri adjetivos femininos em frases de significado igual. Eu mesmo traduzi direto do ucraniano (bem como a estrofe 3 cantada em russo, mas ausente da Smuglianka primordial), partindo desta página com o texto e me apoiando nas traduções bielo-russa, inglesa, romena, russa e sérvia também presentes aí. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em ucraniano/russo e a tradução em português:


____________________


1. Літній ранок, роси грають,
Я зайшла в зелений сад.
Там зустріла партизана,
Коли рвала виноград.
Ти дивився в очі палко
Наче серцем промовляв:
“Так би літні ранки
Лиш з тобою би стрічав.”

Приспів 1:
Клен зелений,
Кучеряве листя в’ється,
А до мене
Зачаровано сміється
Хлопець бравий,
Та чорнобровий
Хлопець молодий.

Приспів 2:
Клен зелений,
Кучеряве листя в’ється,
А до неї
Зачаровано сміється
Хлопець бравий,
Та чорнобровий
Хлопець молодий.

2. Тихий вечір ліг на плечі,
Ми стояли в тім саду.
Я з тобою, чорнобровий,
Вже нікуди не піду.
Ми з тобою, партизани,
Батьківщина в нас одна.
Різними шляхами
Нас покликала вона.

(Приспів 1)

3. Раскудрявый клён зелёный,
Лист резной.
Здесь у клёна
Мы расстанемся с тобой,
Клён зелёный, да клён кудрявый,
Да раскудрявый резной.

(Приспів 1)

4. Повернулася я гордо,
А стежина в ліс вела
І образа серце крає
Що нас доля розвела.
Неспокійний час минає
І в сурові дні війни
Тільки серце знає,
Що зустрінемося ми.

(Приспів 1)
(Приспів 2)

____________________


1. Manhã de verão, orvalho reluz,
Fui rápida ao jardim verde.
Enquanto lá eu colhia uvas,
Fui olhada por um partisan.
Você fitou fogoso meus olhos
Como que dizendo de coração:
“Quem dera só com você
Encontrar manhãs de verão.”

Refrão 1:
As folhas do bordo verde
Estão mexendo frondosas,
Está sorrindo para mim
De modo encantador
Um rapaz corajoso,
Sobrancelhas pretas,
É um homem jovem.

Refrão 2:
As folhas do bordo verde
Estão mexendo frondosas,
Está sorrindo para ela
De modo encantador
Um rapaz corajoso,
Sobrancelhas pretas,
É um homem jovem.

2. Com noite calma nos ombros,
Ficamos de pé nesse jardim.
Suas sobrancelhas pretas
Não vão mais sair comigo.
Apoiamos vocês, partisans,
Residimos na mesma pátria.
Ela nos chamou à luta
Por estradas diferentes.

(Refrão 1)

3. As folhas do bordo frondoso
São todas verdes e esculpidas.
Aqui sob esse bordo
Vamos nos despedir.
O bordo verde, frondoso,
E com folhas esculpidas.

(Refrão 1)

4. Retornei bem orgulhosa
Num atalho para a floresta
De coração magoado, pois
Tivemos destinos separados.
O tempo passa na aflição
E nos duros dias de guerra
Só meu coração sabe que
Vamos nos ver novamente.

(Refrão 1)
(Refrão 2)




10 de outubro de 2018

O melhor dos eslavos: humor e música


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/meme-eslavo




No meu canal Eslavo (YouTube), como eu disse na postagem anterior, às vezes gosto de carregar imagens engraçadas do mundo eslavo, ou montagens que eu mesmo invento com teor humorístico, que chamo genericamente de “memes”, mas nem todos os inscritos gostam. Em geral priorizo o mundo eslavo, porque muita coisa é digna de ficar conhecida, mas quem fala português quase sempre tem essa barreira da língua. Nem sempre minha tentativa de ser um “canal SAM” dá certo, mas eu continuo tentando!

Nesta e em outras postagens, farei coleções com os melhores memes que tentei criar no meu canal. Nem todos vêm de países eslavos, e muitos constituem verdadeiras montagens cômicas, mas eles deviam possuir um espaço, além das próprias playlists a que pertencem no YouTube, pra ser reunidos, exibidos e comentados. Hoje, apresento aqui material da antiga União Soviética e dos países eslavos que a ela pertenceram ou não antes de 1991, exceto da antiga Iugoslávia, já abordada aqui. Faço exceção à Moldávia, nação de língua romena criada em 1945 e que integrou a URSS até sua dissolução. São montagens, pequenos trechos e “falsas traduções” que decidi publicar pra mostrar ao visitante minha interpretação cômica sobre certos fatos!



Arrochando em plena madrugada, porque mandei este vídeo quase à meia-noite, na pressa, terminando-o com muito custo. “Mijador com mijador” bem numa terça-feira! Esse gênero sérvio se chama kolo, dançado em roda (kolo = roda, anel), muito típico principalmente em festas e casamentos, e que tem várias formas de execução. Algumas, como esta, parecem muito com o forró lambado do Nordeste brasileiro.

Na época da montagem (maio de 2017), os gêneros que misturavam o forró cearense, o arrocha e outras breguices até estavam no ápice do sucesso, daí algumas referências no começo do vídeo. Eu tirei o áudio deste endereço, onde a melodia, aparentemente tocada em teclado (daí a semelhança também com nossos forrozeiros “dos teclados” dos anos 90 e 2000), é chamada Kolo Crnogorka. Por isso, usei também imagens relacionadas à recém-fundada república de Montenegro.



Em geral, não gosto de postar vídeos por postar, copiando de outros e sem fazer nenhuma alteração, ao contrário das minhas legendagens. Um dia desses, tive que fazer uma gloriosa exceção. Procurando ao acaso vídeos com o hopak (гопак), a dança nacional ucraniana (em russo, também falada gopak), achei esta pérola, a mais linda que vi até hoje, provavelmente gravada nos anos 90 em algum teatro da Ucrânia. Trata-se do Honorável Conjunto Nacional Acadêmico de Dança da Ucrânia Pavlo Virsky, de Kyiv (Kiev), e deve ser desse patrono o rosto azul que ilustra o cenário (palco).

O vídeo original foi postado em 2009 num canal ucraniano, e embora ele tenha quase 592 mil visualizações, o canal ainda tem muito poucos inscritos: vamos dar uma força? Vejam muito mais vídeos típicos lá, além dos relacionados ao lado pelo próprio YouTube. Eu fiz um recorte que, embora tire algumas partes da imagem, mantém o essencial e se ajusta melhor às telas modernas. Aproveitem, assistam bastante e divulguem, pois essas pérolas da dança ucraniana são raríssimas de se achar. E esta é mesmo uma das mais próximas do estilo autêntico.



Um vídeo postado por um falante de inglês anuncia o “autêntico Mr. Trololo”: trata-se de Muslim Magomaiev, outro mito da canção popular soviética, como Eduard Khil, entoando exatamente a mesma “música”. Já o postei aqui cantando As janelas de Moscou num antigo show preto e branco, mas eu não me satisfiz e fiz a busca no YouTube por “магомаев вокализ” (ou seja: “Вокализ”, na verdade, costuma ser o nome técnico da canção, embora também costume ser chamada pelo nome comprido Estou muito feliz, porque etc.). Isso foi o que achei: sua aparição num antigo programa da TV estatal da URSS, chamado “Голубой огонёк” (Goluboi ogoniok), A centelha azul, de variedades semanais e que depois passou a ser exibido só em datas especiais.

O vídeo original foi postado ainda em junho de 2009, ou seja, antes de Khil bombar mundialmente como Mr. Trololo, e diz-se ter sido tirado diretamente do site pessoal de Magomaiev. Não há precisão de data (apenas se diz “anos 60”), mas pela Wikipédia russa, sabemos que a canção foi composta em 1966 por Arkadi Ilich Ostrovski, originalmente com letra do poeta Vadim Semernin. A versão que popularizou mesmo foi apenas a vocalização da melodia, sem a letra, e a gravação de Khil que seria postada em 2009 e bombaria em 2010 só foi feita em 1976. O contexto da gravação de Khil foi todo diferente, mas imagino que cafonice devia ser esse programa na época do Muro de Berlim. Algo remotamente parecido só vi quando Sergio Günther, o “irmão alemão” de Chico Buarque, ficou conhecido no Brasil, pela filmagem de um programa alemão oriental de cunho “humorístico” símile na época. Infelizmente, a íntegra original foi removida, mas sobrou a parte em que aparece o “bastardo”.

Outro problema posto: na Rússia, quando alguém sem conhecimento prévio é posto pra ouvir simultaneamente áudios com Magomaiev e Khil, em geral não consegue distinguir de cara os dois barítonos. E pra piorar, é provável que uma legendagem que atribuí a Khil e que publiquei aqui há algum tempo também seja de Magomaiev, e não de Khil. Isso porque, embora eu tenha achado o MP3 como de Khil, vários russos me alertaram sobre essa autoria real, além do que não achei nenhuma menção direta ao Mr. Trololo como intérprete dessa música. Pelo contrário, na rede social de um russo, vi-o comentando que numa homenagem lá na Rússia mesmo, tocaram a canção como sendo de Khil, pra ele erroneamente. Outros contatos comentaram a postagem confirmando as assertivas do russo, e desde então tenho dúvidas.

Com esse vídeo de Muslim Magomaiev também fazendo o “Trololo”, ficou ainda mais evidente a similaridade de voz, roupagem e estilo dele com Eduard Khil. Há quem diga que Khil, tendo “uniformizado a letra” (?), fez a melhor das versões, ainda mais comparado com Magomaiev, que mistura “trololó”, “hm-hm-hm”, “dururu”, “auêa” e assobios. Mas vocês é que dão a última palavra a si mesmos! Notavelmente, embora tenha sido postado na mesma época, o upload do inglês só chegou a ter pouco mais de 2 milhões de visualizações. Infelizmente, agora ele foi deletado do YouTube!



Muito por acaso, descobri que o programa televisivo Goluboi ogoniok, transmitido com interrupções e reelaborações até hoje na Rússia, pode ser uma mina de videomemes soviéticos. Inicialmente, o programa passava todo fim de semana, e reunia num tipo de café cenográfico shows de dança, diálogos jocosos, números musicais com cantores e instrumentistas e a participação de figuras destacadas na sociedade soviética, como cientistas, escritores, astronautas, gente condecorada etc. Algum tempo depois, passou a ser exibido somente em datas festivas e feriados, mas ficaria mais conhecido com o formato que mantém atualmente: um show transmitido na véspera do Ano Novo e reexibido no Ano Novo ortodoxo (13 dias depois).

Topei com ele enquanto fazia a busca pelo Trololó, e de repente achei a referida gravação de Muslim Magomaiev. Num dos programas que baixei, encontrei esta linda pérola: um dançarino soviético ao estilo cabaré ocidental, antecedendo o que poderíamos hoje relacionar a Pabllo Vittar ou Ney Matogrosso, porém com muito mais roupas. Só faltou bater a cartola, isto é, o cabelo: que ginga, que swing! Parece irônico, mas “голубой”, literalmente “azul celeste” (em contraposição a “синий”, “azul escuro”), na gíria russa significa “gay”, “homossexual”, “boiola”. Do vídeo completo, de quase duas horas, apenas extraí o tempo correspondente e tirei as margens pretas em excesso.



Este vídeo foi originalmente feito em 2012, numa edição do programa de TV Slovenija ima talent (A Eslovênia tem talento), e o conjunto executa uma polca de autoria de Slavko Avsenik e arranjos de seu irmão Vilko Avsenik. Ela foi composta em 1954 e gravada pela primeira vez em 1955, sendo considerada uma das melodias mais reproduzidas do mundo hoje. Na Golici se refere ao monte Golica (Kahlkogel em alemão), localizado na fronteira entre a Eslovênia e a Áustria, mais exatamente sobre a cidade eslovena de Jesenice. Por isso a aparente semelhança com a música austríaca ou mesmo alemã (o país já foi parte do Império Austro-Húngaro e da Itália).

Ô loco, meu! Quarenta feras fazendo graça com sanfona? Brincadeira! No vídeo original, sem cortes ou legendas, pus apenas umas legendas zoeiras pra vocês captarem o espírito da coisa!



Este vídeo é um trecho de uma reportagem que achei bem por acaso, provavelmente de uma TV do Cazaquistão que também transmite em língua russa. A matéria se intitula “Por que os russos estão estudando a língua cazaque?”, e sugiro que vocês deem uma olhada, mesmo se entenderem nada ou nem tudo.

A transmissão se centra no motivo que estaria levando alguns jovens estudantes russos a estudarem a língua cazaque, que é da mesma família do turco, ao contrário da língua russa. Esses jovens, em suma, querem buscar mais oportunidades profissionais, já que o Cazaquistão é um grande parceiro estratégico da Rússia (a começar pelo mesmo pertencimento à União Eurasiática), e estudar um idioma totalmente diferente dos indo-europeus. De fato, quase todos os jovens sempre buscam primeiro inglês e espanhol, e depois francês e alemão, pondo de lado as línguas dos países vizinhos.

Estas jovens do vídeo são estudantes da Universidade de Linguística de Moscou (MGLU), e estão continuando uma sequência de cantos em língua cazaque que também aparecem tocados em violão no meio da reportagem. Eu resolvi cortar só esse trecho e aproximar o quadro, pra fazer uma brincadeirinha. Os russos sempre foram especialistas em estudar academicamente as línguas “exóticas” das antigas repúblicas soviéticas e dos povos minoritários que habitam a Rússia atual. Quem deseja se aventurar nesses idiomas vai infelizmente achar, mais do que tudo, material em russo.



O amor é lindo, e entre Leonid e Erich as coisas eram bem íntimas. A URSS e a RDA nunca iam deixar se separar com uma ligação tão calorosa! E assim continuou o bloco socialista até 1989, numa lua-de-mel só. O vídeo completo consiste numa reportagem sobre a visita soviética a Berlim.

Nota essencial: o beijo entre homens, que sempre foi motivo de piada no Ocidente, era um cumprimento formal comum até há algum tempo. Atualmente, as novas e médias gerações não fazem mais isso, então não é mais comum ver “homens se beijando” na Rússia e nunca é recomendável fazer isso com um estranho.



Achei um vídeo noticiário por acaso e decidi compartilhar: trata-se de um boletim emitido em 3 de julho pelo canal NTV da Moldávia. Uma das reportagens relata a mensagem mandada pelo presidente Igor Dodon ao presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, felicitando-o pelo aniversário da independência deste país.

Na Moldávia (também chamada Moldova), antiga república soviética, também se fala romeno entre grande parte da população, mas eles mesmos chamam a própria língua de “moldávio”, a qual é inclusive o tema central do hino nacional. Nos tempos da URSS, o idioma chegou a ser escrito num alfabeto cirílico adaptado, que acho horrível.

Neste vídeo vocês podem assistir duas vezes à mensagem lida por um narrador e ao texto passado simultaneamente na tela. Aproveitem a rara oportunidade pra descobrir como soa o romeno... ou moldávio? Algumas coisas são compreensíveis, sobretudo pra quem sabe italiano e latim, mas não entendo tudo: se alguém souber traduzir, sinta-se à vontade pra comentar no YouTube.

A música final se chama Alunelul, mas integra o folclore da Romênia. P.S. Escrevi errado no vídeo: segundo o VOLP, não existe o adjetivo “moldavo”, mas apenas “moldávio”.



O jornalismo da remota Moldávia realmente rende muitos memes: aproveitando o mesmo telejornal, tentei novamente dar uma de SAM com a vovozinha cheia das vodcas. Busquei retomar também a velha tradição das montagens toscas do Jiraya e do Daileon!


8 de outubro de 2018

Memes da Iugoslávia e o Marechal Tito


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No meu canal Eslavo (YouTube), às vezes gosto de carregar imagens engraçadas do mundo eslavo, ou montagens que eu mesmo faço com teor humorístico, que chamo genericamente de “memes”, mas nem todos os inscritos gostam. Em geral priorizo o mundo eslavo, porque muita coisa é digna de ser conhecida, mas quem fala português quase sempre tem essa barreira da língua. Nem sempre minha tentativa de ser um “canal SAM” dá certo, mas eu continuo tentando!

Nesta e em outras postagens, farei coleções com os melhores memes que tentei criar no meu canal. Nem todos vêm de países eslavos, e muitos constituem verdadeiras montagens cômicas, mas eles deviam possuir um espaço, além das próprias playlists a que pertencem no YouTube, pra ser reunidos, exibidos e comentados. Hoje, posto três vídeos interessantes que fiz sobre a antiga Iugoslávia e seu ditador, Josip Broz, ou Marechal Tito. Infelizmente, não domino a língua servo-croata e suas variantes nacionais, mas algumas coisas consegui achar por acaso e, independente do idioma, pude trazer ao meu público.



Não é nada engraçado, mesmo com um ditador, mas postei por mera curiosidade histórica. Por um lado, Tito, que governou a Iugoslávia de 1945 a 1980, teve uma política bastante aberta para com o Ocidente, ao contrário de outros países comunistas da Europa. Por outro lado, os primeiros-ministros social-democratas, trabalhistas ou esquerdistas, em países democráticos, buscaram fortalecer laços e ouvir mais as nações do antigo Leste europeu.

Foi o caso do social-democrata Olof Palme, que governou a Suécia de 1969 a 1976 e de 1982 a 1986, ano em que foi assassinado ao sair de um cinema. Em 1976, ele e outros dignatários locais receberam Tito em Estocolmo, capital da Suécia, e na hora em que o marechal saiu da limusine, teve seus dedos prensados pela porta da frente (passageiro) ao sair um oficial que não identifiquei. Isso se deu porque Tito resolveu se apoiar na lateral direita ao sair, e colocou os dedos bem no vão da porta dianteira. O oficial não viu essa cena, e fechou a porta com tudo.

Obviamente, como se nota em algumas das versões que uni no vídeo, o marechal berrou de dor, repreendeu o colega e saiu corajosamente em direção a Olof Palme, que ou era um bobo-alegre, ou fez carinha de que se divertiu com o incidente. Mais pra frente, outra tomada mostra Tito com Palme e os companheiros, fazendo gestos como se estivesse explicando a fechada de porta. Notam-se também alguns dedos com o que parece ser um curativo.

É bizarro como em alguns programas suecos, o caso foi tratado como uma videocassetada do Faustão, gerando risos histéricos e nenhuma empatia, como era o caso no que pareciam ser os anos 90. A atitude foi bem besta, e vários simpatizantes de Tito no território moderno da antiga Iugoslávia xingaram os suecos no YouTube, dizendo que ele não era ditador e que ver alguém se ferindo não era nada hilário. Por outro lado, sérvios que abominam o comunismo adoraram vê-lo sofrer.

Eu mesmo fiz a montagem, tendo recortado os vídeos pra ficarem com o quadro retangular. Originalmente, estão nos respectivos endereços:

http://youtu.be/7hZHgMsDim0
http://youtu.be/D4eaimOSxvk
http://youtu.be/i89A4od3ayU
http://youtu.be/5AJoYzp6ne4



Até pro lindo casal presidencial iugoslavo Josip e Jovanka Broz tem dia, lugar e tem hora! Pra serem felizes numa casa de campo, fazendo artesanato e tomando café. Mas não é em 1977, e sim em 1962. Achei por acaso um curto vídeo documental de Tito e sua mulher passando uma tarde no que parece ser uma propriedade deles, e num dos momentos, o presidente enche uma xícara com uma máquina de café expresso, e vai fumar um charuto e conversar ao lado dela.

Na minha opinião, Dia, lugar e hora, um sucesso do cantor brasileiro Luan Santana, casou direitinho com essa cena! Então, brinquei que ele estaria cantando Pesem o Titu (Canção para Tito), um sertanejo comunista. Mas na verdade, nem sequer fala do Tito: é apenas o referido trecho com seu som original tirado, substituído pela maior parte do refrão da música do Luan (só tirei uma frase pra que as durações coincidissem). Não vou transcrever a letra do hit, mas vocês podem assistir acima, pra julgar se fiz algo interessante!



Apesar da estranha miniatura que montei, este é o pequeno excerto de um episódio do programa infantil iugoslavo “Полетарац” (Poletarac), exibido na primeira metade de 1980 (este episódio é de 19 de março, e eu já legendei o tema de abertura). Gravado com diversos atores, incluindo músicas, piadas e contos, propunha-se apresentar “as coisas básicas da vida e do mundo ao redor”. No vídeo completo, o trecho em questão começa aos 15’55”.

A palavra servo-croata poletarac tem um equivalente em inglês, que é fledgling. Ambas designam um passarinho que está saindo do ninho, aprendendo a voar, e figuradamente um iniciante ou novato em alguma coisa. Como os atuais puritanos no Brasil, poderíamos dizer: “Era o marxismo cultural apresentando essas obscenidades às crianças!” Mas podemos ver também por um lado não erotizado, que é a meta do programa. A maldade está nos olhos de quem vê. Não vou reescrever a tradução, mas segue o texto das falas nos alfabetos latino e cirílico:

– Da li znaš, ko je najmlađi stanovnik Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije? A?
– To je najmlađi stanovnik Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije.

– Да ли знаш, ко је најмлађи становник Социјалистичке Федеративне Републике Југославије? А?
– То је најмлађи становник Социјалистичке Федеративне Републике Југославије.




6 de outubro de 2018

Ramzan Kadyrov, um bailarino amador


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Quando eu postar em meu canal Eslavo (YouTube) algo da Rússia não relacionado aos povos eslavos, penso em chamar isso “Projeto Outras Rússias”, mas não tenho nada certo. Em agosto, estava pesquisando sobre música tártara no YouTube e de repente encontrei este vídeo por acaso. O protagonista é Ramzan Akhmadovich Kadyrov, desde 2007 presidente da Chechênia, república autônoma da Rússia localizada no Cáucaso com a qual o governo de Moscou travou uma guerra brutal nos anos 90 pra evitar sua independência. Outrora combatente nas fileiras separatistas, Kadyrov, filho de outro político tradicional, aliou-se a Vladimir Putin, ingressou nas fileiras do partido Rússia Unida e ficou conhecido pela restauração da paz e pela reconstrução de Grozny, a capital local. Me impressiona muito, pelo menos na minha visão, sua semelhança facial com o personagem infantil Fofão, famoso no Brasil dos anos 70 e 80 e cujo criador já faleceu.

Contudo, Kadyrov é notado internacionalmente pela sua mão de ferro, autoritarismo e perseguição a minorias, sobretudo à população LGBT da região. E é este homem que vemos soltando a franga numa festa de 2016, certamente mais um dos rega-bofes que compõem sua vida de luxo e ostentação. O ritmo tocado é a lezginka, de raiz georgiana, mas conhecido e praticado em todo Cáucaso, como tivemos a ocasião de saber quando eu trouxe a canção Oisia ty oisia à página. A cantora contratada é Elina Murtazova, executando a música Vada day, lançada no ano anterior. A língua chechena pertence à família caucasiana do nordeste, uma das famílias primárias de línguas do mundo, abarcando a Chechênia, Daguestão e outras regiões próximas. O georgiano, por sua vez, pertence à família cartevélica, enquanto o tártaro, junto com o azerbaijano, o cazaque e o turco, pertence à túrquica.

Não pude deixar de fazer uma comparação cômica com Sidney Magal, o cigano de araque célebre por ser o rei do rebolado entre os anos 80 e 90. Ele é mais conhecido por seus sucessos Sandra Rosa Madalena e O meu sangue ferve por você, mas esta canção, Me chama que eu vou, estourou quando foi usada em 1990 na abertura da novela Rainha da sucata na Rede Globo. Embora os ritmos do Cáucaso não tenham relação direta com ciganos, esse gingado parece algo universal. Pra aumentar a saudade, enxertei o final da abertura da novela Explode coração, de 1995, em que aparece a hoje apresentadora Ana Furtado. Se bem que no começo dos 90, a febre era da lambada, mas em se tratando do Magal, vale tudo pra até o tirânico Kadyrov cair na dança! Vocês podem achar em pesquisa no YouTube os vídeos completos, que apenas cortei, reenquadrei e encaixei juntos:



Por outro lado, ontem fui brindado pela coincidência. Em 5 de outubro temos dois grandes aniversários na Chechênia: os 42 anos de idade de Ramzan Kadyrov e os 200 anos da fundação de Grozny, iniciada como uma fortaleza. Embelezando o show, a cantora chechena Makka Sagaipova, que neste vídeo de 2005 tinha só 18 anos. Infelizmente, não descobri a ocasião da gravação, mas trata-se da canção “Хаза кӏант” (Xaza khant), que se pronuncia mais ou menos “rrazá kant” e significa Cara bonito ou Um rapaz bonito. Não descobri também quem compôs a letra e a melodia.

Mais uma vez, agora sem montagem, temos aqui Kadyrov soltando a franga com a lezginka. Paradoxalmente, um cara que parece tão gente boa, tão descontraído, está atualmente permitindo uma perseguição e encarceramento sem precedentes da população LGBT da Chechênia, alvos da censura internacional. Mesmo assim, ao contrário do Brasil, parece que o gingado masculino desinteressado lá não é associado a nenhuma preferência sexual. Playboyzinho e ostentador, Kadyrov não se importa em gastar rios de dinheiro com espetáculos e aniversários públicos: não por acaso tem até um “momento Silvio Santos” do nada.

A beleza artística fica por conta do dançarino típico de lezginka, que brota subitamente no palco pulando que nem uma perereca. Talvez uma das danças mais complexas do mundo, ele reveza passadas na ponta do pé, como uma bailarina clássica, com rápidos e simétricos movimentos corporais. Como de praxe, o presidente Fofão gosta de aparecer, e Sagaipova não esconde o espanto com a atitude, em meio à sua bonita exibição vocal e corporal. Makka Umarovna Sagaipova nasceu em 1987 em Grozny, e também faz parte do grupo Lovzar de dança chechena. Filha de um acordeonista, começou a cantar aos seis anos de idade e a dançar aos oito, e tem sua carreira amplamente financiada pelo marido milionário, Malik Saidullaiev.

Tremendo sucesso na época, Sagaipova talvez tenha sumido depois, pois esta música foi gravada em seu álbum de estreia Sou sua filha, Chechênia! (2004), e seu único álbum posterior foi Amor (2005). Ela também tem uma conta no Instagram, onde posta fotos e vídeos de agora, fala sobre sua escola de lezginka e reitera seu apoio político a Kadyrov, um perfil pessoal no VK e uma página de fãs na mesma rede. Baixei deste canal o vídeo sem legendas, que tem muitos comentários e visualizações (não cortei o quadro pra não perder conteúdo). Como não sei checheno, fiz uma tradução indireta do russo, cujo texto pode ser acessado junto ao original. Esse site é muito bom, e tem muita informação sobre a Chechênia, e frases e canções traduzidas.

Existe uma peculiaridade na versão chechena do alfabeto cirílico: ele usa as mesmas letras do alfabeto russo, mais uma letra adicional que parece um “i” maiúsculo ou um “L” minúsculo, com diversas funções. Contudo, ao longo da história, por causa das limitações tipográficas, essa letra foi escrita de várias formas, incluindo com um algarismo 1, como ainda é usual na internet. De conteúdo extremamente profundo e encoberta por essa batidinha viciante, como vocês perceberam, vejam abaixo minha legendagem, a letra corrigida em checheno, a tradução russa e a tradução em português:


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Син кӏераме гул дела ду,
Хаза сюре вай хьура ю.
Вай безамаш хоржура бу,
Шайна везарг кӏастура ву.
Вай безамаш хоржура бу,
Шайна везарг кӏастура ву.

До ӏаш волу и хаза кӏант,
И мял хаза хета суна.
Хьо кхечунга дхьа ма хьежа,
Со уоайлане ӏахь ма ита.
Хьо кхечунга дхьа ма хьежа,
Со уоайлане ӏахь ма ита.

Ала соьга мичхьара ву,
Милхач нахах шьа вялла ву.
Синач стигал ялла ёлу,
Везчу Дели выеха ёлу.
Синач стигал ялла ёлу,
Везчу Дели выеха ёлу.

Со хьоьга бям яха лур яц,
Хьо воцчунг со яха лур яц.
Безам бухург хала хум ду,
И массера лазама бу...
Безам бухург хала хум ду,
И массера лазама бу...

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Мы собрались на вечеринку,
Мы хорошо проведем вечер.
Мы определимся с симпатиями
И выберим того, кого любим.
Мы определимся с симпатиями
И выберим того, кого любим.

Вон тот парень, который сидит,
Как он мне нравится.
Ты на других не смотри,
А то буду ревновать тебя.
Ты на других не смотри,
А то буду ревновать тебя.

Скажи, парень, откуда ты,
От каких людей ты вышел.
Я уже готова на синее небо забраться
И у Аллаха просить его себе.
Я уже готова на синее небо забраться
И у Аллаха просить его себе.

Я смогу только за тебя выйти замуж,
Ни с кем кроме тебя жить не смогу.
Любовь штука сложная,
И у всех она боль есть...
Любовь штука сложная,
И у всех она боль есть...

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Nos reunimos numa balada,
Vamos tendo uma boa noite.
Vamos ver quem é atraente
E aí escolher um namorado.
Vamos ver quem é atraente
E aí escolher um namorado.

Aquele rapaz sentado ali,
Eu gostei tanto, tanto dele.
Não fique olhando as outras,
Vou ficar com ciúme de você.
Não fique olhando as outras,
Vou ficar com ciúme de você.

Gato, de onde você veio?
Qual sua origem e família?
Pronta para ir ao céu azul,
Vou pedir você para Alá.
Pronta para ir ao céu azul,
Vou pedir você para Alá.

Só poderei casar com você,
Só poderei viver com você.
O amor é complexa brincadeira
Que traz dor a todo mundo...
O amor é complexa brincadeira
Que traz dor a todo mundo...

Breves observações: como a própria língua russa tem vasta diferença expressiva em relação ao checheno, o primeiro tradutor já teve que adicionar algumas explicações sobre suas escolhas menos precisas. Já no primeiro verso, traduzido como “Мы собрались на вечеринку” (literalmente “Nos reunimos/Nos dirigimos a uma festa”), ele esclarece quanto à “festa”: “ну так сказать... типа веселье” (literalmente “hm, como dizer... uma diversão desse tipo”). No verso “От каких людей ты вышел” (literalmente “De que tipo de pessoas você saiu/veio”), diz-se que quanto a essas pessoas, “имеется в виду род” (literalmente “tem-se em vista o clã, tribo, raça, linhagem”). Além disso, em outra página com tradução semelhante, a única diferença é que no lugar do verso “А то буду ревновать тебя” aparece “Не вгоняй меня в раздумье” (literalmente “Não me deixe viver com dúvidas”).



Love is blind. Amor cæcus est.

4 de outubro de 2018

Reforma ortográfica da língua francesa


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Desde 2015, sob a presidência de François Hollande, tem ganhado mais corrência e visibilidade a chamada nova ortografia da língua francesa, cujos princípios, porém, remontam a 1990, mesmo ano em que foi proposta a reforma ortográfica da língua portuguesa. Como nos países lusófonos, as propostas de retificação geraram diversas opiniões, das favoráveis às contrárias, na França, no Canadá, na Bélgica, na Suíça e em outros países onde o francês é usado correntemente. Em toda reforma ortográfica de um idioma moderno, sempre se escondem por trás interesses financeiros, estéticos e filosóficos, mas num mundo em que a atividade da leitura e escrita praticamente se democratizou, mudanças assim têm sido cada vez mais dramáticas. Além de implicar atividades extras aos já sobrecarregados professores, ela termina meio que por invalidar toda uma massa documental impressa, bem como o muito mais crescente acervo digital.

Nesta postagem especial, quero passar ao leitor de português o máximo possível de informações históricas e linguísticas sobre as chamadas retificações ortográficas da língua francesa, também chamadas “nova ortografia”, propostas pelas instâncias francófonas responsáveis, entre as quais a Académie française (Academia Francesa). O uso dessa “nova ortografia” não é obrigatório, mas é recomendado, por isso é importante que todo estudante e professor a conheça desde já. Existe um ótimo site especializado em francês que traz material completo pra curiosos, alunos, docentes, escritores e jornalistas e do qual tirei a maior parte das regras. Na Wikipédia francesa está o básico do resumo histórico que também apresento aqui.

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Ao conjunto de retificações ortográficas do francês é atribuído o objetivo de tornar a ortografia mais simples ou de suprimir-lhe certas incoerências, conforme um relatório do Conselho Superior Francês para a Língua Francesa. O texto foi publicado entre os documentos administrativos da edição de 6 de dezembro de 1990 do Diário Oficial da República Francesa, e na época a Academia Francesa, sem contar com a íntegra da resolução, aprovou os princípios que a norteavam. Contudo, em 2016, a mesma instituição criticava a “exumação” de um projeto que, 25 anos após sua elaboração, não tinha contado com a “sanção do uso” e reafirmava o alinhamento aos princípios da reforma em 1990, e não a aprovação das regras.

As regras anteriores da ortografia francesa são também chamadas “tradicionais” ou “antigas”, e enquanto o Conselho Internacional da Língua Francesa (CILF), representando todos os países francófonos, mostrou-se favorável à reforma, a Academia Francesa aceita integralmente as duas regras, sem considerar uma delas incorreta e preferindo a “recomendação” à “imposição” do novo texto. Na França, as autoridades escolares públicas decidiram em junho de 2008 usar a “ortografia revisada” como referência dos programas e materiais, mas até 2010 as regras fixas ainda eram pouco conhecidas, e sua aplicação variava entre professores e entre dicionários. Porém, na prática muitos estudantes já as aplicavam sem saber, enquanto na Bélgica e na Suíça seu ensino já estava plenamente consolidado. Entre os franceses, apenas com a citada decisão de 2008 começou-se a ter uma noção maior da reforma.

Desde o século 16, houve inúmeras tentativas de reformar a ortografia francesa, sobretudo no sentido de suprimir-lhe o caráter etimológico (ou seja, o uso de certas letras ao invés de outras conforme a origem da palavra ou do afixo). Apenas em 1740 uma primeira reforma substancial foi consagrada na terceira edição do Dicionário da Academia Francesa, atingindo cerca de 5 mil palavras, mas nos anos 1980 um movimento de acadêmicos retoma o tema da necessidade de se revisar a ortografia. Por volta de 1988, o governo da França constatou que a ortografia complexa, a variação entre dicionários e a ausência de regras claras quanto à incorporação e sistematização de neologismos estava dificultando, ou até fazendo recuar, a difusão internacional da língua francesa. Em 1989, a mobilização de linguistas e a recomposição, sob o governo do premiê Michel Rocard, das instituições oficiais de consulta linguística favoreceram as discussões sobre a reforma ortográfica, até a publicação do referido documento de dezembro de 1990, aprovado por diversas organizações francesas.

Mesmo assim, a partir de 1991, iniciou-se na França uma resistência organizada às novas regras, invocando a manutenção de uma tradição consolidada. Diante dos calorosos debates lançados, a Academia Francesa reforçou sua posição contrária a um caráter obrigatório e impositivo da reforma, enquanto o CILF sublinhou que as decisões tinham sido tomadas conjuntamente entre os países francófonos, nos quais teria havido, em geral, ampla receptividade do acordo. Ainda hoje, há aqueles que se opõem por princípio, rejeitando qualquer tipo de modificação, e aqueles que criticam o crescimento do número de exceções a se memorizar, resultante, por exemplo, do desaparecimento do acento gráfico em certas flexões de uma palavra, mas não em outras. Os gramáticos reformistas, por sua vez, julgam a reforma insuficiente, não tocando nos aspectos etimológicos que fazem realmente a ortografia complexa.

A nova ortografia francesa, no aspecto da obrigatoriedade, diferencia-se da reforma lançada à língua portuguesa, que desde 1990 demorou a ser ratificada por um número mínimo de países, gerando até hoje muita resistência, sobretudo em Portugal, cujo padrão linguístico tem uma porção de palavras muito mais atingida do que o brasileiro. Mas o contraste é maior com a reforma da ortografia alemã de 1996, imposta mais firmemente com prazos, inclusive, pra adaptação das escolas, mas posteriormente abandonada por vários jornais e pela província alemã do Schleswig-Holstein. De fato, na França não há lei específica sobre o assunto, deixado ao encargo da Academia Francesa, portanto fora do escopo do Estado. Tanto que o texto de 1990 saiu na parte administrativa do Diário Oficial, portanto sem valor compulsório. Contudo, como a maioria dos documentos estatais da França já é redigida na “ortografia recomendada”, me interesso que os estudantes falantes do português, em especial no Brasil, dominem o assunto, evitando futuros contratempos.

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Quais são as principais regras da nova ortografia retificada e recomendada da língua francesa? No geral, como no Acordo Ortográfico de 1990 pra língua portuguesa, trata-se de mudanças na acentuação gráfica, na ortografia de palavras e no uso do hífen, ou traço de união, visando basicamente suprimir certas diferenciações de uso e adequar a escrita a mudanças de pronúncia que ocorreram nos últimos tempos.

A primeira delas se refere ao uso do hífen ao se escreverem numerais cardinais por extenso. Boa parte dos números compostos liga seus elementos com hífen: dix-sept, dix-huit, dix-neuf (17, 18, 19), vingt-deux até vingt-neuf (22 a 29) – o mesmo com outras dezenas até 60 –, soixante-dix (70 = 60 + 10, no peculiar sistema francês de contagem), soixante-douze até soixante-dix-neuf (72 a 79), quatre-vingt-un a quatre-vingt-dix (81 a 90), bem como quatre-vignt-onze até quatre-vingt-dix-neuf (91 a 99). Contudo, não levavam hífen as dezenas terminadas em 1 ou 11 – “et un” e “et onze” –, bem como suas formas ordinais “et unième” e “et onzième”: vingt et un (21), trente et un (31) etc., soixante et onze (71 = 60 + 11).

Atualmente, todas as formas numerais compostas, cardinais ou ordinais, podem levar hífen. Assim, temos vingt-et-un, trente-et-un, soixante-et-onze etc., bem como os ordinais vingt-et-unième, trente-et-unième, soixante-et-onzième etc. (Lembre-se que a forma premier, -ère só se usa com o número 1 absoluto.) O mesmo com deux cents (200), un million cent (1.000.100) e outros, que se tornam deux-cents, un-million-cent etc.

Assim podem se distinguir agora, conforme se diz na língua francesa, as escritas de soixante et un tiers (60 + 1/3) e de soixante-et-un tiers (61/3). Em francês, tiers (se lê “tiérr”) significando “terço”, “terça parte”, é invariável: em português não há essa confusão, pois no primeiro caso usaríamos “terço”, e no segundo, “terços” (com o “s” bem audível).

Outra mudança está nos substantivos compostos, em que um hífen une verbo + substantivo (como pèse-lettre, “pesa-cartas, balança de correio”) ou preposição + substantivo (como sans-abri, “sem-abrigo, sem-teto, desabrigado”). Em geral, a marca do plural em francês, quase sempre a letra “s”, não se pronuncia, portanto a pronúncia da palavra no singular é a mesma da palavra no plural. O grande problema é que, na ortografia, não havia (como em português) uma regra clara pra flexão do plural nos compostos, seja representando um ou mais elementos.

Pela nova regra, nos casos citados acima, coloca-se a marca do plural sempre e somente quando a quantidade estiver no plural. Por exemplo, escrevia-se sempre un/des compte-gouttes (um/alguns conta-gotas), com “s” final, independente de se estar no singular ou plural. Agora, escreve-se un compte-goutte no singular e des compte-gouttes no plural. Já com un/des après-midi (uma/algumas tardes, período/s da tarde), a forma era sempre a do singular, mas agora o plural pode receber a marca: un après-midi, mas des après-midis.

Alguns compostos permanecem invariáveis, como prie-Dieu (genuflexório), por causa da maiúscula de nome próprio, e trompe-la-mort (pessoa que se arrisca a ponto de desafiar a morte), por causa do artigo invariável no meio. Uma palavra como garde-pêche (policial fluvial que fiscaliza a pesca e navegação; ou navio de vigilância sobre a pesca marítima) se escrevia no plural gardes-pêche, mas agora é garde-pêches, todas as formas se pronunciando “gárrd-péch”. Afirma-se que a nova regra suprime incoerências como un/des cure-dent (um/alguns palito/s de dente) só ter forma singular, e un/des cure-ongles (um/alguns limpador/es de unhas), só plural.

Na língua francesa, ao contrário do português, o grafema “é” (“e” com acento agudo) soa como nosso “ê” fechado, enquanto o grafema “è” (“e” com acento grave) soa como nosso “é” aberto. Via de regra, o som “é” fechado só aparece em sílabas abertas (terminadas em vogal), e o som “è” aberto, em sílabas fechadas (terminadas em consoante), o que terminou gerando problemas em palavras com “é” gráfico historicamente percebido como aberto, mas se tornando fechado, na pronúncia, ao evoluir a língua. É o que quase sempre acontece com “é” gráfico seguido de consoante(s), esta(s) seguida(s) de um “e” fraco, e atualmente mudo.

Exemplificando: uma palavra como événement (evento, acontecimento) é historicamente percebida com esta divisão: “é-vé-ne-ment” (algo como “ê-vê-nâ-mã”), mas o “e” gráfico, na evolução, foi sumindo na pronúncia. Assim que, foneticamente, teríamos “é-vén(e)-ment”, e como a segunda sílaba se fecha, termina se falando algo como “ê-vénn-mã”. A ortografia não acompanhou a mudança, mas a reforma propõe que se escreva évènement, com acento grave. Uma série de palavras padece do mesmo problema, como réglementaire (regulador/a, regulamentar), agora règlementaire. Isso as adequaria a uma “regra de base”, já vigente, por exemplo, em avènement (advento, chegada) e règlement (regulamento, pagamento).

Fenômeno igual ocorre nos tempos futuro e condicional do indicativo dos verbos conjugados pelo modelo de céder (ceder, conceder, renunciar), assim como em formas do tipo puissé-je (possa eu, que eu possa – agora puissè-je): je céderai (eu cederei) → je cèderai, ils régleraient (eles regularão, pagarão, arrumarão) → ils règleraient. A sílaba com um “e” fraco, de fato mudo, se chama sílaba muda, e a regra passa a ser que antes de sílaba muda, escreve-se e pronuncia-se apenas “è”. As exceções ficam por conta dos prefixos dé- e pré-, do é- inicial em vocábulos e dos termos médecin (médico/a, remédio) e médecine (medicina, sistema médico, purgante).

Outro ponto que costuma causar problemas a quem está aprendendo o francês como língua estrangeira é o uso do acento circunflexo (^), que em português tem a função bem definida de fechar o timbre das vogais “a”, “e” ou “o”. Em francês pode aparecer em todas as vogais (exceto “y”), causando modificação sonora no “a”, no “e” e no “o”, mas não mudando a pronúncia do “i” e do “u”. Em todos os casos, sua origem é etimológica, em geral indicando uma consoante (quase sempre “s”) histórica que caiu, na pronúncia, após a vogal e antes de outra consoante, mas tendo sobrevivido em palavras da mesma origem e sentido aparentado no português: pâte (pasta), bête (besta), île (ilha, espanhol isla), hôpital (hospital), coûter (custar). É algo parecido com o uso da letra “h” muda em português.

Dado que, segundo os reformadores, nas letras “i” e “u” o acento não tem nenhum papel fonético e que seu uso não pode ser justificado pela etimologia, pois seria aleatório, constituindo, assim, uma das causas centrais de erros, propõe-se aboli-lo nesses dois casos. Assim, as palavras acima se escreveriam ile e couter, bem como, por exemplo, paraître (parecer, assemelhar-se) seria paraitre, e flûte (flauta) seria flute; e o que vale pro infinitivo vale pras outras flexões do verbo.

Apenas dois casos constituem exceção. O primeiro são cinco palavras em que a ambiguidade poderia ser muito frequente: (devido) contra du (do = de + o), mûr (maduro) contra mur (muro, parede), sûr (seguro, certo) contra sur (sobre, em cima de), jeûne (jejum) contra jeune (jovem) e as formas dos verbos croire (crer, acreditar) e croitre (crescer, aumentar) que se confundiriam sem acento, como je crois, tu crois, il croit etc. (eu creio, tu crês, ele crê) contra je croîs, tu croîs, il croît etc. (eu cresço, tu cresces, ele cresce). Os três primeiros adjetivos citados, contudo, quando estão no feminino singular ou no plural, perdem o acento circunflexo, por não haver ambiguidade escrita: due(s) (devida/s), mure(s) (madura/s), sure(s) (segura/s); dus (devidos), murs (maduros), surs (seguros).

O segundo caso de exceção são algumas terminações de dois tempos verbais pouco empregados no francês moderno: o passé simple (passado simples) e o subjonctif imparfait (subjuntivo imperfeito), que têm regras próprias de utilização, mas pela morfologia equivalem grosso modo, na nomenclatura brasileira, ao pretérito do perfeito simples (indicativo) e ao imperfeito do subjuntivo, tempos bem mais usados em português. Vou dar primeiro um exemplo na conjugação mais básica, que é a do primeiro grupo dos verbos terminados em -er, como danser. Duas de suas formas no plural do passé simple são nous dansâmes (nós dançamos) e vous dansâtes (vós dançastes, vocês dançaram), e uma forma sua no singular do subjonctif imparfait é qu’il/elle dansât (que ele/a dançasse).

Também é comum o uso dos verbos avoir (ter, haver, possuir) e être (ser, estar) no subjonctif imparfait, nas formas qu’il eût (que ele tivesse) e qu’il fût (que ele fosse), como auxiliares de outro tempo ainda mais literário, sem tradução exata em português, chamado subjonctif plus-que-parfait (subjuntivo mais-que-perfeito). Por exemplo: qu’il eût dansé e qu’il fût allé (auxiliar être com o verbo aller, “ir”). O passé simple desses dois verbos também tem um circunflexo que não se retira: nous fûmes, vous fûtes (nós fomos, vós fostes/vocês foram) e nous eûmes, vous eûtes (nós tivemos, vós tivestes/vocês tiveram). Vamos ver também um exemplo de verbo do segundo grupo dos terminados em -ir, que é finir (acabar, terminar, findar): nous finîmes, vous finîtes, qu’il/elle finît (nós acabamos, vós acabastes, que ele/a acabasse).

Sabemos como o sistema verbal francês é estrambólico, e aqui temos outro exemplo de saliência sem qualquer impacto na pronúncia, mas retificada pela reforma ortográfica. Os verbos terminados em -eler e -eter têm toda uma dificuldade de conjugação advinda do fato que, dependendo da flexão, o primeiro “e” se mantém fraco ou, ganhando a tonicidade, se pronuncia “é” aberto. Dependendo do verbo, essa pronúncia “éll/ét” era grafada èl/èt ou ell/ett, o que gerava infindas listas mnemônicas, até mesmo diferentes entre dicionários. Todos esses verbos foram reduzidos à mesma regra dos verbos peler (pelar, depilar, descascar) e acheter (comprar), isto é, -èl- e -èt-. Vamos usar o exemplo dos verbos amonceler (acumular, amontoar) e épousseter (espanar): antes havia formas como j’amoncelle (eu amontoo) e ils époussettent (eles espanam), em contraste com nous amoncelons (nós amontoamos) e vous époussetez (vós espanais).

Agora, é preferível escrever j’amoncèle, ils époussètent etc., inclusive em formas nas quais o “è” não é tônico, mas é aberto: tu époussèteras (tu espanarás) ao invés de tu époussetteras. Os substantivos derivados de verbos por meio do sufixo -ment (nosso “-mento”) vão pelo mesmo caminho: amoncèlement (acumulação) é preferível a amoncellement. Pra variar, existem as exceções: os dois verbos appeler (chamar, invocar, apelar) e jeter (jogar, lançar, aitrar), além de seus compostos, como rappeler (reconvocar, chamar de volta, lembrar) – incluindo interpeler (interpelar, fazer pensar, interrogar) –, rejeter (rejeitar, jogar de novo, vomitar) etc. Assim, por exemplo, temos je pèle, j’achète etc. (eu descasco, eu compro), mas j’appelle (eu chamo, incluindo je m’appelle, “eu me chamo, meu nome é”), je jette (eu jogo) etc.

Numa área menos espinhosa, também se decidiu adotar um plural nativizado às palavras emprestadas de outras línguas pelo francês, ou seja, a simples adição do “s” mudo no lugar do plural original. Isso é válido, sobretudo, com vocábulos ingleses, que recebem “-es” dependendo da terminação, como match (partida esportiva) e miss, que formam matches e misses por terminarem nas sibilantes “tch” e “ss”. O francês as incorporou apenas juntando, por exemplo, o artigo indefinido: des matches, des misses. Contudo, como o francês nunca diferenciou seu número na pronúncia, estipulou-se adicionar apenas o “s” gráfico, ignorando o plural original: des matchs, des miss (palavras já terminadas em “s” não recebem outro).

Sempre que possível, também se colocam os acentos gráficos conforme a pronúncia do francês, assim evitando a hesitação na pronúncia. Por exemplo, o “re” de revolver era por regra pronunciado não fraco, algo como “râ”, mas forte e fechado, como nosso “rê”, mesmo isso não sendo indicado na escrita. Palavras assim passam a seguir as regras francesas, e neste caso temos a nova grafia révolver. Segundo os reformadores, os plurais regulares são familiares à maioria dos francófonos e permitem uma integração efetiva dos empréstimos.

E as composições e os prefixos unidos com hífen à palavra, que tanto tiraram o sono dos reformadores e escritores brasileiros? Na França, buscou-se dar uma solução simples, estendendo a ligação sem o hífen e privilegiando a grafia unida, além dos seguintes casos onde esta é sistemática: 1) palavras compostas com contr(e)- e entr(e)-; 2) palavras compostas com extra-, infra-, intra-, ultra-; 3) palavras compostas com elementos “eruditos” (hydro-, socio- etc.); 4) onomatopeias e estrangeirismos. Como exemplo do primeiro caso, temos contre-appel (segunda chamada) e entre-temps (nesse ínterim, enquanto isso), que passam a contrappel e entretemps. Pro segundo caso, cite-se extra-terrestre, que se torna extraterrestre. Ilustrando o quarto caso, tic-tac e week-end (“fim de semana”, que suplantou fin de semaine na França) dão em tictac e weekend. E além deles, vejamos porte-monnaie (porta-moedas, porta-níqueis), agora portemonnaie.

Agora, novamente as minúcias: palavras terminadas em -olle e verbos (junto com seus derivados) terminados em -otter passam a se escrever com uma só consoante (-ole, -oter). Exceções: as palavras colle (cola, castigo escolar, grupo de colhedores de uvas), folle (louca, rede de pesca, boiola) e molle (aroeira, mole – feminino), e os verbos em -otter derivados de uma palavra em -otte (como botter, “calçar botas, chutar, agradar”, de botte, “bota”). Exemplos da regra: corolle (corola de flor) → corole, frisotter (fazer cachinhos ou ondinhas, frisar de leve) → frisoter, frisottis (cachinhos de cabelo) → frisotis. Afirma-se que assim desaparecem algumas incongruências, unificando a ortografia de várias terminações.

Lembram-se do saudoso trema no português? Pois é, ele permanece em francês, mas com algumas mudanças: a mais evidente delas é seu uso nas sílabas “gue” e “gui”, em que pode ocorrer, como em nossa língua, a ambiguidade de se pronunciar ou não a letra “u” como uma semivogal. Mas no caso do francês, os casos são bem mais restritos, em especial com os adjetivos terminados em “u”, entre eles aigu (agudo, acerbo) e ambigu (ambíguo). Eles formam o feminino com o acréscimo de um “e” mudo, ou seja, teoricamente aigue e ambigue. Porém, a sílaba final seria pronunciada apenas como um “g” gutural, e pra que se mantenha a pronúncia do “u” vocálico, coloca-se o trema no “e”: aiguë, ambiguë. Esse trema, pela regra nova, desloca-se pro “u”: aigüe, ambigüe. O mesmo se dá em derivados com outras letras: ambiguïté (ambiguidade) → ambigüité.

Segundo a reforma ortográfica, algumas palavras também passam a ter o trema sobre o “u”, pra deixar claro que ele é pronunciado, e não mudo. O caso mais claro é o do verbo argüer (argumentar, arguir), pra se dizer “arrgu-ê”, e não “arr-guê”: j’argüe, nous argüons (eu argumento, nós argumentamos). Além disso, há certas palavras em que o dígrafo “eu” (sempre depois de um “g” com som de “j”) não é pronunciado como o “ö” alemão (ou como em bleu), mas como o “ü” alemão (ou como o “u” normal francês): gageüre (aposta, desafio), mangeüre (roedura, roído), rongeüre (roedura, tormento), vergeüre (marca de água, risco, traço, metal pra fabricação de papel). Antes, essa pronúncia devia ser decorada, agora o trema a indica graficamente.

A nova ortografia também leva em conta pronúncias que se transformaram ao longo do tempo (sim, as línguas mudam!) ou cuja representação, por algum motivo, era irregular, inserindo acentos gráficos pra corresponder aos fatos: assener (assentar, dar com força, enviar, impor) → asséner, papeterie (fábrica, comércio ou loja de papel e papelaria) → papèterie, québecois (quebequense, de Québec, no Canadá) → québécois. Além disso, palavras terminadas em -illier cujo segundo “i” do sufixo não se pronuncia mais (exceto nomes de árvores, como groseillier, groselheira) cortam essa letra: joaillier (joalheiro) → joailler, serpillière (aniagem, pano pra confecção de fardos) → serpillère. Finalmente, em caso de formas concorrentes, privilegiam-se: 1) a versão mais “francesa” (leadeur a leader – líder, chefe, guia); 2) a ausência de circunflexo (allo a allô – alô, no telefone); 3) o plural regular, como já vimos (matchs, miss, babys a matches, misses, babies); e outros detalhes, dedicados especialmente à lexicografia e à criação de palavras.

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Essas são as regras básicas que concernem diretamente à ortografia e à pronúncia, mas existe um outro detalhe, mais vinculado à gramática, que deixei aqui em separado. O francês usa amplamente tempos verbais compostos, em que o verbo principal fica no participe passé, literalmente “particípio passado”, ou nosso particípio terminado em “-ado”, “-ido”, “-to” ou outras formas irregulares. Muitas formas de particípio têm a formação do feminino em “e” e do plural em “s” que não interferem na pronúncia, fazendo com que as quatro formas do participe passé de laisser (deixar) tenham a mesma pronúncia “lessê” (igual, inclusive, à do infinitivo): laissé, laissée, laissés, laissées. Isso causa confusão, principalmente, na concordância em formas “encavaladas” com outros verbos.

Conforme a reforma proposta, não apenas o particípio de faire (fazer), mas também de laisser, deve permanecer invariável antes de um verbo no infinitivo. Assim, formas como elle s’est laissée maigrir (ela se deixou emagrecer) e je les ai laissés partir (eu os deixei partir) podem se escrever respectivamente elle s’est laissé maigrir (ela se deixou emagrecer) e je les ai laissé partir (eu os deixei partir). A ortografia muda, mas a pronúncia não.

Quem puder, perceba que esta postagem basicamente traduz quase todas as informações já contidas em francês no referido site de popularização da orthographe recommandée de 1990. Existe aí também uma lista parcial das ditas “anomalias” corrigidas em certos grupos de palavras, quanto a ortografias que não seriam mais justificadas pelo tempo. Porém, pra quem domina bem o francês lido, sugiro muito que procurem o documento público Les rectifications de l’orthographe, elaborado pelo Conseil supérieur de la langue française e publicado na parte administrativa do Journal officiel de la République française. Considero-o imprescindível aos profissionais da língua (professores, tradutores e escritores), e ele é completo nas regras ortográficas, nas palavras retificadas e nos princípios político-filosóficos dos reformadores. Estou à disposição pra dirimir qualquer dúvida de vocês!



François Hollande

2 de outubro de 2018

Manuela D’Ávila filosofa no Roda Viva


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/manuela




Desculpem pelo atraso na postagem de hoje, estive muito atarefado esses dias, depois de ter voltado de Porto Alegre! Há muito tempo eu queria ter visto a entrevista de Larissa Manuela D’Ávila pro programa Roda Viva da TV Cultura, em julho de 2018, quando ela ainda era pré-candidata à presidência da República pelo PC do B. Apareceram no YouTube vários vídeos “refutando” o que ela disse sobre o comunismo nesse programa, mas havia apenas a versão dos comentadores, e não trechos da transmissão. Além disso, em geral os debatedores políticos fazem muitas edições nas imagens, de forma que o argumento central se torna quase irreconhecível. Já tinha havido uma polêmica quando Manuela lançou um vídeo chamado “Mitos do comunismo”, que lhe deu mais visibilidade pessoal, mas continha muita besteira. Agora, Manuela se lançou como vice na chapa de Fernando Haddad (PT), depois que a candidatura de Lula foi vetada pela Justiça.

Eu mesmo, então, decidi assistir ao programa (ou ao menos às partes que mais propriamente falavam de história) e ver se a celeuma tinha justificativa. Se fosse o caso, pensei também em separar os trechos “lisos”, sem fazer qualquer edição, e apenas comentar o que achei na descrição do YouTube. Porém, a zoação do conteúdo é tanta, que não resisti em fazer “enxertos” humorísticos e não dar muitos comentários escritos: quem conhece minha linha pessoal de pensamento e minha atividade acadêmica, pode reconhecer muito de mim no que assistir. Mas não fiz cortes bruscos dentro das falas, limitando-me apenas a separar grandes blocos de diálogo, “comentá-los” e pô-los em ordem cronológica. Assim, vocês não precisam ver o vídeo completo no canal da Cultura (mas curtam também o trabalho deles), e ainda dão umas risadas, além de perceber coisas que podiam ter passado batidas.

Contudo, não foi só o debate de história que me atraiu, mas também outros trechos que achei mais ou menos engraçados ou aptos a gerar reflexões. Por isso, além da referida montagem, seguem abaixo mais dois breves vídeos comentados, tudo no meu canal Eslavo (YouTube):



Minha apreciação geral é bastante negativa, porque embora não fosse obrigação da Manuela contar a história do “socialismo real” enquanto candidata a vice-presidentA do Brasil, eu seria mais objetivo e incisivo se estivesse no lugar dela. Obviamente, e vocês sabem disso, que minha postura é de historiador, e não militante, mas fico meio “aflito” quando vejo arestas onde as coisas podiam fluir bem mais suaves. Só um exemplo: a Manuela tentava desviar o tempo todo se o assunto era Leste europeu, mas isso só deu mais flanco pra atacarem ela. Ela já podia ter dito na lata que o comunismo cometeu erros, como qualquer regime de outros sinais na história humana, mas que as bandeiras da campanha eram tais, tais, tais (mesmo tendo dito, mas sem desdobrar, que os comunistas hoje não seguiam um “modelo pronto”), inspirada, talvez, na interpretação que ela fazia de Marx, Engels ou até Lenin.

Pra dar mais aflição, chamam dois caras de direita que não entendem do assunto, já com o propósito de atacá-la, e por isso é “murro em ponta de faca” (já que ela intencionalmente se blinda), não tem diálogo ou troca. É bizarro como formam uma dupla bastante estereotipada de dramatis personae: o experiente engomado ligado ao campo, à ordem e valores tradicionais; e o jovem coxinha liberal, descolado intelectual urbano, flertando com um certo “anarco-capitalismo” e que parece ser ávido leitor de redes sociais. Nem quero tocar no manjado assunto das “interrupções” (porque ela mesma não parava de falar!), nem comentar as falas das duas jornalistas, mas o Lessa me pareceu encarnar outro estereótipo interessante. Coroão intelectual “das antigas”, conciliador, bonachão, de ampla cultura geral, espectador da redemocratização, tem realmente informações bem rasas (mesmo que embasadas, no geral) sobre a história do comunismo, parece historiador de outra área comentando um projeto seu, e esse despreparo é fatal na hora de lidar com militantes. Depois a Manuela discute de novo com o Frederico sobre agricultura familiar e Embrapa, e com o Joel sobre impostos e ódio nas redes sociais, mas essas partes nem são aproveitáveis.

Mas eu não acho que a Manuela devia ser uma expert em história do comunismo brasileiro e mundial, e a própria militância política, com as pressões unidas de obediência e gramofone, impede um prolongado aprofundamento. Nos partidos comunistas, com o turbilhão de prisões e cataclismos geopolíticos, nunca houve resfôlego pra se escrever a própria história, e sempre foi vexatório lidar, ao mesmo tempo, com o autoritarismo dos soviéticos e a insolência capitalista ante as nossas injustiças. Tudo isso, de fato, é uma questão (ou enjeu, como diriam os franceses, que também implica disputa) de memória e trilhas pessoais, demandando uma reflexão alheia a reducionismos da mídia ou das redes sociais. Espero apenas que o episódio da Manuela D’Ávila lance a reflexão, apesar do meu humor nem sempre politicamente correto.



Aqui temos sábias reflexões societárias da candidata a vice-presidentA da República na entrevista que deu ao Roda Viva em julho de 2018, quando ainda não tinha deixado a pré-candidatura independente pelo PC do B. Vejam a cara de “machistas” empolgadas da Vera Magalhães e da (lindíssima) Letícia Casado.

Contexto: perguntada se Lula estaria sendo machista ao dizer que a deputada estadual seria uma “candidata bonita”, ela responde que a atitude soa machista de forma geral, mas não dentro daquele contexto, em que havia consentimento e não havia abuso. Outros episódios de sua vida parlamentar teriam sido mil vezes piores.

Larissa Manuela D’Ávila disse estas palavras: “Eu costumo dizer, Letícia, que o machismo é como uma piscina: todos nós estamos dentro dela, todas nós, inclusive nós, mulheres. Muitas de nós, muitas vezes, somos machistas umas com as outras. Qual é a diferença? Algumas de nós estamos só molhando os pezinhos na piscina, e outras estão afogadas na água.”



Pode parecer que tenho implicância pessoal com Giovanna Antonelli, que está integrando a chapa do Kiko do KLB como candidata à vice-presidência da República. Ops, me desculpem, confundi os nomes... Manuela tinha dito que manteria a pré-candidatura caso não surgissem condições políticas objetivas pra formação de uma ampla frente de esquerda. De qualquer forma, já estava no ar que ela podia integrar como vice a chapa de Haddad, dado que Lula estava preso e teria sua candidatura barrada. E foi o que ocorreu: Lula não pôde concorrer, e antes mesmo do julgamento final, ela renunciou a concorrer pelo PC do B. Mesmo com o ex-presidente oficialmente inscrito, os comunistas decidiram preservar a aliança histórica com o PT, e os nomes foram firmados na última hora.

Assim como Guilherme Boulos (PSOL), Manuela sempre fez críticas à Operação Lava-Jato e considerou “política” a condenação de Lula a mais de 12 anos de prisão. Teria sido oportunismo, ou a tal “frente de esquerda” realmente se consolidou, mesmo sem contar com o PSOL, o PDT de Ciro Gomes e muito menos o PSTU, que desde 1994 é crítico do PT e hoje apoia a Lava-Jato? A pré-candidata pelo PC do B tinha falado que a chance dela renunciar à disputa independente “era zero”. Cabe a vocês julgar, e eu apenas lhes apresentei o material.