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24 de março de 2019

Ser ateu é bom? 3 – Ter ou não ter fé?


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NOTA: Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. Na parte 3, “Ter ou não ter fé?”, relativizo o chavão de que o ateu seja necessariamente uma pessoa seca, amarga, apática ou obscura, coisas que na verdade ocorrem quando não se tem uma meta na vida. Pelo contrário, se antes as crenças religiosas podiam nos inibir, agora nos sentimos senhores de nosso destino e livres pra edificar uma felicidade real. Isso, claro, exige responsabilidade, pois não podemos atribuir nossas falhas a forças maiores nem atrapalhar a liberdade alheia. Segue abaixo o texto sem alterações.



Uma acusação quase sempre imputada ao ateu é a de que ele “não tem fé em nada”, ou seja, leva uma vida seca, sem regras, obscura e triste, portanto, sem moralidade, sem freios aos impulsos naturais e sem motivos para respeitar as outras pessoas. Assim, o ateu seria naturalmente alguém vazio e, ocasionalmente, até criminoso. Pode-se contrapor a isso que a fé, entendida como crenças pessoais, não é uma exclusividade das religiões, e que um ateu, por isso, pode levar uma existência radiante e plena de significado.

É claro que dizer que o ateu pode adotar princípios individuais edificantes não significa que ele deva fazê-lo, ou que sempre o faça. Não existem regulamentos que determinem no que o ateu deve ou não acreditar ou seguir, até porque, como eu já disse, o ateísmo por si só é a “crença numa ausência”, por isso não implica valores positivos compulsórios. Desse modo, podem existir ateus muito desorientados, mas o fato principal é que nem todo religioso alcança a felicidade e a satisfação com seus dogmas. Às vezes, eles lhe foram impostos de fora, sem escolha consciente, e se incrustaram em seu psicológico, constituindo, pois, mais um fardo do que um guia de aconselhamento. Esse foi o meu caso, e por isso meu rompimento com a religião foi mais doloroso.

Agora, uma questão crucial. Estudos clínicos dizem que as pessoas ativamente religiosas (trocando em miúdos, as que têm mais fé) vivem mais e são menos propensas a ficar doentes. E é verdade, além do que suas crenças constituem muitas vezes um consolo na fraqueza ou na iminência da morte. Admito isso, mas outras pesquisas também apontam que a moralidade não vem da religião, mas sim, de fatores bastante terrenos, desligados do seguimento a este ou aquele mito específico. Vamos tentar extrair um denominador comum: confiança em si, autonomia intelectual e perspectiva de um futuro cheio de planos ligados à realização pessoal. Pronto: o fator esperança!

A esperança, sim, é o denominador comum de todas as formas de confiança nos próprios princípios e na própria capacidade de superar problemas. Ela provém da consciência do quanto somos importantes para nós mesmos, para nosso círculo íntimo ou talvez até para grupos maiores. E como cada ser humano é um universo em si, apenas ele mesmo irá determinar o que desperta sua segurança. Deve-se reconhecer que a religião tem fatores que a deixam na frente, como a mitologia costumeiramente otimista e grandiloquente, o ritualismo hipnotizador e o senso de pertencimento a uma comunidade unida e solidária. Contudo, nada que possa ter papel diferente da leitura ou contato com exemplos de vida enobrecedores, da fruição do que há de melhor na arte visual e musical e de um círculo de amigos ou coidealistas fiel e sincero.

Além disso, a lista de prioridades ético-sociais (sempre ligada, como se afirmou acima, a uma suficiente autoestima e a um conhecimento da importância do sujeito para o meio em que vive) varia muito de acordo com as experiências particulares. Um ponto pacífico é que, por razões evolutivas e históricas, nunca nos sentimos bem ou seguros quando os outros são prejudicados (ao menos que sejamos vítimas de um rancor anormal), já que cada vez mais ampliamos nossa capacidade comunitária existente desde a condição de primatas. E o que condiciona a manutenção desse estado é justamente a liberdade para que todos sejam si mesmos, desde que isso não prive os vizinhos do mesmo direito. E, o mais importante, nós mesmos não nos privarmos de tal desfrute, seja por pressões internas ou externas à nossa mente.

Encontramos, finalmente, a essência da “fé do ateu”, se é que pode ser assim chamada e se é que, por vicissitudes próprias, todos comungam desta mesma qualidade: o fim da escravidão às unanimidades forçadas e a coragem de se colocar como subjetividade autônoma, cujas vivências e contribuição ao mundo têm valor igual ou maior ao de iluminações privadas transformadas em códigos imutáveis, idólatras e alienantes.


Bragança Paulista, 25 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 16 de julho de 2012.


22 de março de 2019

Tito e Fidel, comunistas dos anos 1960


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Estes dois vídeos meus na TV Eslavo (YouTube) foram iniciativas de postagem isoladas, por isso não se encaixavam a princípio num tema comum que pudesse ser transformado num texto desta página. Mas sendo filmagens com dois líderes destacados do movimento comunista no início dos anos 1960, achei que valia a pena apresentá-los juntos aqui. Nessa década, o movimento comunista chegaria ao auge de seu prestígio, e as lutas anticoloniais e de libertação nacional, apoiadas ainda pelos chamados “países não alinhados”, constituiriam um novo campo fértil pra experiências políticas vindas de Moscou.

Contudo, a partir do fim da década, sobretudo depois da intervenção contra as reformas na Tchecoslováquia em 1968, a popularidade do comunismo soviético caiu gradualmente. Desde o mesmo ano, com as explosões de revolta juvenil em Paris e outras capitais ocidentais, o maoismo chinês parecia ser uma nova alternativa, mas ele também logo se revelaria autoritário e dogmático. Tito, da antiga Iugoslávia, tinha ganhado prestígio como chefe da resistência antifascista nos Bálcãs, mas sua experiência já estava fortemente institucional. Fidel Castro, de Cuba, gozava da aura jovem que passava a maioria dos líderes de sua revolução, e ainda hoje exerce razoável fascínio nas esquerdas latino-americanas. Mas o experimento real do socialismo cubano perdeu grande parte da atratividade, pois as lideranças não se renovaram, Fidel morreu em 2016 e as presentes reformas convivem com estagnação e pobreza.



O primeiro vídeo é um trecho de documentário soviético que eu mesmo já traduzi e legendei, contando a visita de Fidel Castro Ruz, líder de Cuba, a Moscou e outras localidades da URSS em 1963. Comandante da Revolução Cubana de 1959, ele está fazendo o encerramento do discurso aberto ao público em 28 de abril, na tribuna do mausoléu de Lenin na Praça Vermelha. Parece que só existe uma cópia sem legendas da cinecrônica inteira no YouTube, postada por alguém que fala espanhol e ainda com poucas visualizações.

Na montagem que eu fiz, vocês podem escutar o discurso três vezes, com legendas em português, espanhol (língua original) e russo. Nesta edição em PDF do jornal soviético Krasnoe znamia podem-se ler os discursos completos de Nikita Khruschov e Fidel Castro em russo. Como o que foi dito durante a interpretação consecutiva não é idêntico ao que foi transcrito no jornal, segue o texto em russo, com algumas divergências entre colchetes:

“Позвольте мне от полноты чувств [как самое справедливое выражение моих чувств] [в честь того, кто больше был достоин] воскликнуть – слава Ленину! Да здравствует пролетарский интернационализм! Да здравствует дружба между кубинским и советским народами! Да здравствует Советский Союз! Родина или смерть! Мы победим!”

(Permitam-me, como a mais justa homenagem a quem teve o mérito maior, exclamar: Viva Lenin! Viva o internacionalismo proletário! Viva a amizade entre o povo soviético e o povo cubano! Viva a União Soviética! Pátria ou morte! Venceremos!)



O segundo vídeo são breves frases de um famoso discurso público de Josip Broz, o Marechal Tito, presidente da Iugoslávia socialista, feito na cidade croata de Split, em 7 de maio de 1962. Um vídeo com os principais trechos do discurso está há mais de 10 anos no YouTube, mas nunca achei a transcrição da fala. Mesmo tendo estudado um pouco de servo-croata por algum tempo, ainda não me sinto capaz de transcrever só de ouvido, até porque às vezes o líder fala meio rápido.

Só sei que na Biblioteca de Belgrado há um exemplar, não disponível online, desse discurso completo em Split, e certamente sem grandes alterações. Após algum esforço, consegui achar apenas a transcrição da segunda parte deste vídeo, cujo editor felizmente lhe melhorou a qualidade. São dois trechos isolados, usuais em sites de citações. O grande problema foi que, assim como outros trechos do discurso, não consegui achar nem mesmo o que Tito fala na primeira parte.

Comparando com várias fontes e com o áudio de Tito, eu mesmo fiz uma transcrição fixa, traduzi, legendei e cortei o quadro e alguns trechos do upload citado, cujo canal recomendo que vocês visitem com mais atenção. Ao final, Druže Tito, mi ti se kunemo (Camarada Tito, somos fiéis/leais a você) era uma espécie de refrão popular cantado na época da ditadura, sob diferentes versões. Seguem o texto em servo-croata (alfabetos latino e cirílico) e as traduções em português e francês (esta feita pra um grupo de debates):

“Mi smo more krvi prolili za bratstvo i jedinstvo naših naroda. E nećemo nikome¹ dozvol’ti da nam dira ili da nam ruje iznutra, da se ruši to bratstvo i jedinstvo. [...] Ni jedna naša republika ne bi bila niko i ništa, da nismo svi zajedno! A mi moramo stvarati... a mi moramo stvarati svoju istoriju, svoju jugoslavensku² socijalističku istoriju i jedinstvenu ubuduće.”

¹ Forma mais comum: “nikomu”.
² Forma mais comum: “jugoslovensku”.

“Ми смо море крви пролили за братство и јединство наших народа. Е нећемо никоме дозвол’ти да нам дира или да нам рује изнутра, да се руши то братство и јединство. [...] Ни једна наша република не би била нико и ништа, да нисмо сви заједно! А ми морамо стварати... а ми морамо стварати своју историју, своју југославенску социјалистичку историју и јединствену убудуће.”

(Derramamos um mar de sangue pela fraternidade e unidade de nossos povos. E não permitiremos que ninguém nos ataque, nem conspire de dentro, nem destrua essa fraternidade e unidade. [...] Nenhuma república nossa seria algo ou alguém se não estivéssemos todos juntos. E devemos escrever... e devemos escrever nossa própria história, nossa própria história socialista iugoslava e unida para o futuro.)

(Nous avons versé une mer de sang pour la fraternité et l’unité de nos peuples. Nous ne permettrons pas que personne ne nous attaque, conspire de dedans, détruise notre fraternité et unité. Aucune république à nous ne serait rien si nous n’étions pas tous ensemble. Nous devons créer notre propre histoire socialiste yougoslave et unie pour l’avenir.)




20 de março de 2019

Ser ateu é bom? 2: ciência e subjetivos


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ateubom2


NOTA: Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. Na parte 2, “Ciência e subjetividade”, critico a elevação da atividade científica como se fosse uma nova espécie de verdade imutável e afirmo que a maior missão do ateísmo deve ser a busca por uma nova escala de valores e de vivência pessoal da realidade. Isso porque, segundo penso, o excessivo cientificismo também pode levar a extremos autoritários. Segue abaixo quase inalterado.



Muitas vezes, o ateísmo é associado a uma sobrevalorização da ciência, e de fato, quando deixam de seguir os regulamentos religiosos, os ateus costumam guiar sua vida e seu raciocínio pelas descobertas científicas e pela autonomia crítica. Porém, é um erro pensar que a ciência é uma nova deusa que resolve todos os problemas, e mesmo o ateu que pensa assim termina por castrar sua inteligência e seus sentimentos.

Na sociedade ocidental, ciência e religião só começaram a separar-se na prática por volta do fim da Idade Média, no início da revolução renascentista. Antes, não se desligavam os ofícios eclesiásticos das atividades intelectuais, e por isso tantas igrejas originaram universidades, e tantos sacerdotes foram homens de letras e de investigações empíricas. A laicização do Ocidente fez com que se reconhecesse oficialmente essa separação epistemológica efetiva entre produção do conhecimento e serviço espiritual.

No contexto cultural ocidental, a negação de Deus está relacionada à superação das categorias duais corpo/mente, carne/espírito, razão/emoção e outras correlatas, intrínsecas ao encontro da filosofia neoplatônica com a patrística cristã. Outras civilizações trataram de abordar os mistérios do pensamento e da realidade em termos bastante diferentes, ou até mesmo mais integrados, e por isso “seus” ateus e secularistas podem raciocinar com leves diferenças. Mas agora, cabe tentar fechar o círculo que frequentemente vincula o ateísmo ao primado da apreensão da realidade bruta.

A partir da laicização citada acima, os benefícios trazidos pelo progresso técnico implicaram num gradual reconhecimento de sua utilidade e predominância sobre as concepções mágicas do mundo. Porém, eles também evoluíram lentamente em doutrinas que julgaram ser a percepção exterior passiva a única forma de encontrar a si mesmo no mundo, negando, portanto, qualquer valor das particularidades de cada sujeito na construção do próprio ser. Essa “ditadura da objetividade” descambou nos totalitarismos e formas de supressão da subjetividade conhecidos no século 20, e fez com que muitos oportunistas clericais caíssem no outro extremo ao conferir à iluminação divina o único mérito pelo conhecimento autêntico, ou ao menos pregassem a existência de uma “dimensão religiosa” inerente a todos (que não seria uma ideia má se não fosse imbricada à própria crença de quem a postula).

Mas seria desagradável voltar à situação de antes. Nem mesmo para os laicos a tentação dualista confere produtividade na apreensão do meio, e certamente um imanentismo saudável, que considere a validade igual das contribuições pessoais e dos compartilhamentos coletivos, acabe de vez com a perpetuação de categorias que escravizam o Ocidente há dois mil anos. Não se trata mais de lutar de modo quixotesco contra seres mitológicos, mas, acima de tudo, de extirpar os autoritarismos de nosso modo de pensar e de agir: tanto o do “corpo do povo” que tiraniza o indivíduo quanto o do sonho privado jogado goela abaixo dos subordinados ou concidadãos.

Assim, chegamos à conclusão de que um passo importante do “fato ateu” é superar, ao mesmo tempo, o fracionamento das experiências humanas em partes desconectadas e a supressão do eu em prol de falsos universais, mais semelhantes à castração a ser combatida do que à emancipação humana pretendida com o fim da religião.


Bragança Paulista, 24 de setembro de 2011.
Levemente alterado a 13 de julho de 2012.


18 de março de 2019

Bobby Solo: Una lacrima sul viso, 1964


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/lacrima




Esta é a famosa canção romântica italiana Una lacrima sul viso (Uma lágrima no/sobre o rosto), cantada pelo artista Bobby Solo e gravada em disco pela primeira vez em 1964. Ela é composição conjunta do próprio cantor com o letrista, produtor e escritor Giulio Rapetti “Mogol” (n. 1936), com a qual ele concorreu no Festival de Sanremo de 1964. Eu mesmo traduzi, legendei e cortei o quadro do vídeo original.

Como se lê na Wikipédia italiana, a letra “descreve os sentimentos de um homem que descobre os sentimentos de uma garota por meio de uma lágrima no rosto dela; descoberta que leva a florescer o amor recíproco”. Naquela edição de Sanremo, Bobby Solo dividiu o palco com o cantor americano Frankie Laine, que interpretou uma versão em inglês da música, com o nome For Your Love. Por sua semelhança com Elvis Presley, Bobby foi a revelação do festival, mas na final ele teve de atuar usando um playback, pois tinha sido acometido por uma laringite. Como isso infringia o regulamento, a canção não venceu o concurso, mas por 8 semanas Una lacrima sul viso ficou no topo das paradas. Na sequência, foi produzido um filme com o mesmo título, do gênero então chamado musicarello, no qual Bobby Solo atuou com Laura Efrikian, a mesma de Gianni Morandi que já citei outras vezes.

A música de Bobby e Mogol saiu em fevereiro de 1964 num compacto junto com a faixa Non ne posso più, álbum que vendeu 3 milhões de cópias no mundo todo e ganhou um disco de ouro. Vários outros cantores regravaram a canção, assim como músicos que lhe deram versões instrumentais, e ela também apareceu em filmes de diversas origens. Porém, como Roberto Satti (nome real de Bobby Solo) não era então registrado na Sociedade Italiana de Autores e Editores, quem assinou Una lacrima sul viso com Mogol, sob o pseudônimo Lunero (como podemos ver no upload original), foi Iller Pattacini (1933-2006), músico, compositor, arranjador e maestro italiano. Nascido em 1945 numa família do nordeste, Bobby já se interessava por rock e por Elvis (a quem imitava) desde adolescente, e já em 1963 gravaria seu primeiro compacto. O ápice do sucesso se deu nos anos 60, tendo se dedicado na década seguinte mais à produção e, depois, voltado gradualmente à cena, com carreira prolífica até hoje.

Esta é das muitas canções que, por ter sido “top” na Itália, também chegou a ser muito admirada no Brasil, sobretudo nos centros urbanos do Sul e do Sudeste com ascendência italiana. Muitas senhoras de idade sempre se recordam dela, e há alguns anos, antes do império das redes sociais, vídeos com apresentações de Bobby Solo ao vivo circulavam pelos e-mails. Como, por isso, a conheço há bastante tempo, tenho um carinho especial por ela. A letra é bem conhecida, então pode ser encontrada em diversas fontes, tendo eu feito apenas uns reparos redacionais. Seguem abaixo a legendagem que postei na TV Eslavo (YouTube), a letra em italiano e a tradução em português:




Da una lacrima sul viso
Ho capito molte cose.
Dopo tanti, tanti mesi, ora so
Cosa sono per te.

Uno sguardo ed un sorriso
M’han svelato il tuo segreto:
Che sei stata innamorata di me
Ed ancora lo sei.

Non ho mai capito,
Non sapevo che...
Che tu, che tu,
Tu mi amavi ma,
Come me, non trovavi mai
Il coraggio di dirlo, ma poi...

Quella lacrima sul viso
È un miracolo d’amore
Che si avvera in questo istante per me,
Che non amo che te.

Non ho mai capito,
Non sapevo che...
Che tu, che tu,
Tu mi amavi ma,
Come me, non trovavi mai
Il coraggio di dirlo, ma poi...

Quella lacrima sul viso
È un miracolo d’amore
Che si avvera in questo istante per me,
Che non amo che te...
Che te, che te...
Te...

____________________


Por uma lágrima no rosto
Pude entender muita coisa
Após tantos meses, agora sei
O que represento para você.

Um olhar e um sorriso
Me revelaram seu segredo:
Você tinha paixão por mim
E ainda está apaixonada.

Eu nunca compreendi,
Eu não sabia que...
Que você, que você,
Você me amava, mas,
Como eu, nunca tomava
Coragem para dizer, mas aí...

Aquela lágrima no rosto
É um milagre de amor
Feito neste instante para mim,
Que amo somente você.

Eu nunca compreendi,
Eu não sabia que...
Que você, que você,
Você me amava, mas,
Como eu, nunca tomava
Coragem pra dizer, mas daí...

Aquela lágrima no rosto
É um milagre de amor
Feito neste instante para mim,
Que amo somente você...
Só você, somente você...
Você...




16 de março de 2019

Ser ateu é bom? (1: questão de valores)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ateubom1


NOTA: Na segunda metade de 2011 escrevi uma trilogia de pequenos artigos que revisei levemente em meados de 2012 pra republicar no blog Materialismo.net. O título geral é “Ser ateu é bom?”, e com ideias pessoais tento explicar as possíveis vantagens e poréns do abandono da própria religião ou mesmo da crença em deuses. Como eu disse outras vezes, não mais me preocupo tanto com autodefinição religiosa, e algum estudo histórico bastaria pra relativizar certas assertivas que lancei. Porém, esse exercício foi importante pra eu treinar redação e argumentação com textos e buscar libertar minha própria mente de certos medos. No número 1, “Questão de valores”, tento dar minha definição particular de ateísmo e desfazer, mesmo que de modo um tanto rasteiro, alguns mitos a respeito. Segue abaixo sem alterações.



Será que ser ateu é bom? Será que o ateísmo é melhor do que a religião? Isso depende do que você faz de sua vida depois que abandona a crença em deuses e em sacerdotes, portanto ela pode se tornar melhor ou pior. Mas uma coisa é certa: as vantagens são garantidas se a transformação se dá no sentido da preocupação com o outro, do desenvolvimento do senso crítico e da supressão de medos espirituais.

Primeiro, o que é o ateísmo, afinal? Longe das definições filosóficas estritas, neste texto vale o seguinte consenso, com base no que se observa mais comumente: rejeição da crença em seres ou mundos sobrenaturais e da condução da vida conforme regras ditadas por pessoas que dizem tê-las aprendido por revelação ou iluminação instantânea, portanto regras sagradas. Não é a ausência de crença, mas a crença numa ausência, ou seja, no mais das vezes, “ateísmo forte”. Se fosse só ausência de crença, todos os não teístas (taoístas, budistas, confucionistas, agnósticos, céticos e outros) seriam ateus, o que excluiria a frequente negação de antigas tradições consolidadas.

Ora, mas muita gente não matou em nome do ateísmo? Na verdade, não. Na Revolução Francesa, teístas ou deístas também mataram, acima de tudo, representantes de um poder absolutista opressor e atrasado, inclusive de seu braço espiritual, a Igreja Católica. Já nos países socialistas, a perseguição foi contra os adversários do regime e da filosofia marxista que virou doutrina de Estado. Nesses expurgos, muitos comunistas ateus fiéis também foram subtraídos de suas vidas.

Mas o ateísmo não implica a ausência de valores morais? Não necessariamente. Para começar, muitos dos valores ocidentais modernos vieram de fora do cristianismo: liberdade de expressão e pensamento, democracia política, tolerância à fé e às ideias alheias, estima da inteligência e do raciocínio, livre comércio, Estado laico, sexo sem culpa e por aí vai. Houve e há muitos ateus cretinos, mas houve e há também religiosos iguais. Herança genética e criação familiar e social parecem ter mais peso sobre a formação do caráter, e o que nele há de bom ou de ruim pode ser potencializado pela tranquilidade ou agressividade com que se defende uma crença, religiosa ou não.

Na verdade, a libertação da religião impele a pessoa a buscar valores mais ligados à própria vontade, felicidade e capacidade ou disposição a contribuir para o bem da humanidade. O ateu consciente aproveita para preencher a nova lacuna com uma ética construtiva e altruísta, centrada no respeito ao próximo, na desconfiança cética dos dogmas cegos, no amor ao conhecimento e ao aprimoramento pessoal, na busca de um prazer livre de arrependimentos, mas sem excessos, e na conservação do meio-ambiente e da qualidade de vida.

É claro que cada um vai traçar sua própria hierarquia de prioridades, mas é certo que o ateísmo, conservada sua roupagem progressista e democrática original, é muito bom. Ele nos leva a sermos donos de nossa própria consciência, a assumirmos a responsabilidade por nossos próprios sucessos e fracassos e a nunca nos contentarmos com uma só fonte de informação, mas aceitarmos sempre comparar opiniões diferentes em busca do correto e do verdadeiro.


Bragança Paulista, 17 de setembro de 2011.
Levemente modificado a 11 de julho de 2012.


14 de março de 2019

Que significa o domínio .SU da internet


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/dominio-su




Na foto acima, bem como na última que ilustra esta página, vocês podem ver um dos modelos do computador soviético Rassvet. A peça integra a coleção particular do russo Sergei Frolov, que tirou suas fotos em 2009 e as postou numa página pessoal, além de ter postado explicações em russo num fórum. Este dinossauro feito de um verdadeiro aparelho de TV tinha memória RAM com incríveis 32 KB!

Anteontem, dia 12 de março, fez 30 anos que surgiu a WWW, rede mundial de computadores que deu origem à nossa internet. Quem já visitou sites russos sobre comunismo e história da União Soviética, ou até com pirataria midiática e bibliográfica, já deve ter se deparado com o domínio .SU no fim de alguns endereços (como .BR é Brasil, .FR é França, .JP é Japão etc.). Às vezes é fácil de confundir com .RU, que é da própria rússia moderna. Mas... o que o primeiro significa?

Quando a internet comercial estava ganhando o mundo, na virada pros anos 90, a União Soviética, segunda potência industrial da época, mas bastante atrasada no quesito tecnológico e computacional, não podia ficar de fora. Como seria a comercialização do serviço numa hipotética URSS sobrevivente, podíamos especular. mas gradualmente, seguindo critérios diversos, cada país começou a receber seu próprio domínio. Pros soviéticos, foi reservado .SU, por vir do inglês Soviet Union: a maioria dos domínios, mesmo de países orientais, foi calcada no inglês.

Porém, apenas 15 meses depois de sua criação, o país deixou de existir. Até 1993, quando foi enfim criado o domínio .RU, as organizações russas continuaram usando o antigo domínio, mas ele continuou sendo disponibilizado pra negociação, apesar das tentativas de extingui-lo. Hoje ele é administrado pelo Instituto Russo para o Desenvolvimento das Redes Públicas, que não prevê sua desativação.

Curiosidade: a partir de 1989 foram sendo criados também domínios pra vários antigos países comunistas da Europa, como .DD (Alemanha Oriental), .CS (Tchecoslováquia) e .YU (Iugoslávia). Mas a história foi injusta:

  • As Alemanhas se reunificaram em 1990, e o domínio .DD foi usado apenas internamente pelas universidades de Jena e Dresden (lado comunista), até ser enfim desativado.
  • A Tchecoslováquia se bipartiu, e embora .CS fosse bastante usado até ser apagado em 1995, a República Tcheca (.CZ) e a Eslováquia (.SK) migraram pros próprios domínios.
  • Já a Iugoslávia, que foi perdendo várias repúblicas, só adotou o nome Sérvia e Montenegro em 2003, e o domínio sobreviveu até 2010. Desde então, só valem os domínios .RS (Sérvia) e .ME (Montenegro) das repúblicas que tinham enfim se separado em 2006.




12 de março de 2019

Religião é política? E a ciência é ateia?


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NOTA: Este texto meu de 2011 é um dos mais interessantes, pois toca direto nos cernes do problema e tem estilo leve, fluido, sem palavras rebuscadas ou excessiva formatação em negrito ou itálico. Ele ainda é parte daquela onda na qual, tendo tomado contato com o marxismo dialético a partir, sobretudo, de Gramsci, eu enxergava a sociedade como um “todo orgânico” de instituições inter-relacionadas, de forma que suas funções se complementavam ou até intercruzavam. Porém, ainda ansioso por romper com o dogmatismo religioso e a doutrinação forçada, creio que forcei em certas associações e definições quanto ao papel e natureza da religião e a como igrejas e Estados funcionam na prática. O artigo é mais um dos meus inúmeros exercícios de tatear o real naquela época formativa, então tem as limitações compreensíveis do meu pouco estudo, mas vale pela coragem de enfrentar os dilemas e de tentar articular ideias de forma autônoma. Fiz apenas algumas alterações redacionais pra atualização.



Duas perguntas essenciais devem ser respondidas pelos movimentos ateus, céticos e laicos no desenrolar de suas lutas se eles quiserem ir para frente e adquirir consistência visual, teórica e combativa. A primeira é se as religiões instituídas são uma forma de fazer política, ou, mais ainda, se elas mesmas são uma espécie de braço espiritual dos Estados modernos para que estes façam valer seus discursos morais e cívicos. A segunda é se a ciência, tomada como instrumento de análise e transformação racional e padronizada da realidade, deve definitivamente se assumir como partidária do ateísmo e, portanto, combater as religiões de modo militante, em concomitância com sua atividade profissional e objetiva obrigatória.

Não pretendo aqui esgotar a questão, que deve ser resolvida por todos aqueles racionalistas e fiéis que batalham pela não interferência de interesses privados nas esferas coletivas. Ainda assim, desejo dar minha contribuição, mesmo parcial e incompleta. Penso que, de acordo com um conceito mais amplo sobre o que é fazer política, não só as religiões instituídas, ao menos no Brasil e em alguns países em que elas exercem grande influência, são agentes poderosos de interesse e atuam conforme regras de conciliação e acomodação bastante terrenas, como também o Estado ainda lhes reserva uma grande dívida no sentido de mobilizar apoio para seus projetos de unidade patriótica e lhes tributa inúmeros privilégios patrimoniais e fiscais como retribuição ao preenchimento de lacunas, por vários séculos, que o poder público não quis ou não pôde suprir. Da mesma forma, segundo um conceito particular de religião, não julgo ser a ciência totalmente competente para intervir em assuntos de fé, a não ser que estes passem a concernir e a intervir no mundo real e na própria prática científica.

Vamos à questão do Estado, primeiramente. Hoje se defende que o Estado e os poderes públicos devem ser laicos, ou seja, separados de qualquer crença religiosa e de seus responsáveis. Parece-me que a pergunta deve ser não só reformulada, mas também especificada: será que, nos países em que as religiões ainda conservam enorme ou significativo poder, o Estado pode ou tem condições de ser laico? Antes de tudo, é preciso atentar ao fato de que, desde o início da história, os sacerdotes ou mágicos eram parte do poder coercitivo ou ordenativo, e isso tanto nas civilizações que chegaram a desenvolver comércio e escrita quanto nas pequenas tribos isoladas de todo o contato externo. Ou seja, nem se cogitava a separação entre autoridades temporais e espirituais tão corrente hoje. Tal característica passou intocada nos povos grego e romano (primeiro pagão e depois cristão) e nas monarquias feudais, sempre constituindo um crime o desvio ou a contestação do credo oficial.

Só com o Iluminismo do século 18 passou-se a postular a cisão entre Igreja e Estado, embora Hobbes e Locke, um século antes, já tenham contestado a ideia do direito divino dos reis. Veio a Revolução Francesa, que levou a sugestão à prática, mas vieram também Napoleão, que fez a concordata com Roma, e a Santa Aliança, que, no século 19, fez retrocederem todos os movimentos revolucionários. A salvação para o apartamento entre os assuntos eclesiásticos e governamentais na Europa e em países de desenvolvimento semelhante foi o progressivo avanço da ciência, da educação e da cultura, que laicizaram a sociedade – e continuam laicizando – e cujo processo não foi atrapalhado por alguns países que decidiram manter cultos oficiais.

Quanto aos povos de língua portuguesa – e espanhola, em algum grau –, embora pudessem ser citados outros casos semelhantes, as Luzes nunca chegaram com plenitude até aí. No caso do Brasil, a empreitada missionária aportou junto à colonizadora, e por séculos, mesmo após a proclamação da República laica, os jesuítas e outras ordens religiosas, ainda que com cortes pontuais, mantiveram o monopólio de nossa educação. O Império brasileiro foi oficialmente católico até o fim, quando nem mesmo os clérigos suportavam mais a ingerência estatal em seus assuntos. Em Portugal, a atrasada monarquia católica só acabou em 1911, e pouco depois o ditador Salazar ia tornar o clero novamente uma espécie de colaborador privilegiado do regime. Novamente na América, por volta dos anos 1930, mais de 90% de nossa população ainda era católica, e ações que vão desde a construção do Cristo Redentor e a cessão de seus direitos à Igreja até a instituição do feriado de 12 de outubro, em 1980, deixam claro quem ainda emocionava as mentes do povo. Paradoxalmente, desde a década de 1970, alguns setores católicos não desprezíveis se veriam embrenhados na oposição à tirania militar e às torturas e na defesa dos direitos das populações da floresta e dos pequenos agricultores contra a opressão latifundiária.

Hoje em dia, a Igreja controla grande quantidade de dinheiro, pessoas e instituições e não deve ser totalmente marginalizada das polêmicas que envolvam direitos humanos, políticas familiares e projetos de inclusão social, até porque ela já tomou parte em muitas delas com inegável sucesso. No caso das religiões evangélicas pentecostais e neopentecostais, vários dados novos se incluem: a formação de bancadas legislativas fortes, o vertiginoso crescimento do eleitorado, o domínio de gigantescos montantes financeiros e midiáticos e um extremo conservadorismo moral e religioso. Os movimentos secularistas devem ser mais duros com eles, mas isso não impede que o diálogo deva ser paciente, longo e não dogmático, até porque agora também o pentecostalismo penetrou em muitas iniciativas beneficentes, sociais e educacionais. Política é isto: todos cedem algo e todos ganham alguma coisa, em nome de um equilíbrio frágil que só terá fim quando os modelos atuais de Estado e sociedade também tiverem passado. Mas aí os problemas já serão outros...

E a ciência, onde entra nisso? Ela deve tomar parte em assuntos políticos e religiosos? O primeiro traço visível de sua história é que por muito tempo ela não foi separada nem da técnica, nem do poder dominante e nem, portanto, da magia. Os próprios filósofos gregos e romanos não se consideravam cientistas, e suas reflexões, quando não imbricadas ao poder, não se separavam das soluções práticas cotidianas. Na Idade Média, os ofícios profissionais não costumavam teorizar sobre seus procedimentos, e apenas com a Renascença a redescoberta do conhecimento da Antiguidade Clássica, somada às próprias inovações da época, inclusive espirituais (Reforma, heresias etc.), deu margem à autonomia do planejamento intelectual face à execução grosseira da produção material. Muitos cientistas dos séculos 17 e 18 se diziam religiosos, até que no século 19 doutrinas aparentadas em maior ou menor grau ao positivismo cismaram que a ciência deveria suplantar a religião. Marx, Engels e Lenin bem lembraram que os delírios místicos só desapareceriam por si sós quando o mundo alcançasse um alto progresso material, mas vieram lá o nazismo e o stalinismo e, com uma caricatura da superioridade da ciência e da razão, quase exterminaram a humanidade. Pouco depois, parece ter surgindo naturalmente uma tácita separação amigável, mas atualmente a questão voltou à tona com o acirramento dos fundamentalismos religiosos anticientíficos em diversos pontos do planeta. Afinal, a ciência é intrinsecamente ateia e antirreligiosa?

Algumas categorias devem ser postas em pratos limpos. Antes de mais nada, ao contrário dos animais, o ser humano sempre foi um ser de transcendência, quer dizer, constantemente tentou enxergar, e conseguiu, além da realidade que se lhe apresentava em estado bruto e, com isso, não só a transformou segundo suas necessidades como também, com suas elucubrações mentais, erigiu civilizações. Esse processo de reorganização do real na própria mente é extremamente subjetivo, e por isso os conflitos pessoais sempre hão de surgir; ainda está para se verificar, contudo, se existem também “subjetividades grupais” que condicionam uma mesma transcendência a certos grupos de pessoas (países, etnias, religiões, clubes etc.). Essa subjetividade particular não deixa de ser influenciada pelo próprio meio objetivo, comum a todas as pessoas, mas, por causa das diferenças individuais, enxergado de modos diferentes. Essas discrepâncias é que tornaram a raça humana tão multifacetada, mas não impediram que a referida capacidade de transcendência a fizesse evoluir. (Talvez seja esse o sentido da frase de Einstein segundo a qual a religião sem a ciência é cega, e a ciência sem a religião é capenga.)

Por um acaso do destino, alguns desses projetos subjetivos se erigiram em visões de mundo políticas e religiosas consolidadas, e passaram a ser impostos aos outros cidadãos, e o que era apenas uma peculiaridade privada tornou-se lei obrigatória a conjuntos maiores. É um longevo fruto da maldade humana com o qual os cientistas devem lidar. Ainda que os sacerdotes em geral não reconheçam, cada um cria seus deuses – eis a essência original da religião –, e é nisso que a ciência, transformadora do objetivo, não deve se meter, mesmo sendo ela um conflito de subjetividades. Nesse caso, nem classificação ela tem: ateia, agnóstica, antiteísta, nada disso. Todavia, quando o sujeito se metamorfoseia em dado concreto do mundo real, a postura deve ser dialógica: convivência pacífica e negociada com instituições que respeitam a pluralidade do espaço público, crítica e combate daquelas subjetividades que desejam tiranizar suas semelhantes ou a própria dimensão objetiva do entendimento. O tratamento para com as religiões fica aí subentendido, embora só cada ocasião decidirá pela neutralidade ou pelo anticlericalismo.

Ciência, religião e política como filhas de uma mesma matriz, apartadas pelos azares do tempo e agora, numa dissertação marginal e despretensiosa, colocadas no mesmo saco para complicar ainda mais a análise laicista da sociedade? Se a leitora ou o leitor quiser, sim, uma tese incômoda e complexa. Entretanto, o caso é que a realidade é assim mesmo, um todo orgânico e contraditório de partes aparentemente conflitantes, mas muito interdependentes. Quando parece que encontramos a chave da compreensão do mundo, ela nos escapa como água pega com as mãos. Mas a militância ateia, secularista ou libertária, se quer fazer jus à importância que lhe espera no futuro coletivo, deve abandonar os esquemas simplificadores e abraçar a dialética que nos faz mudarmos a nós mesmos e ao nosso meio. Adaptações, flexibilidades e transigências necessárias para evitarmos nossa própria fossilização histórica e a passagem incólume, sem rastros, pelo cruel rio do progresso humano.


Bragança Paulista, 7 de setembro de 2011.