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22 de julho de 2018

Discurso de Putin abrindo a Copa 2018


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Esta postagem demorou pra sair, justamente porque eu não estava inicialmente pensando em transformar este discurso numa postagem. Mas pra dar mais conteúdo ao site e facilitar a consulta dos curiosos, decidi criar a versão escrita do material. Vladimir Putin, o Presidente de Todas as Rússias, discursou em 14 de junho de 2018 na abertura da copa do mundo de futebol, sediada este ano na Rússia, e logo depois a seleção do país realizou a partida inaugural contra a Arábia Saudita. O show de abertura e a alocução de Putin ocorreram no famoso estádio Luzhniki, inaugurado pelo ex-dirigente soviético Nikita Khruschov na capital nacional Moscou.

Por sorte, logo depois da apresentação, consegui encontrar um vídeo completo, e ainda legendado em russo. Ou seja, sequer precisei me esforçar pra transcrever a partir da fala. Durante umas semanas, o vídeo “bombou” no meu canal Eslavo (YouTube), porque acredito que foi a primeira tradução feita em português. Agora, como sabemos, a copa terminou, o Brasil foi eliminado nas quartas-de-final (como em 2006 e 2010), Neymar Jr. não brilhou tanto quanto se esperava e a França cheia de imigrantes ou filhos deles virou bicampeã. Mesmo assim, ainda achei válido fazer o registro postado aqui, e certamente será um material muito útil no futuro.

Eu mesmo traduzi do russo e legendei esta gravação após baixar. O formato está quadrado, mas decidi usar essa filmagem mesma, porque ela ainda possibilita ler-se a transcrição em russo. Se você não é do Brasil e está estranhando alguma expressão que eu possa ter usado, peço desculpas pelo não domínio de variantes diferentes do português brasileiro. Isso se aplica, sobretudo, ao domínio do futebol, no qual, aliás, eu não sou especializado. Seguem abaixo minha legendagem, o texto em russo como está transcrito no site do Kremlin com poucas adaptações minhas, e a tradução mais detalhada em português:



Дорогие друзья!

Приветствую всех гостей легендарного московского стадиона «Лужники», всех, кто собрался в многочисленных фан-зонах чемпионата мира FIFA, кто видит нас на телеэкранах или в интернете. Поздравляю вас – всю большую, многонациональную, дружную мировую футбольную семью – с началом главного турнира планеты!

Это грандиозное спортивное событие впервые проходит в России, и мы искренне рады этому. В нашей стране футбол не просто самый массовый вид спорта. Футбол у нас по-настоящему любят. И эта любовь, что называется, с первого взгляда, с первого официального матча, который состоялся в России в 1897 году.

Мы ответственно готовились провести у себя в гостях это грандиозное мероприятие и сделали всё для того, чтобы болельщики, спортсмены, специалисты могли полностью погрузиться в атмосферу великолепного праздника футбола и, конечно, получили удовольствие от пребывания в России – открытой, гостеприимной, радушной –, обрели здесь новых друзей, новых единомышленников.

Давайте вдумаемся: нас – преданных поклонников футбола –, без всякого преувеличения, миллиарды людей на планете. И где бы мы ни жили, каким бы традициям ни следовали, нас всех объединяет любовь к футболу в одну команду, единую своей любовью к этой зрелищной, яркой, бескомпромиссной игре. И потому все члены этой команды хорошо понимают и чувствуют друг друга.

В этом единстве, над которым не властны ни различия в языках, ни в идеологии, ни в вере, и заключается великая сила футбола, спорта в целом, сила его гуманистических начал. Наша задача – сберечь эту силу, это единство для будущих поколений во имя развития спорта и укрепления мира и взаимопонимания между народами.

Желаю всем командам успеха, а болельщикам – незабываемых впечатлений. Добро пожаловать в Россию!

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Queridos amigos!

Saúdo todos os visitantes no lendário estádio Luzhniki em Moscou, todos os reunidos nas inúmeras fan zones da Copa do Mundo da FIFA, que nos assistem pela televisão ou pela internet. Parabenizo-os, toda a grande, multinacional e pacífica família mundial do futebol, pelo início do maior torneio do planeta.

Este grandioso evento esportivo vem pela primeira vez à Rússia e estamos sinceramente felizes com isso. Em nosso país, o futebol não é apenas o maior esporte de massas. Nosso amor pelo futebol é autêntico, um amor, como se diz, à primeira vista, à primeira partida oficial, que ocorreu na Rússia no ano de 1897.

Realizamos uma responsável preparação para receber esse acontecimento grandioso e fizemos de tudo para que torcedores, jogadores e comissões técnicas pudessem imbuir-se de toda a atmosfera da festa maravilhosa do futebol e, claro, recebessem o prazer de estar numa Rússia aberta, receptiva e cordial, fizessem aqui novos amigos e novas parcerias.

Reflitamos: nós, admiradores fiéis do futebol, sem qualquer exagero, somos bilhões de pessoas no planeta. E onde quer que vivamos ou quais tradições sigamos, o amor pelo futebol nos une todos numa só equipe, unida no amor por esse jogo espetacular, ardente e descompromissado. Por isso todos os membros dessa equipe entendem e sentem bem uns aos outros.

É nessa unidade, que não é superada nem pela diferença de línguas, nem de ideologia e nem de crença, que está a grande força do futebol e do esporte como um todo, sua força de princípios humanistas. Nossa tarefa é guardar essa força, essa unidade para as gerações futuras, em nome da evolução do esporte e do fortalecimento da paz e da compreensão mútua entre os povos.

Desejo sucesso a todas as seleções, e desejo experiências inesquecíveis aos torcedores. Bem-vindos à Rússia!



20 de julho de 2018

Sobre o número e o gênero em francês


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Pra terminar o material básico do cursinho no TOPE da Unicamp, que tenho sistematizado aqui no site, vamos falar agora sobre flexão dos substantivos e adjetivos, ou seja, sua indicação de número (singular ou plural) e gênero (masculino e feminino). Infelizmente, como tive de abreviar o conteúdo das aulas, não pude me aprofundar nos adjetivos, mas no essencial, vale pra eles também o que digo aqui diretamente apenas dos substantivos. A flexão destes é mais complexa e variada.

Esta postagem é dividida em quatro partes: como podemos encontrar palavras do gênero masculino, como identificamos se uma palavra é do gênero feminino, como realizar a formação do feminino a partir do masculino quando isso é possível (e os casos em que o feminino vem de um vocábulo separado) e como fazer corretamente a formação do plural. Felizmente, a formação do plural não está sempre imbricada à “formação” do feminino, como nas línguas eslavas. Mas recomendo que não se procure decorar o conteúdo deste texto, que em geral é aprendido na prática. Minha intenção principal tem sido a de que as últimas postagens sirvam mesmo de material de consulta constante.


Le genre masculin (O gênero masculino)

Em geral são substantivos que pertencem ao gênero masculino:

  • Palavras indicando homens e animais machos: un homme (um homem), le boucher (o açougueiro), le tigre (o tigre).
  • Palavras que designam árvores e arbustos: le chêne (o carvalho), le sapin (o pinheiro), le laurier (o louro).
  • Nomes de dias, meses e estações do ano:
    • janvier, février, mars, avril, mai, juin, juillet, août, septembre, octobre, novembre, décembre.
    • l’été (o verão), l’automne, l’hiver, le printemps.
    • lundi (segunda-feira), mardi, mercredi, jeudi, vendredi, samedi, dimanche.
  • Nomes de idiomas: le français (o francês), le portugais (o português), l’espagnol (o espanhol).
  • Nomes de rios e países terminados em consoante e “e” mudo: le Nil (o Nilo), le Danube (o Danúbio), le Rhône (o Reno), l’Amazone (o Amazonas), le Gange (o Ganges), le Portugal (Portugal), le Danemark (a Dinamarca). Exceções (rios): la Seine (o Sena), la Tamise (o Tâmisa), bem como la Volga (o Volga).


Le genre féminin (O gênero feminino)

Em geral são substantivos que pertencem ao gênero feminino:

  • Palavras indicando mulheres e animais fêmeas: la mère (a mãe), la bonne (a empregada), la génisse (a bezerra).
  • Nomes de países terminados em “e” mudo: la Russie (a Rússia), la Belgique (a Bélgica), la France (a França), la Suisse (a Suíça). Exceção: le Mexique (o México), bem como le Chili (o Chile).
  • Dias santos e festas religiosas: la Toussaint (Dia de Todos os Santos, 1.º de novembro), la Pentecôte (Pentecostes).
    • Noël (Natal) é masculino, mas se usado com artigo definido (à la Noël, no Natal) é feminino.
    • Pâques (Páscoa) é tido por masculino singular em geral, usado sem artigo (à Pâques prochain, na próxima Páscoa), mas é feminino plural nas expressões Pâques fleuries (Domingo de Ramos) e Joyeuses Pâques ! (Feliz Páscoa!).
  • Com algumas exceções, é feminina a maioria dos substantivos terminados em duas consoantes seguidas de “e” mudo: la botte (a bota), la couronne (a coroa), la terre (a terra), la masse (a massa), la lutte (a luta).

Alguns substantivos variam de gênero de acordo com o sexo da pessoa designada, gênero indicado apenas pelo artigo usado: un/une artiste (um/uma artista), le/la Russe (o russo/a russa), un/une aide (um/uma assistente), un/une domestique (um/uma servente), un/une enfant (uma criança = menino/menina), un/une malade (um/uma paciente), un/une propriétaire (um proprietário/uma proprietária).

Substantivos com um gênero pra ambos os sexos: un ange (um anjo), un amateur (um amador/uma amadora), un auteur (um autor/uma autora), le médecin (o médico/a médica), le peintre (o pintor/a pintora), le sculpteur (o escultor/a escultora), le témoin (a testemunha); une dupe (um otário/uma otária), une personne (uma pessoa), la recrue (o recruta), la sentinelle (a sentinela), la victime (a vítima).

Alguns substantivos mudam de significado ao mudar de gênero:

  • un aide (o assistente), une aide (a assistente; a ajuda).
  • le critique (o crítico), la critique (a crítica = opinião).
  • le faux (a falsificação), la faux (a foice).
  • le livre (o livro), la livre (a libra = 500 g, “meiquilo”).
  • le mode (o método, o modo), la mode (a moda).
  • le mort (o morto), la mort (a morte).
  • le page (o pajem), la page (a página).
  • le poste (o posto, o cargo), la poste (o correio).
  • le tour (o truque, a mágica; o giro), la tour (a torre).
  • le vapeur (o navio a vapor), la vapeur (o vapor).
  • le voile (o véu, a cortina), la voile (a vela de barco).

A palavra gens (pessoas) é considerada masculina quando antecede o adjetivo, e feminina quando o sucede: des gens heureux (pessoas felizes), de bonnes gens (boas pessoas).


La formation du féminin (A formação do feminino)

A regra de ouro pra se formar um substantivo feminino a partir de um masculino, é: adiciona-se a terminação “-e” muda, que pode ou não alterar a pronúncia: un ami (um amigo), une amie (uma amiga); le candidat (o candidato), la candidate (a candidata). No primeiro caso, apenas a pronúncia do artigo diferencia o gênero/palavra: [æ̃n‿ami], [yn ami]. No segundo, o artigo não é imprescindível além da mudança de pronúncia que ocorre no final: [kɒ̃dida], [kɒ̃didat].

Porém, há inúmeras exceções a essas regras, exceções que por vezes também têm “exceções”. Seguem abaixo algumas delas.

Substantivos terminados em “e” não mudam no feminino: un élève (um aluno), une élève (uma aluna).

Substantivos terminados em “t” e “n” dobram essa consoante, que em geral passa a ser pronunciada: le chat (o gato), la chatte (a gata); le chien (o cachorro), la chienne (a cadela). Exceções: substantivos terminados em “-in”, “-ain” ou “-an”. Ex.: le cousin (o primo), la cousine (a prima); le souverain (o soberano), la souveraine (a soberana); le faisan [føzɒ̃] (o faisão), la faisane [føzan] (a faisoa).

Substantivos terminados em “-er”, cuja pronúncia é “ê”, mudam a terminação para “-ère”, que se pronuncia “érr”: un ouvrier (um operário), une ouvrière (uma operária).

Como regra, os substantivos terminados em “-eur” [-œʁ] mudam a terminação para “-euse” [-øz]: le vendeur (o vendedor), la vendeuse (a vendedora). Há exceções:

  • le pécheur (o pecador), la pécheresse (a pecadora); un enchanteur (um mágico), une enchanteresse (uma mágica); le vengeur (o vingador), la vengeresse (a vingadora).
  • os terminados em “-teur”, que fazem em “-teuse” ou “-trice”: le chanteur (o cantor) > la chanteuse (a cantora), un acteur (um ator) > une actrice (uma atriz).
  • os adjetivos ou substantivos inférieur, supérieur, mineur (“menor”, em sentidos figurados) e prieur (prior, em certos conventos) fazem apenas com a adição de um “-e” mudo: inférieure, supérieure etc.; quando mineur significa “mineiro”, faz mineuse, e quando prieur significa “pessoa que reza”, faz prieuse.

Com estas terminações, há outra alteração junto ao acréscimo do “-e”: “-f” > “-ve”, “-x” > “-se”, “-eau”/“-el” > “-elle”. Ex.: le veuf (o viúvo), la veuve (a viúva); un époux (um esposo), une épouse (uma esposa); le jumeau (o gêmeo), la jumelle (a gêmea); Gabriel > Gabrielle.

Algumas derivações de masculino para feminino são irregulares:

  • un abbé (um abade), une abbesse (uma abadessa).
  • le duc (o duque), la duchesse (a duquesa).
  • le dieu (o deus), la déesse (a deusa).
  • le prince (o príncipe), la princesse (a princesa).
  • le Grec (o grego), la Grecque (a grega).
  • le Turc (o turco), la Turque (a turca).

Alguns conceitos usam palavras diferentes para os dois gêneros:

  • le bœuf (o boi), la vache (a vaca).
  • le cheval (o cavalo), la jument (a égua).
  • le coq (o galo), la poule (a galinha).
  • le père (o pai), la mère (a mãe).
  • le fils (o filho), la fille (a filha).
  • le frère (o irmão), la sœur (a irmã).
  • un homme (um homem), une femme (uma mulher).
  • le roi (o rei), la reine (a rainha).


Le nombre pluriel (O número plural)

Como em inglês, a regra básica é: adiciona-se um “s” mudo ao final da palavra: l’homme (o homem), les hommes (os homens); le lit (a cama), les lits (a cama). Em ambos os casos, a marca do plural estará na pronúncia do artigo. Mas há casos que merecem atenção especial.

Os substantivos com singular terminado em “s”, “x” ou “z” não mudam de forma: le bois (o bosque), les bois (os bosques); la noix (a noz), les noix (as nozes); le nez (o nariz), les nez (os narizes).

Substantivos com singular em “-al” [al] trocam a terminação para “-aux” [o] em geral: le bocal (o bocal), les bocaux (os bocais); le mal (o mal), les maux (os males). Exceções (dentre várias): le bal (o baile), les bals (os bailes); le carnaval (o carnaval), les carnavals (os carnavais); le chacal (o chacal), les chacals (os chacais); le choral (o coral), les chorals (os corais); le festival (o festival), les festivals (os festivais).

No plural, os finais “-eau”, “-au” e “-eu” têm um “x” mudo no singular: le bateau (o barco), les bateaux (os barcos); le noyau (o núcleo, o caroço), les noyaux (os núcleos, os caroços); un cheveu (um fio de cabelo), des cheveux (fios de cabelo, o/s cabelo/s). Exceções: le bleu (o azul), les bleus (os azuis); le pneu (o pneu), les pneus (os pneus).

Os substantivos terminados em “-ail” [aj] (éventail – leque, épouvantail – espantalho) fazem o plural com “s”, mas sete deles fazem em “-aux” [o]: bail (arrendamento), corail (coral marítimo), émail (esmalte), soupirail (respiradouro), travail (trabalho), vitrail (vitral) e vantail (batente de porta ou janela).

Os substantivos terminados em “-ou” (clou – prego, trou – buraco) fazem o plural com “s”, mas sete deles acrescentam, ao invés, um “x” igualmente mudo: bijou (joia), caillou (seixo), chou (couve), genou (joelho), hibou (coruja), joujou (brinquedo) e pou (piolho).

Estes substantivos têm sua consoante final pronunciada e sua vogal com timbre aberto no singular, mas têm a consoante muda e a vogal com timbre fechado no plural: un os [ɔs] (um osso), des os [o] (ossos); un œuf [œf] (um ovo), des œufs [ø] (ovos); le bœuf [bœf] (o boi), les bœufs [bø] (os bois).

Via de regra, a palavra œil [œj] (olho) tem o plural yeux [jø] (olhos); les yeux = [lezjø]. Presente em alguns compostos, seu plural é regular: œils-de-bœuf (claraboias), œils-de-perdrix (calos), œils-de-serpent (pedras preciosas).

Alguns substantivos são pluralia tantum, ou seja, só se empregam no plural: mascs. décombres (escombros), frais (despesas); fems. entrailles (entranhas), funérailles (funerais), ténèbres (trevas).

Usados no plural, alguns substantivos mudam de sentido: le ciseau (o cinzel de escultor), les ciseaux (a/s tesoura/s); la lunette (a luneta), les lunettes (os óculos); la vacance (a vacância), les vacances (as férias).



18 de julho de 2018

Como se usam os adjetivos em francês


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Continuando a sistematização do material do cursinho de francês que dei no programa TOPE da Unicamp, hoje dou uma breve introdução sobre os adjetivos em francês: como se usam, como se flexionam. Se você frequentou a escola há muito tempo e não fez nem letras nem história, não se preocupe! Vamos relembrar o que é e pra que serve um adjetivo. São palavras simples, como os substantivos, advérbios, verbos etc., mas que cumprem as seguintes funções, entre outras:

Complemento nominal: qualifica um substantivo, podendo em geral ser suprimido sem alterar o sentido da frase. Exs.: un immense désert (um imenso deserto), les enfants épuisés (as crianças esgotadas), sa fidèle monture (sua fiel montaria).

Predicativo do sujeito: vem após um verbo de ligação (copulativo), no mais das vezes o verbo être (ser), concordando em gênero e número com esse sujeito. Exs.: Les élèves sont fatigués (Os alunos estão cansados), Ma mère semble triste (Minha mãe parece triste), Cet homme reste sage (Este homem continua sábio).

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O plural regular dos adjetivos, assim como dos substantivos, é feito pela simples adição de um “s” mudo: un grand garçon (um grande rapaz), des grands garçons (grandes rapazes); la voiture rapide (o carro rápido), les voitures rapides (os carros rápidos). Note como é o artigo que vai dar a marca/indicação do plural. Contudo, também como os substantivos, as formas de fazer o masculino plural (gráfico e/ou fonético) vão variar muito conforme a terminação da palavra.

Os adjetivos terminados em “-al” fazem o plural em “-aux”: un appartement royal (um apartamento real) → des appartements royaux (apartamentos reais). Exceções: bancal (coxo, manco, de pernas tortas), fatal, final, natal, naval e banal (mas banaux no sentido de “pertencentes a um senhor”). Estes adjetivos podem fazer das duas formas: austral, boréal, glacial, idéal e pascal.

Os adjetivos terminados em “-eau” adicionam um “x” mudo ao final: un beau bateau (um belo barco) → des beaux bateaux (belos barcos).

Os adjetivos terminados em “s” ou “x” permanecem invariáveis no plural: un homme heureux (um homem feliz) → des hommes heureux (homens felizes), un angle obtus (um ângulo obtuso), des angles obtus (ângulos obtusos).

Os adjetivos terminados em “-eu”, por regra, também tomam um “x” mudo no plural: un village hébreu (uma vila judaica) → des villages hébreux (vilas judaicas). Exceção: o adjetivo bleu (azul) faz com um “s”, mas, como todos os outros adjetivos de cores, é invariável se seguido de outro adjetivo: des pantalons bleus (calças azuis), des pantalons bleu clair (calças azul-claro).

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O feminino regular dos adjetivos é feito pela simples adição de um “e” mudo, que pode ou não gerar modificações na pronúncia: un petit garçon (um pequeno menino), une petite fille (uma pequena menina) → o “t” final passa a ser pronunciado; un mauvais devoir (uma lição mal feita), une mauvaise note (uma nota ruim) → o “s” final passa a ser pronunciado, mas como “z”; un ministre espagnol (um ministro espanhol), une ministre espagnole (uma ministra espanhola) → apenas o “une” indica que se trata de feminino. Se o adjetivo já termina em “e”, a forma é a mesma para os dois gêneros: triste, rapide (rápido/a), célèbre (célebre, famoso/a), fantastique. Contudo, a regra da adição do “e” gera alterações ortográficas, quando não de pronúncia, nas mais diversas terminações.

Os adjetivos terminados em “-gu” adicionam um trema ao “u” final, para que ele não se torne mudo, como na palavra langue (na regra antiga, era o “e” que levava o trema): un mot ambigu (uma palavra ambígua), une réponse ambigüe (uma resposta ambígua; ant. “une réponse ambiguë”).

Os adjetivos terminados em “-er”, “-ier” ou “-iet” adicionam um acento grave ao “e”, mudando seu timbre de fechado para aberto: un produit étranger (um produto estrangeiro), une dame étrangère (uma senhora estrangeira); un mois printanier (um mês de primavera), une journée printanière (um dia de primavera); un homme inquiet (um homem inquieto), une femme inquiète (uma mulher inquieta).

Os adjetivos terminados em “-ul”, “-el”, “-eil” ou “-iel” dobram o “l” final, sem mudanças na pronúncia: un résultat nul (um resultado nulo), une plaisanterie nulle (uma brincadeira nula); un acte individuel (um ato individual), une action individuelle (uma ação individual); un vieil homme (um velho homem), une vieille femme (uma velha mulher); un document officiel (um documento oficial), une demande officielle (um pedido oficial).

Os adjetivos terminados em “-ien”, “-en” ou “-on” dobram o “n” final, com desnasalação do som vocálico final e pronúncia do “n” final: un touriste californien (um turista californiano) → une touriste californienne (uma turista californiana); un village vendéen (uma aldeia da Vendeia), une maison vendéenne (uma casa da Vendeia); un bon dessert (uma boa sobremesa), une bonne glace (um bom sorvete). Exceções: o adjetivo lapon (lapão, da Lapônia) não dobra seu “n”, e no adjetivo nippon (nipônico, japonês) a mudança é opcional, mas nos dois casos há a mesma alteração referida na pronúncia: un village lapon (uma aldeia lapona), une ville lapone (uma cidade lapona); un groupe nippon (um grupo nipônico), l’économie nipon(n)e (a economia japonesa).

Os adjetivos chou (fofo, bonito) e chouchou (queridinho) têm as respectivas formas femininas choute e chouchoute: Leur fils est chou (O filho deles é fofo) → Leur fille est choute (A filha deles é fofa), l’acteur chouchou des ados (o ator queridinho das adolescentes) → l’actrice chouchoute des ados (a atriz queridinha dos adolescentes).

Os adjetivos flou (vago, fluido) e tabou (tabu), e os findos em “-ou” que qualificam pessoas ou coisas originárias de uma região, fazem o feminino com um “e” mudo: un souvenir flou (uma lembrança vaga), une image floue (uma imagem vaga); un sujet tabou (um assunto tabu), une affaire taboue (uma questão tabu); amis hindous (amigos hindus), amies hindoues (amigas hindus); un chant zoulou (um canto zulu), la langue zouloue (a língua zulu). Exceção: o feminino de andalou (andaluz) é andalouse (andaluza): le peuple andalou (o povo andaluz), la région andalouse (a região andaluza, a Andaluzia).

A maior parte dos adjetivos terminados em “-eur” forma seu feminino em “-euse”: rêveur (sonhador, imaginativo) → rêveuse (sonhadora, imaginativa), songeur (sonhador, absorto em pensamentos) → songeuse (sonhadora, absorta em pensamentos). Exceções: certos adjetivos terminados num “-eur” derivado do antigo sufixo comparativo latino “-ior” (“-or” em português) não mudam o “r” em “s”: antérieur, extérieur, inférieur, intérieur, majeur, meilleur, mineur, postérieur, supérieur, ultérieur (anterior, exterior, inferior, interior, maior, melhor, menor, posterior, superior, ulterior). Em latim, o sufixo “-ior” era o mesmo para o masculino e o feminino, por isso, como podemos ver, esses adjetivos são de dois gêneros em português (salvo exceções como “madre superiora”).

Os adjetivos terminados em “-teur” fazem o feminino de variadas formas, conforme a etimologia da palavra (leia aqui mais detalhes em francês): dévastateur (devastador) → dévastatrice (devastadora), sauteur (saltador, que salta) → sauteuse (saltadora, que salta), libérateur (libertador) → libératrice (libertadora), enchanteur (encantador)/désenchanteur (desencantador, que desilude; palavra rara) → enchanteresse/désenchanteresse.

Os adjetivos terminados em “-ot” podem ou não dobrar o “t” (é questão de decorar), com o mesmo efeito na pronúncia: 1) jeunot (jovenzinho) → jeunotte (jovenzinha), pâlot (um pouco pálido) → pâlotte (um pouco pálida), vieillot (envelhecido, ultrapassado) → vieillotte (envelhecida, ultrapassada), sot (bobo, tonto) → sotte (boba, tonta); 2) bigot (beato, carola) → bigote (beata, carola), dévot (devoto) → dévote (devota), fiérot (soberbo) → fiérote (soberba), idiot (idiota, m.) → idiote (idiota, f.), manchot (maneta ou desastrado) → manchote (maneta ou desastrada), petiot (pequenino) → petiote (pequenina), poivrot (beberrão) → poivrote (beberrona). Chérot/chérots (pop. “de preço elevado”) serve aos dois gêneros.

Os adjetivos terminados em “x” trocam-no por “-se”: un homme jaloux (um homem invejoso/ciumento), une femme jalouse (uma mulher invejosa/ciumenta). Exceções: faux (falso) → fausse (falsa), roux (ruivo) → rousse (ruiva), doux (doce, lento) → douce (doce, lenta).

Os adjetivos terminados em “c” substituem essa letra por “-cque” ou, mais comum, “-che”: grec (grego) → grecque (grega), sec (seco) → sèche (seca; cf. acento grave), blanc (branco; “c” mudo) → blanche (branca). Exceções: turc (turco) → turque (turca), franc (franco) → franque (relativa ao povo franco) ou franche (sincera).

Os adjetivos terminados em “f” (pronunciado) substituem essa letra pela sílaba “-ve”: sportif (esportivo) → sportive (esportiva), neuf (novo) → neuve (nova), juif (judeu, judaico) → juive (judia, judaica).

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Cinco adjetivos masculinos, quando colocados antes de vogal ou “h” mudo, mudam para uma forma cuja pronúncia é idêntica à do feminino:
  • un beau garçon (um belo/bonito rapaz), un bel ami (um belo/bonito amigo), une belle fille (uma bela/bonita menina).
  • un nouveau cours (um novo curso), un nouvel étage (um novo andar), une nouvelle vague (uma nova onda).
  • un vieux voisin (um velho vizinho), un vieil élève (um velho aluno), une vieille voiture (um velho carro).
  • un fou sentiment (um louco sentimento), un fol amour (um louco amor), une folle jeunesse (uma louca juventude).
  • mou > mol > molle.

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Embora a maioria dos adjetivos fique após o substantivo que qualificam, alguns adjetivos curtos ou mais antigos na língua vão antes, entre os quais beau (bom), bon (bom), court (curto), gentil (gentil; o “l” é mudo, exceto no feminino gentille), grand (grande, alto), gros (gordo), haut (alto), jeune (jovem), joli (bonito, lindo), long (longo, comprido), mauvais (mau, ruim), petit (pequeno) e vieux (velho).

Outros adjetivos mudam de significado (para um correlato ou distinto) se são colocados antes (número 1) ou depois (número 2) do substantivo a que modificam: ancien (1. antigo, anterior; 2. antigo, velho), brave (1. bom, fiel; 2. valente, corajoso), certain (1. certo, algum; 2. certo, indubitável), cher (1. caro, querido; 2. custoso, dispendioso), dernier (1. último, final; 2. último, passado/anterior), grand (1. uma pessoa nobre, valorosa, famosa; 2. grande, alto), même (1. o mesmo, idêntico; 2. mesmo, o próprio), pauvre (1. pobre, infeliz, azarado; 2. pobre, sem dinheiro), propre (1. próprio, da pessoa mesma; 2. limpo, asseado), seul (1. único, apenas/somente = ex. “apenas os amigos”; 2. só, sozinho, solitário), simple (1. simples, mero, insignificante; 2. simples, humilde, descomplicado), vrai (1. real, efetivo, confirmado; 2. verdadeiro, verídico, fatual).



16 de julho de 2018

As noções básicas do alfabeto francês


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/alfabeto-fr




Quando dei o cursinho do TOPE na Unicamp no primeiro semestre deste ano, também fiz muitos outros materiais que agora estou transformando em postagens adaptadas pra este site. Hoje vou falar um pouco sobre o alfabeto francês, sua pronúncia, os diacríticos (acentos gráficos) e a pontuação. Infelizmente, este não é um curso completo de pronúncia, porque no curso não foi minha pretensão entrar em detalhes sobre cada grafema do francês, e eu também não tive tempo de completar o material já pronto. O que apresento aqui são os nomes das letras, as dificuldades com alguns símbolos que não existem em português e certos macetes de pronúncia, em geral ignorados nos cursos mais comuns.

Atenção: este texto contém diversos sinais do Alfabeto Fonético Internacional (IPA), então sugiro que vocês estejam bem munidos das respectivas fontes no computador ou celular, sob o risco deles não aparecerem. Também não vou explicar nem exemplificar a pronúncia de cada símbolo, o que sugiro a vocês fazerem consultando a Wikipédia em inglês (que tem verbetes específicos pra cada símbolo) ou um especialista na língua.

O alfabeto básico da língua francesa (L’alphabet fondamental) possui 26 letras, que são as mesmas do alfabeto inglês, ou do alfabeto português, após ter definitivamente incorporado as letras K, W e Y. Vamos recordar quais são:

A a - B b - C c - D d - E e - F f - G g - H h - I i
J j - K k - L l - M m - N n - O o - P p - Q q - R r
S s - T t - U u - V v - W w - X x - Y y - Z z

16 letras com sinais diacríticos (acentos gráficos) ou ligaturas formam o que os franceses chamam L’alphabet propre (O alfabeto próprio), que dá a cara particular da língua francesa:

À à - Â â - Æ æ - Ç ç - É é - È è - Ê ê - Ë ë
Î î - Ï ï - Ô ô - Œ œ - Ù ù - Û û - Ü ü - Ÿ ÿ

Seguem na tabela abaixo a lista de letras, seus nomes tradicionais, a pronúncia do nome (não necessariamente da letra!) e os diacríticos que ela pode conter ou as ligaturas que pode compor. Cada linha está dividida em quatro colunas: na primeira está a letra (lettre), na segunda está seu nome tradicional (nom traditionnel), que às vezes pode ser mais de um, na terceira está a pronúncia (prononciation) do nome da letra, figurado conforme o IPA, e na quarta está o diacrítico ou ligatura (diacritique ou ligature) que ela pode portar ou compor:


A aa/ɑ/à, â, æ
B b/be/
C c/se/ç
D d/de/
E ee/ə/é, è, ê, ë
F feffe, èfe/ɛf/
G g/ʒe/
H hache/aʃ/
I ii/i/î, ï
J jji/ʒi/
K kka/kɑ/
L lelle, èle/ɛl/
M memme, ème/ɛm/
N nenne, ène/ɛn/
O oo/o/ô, œ
P p/pe/
Q qqu, cu/ky/
R rerre, ère/ɛʁ/
S sesse/ɛs/
T t/te/
U uu/y/ù, û, ü
V v/ve/
W wdouble vé/dublə ve/
X xixe, icse/iks/
Y yi grec/igʁɛk/ÿ
Z zzède/zɛd/


Como vocês devem ter notado ou podiam perceber, o francês emprega cinco sinais diacríticos: quatro sobre vogais e um sob a consoante C. Todos são familiares, porque também se usam no português, exceto o trema, que foi abolido. Porém, deve-se atentar a que muitos deles são usados em letras que não os aceitam no português, e sua pronúncia quase sempre também é muito diferente. Vamos ver quais são?

O acento agudo (l’accent aigu): usado apenas sobre o “e” (é) para torná-lo fechado (como em “pena”).

O acento grave (l’accent grave): usado sobre “e”, “a” e “u” (è, à, ù), dando ao primeiro o som aberto (como em “erva”) e não modificando o som dos últimos, quando aparecem para evitar homografia (grafias iguais de palavras com sentido diferente); ex. à (a, para, em) e a (tem, há), (onde, aonde) e ou (ou), (lá, ali, aí) e la (art. def. “a”) etc.

O acento circunflexo (l’accent circonflexe): colocado sobre todas as vogais, menos “y” (ê, â, î, ô, û); ele abre o som do “e”, como em “erva”, e fecha o som do “o”, como em “ostra”; dependendo da região, ele alonga o som do “a”, mas no geral não há diferença fonética; e é só etimológico sobre “i” e “u”, sendo nesse caso, em geral, omitido (coût = custo, naître = nascer), exceto quando pode haver ambiguidade (ex. croit = crê, croît = cresce; mur = muro, parede, mûr = maduro).

O trema (le tréma): usado sobre o “e”, “i”, “u” e “y” (ë, ï, ü, ÿ); sobre o “e”, evita a formação de um dígrafo ou ditongo (como Noël, Gaël, Michaël), ou indica em palavras femininas que o “u” anterior deve ser pronunciado (aiguë, fem. de aigu, para se pronunciar “egü”, e não “ég”, ou ambiguë, fem. de ambigu, para se pronunciar “ãbigü”, e não “ãbíg”; atualmente o trema também pode estar no “u”); sobre o “i”, evita a formação de dígrafos ou ditongos (haïr = odiar, para se pronunciar “aírr”, e não “érr”; Loïc, para se pronunciar “loíc”, e não “luác”); sobre o “u”, usa-se em palavras mais raras, sobretudo históricas (Capharnaüm, Esaü; “au” seria “ô”); raramente no “y” de nomes próprios, também para evitar dígrafos vocálicos (município de L’Haÿ-les-Roses, se fala “laí-lerrôz”, e não “lé-lerrôz”).

A cedilha (la cédille): usada sob o “c” (ç) como em português, dando-lhe o som “ss” antes de “a”, “o” e “u”; aparece no início do pronome ça (isto) para diferenciar do pronome sa (sua, dele/a).

O francês também emprega, no geral, os mesmos sinais de pontuação do português e outras línguas europeias, com poucas diferenças de significado. Deve-se prestar mais atenção nos nomes diferentes, pois isso é importante, por exemplo, na hora de soletrar. Veja quais são, como se chamam e quando são usados:

  • A elisão (l’élision) é marcada pelo apóstrofo (apostrophe: ’).
  • Trait d’union ( - ), hífen; tiret ( – ), travessão.
  • Point (ponto final), virgule (vírgula), points de suspension (reticências: …).
  • Deux-points (dois-pontos), point-virgule (ponto-e-vírgula), point d’interrogation (ponto de interrogação), point d’exclamation (ponto de exclamação).
  • Guillemets de premier niveau (aspas de primeiro nível): usadas para citações comuns (« ») e com um espaço de distância do texto que circundam, exceto de um ponto final que lhes suceda.
  • Guillemets anglais (aspas inglesas): como as nossas (“ ”), usam-se em citações dentro de uma citação: « Il m’a dit “tout ça n’est que mascarade” sans aucun remords ».
  • Parenthèses (parênteses) e crochets (colchetes: [ ]).
  • Le tilde au-dessus du n (o til em cima do “n”): usa-se em palavras de origem espanhola (El Niño) e se pronuncia como o “nh” português ou o “gn” francês.

Vamos conhecer agora os fonemas básicos do francês padrão, isto é, os sons que diferenciam os significados das palavras. Aqui não são abordados aqui os alofones, que são as variações sonoras de um fonema derivadas do contato com fonemas adjacentes ou de um sotaque particular. No jargão, fonemas se representam entre barras, e alofones se representam entre colchetes. Veremos abaixo os fonemas relativos ao francês padrão, em grande parte baseado no sotaque de Paris, bem como algumas particularidades próprias de Paris mesma:

  • Consoantes: /p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/, /m/, /n/, /f/, /v/, /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/, /ʁ/, /l/. O fonema /ɲ/ (grafema gn) é pronunciado em geral /nj/ (ni).
  • Semivogais: /ɥ/, /w/, /j/.
  • Vogais orais (quando o ar não passa pela cavidade nasal): /a/, /e/, /ɛ/, /i/, /o/, /ɔ/, /u/, /y/, /ø/, /œ/. O fonema /ə/ (grafema e) em geral é pronunciado /ø/ ou /œ/, e o fonema /ɑ/ em geral é pronunciado /a/.
  • Vogais nasais (quando o ar passa pela cavidade nasal): /ɑ̃/ (grafemas am, an, em, em), /ɛ̃/ (grafemas im, in, um, un, às vezes en), /ɔ̃/ (grafemas om, on). Em Paris, é mais comum que esses fonemas sejam emitidos respectivamente como [ɒ̃], [æ̃] e [õ], e que o fonema /œ̃/ (grafemas um, un) seja substituído por /ɛ̃/.

Em geral, as consoantes “c”, “d”, “g”, “p”, “r”, “s”, “t”, “x”, “z” não se pronunciam em final de palavra, exceto nos casos de liaison. Em francês, a liaison (lit. ligação) é a pronúncia da consoante final de uma palavra, muda em outros casos, no começo de palavra seguinte que comece por vogal. Em geral o som original dessa consoante também se transforma:

  • C = [k]: croc de boucher [kʁo də buʃe] vs. croc-en-jambe [kʁɔk‿ɑ̃ ʒɑ̃b].
  • D = [t]: grand roi [gʁɑ̃ ʁwa] vs. grand homme [gʁɑ̃t‿ɔm].
  • G = [k]: sang neuf [sɑ̃ nœf] vs. sang impur [sɑ̃k‿ɛ̃pyʁ] (caindo em desuso).
  • P = [p]: trop grand [tʁo gʁɑ̃] vs. trop aimable [tʁop‿ɛmabl].
  • R = [ʁ]: premier fils [pʁəmje fis] vs. premier enfant [pʁəmjɛʁ‿ɑ̃fɑ̃].
  • S = [z]: les francs [le fʁɑ̃] vs. les euros [lez‿øʁo].
  • T = [t]: pot de terre [po də tɛʁ] vs. pot-au-feu [pot‿o fø].
  • X = [z]: mieux manger [mjø mɑ̃ʒe] vs. mieux être [mjøz‿ɛtʁ].

Quando a palavra termina com uma vogal nasal (-an, -en, -in, -ein, -un, -on etc.), o “n” passa a ser pronunciado na palavra seguinte e a respectiva vogal costuma desnasalizar-se: bon repas [bɔ̃ ʁəpɑ] vs. bon appétit [bɔn‿apeti], certain collègue [sɛʁtɛ̃ kɔlɛg] vs. certain ami [sɛʁtɛn‿ami]. Algumas palavras fazem a ligação, mas não se desnazalizam: aucun (nenhum), bien (bem), en (em), on (pronome indefinido), rien (nada): aucun chat [okœ̃ ʃa] vs. aucun être [okœ̃n‿ɛtʁ]. Conforme o interlocutor, podem-se ou não desnasalizar os pronomes possessivos mon, ton, son (meu, teu, seu): mon petit [mɔ̃ pəti] vs. mon enfant [mɔn‿ɑ̃fɑ̃]/[mɔ̃n‿ɑ̃fɑ̃].

O “f” quase nunca é mudo em fim de palavra, mas quando faz liaison soa “v” nos seguintes casos: neuf heures [nœv‿œʁ] e neuf ans [nœv‿ɑ̃]. De resto, o som não muda: neuf chaises [nœf ʃɛz], neuf amis [nœf ami].

Ligatura ortográfica: “e” no “o”, “o-e” ligados/colados (e dans l’o; o e liés/collés), “Œ/œ”, que nunca pode ser substituído por “OE/Oe” ou “oe” (ou teríamos um ditongo: moelle [uá], “medula, tutano”, ou um hiato: coefficient [oe]) e pode ser pronunciado:

  • Em palavras de origem latina, mais comuns em francês, como “ö” aberto /œ/ ou fechado /ø/, por vezes fazendo dígrafo com “u”: œil (olho), œuf (ovo), bœuf (boi), chœur (coro, coral), cœur (coração), manœuvre (manobra), mœurs (costumes), œuvre (obra), sœur (irmã), nœud (nó, nódulo), vœu (voto).
  • Em palavras de origem grega, eruditas e mais raras, como o “ê” português: fœtus (feto), œcuménique (ecumênico), œdème (edema), œnologie (enologia), œsophage (esôfago), œstrogène (estrogênio, mais como nosso “é”).



14 de julho de 2018

Uma breve história da língua francesa


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Por Erick Fishuk

NOTA: Este texto foi o material principal de minha aula introdutória para um minicurso de francês que lecionei no programa TOPE da Unicamp no primeiro semestre de 2018. Eu tinha as anotações bem dispersas, então resolvi transformá-las num material coeso e disponibilizar aos alunos, e depois, quando tivesse mais tempo, fazer dele uma postagem aqui do
site. A maior parte das informações listadas tem como fonte a Wikipédia em francês.

Até o século 5 d.C., na região da Gália (mais ou menos equivalente à França atual), o latim vulgar (bas latin = “baixo” latim) conviveu com o gaulês (gaulois). Não confundir com “galês”, língua do País de Gales (Reino Unido), embora ambas sejam línguas célticas. “Latim vulgar” não é um termo pejorativo, mas que remete à língua popular, não sistematizada e não erudita, ao contrário do “latim clássico” que estudamos em classe (vulgus = povo, gente, multidão).

Do século 5 ao 9, usava-se na Gália uma espécie de galo-romance, ou seja, uma forma local e particular do latim vulgar. Já se notam os inúmeros aportes germânicos (línguas aparentadas ao atual alemão) e célticos (a língua céltica mais falada na França ainda hoje é o bretão, mas também são célticas, faladas nas ilhas Britânicas, o gaélico irlandês, o gaélico escocês, o galês e o extinto manx). Não se devem entender as divisões em fases como etapas estanques e intermutáveis, mas como balizas arbitrárias que facilitam o estudo do idioma e indicam traços principais mais recorrentes em certos séculos.

Considera-se que o galo-romance se dividiu em três ramos básicos: o franco-provençal, atualmente marginal e originário da tríplice fronteira entre a França, Itália e Suíça atuais; as langues d’oïl, que incluíam, além do francês, os idiomas falados nos dois terços ao norte da França atual (picardo, valão, normando etc.) e com maior substrato germânico e céltico; e a langue d’oc ou occitano, falada no terço sul da França e dividida em vários dialetos (entre os quais o provençal, que às vezes dava nome ao grupo todo, com disputa sobre se seria ou não outra língua). Oïl (hoje oui) e oc eram duas formas de dizer “sim”: a primeira, vinda do latim hoc ille (isto aqui), e a segunda, de hoc (isto); o italiano , o português “sim” etc. vieram de sic (assim).

Considerando-se já o francês como uma língua distinta das outras irmãs “d’oïl”, costuma-se chamar francês antigo a língua do século 9 a 13, a primeira forma propriamente do idioma. Considera-se que os Juramentos de Estrasburgo (842) foram a certidão de nascimento da língua francesa. Em 14 de fevereiro, Carlos, o Calvo e Luís, o Germânico, assinaram uma aliança militar contra seu irmão Lotário 1.º, os três sendo netos de Carlos Magno. Na ocasião, Carlos fez seu juramento aos soldados aliados em língua germânica, e Luís o fez na língua românica local; os dois falares eram chamados respectivamente theodisca lingua e romana lingua. Cópias dos textos dos dois juramentos, redigidas muito tempo depois, estão conservadas até hoje.

O francês antigo tomou vocabulário de inúmeras línguas; ao contrário de outras línguas europeias, e ao contrário do francês atual (por conta dos contatos coloniais e do massivo afluxo imigratório), pegou pouca coisa do árabe. Por muitos séculos, a Europa foi dividida em grandes impérios cujas fronteiras jamais foram claramente definidas e que mudavam a cada guerra, conquista ou decisão das casas reais. A atual divisão em países é muito recente (data aproximadamente de 1918, e mesmo depois passou por profundas mudanças), e não reflete a real distribuição étnica, linguística e cultural das populações. Portanto, a forma atual do Estado-nação não deve ser naturalizada, como que refletindo reais e atávicos apanágios de povos e idiomas.

A forma normanda do francês foi introduzida por Guilherme, o Conquistador, na Inglaterra em 1066, e deixou marcas profundas na língua inglesa. Por isso, em comparação com outras línguas germânicas, o inglês moderno tem muito mais palavras de origem latina. (Das línguas germânicas hoje faladas, o inglês, o holandês, o alemão e o frísio pertencem ao ramo ocidental; o dinamarquês, o norueguês, o sueco, o islandês e o feroês pertencem ao ramo setentrional/nórdico; o ramo oriental, que incluía o gótico, foi extinto.) Por muitos séculos, o francês foi a língua da monarquia britânica, e até hoje vários slogans sobrevivem entre a realeza:

Dieu et mon droit: literalmente “Deus e meu direito”, que também se poderia traduzir “Meu direito divino”.

Honi soit qui mal y pense: “Envergonhe-se quem nisto vê malícia” (ou “Maldito seja quem pense mal disto”), lema da Ordem da Jarreteira, a mais antiga ordem militar de cavalaria britânica.

Je maintiendrai: “Eu manterei”, lema da monarquia holandesa.

Nos séculos 14 e 15, considera-se que era falado o francês médio, uma espécie de fase de transição durante uma época de desorganização política e demográfica (grande peste e Guerra dos Cem Anos), que se refletiu, portanto, na língua.

Dos séculos 16 a 18, o idioma é chamado francês clássico. Por ação do Renascimento, que chegou à França com algum atraso, a língua tomou muitos empréstimos (neologismos) gregos e latinos, mesmo quando já havia equivalentes resultantes da evolução do latim vulgar. Também se incorporaram palavras diretamente do italiano (sobretudo no domínio das artes), mas por conta das navegações, também do espanhol, de línguas ameríndias e inclusive do português (como ananas = abacaxi). No século 17, o filósofo René Descartes, considerado o pai do racionalismo moderno, escreveu pela primeira vez obras filosóficas em francês ao invés de usar o latim, como era comum na época. Um desses livros é o que se considera a fundação da filosofia moderna, Discours de la méthode (Discurso do método), composto de seis curtos capítulos. O grande filósofo e matemático Leibniz também escrevia muitas coisas diretamente em francês.

A grande virada em favor da oficialização da língua francesa foram as Ordenações (Ordonnance) de Villers-Cotterêts, decretadas em 1539 pelo rei Francisco (François) 1.º e que, entre outras coisas, impunham o francês como língua do direito e da administração, no lugar do latim e das línguas regionais, como o occitano. Até então, o francês desenvolvido em torno de Paris e da região da Île-de-France era apenas a língua da corte e da realeza, e a partir daí começou a ser imposto a todo o território, mesmo ao custo da violência e humilhação. Nessa época, falar num dos idiomas regionais que não o francês, principalmente o occitano, passou a ser visto como sinal de incultura, rusticidade e isolamento, em suma, a pessoa era um verdadeiro “caipira”. Os próprios nativos foram incorporando esse sentimento e tendo vergonha de usar suas línguas maternas. E isso não incluiu apenas os galo-romances, mas também o catalão e o basco, falados na fronteira com a Espanha.

A partir do século 18, considera-se a era do francês moderno. Dado o poderio político e militar da França, o francês se tornou língua veicular na Europa nos séculos 17 e 18, sendo conhecido e cultivado na maioria das cortes europeias. Inclusive grande parte da nobreza da Rússia falava apenas francês, quando o russo ainda era mais usado, sobretudo, no nível oral, pela população humilde. As navegações e o colonialismo ajudaram a expandir e fixar o papel internacional do francês. Contudo, estima-se que às vésperas da Revolução Francesa, apenas um quarto da população o falava, o que encarregou o novo regime de difundir essa língua como parte da “civilização” e a tornou, um tanto diferente de outros idiomas, o resultado de uma construção por grupos acadêmicos e literários.

Mesmo sem perder totalmente sua importância, sobretudo na diplomacia e nos correios, o francês cedeu sua hegemonia ao inglês após a 2.ª Guerra Mundial. Tanto que os sucessivos governos tentaram barrar a enxurrada de anglicismos que se incorporava à língua, principalmente a partir da década de 1970. Um dos pontos altos desse movimento foi a Lei Toubon, promulgada em 1994 e que deve seu nome ao político que a propôs. Contudo, como parte das restrições se tornou letra morta (já que todo idioma é uma entidade viva, não se limita por legislações e, na era da globalização, está em contato com diversas outras línguas), ela foi ironicamente chamada pelo povo de “Lei All-Good”, em referência a tout bon em francês significar “tudo bom”.

A língua francesa é uma das seis línguas oficiais da ONU (junto com o inglês, espanhol, russo, chinês e árabe), e é língua de trabalho da mesma instituição junto com o inglês. É uma das 24 línguas oficiais da União Europeia, sendo que o idioma oficial de cada estado-membro é considerado língua oficial, portanto, ao menos em teoria, tem o direito de ser traduzido e receber traduções. Ele é a única língua oficial apenas na União Postal Universal, fundada nos século 19 e hoje ligada à ONU, e à qual o inglês se juntou em 1994 como língua de trabalho. Em 2014, estimava-se que no total 274 milhões de falantes sabiam falar francês como língua materna ou estrangeira, dos quais 212 milhões o usavam diariamente, mas apenas 76 milhões seriam falantes nativos. Na Europa, os falantes se concentram na França, Bélgica, Mônaco, Luxemburgo, Suíça romanda (Suisse romande, sendo que no país também são oficiais o alemão, o italiano e o romanche, língua quase extinta do ramo reto-romance) e na região italiana do Vale de Aosta. Vários estados dos EUA têm minorias francófonas, e é falado no Canadá (província de Québec), no Haiti (com o crioulo, ou haitiano = kreyòl ayisyen) e em territórios franceses, como a Guiana (América do Sul), Saint-Pierre-et-Miquelon (nordeste do Canadá), Guadalupe e Martinica (ilhotas do Caribe). Falado em vários países africanos que eram colônias francesas, bem como na República Democrática do Congo (RDC, antigo Zaire e antigo Congo Belga), antiga colônia belga.

Um fenômeno interessante é que o francês de Québec (québécois), com sensíveis diferenças de pronúncia e vocabulário do francês parisiense (tomado como referência em quase todo o mundo), além dos numerosos anglicismos, conservou muitos traços do francês europeu do século 17. Ou seja, é como se a língua antiga da França tivesse se isolado num lugar da América e se conservado (o que não significa, claro, que não tivesse evoluído). Algo parecido ocorreu com o português brasileiro, cujas vogais em sílabas átonas não se enfraqueceram totalmente e que perdeu o “chiado” típico de Portugal (“está” = “ishtá”, “casas” = “cásash”). Este último fenômeno, por imitação popular, retornou no sotaque “carioca”, com a vinda da corte portuguesa em 1808. Da mesma forma, fora os mais diversos empréstimos, a língua haitiana evoluiu a partir de dialetos franceses dos colonizadores de diversas regiões da França, usados nos séculos 17 e 18, com traços quase ininteligíveis ou deduzíveis aos franceses de hoje.

A Organização Internacional da Francofonia (OIF) não é tanto uma associação meramente linguística, como a CPLP, mas, sobretudo, cultural, política e geopolítica. A Argélia, por exemplo, não é membro, enquanto Albânia, Bulgária, Grécia, Macedônia, Moldávia e Romênia o são, e Argentina, Coreia do Sul, México, Moçambique, Polônia, Ucrânia e Uruguai são observadores. Em geral, se chama francofonia o território histórico de língua francesa ou o conjunto de governos e instituições que usam o francês no trabalho ou nas relações, e (muito mais fluido) espaço francófono os lugares de difusão, uso ou adoção da língua francesa ou dos valores dos países francófonos. Todo dia 20 de março é comemorado no mundo inteiro o Dia Internacional da Francofonia.

Galicismos é como se chamam as palavras de origem francesa incorporadas ao português, sejam elas usadas na sua ortografia original (quando a norma culta recomenda colocá-las em itálico, mesmo que pronunciemos à brasileira) ou na sua forma aclimatada, ou seja, com grafia e pronúncia adaptadas ao português. De grande quantidade, devem-se à influência política, econômica, cultural, artística, diplomática e acadêmica exercida sobre Portugal e o Brasil desde o século 18 até, principalmente, o início do século 20; tanto que o período histórico ocidental compreendido entre 1870 e 1914, e que não teve na Europa nenhuma guerra de grande vulto, é chamado Belle Époque (“bela época”, em francês). Um dos maiores exemplos dessa influência é a grande reforma urbanística empreendida no início do século 20 no Rio de Janeiro, inspirada em iniciativa semelhante promovida antes em Paris pelo Barão de Haussmann, cujo objetivo era alargar e arborizar as ruas, segundo se diz, para melhor circulação do ar e afastar as doenças. No Rio, uma das consequências foi a remoção dos cortiços da parte central, considerados criadouros de doenças e “promiscuidade”, tendo sua população se deslocado sozinha para os morros e iniciado as famosas favelas. No século 20, só nas ciências humanas (além dos positivistas Auguste Comte e Émile Littré no século 19), deve-se notar a grande influência de Fernand Braudel, Marc Bloc, Claude Lévi-Strauss, Émile Durkheim, Jean Piaget, Louis Althusser, Nicos Poulantzas, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Jacques Derrida, Jacques Le Goff e muitas outras e outros intelectuais.

De uma lista enorme de galicismos, dentre os mais frequentes e incorporados ao português, podemos citar: baguete, bufê, champanhe, chantilly, croquete, filé, maionese, menu, omelete, patê, suflê (gastronomia); batom, bijuteria, boné, chique, crochê, maiô, pochete, sutiã, tricô, vitrine (moda e vestuário); abajur, bibelô, buquê, camelô, carnê, chassi, cupom, dossiê, maquete, marionete, placar (objetos); ateliê, avenida, boate, cabaré, cabine, chalé, creche, garagem (lugares); charrete, chofer, guidão (ou “guidom”), metrô (transportes); bege, carmim, marrom (cores); balé, pivô, raquete (esportes); avalanche, chantagem, chefe, complô, gafe, garçom, greve, reprise, revanche, turnê (domínios diversos).



12 de julho de 2018

“La Brabançonne”: hino nacional belga


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Esta interessante canção, que postei no meu canal Eslavo (YouTube) um dia depois da derrota do Brasil pra Bélgica na copa de 2018, só pra provocar, se chama La Brabançonne e constitui o atual Hino Nacional da Bélgica. O poema original completo é em francês, mas apenas a última estrofe da versão mais recente é empregada como hino e foi traduzida também pro alemão e pro holandês. A primeira letra francesa foi escrita por Alexandre Dechet, conhecido como Jenneval (1830), e a melodia é de François Van Campenhout (também 1830).

Hypolite Louis Alexandre Dechet (1801-1830), dito Jenneval, foi um comediante e poeta francês, que compôs uma letra patriótica durante a Revolução Belga de agosto de 1830, a qual levou à cisão da Bélgica face aos Países Baixos. Inicialmente com texto louvando o monarca holandês por poder ser sábio o suficiente pra resolver o conflito, ela foi modificada em setembro pelo próprio Jenneval, junto com o médico, escritor, político e poeta Constantin-François Rodenbach (1791-1846), pra repudiar a repressão holandesa contra os insurgentes. O poeta francês foi morto em outubro, lutando pela independência da Bélgica.

François Van Campenhout (1779-1848) nasceu em Bruxelas, foi cantor de ópera, violinista, maestro e compositor. De sucessiva nacionalidade francesa, holandesa e belga, foi maçom, recebeu diversas honrarias reais belgas e teve direito a uma pensão vitalícia pela composição da melodia do hino. La Brabançonne só foi oficializada em 1860, mas não sem antes Charles Rogier (1800-1885), maçom, parlamentar e duas vezes primeiro-ministro, ter decretado um novo poema de sua autoria, julgando o anterior muito anti-holandês e não consensual.

A melodia era executada tão diferentemente entre diversos músicos que em 1873 uma partitura de Valentin Bender foi declarada oficial, e em 1921 apenas a última estrofe do texto de Rogier foi mantida no hino nacional. Contudo, apenas em 1938 oficializou-se a tradução dos versos em holandês, cujo autor desconheço. Como o hino da Suíça, a versão oficial da Brabançonne é poliglota (a estrofe está nas três línguas, ou pode ser cantada uma versão mista), sendo o alemão a língua da realeza belga, e o holandês tendo na Bélgica o nome de “flamengo”. Existem outras versões não oficiais em francês, bem como uma tradução não oficial em valão, idioma aparentado ao francês.

A canção de Jenneval recebeu inicialmente o título La Bruxelloise, mudado depois pra La Brabançonne, que pode ser traduzido em português como A Brabantina ou A Brabançã, às vezes Canção de Brabante. Refere-se à região histórica de Brabant (ou Brabante), que hoje abrange um território dividido entre o sul da Holanda e o norte da Bélgica. Desde o século 9, passou pelas condições de província do Império Carolíngio, condado, ducado, domínio da Espanha e da Áustria, e enfim dividida em duas províncias, uma da Holanda e outra da Bélgica. Em 1995 a belga foi repartida em Brabante Flamenga, Brabante Valã e Região de Bruxelas.

Eu baixei o áudio deste vídeo, que tem uma linda montagem com as três letras e cujo cantor desconheço. Eu mesmo traduzi, montei o vídeo e legendei: assistam-no duas vezes, lendo primeiro o original e depois a tradução! Eu tirei os textos da Wikipédia inglesa, e usei a tradução dela pra entender melhor o holandês. Na parte holandesa em que aparece kracht (força), o cantor diz hart (coração), repetição que aparece em algumas versões da letra na internet. Mas decidi manter kracht por ser o texto oficial. Seguem minha legendagem, o texto nas três línguas e a tradução em português:


____________________


Francês:
Noble Belgique, ô mère chérie,
À toi nos cœurs, à toi nos bras,
À toi notre sang, ô Patrie !
Nous le jurons tous, tu vivras !
Tu vivras toujours grande et belle
Et ton invincible unité
Aura pour devise immortelle :
Le Roi, la Loi, la Liberté !
Aura pour devise immortelle :
Le Roi, la Loi, la Liberté !
Le Roi, la Loi, la Liberté !
Le Roi, la Loi, la Liberté !

Alemão:
O liebes Land, o Belgiens Erde,
Dir unser Herz, Dir unsere Hand,
Dir unser Blut, o Heimaterde,
Wir schwören’s Dir, o Vaterland!
So blühe froh in voller Schöne,
Zu der die Freiheit Dich erzog,
Und fortan singen Deine Söhne:
Gesetz und König und die Freiheit hoch!
Und fortan singen Deine Söhne:
Gesetz und König und die Freiheit hoch!
Gesetz und König und die Freiheit hoch!
Gesetz und König und die Freiheit hoch!

Holandês:
O dierbaar België, o heilig land der vaad’ren,
Onze ziel en ons hart zijn u gewijd.
Aanvaard ons kracht en het bloed van onze ad’ren,
Wees ons doel in arbeid en in strijd.
Bloei, o land, in eendracht niet te breken;
Wees immer uzelf en ongeknecht,
Het woord getrouw, dat g’ onbevreesd moogt spreken,
Voor Vorst, voor Vrijheid en voor Recht!
Het woord getrouw, dat g’ onbevreesd moogt spreken,
Voor Vorst, voor Vrijheid en voor Recht!
Voor Vorst, voor Vrijheid en voor Recht!
Voor Vorst, voor Vrijheid en voor Recht!

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Francês:
Nobre Bélgica, oh mãe querida,
A você nossos corações e braços,
A você nosso sangue, oh Pátria!
Juramos todos: você vai viver!
Vai viver sempre grande e bela
E sua unidade invencível
Vai ter como divisa imortal:
O Rei, a Lei, a Liberdade!
Vai ter como divisa imortal:
O Rei, a Lei, a Liberdade!
O Rei, a Lei, a Liberdade!
O Rei, a Lei, a Liberdade!

Alemão:
Oh país amado, terra da Bélgica,
A você nosso coração, nossa mão,
A você, torrão natal, nosso sangue,
Juramos a você, oh Pátria!
Floresça alegre com toda beleza
Para a qual a liberdade criou você,
E desde agora seus filhos cantam:
Vivam a Lei, o Rei e a Liberdade!
E desde agora seus filhos cantam:
Vivam a Lei, o Rei e a Liberdade!
Vivam a Lei, o Rei e a Liberdade!
Vivam a Lei, o Rei e a Liberdade!

Holandês:
Oh querida Bélgica, terra santa dos ancestrais,
Dedicamos alma e coração a você.
Aceite nossa força e o sangue de nossas veias,
Seja nossa meta no trabalho e na luta.
Floresça, país, em concórdia inquebrável;
Seja sempre autêntica, e nunca servil,
Fiel ao lema que você pode dizer sem medo:
Pelo Monarca, pela Liberdade e pela Lei.
Fiel ao lema que você pode dizer sem medo:
Pelo Monarca, pela Liberdade e pela Lei.
Pelo Monarca, pela Liberdade e pela Lei.
Pelo Monarca, pela Liberdade e pela Lei.




10 de julho de 2018

Sejamos nossos próprios heróis (2010)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/herois




Por Erick Fishuk

NOTA: Publiquei este texto no meu antigo
blog “Pensadores Libertos” no dia 3 de julho de 2010, por ocasião da eliminação do Brasil na copa da África do Sul, diante da seleção da Holanda. Lembrei-me dele outro dia, quando o Brasil novamente foi eliminado nas quartas-de-final pela Bélgica, e eu o tinha guardado desde o apagamento do blog, mas nunca o abri de novo pra ler. Fiquei impressionado com diversas coisas: os fatos da época que eu já tinha esquecido, a diferença daqueles tempos com a atualidade, minha ênfase no ateísmo e no socialismo como filosofias, a ingenuidade com que tratava, então e antes, certos eventos da vida... e, sobretudo, com o cumprimento da profecia de que cada vez menos eu me preocuparia com copas. (Na verdade, me impressiono como eu sabia tantos detalhes em 2010!) Vocês também podem se impressionar comparando nomes e fatos que citei com o que houve depois. Claro que minhas crenças mudaram (acho que hoje confio menos nas pessoas, menos ainda na CBF e na Globo, rs), minha escrita hoje é menos pedante e muitos tópicos eu nem botaria em discussão. Mas assumo que ainda subscrevo a lição filosófica essencial dessas reflexões.

Olá a todas e todos! Pois é, o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo da FIFA, e baixou em vários ambientes o mesmo clima baqueado das derrotas de 1998 e 2006, às quais pude presenciar respectivamente como estudante do primário e calouro de História da UNICAMP. Obviamente não recebi bem esse fato, pois também sou brasileiro, e não posso negar minha empatia pela Seleção, mas desta vez preparei melhor meu psicológico para uma eventual derrota – e já o havia feito no jogo anterior, contra o Chile. Não, é claro, que das outras vezes tivesse ficado bastante abatido, mas por mera falta de preparo intelectual aumentava a situação mais do que me permito aumentar atualmente, e creio que com o passar dos anos a não enorme importância que concedi este ano se reduzirá a praticamente zero. Posso parecer pouco simpático ao torcedor roxo, mas tenho justificativas à minha postura, e o que ele me pode imputar como hipocrisia pago com a acusação de incoerência e falso patriotismo.

Bem, vamos aos fatos. Seria imperdoável alienação menosprezar o futebol como marca de nossa nacionalidade, algo que pelo menos ultrapasse as fronteiras de nossas inúmeras culturas regionais e mostre-se como um fator comum de identidade e coesão. Mas o que ele significa institucional e socialmente? Institucionalmente, os grandes times são entidades privadas que, assim como qualquer outra indústria ou empresa congênere, empregam assalariados, buscam o máximo de lucro possível e lançam mão de todos os meios para ultrapassar as concorrentes em seus números e na preferência do consumidor-torcedor. Atuam sob algumas restrições do Estado, mas impera em seu funcionamento a livre iniciativa e a administração corporativa centralizada em uma ou mais instituições municipais, estaduais e nacionais. Socialmente, por serem entidades privadas, não têm como obrigações a busca da mitigação dos nossos problemas sociais, o incremento da prosperidade da população e o direcionamento das descobertas científicas e tecnológicas em benefício do maior número possível de pessoas.

Qual é a conclusão mais evidente? O futebol brasileiro oficializado, grosso modo, não é uma instituição de interesse público, e seus principais beneficiários são aqueles que mais diretamente se envolvem, ou seja, os jogadores, as comissões técnicas, os empresários, os “cartolas” e os presidentes dos órgãos de controle. Que torcer, apesar de tudo, faz bem, duvido muito: que o digam os hipertensos, os cardíacos e quem gasta muito com bandeiras, camisas e ingressos sem receber em troca nada mais do que a alegria de um punhado de pessoas bastante ricas e que se esquece dos velhos torcedores em prol dos contratos mais milionários do planeta. Definitivamente, amor à camisa não presta se quem a usa em serviço não vivencia tal sentimento. Porém, ainda é grande minha fé no esporte como um dos elementos salvadores de crianças e jovens marginalizados, mas não desse esporte elitista e desgastante, mas do esporte que difunde os valores da honestidade e da superação, que socializa, que cimenta as comunidades, que reúne as famílias, que cria amizades e que, acima de tudo, promove um incalculável bem-estar mental e físico. E não somente pelo velho e querido “ludopédio”, mas também por outros jogos a ser democratizados entre as camadas econômicas menos favorecidas.

O que pode haver de hipócrita no meu discurso é evidente: o modo como os grandes torneios esportivos acompanhados por grandes massas desvia a atenção de problemas sociais e políticos mais graves. (Não digo econômicos, porque nesse sentido o Brasil está, no momento, relativamente são.) Sim, não existem apenas problemas na sociedade brasileira, e todos devem divertir-se, afinal, ninguém gosta de apenas pensar em tragédias. O que me incomoda é o grau de mobilização e comoção que uma copa do mundo pode causar, ao contrário de outras causas mais prementes, muitas delas ranços históricos de nossa trajetória: nada consegue unir as pessoas das mais variadas origens e adesões, nada cria pretextos para a interrupção do trabalho e a redução do tráfego urbano, e, em caso de derrota, nada deixa as pessoas comuns mais indignadas e bravas com os supostos “responsáveis” (no caso de ontem, ressaltam-se os nomes do técnico Dunga e do volante Felipe Melo).

Nos jornais de ontem, contudo, destacou-se mais uma burla da Lei da Ficha Limpa, já inócua em sua criação por deixar inúmeras brechas que agora mostram sua força no tradicional jogo da conciliação e do “jeitinho”. Dentre tantos que poderia citar, a corrupção é o maior de nosso males; suas manifestações mais corriqueiras, que não são mais capazes de nos comover, são as conhecidas “cervejinha” para o guarda de trânsito, a “cola” na prova, as fraudes em concursos públicos, os superfaturamentos em obras estatais, a compra de documentos falsos e outras. Não é o dinheiro que corrompe, mas o poder que ele proporciona; não duvido muito que já tenha corrompido também o futebol. O presidente Lula, que se disse “profundamente triste” com a partida, deveria sentir-se mais triste ainda com o despreparo no socorro a vítimas de grandes catástrofes naturais e, para não fugir do assunto, com seu insucesso em moralizar a administração pública e minar os focos de coronelismo político ainda existentes no interior da nação.



Longe de mim insinuar diretamente, como li em certos comentários na internet, que nosso fracasso foi “comprado”, ainda que, diante de tantas insinuações levantadas nos bastidores das copas, a melhor postura na análise seja o agnosticismo. Longe de mim, sobretudo, vomitar julgamentos definitivos sobre questões burocráticas, táticas ou físicas, porque sou suficientemente leigo no assunto para que a confiabilidade de minha opinião seja nula. Assim, penso que (ao menos) os merecidos elogios pelo trabalho da equipe brasileira envolvem-se de alguma humildade e despretensão. Todos trabalharam muito, não se pode negar isso; deu-se o máximo de si, e os razoáveis resultados na copa mostram uma qualidade ainda alta em comparação a outros times. Dunga pode não ter feito uma boa escalação ou uma preparação arejada e consistente, mas foram admiráveis a luta até o fim e a coragem de dar a cara a bater diante da torcida mais exigente do mundo. Cinco títulos pesam, por mais que não sejam suficientes para ganhar partidas, todavia aumentam a pressão psicológica nos responsáveis pelos resultados. E essa pressão terminou por predominar sobre a habilidade marota do primeiro tempo, simbolizada no gol e no frequente “jeito moleque” de Robinho. Julio Cesar, se não foi o maior dos heróis, está entre eles: defesas sensacionais e franqueza de caráter. Todos os outros fizeram sua parte, e mesmo aqueles de quem foram cobrados gols não feitos deixaram sua marca na luta. E sobre Dunga, tão taxado de “burro”, não se pode esquecer de que chegar até onde chegou, com tudo o que conquistou, não é para qualquer um, mas talvez seu erro fatal tenha sido pensar que somente a razão leva coletividades e individualidades à vitória.

Para todo o time, o pior mesmo – e exatamente por isso já são campeões – é aguentar de cabeça erguida 190 milhões de “técnicos” com suas vuvuzelas arrotando um conhecimento mínimo do futebol profissional e deixando-se levar por modismos e “estrelismos” que conduziram a uma queda mais vergonhosa em 2006. Nem faço ideia se Neymar e Ganso, tão alardeados até mesmo na propaganda de um fabricante de presuntos e salsichas, fariam alguma diferença, pois sequer acompanho os campeonatos nacionais. Entretanto, acho uma baita falta de desonestidade intelectual guardar consigo a inabalável certeza de que sua rejeição teria sido fatal: trabalhar com hipóteses, com “e se...”, não faz parte de um raciocínio saudável. Muitas pessoas que se deixam levar por slogans atraentes mostram grande incoerência ao atribuir inépcia ao treinador, apoiar-lhe incondicionalmente nas ridículas campanhas twitterianas (até quando vão adiar a estilingada final nesse maldito passarinho?) “Cala boca Galvão” e “Cala boca Tadeu Schmidt” e, por fim, voltar ao reflexo de insatisfação. Enoja-me também a inundação de carros, casas e prédios com bandeiras a cada quatro anos, para nos outros três haver reclamações a respeito do país, a contribuição com seus defeitos atávicos – como a falta de ética e a superstição – e a eleição política de pessoas erradas – Maluf, Collor e Sarney continuam na ativa, e se formos néscios o suficiente, elegeremos o tecnicista Serra para acabar de vez com o maior patrimônio que poderíamos legar a nossos descendentes: a educação.

Parece-me que nosso povo ainda tem uma necessidade muito grande do “transcendente”. Tentarei definir o conceito para nossos fins: uma figura humana ou antropomórfica mitificada, de existência real ou fictícia, que encarna os valores ideais de uma sociedade, inalcançáveis ao simples mortal, extraordinários, quase sobre-humanos, e que exerce um papel de coesão, de identidade, de quase anestesia ou mesmo de manipulação desse grupo humano. A religião é a forma mais antiga de transcendência: crenças míticas ainda absorvem nossas grandes aspirações e afastam momentaneamente as dores corporais e espirituais. Na política, forjaram-se também pessoas exemplares, dignas (ou indignas) de contemplação e imitação, como Lenin e Stalin para os comunistas mais antigos e Che Guevara para a juventude “revolucionária” de hoje. No Brasil, durante o século 20, tomaram vulto, diante dos nossos constantes entraves políticos e econômicos, as transcendências esportivas, talvez sendo Pelé a primeira e mais duradoura; Ayrton Senna foi outra, e inúmeros futebolistas ainda se prestam a esse papel. Na música, há vários, e Roberto Carlos e Chico Buarque, por exemplo, não sem justiça, representam o melhor do Brasil aqui e lá fora. São os famosos “heróis”: neles as massas depositam suas esperanças em troca de uma breve alegria, de um fugaz momento de superioridade sobre outras nações. Como outras formas de transcendência, servem de poderosos analgésicos para nossas angústias, às vezes em benefício das classes dominantes.

O que devemos perceber de uma vez por todas é que devemos ser nossos próprios heróis. Precisamos ser a medida de nós mesmos. É nossa obrigação encarar a realidade com os pés no chão e não esperar que os outros resolvam nossos problemas. Apenas nós fazemos a diferença que queremos ver no mundo, como dizia Gandhi, e podemos começar pelo nosso próprio país, ou mesmo nosso bairro, nossa comunidade esportiva, laboral, eclesiástica, cultural ou escolar. A copa da FIFA é realmente um evento interessante, culturalmente importante, mas a maioria das pessoa precisa envolver-se com ela de modo mais pensado e mais racional – ainda que, como eu disse, somos também feitos de emoção. E um dos primeiros passos é perceber que os reais beneficiários dos títulos não somos nós, gente comum; estrelas a mais sobre nosso escudo podem fazer diferença ao jogador que busca emprego no exterior, mas não ao imigrante ilegal, ao trabalhador braçal que busca ganhar a vida em países mais desenvolvidos ou ao turista muitas vezes barrado por agentes e policiais truculentos. Aliás, se o esporte também não está direcionado para a mudança social, vitórias isoladas não surtem efeito; sempre houve, claro, esportistas que pensavam da mesma forma, mas além de serem exceções, tal política deveria ser uma atitude não só “de cima”, mas também “de baixo”, das comunidades, ou mesmo do Estado, que promoveria um desenvolvimento nunca visto antes se soubesse garimpar, como fizeram muitos outros países, seus maiores talentos desportivos, intelectuais, científicos e médicos.

Enfim, chega de heroísmo barato! Afinal, como diz a famosa canção socialista A Internacional, “Messias, Deus, chefes supremos, nada esperemos de nenhum! Sejamos nós quem conquistemos a Terra-Mãe livre e comum! Para não ter protestos vãos, para sair deste antro estreito, façamos nós por nossas mãos tudo o que a nós diz respeito!” E que o próximo mundial, a ocorrer no Brasil, seja fonte de prosperidade para todos, e não apenas para grupos econômicos restritos.