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quarta-feira, 29 de março de 2017

Himno de Riego (República Espanhola)


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Este é o Himno de Riego (Hino de Riego), oficialmente o hino nacional da Espanha em três breves ocasiões: durante o chamado “Triênio Liberal” (1822-1823), durante a Primeira República, junto com a “Marcha Real” (1873-1874), e durante a Segunda República (1931-1939), quando ele se tornou mais conhecido. A letra consiste num poema escrito por Evaristo de San Miguel em 1820, mas entre as várias melodias que foram usadas, a tocada no vídeo abaixo não tem autor conhecido, embora seja mais ou menos de 1820.

A canção era cantada pela coluna militar do tenente-coronel Rafael del Riego (1784-1823), o qual se insurgiu contra o rei espanhol Fernando 7.º em 1.º de janeiro de 1820 e se tornou na cultura popular, por isso, um símbolo da luta pelas liberdades políticas e constitucionais contra o autoritarismo. Um de seus companheiros de luta era Evaristo Fernández de San Miguel y Valledor (1785-1862), nobre, militar, político e historiador espanhol, que compôs a letra desse hino. Na época, em geral se entendia por “hino” principalmente a letra, ocorrendo de se cantarem melodias diversas, conforme a ocasião, e o mesmo ocorreu com o Himno de Riego. Várias melodias foram empregadas, mas a letra também variou bastante, tanto que a original possuía nove estrofes, fora o refrão; no hino de 1931 a 1939, eram cantadas apenas três. Não se sabe ao certo quem compôs a melodia mais famosa, mas acredita-se que tenha sido o compositor romântico de ópera José Melchor Gomis y Colomer (1791-1836), embora nenhuma pesquisa tenha conseguido dar a palavra final.

Por um século, a canção continuou muito popular, sendo sempre adaptada diversamente em variados locais. Entre as inúmeras comoções que ocasionalmente abalavam a monarquia, houve a fuga, mas não abdicação, do rei Alfonso 13.º em 14 de abril de 1931 e a consequente instauração de um regime republicano. Algumas fontes, inclusive a Wikipédia, apontam o Himno de Riego como o novo hino oficial desse período, mas no próprio verbete sobre a Segunda República Espanhola, diz-se que ele nunca teria sido ratificado, abrindo-se vasta polêmica sobre uma nova música, mas outras propostas também foram rejeitadas. Niceto Alcalá-Zamora y Torres (1877-1949) foi o primeiro chefe de um governo provisório e em 11 de dezembro tomou posse como o primeiro presidente eleito, mas após sucessivas conturbações e uma guerra civil, o golpe militar de Francisco Franco derrubou a República em 1.º de abril de 1939. Foi restaurada como hino nacional, então, a antiga Marcha Real, vigente ainda hoje e que jamais teve uma letra oficial, embora, entre as várias existentes, a mais usada até 1975 fosse a de José María Pemán.

Até hoje, ela permanece como símbolo máximo dos republicanos espanhóis, que desejam o encerramento da monarquia e têm, entre seus lemas, “¡Y a por la Tercera!” (ou seja, uma “Terceira República”), sendo por isso muito popular na internet. Além de outras letras e paródias alternativas, há também versões muito satíricas e até violentas, muitas compostas na época da guerra civil (1936-1939), populares entre os catalães, sobretudo, e extremamente opostas à realeza. Eu tirei a letra da Wikipédia em espanhol (que difere muito da existente nas versões em outras línguas), embora tenha feito umas poucas mudanças pra ajustá-la como o áudio, que baixei desta página da Izquierda Republicana, onde há informações sobre mais outros símbolos. O vídeo mais famoso do YouTube em que há legendas com o mesmo áudio está nesta página, porém o design é amadorístico e o texto não bate com o que achei na Wikipédia.

Na letra, há algumas referências históricas que precisam ser entendidas: “El Cid” (Rodrigo Díaz de Vivar), cavaleiro castelhano do século 11 que passou à posteridade como herói nacional, a menção ao próprio Riego, já explicado acima, e Marte, o deus da guerra para os antigos romanos (“martes” em espanhol é “terça-feira”). Não procurei fazer uma tradução literal, mas segui dois princípios: 1) considerar o contexto geral de uma batalha, uma guerra, e não as frases como entidades ou afirmações isoladas; 2) reconstruir em português as frases de forma a gerar compreensão rápida, e não correspondência poética. Infelizmente, não achei informações sobre o cantor e a banda do áudio. Seguem abaixo a montagem que fiz com as legendas de minha tradução (postada no meu canal O Eslavo no YouTube, como sempre), a letra em espanhol e a tradução em português:


____________________


1. Serenos y alegres,
valientes y osados,
cantemos, soldados,
el himno a la lid.
Y a nuestros acentos
el orbe se admire
y en nosotros mire
los hijos del Cid.

Estribillo:
Soldados, la patria
nos llama a la lid,
juremos por ella
vencer o prefiero morir.

2. El mundo vio nunca
más noble osadía
ni vio nunca un día
más grande en valor,
que aquel que inflamados
nos vimos del fuego
que excitara a Riego
de Patria el amor.

(Estribillo)

3. La trompa guerrera
sus ecos da al viento,
horror al sediento,
ya ruge el cañón;
y a Marte sañudo
la audacia provoca,
y el ingenio invoca
de nuestra nación.

(Estribillo)

____________________


1. Serenos e alegres,
valentes e ousados,
cantemos, soldados,
o hino para a luta.
Que nossos acordes
extasiem o planeta
e que ele veja em nós
descendentes do Cid.

Refrão:
Soldados, a pátria
nos chama a combater,
juremos vencer
por ela, ou então morrer.

2. O mundo nunca viu
ousadia mais nobre
e jamais viu um dia
alguém mais valoroso
do que aquele cujo fogo
vimos a nos inflamar
e que incitara em Riego
o amor pela Pátria.

(Refrão)

3. O clarim de guerra
ecoa pelo vento,
o canhão já ruge
odiando o impulsivo;
e a audácia provoca
o enfurecido Marte
e impele a armar-se
a nossa nação.

(Refrão)



Eles diziam: “¡Viva la República!”

domingo, 26 de março de 2017

“O Partido da Guerra” (poema de 2005)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/nsdap


Desde criança, eu gostava de fazer poemas, sobre os mais variados temas. Até mesmo assuntos de história e ciências podiam se tornar um motivo inusitado pra eu versificar! Deve ser por causa de minha oculta veia artística, que embora nunca me puxasse muito pra literatura, me fazia ler alguma coisa sobre artes plásticas e poesia. Daí a vontade, principalmente até o Ensino Médio, de produzir alguma coisa nesse campo, mesmo que apenas por diversão!

Infelizmente, quase nenhuma aquarela ou desenho meu de antes da faculdade sobreviveu até os dias atuais, mas eu guardei a maioria dos poemas, mesmo que eu nunca tivesse a pretensão de ser um literato profissional. Embora desde cedo eu já demonstrasse propensão às ciências humanas, nunca deixei totalmente essa produção artística, como uma forma de distrair minha mente e, por vezes, pelo menos transformar em algo bonito matérias que em geral parecem tão áridas. A maioria desses textos é inédita, tanto em meio impresso quanto digital, e poucas ou nenhuma pessoa chegou a lê-los, exceto, talvez, minha mãe e minha avó.

Hoje estou postando algo, no mínimo, inusitado. Existe uma espécie de poema chamada “acróstico”, em que as letras iniciais de cada verso, lidas verticalmente, formam uma frase, expressão ou conjunto de palavras. Não conheço a origem e os usos exatos dessa prática, mas sempre me pareceu um jeito inteligente de passar mensagens subliminares, jogando com a dialética entre implícito e explícito. No dia 25 de maio de 2005, quando eu tinha 17 anos, escrevi um acróstico que batizei “O Partido da Guerra”, narrando o que eu sabia sobre a história do Partido Nazista e sua interação com a 2.ª Guerra Mundial. O viés dele é antifascista, e enquanto eu cursava um semestre de História Contemporânea II (século 20) com minha querida Prof.ª Eliane Moura na Unicamp, mais exatamente em outubro e novembro de 2008, revisei-o quase todo com os conhecimentos que adquiri aí e com pesquisa adicional, após o ter deixado três anos guardado.

Acho que escrevi o poema em 2005 como uma espécie de relaxamento mental da correria em que eu estava naquele ano, com formatura do colegial, conclusão de matérias e preparação pro vestibular. Mas, por incrível que pareça, ao que eu me lembre, nem mesmo à Eliane cheguei a mostrá-lo! Onde publiquei realmente, foi no antigo blog “Pensadores libertos”, que mantive em 2009 e 2010, mas deve ter tido pouca ou nenhuma repercussão, pois não havia essa interação entre blogs e mídias sociais como existe hoje. E se as pessoas mal divulgavam coisas alheias no Orkut, ainda por cima quase ninguém no Brasil ainda tinha Facebook! Por isso, nesta página, pretendo dar-lhe suporte e forma definitivos.

Este poema fala sobre a trajetória inicial do Partido Operário Nacional-Socialista Alemão (o NSDAP, ou Partido Nazista), até sua chegada ao poder em 1933 e o papel de Adolf Hitler no aumento da tensão internacional e na eclosão da guerra mundial. As letras iniciais formam palavras ou nomes de instituições ligadas ao regime e à sua filosofia, mas não vou revelá-los, vou deixar que vocês os decifrem e pesquisem a respeito. Minha intenção não foi elogiar o nazismo, muito pelo contrário; mas se algum simpatizante, que porventura venha aqui, ficar fazendo birra com o que escrevi, não estou nem aí. O mesmo vale pra viúvas do stalinismo que possam não gostar de certos trechos. Eu tive um fim basicamente didático, mas posso com motivos duvidar de seu valor artístico e literário. Afinal, eu tinha apenas 17 anos, não conhecia nada sobre literatura e apenas queria me divertir. É com isso em vista que o poema deve ser lido e, talvez, fruído.

Por isso, apesar da aparente bizarrice, espero que vocês gostem disso que escrevi há tantos anos. Nas próximas semanas, quero continuar postando coisas que escrevi ou versifiquei na adolescência, pra deixar enfim guardado pro público tudo o que fiz no passado, e que eu julgue digno de revelar! Não vou ficar ofendido com críticas e sugestões.




Foi em 1919,
Uma cidade da Baviera:
Homens criaram um partido
Rotulado como “dos trabalhadores”,
Enquanto uma filosofia nacionalista
Rastejava na Alemanha.

Norteemos-nos, porém, em outro contexto:
Áustria, Braunau am Inn, 1889:
Tiveram Alois e Klara um filho.
Infância difícil ele viveu!
O menino pintava cartões e quadros...
Na bela Viena ele tornou-se
Artista frustrado.
Lutou bravamente na 1.ª Guerra Mundial:
Soldado? Não, cabo, e condecorado!
Outra cidade, depois, tornou-se sua casa:
Zurique? Não, Munique.
Induzido a participar de um partido,
Aquele ao qual me referi no começo,
Logo se elegeu dele presidente.
Iludido pela ideia do Putsch,
Saiu-se mal:
Todos os rebelados foram presos.
Interno, ele escreveu um livro
Sobre toda a sua doutrina.
Como seria sua filosofia?
Homossexual ou homofóbica?
Eu não sei, e poucos conseguiram saber...

Depois de sair do cárcere,
Ele e seus companheiros voltaram à cena.
Uma multidão de partidários
Teve nas mãos as cadeiras do parlamento.
São perseguidos, então,
Comunistas e liberais.
Hindenburg, antes de morrer, cedeu o governo
E finalmente eles chegaram ao poder.

As perseguições continuaram:
Ricos seriam os judeus,
Banqueiros responsáveis pela crise
Enquanto o povo não arranjava trabalho?
Incitou-se, pois, guerra contra eles!
Travaram-se batalhas contra negros,
Eslavos, ciganos e deficientes físicos
Repudiados em favor de uma “raça pura”.
Planos nas mãos de Hess, Göbbels e Göring,
Ambição desmedida,
Roma é o exemplo para o mundo,
Templos para eternizar a glória do passado,
Expansionismo na veia, Lebensraum,
Ignição no combustível da economia!

Guerras, porém, eram seu maior forte
Entre suas diversas obsessões:
Hoje construir, amanhã destruir,
Emergir os arianos, submergir os “impuros”,
Invadir para recuperar o que foi perdido,
Marchar, então, para o Leste,
Entrar na Polônia!

Soviéticos respaldaram e o imitaram:
Tratado de Ribbentrop-Molotov ratificado,
As duas ditaduras uniram-se,
Assustando a muitos.
Tamanha ousadia dos dois déspotas!
Seguiram-se, depois, mais atrocidades:
Perseguições à gente de Abraão,
Obrigada a ir para campos de extermínio,
Levada ao fundo do poço,
Imigrando, às vezes, para países distantes,
Zelando para manter suas vidas,
Enquanto Noruega, Grécia, Holanda e outros
Intrusos bárbaros “recebiam” em suas terras.

Sem aviso prévio, porém,
Começou a guerra na URSS.
Houve um motivo para isso:
Unidos, antes, para a divisão do mundo,
Tiranos mostraram-se divergentes,
Zerando, assim, suas perspectivas.
Sem qualquer alternativa,
Traição da direita contra a esquerda!
Alemães, aos montes, na Europa Oriental
Ferreamente abriram fogo.
Furiosos, correram em direção a Moscou.
Em Stalingrado, porém, sob intenso frio,
Logo perceberam que não eram invencíveis.

Lutas desesperadas jogaram-nos na desgraça.
Urraram as resistências nos países-satélites,
Forçando um bruto recuo de suas tropas.
Tito rechaçou esses estrangeiros.
Warszawa, ou Varsóvia, começou a rebelar-se.
Aliados, na Normandia, iniciaram o fim,
Fogo nos céus de Londres,
Fraquezas revelaram-se nas horas de desvantagem,
Entrou o Brasil no meio da disputa.

Perder a guerra parecia impossível!
A realidade, agora, era essa:
Navios afundados, tanques destroçados,
Zumbis vermelhos, azuis, amarelos e brancos
Esganavam Berlim, a capital do Reich,
Rompiam-se as cercas dos sítios terríveis.
Diante desse cenário desolador,
Ignorar a própria vida: suicidar-se!
Viena já não era mais deles.
Ingleses, franceses, americanos e soviéticos
Subdividiram a terra de Goethe e Einstein.
Israel foi criado para os discípulos de Ben Gurion.
Os frutos da tragédia ainda podem ser vistos.
Nações, mesmo amigas agora, ainda se ressentem,
E mesmo que se passem milhares de anos
Nunca nos esqueceremos.




quarta-feira, 22 de março de 2017

Последняя электричка (O último trem)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/elektrichka



Há muito eu procurava esta canção na voz de Eduard Khil, o “Mr. Trololo”, mas não consegui achar no YouTube. Na busca, me deparei com um simpático moço russo tocando essa música, manuseando o acordeão como um velho mestre. Ele se chama Ievgeni Popov, e tem um canal exclusivo com apresentações públicas e caseiras, fazendo sob encomenda diversos tipos de shows em quaisquer ocasiões. A canção se chama “Последняя электричка” (Posledniaia elektrichka), O último trem elétrico, e fazendo referência aos trens urbanos tão usados por trabalhadores nas grandes cidades, foi composta em 1961 com letra de Mikhail Nozhkin e melodia de David Tukhmanov. Logo depois de tê-lo legendado, eu achei na internet um áudio com a gravação de Khil, e então fiz a montagem que também segue abaixo.

É familiar a vocês a relação entre trens noturnos e encontros amorosos? Pois então vocês conhecem o famoso samba brasileiro Trem das onze! Coincidentemente, o período em que o personagem russo deve partir gira em torno desse horário também, quando sai o “último trem” pro retorno à casa. Única diferença: ao que se sabe, o brasileiro não perdeu o trem, agora o russo perde todo dia! Elektrichka em russo indica o “trem elétrico”, ou seja, não os movidos a combustão, e que por isso são usados nas zonas urbanas, tipo CPTM em São Paulo. Na música, não se trata de metrô, pois não é subterrâneo. Pode-se se dizer em russo também “электропоезд” (elektropoiezd), literalmente “trem elétrico”, e ele é um tema recorrente da cultura, literatura e cantoria na Rússia. O escritor Iuri Piliar (1924-1987) também escreveu um romance de nome Posledniaia elektrichka, e a canção do vídeo também é tocada na comédia infantil (animação) soviética Vnimanie, cherepakha! (1970).

Notem ainda que, entre uma estrofe e outra, e no começo e no fim da música, o andamento animado, a onomatopeia e a altura reforçada executados (no caso do Popov) ou a melodia e o back vocal (no caso do Khil) lembram o barulho de um trem partindo, assim como a voz bradando no vazio, ao final da gravação do Khil, alude ao homem que lamenta a perda do trem.

Os autores da música ainda vivem. David Fiodorovich Tukhmanov (n. 1940) é um compositor e músico com formação clássica que foi premiado várias vezes e tem o título de Artista Popular da Federação Russa (2000). Entre suas incontáveis composições, que passam pelos gêneros art rock, pop e ópera, seu primeiro hit popular foi Posledniaia elektrichka, composto em 1961, quando ele ainda estava na faculdade, mas gravado apenas em 1966 pelo cantor Vladimir Makarov, a partir daí “bombando nas paradas”, como dizíamos. Mikhail Ivanovich Nozhkin (n. 1937), além de poeta e músico, também é ator de cinema e teatro, tendo recebido o título de Artista Popular da RSFS da Rússia em 1980. Muito condecorado, atuou em vários filmes, criticou várias vezes a perestroika e hoje apoia o KPRF (PC da Rússia).

Os russos talvez conheçam mais a gravação de Eduard Khil, que dizem ser em ritmo de twist (embora dum jeito bem soviético), mas o vídeo do jovem acordeonista Ievgeni Popov também ficou muito bom. Parece coincidência, mas ele se diz baianist, pois a “harmônica”, ou “acordeão de botões” (também “sanfona” ou “gaita” no Brasil), que ele está tocando se diz baian em russo, mas nada tem a ver com o ritmo “baião”, que vem do gentílico “baiano”, nome de uma dança antiga que inspirou o primeiro! Popov é um acordeonista profissional que dá shows na Rússia com ênfase na música folclórica e popular, podendo ser contratado em seu site pessoal, que não dá informações biográficas, mas fala sobre sua formação e prêmios. O vídeo original sem legendas está nesta página, e por razões de honestidade, visitem e se inscrevam no canal dele também!

Quanto a Eduard Anatolievich Khil (1934-2012), não preciso dizer muito, pois desde 2010, quando uma gravação sua de 1976 viralizou nas redes sociais, seu nome se tornou mais ou menos conhecido nos meios cults ocidentais e muita coisa pode ser achada sobre ele em várias línguas. A maior vantagem foi que descobrimos um grande cantor do passado, com uma linda voz e vastíssimo repertório, cujos similares russos e de países vizinhos raramente chegam até nós, tão bloqueados pela névoa pop e “enlatada”. Escutem, por exemplo, sua interpretação da celebérrima canção Dorogoi dlinnoiu, que na voz de Sergei Lazarev já postei aqui e é mais conhecida no Brasil por causa da abertura do antigo Show de Calouros. Pra quem sabe russo ou consegue se virar em sites estrangeiros, recomendo fortemente também o site oficial do barítono, fundado em 2004 e que, segundo consta, tem mais de 800 áudios, 30 vídeos e 100 fotos, afora os mais de 800 uploads relacionados a ele no YouTube.

Eu mesmo traduzi a letra em russo e fiz as legendas, tendo também montado o vídeo, no caso do Khil, cujo áudio MP3 eu baixei deste site. Está nesta página a letra completa da música, que Popov toca e canta, e Khil omite apenas a terceira estrofe, mas o resto é tudo igual, sem alterações. Seguem abaixo os vídeos de Popov e de Khil, postados no meu canal O Eslavo no YouTube, a letra em russo e a tradução:




____________________


Как всегда мы до ночи стояли с тобой
Как всегда было этого мало
Как всегда позвала тебя мама домой
Я метнулся к вокзалу
Опять от меня сбежала последняя электричка
И я по шпалам опять по шпалам
Иду домой по привычке

А вокруг тишина а вокруг ни души
Только рельсы усталые стонут
Только месяц за мною вдогонку бежит
Мой товарищ бессонный
Опять от меня сбежала последняя электричка
И я по шпалам опять по шпалам
Иду домой по привычке

Уж восток не спеша начинает гореть
Завтра рано вставать на работу
Только хочется петь, и бежать, и лететь
Только спать неохота
Опять от меня сбежала последняя электричка
И я по шпалам опять по шпалам
Иду домой по привычке

Ни унять ни понять мною радость мою
Так вот каждую ночь коротаю
Завтра снова с любимой до звезд простою
И опять опоздаю
Не жди ты меня пожалуй последняя электричка
Уж я по шпалам опять по шпалам
Пойду домой по привычке

____________________


Como sempre, fiquei até a noite com você
Como sempre, foi pouco tempo
Como sempre, sua mãe te chamou pra casa
E eu voei pra estação
De novo me escapou o último trem elétrico
E andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa

Silêncio ao redor, ninguém ao redor
Só os trilhos cansados gemendo
Somente a Lua corre ao meu encalço
Minha camarada insone
De novo me escapou o último trem elétrico
E andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa

Logo a aurora sem pressa começa a raiar
Amanhã cedo tenho que trabalhar
Minha vontade era de cantar, correr, voar
E não de ter que dormir
De novo me escapou o último trem elétrico
E andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa

Não posso conter ou entender minha alegria
É assim que passo todas as noites
Amanhã de novo com a amada até anoitecer
E me atraso de novo
Não precisa me esperar, último trem elétrico
Pois andando de novo pelos dormentes
Pra variar, eu vou pra casa




domingo, 19 de março de 2017

Sorĉistino: C. Alexandre em esperanto


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/feiticeira


Há muito eu não postava alguma das minhas traduções de músicas brasileiras pro esperanto, que fiz na adolescência. Além desta de hoje, pretendo em breve publicar outras. Agora estou postando minha versão da canção Feiticeira, composta e cantada por Carlos Alexandre nos anos 1970. Ela é a mais famosa desse cantor potiguar já falecido, que fez sucesso no estilo “brega” então muito corrente na canção popular. Antes de entrar na universidade, eu escutava muito canções desse estilo, e inclusive verti algumas pro esperanto, mais por lazer mesmo, porque eu não tinha onde divulgar. A maioria desses meus poemas eu postei num antigo site sobre esperanto que eu mantive durante a adolescência e hoje não existe mais. O título deu Sorĉistino, que também significa “bruxa”, e eu mantive a mesma métrica e esquema de rimas, mas não o som dessas rimas. Infelizmente, eu não me lembro mais da data em que fiz a tradução. Nesta página vocês podem ler a letra em português, e seguem abaixo um vídeo com a música original e o texto em esperanto.

Jam de longe mi ne publikigis unu el miaj tradukoj de brazilaj kanzonoj al Esperanto, kiujn mi faris dum la adoleskeco. Krom ĉi-tiun hodiaŭan, mi intencas baldaŭ publikigi aliajn. Nun mi publikigas mian version de la kanzono Feiticeira, komponita kaj kantata de Carlos Alexandre en la 1970-aj jaroj. Ĝi estas la plej fama de ĉi tiu kantisto, kiu naskiĝis en la ŝtato Rio Grande do Norte, jam mortis kaj sukcesis kun la stilo “brega” (“bizara”), tiam tre kuranta en la popola muziko. Antaŭ mia eniro en la universitaton, mi ofte aŭskultis kanzonojn de ĉi tiu stilo, kaj eĉ tradukis kelkajn el ili al Esperanto, surtute por mia amuziĝo, ĉar mi ne havis ilon por disvastigado. La plejparton el tiuj miaj poemoj mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto, kiun mi subtenis dum la adoleskeco kaj hodiaŭ ne plu ekzistas. La titolo de la kanzono signifas Sorĉistino, vorto, kiun oni povas traduki al la portugala ankaŭ kiel “bruxa”. Mi konservis la samajn metrikon kaj rimskemon, sed ne la sonojn de tiuj rimoj. Bedaŭrinde mi ne plu memoras la daton, kiam mi faris la tradukon. En ĉi tiu paĝo vi povas legi la tekston en la portugala, kaj ĉi-sube estas video kun la originala kanzono kaj la teksto en Esperanto.


___________________


Sorĉistino

Sorĉistino, sorĉistino,
Sorĉistin’ estas tiu virin’,
Kiu min pasiigis.
Sorĉistino, sorĉistino,
Malneeble sorĉaĵon al mi
Ŝi ja fari deziris.

Estis mi tre solega, sen iu persono
Por zorgi pri mi.
Malfeliĉa mi estis, plendadis, suferis
En ploriga viv’.
Ŝi subite aperis
Kaj per unu tuŝo de sia magio
La ĝenaĵojn estingis,
La ĝenaĵojn estingis,
Venis tuj energio.

Sorĉistino, sorĉistino,
Sorĉistin’ estas tiu virin’,
Kiu min pasiigis.
Sorĉistino, sorĉistino,
Malneeble sorĉaĵon al mi
Ŝi ja fari deziris.



quinta-feira, 16 de março de 2017

Dilma Rousseff patina no francês (11/3)


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Domingo passado, achei esta peça bombando no trending do YouTube e não resisti em fazer uma espécie de “legendagem educativa e explicativa”. Cheguei a rir muito, principalmente da parte final, mas isso não justifica os comentários maldosos que muitos fizeram, só pensando no lado político. Infelizmente, não achei a fonte original, e esse trecho isolado foi replicado por muitos, apesar da má qualidade.

Pra quem já viu meu vídeo de junho passado sobre sua viagem à Bulgária em 2011, não preciso falar mais nada. Acrescentando algumas coisas, a facilidade com que ela cedeu às saraivadas do Congresso revelaram sua falta de loquacidade, pensamento rápido e articulação (talvez até de vocabulário). Muitos me criticaram por eu ter zoado da dificuldade em falar búlgaro, mas pelo menos aí eram palavras ensaiadas. Ela deve ter aprendido francês há muitas décadas e não praticado constantemente, por ter trabalhado mais no Brasil. Quem está aprendendo francês, sabe o sufoco de conseguir falá-lo correntemente, e quem sabia uma língua, esqueceu e teve de usar de novo, sempre fica numa saia ainda mais justa. O nervoso, como foi este caso explícito da Dilma, termina de piorar a situação.

Até aí, temos a parte propriamente linguística. Eu só adicionaria que talvez ela devia ter falado em português, mesmo, e ser interpretada. Mas os antipetistas que gostam de falar maldades aproveitaram pra tentar viralizar o vídeo e avacalhar seu desempenho. Confesso que votei na Dilma duas vezes, me arrependo e não a defenderia de forma alguma (da mesma forma que não quero Lula de novo, mas por outros motivos). Mas acho bem coisa de “brasileiro” apontar o cisco no olho dos outros e não olhar a trava no seu próprio. Muitos “comentaristas” de YouTube apedrejaram o francês dela sem nem escrever português direito e, talvez, não arriscando nem inglês.

E mesmo pra quem está mal das pernas, ela evitou vários erros primários: fez boas conjugações verbais, pronunciou de forma no geral correta e não se enganou com as letras mudas. Afora o próprio embaraço, os erros foram basicamente de: 1) concordância de gênero (“une” sentiment, personnes “différents”); 2) uso errado de palavras (personnes no lugar de gens, était nécessaire no lugar de doit, félicité quando era melhor bonheur); 3) “invenção” de palavras, comum com línguas próximas (se torner ao invés de devenir, auto-estime ao invés de estime de soi ou confiance, e efforce ao invés de effort). De alguma forma, foi um mico, mas foi admirável o esforço de falar uma língua estrangeira. Pergunto: Michel Temer fala inglês? Donald Trump fala outras línguas? Presidentes dos EUA e da França têm sido poliglotas?

Contexto do vídeo: com a intenção de Lula voltar à presidência em 2018, Dilma o apoia, pretende ser ministra e, nesse rastro, começou uma jornada em eventos e organizações internacionais de direitos humanos pra reafirmar a tese do “golpe”. No último sábado, 11 de março, Dilma participou em Genebra, Suíça, de um evento da Academia de Direito Humanitário e Direitos Humanos Internacionais, “Combatendo a fome e a pobreza: os casos do Brasil e da Índia”. Além de várias palestras e debates, deu também entrevistas na RST, TV estatal suíça de língua francesa. Essa agenda humanitária “paralela” está irritando o governo brasileiro. Veja também o vídeo com sua intervenção completa em português, e a entrevista pra Darius Rochebin na RST, com interpretação. O portal UOL e a revista Época trataram o assunto de formas diferentes.

Eu mesmo transcrevi, legendei com as gagueiras e fiz um rascunho de tradução. Nas legendas, só reproduzi alguns erros, tendo evitado os de pronúncia ou cortes mais bruscos. É difícil reconstituir com precisão o que deveria ser a fala certa, porque Dilma fez, entre outras coisas, algo comum com quem não sabe bem um idioma, que é trocar de repente uma expressão desconhecida por outra conhecida. Seguem abaixo a legendagem que postei no meu canal O Eslavo no YouTube, a transcrição revisada em francês e a tradução em português:


____________________


J’avais un sentiment : je pense que nous sommes tous des gens qui pensent que le monde doit se transformer pour le mieux et pour le bonheur des gens, mais surtout pour les opportunités égales. Je sais que les gens sont différentes, mais je sais aussi que, si l’on donne des opportunités égales, les gens se développent, elles deviennent... cherchent son destin d’une manière autonome, avec confiance. Et j’ai fait un effort pour vous!

____________________


Eu tinha um sentimento: penso que somos todos pessoas que pensam que o mundo deve mudar pra melhor e pra felicidade das pessoas, mas sobretudo pra oportunidades iguais. Sei que as pessoas são diferentes, mas sei também que, se damos oportunidades iguais, as pessoas se desenvolvem, tornam-se... buscam seu destino de forma autônoma, com autoestima. E fiz um esforço pra vocês!


Bela mensagem, anyway!

domingo, 12 de março de 2017

Kanzono al amatino (poema, esperanto)


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Já reencontrei muitos poemas antigos meus revirando papeladas guardadas. Atualmente, olho de novo versões digitais ou digitalizadas, pois além do que já passei no escâner, há anos tenho muita coisa digitada. Alguns versos em esperanto, por exemplo, estão em formato HTML, como material conservado de um antigo site dedicado ao idioma, que mantive nos anos 2000, mais ou menos até o início de minha graduação em História.

E muito daquilo com que me deparo evoca momentos muito especiais de meu passado... Este aqui, por exemplo, é um poema que fiz em esperanto na segunda metade de 2002, mais ou menos entre julho e setembro, pensando numa colega de escola por quem era apaixonado. O engraçado é que eu tinha 14 anos, e ela 11, e mais engraçado ainda é que nunca mostrei o poema a ninguém, nem a ela (a galera achava o esperanto coisa de doido)! A menina nunca me correspondeu, mas hoje me lembro com carinho de como eu era inocente em sentimentos.

Devo dizer que eu tinha começado a estudar esperanto há apenas dois anos, por isso o texto não está escrito no que geralmente se aceita como “gramaticalmente correto” entre os especialistas mais consultados. Além do poema em esperanto, coloquei um rascunho de tradução em português, mas nenhuma explicação pode expressar as minúcias de significado obtidas com certos recursos da língua. Outro lance cômico é que enquanto escrevia, imaginava uma melodia na minha cabeça, bem simples, mas infelizmente não tenho como a expressar aqui... Espero que vocês gostem!



Kanzono al amatino

Kiam mi rigardas vin
Forte batas mia kor’
Pro la tipo de virin’
Pli valora ol la or’.

Tiel ĉarma la vizaĝ’
Kaj dancema via korp’.
Sereneco kaj kuraĝ’
Da beleco estas op’.

La haŭto, blanka kiel lakto,
Alvokas miajn manojn
Volanta tuŝon kun amego
Sen peto de vanaĵoj.

Al mi tuj donu varman kison
Kaj mi feliĉiĝos.
Ni kune faru grandan vivon,
Benataj ni iĝos.

Vi, anĝelo de ĉielo,
Ĝojon donas al nur mi
Parolante dulĉan voĉon,
Bela fonto de pasi’.

Mildaj haroj sur la kapo:
Kompletiĝas la belec’
Kun rideto deloganta,
Kisi ĝin: jen mia cel’.

Malpezajn okulojn vi havas,
Inspiras kanzonojn,
Karesi vin en ĉirkaŭpreno
Ĝuanta la sonĝojn.

Vin amindumi ja eterne
Pasiganta tempojn.
Mi amas vin, mi certe amas
Per veregaj sentoj.

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Canção para a amada

Quando eu olho você
Meu coração bate forte
Por causa do tipo de mulher
Mais valiosa do que o ouro.

O rosto tão encantador
E seu corpo dançante.
Serenidade e coragem
São um conjunto de beleza.

A pele, branca como leite,
Chama minhas mãos
Querendo toque com muito amor
Sem pedir coisas vãs.

Me dê longo um beijo quente
E eu vou me felicitar.
Façamos juntos uma grande vida,
Nos tornaremos abençoados.

Você, anjo do céu,
Dá somente alegria a mim
Pronunciando uma voz doce,
Bela fonte de paixão.

Meigos cabelos sobre a cabeça:
A beleza se completa
Com um sorriso sedutor,
Beijá-lo: eis meu objetivo.

Você tem olhos leves,
Inspiram canções,
Acariciá-la num abraço
Desfrutando os sonhos.

Sim, namorá-la eternamente
Passando tempos.
Eu te amo, certamente amo
Com sentimentos muito reais.




quarta-feira, 8 de março de 2017

Grupo Pizza – “Вторник” (Terça-feira)


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Esses dias tomei contato com um grupo pop muito interessante da Rússia. Ele se chama “Пицца” (Pizza), que a rigor podíamos transliterar do cirílico “Pitsa” ou “Pitstsa”. Os russos gostam de pôr esses nomes ocidentais estranhos nas bandas modernas. Tudo começou há algumas semanas, quando uma moça, na página do Clube Eslavo no Facebook, mostrou este vídeo com um pai ensinando seu bebê a nadar, e disse que tinha gostado da música de fundo. Captando algumas palavras, procurei o texto inteiro no Google e vi que se tratava do vídeo que pode ser visto abaixo. Ela ficou feliz ao saber que canção era, e mais feliz quando eu disse que logo podia traduzir. Eis aqui, além disso, o clipe legendado!

Trata-se da música “Вторник” (Vtornik), Terça-feira, gravada em 2013 e cujo vídeo oficial foi lançado no canal do Pizza no YouTube, em outubro do mesmo ano. A canção é muito bonitinha, a letra é fofa e o clima geral lembra muito essas gravações do Luan Santana sobre amores atemporais, ultrapassagem da velhice... Ela ensina sobre como um grande e verdadeiro amor transcende o tempo, consegue ser forte mesmo na ausência um do outro e como nunca é vão nenhum esforço pra manter os laços, face a tantos obstáculos.

O grupo Pizza foi formado em 2009 na cidade russa de Ufa, pelo músico Sergei Prikazchikov, que também compôs a letra e a melodia desta música. Sergei tem perfis na maioria das redes sociais, com o nome de usuário “sergpizza” (Face, Twitter, VK). A banda diz ter importado o estilo urban soul pra Rússia, mas ela também toca pop-soul, reggae (cujos traços são notáveis em Vtornik), funk, pop e rap. Sergei já tinha atuado no grupo “Via Chappa”, e o primeiro trabalho do Pizza foi a faixa Piatnitsa (Sexta-feira), de 2010. Eles também gravaram os álbuns Kukhnia (2012), Na vsiu planetu Zemlia (2014) e Zavtra (2016), e foram muito premiados por seus trabalhos. Além de Vtornik, há clipes de outras 11 faixas, gravados desde 2011.

A internacionalização de suas equipes e de seus cenários de filmagem é uma das características de que o grupo se vangloria. O clipe de Vtornik (assista aqui ao vídeo original sem legendas), por exemplo, foi gravado na República Tcheca, e as duas crianças protagonistas são o russo Georgi Knekov, então com 13 anos, e a tcheca Tereza Šedivá, então com 10 anos e habitante de Praga. Na página oficial do Pizza, além de muito conteúdo próprio, tem também as redes sociais deles pra seguir. Eu mesmo traduzi a letra em russo e legendei o vídeo original, podendo ser vistos abaixo a legendagem em português, o texto em russo e a tradução pro português:


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Обыкновенный вторник,
Самый незаметный день,
Был, как будто не был, плыл
И вяло утонул в среде.

Я заведу мотор, на кольце затор,
Дорога не восторг, но на метро не то.
Еду я домой, еду, еду, а кругом
Метёт метель.

Я звонил тебе днём просто так,
Алё, привет, алё, привет,
Я звонил весь день,
Но длинные гудки в ответ.
Номер наберу, и снова не берут,
Где же ты, мой друг,
Где где ты, добрый друг,
Нападает грусть,
И безнадежно впереди
Стоит проспект.

Мы с тобою никогда не постареем,
Если сможем иногда быть добрее,
Открывай скорее, у дверей я,
У дверей я.

Будем мы как будто вновь вместе,
Такой я видел сон вчера, а у меня всё песни.
И это не совсем игра, и горе не беда,
И годы, города, и горы, высота,
И я хочу туда, и ты хотела так,
Но что-то сбилось, и остановился шаг.

Не постоянно время, не ровен час,
Прошу, не дай ему всё решить за нас.
Несколько минут, годы не вернуть,
Но можем мы вдвоём в них просто заглянуть,
И к этому окну так спешил,
Я может быть в последний раз.

(2x:)
Мы с тобою никогда не постареем,
Если сможем иногда быть добрее,
Открывай скорее, у дверей я,
У дверей я.

Открывай скорее, у дверей я.
Обыкновенный вторник,
Самый незаметный день.

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Uma terça-feira qualquer,
O dia mais insignificante.
Como inexistente, passou
E sumiu fraco na quarta-feira.

Vou ligar o motor, paro no ponto final,
O trajeto não espanta, mas no metrô sim.
Vou pra casa, vou, vou, e em volta
Vai caindo neve.

De tarde, te liguei por ligar,
Oi, alô, oi, alô,
Liguei o dia inteiro
E só chama, ninguém atende.
Disco de novo, não respondem.
Onde você está, minha amiga,
Onde, onde está, boa amiga,
Bate uma tristeza,
E adiante, sem remédio,
Está a avenida.

Eu e você nunca vamos envelhecer
Se pudermos às vezes ser mais bondosos,
Abra logo, eu estou na porta,
Estou na porta.

De novo estaremos como que juntos,
Sonhei com isso ontem, ainda ouço as canções.
E não é brincadeira, não importa a dor,
E os anos e cidades, mágoas e a altura,
Eu quero ir aí, e você também,
Mas algo falhou, e cessou o andar.

O tempo é inconstante, a hora é inexata,
Por favor, não o deixe decidir tudo por nós.
Os anos não vão voltar em minutos,
Mas nós dois podemos só lhes dar uma olhada,
E pra essa janela eu talvez
Corri na pressa pela última vez.

(2x:)
Eu e você nunca vamos envelhecer
Se pudermos às vezes ser mais bondosos,
Abra logo, eu estou na porta,
Estou na porta.

Abra logo, eu estou na porta.
Uma terça-feira qualquer,
O dia mais insignificante.




domingo, 5 de março de 2017

Служить России (Servir à Rússia) 2000


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Este é um raro exemplo de marcha militar edificante, composta no estilo soviético, mas lançada após o desmonte da URSS. Por isso mesmo, deve ser o mais notável exemplar do gênero que se tem hoje, sobretudo por não haver menção ao comunismo ou a seus mitos. Ela se chama “Служить России” (Sluzhit Rossii), Servir à Rússia, e também me foi indicada por um fã do meu canal O Eslavo no YouTube há alguns anos. A letra foi composta por Ilia Reznik, e a melodia por Eduard Khanok, tendo sido executada pela primeira vez em 2000, num encontro solene do Dia da Vitória entre Vladimir Putin e ex-veteranos do KGB. Coloquei nesta página duas versões em vídeo que legendei há algumas semanas, com as letras levemente diferentes.

Esta música parece ilustrar exatamente o tipo de produção de que Aleksei Kofanov zombava em seu Hino a Putin, que já postei aqui, e talvez realmente tenha sido sua inspiração: as mesmas palavras sobre “sol que se levanta”, “defesa e futuro da Pátria”, “somos uma só família”. Aliás, vários dos intérpretes de Sluzhit Rossii são mais ou menos ligados ao regime de Putin (que se caracterizou por reciclar boa parte da cultura pretérita, embora fosse raro então surgir algo novo no mesmo molde), ou a artistas que o adoram, tais como Iosif Kobzon.

Os dois compositores da canção ainda estão vivos, têm sólida formação musical clássica e se destacam pela constante proximidade com o poder, tanto o soviético quanto o russo e, ocasionalmente, da Ucrânia e Belarus, tendo sido ativos nas associações nacionais de artistas e poetas. Ilia Leopoldovich Reznik (n. 1938), de família judia, compõe principalmente canções populares, mas também é ator, roteirista e empresário. Foi condecorado Artista Popular da Rússia (2003) e da Ucrânia (2013, antes de Maidan, claro), participou do júri num show de TV e está no terceiro casamento. Eduard Semionovich Khanok (n. 1940) nasceu no Cazaquistão, mas se mudou pra Bielo-Rússia (hoje Belarus, onde obteve o título de Artista Popular em 1996) na infância e hoje é músico e compositor de canções populares. Hoje vive em Moscou, com dupla cidadania russa e bielo-russa, e chegou a candidatar-se à Duma Estatal, mas não obteve votação suficiente.

O primeiro vídeo com montagem, cuja voz é a do próprio Ilia Reznik, não fui eu que fiz, mas apenas baixei sem legendas desta página. Nota-se como os russos revindicam pra si, em particular, todo o patrimônio da vitória na 2.ª Guerra Mundial, embora a URSS fosse uma federação multinacional. É especialmente notável a cena do tanque alemão rodando como um peru aos 1’25”! O segundo vídeo, que está sem legendas nesta página, é de uma apresentação feita em 2006 pelo Conjunto Aleksandrov do Exército Russo (antigo Coral do Exército Vermelho) no Palácio Estatal do Kremlin, durante o jubileu de 195 anos do famoso Coral Cossaco de Kuban, do qual já legendei algumas coisas. O solista se chama Vadim Ananiev, e como também vimos, ele também costuma cantar Kalinka-Malinka nos shows fora da Rússia, e por isso é conhecido no Ocidente como “Mr. Kalinka”.

Como toda canção russa mais ou menos popular, de qualquer época, a letra varia bastante entre intérpretes e sites com letras de música. O texto em que me baseei pra primeira versão está no site pessoal do próprio letrista, e o texto mais semelhante ao cantado na segunda versão está em parte reproduzido nesta página. Antes de traduzir as canções e legendar os vídeos, eu mesmo fiz algumas alterações pros textos corresponderem exatamente ao que se canta, mas como ambos também diferem ligeiramente entre si, aponto abaixo quais são essas diferenças. Seguem os dois vídeos no meu canal, a letra em russo com as indicações mencionadas e a tradução em português:




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1. Полки идут стеной,
Красиво держат строй,
И гордо шелестят знамёна.
Комбат и рядовой,
Единою судьбой
Мы связаны с тобой (*), друг мой!

(*) Ou “Мы связаны навек”.


Припев:
Служить России
Суждено тебе и мне.
Служить России,
Удивительной стране,
Где солнце новое встаёт
На небе синем.
Плечом к плечу
Идут российские войска.
И пусть военная дорога нелегка,
Мы будем верою и правдою
Служить России!

2. В бесстрашии атак
Спасли мы русский (*) флаг,
И дом родной, и наши песни.
А коль придёт беда,
Собою мы тогда
Отчизну заслоним, друг мой.

(*) Ou “Мы сохранили”.


(Припев)

3. Полки идут стеной,
Красиво держат строй,
И вместе с нами вся Россия.
И он, и ты, и я –
Армейская семья,
И этим мы сильны, друг мой!

(Припев)

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1. Os regimentos como um só
Mantêm belamente a forma
Altivos sacudindo bandeiras.
Comandante e praça,
Pelo mesmo destino
Estou atado a você, meu amigo! (*)

(*) Ou “Somos atados pra sempre, amigo!”.


Refrão:
Servir à Rússia
É dever meu e seu.
Servir à Rússia,
Um país maravilhoso
Onde surge um novo sol
No céu azul.
Ombro a ombro
Vão as tropas russas.
Por dura que seja a via militar,
Vamos de corpo e alma
Servir à Rússia!

2. Em ataques corajosos
Guardamos a bandeira russa (*)
E o lar natal, e nossas canções.
E na hora da desgraça,
Seremos todos então
Muralhas da Pátria, meu amigo.

(*) Ou “Nós defendemos a bandeira”.


(Refrão)

3. Os regimentos como um só
Mantêm belamente a forma
E toda a Rússia está conosco.
Somos ele, você e eu
Uma família no exército,
Isso nos faz fortes, meu amigo!

(Refrão)




quarta-feira, 1 de março de 2017

Hino a Vladimir Putin (versão anônima)


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Quando procurava no YouTube um vídeo que ilustrasse o Hino a Putin (Гимн Путину, Gimn Putinu) que me pediram pra legendar, achei outras canções com o mesmo nome, mas de posicionamentos e estilos diferentes. Pra primeira versão, como visto, achei o vídeo montado pelo próprio autor e cantor da música, mas conheci também por acaso uma outra montagem, a única que julguei mais interessante além da composição de Aleksei Kofanov. Então, após esta versão anterior, baixei aquele segundo vídeo pra legendar em português, mas tive de transcrever o texto de ouvido, pois não o achei escrito na rede.

Ele me pareceu digno de postar porque ilustra, ao menos à primeira vista, o propósito oposto da versão de Kofanov: nele, não parece haver nada de irônico, crítico ou cômico, mas a montagem cheira toda a um louvor incondicional a Vladimir Putin. O mais intrigante é que o vídeo apareceu em abril de 2014, ou seja, pouco após a Rússia ter incorporado a península da Crimeia, antes território da Ucrânia (a maior parte dos países não reconheceu essa manobra), e a crise neste país estava a pleno vapor. Putin foi criticado por estar supostamente promovendo uma política expansionista, pois além da Crimeia, iniciou-se a guerra no Donbass, prolongada até hoje e na qual os separatistas de cultura russa contavam com apoio implícito do Kremlin. Este vídeo é, pois, uma peça histórica muito polêmica.

Tudo parece anônimo neste vídeo: a letra, o cantor, a pessoa que montou, e o canal russo não dá muitas informações, a não ser a de que o vídeo parece ter sido seu único envio relevante. Se Putin, pelo menos, não deu mostras claras de que queria expandir o território da Rússia indiscriminadamente (ainda assim, foi chamado de “Putler” no Ocidente), seus fãs incondicionais e os apoiadores de uma política de potência nacionalista não escondem a vontade de restaurar a “Grande Rússia” do passado, com o mesmo território gigantesco, mas sem o governo bolchevique. Aliás, falando em comunismo, a semelhança dessa propaganda nota-se com a que era feita na época de Stalin, e com a que era feita durante toda a URSS com a imagem de Lenin. Parece que o culto ao chefe, a mania de grandeza, o expansionismo e o nacionalismo sempre foram em geral aprovados pelos soviéticos... com a exceção de que o regime era marxista.

O anonimato do autor (ou autora?...) nos deixa ainda mais perplexos, mas tacitamente resume o que pensa o russo médio, ou ao menos aquele que tem contato massivo com a mídia do governo, à exceção, claro, das inúmeras oposições abertas ou veladas. (E pra expressar oposição disfarçada, mas mordaz, os russos têm inigualável talento artístico, desde os tempos dos tsares.) Como eu disse, o máximo de informação pode ser encontrado na página do próprio vídeo sem legendas, e nem mesmo a letra escrita se encontra online. Eu só pude traduzir e legendar após ser ajudado por Volodymyr Tkach na transcrição do áudio, que infelizmente não pude fazer toda. Seguem abaixo a legendagem que postei no meu canal O Eslavo no YouTube, o texto em russo que Tkach me enviou, retificando e completando o que eu já tinha feito, e a tradução em português:


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Приблизил он время великих свершений
Один против всех он сумел устоять
Без выстрелов, даже без лишних движений
Страну по кусочках он стал собирать

Россия Путина дала
Успешно он вершит дела
С ним солидарен наш народ
Он верным курсом нас ведёт
Он наш герой, он богатырь
Растёт страна и вдоль и вширь
Он настоящий патриот
Владимир Путин, наш оплот

Он море Охотское, Крым, Севастополь
К России обратно присоединил
А НАТО поднял на весь мир дикий вопль
Хотя наш союз он ведь сам развалил

Россия Путина дала
Успешно он вершит дела
Он в небо стерхами летал
Престиж России поднимал
Он мир харизмой покорил
В Олимпиаде победил
И нас всех учит побеждать
Удар умеет он держать

Сплотил россиян он в единую силу
Духовною скрепой народ наш силён
И гордость берет за державу Россия
Владимир – одно из великих семён

Россия Путина дала
Успешно он вершит дела
И как Владимир Мономах
Он на врагов наводит страх
Аляска тоже хочет к нам
А Киев нас попросит сам
У нас одна Отчизна-мать
Вперёд, Россия, так держать

Вперед, Россия нас лидер зовёт
Вперёд, Россия, Россия вперёд
Россия... вперёд!

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Ele apressou um tempo de grandes façanhas
Ele soube manter-se como um contra todos
Sem tiros, sem mesmo movimentos inúteis
Ele começou a juntar os pedacinhos do país

A Rússia gerou Putin
Um governante de sucesso
Nosso povo lhe é solidário
Ele nos leva pela trilha certa
Ele é nosso herói, um hércules
O país cresce em toda direção
Ele é um autêntico patriota
Vladimir Putin, nosso esteio

O mar de Okhotsk, a Crimeia e Sevastopol
Ele anexou de volta à Rússia
E a OTAN deu um berro bárbaro pelo mundo
Se bem que ela mesma esfacelou nossa união

A Rússia gerou Putin
Um governante de sucesso
Voou nos céus com os grous
Elevou o prestígio da Rússia
Ganhou o mundo com carisma
Triunfou nas Olimpíadas
E nos ensina todos a vencer
Ele sabe resistir aos golpes

Ele reuniu os russos numa força única
Nosso povo tem vínculo espiritual forte
A Rússia toma orgulho de sua potência
Vladimir é um grande filho da Pátria

A Rússia gerou Putin
Um governante de sucesso
E como Vladimir Monômaco
Inspira terror nos inimigos
O Alasca também nos quer
E Kiev mesma vai implorar
Somos uma só Pátria-Mãe
Avante, Rússia, nessa direção

Avante, Rússia, o líder nos chama
Avante, Rússia! Rússia, Avante!
Rússia... avante!