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31 de dezembro de 2017

“Bela nigrulino”, o brega em esperanto


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Após muito tempo decidi postar novamente uma de minhas antigas traduções de canções brasileiras pro esperanto. Esta pérola se chama Nega linda e foi composta por Edilson Morenno, um astro do brega do norte brasileiro nos anos 90. Eu conheci essa música quando comprei um CD com outras parecidas da mesma época, e confesso que realmente, quando eu era adolescente, gostava dessas músicas cafonas do Pará e Amazonas... Mas pra mim não bastava gostar: tinha que traduzir pro esperanto, a única língua estrangeira que eu dominava então! Realmente era uma atitude estranha, mas dessa forma eu também comecei a desenvolver minha veia poética. Como vocês devem imaginar, minha tradução não ficou literal, mas a métrica e o esquema de rimas são os mesmos. Como não há infelizmente outra página da internet que tenha publicado esse clássico, seguem abaixo as letras em esperanto e português. Ouçam também no vídeo o áudio com a gravação de Morenno. Eu traduzi em 31 de julho de 2005.

Post longa tempo mi decidis denove publikigi unu el miaj malnovaj tradukoj de brazilaj kanzonoj al Esperanto. Ĉi tiu perlo nomiĝas Nega linda (Bela nigrulino; nega = negra), kaj ĝin komponis Edilson Morenno, muzikstelo de la nordbrazila stilo “brega” (bizara) dum la 90-aj jaroj. Mi ekkonis ĝin, kiam mi aĉetis KD-on kun aliaj similaj kanzonoj, kaj mi konfesas, ke dum mia adolesko mi vere ŝatis tiajn strangajn verkojn el la ŝtatoj Parao kaj Amazonio... Sed por mi ne sufiĉis ŝati ilin: mi devus traduki ilin al Esperanto, la sola eksterlanda lingvo, kiun mi tiam regis! Tio ja estis nekutima iniciato, sed mi tiel komencis disvolvi mian poezian talenton. Kiel vi verŝajne supozas, mia traduko ne estas laŭlitera, sed mi konservis la metrikon kaj la riman strukturon. Ĉar bedaŭrinde ne estas alia interretpaĝo, en kiu oni publikigis ĉi tiun klasikaĵon, ĉi-sube vi legas la tekstojn en Esperanto kaj la portugala. Per la video, aŭskultu ankaŭ la registron de la kanzono de Morenno. Mi skribis mian poemon en la 31-a de julio 2005.


___________________


Bela nigrulino

2x:
Nigrulino,
La haŭt’ estas trezora,
La ridet’, orkolora,
Via ŝvito, miel’.
Bela, bela nigrulino,
La hararo risorta
Kaj l’ odor’, pek’ nevorta,
Venas el la ĉiel’.

Nigrulino, min brakumu
Por ke l’ tristo sin malsumu
Kaj solecon iu fumu,
Ho fidelanĝel’.
Nigrulin’, mi vin atendas,
Por kunesto via plendas,
Ĉar nur de mi vi amendas,
Mi amadu vin!

Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Ho, fidelanĝel’.
Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Ho, ĉieljuvel’.
Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Volas mi nur vin.
Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Mi amadu vin!

Nigrulino, min brakumu
Por ke l’ tristo sin malsumu
Kaj solecon iu fumu,
Ho fidelanĝel’.
Nigrulin’, mi vin atendas,
Por kunesto via plendas,
Ĉar nur de mi vi amendas,
Mi amadu vin!

Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Ho, fidelanĝel’.
Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Ho, ĉieljuvel’.
Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Droni en la vol’.
Bela, bela nigrulino,
Bela, bela, bela nigrulino,
Estas ĝoja vol’!

Nega linda

2x:
Nega linda,
Tua pele é um tesouro,
Teu sorriso é de ouro,
Teu suor, doce mel.
Nega, nega, nega linda,
Teu cabelo enrolado,
O teu cheiro é um pecado
Que me leva pro céu.

Ó, neguinha, me abraça
Que a tristeza logo passa,
Solidão vira fumaça,
Meu anjo fiel.
Ó, neguinha, eu te espero,
Eu te amo, eu te venero,
Só você que eu tanto quero,
Deixa eu te amar!

Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Meu anjo fiel.
Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Me leva pro céu.
Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Quero só você.
Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Deixa eu te amar!

Ó, neguinha, me abraça
Que a tristeza logo passa,
Solidão vira fumaça,
Meu anjo fiel.
Ó, neguinha, eu te espero,
Eu te amo, eu te venero,
Só você que eu tanto quero,
Deixa eu te amar!

Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Meu anjo fiel.
Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Me leva pro céu.
Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Deixa eu te querer.
Nega, nega, nega, nega,
Nega, nega, nega, nega linda,
Meu louco prazer!



27 de dezembro de 2017

Discurso de Stalin “Dá prazer e alegria”


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Este pequeno trecho de discurso é o subproduto de uma cinecrônica soviética completa, que legendei há alguns dias na íntegra e postei no meu canal Eslavo (YouTube) e trata de fatos da era Iosif Stalin entre 1936 e 1939. Certa vez eu escrevi aqui que tinha acabado todos os discursos ao vivo do líder, mas pro “prazer e alegria” de vocês, achei mais este trecho que separei do vídeo completo do cinejornal. Trata-se da finalização de um longo discurso pronunciado na abertura do 8.º Congresso Nacional Extraordinário dos Sovietes, ocorrido em Moscou de 25 de novembro a 5 de dezembro de 1936, quando o domínio de Stalin chegava ao ápice.

A piada é pronta pros brasileiros de mente maldosa: mais uma vez, o Guia Genial dos Povos aparece molhando a goela com um refresco não identificado. Afinal, nenhum filho de Deus aguenta fazer discursos quilométricos sem refrescar a boca! Aos que já vêm pensando bobagem, acredito há muito tempo ser a famosa tubaína do interior de São Paulo, também conhecida por uma de suas marcas registradas, Turbaína, meio que uma mistura enjoativa de guaraná com essência de tutti-frutti. É costume dizer que os manifestantes pró-Lula só vão às caravanas “ganhando transporte gratuito, sanduíche de mortadela e turbaína vagabunda”. Será que Stalin foi o precursor dessa prática?

Além da brincadeira com a tubaína, joguei também com a tradução que fiz da expressão russa “приятно и радостно” (priatno i radostno), que Stalin usa duas vezes. Os dois advérbios vêm dos adjetivos que significam respectivamente “prazeroso” ou “agradável”, e “alegre” ou “feliz”, e são usados porque qualificam um verbo. Ficaria pesado (e até incorreto em português) traduzir como “prazerosa e alegremente”, e não soaria bonito começar as frases com “É prazeroso e alegre”. Por isso, pra unir com algum sentido as duas ideias em português, usei a expressão “Dá prazer e alegria”. Ou seja, se tivermos um pouco de criatividade, e boa dose de irreverência política, ela dá um sabor todo especial dentro do contexto político que a URSS vivia então! Sei que muitos não gostam dessa zoeira no material histórico (coxinhas de esquerda...), mas eu não resisto, porque ela jamais o inutiliza.

A transcrição completa do discurso em russo sairia no órgão oficial Pravda um dia depois, hoje integrando as Obras Completas de Stalin (Moscou, Pisatel, 1997), v. 14, pp. 119-147. Nesta página vocês podem assistir à cinecrônica completa sem legendas, começando a fala do líder aos 2min2seg. Seguem abaixo o trecho legendado do discurso, o texto dele em russo e a tradução em português. Nas legendas, encurtei um pouquinho pra facilitar a leitura, e em comparação com o vídeo, no livro aparece escrito “что она дала” ao invés de “а дала”, e “завоевания” ao invés de “достижения”:


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(На Чрезвычайном VIII Всесоюзном Съезде Советов 25 ноября 1936 г.)

В результате пройденного пути борьбы и лишений приятно и радостно иметь свою Конституцию, трактующую о плодах наших побед. Приятно и радостно знать, за что бились наши люди и как они добились всемирно-исторической победы. Приятно и радостно знать, что кровь, обильно пролитая нашими людьми, не прошла даром, а [что она] дала свои результаты. Это вооружает духовно наш рабочий класс, наше крестьянство, нашу трудовую интеллигенцию. Это двигает вперёд и поднимает чувство законной гордости. Это укрепляет веру в свои силы и мобилизует на новую борьбу для достижения [завоевания] новых побед коммунизма.

____________________


(No 8.º Congresso Nacional Extraordinário dos Sovietes, 25 de novembro de 1936)

Após percorrermos a via de lutas e privações, dá prazer e alegria ter a própria Constituição narrando os frutos de nossas vitórias. Dá prazer e alegria saber pelo que lutou nossa gente e como chegou à vitória de alcance histórico mundial. Dá prazer e alegria saber que o sangue vertido aos litros por nossa gente não foi em vão, mas [que ele] deu resultados. Isso aumenta o ânimo de nossa classe operária, nosso campesinato e nossos proletários intelectuais. Isso promove e eleva o sentimento de legítimo orgulho. Isso reforça a fé nas próprias forças e mobiliza para novas lutas visando a mais vitórias do comunismo.



24 de dezembro de 2017

Hino Nacional da Argentina desde 1944


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/argentina


Há alguns meses, comecei a voltar meu interesse pra história recente da nossa vizinha Argentina e tive vontade de legendar e postar no meu canal Eslavo (YouTube) algumas canções patrióticas locais, que achei bonitas e interessantes. Comecei, claro por aquele que considero um dos hinos mais bonitos da América Latina: não que eu também não adore o do Brasil, de fato, e confesso que também acho lindo o hino dos EUA. Meu plano seria depois legendar alguns discursos feitos durante a ditadura militar argentina, não porque simpatizo, mas por curiosidade com esse período histórico, só que ainda não tive tempo.

O Hino Nacional Argentino teve a letra escrita por Vicente López y Planes em 1812, e a melodia composta por Blas Parera y Moret em 1813. A encomenda foi feita pela Assembleia Geral Constituinte, que então governava a atual República Argentina. Ele passou também a ser conhecido como Marcha Patriótica ou Canção Patriótica, e por vezes erroneamente, no estrangeiro, pelas suas palavras iniciais, ¡Oíd, mortales! Apenas em 1847 apareceria publicado como Himno Nacional Argentino, e assim passou a ser conhecido. Em 1860, Juan Pedro Esnaola fez algumas modificações na melodia, baseando-se em anotações deixadas pelo compositor.

Com um poema originalmente bem mais extenso, o hino chegava a ser tocado por 20 minutos, mas em 1900 passou a valer a atual letra abreviada, e em 1924 nova adaptação melódica reduziu a duração pra menos de 4 minutos. Contudo, apenas em 24 de abril de 1944 um decreto determinou que essa marcha devia ser oficialmente o hino nacional. O presidente era Edelmiro Farrell, militar que exercia o poder de facto durante a ditadura instaurada por um golpe em 1943.

Eu baixei desta página o vídeo sem legendas, e a própria dona do canal deve ter sido quem inseriu as legendas espanholas, sem combinar em sincronia, porém, com as minhas. Eu resolvi deixá-las pra tornar o vídeo mais rico, embora elas tenham uns erros de grafia. Eu mesmo traduzi e legendei, tendo tirado da Wikipédia em espanhol a letra do hino e as informações históricas. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em espanhol e a tradução em português:


____________________


¡Oíd, mortales!, el grito sagrado:
¡libertad!, ¡libertad!, ¡libertad!
Oíd el ruido de rotas cadenas;
ved en trono a la noble igualdad.
¡Ya su trono dignísimo abrieron
las Provincias Unidas del Sud!
Y los libres del mundo responden:
¡al gran pueblo argentino, salud!
¡Al gran pueblo argentino, salud!
Y los libres del mundo responden:
¡al gran pueblo argentino, salud!
Y los libres del mundo responden:
¡al gran pueblo argentino, salud!

Sean eternos los laureles
que supimos conseguir,
que supimos conseguir:
coronados de gloria vivamos,
¡o juremos con gloria morir!
¡O juremos con gloria morir!
¡O juremos con gloria morir!

____________________


Ouçam, mortais, o grito sagrado:
liberdade, liberdade, liberdade!
Ouçam as correntes se quebrando;
vejam entronada a nobre igualdade.
Já alcançaram soberania digníssima
as Províncias Unidas do Sul!
E os livres do mundo respondem:
salve o grande povo argentino!
Salve o grande povo argentino!
E os livres do mundo respondem:
salve o grande povo argentino!
E os livres do mundo respondem:
salve o grande povo argentino!

Que sejam eternos os louros
que conseguimos conquistar,
que conseguimos conquistar:
vivamos coroados de glória,
ou juremos morrer com glória!
Ou juremos morrer com glória!
Ou juremos morrer com glória!




20 de dezembro de 2017

’O surdato ’nnammurato (duas versões)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/surdato


Esta é uma canção que conheço desde a adolescência, da qual ela fez parte, porque integrava a trilha sonora da novela Terra nostra (1999-2000) da TV Globo, uma época gostosa em que as novelas “italianas macarrônicas” de imigrantes ainda faziam sucesso. Ela se chama ’O surdato ’nnammurato (O soldado apaixonado), que seria em italiano padrão Il soldato innamorato, mas na verdade é cantada em napolitano, um dos “dialetos” falados no sul da Bota. “Dialeto”, porque não há consenso sobre seu caráter de língua independente: os próprios italianos chamam assim, mas o napolitano tem muitas diferenças que dificultam a compreensão pra quem só estudou o padrão toscano-florentino. Uma das músicas napolitanas mais famosas, datada de 1915, tem letra do poeta Aniello Califano e melodia do musicista Enrico Cannio, entrou pra cultura popular e foi gravada por muitos artistas italianos de renome.

O primeiro vídeo é cantado por Massimo Ranieri, pseudônimo do napolitano Giovanni Calone (n. 1951), cantor, ator, apresentador e diretor teatral ainda ativo no pop, piano rock, canção napolitana e música leve. Um dos maiores vendedores italianos de disco no mundo, gravou seu primeiro álbum ao vivo ’O surdato ’nnammurato em 1972, mas pelo que consta no YouTube, esta apresentação é do mesmo ano, no programa de TV Canzonissima, existente na RAI de 1956 a 1975. No Brasil, ’O surdato ’nnammurato ficou conhecida na trilha sonora de Terra nostra, com a voz do cantor Netinho, rara vez em que não gravou axé. Pros jovens que não o conhecem, ele fez muito sucesso nos carnavais e em Salvador com músicas como Mila (“mil e uma noites de amor com você...”) e Total (“a ti prefiro uma cerveja...”), e a segunda metade dos anos 90 foi o ápice de sua carreira solo. Infelizmente, há alguns anos, ele teve problemas de saúde por causa de anabolizantes, mas ainda está vivo, pra nossa alegria.

Acho que a linda descrição na Wikipédia em napolitano diz tudo: ’A canzone parla ’e nu surdato luntano ’a l’ammore sujo, pecchè stà ’o fronte, a cumbattere duranne ’a primma guerra munniale (A canção fala de um soldado distante de seu amor, porque está no front combatendo durante a 1.ª Guerra Mundial). Califano (1870-1919) é autor de muitas outras letras napolitanas, e teve o privilégio de uma difícil publicação do Surdato em maio de 1915, em plenos combates. O pianista Cannio (1874-1949), tendo sempre vivido em Nápoles, também compôs muitas outras melodias regionais e foi reconhecido após a morte por sua ampla contribuição.

O napolitano, pra quem entende italiano, soa familiar, mas confesso uma coisa: acho uma das línguas mais bonitas do mundo, talvez por causa das reduções vocálicas em sílabas átonas, principalmente no fim da palavra. A sonoridade fica, assim, muito próxima da do romeno, outra língua que me agrada. Podem ver que, como um processo natural também ocorrente em vários falares brasileiros, o L antes de consoante por vezes vira R (rotacismo), e a vogal átona se reduz: soldatosordatosurdato. Outro fenômeno que permite versos mais curtos é a elisão, com apóstrofo, de consoantes iniciais: a preposição de, por exemplo, vira ’e, e os artigos lo e la, ’o e ’a.

Eu não sei napolitano, então obviamente comparei várias traduções em italiano padrão. Uma delas, que acho boa, está nesta página. Pra traduzir, também cotejei com a tradução literal que a Wikipédia em alemão oferece (traduções alemãs costumam ser precisas). Eu baixei o vídeo de Ranieri desta página, e apenas traduzi, legendei e cortei o enquadramento. Quanto ao Netinho, baixei o áudio desta página, tendo eu mesmo depois montado e legendado o vídeo: vejam-no duas vezes, lendo uma legenda a cada vez!

Se vocês procurarem “netinho o surdato nnamurato” no YouTube, vão achar alguns vídeos em que ele aparece no Faustão cantando junto à Maria Fernanda Candido, de cuja personagem essa música era tema em Terra nostra. Como a novela estava bombando, Netinho conseguiu o feito inédito de aparecer dois domingos seguidos no Faustão. Eu postei as duas legendagens no meu canal Eslavo (YouTube) e elas seguem abaixo, com a letra em napolitano e a tradução em português:




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1. Staje luntana da stu core,
A te volo cu ’o penziero:
Niente voglio e niente spero
Ca tenerte sempe a fianco a me!
Si’ sicura ’e chist’ammore
Comm’i’ so’ sicuro ’e te...

Riturnello:
Oje vita, oje vita mia...
Oje core ’e chistu core...
Si’ stata ’o primmo ammore...
E ’o primmo e ll’ùrdemo sarraje pe’ me!

2. Quanta notte nun te veco,
Nun te sento ’int’a sti bbracce,
Nun te vaso chesta faccia,
Nun t’astregno forte ’mbraccio a me?!
Ma, scetánnome ’a sti suonne,
Mme faje chiagnere pe’ te...

(Riturnello)

3. Scrive sempe e sta’ cuntenta:
Io nun penzo che a te sola...
Nu penziero mme cunzola,
Ca tu pienze sulamente a me...
’A cchiù bella ’e tutt’’e bbelle,
Nun è maje cchiù bella ’e te!

(Riturnello 3x)

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1. Você está longe deste coração,
Voo até você em pensamento:
Eu quero e espero apenas que
Você sempre fique a meu lado!
Você confia neste amor
Como confio em você...

Refrão:
Oh, vida, oh, vida minha...
Oh, coração deste coração...
Você foi meu primeiro amor...
Primeiro e último será para mim!

2. Quantas noites não te vejo,
Não te sinto entre estes braços,
Não te beijo este rosto,
Não te abraço forte em mim?!
Mas despertar destes sonhos
Me faz chorar por você...

(Refrão)

3. Na carta você sempre está feliz:
E eu penso somente em você...
Um pensamento me consola,
Que você só pensa em mim...
A mais bela de todas as belas
Nunca é mais bonita que você!

(Refrão 3x)




17 de dezembro de 2017

“Очи чёрные” (Olhos negros), canção


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/chornye


Quando postei esta linda canção que me pediram no meu canal Eslavo (YouTube), dediquei-a à minha avó, que só então tinha me contado que meu falecido avô Wladimir lhe dizia que ela tinha “ôji jôrni”... Ela se chama “Очи чёрные” (Ochi chornye), Olhos negros, e consiste numa romança (canção sentimental) russa datada dos anos 1880. É uma das mais famosas canções tradicionais da Rússia, célebre também no exterior. Ela foi publicada em 1843 como um poema do escritor russo-ucraniano Ievhen Pavlovych Hrebinka (em russo, Ievgeni Pavlovich Grebionka, 1812-1848). O texto recebeu melodia de Florian German em 1884, mas a versão mais conhecida é do compositor ítalo-inglês Adalgiso Ferraris (1890-1968).

A canção se tornou mundialmente famosa a partir da década de 1930, foi gravada por muitos cantores e cantoras russos e traduzida pra muitas línguas. Talvez o artista mais famoso que a tenha gravado tenha sido Ivan Rebroff, que é, na verdade, de origem alemã. E muitos podem reconhecer aí uma parte da melodia de Nathalie, cantada e composta por Julio Iglesias nas versões em português e espanhol. Ela também apareceu em muitos filmes, bem como no jogo eletrônico Syberia. Um dos traços arcaicos da música consiste justamente no uso de ochi pra “olhos”, quando se esperaria glaza. Oko é uma forma antiga de glaz, ainda muito usada em outras línguas eslavas. Ela tem um plural dual (que indica par) resquicial, como costuma ocorrer com partes binárias do corpo: ochi. O plural regular seria oka. O mesmo ocorre com ukho (ouvido) → ushi (os dois ouvidos). Tem ainda o verbo tsarit (reinar), que remete a tsar, e não a korol (rei).

Eu tirei essas informações da Wikipédia em russo, assim como a letra da canção. Lá existe também a letra na ortografia russa pré-1918, no tempo em que o poema foi redigido. Eu baixei o vídeo sem legendas desta página, em que apenas se informa que essa apresentação do Coral Aleksandrov do Exército Russo (o famoso Coral do Exército Vermelho) foi feita em Paris, em 2003. Recomendo que também o vejam, pois ele tem toda uma parte instrumental no começo que cortei por razões de praticidade. Não consegui identificar o solista, que deve ter alguma formação de ator, porque de modo magistral faz parecer que ele mesmo está vivendo esse sofrimento. Eu mesmo traduzi e legendei, e seguem a legendagem, a letra em russo e a tradução:


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Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные!
Как люблю я вас! Как боюсь я вас!
Знать, увидел вас я не в добрый час!

Очи чёрные, жгуче пламенны!
И манят они в страны дальние,
Где царит любовь, где царит покой,
Где страданья нет, где вражде запрет!

Не встречал бы вас, не страдал бы так,
Я бы прожил жизнь улыбаючись.
Вы сгубили меня, очи чёрные,
Унесли навек моё счастие.

Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные.
Вы сгубили меня, очи страстные,
Унесли навек моё счастие...

Очи чёрные, очи жгучие,
Очи страстные и прекрасные!
Как люблю я вас! Как боюсь я вас!
Знать, увидел вас я не в добрый час!

____________________


Olhos negros, olhos ardentes,
Olhos lindos e apaixonados!
Como amo vocês! Como temo vocês!
Acho que não os avistei em boa hora!

Olhos negros queimando em chamas!
Eles chamam a terras distantes
Onde reina o amor, onde reina a paz,
Onde ninguém sofre nem pode brigar!

Não os encontrasse, não sofreria tanto,
Eu passaria minha vida sorrindo.
Vocês me arruinaram, olhos negros,
Levaram para sempre minha alegria.

Olhos negros, olhos ardentes,
Olhos lindos e apaixonados!
Me arruinaram, olhos apaixonados,
Levaram para sempre minha alegria...

Olhos negros, olhos ardentes,
Olhos lindos e apaixonados!
Como amo vocês! Como temo vocês!
Acho que não os avistei em boa hora!




13 de dezembro de 2017

“Казачья песня” (Canção do cossaco)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/kazachia


Esta linda canção que me pediram pra legendar no meu canal Eslavo (YouTube) se chama “Казачья песня” (Kazachia pesnia), A canção do cossaco ou A canção cossaca, e provavelmente quem está cantando é o Coral do Exército Vermelho. Ela faz parte da ópera Terras virgens desbravadas, composta e estreada pelo músico Ivan Dzerzhinski em 1937, que compôs, portanto, a melodia, enquanto a letra é do poeta Aleksandr Churkin. As imagens fazem parte do filme Tikhi Don (literalmente, O tranquilo rio Don), traduzido em inglês como And Quiet Flows the Don e filmado em três partes em 1957-58.

Esta canção mostra de novo a diversidade da experiência cossaca, tanto no tempo quanto no espaço. Aqui, estamos falando dos cossacos que viviam às margens do rio Don, relativamente próximo à atual fronteira ucraniana, e que partilham, portanto, vários elementos linguísticos com os ucranianos. A ópera Terras virgens desbravadas, assim como outra ópera de Dzerzhinski também chamada Tikhi Don, foi inspirada no romance igualmente de nome Tikhi Don, escrito em quatro volumes de 1925 a 1932 e em 1940, por Mikhail Sholokhov. O livro trata de uma família de cossacos do Don, os Melekhov, que vive uma trágica história amorosa nos anos da 1.ª Guerra Mundial, da Revolução Russa e da Guerra Civil Russa. Retrata-se, pois, a decadência e desmonte da instituição cossaca pelos bolcheviques. Com várias mudanças, o filme Tikhi Don, dirigido por Sergei Gerasimov em 1957 e 1958, relata a mesma história e, por isso, foi muito premiado até no exterior.

Ivan Ivanovich Dzerzhinski (1909-1978) foi um compositor soviético laureado com o Prêmio Stalin de terceiro grau (1950), membro do PC soviético desde 1942 e Artista Popular da RSFS da Rússia desde 1977. Compunha óperas e canções comuns, e recebeu ainda outros prêmios estatais durante sua vida. Aleksandr Dmitrievich Churkin (1903-1971) foi um poeta soviético que serviu no Exército Vermelho e se dedicou ao gênero do “realismo socialista”. Ele também escrevia canções, era membro do Partido desde 1949 e recebeu, entre outras condecorações, a Ordem da Insígnia de Honra. Mikhail Aleksandrovich Sholokhov (1905-1984), autor de Tikhi Don, foi um escritor, roteirista, jornalista e correspondente de guerra, laureado com o Nobel de Literatura em 1965. Também ganhou os prêmios Lenin (1960) e Stalin (1941), foi membro do PC soviético desde 1932 e de seu Comitê Central desde 1961. Contudo, foi várias vezes acusado de plágio, inclusive no caso de seu Tikhi Don, por A. Solzhenitsyn e outros.

O vídeo sem legendas com o filme e a canção está nesta página, e a letra em russo pode ser consultada neste site, onde há muitas outras canções cossacas. Neste vídeo, outra montagem interessante mistura cenas de filme com a atuação do Coral do Exército Vermelho. Eu mesmo traduzi, legendei e mudei o enquadramento, e seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português (nas legendas, o texto foi encurtado, sem mudar o sentido):


____________________


Шли по степи полки казачьи с Дону,
Один казак лишь голову склонил.
Ой, заскучал один казак по дому.
Коню на гриву повод уронил.
Ой, заскучал один казак по дому.
Коню на гриву повод уронил.

Эх, разлетались кудри врассыпную.
О доме думка мучила его.
Лижь в даль глядел он синюю степную,
А в той дали не видно ничего.
Лижь в даль глядел он синюю степную,
А в той дали не видно ничего.

Тряхнул казак чубатой головою,
Сказал своим товарищам с тоской:
Эх, изболелось сердце молодое,
Ой, как мне братцы, хочется домой.
Эх, изболелось сердце молодое,
Ой, как мне братцы, хочется домой.

Лети скорей дороженька-дорога,
Развей казачью думу и тоску.
Эх, на дыбы поднял коня лихого,
И свистнул саблей острой на скаку.
Эх, на дыбы поднял коня лихого,
И свистнул саблей острой на скаку.

А по степи полки со славой громкой,
Всё шли и шли спевая соловьём.
Ковыльная, родимая сторонка,
Прими от красных конников поклон.
Ковыльная, родимая сторонка,
Прими от красных конников поклон.

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Iam pela estepe tropas cossacas do Don,
Somente um cossaco deu-se por vencido.
Ei, um cossaco se cansou e foi para casa.
Deixou a rédea cair pela crina do cavalo.
Ei, um cossaco se cansou e foi para casa.
Deixou a rédea cair pela crina do cavalo.

Ah, as madeixas voaram em debandada.
Ficar pensando na casa o fazia torturado.
Ele só olhava pra longínqua estepe azul,
Mas nessa imensidão não podia ver nada.
Ele só olhava pra longínqua estepe azul,
Mas nessa imensidão não podia ver nada.

O cossaco sacudiu a cabeça com topete,
E disse com melancolia aos camaradas:
Ah, meu jovem coração está extenuado,
Ei, maninhos, queria tanto ir para casa.
Ah, meu jovem coração está extenuado,
Ei, maninhos, queria tanto ir para casa.

Voe depressa, caminho, caminhozinho,
Desembarace mente e peito do cossaco.
Ah, fiz meu cavalo impetuoso empinar,
E no galope, meu sabre agudo assobiou.
Ah, fiz meu cavalo impetuoso empinar,
E no galope, meu sabre agudo assobiou.

E pela estepe, os regimentos em frente
Seguiam, com glória muito retumbante.
Minha cara terra natal, cheia de mato,
Deixe a saudarem os nobres cavaleiros.
Minha cara terra natal, cheia de mato,
Deixe a saudarem os nobres cavaleiros.




10 de dezembro de 2017

Eduard Khil – Лесорубы (Lenhadores)


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No último dia 4 de setembro, comemorando os 83 anos do nascimento do grande Mr. Trololo, os quais até o Google lembrou, enviei no meu canal Eslavo (YouTube) este presente pros fanáticos pela cultura soviética. Na verdade, já tinham me pedido essa música há muitos anos, e eu só estava esperando ter tempo pra legendá-la. É a canção “Лесорубы” (Lesoruby), Os lenhadores, cantada pelo grande barítono Eduard Khil. A melodia é do compositor Arkadi Ostrovski, e a letra é do poeta Mikhail Tanich. O texto fala sobre a vida dos lenhadores, profissão aparentemente banal num país como o Brasil, onde a madeira não é parte essencial de sua formação social. No hemisfério norte, dada a escassez de inúmeros outros recursos naturais e o clima frio, a construção de casas de madeira, além de outras utilidades, é parte essencial de suas culturas.

Talvez os adolescentes de hoje não o conheçam, mas Eduard Anatolievich Khil (1934-2012) foi um célebre cantor soviético, intérprete de muitas canções populares e românticas. Sua marcante voz de barítono o destaca dentro de um grupo seleto de cantores da antiga URSS, amplamente condecorados e favorecidos por um ambiente que promovia a alta cultura e a arte de qualidade. Contudo, no resto do mundo (que quase não conhecia o outro lado da “cortina de ferro”), e até na Rússia atual, poucos conheciam Khil, popularizado apenas quando viralizou no YouTube em 2010 um clipe seu dos anos 70, em que fazia uma espécie de exercícios vocálicos. A canção, na verdade, teve censurada a letra sobre um caubói americano que vivia com sua amada, e ficaram só os “trololós” que deram o apelido ao cantor. Esse fenômeno lhe rendeu uma súbita fama a posteriori, a qual ele infelizmente pôde aproveitar pouco.

Reparem que o cenário deste clipe é exatamente o mesmo em que ele gravou o célebre vídeo do “trololó”: deve ter sido feito na mesma leva, quem sabe até no mesmo dia. Eu baixei o vídeo sem legendas, postado há muitos anos já, deste canal pessoal, e tirei a letra em russo deste site, onde também há muitas outras canções. Eu mesmo traduzi, legendei e mudei o enquadramento do vídeo, e seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português:


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1. Лесорубы – ничего нас не берёт:
Ни пожары, ни морозы!
Поселился наш обветренный народ
Между ёлкой и берёзой.
Эге-гей!

Припев:
Привыкли руки к топорам,
Только сердце непослушно докторам,
Если иволга поёт по вечерам,
Если иволга поёт по вечерам.

2. Лесорубы – сорок семь холостяков,
Валим кедры в три обхвата.
Нам влюбиться – просто пара пустяков,
Да не едут к нам девчата...
Эге-гей, эге-гей!

(Припев)

3. Лесорубы, наша родина тайга,
Дед Морозу мы соседи.
Нас боятся и февральская пурга,
И лохматые медведи!
Эге-гей!

(Припев)

4. Лесорубы, на делянке у костров
Мы умеем веселиться!
И на стройках эхо наших топоров
Слышны в сёлах и столицах!
Эге-гей!

(Припев)

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1. Nós, lenhadores, não tombamos,
Nem com incêndios ou nevascas!
Nosso povo moldado pelo vento
Fixou-se entre o abeto e a bétula.
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

Refrão:
Mãos se adequaram a machados,
Só o coração ignora os médicos
Se o papa-figos canta toda noite,
Se o papa-figos canta toda noite.

2. Somos 47 lenhadores solteiros,
Tolhemos cedros em 3 braçadas.
Não gostamos de nos apaixonar,
Por isso a mulherada nos foge...
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei! Ehe-hei!]

(Refrão)

3. Nosso país de lenhador é a taiga,
O Papai Noel é o nosso vizinho.
Assustamos até os ursos peludos
E a nevasca de fevereiro!
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

(Refrão)

4. Sabemos fruir como lenhadores
Das fogueiras no meio da terra!
Nosso machado das obras ecoa
Até ouvirem em vilas e capitais!
Tro-lo-lóóó! [Ehe-hei!]

(Refrão)




6 de dezembro de 2017

Livros grátis de história e comunismo


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Esta é outra iniciativa pra tentar compartilhar livros pessoais e públicos sobre os mais diversos assuntos culturais. Agora, estou divulgando também uma grande pasta aberta, que fiz ao mesmo tempo como forma de fazer backup do que eu já tenho em meu computador e como um patrimônio coletivo pra quem tem os mesmos interesses que eu.

Eu chamei essa grande pasta pública de Biblioteca Brasil, e é destinada principalmente a quem se interessa por ciências humanas, história e comunismo soviético. Pra quem gosta de estudar idiomas sozinho, em grupo ou com orientação, peço que veja esta postagem já famosa, em que se podem baixar arquivos completos em formato RAR com gramáticas, manuais e dicionários em diversos formatos digitais. Neste outro endereço, é possível ler e baixar a maioria das obras que acumulei durante minha pós-graduação: tinyurl.com/bibliobras.

Também disponível em: bit.ly/bibliobr

A pasta principal e todas as suas subpastas estão alocadas numa das minhas contas no Google Drive. Uma boa parte dos arquivos está em PDF ou DOC, mas outros estão em formato DJVU, um formato mais leve, moderno e eficiente, cuja leitura exige programas especiais, como o WinDjView, que sempre uso sem problemas. Não é preciso nenhum cadastro ou login especial pra acessá-los. Dica importante: caso deseje baixar um arquivo, fique logado no Drive com apenas uma conta, pois tenho tido problemas ao logar com todas ao mesmo tempo.

As pastas e o conteúdo disponíveis são os seguintes:

  • Curso de russo TOPE – São os arquivos que usei como guia ou explicações pra um minicurso da língua russa que dei na Unicamp em outubro e no começo de novembro. O arquivo Power Point logo visível é um interessante resumo sobre a história da língua russa, com mapas e manuscritos bonitos. Existe também uma pasta com material didático de russo em inglês e francês, e outra em português!
  • Documentação comunista em russo – Coletâneas de documentos publicadas na antiga URSS e na Rússia atual, muitos deles permanecidos longamente secretos, com atas de congressos e conferências partidárias e resoluções estatais confidenciais. Destaco os livros ligados ao PC soviético e à Comintern, mas há muito mais coisas.
  • Livros de história – Obras sobre a história do Brasil e do mundo, sobretudo das relações internacionais, dos partidos comunistas e das revoluções socialistas, bem como de teorizações sobre historiografia. Escritos em português, inglês, espanhol, francês, alemão, italiano e russo.
  • Livros em russo sobre comunismo – Obras de um só autor, de dois ou de vários, obras coletivas, revistas acadêmicas ou até mesmo escritos de personagens de época sobre os fatos em questão. Abrangem as mais variadas posições políticas, desde os liberais até os stalinistas.
  • Matemática – Quatro livros básicos e isolados, em português, espanhol e italiano, de uma coleção que quero aumentar com o tempo, sobre um interesse em que desejo gradualmente me aperfeiçoar!
  • Miscelânea de humanas – Livros de filosofia ou outras reflexões sociais, escritos por humanistas e não ligados diretamente à história. Vocês podem baixar aí a coleção completa das Cartas do cárcere e dos Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci, em italiano!
  • Textos de história social – Livros ou artigos digitais que eu copiei da faculdade ou fui pesquisando e adquirindo por conta própria durante meu primeiro semestre de doutorado. Conta principalmente com obras já traduzidas em português, mas cujo original eu quis achar pra ajudar minha professora. De particular utilidade pra quem pesquisa dentro da área de história social do curso de pós-graduação da Unicamp ou de outras universidades. Escritos em português, inglês, francês e italiano.
  • Discursos de Lenin e Stalin em MP3 (arquivo RAR) – Possibilidade de baixar um arquivo de 75 MB com áudios de todos os discursos dos dois maiores líderes soviéticos que chegaram a ser gravados. Não há transcrição impressa, mas alguns de Stalin eu já traduzi, e todos os áudios e textos de Lenin podem ser escutados e lidos (em russo e português) nesta postagem.
  • História do stalinismo (arquivo RAR) – Coletânea gigante em 353 MB, editada na Rússia (portanto, toda em russo) e com os mais recentes avanços na historiografia sobre o período alto da URSS, ladeados diretamente pela documentação arquivística recém-liberada em Moscou.

A maioria desses livros já estava disponível online pra que se pudesse baixar livremente, portanto eu espero não enfrentar problemas com os tubarões dos direitos autorais!




3 de dezembro de 2017

Стадион моей мечты (Olimpíada 1980)


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Um fã muito especial do meu canal Eslavo (YouTube) pediu com insistência que eu legendasse esta canção. Quando consegui uma brecha no meu doutorado, não pensei duas vezes: traduzi a letra e baixei um vídeo adequado. A música se chama “Стадион моей мечты” (Stadion moiei mechty), literalmente O estádio do(s) meu(s) sonho(s), mas que traduzi como O estádio com que sonhei. A voz é do cantor azerbaijano Muslim Magomaiev, a letra foi composta por Nikolai Dobronravov e a melodia por sua esposa, Aleksandra Pakhmutova. Eles são um casal muito famoso por comporem diversas canções ufanistas dos tempos soviéticos.

Aparentemente, este foi um dos temas, ou ao menos o tema de abertura, dos Jogos Olímpicos de Moscou de 1980, famoso pelo mascote Misha, um simpático ursinho marrom. Pena que nesta filmagem ele não aparece. O trecho em vídeo, assim como a canção, fazem parte do documentário soviético O sport, ty – mir! (Ó, esporte, você é paz!), lançado em 1981. Esse título advém de um poema de Pierre de Coubertin, fundador dos jogos modernos, chamado “Ode ao esporte” (1912), e pode ser lido em francês e alemão nesta página. Encomendado pelo Comitê Olímpico Internacional, o documentário expressa a visão oficial soviética sobre a instituição e a prática do esporte, ou seja, como um meio de promover a paz entre os povos e de aperfeiçoar a saúde corporal. Toda a trilha sonora foi produzida por Pakhmutova e lançada no LP Ptitsa schastia (O pássaro da sorte).

Como eu já informei em outra postagem, Muslim Magometovich Magomaiev (1942-2008) nasceu em Baku, capital do Azerbaijão, numa família com várias gerações de músicos e artistas, tendo o pai morrido na 2.ª Guerra Mundial. Fez estudos em conservatório musical e nos anos 60 começou a embalar sua carreira, tendo inclusive se apresentado no exterior, não sem chios da emigração anticomunista. Foi condecorado Artista Popular da URSS (1973), Artista Popular da RSS do Azerbaijão (1971) e com a Ordem da Honra (2002) pelo próprio Putin. Em 1998 encerrou voluntariamente a carreira, tendo se dedicado à pintura e a correspondências até morrer do coração.

Eu baixei o vídeo sem legendas desta página, mas no YouTube há várias montagens da mesma canção com outras cenas de O sport, ty – mir! ou outras filmagens esportivas da antiga URSS. Eu fiquei com dó de cortar o vídeo pra proporção 16:9, porque ia perder muita informação visual. Por isso ele está assim, bem quadradão. A letra completa em russo pode ser lida nesta página, e eu mesmo a traduzi e depois legendei o vídeo. Seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português:


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Здравствуй, самый лучший на свете
Стадион моей мечты!
Одержимость – путь к победе,
Спорта нет без красоты.

Жажда счастья, жажда рекорда
И борьбы прекрасный миг –
Мастера большого спорта
Учат рыцарству других.

Здравствуй, стадион,
Где мечты состязаются.
Здравствуй, стадион,
Где рекорды сбываются.

2x:
Нам с тобой вручён
Этот мир солнечной радости.
Спорт отвагой рождён.
Вся страна – это наш стадион!

Звёздный миг борьбы грандиозной
Верен огненным сердцам.
Слава дерзким виртуозам,
Вдохновенным мастерам!

Гордый свет имён легендарных,
Блеск характеров стальных,
Пусть пока им нету равных –
Мы равняемся на них.

Здравствуй, стадион,
Где мечты состязаются.
Здравствуй, стадион,
Где рекорды сбываются.

2x:
Нам с тобой вручён
Этот мир солнечной радости.
Спорт отвагой рождён.
Вся страна – это наш стадион!

Здравствуй, самый лучший на свете
Стадион моей мечты!
Нас любовь ведёт к победе.
Спорта нет без красоты.

Сердцем чутким, сердцем влюблённым
Слышим гордый зов судьбы,
Зов родного стадиона,
Песню пламенной борьбы.

Нам с тобой вручён
Этот мир солнечной радости.
Спорт отвагой рождён.
Вся страна – это наш стадион!

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Salve, ó, melhor do mundo,
O estádio com que sonhei!
A persistência leva à vitória,
O esporte tem lá sua beleza.

A sede de vitórias e recordes
E o belo momento da luta:
Os esportistas profissionais
Ensinam o fair play a todos.

Te saudamos, ó, estádio,
Onde os sonhos rivalizam.
Te saudamos, ó, estádio,
Onde se batem recordes.

2x:
A mim e você foi confiado
Esse mundo de alegria radiante.
O esporte é fruto da bravura.
O país todo é nosso estádio!

A hora estrelada da magna luta
É fiel aos corações ardentes.
Glória aos gênios audaciosos
E aos craques entusiasmados!

Luz altiva de nomes lendários,
Brilho de indivíduos férreos,
Enquanto ninguém os alcança,
Equiparemo-nos nós a vocês!

Te saudamos, ó, estádio,
Onde os sonhos rivalizam.
Te saudamos, ó, estádio,
Onde se batem recordes.

2x:
A mim e você foi confiado
Esse mundo de alegria radiante.
O esporte é fruto da bravura.
O país todo é nosso estádio!

Salve, ó, melhor do mundo,
O estádio com que sonhei!
O amor nos conduz à vitória.
O esporte tem lá sua beleza.

De peito solícito e amoroso
Ouvimos chamar altivo o destino,
O apelo do querido estádio,
Canção de uma luta ardorosa.

A mim e você foi confiado
Esse mundo de alegria radiante.
O esporte é fruto da bravura.
O país todo é nosso estádio!



“Desejo boa sorte!”

29 de novembro de 2017

Там шли два брата (Lá iam 2 colegas)


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Esta é a canção “Там шли два брата” (Tam shli dva brata), Lá iam dois irmãos, falando de uma das inúmeras guerras do Império Russo tsarista contra o Império Otomano. O autor não é conhecido, e provavelmente trata de uma das inúmeras guerras mútuas que ocorrem desde o século 16, mais exatamente no século 19, dentre as quais não consegui identificar, mas que em geral terminaram em vitória russa. A expressão brata (literalmente “irmãos”) também alude a dois amigos, colegas ou companheiros de uma jornada, mais exatamente ao nosso “manos” genérico. O destino indicado na canção é um dos vários comuns, que infelizmente se multiplicariam no trágico século 20.

As músicas cossacas são reconhecíveis pelo vocabulário arcaico e pela pronúncia regionalista, bem como pela alternância de narradores, ou seja, tem hora que os versos indicam a fala de um narrador, outra hora do protagonista, e outra hora de outros personagens, sem se marcar a mudança de sujeito. No começo, por exemplo, diz-se “Lá iam, iam dois colegas”, isto é, o compositor está narrando. Nas estrofes seguintes, o “eu” é o soldado ferido, e em alguns momentos, são inseridas frases da esposa e dos filhos do moço. Também se percebe a inserção de várias vogais fracas entre consoantes enquanto se canta, o que lembra a ortografia do eslavo antigo, ou antes, a pronúncia do proto-eslavo (língua reconstituída), que não teria tantas consoantes encavaladas. Outro traço: onde se fala “outra”, que em russo é drugaia, pronuncia-se à ucraniana: “druhaia” (druhy/druha em ucraniano significa “2.º/2.ª”).

Eu fiz duas legendagens dessa música e as postei em meu canal Eslavo (YouTube), a primeira sendo com a garota russa Iulia Matiukina. Ela bombou na rede em 2015 cantando uma canção cossaca na sala de aula, e aparece nesta versão legendada com outra música do tipo. Mas isso foi em fevereiro de 2017, ou seja, nesse meio-tempo ela aproveitou o sucesso do primeiro vídeo pra produzir outros. Desde o primeiro vídeo, também descobri a identidade de Iulia, ou seja, além de seu nome, que ela tinha 19 anos na época do primeiro vídeo e estudava no colégio militar do Serviço Penitenciário Federal da Rússia (“ФСИН России”, FSIN Rossii). Na Academia desse serviço, ela é definida como kursantka, ou seja, aluna de colégio militar em geral (o masculino é kursant). Ela tem uma conta pessoal no VK, e infelizmente parece que ela não fala inglês.

O segundo vídeo é de uma apresentação comemorando os 200 anos do Coral Cossaco de Kuban (Кубанский казачий хор), gravada em 2011 e postada na internet no começo de 2012. Esse grupo folclórico, fundado em 1811, é um dos mais fortes do país, canta em russo e ucraniano e remonta às tradições da região de Kuban, no sul da Rússia, fronteiriça ao Cáucaso. Ao contrário do Coral Aleksandrov do Exército Vermelho, ele se foca na tradição da Rússia antiga. O vídeo original sem legendas está nesta página. Quanto a Iulia, foi certamente filmada numa casa privada, e o vídeo original, sem esse recorte aproximado que eu fiz, está neste canal de Aliona Semenovskaia, que deve ser uma amiga dela.

Eu mesmo traduzi a letra em russo, que pode ser lida nesta página, e legendei os dois vídeos. Seguem abaixo as legendagens, a letra em russo e a tradução em português (lado a lado, pra poupar espaço):




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Там шли, шли два брата
С турецкого фронта
С турецкого фронта домой

Лишь только преступили
Мы польскую границу
Ударил поляк три раза

Ударил, ударил
Он в грудь меня поранил
Болят мои ранки, болят

Одна нарывает,
Другая заживает
От третьей я должен умереть

А дома детишки
Жена молодая
Всё ждут поджидают меня

Сестрица родная
Дай чистой мне бумаги
Родным я письмо напишу

Отец прочитает
А мать того не знает
У сына нет правой руки

Детишки возроснут
У матери спросят
А где же отец наш родной?

2x:
А мать отвернётся
Слезами зальётся
Убит на турецкой войне.

2x:
Там шли, шли два брата
С турецкого фронта
С турецкого фронта домой...

Lá iam, iam dois colegas
Vindos do front turco
Vindos do front turco para casa

Nós mal ultrapassamos
A fronteira polonesa
Um polaco atirou 3 vezes

Deu tiros, deu tiros
Que feriram o meu peito
Doem, doem as feridinhas

Uma está inflamando
Outra vai cicatrizando
E talvez a terceira me mate

E em casa os filhinhos
E minha jovem esposa
Ainda me esperam, aguardam

Querida enfermeira
Me dê um papel em branco
Vou escrever para a família

Meu pai vai ler
Minha mãe não sabe que
O filho perdeu o braço direito

Meus filhos crescidos
Vão perguntar à mãe
Onde está nosso querido pai?

2x:
E a mãe vai se virar
E dizer em lágrimas
Que morreu na guerra turca

2x:
Lá iam, iam dois colegas
Vindos do front turco
Vindos do front turco para casa...




26 de novembro de 2017

“Как родная меня мать провожала”


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Outra canção falando de um jovem russo que vai pra guerra, que parecia ser um tema corrente na Rússia. Ela é mais conhecida sob o nome “Как родная меня мать провожала” (Kak rodnaia menia mat provozhala), Enquanto mamãe se despedia de mim, mas às vezes também é chamada, igual a uma postagem anterior, “Проводы” (Provody). Essa palavra, pois, designa a despedida de um moço que vai prestar o serviço militar, tema idêntico nos dois vídeos. Apenas na tradução que estou postando agora é que interpretei como uma guerra verdadeira, e não apenas nosso famoso Tiro de Guerra.

O poema original, que contém menções à União Soviética e ao Exército Vermelho, foi escrito pelo poeta, escritor, publicista e político Demian Bedny, que a compôs em 1918, no front da guerra civil em Sviazhsk (o título era Provody). Em 1928, o compositor Dmitri Vasiliev-Buglai adaptou ao poema a melodia da canção popular ucraniana Komaryk, que fala de tema diferente e também era conhecida entre os ciganos russos como Komarichko. Demian Bedny (1883-1945) era o pseudônimo de Iefim Alekseievich Pridvorov, que nasceu na atual região central da Ucrânia, pertenceu ao partido comunista até ser expulso em 1938 e praticou o “realismo socialista”. A letra de Bedny conheceu várias adaptações populares, e uma delas é a deste vídeo, que não faz menções ao bolchevismo.

Esta apresentação foi feita em 24 de fevereiro de 2015 na Casa da Música de Moscou, pelo Coral Popular Público Russo M. Ie. Piatnitski (ou apenas Coral Popular Piatnitski), fundado em 1911 pelo músico, compositor e folclorista que deu nome ao conjunto. Os artistas se dedicam essencialmente a cantar músicas na língua russa, mas também há, como vimos, alguns passos de dança, e por vezes essa canção é mesmo dançada. O Coral Piatnitski, que teve vários diretores ao longo do século 20, tem um site oficial. Deve-se saber, pra entender a canção: ela é como um diálogo, em que o jovem soldado começa a primeira estrofe, e as seguintes são feitas por um ou mais membros da família. Na parte assinalada com travessões, a fala da(do) parente é interrompida pela dança, e depois é o moço quem completa a música. O poema trata da Guerra Civil Russa do Exército Vermelho contra os “brancos”, mas esta versão pode ser aplicada em qualquer caso.

Existem nesta página algumas das variantes da letra e a história da canção, e a letra cantada no vídeo pode ser lida nesta página, onde também é possível baixar uma versão em estúdio. Eu baixei o vídeo sem legendas deste canal, onde há outros vídeos da mesma noite, e eu mesmo traduzi e legendei. Seguem abaixo a legendagem no meu canal Eslavo (YouTube), a letra em russo e a tradução em português:


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Как родная меня мать
Провожала,
Тут и вся моя родня
Набежала.

Ах, куда ж ты, паренёк,
Ах, куда ты?
Не ходил бы ты, Ванёк,
Во солдаты!

Мать, страдая по тебе,
Поседела,
А во поле и в избе
Столько дела!

Как дела теперь пошли:
Любо-мило!
Сколько сразу нам земли
Привалило!

Притеснений прежних нет
И в помине.
Лучше б ты женился, свет,
На Арине.

– С молодой бы жил женой,
Не ленился!
– Тут я матери родной
Поклонился.

Поклонился всей родне
У порога.
Не грустите вы по мне
За ради Бога!

Для родной своей земли
Расстараюсь.
Честь России защищать
отправляюсь!

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Enquanto mamãe de mim
Se despedia,
Todos meus parentes aqui
Apareceram.

Ai, aonde vai, rapazinho,
Ai, aonde vai?
Ah, se pudesse, Ivanzinho,
Não ir à guerra!

Triste por você, mamãe
Envelheceu,
E no campo e na casinha,
Tantos afazeres!

Como tudo se deu agora
Dá gosto de ver!
Tanto de uma vez da terra
Nós colhemos!

Nem sombra há da opressão
Do passado.
Você, bem, devia ter casado
Com Arina.

– Viveria com a jovem esposa,
Não vadiaria!
– Aqui mandei à mamãezinha
Lembranças.

Mandei a toda a família
No portão.
Não se aflijam por mim,
Pelo amor de Deus!

Pela minha terra natal
Vou batalhar.
Em prol da honra da Rússia
Estou partindo!




22 de novembro de 2017

Во саду дерево цветёт: canto cossaco


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Linda canção cossaca russa, que há muitos anos me pediram pra legendar, mas só há algum tempo fiz isso. Ela se chama “Во саду дерево цветёт” (Vo sadu derevo tsvetiot), Uma árvore floresce no jardim, às vezes também intitulada Da v sadu derevo tsvetiot. É mais uma composição que não tem autor e época definidos, mas faz parte do patrimônio cultural dos cossacos.

A cultura dos soldados cossacos livres é comum à Rússia e à Ucrânia, nesta tendo uma presença ainda mais forte. Muitas de suas músicas sobrevivem e são executadas até hoje, por grupos folclóricos (e também pelo exército russo) que incrementaram ainda mais a parte musical e coreográfica. Esse trânsito mútuo entre russos e ucranianos faz com que muitas letras, embora escritas formalmente em russo, tenham muitas características do sul do país, ou seja, muito próximas às da língua ucraniana.

Vou dar alguns exemplos. O uso da preposição u no lugar de v indicando alvo de movimento é muito mais comum no ucraniano do que no russo, embora neste haja uma evidente intenção eufônica. Ou seja, u pokhod (pra marcha), e não v pokhod. Devka ao invés de devushka (moça) também é dialetal e antigo, às vezes designando uma prostituta, como ocorre na ambiguidade que os brasileiros dão ao termo “rapariga”. O uso de kari no lugar de karie (castanhos) lembra igualmente a terminação de adjetivos ucranianos no plural. O verbo pobachit empregado como uvidet (ver, olhar) é outro decalque direto do ucraniano. E enfim, o que parece ser mais evidente: a pronúncia de gore ne beda (não adianta lamentar) no refrão como hore ne beda, dando pronúncia ucraniana padrão à letra Г (que, de fato, às vezes também é falada “g” no ucraniano do leste).

Eu mesmo traduzi e legendei, tendo postado meu vídeo no meu canal Eslavo (YouTube). A filmagem sem legendas, postada em 2012, consiste numa apresentação de artistas do Teatro Dramático Popular de Irkutsk, em evento folclórico lembrando os 75 anos da Província de Irkutsk, no museu Taltsy (Тальцы). Eu tirei a letra em russo do site do conjunto Kazachi Krug, onde também pode-se ouvir sua própria gravação. Seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português:


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Да в саду дерево цветёт,
Да казак у поход идёт.
Раз-два, горе не беда,
Да казак у поход идёт.
Раз-два, горе не беда,
Да казак у поход идёт.

Ой, да казак у поход идёт,
Да за ним девка слёзы льёт.
Раз-два, горе не беда,
Да за ним девка слёзы льёт.
Раз-два, горе не беда,
Да за ним девка слёзы льёт.

Эй, да не плачь, девка, не рыдай,
Да кари очи не стирай.
Раз-два, горе не беда,
Да кари очи не стирай.
Раз-два, горе не беда,
Да кари очи не стирай.

Ой, да тогда, девка, заплачешь,
Да как у строю побачешь.
Раз-два, горе не беда,
Да как у строю побачешь.
Раз-два, горе не беда,
Да как у строю побачешь.

Да как у строю, у строю,
Да на вороненьком коню.
Раз-два, горе не беда,
Да на вороненьком коню.
Раз-два, горе не беда,
Да на вороненьком коню.

Да на вороненьком коне,
Да на казачем на седле.
Раз-два, горе не беда,
Да на казачем на седле.
Раз-два, горе не беда,
Да на казачем на седле.

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Uma árvore floresce no jardim,
O cossaco está indo em marcha.
Um, dois, não adianta lamentar,
O cossaco está indo em marcha.
Um, dois, não adianta lamentar,
O cossaco está indo em marcha.

O cossaco está indo em marcha,
Atrás dele uma mocinha chora.
Um, dois, não adianta lamentar,
Atrás dele uma mocinha chora.
Um, dois, não adianta lamentar,
Atrás dele uma mocinha chora.

Não chore, menina, não soluce,
Enxugue seus olhos castanhos.
Um, dois, não adianta lamentar,
Enxugue seus olhos castanhos.
Um, dois, não adianta lamentar,
Enxugue seus olhos castanhos.

Então, menina, você vai chorar
Quando for olhar para as tropas.
Um, dois, não adianta lamentar
Quando for olhar para as tropas.
Um, dois, não adianta lamentar
Quando for olhar para as tropas.

Olhar para as tropas, as tropas
E olhar para o cavalinho negro.
Um, dois, não adianta lamentar,
E olhar para o cavalinho negro.
Um, dois, não adianta lamentar,
E olhar para o cavalinho negro.

Ao olhar para o cavalinho negro,
Ao olhar para a sela do cossaco.
Um, dois, não adianta lamentar
Ao olhar para a sela do cossaco.
Um, dois, não adianta lamentar
Ao olhar para a sela do cossaco.




19 de novembro de 2017

Igor Rasteriaiev – “Проводы” (cômica!)


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Não sei se essa era mesmo uma canção que me pediram há algum tempo pra legendar. Ela se chama “Проводы” (Provody), palavra que designa uma festa de despedida ou um “bota-fora” pra alguém que vai mudar de condição ou ficar um tempo afastado do convívio familiar. É o caso, por exemplo, dos jovens que vão servir o exército como internos, tema recorrente no folclore musical russo desde a era soviética. E com muito humor o canta Igor Rasteriaiev, criativo cantor, compositor e acordeonista, em vídeo de 2016.

Há na música evidentes elementos da cultura cossaca, como o acordeão de botões (harmônica), o rápido compasso e o sotaque com elementos parecidos ao ucraniano padrão. É a velha tradição da Rússia rural, renascida e reciclada conforme os gostos modernos. Em vista do que buscaram e sonhavam os bolcheviques, até podemos pensar como sua titânica empreitada teve esse resultado... A letra é de autoria do próprio Rasteriaiev, que a gravou em seu CD Dozhd nad Medveditsei, tendo postado este vídeo de estreia, sem legendas, em seu próprio canal do YouTube. Como outros artistas, tem seu sucesso e visibilidade impulsionados por essa plataforma.

Igor Rasteriaiev nasceu em 1980, numa família de artistas, e fez formação superior em artes cênicas, tendo atuado em alguns filmes e na TV. Porém, ficou mais famoso como músico, ao se inspirar nas próprias raízes rurais, a partir da viralização de seus vídeos, em 2010. Em 2011 gravaria seu primeiro álbum e não pararia com os shows. Baseia suas composições em fatos reais, alguns ocorridos com parentes e amigos, e tem seus vídeos gravados por um amigo que assessora suas produções.

Eu tirei a letra escrita desta página especializada, onde também colhi as informações acima. Eu mesmo traduzi e legendei, tendo postado o resultado no meu canal Eslavo (YouTube). Recomendo que visitem e divulguem também os dois canais YouTube de Rasteriaiev, o pessoal e o profissional, aonde ele joga todos os seus clipes. Lá tem os endereços de seu site e de suas redes sociais! Seguem abaixo a legendagem, a letra em russo e a tradução em português, em duas colunas pra poupar espaço:


____________________


– Батя! Собирай гостей –
Будем есть и пить.
Завтра утром ухожу
В армию служить.

– Что ты говоришь,
Миленький сынок?
Я уже бегу,
Не жалея ног.

Приходи, родня!
Будем есть и пить!
Мой сынок идёт
В армию служить!

– Батя! Водочки налей –
Опустел сосуд.
Кстати, почему курей
Долго не несут?

– Миленький сынок,
Щас всё принесут,
И водка с холодцом
Будут тут как тут.

Ну-ка, гармонист,
Дёрни от души!
Мой сынок идёт
В армию служить.

– Батя, чё-то я устал,
Хочу отдыхать.
Отнеси-ка на руках
Меня на кровать.

– Миленький сынок,
Вот уже несу!
Набирайся сил,
Отходи ко сну.

Ну-ка тихо все,
Быстро свет туши!
Мой сынок идёт
В армию служить.

Миленький, сынок, вставай!
В армию пора.
Проводили мы вчера
Тебя «на ура».

– Батя, отойди,
В ухо не гуди,
Да не надо мне
В армию идти!

Не хотел никто
Меня призывать –
Захотелось мне
Просто погулять.

Papai, chame o pessoal
Pra comermos e bebermos.
Amanhã de manhã vou
Começar o serviço militar.

É verdade mesmo,
Filhinho querido?
Vou correndo já,
Sem poupar passos.

Venha, parentada!
Vamos comer e beber!
Meu filhinho vai
Servir o exército!

Papai, mete mais vodca
Que o pote esvaziou.
Aliás, porque demoram
Pra trazer as galinhas?

Filhinho querido,
Já já trazem tudo,
A vodca e a galantina
Vão logo ser servidas.

Eia, sanfoneiro,
Rasga esse fole!
Meu filhinho vai
Servir o exército.

Papi, tô meio fatigado,
Eu quero descansar.
Me pega nos braços
E me leva pra cama.

Filhinho querido,
Já vou te levar!
Recobre suas forças
Fazendo sua naninha.

Opa, todos quietos,
Apaguem logo a luz!
Meu filhinho vai
Servir o exército.

Levanta, filhinho lindo!
Hora de ir ao quartel.
Ontem fizemos a sua
Festa de despedida.

Papai, vá embora,
Poupe meus ouvidos,
Pois não tenho que
Servir o exército!

Não fui convocado,
Ninguém quis isso:
Eu apenas desejei
Farrear um pouco.




15 de novembro de 2017

Rajoy lamenta o atentado em Barcelona


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Logo após o atentado terrorista com uma van que atropelou inúmeros turistas na avenida de pedestres Las Ramblas, em Barcelona, o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy expressou sua condolência às famílias dos mortos na noite de 17 de agosto de 2017. Mais um ataque a civis desarmados, reivindicado pelo grupo Estado Islâmico e executado por um marroquino, em suposta vingança à participação da Espanha na coalizão que combate o dito “califado” no Oriente Médio.

Lembremos que Barcelona é a capital e maior cidade da Região Autônoma da Catalunha, território com língua e costumes muito distintos que não se considera parte da nação espanhola. Notem como Rajoy, ao falar que “a Espanha é um povo unido”, parece gaguejar e recear um pouco. Os espanhóis e os catalães divulgaram, naquele instante, hashtags em suas respectivas línguas: Yo soy Barcelona e Jo sóc Barcelona. Também se usou muito nas manifestações públicas a frase catalã No tinc por (Não tenho medo). Por é uma palavra aparentada à italiana paura e à francesa peur.

Eu mesmo traduzi e legendei de ouvido, sem recorrer a uma cópia escrita. É aquele famoso “3 em 1”: ouvir/transcrever, entender/traduzir e já adaptar à legendagem. Eu baixei desta página o vídeo sem legendas, mas há outra versão com boa qualidade nesta página. Seguem abaixo a legendagem, que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube), e a tradução escrita em português:


____________________


Senhoras e senhores, muito boa noite, muito obrigado por sua presença.

Neste momento, quero que minhas primeiras palavras esta noite em Barcelona sejam de luto, lembrança e solidariedade para com as vítimas deste ataque, suas famílias e amigos. Eles são neste momento nossa prioridade máxima. Quero expressar também a solidariedade de toda a Espanha para com a cidade de Barcelona, hoje agredida pelo terrorismo jihadista, como antes o foram outras cidades no mundo todo.

Os moradores de cidades como Madri, Paris, Nice, Bruxelas, Berlim ou Londres sofreram a mesma dor e a mesma incerteza que estão hoje sofrendo os barcelonenses. E eu desejo que sejam para eles essas primeiras palavras, para transmitir-lhes o carinho, a solidariedade e o aconchego de toda a Espanha e do resto do mundo.

Como demonstração da dor da nação espanhola ante o criminoso atentado, o governo está decretando luto oficial a partir da zero hora do dia 18 de agosto de 2017 até as 24 horas do dia 20 de agosto, tempo em que a bandeira nacional tremulará a meio mastro em todos os prédios públicos e navios da Marinha.

Hoje, a Espanha, e mais concretamente Barcelona, recebe o carinho e a solidariedade que em outros momentos nós mesmos partilhamos com outras cidades e com outros países agredidos pela mesma barbárie terrorista. E quero dizer também que não estamos unidos somente no luto, estamos unidos principalmente na firme vontade de derrotar os que querem destruir nossos valores e nosso modo de vida.

Assim, desejei vir a Barcelona logo que pude para reunir-me com as forças e corpos de segurança do Estado e dar-lhes meu apoio à sua colaboração intensa e exata com a Polícia da Catalunha e a Guarda Municipal no momento de enfrentar o selvagem atentado terrorista.

Também é importante que, num dia tão duro e tão triste como hoje, todas as forças de segurança e nossos serviços de informação, ajuda civil, socorro e decisivamente todos os que fazem nossa segurança, saibam que contam com o firme apoio do governo e da totalidade dos espanhóis.

É certo que estamos sofrendo hoje com a dor de um terrível golpe. Mas também é verdade que o esforço abnegado destes homens e mulheres durante tantos anos conseguiu proteger-nos por muito tempo e desbaratar inúmeros planos criminosos. Sem dúvida continuarão assim fazendo no futuro.

Infelizmente, os espanhóis conhecem muito bem a dor absurda e irracional causada pelo terrorismo. Recebemos pancadas parecidas em nossa história mais recente, mas também sabemos que os terroristas não são infalíveis. São vencidos com instituições unidas, prevenção, cooperação policial, aporte internacional e a determinação firme em defender os valores de nossa civilização: a liberdade, a democracia e os direitos humanos. E são vencidos também com acordos amplos, como ocorre na Espanha, entre os partidos políticos. Em datas próximas, convocaremos o Pacto Antiterrorista para reafirmar nossa unidade e para trabalharmos todos juntos, como estamos fazendo até agora, também futuramente.

Senhoras e senhores, esta terrível tragédia que vivemos hoje em Barcelona fraterniza-nos na dor com vários outros países do mundo. Quero manifestar também desde já, esta noite, minha gratidão a todos os governantes estrangeiros que me buscaram para transmitir suas mensagens de solidariedade e apoio. Não pude falar com eles por ter sido mais urgente seguir os acontecimentos, porém os agradecerei pessoalmente por suas mensagens nos próximos dias.

Quero reiterar, por fim, o que já transmiti privadamente ao presidente Puigdemont, que conta com todo o apoio do Estado e do governo para ajudar as vítimas e confortar as famílias, retomar o quanto antes a normalidade civil e levar os culpados por esta barbárie diante da justiça. Devem saber também que toda a Espanha está comovida pelo mesmo sentimento que é vivido hoje aqui em Barcelona.

A luta contra o terrorismo é hoje a prioridade máxima das sociedades livres e abertas como a nossa. É uma ameaça global, e a resposta deve ser global. Todos os que partilham do mesmo amor à liberdade, à dignidade do ser humano e a uma sociedade baseada na justiça, e não no medo ou no ódio, são nossos aliados nesta causa.

Como eu dizia há pouco, é verdade que estamos unidos na dor, mas estamos principalmente unidos na vontade de acabar com esse disparate e com essa barbárie. Não esqueçamos nunca que a Espanha é um povo unido em torno de valores dos quais muito nos orgulhamos: a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Travamos muitas lutas contra o terrorismo ao longo da história, e ganhamos sempre. E também nesta ocasião, nós, espanhóis, vamos vencer.

Muito obrigado!



12 de novembro de 2017

Professores também devem ter direitos


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Recentemente, foi publicada na página do recém-fundado partido Patriota, apoiador do famigerado projeto Escola sem Partido, uma pequena lista com uns seis “deveres” a serem seguidos por todo professor em sala de aula. Por razões óbvias, eles concernem só à política, e não às ciências naturais, às artes, à geografia etc. O projeto ESP toca na ferida errada, culpando o ocasional partidarismo docente, quando deveria focar-se na má formação pedagógica que, muitas vezes, acomete estudantes recém-formados de História e Ciências Sociais, de passagem pelo magistério como “bico temporário”.

Como filho e neto de professoras do ensino público paulista e paulistano, tendo ouvido a vida inteira relatos de como é péssimo o estado das escolas e vergonhoso o descaso dos políticos, tenho raiva dessa gente sem formação pedagógica ou vivência dessa realidade, querendo meter o bedelho na vida já sofrida dos mestres! Num comentário à referida postagem, sugeri aos “patriotas” que propusessem, ao lado daqueles preceitos, uma lista de DIREITOS do professor, a serem resguardados principalmente pelos pais e pelo Estado. Sugeri os seguintes, na forma de um decálogo ou Dez Mandamentos, que podiam ser enriquecidos, e decidi pôr aqui.



1) O professor terá DIREITO a toda a assistência médica, psicológica e legal no caso de ser agredido física ou verbalmente por estudantes ou por seus pais, algo que infelizmente ocorre todos os dias, em todo lugar, mas nossos partidos se calam.

2) O professor terá o DIREITO de receber uma remuneração digna de sua formação, de forma a não se desgastar lecionando em diversas escolas de uma só vez.

3) O professor RECEBERÁ todos os benefícios que hoje recebe um parlamentar ou juiz: carro de graça, auxílio-moradia, auxílio-doença, auxílio-paletó, auxílio-refeição, auxílio-creche ou escola para os filhos, e assessores à disposição.

4) O professor RECEBERÁ aumentos salariais todos os anos, conforme ou acima da inflação, além de reposição de tudo o que lhe foi privado de direito, a começar pelo fim de bônus e gratificações que tapeiam os já precarizados ativos, mas deixam os aposentados na lama.

5) O professor terá DIREITO a uma formação superior de qualidade, com reforço tanto teórico quanto prático, não espremida em meros dois ou três anos e de caráter eminentemente humanístico, e não técnico, além de formação continuada para acompanhar o desenvolvimento tecnológico e geracional dos estudantes.

6) O professor terá DIREITO a uma jornada de trabalho decente, de fixar-se em apenas uma escola, de ter tempo para o planejamento das aulas e, sobretudo, uma infraestrutura básica, sendo que em muitas escolas das regiões pobres não há sequer teto ou cadeiras nas salas.

7) Os estudantes terão DIREITO a transporte escolar gratuito, legal, seguro, profissional e contínuo, além de segurança policial reforçada nas escolas, esta dirigida também aos professores.

8) O professor terá o dever de deixar-se avaliar continuamente, mas essa avaliação, bem como a avaliação das escolas, DEVE dar-se não no sentido da meritocracia, mas de atestar as deficiências no ensino e garantir, por todos os meios, infraestrutura adequada e capacitação atualizada.

9) O professor terá o DIREITO de ser o profissional mais valorizado da sociedade, devendo ser esse um caráter básico de nossa nacionalidade, e receberá todo o incentivo da mídia, propaganda, redes sociais e lobbies, em total detrimento do culto às celebridades, da mitificação do hedonismo e ostentação e da divulgação de música, novela e cinema de qualidade duvidosa.

10) O professor tem o DIREITO de ser tratado não como um mero empregado que passe conhecimentos mastigados aos estudantes, mas um EDUCADOR respeitado que transmita suas experiências aos jovens e também aprenda com eles, numa relação de troca, debate e confiança; da mesma forma, a educação, sobretudo em sua modalidade de ensino escolar, NÃO DEVE ser tratada como mercadoria, mas como o MAIS IMPORTANTE PATRIMÔNIO TRANSGERACIONAL PARA UM PAÍS RICO, LIVRE E SOBERANO; os pais não serão privados do direito de matricular os filhos em escolas particulares conforme seus valores pessoais, mas será dado ao ensino estatal, pelas razões supracitadas, um caráter PÚBLICO, GRATUITO, ACONFESSIONAL, UNIVERSAL, OBRIGATÓRIO, LAICO, HUMANISTA-PROFISSIONALIZANTE E DE QUALIDADE.







Cid Gomes, então governador do Ceará, respondeu no início de 2011 a uma greve de professores, que incluiu agressão policial a manifestantes na Assembleia Legislativa, dizendo que “O professor tem que trabalhar por amor. Se quer trabalhar por salário, que vá pra rede particular”. Como uma cuspida na cara do cidadão, Dilma Rousseff o escolheu Ministro da Educação no início de 2015, mas não durou muito. O governador paulista Geraldo Alckmin também não é um grande amigo do magistério, mas essa frase foi atribuía a ele falsamente. Por que os políticos também não trabalham por amor e não doam seu salário?...

9 de novembro de 2017

Textos da independência da Catalunha


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Hoje posto aqui a Declaração dos Representantes da Catalunha e as primeiras indicações pra constituição da República Catalã, um documento de inegável importância histórica, por duvidosos que possam ser seus efeitos. Deputadas e deputados independentistas do Parlamento da Catalunha apresentaram à mesa diretora dois projetos de resolução que delineiam as primeiras medidas pra constituir a estrutura da nova nação. A proclamação da República foi feita no dia 27 de outubro de 2017, quando o Parlamento aprovou o texto abaixo, por maioria de votos, embora vários deputados tivessem se retirado da sessão. Traduzi direto do catalão, original em PDF nesta página.


À MESA DO PARLAMENTO

Lluís M. Corominas i Díaz, presidente da Fração Parlamentar do Junts pel Sí (Juntos pelo Sim), Marta Rovira i Vergés, porta-voz da Fração Parlamentar do Junts pel Sí, Mireia Boya e Busquet, presidenta da Fração Parlamentar da Candidatura d’Unitat Popular – Crida Constituent (Candidatura de Unidade Popular – Apelo Constituinte), Anna Gabriel i Sabaté, porta-voz da Fração Parlamentar da Candidatura d’Unitat Popular – Crida Constituent, de acordo com o que estabelecem os artigos 151 e 152 do Regimento do Parlamento, apresentam as seguintes propostas de resolução, originadas do Debate Geral sobre a Aplicação do Artigo 155 da Constituição Espanhola na Catalunha e seus possíveis efeitos.


PROPOSTAS DE RESOLUÇÃO


Proposta de resolução 1
Declaração dos Representantes da Catalunha


Os deputados da Fração Parlamentar do Junts pel Sí e da CUP – Crida Constituent assinaram no último dia 10 de outubro, no Parlamento da Catalunha, a seguinte:


DECLARAÇÃO DOS REPRESENTANTES DA CATALUNHA


Ao povo da Catalunha e a todos os povos do mundo.

A justiça e os direitos humanos individuais e coletivos intrínsecos, fundamentos irrenunciáveis que dão sentido à legitimidade histórica e à tradição jurídica e institucional da Catalunha, são a base da constituição da República Catalã.

A nação catalã, sua língua e sua cultura têm mil anos de história. Durante séculos, a Catalunha dotou-se e desfrutou de instituições próprias que exerceram o autogoverno com plenitude, com a Generalitat (Generalidade) como a máxima expressão dos direitos históricos da Catalunha. O parlamentarismo foi, durante os períodos de liberdade, o esteio sobre o qual se sustentaram essas instituições, canalizou-se por meio das Cortes Catalãs e cristalizou-se nas Constituições da Catalunha.

A Catalunha restaura hoje sua plena soberania, perdida e longamente desejada, depois de décadas tentando, honesta e lealmente, conviver institucionalmente com os povos da Península Ibérica.

Desde a aprovação da Constituição Espanhola de 1978, a política catalã teve um papel-chave com uma atitude exemplar, leal e democrática para com a Espanha, e com um profundo senso de Estado.

O Estado espanhol retribuiu essa lealdade com a recusa em reconhecer a Catalunha como nação, e concedeu uma autonomia limitada, mais administrativa do que política e hoje sofrendo recentralização, além de um tratamento econômico profundamente injusto e uma discriminação linguística e cultural.

O Estatuto de Autonomia, aprovado pelo Parlamento e pelo Congresso, e referendado pelos cidadãos catalães, deveria ser o novo marco estável e duradouro da relação bilateral entre a Catalunha e a Espanha. Porém, tornou-se um acordo político quebrado pela sentença do Tribunal Constitucional e que fez emergir novas contestações cidadãs.

Recolhendo as exigências de uma grande maioria dos cidadãos da Catalunha, o Parlamento, o Governo e a sociedade civil solicitaram repetidamente que se combinasse a celebração de um referendo de autodeterminação.

Diante da constatação de que as instituições do Estado repeliram toda negociação, violentaram o princípio de democracia e autonomia e ignoraram os mecanismos legais disponíveis na Constituição, a Generalitat da Catalunha convocou um referendo para o exercício do direito à autodeterminação reconhecido no direito internacional.

A organização e celebração do referendo acarretaram a suspensão do autogoverno da Catalunha e a aplicação de facto do estado de exceção.

A brutal operação policial de dimensão e estilo militares, orquestrada pelo Estado espanhol contra cidadãos catalães, feriu suas liberdades civis e políticas e os princípios dos Direitos Humanos em muitas e repetidas ocasiões e desobedeceu aos acordos internacionais assinados e ratificados pelo Estado espanhol.

Milhares de pessoas, entre as quais centenas de políticos, funcionários públicos e profissionais vinculados ao setor de comunicação, administração e sociedade civil, foram investigados, detidos, processados, interrogados e ameaçados com duras penas de prisão.

As instituições espanholas, que deveriam ter permanecido neutras, protegido os direitos fundamentais e arbitrado diante do conflito político, tornaram-se parte e instrumento desses ataques e deixaram indefesos os cidadãos da Catalunha.

Apesar da violência e da repressão para tentar impedir a celebração de um processo democrático e pacífico, os cidadãos da Catalunha votaram majoritariamente a favor da constituição da República Catalã.

A constituição da República Catalã está fundamentada na necessidade de proteger a liberdade, a segurança e a convivência de todos os cidadãos da Catalunha e avançar rumo a um Estado de direito e a uma democracia de maior qualidade, e responde ao impedimento por parte do Estado espanhol de tornar efetivo o direito à autodeterminação dos povos.

O povo da Catalunha é amante do direito, e o respeito à lei é e será uma das pedras angulares da República. O Estado catalão acatará e fará cumprir legalmente todas as disposições que modelem esta declaração e garante que a segurança jurídica e a manutenção dos acordos assinados integrarão o espírito fundacional da República Catalã.

A constituição da República é uma mão estendida ao diálogo. Honrando a tradição catalã de pactuar, mantemos nosso compromisso com a concórdia como forma de resolver os conflitos políticos. Ao mesmo tempo, reafirmamos nossa fraternidade e solidariedade para com os demais povos do mundo e, em especial, aqueles com os quais partilhamos a língua, a cultura e a região euromediterrânea, em defesa das liberdades individuais e coletivas.

A República Catalã é uma oportunidade para corrigir as atuais carências democráticas e sociais e construir uma sociedade mais próspera, mais justa, mais segura, mais sustentável e mais solidária.

Em virtude de tudo o que acabamos de expor, nós, representantes democráticos do povo da Catalunha, no livre exercício do direito à autodeterminação, e conforme o mandato recebido dos cidadãos da Catalunha,

CONSTITUÍMOS a República Catalã como Estado independente e soberano, de direito, democrático e social.

PREPARAMOS a entrada em vigor da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.

INICIAMOS o processo constituinte, democrático, de base cidadã, transversal, participativo e vinculante.

AFIRMAMOS a vontade de abrir negociações com o Estado espanhol, sem imposições prévias, destinadas a estabelecer um regime de colaboração em benefício de ambas as partes. As negociações deverão dar-se, necessariamente, em pé de igualdade.

DAMOS AO CONHECIMENTO da comunidade internacional e das autoridades da União Europeia a constituição da República Catalã e a proposta de negociações com o Estado espanhol.

INSTAMOS a comunidade internacional e as autoridades da União Europeia a intervir para interromper a corrente violação de direitos civis e políticos, a fiscalizar o processo de negociação com o Estado espanhol e ser suas testemunhas.

MANIFESTAMOS a vontade de construir um projeto europeu que reforce os direitos sociais e democráticos dos cidadãos, assim como de comprometer-se a continuar aplicando, de maneira ininterrupta e unilateral, as normas do ordenamento jurídico da União Europeia e as do ordenamento do Estado espanhol e da autonomia catalã que incorporem aquelas primeiras.

AFIRMAMOS que a Catalunha tem a vontade inequívoca de integrar-se o mais rapidamente possível à comunidade internacional. O novo Estado compromete-se a respeitar as obrigações internacionais que se apliquem atualmente em seu território e a continuar integrando os tratados internacionais dos quais o Reino da Espanha é signatário.

APELAMOS aos Estados e às organizações internacionais que reconheçam a República Catalã como Estado independente e soberano.

INSTAMOS o Governo da Generalitat a adotar as medidas necessárias para possibilitar a plena efetividade desta Declaração de Independência e das disposições da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.

FAZEMOS um apelo a todos e cada um dos cidadãos e cidadãs da República Catalã para que nos tornem dignos da liberdade que conquistamos e construam um Estado que traduza as inspirações coletivas em atos e atitudes.

ASSUMIMOS o mandato do povo da Catalunha expressado no Referendo de Autodeterminação de 1.º de outubro e declaramos que a Catalunha agora é um Estado independente em forma de República.


PROPOSTA DE RESOLUÇÃO


O Parlamento da Catalunha expressa seu repúdio ao acordo do Conselho de Ministros do Estado espanhol propondo ao Senado do Estado espanhol as medidas para concretizar o que dispõe o artigo 155 da Constituição Espanhola. As medidas propostas, marginais ao próprio corpo jurídico atual, preveem a eliminação do autogoverno da Catalunha. Ao mesmo tempo, colocam o Governo do Estado espanhol como substituto do Governo da Generalitat e censor do Parlamento da Catalunha, uma medida que não somente é inaceitável como também constitui um ataque à democracia sem precedentes nos últimos 40 anos.

Oferecemos negociação e diálogo e fomos confrontados com o artigo 155 da Constituição e a eliminação do autogoverno: a resposta foi de uma contundência política similar ao uso da força no dia 1.º de outubro.

O Parlamento decidiu instar o Governo a ditar todas as resoluções necessárias para desenvolver-se a Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República, e em especial:

  • A promulgar os decretos necessários, dotando com pessoal e recursos os serviços administrativos encarregados de expedir aos cidadãos os documentos comprobatórios da nacionalidade catalã.
  • A estabelecer a regulação do procedimento para a aquisição da nacionalidade catalã, por força das disposições previstas no artigo 8 e na disposição final 2.ª.
  • A promover a assinatura de um tratado de dupla nacionalidade com o governo do Reino da Espanha, em conformidade com o artigo 9.
  • A ditar, em conformidade com o artigo 12.1, as disposições necessárias para a adaptação, modificação e inaplicação do direito local, autonômico e estatal vigente antes da entrada em vigor da Lei de Transitoriedade Jurídica e Fundacional da República.
  • A ditar, fundamentado no que dispõe o artigo 12.3, os decretos necessários para a recuperação e eficácia das normas anteriores à sucessão de ordenamentos jurídicos, anuladas ou suspensas por motivos de competência pelo Tribunal Constitucional e pelos demais tribunais, dando atenção especial a todos aqueles reguladores de impostos e outras figuras impositivas, assim como àqueles que desenvolvam instrumentos para combater a pobreza e a desigualdade social.
  • A promover, diante de todos os Estados e instituições, o reconhecimento da República Catalã.
  • A estabelecer, pelo procedimento correspondente e em conformidade com o que dispõe o artigo 15, a relação de tratados internacionais que devam continuar vigendo, assim como daqueles que devam resultar inaplicados.
  • A estabelecer, de acordo com o artigo 17, o regime de integração à Administração da Generalitat da Catalunha, exceto por renúncia expressa dos mesmos, de todos os funcionários, vinculados ao Estado espanhol, que até esta data prestavam seus serviços à administração geral da Catalunha, à administração local da Catalunha, às universidades catalãs, à administração de justiça e à administração institucional do Estado na Catalunha, ou dos funcionários, vinculados ao Estado espanhol, de nacionalidade catalã que prestem seus serviços fora da Catalunha.
  • A dar ao conhecimento do Parlamento a relação de contratos, convênios e acordos objeto de sub-rogação por parte da República Catalã, de acordo com o que dispõe o artigo 19.
  • A promover um acordo com o Estado espanhol para a integração do pessoal e a sub-rogação dos contratos previstos nos incisos IV e V, em conformidade com o que dispõe o artigo 20.
  • A sancionar tudo o que se expôs acima, assim como adotar as medidas necessárias para o exercício da autoridade fiscal, da previdência social, alfandegária e cadastral de acordo com o que dispõem 80, 81, 82 e 83, estabelecendo, se for o caso, os períodos de transição entre administrações para que se garanta um serviço público adequado.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação de um banco público de desenvolvimento a serviço da economia produtiva.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação do Banco da Catalunha, com as funções de banco central, que deverá zelar pela estabilidade do sistema financeiro.
  • A promover as diligências e medidas legislativas necessárias para a criação das demais autoridades reguladoras, com as funções que lhes são inerentes.
  • A abrir um período de negociações com o Estado espanhol, segundo o que dispõe o artigo 82, para determinar, e em que grau, se for o caso, a sucessão do Estado catalão, conforme se acordar, em direitos e obrigações de caráter econômico e financeiro assumidos pelo Reino da Espanha.
  • A elaborar um inventário dos bens de titularidade do Estado espanhol, radicados no território nacional da Catalunha, a fim de tornar efetiva a sucessão em sua titularidade por parte do Estado catalão, em conformidade com o que dispõe o artigo 20.
  • A elaborar uma proposta de repartição de ativos e passivos entre o Reino da Espanha e a República da Catalunha, fundamentada nos critérios internacionalmente padronizados, abrindo um período de negociação entre os representantes de ambos os Estados e submetendo o acordo obtido, se for o caso, à aprovação do Parlamento da Catalunha.

O Parlamento abrirá uma investigação para determinar as responsabilidades do Governo do Estado espanhol, suas instituições e órgãos dependentes na perpetração de delitos relativos à agressão de direitos fundamentais, individuais e coletivos buscando evitar o exercício do direito ao voto pelo povo da Catalunha no último 1.º de outubro.

Essa Comissão de Investigação será formada por deputados das frações parlamentares e peritos do âmbito nacional e internacional, da Agência Antifraude, da Sindicatura de Greuges (Ministério Público da Catalunha) e da advocacia catalã, e por representantes das entidades de defesa dos direitos humanos, fazendo com que sejam representadas as organizações internacionais.


Proposta de resolução 2
Processo constituinte


O parlamento da Catalunha decide:

Declarar o início e a abertura do processo constituinte.

Instar o Governo da Generalitat a:

  1. Ativar de maneira imediata todos os recursos humanos, públicos e sociais, bem como meios materiais a seu alcance, para efetivar o processo constituinte democrático, de base cidadã, transversal, participativo e vinculante, que deve culminar na redação e aprovação da Constituição da República por parte do Parlamento constituído em Assembleia Constituinte e que resulte das eleições constituintes.
  2. Constituir no prazo de quinze dias o Conselho Assessor do processo constituinte, liderado pela sociedade civil organizada, a fim de assessorar na fase deliberativa constituinte.
  3. Convocar, difundir e executar a fase decisória do processo constituinte, recolhendo as propostas sistematizadas no Fórum Social Constituinte e submetendo-as a consulta cidadã, que constituirá um mandato vinculante para o Parlamento constituído em Assembleia Constituinte e que resulte das eleições constituintes.
  4. Convocar eleições constituintes, uma vez terminadas todas as fases do processo constituinte.

Encorajar todos os agentes cívicos e sociais para que no prazo de um mês constituam a plataforma promotora do processo constituinte ou Pacto Nacional pelo Processo Constituinte.

Constituir, no prazo de quinze dias, a Comissão Parlamentar que fiscalizará o processo constituinte, visando preservar, se não direcionar, a tarefa da plataforma promotora e garantindo o desdobramento de seus trabalhos e o cumprimento do prazo semestral legalmente definido para seu desenvolvimento e conclusões.

Encorajar as prefeituras a fomentar os debates constituintes a partir do âmbito local, promovendo a participação da sociedade civil e fornecendo os recursos e espaços adequados e necessários ao correto desenvolvimento do debate cidadão.


Palácio do Parlamento, 27 de outubro de 2017