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19 de abril de 2018

‘Enver Hoxha e mprehi shpatën’ (PPSh)


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Esta breve canção tem um papel especial na minha vida, embora eu nunca simpatizasse com sua ideologia. No primeiro ano da graduação em História, continuei minha pesquisa na internet por curiosidade pessoal sobre os antigos regimes comunistas europeus. Em 2006, a ditadura implantada por Enver Hoxha na Albânia em 1943 estava começando a despertar meu interesse, não só porque eu nada sabia dela, mas também porque a suntuosidade das manifestações culturais contrastava com a austeridade política e econômica. E nos sites especializados, esta foi a primeira canção que me chamou a atenção, por sua simplicidade e tipicidade balcânica, e deduzi que era um louvor ao poder, embora eu não entendesse a língua albanesa.

A música se chama oficialmente Enver Hoxha e mprehi shpatën (Enver Hoxha afiou sua espada), porém é mais conhecida na internet por algumas de suas palavras, Enver Hoxha Tungjatjeta! (Vida longa a Enver Hoxha!). A palavra tungjatjeta (lê-se “tunndjatiêta”) parece complicada, mas quer dizer um simples “Olá!” ou “Salve!” em albanês, ou literalmente “Vida longa a você”. Em russo é traduzida por da zdravstvuiet (viva), e em inglês, long live, então poderíamos traduzir a frase como “Vida longa a Enver Hoxha!”. Mesmo assim, fiz uma pequena adaptação pra inseri-la bem na letra em português, e além disso há também a variante Tunjatjeta, sem o G, que aparentemente se canta no áudio. Neste caso, deve ser variação dialetal ou eufônica.

O sobrenome “Hoxha” se lê “rôdja”, e esse dígrafo XH também existe no nome de batismo da madre Teresa de Calcutá, cuja origem é albanesa. O governo do líder antifascista durou de 1943, quando os comunistas se apossaram totalmente da Albânia e extinguiram a monarquia, até 1985, quando Enver finalmente faleceu. As primeiras eleições livres só ocorreriam em 1992, após o mando do sucessor de Hoxha, Ramiz Alia, e houve nos últimos anos do regime grandes massas de albaneses migrando pra Itália, atravessando o Adriático como loucos. O comunismo da Albânia era considerado o mais duro da Europa, pau a pau com o romeno Ceauşescu (“tchauchêscu”) e conhecido pelas torturas nos campos de prisioneiros, sobretudo de religiosos. O pós-guerra representou a primeira oportunidade dos albaneses terem um Estado digno do nome, e assim o PPSh (partido comunista) também elaborou algo que pudesse ser denominado “cultura/folclore albanês”, reproduzido à exaustão pelo governo. O regime era totalmente espartano, com a Albânia vivendo apenas do básico e necessário, mas certamente, mesmo sob uma ditadura, era a melhor coisa a que tinha até então chegado um pobríssimo povo nômade de pastores montanheses.

Como não sei albanês, e como o material de pesquisa na internet ainda é precário (idioma muito pouco falado no mundo), me arrisquei a traduzir diretamente de duas versões em inglês, cotejando-as, mas por vezes também buscando algumas palavras no Wiktionary. Uma delas pode ser lida nesta página, e a outra se lê nas legendas que podem ser ativadas em inglês ou albanês, nesta montagem de um canal com muito mais material interessante sobre o comunismo europeu. A língua albanesa é muito bonita e fácil de aprender a pronunciar, constituindo um ramo isolado na grande família indo-europeia, assim como o grego e o armênio. Com algum esforço, podemos reconhecer palavras com raízes remotas iguais às do latim ou português: shpatë (espada), shkrep ou shkarp (penhascos), que lembra “escarpa” ou “escarpado”, e flamur (flâmula = bandeira).

Eu carreguei no meu canal Eslavo (YouTube) três versões legendadas dessa canção. A primeira é aquela mesma montagem a que me referi acima e que creio ter sido feita pelo administrador do canal, inclusive melhorando a qualidade do áudio original. Pelo que consta, a gravação foi feita pelo cantor albanês Arif Vladi, que continua na ativa, mas nos tempos comunistas fazia (obrigação ou pragmatismo?) propaganda do governo. Neste vídeo podemos ver a ocasião em que é gravado esse áudio, num show bem simples e de imagem pouco nítida. A segunda é uma montagem minha com legenda bilíngue, a bandeira da Albânia comunista e o áudio que eu realmente escutava em 2006: assistam duas vezes, lendo uma legenda de cada vez! Eu baixei o áudio deste famoso site russo, tendo apenas tirado um ruidinho que toca no começo, mas não há dados sobre cantor, ano, compositor etc. Pode-se ler nesta página a letra original toda, com ortografia e gramática certas.

O terceiro vídeo é uma versão dançada e apresentada da música, que decidi legendar porque achei muito bonita a execução dos dançarinos, impressão que tenho com a cultura da Albânia em geral. Legendei apenas a parte cantada, que eu já tinha traduzido, e não o que o narrador do vídeo fala na segunda metade, por eu desconhecer a língua. Nesta página está o vídeo sem legendas, e eu não quis recortar o enquadramento, pois isso tiraria muito material visual importante. Omite-se a segunda estrofe. Como a cultura independente não era muito desenvolvida, sendo toda controlada pelo Estado, Enver Hoxha Tungjatjeta! devia ser como um mantra chiclete que grudava e perseguia a cabeça das pessoas. Seguem minhas três legendagens, a letra em albanês da canção e a tradução em português:





Minha impressão pessoal é que a dança parece uma coisa orwelliana, o que a Europa teve de mais próximo da Coreia do Norte dos Kim. Pra muitos lá que não gostavam do regime, devia parecer um inferno, ter de sentar no salão escuro, com aquele retratão do “Grande Irmão” vendo todos e o locutor começando a música como uma trilha de filme de terror. Seu tom autoritário e intimidador lembra a todos quem é que manda! A cor vermelha onipresente e as batidas compassadas dos pés agravavam a impressão, ainda mais quando tinham o andamento acelerado, perto do fim. Com os dançarinos de traje típico em cima e os de roupa sport embaixo, dá também a figura de várias camadas rumo ao abismo. Ao final, a velha saudação ritual e repetitiva a Enver Hoxha, mecânica e insincera, revelando um culto à personalidade muito mais bisonho do que o feito com o inimigo Marechal Tito. Com o povo sendo inculcado de que a Albânia podia entrar numa guerra a qualquer momento, isolando-se totalmente depois de romper primeiro com a URSS e depois com a China, acredito que o pós-comunismo tenha sido o combate a uma psicose de guerra:

____________________


1. Enver Hoxha e mprehi shpatën
Edhe’j her o për situatën
Kjo asht shpata qe u rrin tek koka
Gjith armiqve o që ka bota

Refren:
Enver Hoxha heu Tunjatjeta!
Sa kto male e sa kto shkrepa
Zanin Shqipes o lart ia ngrite
Gjithë kët popull në drit e qite

2. Ylli i kuq o shëndrit mbi maja
Bjen daullja edhe zyraja
Porsi nuse asht ba Shipnia
Flamurtare i prin Partia

(Refren 2x)

____________________


1. Enver Hoxha afiou sua espada
Mais uma vez para o combate
E ela pende sobre as cabeças
Dos inimigos do mundo todo

Refrão:
Enver Hoxha, viva tanto qual
Essas montanhas e penhascos
Você levou alto a voz da águia
E trouxe o país todo às luzes

2. A estrela rubra luz nos cumes
Soam tambores, gaitas de fole
A Albânia é levada como noiva
Pelo Partido com sua bandeira

(Refrão 2x)




17 de abril de 2018

Казаченька молода (Mocinha cossaca)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/kazachenka


Após uma pausa de quase dois anos, desde as duas versões da canção Além de um rio calmo, voltei a legendar as meninas russas que são cantoras folclóricas do conjunto Beloie Zlato (Ouro Branco). Esta canção é uma das várias que elas postaram no YouTube cantando a capella em pontos turísticos da Rússia, e aqui temos “Казаченька молода” (Kazachenka moloda), traduzível como Uma mocinha cossaca ou Uma jovem cossaquinha, que é de domínio popular. Estas talvez sejam duas das várias formações que elas tiveram, mas de fato elas se revezam em cada trabalho, sendo muitas membros. Ambos no canal no próprio grupo, o vídeo sem legendas da primeira gravação foi postado em 2013, e o da segunda gravação, no contexto de uma propaganda feita pra um de seus shows, em 2014. Desta eu cortei o início com uma apresentação em inglês e russo, uma parte no meio em que elas dão risada da própria confusão no tom e o final em que elas tiram foto com, talvez, um turista.

Desde fevereiro de 2016 tenho carregado no meu canal Eslavo (YouTube) muita coisa das meninas mais novas do Três Quartos, com seus violões e menos organizadas. Mas as moças do Beloie Zlato também atraíram muitas visualizações, principalmente aquela versão em que elas cantam dentro de um trem. Na minha postagem antiga que citei acima, vocês podem conhecer melhor a história e as redes sociais delas. Nos dois vídeos de hoje, elas devem estar cantando em Moscou, embora eu não tenha total certeza de que seja na Praça Vermelha. “Beloie Zlato” significa “Ouro Branco” (zlato é forma arcaica de zoloto, como “oiro” em português), e é “branco” porque a cidade natal delas fica bem no norte frio da Rússia, e “ouro” porque aí receberam o título de Vozes de Ouro de Norilsk.

Pra quem fica defendendo a Rússia e falando mal da Ucrânia, saiba que esta canção foi praticamente escrita numa mistura das duas línguas! A começar pelo moloda do título, que pode significar a forma curta predicativa do adjetivo russo (“é jovem”), mas aqui é usada como no ucraniano, qualificativo (“jovem”). A forma skoso pogliadaiet (olha de soslaio, com o canto do olho) é um decalque do ucraniano skosa pohliadaie, mas em russo correto se diz iskosa pogliadyvaiet (verbo meio raro). Kokhana, então, é o mais óbvio: vem do verbo ucraniano kokhaty (amar com estima, paixão), significando “amada”, que em russo é liubimaia (entre outras formas). A forma em -oiu do instrumental singular feminino (s toboiu, com você) é mais usada em russo na música e poesia (o corrente seria s toboi), mas em ucraniano é a regra. Por fim, na segunda estrofe, eu queria ressaltar a pronúncia de “um cossaco”, que tem a tonicidade deslocada pra respeitar a métrica: ódin kázak ao invés de odín kazák.

No oeste ou no sul do Brasil, temos uma mistura semelhante, onde o português se mistura com o espanhol ou o guarani e a cultura parece muito a gaúcha, paraguaia ou indígena. Eu mesmo aproximei as duas imagens com um recorte, traduzi e legendei direto do russo, na verdade também com um dicionário de ucraniano a tiracolo. Pode-se ler nesta página a letra original com uma tradução em inglês, além de outros vídeos de gravações delas da mesma canção. No vídeo de 2014, elas cantam uma estrofe final que não estava no de 2013. Seguem minhas legendagens, o texto em russo e a tradução:




____________________


Там на горке казаки стояли
Там на горке казаки стояли
Стояла, думала, казаченька молода
Стояла, думала, казаченька молода
Казаченька молода!

Один казак не пьёт, не гуляет
Один казак не пьёт, не гуляет
Стояла, думала, казаченька молода
Стояла, думала, казаченька молода
Казаченька молода!

На Татьяну скосо поглядает
На Татьяну скосо поглядает
Стояла, думала, казаченька молода
Стояла, думала, казаченька молода
Казаченька молода!

Ой Татьяна, будь моя кохана
Ой Татьяна, будь моя кохана
Стояла, думала, казаченька молода
Стояла, думала, казаченька молода
Казаченька молода!

Мы поедем с тобою кататься
Мы поедем с тобою кататься
Стояла, думала, казаченька молода
Стояла, думала, казаченька молода
Казаченька молода!

На нас люди будут любоваться
На нас люди будут любоваться
Стояла, думала, казаченька молода
Стояла, думала, казаченька молода
Казаченька молода!

____________________


Num morrinho estavam os cossacos
Num morrinho estavam os cossacos
Jovem cossaquinha pensava em pé
Jovem cossaquinha pensava em pé
Uma jovem cossaquinha!

Um cossaco não bebia ou dançava
Um cossaco não bebia ou dançava
Jovem cossaquinha pensava em pé
Jovem cossaquinha pensava em pé
Uma jovem cossaquinha!

Olhava Tatiana do canto do olho
Olhava Tatiana do canto do olho
Jovem cossaquinha pensava em pé
Jovem cossaquinha pensava em pé
Uma jovem cossaquinha!

Ei, Tatiana, seja minha amada
Ei, Tatiana, seja minha amada
Jovem cossaquinha pensava em pé
Jovem cossaquinha pensava em pé
Uma jovem cossaquinha!

Vamos passear eu e você
Vamos passear eu e você
Jovem cossaquinha pensava em pé
Jovem cossaquinha pensava em pé
Uma jovem cossaquinha!

O povo vai se admirar conosco
O povo vai se admirar conosco
Jovem cossaquinha pensava em pé
Jovem cossaquinha pensava em pé
Uma jovem cossaquinha!




15 de abril de 2018

Darija Vračević – Brazil (The Voice Kids)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/darija-brazil


De novo pra vocês uma apresentação da fofurinha sérvia chamada Darija Vračević, que encontrei por acaso quando baixei o vídeo com Zemljo moja. A data deve ser 12 de fevereiro de 2016, quando o vídeo saiu, também atuando no programa Pinkove zvezdice, ou “Estrelinhas do Pink”, isto é, a versão sérvia do The Voice Kids. Agora a canção é Brazil, cujo título foi o que me chamou a atenção e que tem melodia de Zoran Vračević e letra de Dragana Šarić. Assistam aqui ao vídeo sem legendas, no canal do programa.

O Pinkove zvezdice é a versão infantil do programa Pinkove zvezde, literalmente “Estrelas do Pink”, que é também a versão local do The Voice, apresentado no Brasil pela TV Globo. A versão infantil já teve as três temporadas de 2014-15, 2015-16 e 2016-17, tendo participado Darija da segunda e chegado à superfinal, e na ocasião o vencedor foi o garoto Marko Bošnjak. Darija tinha então 8 anos e uma voz muito potente, e a família lhe assistia do camarim na ocasião. A quarta temporada está em curso, e vai continuar até o meio de 2018. Ambos os programas pertencem à Radio Television Pink (RTV Pink), também chamada TV Pink ou só Pink, o maior canal de entretenimento da Sérvia que transmite a cabo desde 1994.

Há uma diferença interessante: lá, os cinco jurados não rodam em direção ao palco, como no Brasil, mas sobem a partir do nível do chão! Como podemos notar desde o vídeo com Zemljo moja, Darija ou a mãe dela é entusiasta da antiga Iugoslávia, cuja música popular, como no Brasil, era muito brega e simplória, mas contagiante. Zemljo moja era uma das canções preferidas do Marechal Tito, e Brazil, cuja história narro adiante, foi a última a concorrer no Eurovision em 1991 pelo país que se desintegraria. Triste sina ver o nome de nosso país associado a um ocaso! Outro traço de Darija é que ela parece dar mais ênfase ao lado teatral do que propriamente vocal, o que faz o júri mais rir e se divertir com as atuações dela do que outra coisa.

A canção Brazil (“Бразил”, em cirílico) concorreu na edição de 1991 do Eurovision, cantada em servo-croata por Dragana Šarić, que usava o nome artístico de “Baby Doll” ou “Bebi Dol”. Após ganhar a prévia nacional, foi muito mal, porém, no nível europeu, mas a música se tornou um baita hit na Iugoslávia. Por isso, teve seus direitos autorais comprados pela Itália, Grécia e países do Benelux. No Eurovision de 1992, “Iugoslávia” seria a representação das atuais Sérvia (e Kosovo), Montenegro e Bósnia e Herzegóvina, tendo Croácia, Eslovênia e Macedônia proclamado a independência em 1991, antes de estourar a guerra civil. Fato notório: só há um verbete sobre a canção nas Wikipédias em inglês e português, e o articulista desta interpreta a letra como descrevendo o gosto da cantora pelos ritmos latinos, mas preferindo se divertir com o que já havia disponível na Iugoslávia.

A referência é justamente a dois cantores e compositores que estavam então bombando no país: Rambo Amadeus (montenegrino, n. 1963), guitarrista ainda muito atuante, e Dino Dvornik (croata, 1964-2008), considerado o “rei do funk” da Croácia e falecido após uma overdose de remédios pra hepatite C. Ambos são conhecidos por seus trabalhos dentro dos estilos “ocidentais”, em especial rock, disco, jazz e pop, provando o maior intercâmbio da antiga Iugoslávia com o mundo capitalista e a fascinação que aí exercia a música moderna. Dragana Šarić, alias Bebi Dol (n. 1962), cantora e atriz sérvia, desde pequena começou a se envolver com música pela família e teve o ápice de sua carreira nos anos 80 e 90. Mesmo fazendo vários covers e cantando junto a outras estrelas, suas aparições de álbuns eram esporádicas e teve várias pausas na carreira. Seus estilos são basicamente rock, pop, synthpop, dance, soul e jazz.

Interessante como o single não passa uma imagem estereotipada do Brasil, mas coloca a América (e Espanha!) toda no mesmo saco (na letra, Amerika são os Estados Unidos). Quando se lê no começo “tirar o sapato, a jaqueta e o jeans”, temos a impressão que vai ficar pelada nos trópicos, mas é uma metáfora pros ritmos do nosso continente, que são trocados pelas riquezas locais. E não são poucos os que comparam a personalidade sérvia à brasileira. Eu mesmo traduzi e legendei o vídeo, e desta página eu copiei a letra servo-croata. Ela também segue abaixo, após a legendagem que postei no canal Eslavo (do Vimeo, pois o YouTube bloqueou o vídeo por questões autorais) e junto com a tradução em português:


____________________


Brazil, Španija, Kolumbija,
Kuba i Amerika,
Samba, rumba, ča-ča-ča.

Skini sve, skini cipele što pre,
Skini jaknu, farmerke,
Hajde igra počinje.

Za tvoje usne i moj vrat,
Tvoj poljubac će biti znak,
Za Ramba, Dina, šta, šta, šta,
Da sam novu igru smislila.

Brazil, jedan okret to su dva,
Reci hop i to su tri,
Tvoje srce to smo mi.
Brazil, meni ne treba Brazil,
Dolce vita, ča-ča-ča,
Samo ti, sa tobom ja.

Brazil, meni ne treba Brazil,
Dolce vita, ča-ča-ča,
Samo ti i ja i, oh Brazil!

____________________


Brasil, Espanha, Colômbia,
Cuba e Estados Unidos,
Samba, rumba, cha cha cha.

Tire tudo, os sapatos já,
Tire a jaqueta e o jeans,
Vamos começar a dançar.

Sua boca em meu pescoço
Num beijo vai dar o sinal,
Com Rambo e Dino, oras,
Inventei uma dança nova.

Brasil, um giro e depois dois,
Diga uôp e então são três,
Nós dois num só coração.
Brasil, eu não preciso dele,
Vida mole ou cha cha cha,
Só nós dois nos bastamos.

Brasil, eu não preciso dele,
Vida mole ou cha cha cha,
Só nós dois... oh, Brasil!




13 de abril de 2018

Sergio Endrigo cantou em croata (1970)


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Uma raridade maravilhosa, datada do ano de 1970. Nesse ano, o cantor italiano Sergio Endrigo participou do célebre festival musical de Split, localizada na Croácia (então parte da antiga Iugoslávia), e cantou no dialeto servo-croata que seria hoje conhecido como a língua croata. Trata-se da canção Kud plovi ovaj brod (Aonde vai esse barco), com letra de Arsen Dedić (croata) e melodia de Esad Arnautalić (bósnio), cujos dialetos são muito parecidos e moldaram o texto em questão. Por ocasião daquela edição do festival de Split, Endrigo gravou um compacto cuja faixa 2 era Više te volim (Mais quero você), outra canção em croata, com letra do próprio Sergio Endrigo e melodia de Zdenko Runjić. No referido festival, foi cantada por Vice Vukov (veja um trecho neste vídeo), que ganhou a corrida com a música Zvona moga grada (Os sinos da minha cidade).

É certo que muito pouca gente no Brasil sabe que Endrigo tinha uma relação muito especial com a Croácia, gravou essas duas canções em croata e era muito amigo de Arsen Dedić. Aqui, conhecemos Endrigo mais por Canzone per te, Io che amo solo te e Ti amo, muito tocadas em novelas e eventos à italiana. Aliás, os próprios habitantes do antigo espaço da Iugoslávia, e em parte também os albaneses, em geral admiram a cultura da Itália e às vezes dominam sua língua em maior ou menor grau. O compacto gravado em croata é considerado uma homenagem às raízes de Endrigo no Império Austro-Húngaro, ao qual por séculos pertenceram a Croácia e a Eslovênia atuais. Alguns traços das letras são explicitamente croatas, como, no caso da faixa 1, i’ko, contração de itko (alguém, quem é que), uvijek (pra sempre) e ostat ću (vou ficar), e no caso da faixa 2, tko (quem), uvijek e pobjedu (vitória), todos igualmente compreensíveis a quem domina sérvio ou bósnio.

O Festival de Split, realizado desde 1960, ainda é famoso por lançar as grandes celebridades da música croata, como Radojka Šverko (n. 1948), uma cantora de voz muito grossa que também interpretou Kud plovi ovaj brod no evento, em 1970. Os arranjos foram feitos então por Stipica Kalogjera (n. 1934), conhecido compositor, arranjador, maestro e produtor croata, nascido em Belgrado. Arsen Dedić (1938-2015), cantor, compositor e poeta, tornou-se um respeitado nome da canção pop e popular desde os tempos comunistas, e sua família também se dedica à música. Esad Arnautalić (1939-2016), maestro, produtor e redator, foi um dos fundadores da chamada “escola pop-rock de Sarajevo”, alcançou fama na banda iugoslava Index e compôs pra muitos outros cantores e grupos. Nesta página em bósnio, pode-se ler a notícia sobre a morte de Arnautalić.

Veja também nesta página um pequeno trecho da atuação de Endrigo com Kud plovi ovaj brod em Split. Eu mesmo traduzi as duas canções, montei os vídeos e legendei, tendo tirado deste vídeo o áudio da faixa 1, e deste vídeo o áudio da faixa 2. A letra de Kud plovi ovaj brod, com muitas variações, pode ser achada em diversas páginas, mas eu não podia ter traduzido Više te volim se não fosse Jovana Bošnjak, minha amiga virtual bósnia de longa data. Ela transcreveu a letra completa pra mim porque não consegui achar o texto em nenhum lugar, nem no YouTube, Google ou Yandex. Embora ela tenha dito que Endrigo canta com forte sotaque, o que dificultou a tarefa, deve ter facilitado o fato do croata ser uma variante ijekavica do servo-croata, assim como é o sérvio da região de origem dela (enquanto o sérvio de Belgrado é ekavica). Sou eternamente grato à “Giovanna”, “Joana”!

Vejam ambos os vídeos duas vezes, lendo uma legenda (croata e português) de cada vez! Seguem abaixo minhas legendagens, que carreguei no canal Eslavo (YouTube), as letras em croata (alfabeto latino), nas quais refiz a pontuação e o uso de maiúsculas e que é uma raridade no caso de Više te volim, e as traduções em português:


____________________


Kud plovi ovaj brod,
Kud ljude odnosi?
I da li i’ko zna
Što more sprema?

Kud vodi ovaj put,
Kojim smo krenuli?
Od svega samo znam,
Povratka nema.

2x:
Na moru ljubavi
I na pučini sna,
U plavom beskraju
Uvijek ostat ću ja.

Kud plovi ovaj brod
Što srce odnosi?
Taj put je tako dug,
Al’ luka nema.

2x:
Na moru ljubavi
I na pučini sna,
U plavom beskraju
Uvijek ostat ću ja.

Kud plovi ovaj brod
Što srce odnosi?
Taj put je tako dug,
Al’ luka nema,
Nema...

Aonde vai esse barco,
Aonde leva as pessoas?
E quem é que sabe
O que existe no mar?

Aonde leva essa via
Pela qual rumamos?
De tudo apenas sei
Que não tem volta.

2x:
No oceano do amor
E no mar do sonho,
Na infinitude azul
Vou ficar pra sempre

Aonde vai esse barco
Que leva o coração?
Um trajeto tão longo,
Mas não tem portos.

2x:
No oceano do amor
E no mar do sonho,
Na infinitude azul
Vou ficar pra sempre

Aonde vai esse barco
Que leva o coração?
Um trajeto tão longo,
Mas não tem portos,
Não tem...


____________________


Više te volim i manje znam,
Da li si moja ili ne.
Znao sam mora kad su mirna
I kad se dižu prema nebu.
Znao sam sve do onog dana,
Kad tebe sretoh tu.

Više te volim i manje znam,
Kuda idem, kamo stižem,
Jer ti si novo more,
Bez kraja, bez dna.
Više te volim i manje znam,
Da li si moja ili ne.

Znao sam sve, što život pruža:
Pobjedu, poraz ili sumnju.
Znao sam sve do onog dana,
Kad tebe sretoh tu.

Više te volim i manje znam,
Tko sam i kako živim.
Dok slušam tvoju šutnju,
Što nemam svoj mir.
Više te volim i manje znam,
Da li si moja ili ne.

Na kraj’ ću i rob da budem,
Što će mi donijet život s tobom,
Da l’ ružu ili trnje berem,
Još sada ne znam ja.

Više te volim i manje znam,
Da li me ljubiš ili ne
I da l’ si moja ili ne,
Uvijek meni bićeš sve.

____________________


Mais quero você do que sei
Se você é minha ou não.
Sabia se os mares estão calmos
Ou quando se levantam ao céu.
Sabia tudo até aquele dia
Em que te encontrei aqui.

Mais quero você do que sei
Para onde vou, aonde chego,
Pois você é um novo mar
Sem limites, sem fundo.
Mais quero você do que sei
Se você é minha ou não.

Sabia tudo que a vida nos dá,
Vitória, derrota ou dúvida.
Sabia tudo até aquele dia
Em que te encontrei aqui.

Mais quero você do que sei
Quem sou e como vivo.
Enquanto você fica quieta,
Perco minha tranquilidade.
Mais quero você do que sei
Se você é minha ou não.

Se no final serei um escravo,
O que a vida trará com você,
Se colho rosas ou espinhos,
Ainda agora eu não sei.

Mais quero você do que sei
Se você me ama ou não
E se você é minha ou não
E pra sempre me será tudo.




11 de abril de 2018

“Tito, slobodo!” (Oh Tito, oh liberdade!)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/titoslobodo


Pra continuar a coleção relativa à antiga Iugoslávia, estou postando esta canção em servo-croata, sem data definida de criação ou autor, pertencente à cultura popular partisan. É feito explícito louvor a Josip Broz, o Marechal Tito, que governou o país com mão de ferro de 1945, quando findou a invasão nazifascista, a 1980, quando morreu doente. O nome da música é Tito, slobodo (Ó, Tito, ó, liberdade), e alude à guerra de resistência durante o segundo conflito mundial. Slobodo é o caso vocativo da palavra sloboda, por isso pode ser traduzido como “liberdade!” ou “oh, liberdade!”.

Nesta montagem, aparecem muitas cenas da vida política de Tito, desde a guerrilha partisan até a consolidação de sua ditadura. Ganha destaque a visita que ele fez à Coreia do Norte em 1977, quando ainda governava o fundador Kim Il-sung, aparecendo nas arquibancadas a palavra prijateljstvo (amizade). Outro material da ocasião, conhecido por alguns internautas, é uma garotinha norte-coreana que canta (ou tenta) essa música. A letra está um pouco diferente, mas imaginem o sofrimento pra uma extremo-oriental, e criança, cantar numa língua eslava... Ao fim, um pôster de Tito se despede: “Saúde, camaradas!”.

Reparem que o primeiro e quinto versos de cada parte formam uma unidade frasal, apenas se inserindo um louvor no meio da mensagem, louvor esse repetido várias vezes. É interessante que em alguns trechos fala-se de ordens e cartas de Tito, mas podíamos estendê-las a como eu traduzi o resto. Ou seja, em fina ironia, podíamos dizer que Tito ordena saudarem o Marechal Tito... No geral a letra é boba, mas alude ao lema nacional, Bratstvo i jedinstvo (Fraternidade e unidade).

Se eu não estiver errado, essa execução foi gravada pela Orquestra e Coral Misto do Conjunto Artístico do exército iugoslavo (Orkestar i Mešoviti Hor Umetničkog Ansambla JNA). Eu traduzi direto do servo-croata e baixei o vídeo desta página, tendo legendado e recortado o enquadramento. Eu copiei a letra original desta página, e ela também segue abaixo, junto com a tradução em português e depois da legendagem que postei no meu canal Eslavo (YouTube):


____________________


To je nama naša borba dala,
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)
da imamo Tita za maršala.
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)

Drug je Tito izdao naređenje:
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)
svi u borbu za oslobođenje!
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)

Drug je Tito poslao nam pismo
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)
da stvorimo bratstvo i jedinstvo.
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)

Stvorili smo bratstvo i jedinstvo;
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)
pred fašizmu pokleknuli nismo.
(Tito, Tito, Tito,
živio nam Maršal Tito,
Tito, slobodo!)

____________________


Entramos em nossa luta,
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)
pra termos Tito de marechal.
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)

O camarada Tito ordenou:
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)
todos à luta por libertação!
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)

O camarada Tito escreveu:
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)
criem irmandade e unidade.
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)

Na irmandade e na unidade
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)
não ajoelhamos ao fascismo.
(ó, Tito, Tito, Tito,
saudemos o Marechal Tito,
ó, Tito, ó, liberdade!)




9 de abril de 2018

As muitas mortes de Josip Broz Tito


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/morre-tito



Estes três vídeos constituem um conjunto histórico muito valioso, em especial pra quem fala português, sobre nossa ainda tão desconhecida Iugoslávia socialista (titoísta). Após ter a perna esquerda amputada por causa de um coágulo arterial, em meio a um quadro de saúde já precário, Josip Broz, conhecido pela história como Marechal Tito, morreu em Ljubljana, hoje capital da Eslovênia, em 4 de maio de 1980. Desde o fim da 2.ª Guerra Mundial, ele na prática comandava sozinho a Iugoslávia e era o último grande comandante antifascista ainda vivo.

A República Federativa Socialista da Iugoslávia (ou “Jugoslávia”, em Portugal), conhecida pela sigla eslava SFRJ, era um país composto de 1945 a 1991 por seis unidades maiores federadas, que representavam as principais nações habitantes do território: Bósnia e Herzegóvina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Sérvia. Exceto pelos idiomas esloveno e macedônio, igualmente pertencentes ao ramo meridional das línguas eslavas, além de diversas outras línguas eslavas e não eslavas minoritárias, o idioma dominante nas outras repúblicas era o servo-croata, que hoje se considera dividido em três outras línguas: bósnio, croata e sérvio (mais raramente se fala também em “montenegrino”). Com leve diferença em relação à União Soviética, as maiores nacionalidades iugoslavas eram bem representadas por jornal, televisão e literatura próprios, o que favoreceu a livre expressão e evolução de suas culturas.

Desta forma, as televisões da Sérvia, Croácia e Eslovênia tiveram anúncios próprios da morte do Marechal Tito, que estão disponíveis no YouTube. A notícia em sérvio veio do jornalista Miodrag Zdravković na televisão de Belgrado, então capital de toda a Iugoslávia. Zdravković nasceu na Sérvia em 1927 e foi um locutor muito famoso de rádio, TV e filmes, e sua celebridade se deve exatamente ao anúncio mais conhecido da morte de Tito. Ele tinha formação de ator e morreu em Belgrado aos 90 anos, em 11 de maio de 2017, fato então amplamente noticiado na internet. O informe em croata foi dado pelo jornalista Miroslav Lilić na televisão de Zagreb, atual capital da Croácia. E a versão eslovena, na TV e na rádio de Ljubljana, ficou a cargo do radialista, apresentador e jornalista esloveno Tomaž Terček (1937-2001), também famoso só por ter noticiado a morte de Tito e cujo verbete só existe na Wikipédia do próprio país. Falecido relativamente novo, aos 63 anos de idade, ainda é lembrado por suas coberturas esportivas, e sua feição lembra coincidentemente a do nosso célebre poeta Carlos Drummond de Andrade.

Desta página eu baixei o vídeo sérvio sem legendas, e só legendei e cortei o enquadramento. Recomendo que vejam outros vídeos desse canal, que são muito interessantes pra se informar sobre o espaço da antiga Iugoslávia. Não precisei fazer nenhuma correção porque o texto é bastante conhecido e amplamente reproduzido, tanto no alfabeto latino quanto no cirílico. Desta página eu baixei o vídeo croata sem legendas, tendo apenas legendado e cortado o enquadramento. Por sorte, eu consegui uma transcrição completa da fala, publicada no jubileu de 2017 de sua morte, no que parece ser um jornal da parte croata da Bósnia e Herzegóvina. Eu fiz algumas correções pra deixar o escrito mais coerente com o que Lilić falou. Como ele está na Croácia, tem alguns traços do dialeto servo-croata local, e na linguagem de hoje diríamos que ele mistura traços do “sérvio” com traços do “croata”. Tentei achar o áudio completo do anúncio esloveno, mas infelizmente não achei: só consegui um vídeo com uma montagem da despedida entre Tito e Fidel Castro numa viagem oficial, em que o áudio começa um pouco pra frente, e um áudio que baixei de outro vídeo, em outro site, com a voz mais nítida, mas com o texto não integral, embora a parte faltante não seja essencial.

Notem que nos vídeos eles falam “presidência da Iugoslávia”, e não “presidente”: pouco antes de Tito morrer, foi estabelecido que essa presidência coletiva superior seria composta pelos presidentes das várias repúblicas componentes, que se revezariam anualmente em sua liderança. Outra observação importante: drug em russo é “amigo”, mas em servo-croata equivalia em geral ao russo tovarisch (camarada). Também é interessante que o Trem Azul que levou o caixão de Tito até seu funeral, após ter percorrido todo o país, chama-se Plavi voz na Sérvia e Plavi vlak na Croácia, com duas palavras diferentes, como no Brasil chamamos “trem” e em Portugal, “comboio”. Já a fala do locutor croata parece ter alguns traços coloquiais, como é comum também nos telejornais brasileiros de hoje. E em esloveno, é interessante que pra “camarada” eles usam uma palavra mais próxima do russo, que é tovariš, e o locutor fala proglas, como em servo-croata, ao invés de razglas, indicando “declaração”, mas devem ser sinônimos.

Seguem abaixo as três legendagens, que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube), as transcrições das falas (nos alfabetos cirílico e latino, no caso do sérvio) e as traduções em português. Decidi pôr o texto croata só em alfabeto latino, porque eu não me sentiria seguro colocando em alfabeto cirílico um texto que tem muitos traços da hoje considerada língua croata. Já o texto em esloveno (embora não contemple ambos os áudios, está registrado na internet eslovena) é exatamente o mesmo que foi falado nos outros vídeos, então nem me dei ao trabalho de traduzir ou cotejar a partir do original. E enfim, que os coxinhas de esquerda tenham um pouco de senso de humor e me perdoem pelas piadas, no vídeo sérvio, com esse evento tão histórico!



Умро је друг Тито. То су вечерас саопштили Централни комитет Савеза комуниста Југославије и Председништво Социјалистичке Федеративне Републике Југославије, радничкој класи, радним људима и грађанима, народима и народностима Социјалистичке Федеративне Републике Југославије.

Umro je drug Tito. To su večeras saopštili Centralni komitet Saveza komunista Jugoslavije i Predsedništvo Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije, radničkoj klasi, radnim ljudima i građanima, narodima i narodnostima Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije.

Faleceu o camarada Tito. Assim informaram esta noite o Comitê Central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia e a Presidência da República Federativa Socialista da Iugoslávia à classe operária, aos trabalhadores e cidadãos, aos povos e nacionalidades da República Federativa Socialista da Iugoslávia.



Prije neko[li]ko trenutaka stigao je proglas centralnog komiteta Saveza komunista Jugoslavije i predsedništva Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije. Centralni komitet Saveza komunista Jugoslavije i predsedništvo Socijalističke Federativne Jugoslavije objavili su večeras sledeći proglas: Radničkoj klasi, radnim ljudima i građanima, narodima i narodnostima Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije, umro je drug Tito. Očekujemo daljnje vijesti. Televizija Zagreb i jugoslavenske televizije od ovog časa počinju emitirati svoj izvanredni program.

Chegou há alguns instantes uma declaração do comitê central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia e da presidência da República Federativa Socialista da Iugoslávia. O comitê central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia e a presidência da Iugoslávia Federativa Socialista lançaram esta noite a seguinte declaração: À classe operária, aos trabalhadores e cidadãos, aos povos e nacionalidades da República Federativa Socialista da Iugoslávia, faleceu o camarada Tito. Aguardamos novas informações. A TV Zagreb e as TVs da Iugoslávia passarão desde já sua grade especial.



Razglas predsedstva centralnega komiteja Zveze komunistov Jugoslavije v imenu CK ZKJ in predsedstva Socialistične federativne republike Jugoslavije, delavskemu razredu, delovnim ljudem in občanom, narodom in narodnostim Socialistične federativne republike Jugoslavije: Umrl je tovariš Tito.

Declaração da presidência do comitê central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia em nome do CC da LCI da presidência da República Federativa Socialista da Iugoslávia, à classe operária, aos trabalhadores e cidadãos, aos povos e nacionalidades da República Federativa Socialista da Iugoslávia: Faleceu o camarada Tito.



O funeral de Tito foi considerado em seu tempo o maior pra um chefe de Estado na história, tendo superado o de Winston Churchill (1965). Porém, foi superado pelo de Nelson Mandela e pelo de João Paulo 2.º, que ocupa agora a liderança. Veja aqui o vídeo sem legendas nem recorte de enquadramento, que foi exibido na TV croata.

Seu respeito no exterior era tanto que os funerais conseguiram atrair uma enorme diversidade de líderes alinhados ou não alinhados a um dos blocos mundiais, congregou líderes capitalistas e socialistas, do Ocidente e do Oriente. Num dado momento, enquanto se canta a Internacional em servo-croata, é possível ver até Margaret Thatcher de chapéu preto no canto superior esquerdo da tela. Mesmo entre o povo, apesar do autoritarismo, Tito era muito querido, pois seu regime era relativamente liberal, comparado com as ditaduras vizinhas na Europa comunista, em especial a Albânia (notavelmente, Enver Hoxha não foi ao funeral nem enviou representantes).

O corpo do Marechal Tito já estava tão deteriorado que o caixão celebrado na parada estava vazio, enquanto o cadáver mesmo seguiu pra Belgrado num helicóptero militar. Aí mesmo, na capital da Iugoslávia, foi realizada essa mesma celebração. Pra seguirmos nas passagens bizarras, notem ao 1 min 2 seg uma bandeira vermelha caindo sobre a cabeça de um homem embaixo do vídeo: eu nem tinha visto, foi minha mãe que reparou. Ao final do vídeo, nota-se o coral cantando o refrão de uma das versões da Internacional em servo-croata. A letra, faltando nas legendas um C com acento agudo, é esta: Pobede dan se javlja,/Naš se združen kreće hod!/Internacionala/Nek bude ljudski rod. (Trad. lit. “O dia da vitória se afigura,/Nossa marcha segue unida!/Que o gênero humano/Seja a Internacional.”)

7 de abril de 2018

Nadine Koutcher e Gulnara Shafigullina


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ivc2012



Estes quatro vídeos são bem interessantes, sugeridos pra legendagem ainda em 2016, mais ou menos, pela minha melhor amiga Mariana, mas que só tive tempo de legendar no segundo semestre de 2017. São as apresentações das cantoras líricas Nadine Koutcher, de Belarus, e de Gulnara Shafigullina, da Rússia, na final de 2012 da International Vocal Competition (IVC, Competição Vocal Internacional), único concurso do gênero na Holanda desde 1954. Segundo a descrição contida no canal YouTube do próprio concurso, ele é um dos mais renomados do mundo quanto à vocalização erudita e faz parte da Federação Internacional das Competições Internacionais de Música. Tendo chegado em 7-16 de setembro de 2017 à sua 51.ª edição, a IVC é focada na atuação individual dos cantores, em seu poder vocal e seus projetos futuros. O canal a arroga como uma das principais portas de entrada internacionais dos jovens talentos da música erudita, inserindo-os no meio artístico, institucional e empresarial concernente. O IVC possui um site oficial, mas também esta página com vídeos.

No primeiro vídeo, Nadine Koutcher canta o poema “Колыбельная песня” (Kolybelnaia pesnia), Canção para/de Ninar, escrito em 1860 por Apollon Nikolaievich Maikov (1821-1897), publicado em 1872 e musicado pelo célebre Piotr Chaikovski em 1873. No segundo vídeo, ela canta o poema “К ней” (K nei), Rumo a ela, escrito em abril de 1908 por Andrei Bely (pseudônimo de Boris Nikolaievich Bugaiev, 1880-1934) e musicado por Sergei Vasilievich Rakhmaninov (1873-1943). No terceiro vídeo, Gulnara Shafigullina entoa a canção “Они отвечали” (Oni otvechali), Elas responderam (ou “respondiam”, se for ao pé da letra), com poema originalmente francês de Victor Hugo, tradução russa do poeta e tradutor Lev Aleksandrovich Mei (1822-1862) e música também de Rakhmaninov. E no quarto vídeo, ela canta “Здесь хорошо” (Zdes horosho), Aqui é bom (ou “tão bom”, pra incrementar), da poetisa, ensaísta e tradutora Glafira Adolfovna Rinks (1870-1942), publicado em 1895, de novo melodia de Rakhmaninov. Rinks era mais conhecida, entre outros, pelo pseudônimo “Galína Gálina” (coloquei acentos pra precisar a pronúncia, já que em cirílico são iguais), e por volta de 1895 estava envolvida em movimentos estudantis, mas se retirou de público depois de 1917.

Eu mesmo traduzi os versos, cortei os trechos dos vídeos e legendei. Essas traduções de poesia são literais, e não poéticas, ou seja, tentei passar ao máximo apenas o significado pretendido. A ordem das duas apresentações de Koutcher está invertida, mas Shafigullina cantou na ordem mesma em que estão os vídeos. Nesta página está a atuação completa de Koutcher, e nesta página está a filmagem integral de Shafigullina, cantora que atualmente reside na Holanda e tem também um site pessoal. Seguem abaixo as quatro legendagens, que postei no meu canal Eslavo (YouTube), as explicações sobre elas, as letras em russo e as traduções em português:



As chamadas “canções de ninar”, tanto como modelo musical quanto estilo literário infantil, são um gênero muito estimado e refinado na Rússia desde o século 19. Extraído do ciclo Canções neo-gregas, o poema Canção para Ninar, assim como Mãe e filhos, Primavera e Capinzal, integra o livro Palavra pátria, de K. D. Ushinski, a obra mais popular depois da cartilha de alfabetizar. As canções que musicaram esses poemas também se tornaram muito difundidas, tendo entrado no repertório de todos os corais infantis. O texto tem evidentes traços arcaizantes, como o uso da palavra ditia pra “bebê” ou “criança”, quando o moderno é rebionok, e a conjunção ali significando “ou”, “e”, “será que”. Eu copiei a letra em russo desta página, que tem uma breve história da canção e uma variante levemente diferente.

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Спи, дитя моё, усни!
В няньки сон к себе мани:
В няньки я тебе взяла
Ветер, солнце и орла.

Улетел орёл домой;
Солнце скрылось под водой;
Ветер после трёх ночей
Мчится к матери своей.

Ветра спрашивает мать:
“Где изволил пропадать?
Али звёзды воевал?
Али волны всё гонял?”

“Не гонял я волн морских,
Звёзд не трогал золотых, –
Я дитя оберегал,
Колыбелечку качал!”

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Nana, nana, criancinha!
Chame o sono pra te ninar:
Eu chamei pra te ninarem
O vento, o Sol e a águia.

A águia voou pro ninho;
O Sol sumiu debaixo d’água;
O vento, depois de três noites,
Sopra rumo à própria mãe.

A mãe pergunta pro vento:
“Onde é que você foi parar?
Estava batendo nas estrelas
Ou ficou movendo as ondas?”

“Não mexi as ondas do mar,
Não feri as estrelas douradas;
Fui cuidar de uma criança
Balançando seu bercinho!”



A canção é bem forte e dramática, e exigiu elaborada interpretação por Koutcher, novamente com Paul Plummer no piano. Este poema pertence à chamada “época de prata” da literatura russa, e tem várias referências à natureza: o orvalho, por exemplo, é chamado de “pérolas”. O vocabulário também é um pouco antigo, porque se usa krasnye (plural de krasny) não exatamente no sentido moderno de “vermelhas”, já que não fazem sentido “luzes vermelhas” na noite natural; mas no velho sentido de “belas”, “boas” ou “radiantes” (conservado, por exemplo, em tcheco). Há ainda uma referência mitológica grega ao “Lete” (em russo, Leta), rio cujas águas levariam, se bebidas, ao esquecimento de vidas passadas, ou das coisas pretéritas em geral. Copiei desta página a letra em russo, classificada como “romança”, ou seja, uma canção sentimental, embora nas legendas eu tenha mudado um pouco a quebra de linhas.

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Травы одеты
Перлами.
Где-то приветы
Грустные
Слышу, – приветы
Милые...

Милая, где ты,
Милая?...

Вечера светы
Ясные, –
Вечера светы
Красные...
Руки воздеты:
Жду тебя...

Милая, где ты,
Милая?

Руки воздеты:
Жду тебя...
В струях Леты,
Смытую
Бледными Леты
Струями...

Милая, где ты,
Милая?

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A relva está coberta de pérolas.
Tristes saudações nalgum lugar
Eu ouço, saudações queridas...

Querida, onde você está?...

As luzes claras da noite,
As luzes lindas da noite...
Braços ao alto: te espero...

Querida, onde você está?...

Braços ao alto: te espero...
Levada na correnteza do Lete,
Pela pobre correnteza do Lete...

Querida, onde você está?...



O poema de Victor Hugo se chama Autre guitare (Outro violão), e talvez aluda ao fato de ser um jogo de perguntas e respostas, onde um cantor ou cantores (no caso, os homens) responde a outro ou outros (aqui, as mulheres), como trovadores ou, no Brasil, repentistas. O texto francês saiu como o de número 23 da coletânea As luzes e as sombras (1840), que granjeou vasto respeito ao escritor e cujo título é uma alusão ao mundo de beleza, amor e alegria (les rayons, gênero masculino) que convive com o lado triste, morto e esquecido (les ombres, gênero feminino) pra formar o todo da vida. As “luzes” são uma alegoria do conhecimento, que era missão civilizatória do poeta levar às “sombras”, à ignorância, mas acredito até que no poema temos a metáfora dos vivos pedindo conselho aos mortos, ou do saber racional dando brecha à experiência intuitiva.

O mais interessante é que em russo, o poema só faz sentido na ortografia pré-1918, sob a qual o poema foi escrito, ou seja, em russo se escrevia “они” pra “eles” e “онѣ” pra “elas”, mas ambos se diziam oni (pron. “aní”). Hoje, a 3.ª pessoa do plural pros três gêneros em russo é “они” escrito e falado. Em poesia, essa letra iat abolida pelos bolcheviques podia ser pronunciada “ié”, como em outras palavras, o que resultava ser a pronúncia como se o pronome moderno fosse escrito “оне” (one, pron. “anié”). Até hoje em polonês, oni significa “eles” e one é usado pra feminino e/ou neutro, quando não há entre os referentes um substantivo masculino. Portanto, este poema é um dos casos raros em que se perde o sentido com a ortografia moderna, embora a própria Shafigullina pronuncie oni pra ambos. Como em francês, “luzes” é masculino (lutchi) e “sombras” é feminino (teni) em russo, o que mantém o efeito pretendido, mas o nome do poema ficou Elas responderam, e não Outro violão. Leia mais sobre a ortografia pré-1918 neste artigo que redigi.

A versão musical em russo, como as anteriores, também é classificada como “romança”, ou seja, uma canção sentimental, e o próprio poema francês recebeu muitas traduções e melodias em outros países. Eu copiei desta página o texto em russo, ampliado em relação ao francês, nas duas ortografias e com as partituras. A coleção As luzes e as sombras completa de Hugo pode ser lida nesta página, com Autre guitare no número XXIII. Abaixo, o texto em russo moderno (com o pronome à antiga indicado), em russo antigo e a tradução:

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Спросили они:
«Как в летучих челнах
Нам белою чайкой скользить
На волнах,
Чтоб нас сторожа не догнали?»
«Гребите!» – они [онѣ] отвечали.

Спросили они:
«Как забыть навсегда,
Что в мире
Юдольном есть бедность, беда,
Что есть в нём гроза и печали?»
«Засните!» – они [онѣ] отвечали.

Спросили они:
«Как красавиц привлечь
Без чары:
Чтоб сами на страстную речь
Они нам в объятия пали?»
«Любите!» – они [онѣ] отвечали.

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Спросили они:
«Какъ въ летучихъ челнахъ
Намъ бѣлою чайкой скользить
На волнахъ,
Чтобъ насъ сторожа не догнали?»
«Гребите!» – Онѣ отвѣчали.

Спросили они:
«Какъ забыть навсегда,
Что въ мірѣ
Юдольномъ есть бѣдность, бѣда,
Что есть въ немъ гроза и печали?»
«Засните!» – онѣ отвѣчали.

Спросили они:
«Какъ красавицъ привлечь
Безъ чары:
Чтобъ сами на страстную рѣчь
Онѣ намъ въ объятія пали?»
«Любите!» – онѣ отвѣчали.

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Eles perguntaram:
“Como em canoas voadoras
Podemos fluir como gaivota branca
Sobre as ondas,
Para os guardas não nos alcançarem?”
“Remem!”, elas responderam.

Eles perguntaram:
“Como esquecer para sempre
Que o mundo
Mortal tem pobreza e desgraça,
Que ele tem terror e agonia?”
“Adormeçam!”, elas responderam.

Eles perguntaram:
“Como atrair lindas moças
Sem álcool:
Para elas mesmas caírem nos
Nossos braços com fala de amor?”
“Amem!”, elas responderam.



Nada tenho de especial a comentar, a não ser que temos várias figuras poéticas, como a famosa expressão “Deus e eu”, usada pra indicar uma absoluta solidão ou isolamento e presente também na música sertaneja, como em Victor & Leo. Há também usos da linguagem formal, como a palavra da, literalmente “sim”, sendo usada como a conjunção aditiva “e”, o emprego do verbo vzglianut ao invés de smotret pra “olhar” e a função do caso instrumental como termo de comparação com alguma coisa (ogniom = como fogo). Quero crer ainda que “o rio ardendo como fogo” alude a um possível cair da tarde, em que a luz avermelhada do céu se reflete no espelho d’água. A versão musical em russo, como as anteriores, também é classificada como “romança”, ou seja, uma canção sentimental, como se nota pela atuação interpretativa da cantora, praticamente como um atriz. Eu tirei desta página o texto em russo, que tem também as partituras.

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Здесь хорошо…
Взгляни, вдали огнём
Горит река;
Цветным ковром луга легли,
Белеют облака.

Здесь нет людей…
Здесь тишина…
Здесь только Бог да я.
Цветы, да старая сосна,
Да ты, мечта моя!

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Aqui é tão bom...
Olhe ao longe o rio
Ardendo como fogo;
Os prados viraram tapete florido,
As nuvens branquejam.

Aqui não há ninguém...
Aqui é tudo quieto...
Aqui só estão Deus e eu.
Flores, um velho pinheiro
E você, meu sonhinho!