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17 de agosto de 2019

Soluções políticas (texto Ensino Médio)


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Geopolítica em 2005: Blair e Bush


NOTA: Decidi republicar neste meu blog o pequeno texto “Soluções políticas”, que é na verdade uma pequena redação pedida como um exercício da matéria de Geografia à minha classe no 3.º ano do Ensino Médio. Pela data do manuscrito que digitalizei, eu a escrevi em 9 de setembro de 2005 e foi corrigida pelo meu professor, José Augusto de Souza Bueno, um dos melhores que tive e que, com a professora Flávia de história, me inspiraram a seguir a carreira em que estou até hoje! Não sei exatamente se foi uma atividade sugerida pelo próprio “Zé” ou por nosso livro editado pelo Pueri Domus, sistema pioneiro em criar várias apostilas, mas pequenas, divididas nas hoje célebre “três áreas do conhecimento” do ENEM (hoje minha própria escola nem o usa mais). Eu gostava muito tanto das matérias de História, Sociologia e Geografia quanto dos professores José Augusto e Flávia, tanto que eu me formaria no fim do ano, na Viverde Escola de Educação Básica (Bragança Paulista), e logo depois ingressaria no curso de História da Unicamp. Segue abaixo minha redação com umas poucas correções, cujas ideias hoje parecem bem bizarras dado o desenvolvimento do Brasil e do mundo e minhas opiniões atuais.


É de espantar que não só o Brasil, mas também países desenvolvidos sofrem com a descrença nos políticos. Além disso, a política econômica neoliberal atiça essa onda de indiferença, pois há uma fome por poder e posses ilimitadas.

Assim, podemos refletir sobre o que ocorreu com o capitalismo e com os governos liberais nas primeiras décadas do século 20: após a grande crise [de 1929], houve também uma descrença generalizada no sistema vigente, que levou à ascensão de regimes socialistas ou, no caso da Europa pós-2.ª Guerra [Mundial], social-democratas. Enquanto o capitalismo levou séculos para perceber seus erros, o socialismo (agora se referindo a sistemas de filosofia semelhante) desapareceu mais rapidamente, logo percebendo seus erros e tendo a chance de se arrepender. O neoliberalismo volta a vigorar, com a chance de melhorar, porém não o fez e oprime de modo mais cruel o trabalhador, só que mais pelo lado financeiro.

Portanto, como em um ciclo, podemos prever que o socialismo, ou governos semelhantes, voltará totalmente modificado, apenas com limitação das grandes propriedades e a centralização do Estado, sem a necessidade da ditadura e sem a obrigação de se chegar ao comunismo.



Geopolítica em 2019: Kim e Trump...

15 de agosto de 2019

Enver Hoxha, chefe militar e histórico


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Nos últimos tempos, como sempre pedem os visitantes do meu canal TV Eslavo (YouTube), tenho conseguido reunir mais alguns vídeos informativos e documentais sobre a Albânia comunista no período em que Enver Hoxha a governou. É raro achar material que esteja traduzido ou explicado em português, mas ainda assim estou sem tempo pra estudar a fundo a língua albanesa, que acho muito bonita e que seria essencial pra eu traduzir essas coisas direto do original. Por isso, tenho me contentado em postar materiais alheios que já estejam em português ou coisas antigas lançadas na internet, mas das quais só pude melhorar a qualidade de áudio e vídeo.

Na última sexta-feira, por exemplo, o Globo Repórter, apresentado por Glória Maria (que foi até o país) e Sérgio Chapelin, fez uma visita e contou parte da história da Albânia, nação encravada entre Sérvia, Montenegro, Macedônia e Grécia, tendo o lindo mar Adriático como litoral. Sua topografia é incomumente montanhosa, e a língua não tem nenhum parentesco próximo com outras da Europa, mas possui muitas belezas e riquezas culturais ainda pouco tocadas pelos estrangeiros.

Uma das razões desse desconhecimento, assim como com a maioria dos países dos Bálcãs, foi a existência de um regime comunista autoritário entre 1943, ano em que os partisans expulsaram os nazistas e fascistas, e 1992, quando ocorreram as primeiras eleições multipartidárias (mesmo com o abrandamento do regime desde 1990). Valendo-se de seu prestígio de libertador, o professor Enver Hoxha (lê-se “rôdja”) instaurou uma ditadura brutal, mais do que as outras do antigo Leste europeu (exceto, talvez, a cleptocrática Romênia), apoiado no prestígio que adquiriu junto a Iosif Stalin e Mao Zedong. À medida que esses líderes morriam e a URSS e China se livravam de suas piores heranças, Hoxha rompia com essas potências e os países que orbitavam em torno delas, isolando a Albânia de contatos externos sob o pretexto de manter a pureza do “marxismo-leninismo”.

Hoxha só morreu em 1985, e desde então começaram as ondas de refugiados albaneses em outros países, sobretudo na tão próxima Itália. A ditadura era tão estrita que se você fosse pego com calça jeans ou Coca-Cola, ou captando o sinal de TV de outros países, podia ser imediatamente preso. As religiões foram proibidas e o Estado se declarou “ateu” (algo que não ocorreu nem mesmo na “revisionista” URSS), e 1/5 da população já chegou a estar presa ou encerrada em campos de “reeducação”. A paranoia de Hoxha com invasões externas povoou a paisagem com inúmeros bunkers, os famosos “iglus” que chegavam a custar o preço de uma casa popular e hoje são usados até como “motel” dos pobres. Nos anos 90, o saldo foi de uma Albânia, dizia-se, “paracapitalista”, como escreveu Suely Forganes à Istoé, ou seja, em que nada se produzia, mas se comprava e vendia de tudo, até os próprios bens e objetos velhos no meio da rua.

É claro que a análise dos regimes comunistas em conjunto deve ser bem matizada, pois havia muitas diferenças entre os países e até as ideologias, enquanto muitos arquivos ainda estão sendo abertos e pessoas entrevistadas. Porém, é sempre bom lembrar pra esses moleques retardados de classe média, que ainda defendem Hoxha e outros carrascos semelhantes em seus smartphones, como era “boa” a vida sob o comunismo europeu: só os russos sentem saudades, porque eles parasitavam a economia de meia Europa, e os húngaros, porque depois de 1956 permitiu-se uma forma de regime mais branda após uma quase guerra civil contra as tropas do Pacto de Varsóvia! “Ain, mas o Bozonaro é fascista...” Até agora tem cubano, congolês, angolano e venezuelano correndo pra cá, achando o melhor dos mundos essa “ditadura machista, racista e homofóbica”, como se deleitam em chamá-la os franceses. “Ain, mas a Globolixo é anticomunista, imperialista e apoiou a ditadura militar...” Claro que reportagem com mais fins turísticos que outra coisa (porque é de turistas e visitantes que a Albânia justamente precisa!) é sem dúvida parcial, mas os fatos são doloridos e a maioria deles vai contra Hoxha: pergunta pros velhinhos se gostavam dessa época, façam propaganda pra eles das “façanhas do Partido do Trabalho da Albânia”...

Esta repostagem, em que selecionei os melhores trechos abordando o “Paraíso” comunista da Albânia, tem o mero fim de documentação e curiosidade. É claro que quem quiser saber mais vai pros livros ou pesquisar na internet. Só não respondi no YouTube às pregações e “refutações” de quem se cega lendo somente material oficial, cujas opiniões ignorei solenemente, e confesso que desta vez meu julgamento estava fechado. Só acho legal que o povo me peça mídia dessas épocas, mesmo que nem sempre eu tenha tempo de procurar. Mas pra quem gosta de cultura e história, divirta-se:



Se algum de vocês é tarado pela história do comunismo ou pela Albânia de Enver Hoxha, já deve ter se deparado há muitos anos em vários canais com um vídeo chamado Enver Hoxha nderon dëshmorët e Atdheut (Enver Hoxha homenageia os mártires da Pátria). Eu particularmente sempre fui fascinado pelo breve desfile militar que aparece no segundo e terceiro minutos, um dos raros registros de paradas daquele local e época. Tentei então fazer a experiência de baixar o vídeo original e o melhorar usando o programa VirtualDub Portable, que conheço melhor, e melhorar o áudio pelo Audacity.

Como o vídeo-fonte já era muito ruim, consegui apenas melhorar a cor e o brilho e o deixar menos embaçado, e com o áudio consegui tirar o chiado e aumentar o volume. Nesta postagem, deixei apenas a parte em que é cantado o Hino Nacional da Albânia e o rápido desfile militar, no qual acho muito bonita a postura dos soldados. É notável que no regime de Enver Hoxha, a saudação oficial não era nem uma continência, nem um elevar de braços, mas o leve erguimento do punho direito fechado, mais ou menos na altura da orelha. Esse gesto, inclusive, era repetido por todos os que passavam pelo caixão no funeral de Hoxha, em 1985.

Pra aumentar o prazer de vocês, ainda repeti o desfile militar, dispensando a necessidade de voltar o filme. Espero que gostem e que me perdoem pelos erros de minha incipiente carreira de editor de vídeos! Depois, leiam também outra postagem minha com vídeos e textos sobre o culto à pessoa de Enver Hoxha:



13 de agosto de 2019

Tradução da “Internacional” em iídiche


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/intern-iidiche




Achei por acaso um áudio com este vídeo, e com a letra nos dois alfabetos na descrição, e resolvi fazer uma montagem rápida, mesmo sem traduzir. É o famoso hino A Internacional, dos movimentos socialista, anarquista e comunista, em iídiche, língua germânica derivada do alemão medieval, majoritária entre os judeus da Europa até o Holocausto. Depois, muitos deles foram dizimados, e os que foram pra Israel optaram por usar o hebraico moderno, por influência do movimento sionista. Como lembra a Wikipédia, o iídiche, junto com o alemão, inglês, holandês, frísio, luxemburguês, africâner, pomerano, limburguês e ânglico escocês, é classificado como uma língua germânica ocidental, e em registros antigos era chamado “judeo-alemão”. Deve-se lembrar que Lenin, um cara bastante mestiço, tinha parte da ascendência judaica, e que bolcheviques proeminentes, como Leon Trotsky (sobrenome original Bronshtein), Iakov Sverdlov (nome original Solomon), Grigori Zinoviev (nascido Hirsch Apfelbaum) e Lev Kamenev (nascido Leo Rosenfeld), eram de famílias judias. Consultem este artigo de Mark Weber saído em 1994, destacando a proeminência judaica entre os primeiros líderes bolcheviques.

Segundo a Enciclopédia Britannica, o iídiche (ou ídiche) é a língua dos judeus asquenazes, ou seja, que viviam na Europa Central e Oriental, assim como seus descendentes, escrita com o alfabeto hebraico. Tornada uma das línguas mais difundidas do mundo, presente nos países onde havia população judia no século 19, é uma das três principais línguas literárias da histórica dos judeus, junto com o hebraico e o aramaico. Surgindo no século 9, mas começando a se escrever só no século 12, o iídiche se formou com a fusão de uma maioria gramatical e lexical do alemão meridional com elementos hebraicos e aramaicos pós-clássicos e alguns românicos, mais tarde ainda adquirindo palavras eslavas. Entre os muitos dialetos, o ocidental floresceu gradualmente como língua literária, mas virtualmente extinto com a formação da Alemanha, deu espaço ao dialeto oriental no século 19. Mesmo na União Soviética de Stalin, o iídiche sofreu perseguição oficial, assim como o esperanto.

Quem canta nesta gravação é Karsten Troyke, segundo a fonte de onde baixei o áudio. Daí eu também tirei a letra em iídiche, nos alfabetos hebraico e latino, e só fiz leves correções. Troyke (n. 1960) nasceu em Berlim e é um ator, locutor e cantor de músicas judaicas. De mãe não judia e pai judeu, trabalhou também como jardineiro e cuidador de crianças deficientes, e começou a atuar em 1982. Especializou-se na gravação e estudo de canções em iídiche, tendo as gravado em muitos álbuns solo e em conjunto, e ministrando aulas e oficinas sobre o assunto. Também montei o vídeo com as legendas nas duas escritas, sem tradução, porque me parece que o sentido é quase igual ao das versões francesa, russa e portuguesa, que vocês já conhecem. Essa bandeira não existe de verdade, eu é que montei de brincadeira: viva a República Socialista Soviética dos Judeus, hahaha.

Em iídiche, o célebre hino A Internacional se chama Der Internatsyonal (דער אינטערנאַציאָנאַל), mas não sei quem fez a tradução. Vocês podem nesta postagem minha aprender a ortografia iídiche (latina e hebraica), e no link citado acima sobre o hino em russo, há também a história completa da letra. Seguem a legendagem que postei na TV Eslavo (YouTube) e a letra em iídiche nos dois alfabetos:




1. Shtayt oyf, ir ale, ver vi shklafn,
In hinger leybn miz, in noit!
Der gayst ‒ er kokht, er rift tsi vafn
In shlakht indz firn iz er greyt.
Di velt fin gvaldtatn in laydn
Tseshtern veln mir in dan:
Fin frayheyt, glaykhheyt a Gan-Aydn
Bashafn vet der arbetsman.

Refrão (2x):
Dus vet zayn shoyn der letster
In antshaydener shtrayt!
Mit dem Internatsyonal
Shtayt oyf, ir arbetsleyt!

2. Nayn, kayner vet indz nisht bafrayen:
Nisht Got alayn in nisht kayn held ‒
Mit indzer eygenem kley-zayin
Derleyzung brengen mir der velt.
Arup dem yokh! Genig gelitn,
Genig fargosn blit in shvays!
Tsebluzt dus fayer, lomir shmidn
Kol-zman dus ayzn iz nokh hays!

(Refrão 2x)

3. Der arbetsman vet zayn memshule
Farshpraytn oyf der gantser erd,
In parazitn di mapule
Bakimen veln fin zayn shverd.
Di groyse shturemteg zay veln
Nor far tiranen shreklekh zayn;
Zay konen ober nisht farshteln
Far indz di hele zinen-shayn.

(Refrão 2x)

____________________


1. שטײט אױף, איר אַלע, װער ווי שקלאַפֿן,
אין הונגער לעבן מוז, אין נױט!
דער גײַסט - ער קאָכט, ער רופֿט צו װאָפֿן
אין שלאַכט אונדז פֿירן איז ער גרײט!
די װעלט פֿון גװאַלדטאַטן און לײדן
צעשטערן װעלן מיר און דאַן
פֿון פֿרײַהײט, גלײַכהײט אַ גַן־עֵדֶן
באַשאַפֿן װעט דער אַרבעטסמאַן!

Refrão (2x):
דאָס װעט זײַן שױן דער לעצטער
און ענטשידענער שטרײַט!
מיט דעם אינטערנאַציאָנאַל
שטײט אױף, איר אַרבעטסלײַט!

2. ניין, קיינער וועט אונדז נישט באַפֿרײַען
נישט גאָט אליין און נישט קיין העלד!
מיט אונדזער אייגענעם כּלֵי־זַיִן ‬
.דערלייזונג ברענגען מיר דער וועלט
.אַראָפ דעם יאָך! גענוג געליטן
!גענוג פֿאַרגאָסן בלוט און שווייס
צעבלאָזט דעם פֿײַער, לאָמיר שמידן ‬
!כּל־זמאַן דאָס אײַזן איז נאָך הייס

(Refrão 2x)

3. דער ארבעטסמאַן וועט זײַן מֶמשָלָה ‬
,פֿערשפרייטן אויף דער גאַנצער ערד‬
און פאַראַזיטן די מַפָּלָה ‬
באַקומען וועלן פֿון זײַן שווערד
די גרויסע שטורעם־טעג זיי וועלן ‬
;נאָר פֿאַר טיראַנען שרעקלעך זײַן
זיי קאָנען אָבער נישט פֿאַרשטעלן ‬
.פֿון אונדז די העלע זונען־שײַן

(Refrão 2x)




11 de agosto de 2019

Vídeo que me gravei falando em russo


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Atendendo a um pedido que muitos já faziam na minha TV Eslavo (YouTube) há tempos, gravei um vídeo meu falando na língua russa, um texto improvisado, mas elaborado de cabeça com alguma antecedência. Os tropeços foram inevitáveis, já que não uso oralmente o idioma há algum tempo, mas seria sacanagem recomeçar a todo momento algo que estivesse razoável... Assim, espero provar aos internautas que não apenas leio ou traduzo do russo, mas conheço a língua de fato e posso usar com alguma liberdade na vida cotidiana!

Infelizmente, como era de se esperar, passou só um errinho que reparei depois de ter gravado o vídeo: quando ao terminar a abertura falo “представить себе” (predstávit sebé), na verdade é “представить себя” (predstávit sebiá), ou seja, com o pronome reflexivo no acusativo, e não no dativo. Mas no resto, acho que não fiquei devendo nada na pronúncia, no vocabulário e na construção. Espero que os russos aprovem, e que vocês também tenham gostado e se animado a estudar uma língua tão complexa. Outra coisa: eu desejei uma boa quinta-feira (chetvérg) porque eu tinha gravado no último dia 8, mas só ontem, no sábado, tive tempo de editar e enviar!

Seguem o vídeo legendado, o texto transcrito em cirílico e a tradução conforme as legendas que eu inseri, mas sem as marcas de oralidade. Os algarismos também estão indicados por extenso:



Всем привет! Добрый день! Поскольку многие посетители моего канала сильно просили меня говорить что-то на русском, тогда я решил снять это краткое сообщение, чтобы показать вам мои знания русского языка и представить себя.

Вот, меня зовут Эрик Фишук, мне 31 (тридцать один) год, я бразилец, живу в городе Браганса Паулиста, на севере штата Сан-Паулу, но я родился в городе Гуарульос, в том же штате. Живу с мамой и бабой, потому что мои родители развелись ещё в 88 (восемьдесят восьмом) году, и у меня есть подруга: её зовут Ана Лусия, ей 29 (двадцать девять) лет, она психолог по специальности и живёт в другом городе, Морунгаба, недалеко от Брагансы.

Я ‒ историк, с дипломом Университета Кампинаса, то есть Уникамп, и в настояще время в том же ВУЗе занимаюсь исследованием о связях между Коммунистическим Интернационалом и Коммунистической партией Бразилии с 1924 (тысяча девятьсот двадцать четвёртого) года по 1943 (тысяча девятьсот сорок третий) год. Кроме науки я тоже интересуюсь чтением, политикой, природой, музыкой (особенно народной музыкой из других стран) и, конечно, самостоятельным изучением иностранных языков.

Я изучал русский язык 3 (три) года в университете, но мне не было очень трудно, потому что до поступления в университет я уже знал немного русского языка. Я советую вам учить русский язык, потому что он красивый и благозвучный язык и очень важный в современных международных отношениях. Кроме того, русскую литературу знают во всём мире и она всё ещё является источником красоты и учения.

Но... это было моё сообщение, я надеюсь, что оно вам понравилось, и спасибо за терпение и внимание, и до скорой встречи, хорошего четверга! Пока-пока!


Olá a todos, boa tarde! Visto que muitos visitantes do meu canal me pediram firmemente pra falar alguma coisa em russo, decidi então filmar esta curta mensagem pra mostrar a vocês meus conhecimentos de língua russa e me apresentar.

Bem, meu nome é Erick Fishuk, tenho 31 anos, sou brasileiro, moro na cidade de Bragança Paulista, no norte do estado de São Paulo, mas nasci na cidade de Guarulhos, no mesmo estado. Moro com minha mãe e minha avó porque meus pais se separaram ainda em 88, e tenho uma namorada: o nome dela é Ana Lúcia, tem 29 anos, é psicóloga de profissão e mora em outra cidade, Morungaba, perto de Bragança.

Sou historiador formado pela Universidade de Campinas, isto é, a Unicamp, e atualmente me dedico na mesma IES a uma pesquisa sobre as ligações entre a Internacional Comunista e o Partido Comunista do Brasil dos anos de 1924 a 1943. Além de ciência, me interesso também por leitura, política, natureza, música, sobretudo música folclórica de outros países, e claro, pelo estudo autodidata de línguas estrangeiras.

Estudei a língua russa por 3 anos na universidade, mas pra mim não foi muito difícil, porque antes de entrar na universidade eu já sabia um pouco da língua russa. Aconselho vocês a aprenderem a língua russa, porque é uma língua bonita e sonora e muito importante nas relações internacionais modernas. Além disso, a literatura russa é conhecida no mundo todo e ela continua sendo uma fonte de beleza e ensinamentos.

Mas... essa foi minha mensagem, espero que vocês tenham gostado dela, e obrigado pela paciência e atenção. Até a próxima, e boa quinta. Tchau, tchau!



“Eu falo russo!!!”

9 de agosto de 2019

A graça da vida (redação Ensino Médio)


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NOTA: Decidi republicar na página o pequeno texto “A graça da vida”, que é na verdade uma redação atendendo a questão proposta à minha classe no 3.º ano do Ensino Médio. Pela data do manuscrito que digitalizei, eu a escrevi em 14 de outubro de 2005 e foi corrigida pela minha professora de Português, Graça Betânia Moraes Hosokawa, renomada escritora e pesquisadora. Como vocês perceberam, o título é uma alusão humorística ao nome dela, e de fato ela me deu, além da nota alta, a seguinte observação escrita: “Adorei o texto! Boa argumentação! Parabéns!”. Ela é uma pessoa muito bondosa e uma profissional muito séria, por isso garanto que o resultado não derivou de nenhuma babação de ovo, hahaha. Eu me formaria no fim do ano, na Viverde Escola de Educação Básica (Bragança Paulista), e logo depois ingressaria no curso de História da Unicamp. Seguem abaixo a questão oferecida pelo simulado, tirada de algum vestibular antigo, e minha redação, ambas com a ortografia atualizada.



Prova de redação: A surrada frase “rir é o melhor remédio” parece ter cada vez mais sentido para a ciência. O cardiologista Michael Miller, da Universidade de Maryland, Estados Unidos, liderou uma pesquisa sobre os benefícios do riso para a saúde do coração. Chegou a resultados surpreendentes. Comparando as atitudes diante da vida de 150 pessoas com histórico de enfarto com o mesmo número de pessoas sadias, descobriu que aquelas que nunca tinham sofrido com problemas no coração eram as que demonstravam bom humor constante. Para evitar problemas cardíacos, Miller recomenda combinar a velha receita de saúde (exercícios físicos regulares e dieta balanceada) com algumas gargalhadas durante o dia. (Revista Superinteressante, n. 173, fev. 2002, adaptado.)

REDIJA um texto dissertativo, explicitando a ideia proposta nesse trecho e acrescentando outras vantagens do bom humor.


Comprovou-se cientificamente que o bom humor faz bem ao coração, mas a ciência é desnecessária para mostrar que ele é benéfico na vida das pessoas, o que é feito pela vivência cotidiana, a maior escola de todas.

O humor é um cartão de visita pessoal, ajudando ou atrapalhando nas primeiras impressões. Pessoas de temperamento aberto, que não apresentam aparência carrancuda ou extremamente séria, ganham mais simpatia e confiança. Se ao longo de uma convivência passam o tipo de humor que faz rir e descontrair, elas reforçam com os outros os mais diversos tipos de laços e aumentam seu círculo de relacionamentos, obtendo, assim, numerosas vantagens materiais e sociais.

O prazer gerado pelo riso causa uma sensação de bem-estar que melhora a autoestima das pessoas e lhes dá mais ânimo e forças para encarar as mais diversas situações, inclusive as mais difíceis, porém sem apagar o respeito que uma certa ocasião exige, em especial uma tragédia. No que resta, ironizar pode ser a saída para que se fique menos chocado com fatos corriqueiros, como a corrupção. É essa ironia que caracteriza o bom humor do brasileiro, que sempre satiriza diversos empecilhos ao desenvolvimento do país.

“Estar de bem com a vida” exige uma boa dose de descontração a fim de melhorar a saúde, a vida social, a imagem perante as pessoas e a força diante dos problemas.




7 de agosto de 2019

“Morrer de catapora” e gírias de época


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Como eu achei bastante interessante esta reflexão que fiz na minha TV Eslavo (YouTube), e como outros internautas também gostaram, decidi transformar num texto, e ainda oferecer um bônus! Um tempo atrás chegou até mim um sticker (figurinha) pelo WhatsApp com o Pica-Pau, famoso desenho animado norte-americano dos anos 60 e 70, comendo alpiste em sua casinha na árvore e dizendo: “Quero morrer de catapora!”. Pesquisando, descobri que se tratava de um trecho do episódio em que um urso fabricante de bolas de boliche tenta derrubar a árvore em que o pássaro mora, mas cujo trabalho vai ser todo estorvado pelo nosso astro. Quando o Pica-Pau começa a sentir que sua árvore está tremendo, ainda sem saber que é por causa das machadadas do urso, ele exclama: “Quero morrer de catapora!”.

Nunca ninguém entendeu essa piada, que parece algo meio sem sentido ou feito de propósito só pra zoar, pelo menos quem viu nos últimos anos. A cena, por isso, virou meio que um meme em alguns meios, embora de alcance não tão amplo. Continuando a busca no YouTube, achei uma canção interpretada por Ângela Maria, gravada em 1970 em ritmo de marchinha de Carnaval antiga, que chamava exatamente Quero morrer de catapora! O refrão diz assim: “Quero morrer de catapora se eu não contar que você comeu amora... Quero morrer de catapora se eu não contar que você namora...” Ou seja, tempos em que namoros e sexo ainda eram tratados como tabu, sobretudo sem autorização dos pais, com a expressão “quero morrer de catapora” significando, essencialmente, que a pessoa não acredita de jeito nenhum que o acontecimento em sua expectativa possa não acontecer. O acontecimento seria tão certo que a pessoa metaforicamente arrisca sua vida se houvesse possibilidade de falhar.

Se bem que “catapora”, no senso comum (ainda mais que hoje é muito mais rara do que no passado), não parece ser uma causa de morte muito brutal ou heroica... tanto que esse foi o motivo da piada dos internautas. Entre os comentários, estava o de que “eis que você é um sadboy, mas só tem 9 anos”. Acontece que no fim do século 20, parece que a maioria dos cartuns “infantis” era destinada mais a adultos do que a crianças, não só porque eles entendiam as referências à cultura de massas (algo bem verdadeiro pra Turma da Mônica), mas também porque as obras eram cheias de conteúdo “politicamente incorreto”. É fato que muitos adultos consumiam, sim, desenhos e gibis infantis, porque não eram tão açucarados, inocentes ou direcionados quanto a produção atual, e porque a variedade de opções na TV aberta e o baixo preço das revistinhas os tornavam mais acessíveis, e até interessantes.

Mas acredito também que no passado, como é meu caso, as crianças compartilhavam mais o mundo com os adultos, dada a variedade menor de entretenimentos, faltando os canais a cabo, canais do YouTube, livros inteiros, smartphones e toda uma cultura que fechou os pequeninos dentro de uma “bolha” em que só encontram seus semelhantes. Isso, claro, se estendeu a outros domínios da vida que, como no passado, nos obrigavam mais a viver cara a cara com pessoas diferentes. Com o passar do tempo, a produção infantil passou a ser mais “peneirada”, pra evitar o que seriam choques desnecessários, ainda mais que hoje, na verdade, o mundo adulto está é mais violento, letal e intolerante. No meu tempo, éramos educados “na marra”, vivendo muitas coisas iguais ou semelhantes às dos adultos, como músicas, novelas, programas de TV, revistas etc., muitas vezes contendo até sexo quase explícito. As novas tecnologias, na verdade, aumentaram a possibilidade de controle, portanto de assepsia. Por isso, discordo do Nando Moura quando ele falava que Xuxa e Angélica levavam a uma “sexualização precoce” (como assim? hahaha): acho apenas que eram tempos diferentes.

A partir do upload que citei acima, segue a montagem que eu mesmo fiz e na qual inseri a canção de Ângela Maria e repeti várias vezes o “Quero morrer de catapora”:



Esta velha manchete do Jornal Nacional ficou perdida por uns anos e depois se fixou no YouTube. Lembro que em algum momento dos anos 2000 recebi esse vídeo por e-mail, relembrando a matéria que eu tinha visto pela televisão, mas não o salvei. Agora, em novo resgate dos recônditos do YouTube, estou mostrando a vocês pra saber o que acham dessa doideira.

Pela imprensa da época (já online) que consegui achar no Google, o padre se chamava (pasmem!) Francisco de Assis, tinha 38 anos e foi afastado de suas funções após agredir uma fiel, deficiente mental, no meio de um batizado na paróquia São José em Ituiutaba, MG. Ele teria sido transferido pra São Paulo e lá submetido a tratamento psiquiátrico, já que o fato teria se repetido antes em outra paróquia da região.

O padre, que batizava 26 crianças num domingo e era filmado por um cinegrafista amador (figura comum antes do advento dos smartphones), veio do Rio Grande do Norte e há mais de um ano atuava na região. Identificada como Milena Silvéria, a mulher negra se colocou ao lado da pia batismal e começou a discutir com o padre, que começou a xingá-la e mandar que se afastasse, proferindo a célebre frase: “Paiaço é você, idiota!”. A hora que ela resolveu dar uma sacolada nele, Francisco de Assis estourou, jogou água benta nela e começou a esmurrá-la.

Essas informações são da Folha de Londrina (Paraná) de 12 de dezembro de 1997. Já segundo o caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo de 11 de dezembro, o motivo da expulsão teria sido o fato dela não ter sido convidada pra participar da cerimônia (já que os batizados eram familiares). Os moradores da cidade que fica a cerca de 695 km de Belo Horizonte afirmaram que Francisco não gostava de Silvéria porque era teria o costume de “falar alto” durante as missas.

Um blog anticlerical, por sua vez, misturou os fatos, dizendo que a irritação tinha sido porque ela estava falando alto durante o batizado, e ainda adicionou que ela tinha problemas mentais. O site vem com essa história de dízimo e não sei o quê, mas é notável como em muitas igrejas do interior (SP, MG, GO) parece sempre ter essa figura de uma pessoa um pouco deficiente que está sempre frequentando as missas, ou ao menos ajudando.

Outras fontes que consultei chamavam Francisco de Assis de “Padre Ryu”, hahaha. Mas em todo caso, não soube o que aconteceu depois com ele, já que os periódicos diziam que o alto clero decidiria seu destino enquanto estivesse em São Paulo. Muitas das repostagens, como a que baixei, são de 2006, logo que o YouTube surgiu, mas outras são de depois. Eu apenas recortei o quadro, melhorei o áudio e a imagem e adicionei as famosas repetições:



5 de agosto de 2019

Cresce nicho do detox digital (França)


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NOTA: Enquanto eu navegava no site da Rádio França Internacional (RFI) e escutava as notícias em francês, encontrei por acaso este artigo de tecnologia, do qual gostei muito e resolvi traduzir o quanto antes pra postar aqui. Seu título é: O “detox digital”: quando a desconexão se torna urgente. Publicado em 3 de agosto de 2019, a autoria é do jornalista David Pauget, que discorre sobre o crescente vício dos franceses em tecnologias digitais, sobretudo a internet nos smartphones, e o crescente mercado de serviços com atividades e tratamentos alternativos pra reduzir os efeitos da fadiga e ansiedade dos e-mails e redes sociais. O chamado “detox digital”, que não é novidade no Brasil, convida pra que nessas férias do verão europeu os leitores repensem seu uso viciante de celulares e computadores, aprendendo a gerir o escasso tempo livre em prol da conservação da saúde mental e corporal. Nossa modernidade é tão paradoxal que precisamos oferecer tratamentos (às vezes caros) contra os efeitos colaterais de tecnologias que tinham vindo facilitar nossas vidas e, a princípio, tornar-nos mais felizes! E além dos mais velhos já viciados, estão chegando as gerações que praticamente vivem mais ou só a vida paralela criada como escape dentro da internet.



Três em cada quatro franceses afirmam ser dependentes de seus aparelhos conectados

E-mails profissionais, SMS, redes sociais… Para alguns, as férias de verão são o momento ideal para tentar se desconectar e se revigorar. Uma abstinência que se revela cada vez mais difícil numa sociedade hiperconectada.

Antes de sair de férias, Alexandre, 30 anos, tinha prometido largar tudo: não consultar mais seus e-mails profissionais, não correr ao celular após a menor notificação e parar de atualizar o tempo todo seu feed do Twitter. Dois dias depois, o resultado é implacável: um fracasso.

“O celular devora minha vida. Ele está direto na minha mão, desde a hora em que acordo até quando eu me deito. Impossível passar sem ele”, suspira exausto esse funcionário de uma grande empresa. O vício é forte demais, e a culpa é do trabalho, segundo ele. “Meus colegas confiam tudo para mim. Alguns usam e abusam disso. Tenho que responder no mesmo instante, senão vou ficar por fora de todo o trabalho”.

Riscos para a saúde ‒ Como Alexandre, muitos são os que tentam retomar o controle de seus aparelhos eletrônicos, cientes de terem se tornado viciados neles. Três em cada quatro franceses, portanto, dizem ser dependentes de seus aparelhos conectados, segundo um estudo publicado em junho passado pelo instituto de pesquisas BVA.



Três quartos (73%) dos franceses dizem ser dependentes face a seus aparelhos conectados: não responderam (azul, 1%), nada dependentes (verde-claro, 5%), pouco dependentes (verde-escuro, 21%), um tanto dependentes (rosa, 50%), totalmente dependentes (vermelho, 23%).


Há dois anos, Clémence, gerente de projetos numa ONG, foi diagnosticada com TAG (transtorno de ansiedade generalizada). Para reagir à angústia e à ansiedade que a preocupavam, seu terapeuta lhe sugeriu que passasse menos tempo na frente das telas. “Eu desinstalei meu e-mail profissional do celular para não o consultar fora do horário de trabalho. Nos fins de semana e durante as férias, eu também desativo os aplicativos do Instagram e do Facebook”, ela explica.

“O fato de estar o tempo todo conectada, sendo chamada à ordem para compartilhar e esquematizar minhas atividades também pelo Instagram, não me deixava separar um só minuto para gerir melhor o estresse do meu dia a dia”, explica a moça de 24 anos que, desde que começou a dieta digital, se dedica ainda à música e ao desenho.

A que corresponde exatamente o termo “detox digital”? Virginie Boutin, coach profissional e coautora do livro 2h chrono pour se déconnecter (2h no cronômetro para se desconectar), prefere falar de “consciência ou regulação digital”. Segundo ela, o importante não é conseguir uma abstinência 2.0 total, mas um equilíbrio justo: “Precisamos fazer a triagem entre o que nos beneficia no emprego do digital e o que nos cansa e nos irrita, o que come nosso tempo e devora nossa energia [ce qui est chronophage et énergivore]. E depois, cuidar para mantermos só os usos benéficos, como ficar em contato com a família, e tirarmos ou reduzirmos o resto o quanto pudermos”. O “detox digital” também permitiria retomarmos uma capacidade de concentração, de criatividade e de inovação.

Pressão social para estar conectado ‒ “Sou muito reativa quando recebo uma notificação, e mesmo no caso contrário, sou propensa a passar de aplicativo em aplicativo procurando conteúdo novo: feed do Facebook ou Instagram, stories, e-mails...”, explica Myriam, graduanda em ciência política. Para ela, é impensável não consultar ao menos uma vez por dia seus e-mails e mensagens, “por medo de perder as informações”, o famoso FOMO (fear of missing out, “medo de ficar por fora” em inglês).

“Há uma pressão social pela conexão perpétua. Mesmo de férias, é preciso explicar a seus próximos, a seus colegas sobre por que não se estava conectado. Estamos numa sociedade em que o imediatismo comunicativo se tornou a norma para administrarmos o tempo”, analisa Francis Jauréguiberry, sociólogo dos usos das tecnologias de comunicação na Universidade de Pau.

Nesse contexto, a desconexão aparece como uma provação certamente dolorosa, mas no longo prazo benéfica. “Querer reintroduzir o tempo, cabines temporais em que haja silêncio, por que não tédio... É o fruto de nossa vontade. Se a tentativa dá certo, isso sempre se traduz em uma imensa satisfação”, explica Francis Jauréguiberry. Três em cada quatro franceses, aliás, reconhecem que limitar o tempo passado diante das telas faria bem para sua saúde.



Três quartos (72%) dos franceses julgam que a desconexão é benéfica: nada benéfica (vermelho, 3%), pouco benéfica (laranja, 25%), bastante benéfica (verde-claro, 48%), muito benéfica (verde-escuro, 24%).


Um negócio em expansão ‒ Uma coisa é certa: com tantas pessoas viciadas em suas telas, o mercado da desconexão tem belos dias pela frente. Os hotéis, acostumados a receber hóspedes que buscam se desconectar, estão propondo agora mais e mais tratamentos. “Esgotado, estressado, sobrecarregado? Desconecte-se temporariamente da internet para preservar sua saúde”, indica, por exemplo, o folheto do programa de “detox digital” do Vichy Célestins Spa Hotel. Logo ao chegar, o cliente é convidado a colocar seus aparelhos eletrônicos numa caixa-forte. São oferecidas atividades esportivas e de relaxamento por um custo total de 1035 euros por três noites.

São ofertas que encontramos igualmente nas pousadas. É o caso do Château La Gravière, no sudoeste da França, que propõe um acompanhamento personalizado durante toda a estadia e põe à disposição, entre outras coisas, bicicletas e jogos de tabuleiro. A tarifa sobe para 210 euros o dia, porém sem incluir alojamento e refeições.

Start-ups também estão entrando nesse nicho, como a Into the Tribe, agência de “detox digital” criada em 2015. Ela oferece palestras de desconexão para empresas, bem como cursos e conferências. “A maioria dos participantes vem da zona urbana e são jovens que têm entre 25 e 45 anos. Eles estão em empregos que exigem conexão e passam muito tempo diante das telas, mesmo em suas vidas pessoais”, detalha Vincent Dupin, fundador da start-up. Os preços são combinados dependendo do orçamento e das exigências das empresas.

Antes de chegar ao ponto de pagar uma nota por uma abstinência digital, alguns experimentam seus próprios truques para o verão. Baptiste, professor de 25 anos, decidiu assim deixar seu smartphone em casa. No lugar, ele saiu de férias com um velho celular Nokia, sem internet. “É para poder ligar em caso de emergência, mas antes de tudo para evitar qualquer tentação.”



3 de agosto de 2019

Nazismo de esquerda e mais absurdos


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Os comentários postados por usuários nos vídeos do meu canal do YouTube, a TV Eslavo, bem como nas publicações que lanço na aba “Comunidade” da página inicial, revelam muito sobre o que eles gostariam de aprender mais e o que eles já sabem sobre determinados assuntos. É claro que muitos só vêm lá pra impôr os próprios pressupostos indiscutíveis e apenas censurar outros usuários só porque eles pensam de forma diferente. Mesmo assim, o engajamento intelectual em meu canal tem crescido bastante, e ao lado de trolls bastante desocupados, têm surgido comentaristas certeiros e com muitas leituras sobre os temas, mesmo que eu não concorde com as posições deles. É óbvio que, dado o material encontrado na TV Eslavo, quase sempre as discussões são a respeito da natureza e consequências dos regimes comunistas do século 20.

Não vou aqui esgotar o tópico nem expor minhas próprias conclusões, mas mostrar como interajo com os internautas e o que mais tem sido julgado correntemente. Continuando a série, mudo de assunto reproduzindo um texto da aba “Comunidade” em que critico a ideia bizarra e estropiada de que o nazismo teria sido uma ideologia “de esquerda” e que o regime nazista teria sido de caráter “socialista”. Mesmo os mais renomados acadêmicos sempre fizeram comparações entre Iosif Stalin e Adolf Hitler, demonstrando vários pontos de aproximação entre os dois governos e as duas personalidades. E inclusive intelectuais muito anticomunistas e pró-liberais como Ernst Nolte, François Furet e Stéphane Courtois, mesmo não sendo definitivos quanto à posição do nazismo e do fascismo no espectro ideológico, jamais disseram que ele seria nitidamente de esquerda, muito menos que o nazismo veio do comunismo ou que ambos tiveram a mesma fonte intelectual.

A leitura da historiografia séria e o conhecimento dos fatos históricos e do contexto da época, mesmo que as interpretações variem demais, desmentem esse delírio tipicamente brasileiro de que “o nazismo é de esquerda” e que “Lenin ou Stalin engendrou Hitler”. Estamos virando uma vergonha no resto do mundo, sobretudo porque queremos ter uma certeza arrogante sobre a Europa, mas sem nenhuma leitura ou bagagem aprofundadas! Basta lermos um ou dois artigos de qualidade duvidosa, um ou dois vídeos bem feitos por personalidades histéricas, e pensamos ter o mapa do tesouro, só porque são os argumentos que nos agradam mais. Os textos foram corrigidos e tiveram tiradas suas marcas de oralidade ou descontração, exceto ocasionais palavrões. As repostas dadas no canal mesmo estão marcadas com “TV Eslavo”, e as que escrevi pra esta postagem, com “O que penso”.



Meu texto inicial: Se o nazismo era “de direita” ou “de esquerda” é uma questão bizantina, que nada tem a ver com o essencial: sob Hitler, a Alemanha se tornou um país mais fortemente capitalista. E por quê? Não foi abolido o mercado, não foi expropriado o capital, foram destruídas todas as organizações operárias pra que o patronado controlasse absolutamente as condições de trabalho, foi ampliada a industrialização (que, tal como na história dos EUA, se move sobretudo por meio da produção bélica) e controlada a inflação, e não mudou de forma alguma a organização social (os ricos ficaram mais ricos, os pobres continuaram pobres e a antiga classe feudal prussiana continuou poderosa, mas agora virando industrial).

Os binômios “estatismo/liberalismo”, “capitalista/socialista”, “direita/esquerda” e “ditadura/democracia” não têm nenhuma correlação entre si. Por quê? Existem ditaduras capitalistas liberais de direita (Pinochet); ditaduras capitalistas estatistas de direita (Brasil militar e, pasmem, Vargas); democracias capitalistas estatistas de esquerda (Inglaterra trabalhista pré-Thatcher); democracias capitalistas liberais de direita (Inglaterra de Thatcher, e o objetivo de Bolsonaro); democracias capitalistas liberais de esquerda (FHC, social-democracia no Chile, Europa dos anos 90 e 2000 ‒ incluindo trabalhismo pós-Thatcher ‒ etc.); democracias capitalistas estatistas de esquerda (Lula e Dilma); ditaduras capitalistas estatistas de esquerda (Egito pré-2011, Mugabe, Gaddafi, Assad, em algum grau Putin e Chávez/Maduro); ditaduras comunistas estatistas de esquerda (URSS, China maoista e similares, além da Iugoslávia, mas com mercado um pouco mais livre); ditaduras capitalistas estatistas de esquerda (China atual: sim, há capitalistas, mas supercontrolados).

Enfim, vai do gosto do freguês, mas só pra dizer o óbvio:

  1. Correlação de que direita é necessariamente capitalista, que é necessariamente liberal e que é necessariamente democrática só existe em cabeça de adolescente, porque o que define capitalismo é a propriedade privada dos meios de produção (i.e. do capital), e não mais ou menos Estado, mercado livre ou controlado, Estado ditatorial ou democrático.
  2. Mesmo regimes capitalistas democráticos às vezes recorrem a uma intervenção maior do estado justamente pra manter o domínio privado do capital (contra ameaças do tipo insurreição operária), sejam de direita (de Gaulle na França) ou esquerda (Attlee na Inglaterra).

O fato de dizer que o nazismo era capitalista (ou, talvez, mesmo de direita nos valores) não deve irritar os capitalistas liberais democratas de direita, exatamente porque a análise histórica concreta nada tem a ver com reducionismos feitos por polemistas toscos de esquerda, que acham que “capitalismo é direita e direita é nazismo”, ou que “esquerda é democrática em sua essência, portanto Maduro, Assad, Mao e Stalin são democratas”. Certas direitas não devem incorrer no mesmo erro de achar que o mundo é feito de binômios!

Depois de uma galera ficar resmungando que eu “não conhecia a terceira posição” ou “não sabia o que ela era”, como se isso fosse resolver a discussão e como se eles quisessem achar que sabiam mais que eu “lacrando” a discussão de modo simplista, com rótulos e categorias que eles acham aleatoriamente na internet, fiz este adendo:

“Terceira posição” é um rótulo que o próprio Hitler e semelhantes inventaram pra dizer aos olhos do povo que não eram “nem direita, nem esquerda”, ou seja, algo “novo”, o que era absolutamente falso. Sem fazer equiparações, mas é a mesma coisa que o Bolsonaro dizer que representa “o novo”, mas ter passado 30 anos sem resultado concreto na atividade parlamentar, e como presidente recorrendo às mesmas práticas de barganha e negociação com o Congresso, as quais, na verdade, são essenciais pro funcionamento do país.

Voltando ao fascismo, nunca devemos aceitar os rótulos que os próprios autores se dão ao longo da história, mas analisar a estrutura social subjacente à “superfície” política. A primeira coisa que Hitler e Mussolini fizeram foi esmagar e destruir, fora de qualquer restrição judicial, o movimento operário organizado, e com mais ferocidade ainda os sociais-democratas (ou socialistas) e os comunistas. O resultado que isso teve foi uma liberdade imensa pra que patrões pudessem ter suas taxas de lucro aumentadas, explorassem o quanto quisessem os trabalhadores e proibissem qualquer reivindicação operária substancial. Em resumo, o capital (i.e. empresariado e industriais) se valeram de um regime de força pra que pudessem manter a economia funcionando como eles mesmos queriam. E essas oscilações “à direita” e “à esquerda” são comuns em regimes capitalistas, mas se referem apenas à troca de governos, em que capitalistas aceitam um controle mais ou menos restrito às suas atividades, mas não cedem suas propriedades, como ocorreu exatamente no governo “comunista” (!) do Lula (não por menos, vários analistas da época apontaram semelhanças entre a política econômica de Dilma e a do ditador militar Ernesto Geisel).

Por isso mesmo é um acinte à inteligência dizer que nazismo e fascismo são socialistas, ou mais ainda de esquerda! Assim, podemos tranquilamente encaixar fascismo e nazismo como ditaduras (forma de governo) capitalistas (formação socioeconômica) estatistas (papel do Estado, sobretudo na vida do povo, mas sem tocar nos capitalistas, que em algum grau aceitaram essa intervenção, mas pra manter o próprio poder) de direita (no plano dos valores, mantendo o tradicionalismo, a religião e a hierarquia).

Terceira via é uma forma envergonhada de dizer que Hitler não seria “de direita” ou “de esquerda”. Exatamente porque numa formação social em que predomina o capitalismo, não precisa haver exatamente um governo de direita. Partido ou ideologia política é uma coisa, formação socieconômica é outra e não se altera da noite pro dia. E foi justamente porque Hitler não alterou a propriedade do capital é que o país continuou sendo economicamente capitalista. E como eu disse, maior ou menor intervenção do Estado não altera esse caráter, que é justamente o erro de alguns liberaloides: mais ou menos Estado nada tem a ver com a posse efetiva do capital (a diferença no caso da URSS é que justamente o capital foi expropriado, o que não ocorreu em outros países).

E o que poucos conhecem ou fingem conhecer: nunca na Alemanha os capitalistas tiveram tamanha liberdade de explorar os trabalhadores, embora um ou outro empresário fosse antinazista. Neste caso, é óbvio que ele foi perseguido por razões políticas, e não econômicas. Reiterando o argumento: o que determina se um país é “capitalista” ou “socialista” não é ter respectivamente um governo “de direita” ou “de esquerda” ou ter “Estado mínimo” ou “Estado interventor”, e sim se o capital ou os meios de produção são de propriedade privada (caso da imensa maioria do mundo) ou pública (em tese, propriedade popular ou operária, mas na prática do Estado que afirma representar o povo).

Internauta 1: É como se estivéssemos ainda no período da bipolaridade. Eu diria que você é centrista, mas eu acho que na real é isso mesmo. Pelo que li no meu livro de História, o governo de Hitler era de extrema-direita, pois além de perseguir pessoas com deficiência, mórmons, evangélicos, católicos e Testemunhas de Jeová, ele cultivava ódio aos comunistas. Fora que não foi só isso: do socialismo (implantado pelas ideias de Karl Marx) evoluiu ao fascismo (comandado por Benito Mussolini), que evoluiu ao nazismo, enfim chegando a Adolf Hitler. O estopim da revolta socialista foi o impasse, na Revolução Russa, no POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo), em que de um lado estavam os bolcheviques (socialistas) e do outro lado estavam os mencheviques (capitalistas): um era liderado por Lenin, o outro era liderado por Iuli Martov.

O que penso: Hitler não perseguiu “evangélicos e católicos”, mas evangélicos e católicos que se opunham ao regime. Tanto que vários autores lembram o “vergonhoso passado” de colaboração do alto clero de ambas as igrejas (luterana, no caso dos evangélicos) com o regime nazista. Um dos padres simples perseguidos por Hitler foi o alemão Joseph (José) Kentenich, que quando veio ao Brasil fundou em Atibaia, SP, a comunidade de Nossa Senhora de Schoenstatt.

Quanto à evolução “do socialismo ao fascismo e ao nazismo”, isso não existiu, sobretudo com Hitler: quando fundou o partido fascista, Mussolini tinha rompido com o socialismo (na época, o reformismo da 2.ª Internacional), e não o desenvolvido, enquanto Hitler jamais foi socialista; muito pelo contrário, se envolveu com grupos militaristas e ultranacionalistas logo depois de ter lutado na 1.ª Guerra Mundial (na qual foi ferido e ganhou a Cruz de Ferro por bravura) e entrou no futuro partido nazista ainda no comecinho dos anos 20, enquanto era desmobilizado do exército. Hitler, portanto, não fundou o NSDAP, mas logo lhe tomou a liderança e deu a forma final. Na mesma época, elaborou o grosso da doutrina nazista escrevendo o livro Minha luta adivinhem onde? Na prisão, onde ficou por apenas uns meses por ter tentado um golpe de Estado na região da Bavária!

Das duas uma: ou o livro de História dele é ruinzinho, ou o menino é ruim em interpretação de texto...

Internauta 2: Gostei da explicação, mas para simplificar, sugiro a todos que afirmam que o nazismo era de esquerda, que vão a qualquer manifestação neonazista portando qualquer símbolo caro à esquerda (a foice e o martelo, bandeira vermelha, fotos de Marx, Lenin, Che ou Lula) ou gritando qualquer palavra de ordem esquerdista (“Abaixo o controle dos meios de produção”, “Cuba sim, ianques não” ou um inofensivo “Lula livre”). Sintam a reação dos “esquerdistas” à sua volta. Essa é a resposta mais clara, simples e prática para quem ainda tem dúvida nessa questão.

Internauta 3: A cabeça dessa galera iria explodir se eu mostrasse o socialismo de direita de Saint-Simon baseado em Adam Smith, que existia bem antes de Karl Marx, e que o anarquismo é socialismo sem Estado.

Internauta 4: Já vi ancap [anarcocapitalista] dizendo que a ditadura militar foi uma ditadura socialista de centro-esquerda!

Internauta 5: Antes da guerra, em 1934, os nazistas já controlam a iniciativa privada, tipo o que era produzido, como deveria ser produzido e a quem seria distribuído, e preços e salários eram decididos pelo governo. Então não era muito pró-livre mercado, embora a maior parte da economia fosse “privada”.

O que penso: E o que foi que eu acabei de dizer? O capital era privado, sem aspas, porque continuava como propriedade dos capitalistas, enquanto a intervenção estatal na economia, como eu disse (e que o rapaz citou), não é suficiente pra definir socialismo. Como escreveu Ralph Miliband, o patronado nazista aceitou essa intervenção pontual, sem expropriação, pra controlar o movimento operário (achatando salários e fechando sindicatos) e aumentar os lucros. Tanto que quando o nazismo caiu, os empresários não moveram uma palha pra defendê-lo e aceitaram igualmente a ocupação ocidental no lado oeste da Alemanha, que igualmente suprimiu o movimento operário e garantiu condições conservadoras de reconstrução. Além disso, as economias de guerra da Europa, dos EUA e mesmo do Brasil exigiram então um forte controle estatal de preços, produção e distribuição, sem que por isso falássemos em “esquerda” ou “socialismo”. O nazismo, na prática, se transformando numa indústria bélica gigantesca, vivia em permanente estado de guerra, porque o expansionismo estava justamente no cerne da ideologia (ao contrário, por exemplo, do comunismo).

Internauta 6: Eu acho que é terceira posição ideológica. Até porque o Führer chamava o Churchill de “porco capitalista”, odiava todas as potências ocidentais com sistema capitalista e chamava os comunistas de “praga vermelha”.

O que penso: “Eu acho” e “ele disse” são suficientes pra não merecer resposta. Discurso público é um terreno tão pantanoso, que é justamente o que diz mais sobre as contradições de um agente histórico e político. Basta lembrarmos que até a 2.ª Guerra Mundial, a política adotada por Inglaterra e França (com os EUA alheios ao assunto) foi de “apaziguamento” de Hitler, ou seja, a aceitação gradual de todas as anexações territoriais que ele ia fazendo, pra ver se ele enfim parava de vez: não adiantou. Vemos também que Stalin foi muito cauteloso, até 1941, em adotar um discurso antifascista consequente, tanto que a Comintern mal conseguiu sequer chegar a uma definição clara de fascismo e de como o combater até 1935, quando praticamente entrou em coma. E o pacto Molotov-Ribbentrop, por acaso seria suficiente pra chamar Hitler de “esquerdista” e Stalin de “direitista”, sendo que todos os países na mira da Alemanha menos procuravam acabar de vez com a ameaça do que ganhar tempo? O fato do regime nazista ter sido uma ditadura capitalista estatista de direita nada tem a ver com Hitler “odiar” as potências capitalistas, já que, como eu disse, o que define capitalismo é propriedade privada dos meios de produção, e não forma ou discurso de governo. A guerra entre as potências europeias era muito mais por mercados econômicos do que por concepções de política ou de civilização.

Internauta 7: Nem de direita, nem de esquerda. O nazismo é apenas uma ideologia nacionalista e socialista, algo próximo da atual Coreia do Norte.

O que penso: Mais um que não entendeu o que define “capitalismo” e “socialismo”. E é exatamente esse ponto que distingue a Alemanha nazista da Coreia do Norte, porque neste país sequer existe mercado ou propriedade privada. Impossível comparar as duas estruturas! Além disso, as circunstâncias históricas são diversas: enquanto o nazismo foi um fenômeno de reação interna à intervenção do Tratado de Versalhes na soberania do país, a Coreia do Norte foi um satélite da URSS (e depois da China) surgido como solução de compromisso à expulsão dos japoneses da península, em que soviéticos e norte-americanos dividiram o controle territorial, levando à posterior criação de dois países (exatamente como na Alemanha pós-1949). A Coreia do Norte se tornou então praticamente uma concessão feudal à família Kim, em que o fundador Kim Il-sung implantou uma espécie de governo e ideologia com características absolutamente irracionais, bizarras e idiossincráticas, traços continuados pelo igualmente idiossincrático filho Kim Jong-il. Na Alemanha, a estrutura política era muito complexa pra que fosse tornada de propriedade familiar, o que mesmo Hitler (que não deixou descendentes) não fez nem tentou fazer.

Internauta 8: Não é capitalismo se existe Estado, e Hitler apoiava o socialismo. [Esse fumou legal...]

TV Eslavo: O capitalismo só pôde se implantar com o apoio primeiro dos Estados absolutistas, depois dos Estados burgueses, que promoveram, sobretudo, a barbárie colonialista, razão maior pela qual a Europa hoje é rica. Nenhuma iniciativa sobrevive sem um investimento mínimo de Estados eficientes (e até conservadores reconhecem isso) em educação, infraestrutura, energia etc., projetos gigantes que a iniciativa privada (ainda) não tem condições de bancar. Quanto a Hitler, sugiro que leia qualquer escrito ou discurso dele, em que jura de morte o marxismo, o socialismo, o comunismo e coisas semelhantes (e não, o fato do nome do partido ser “nacional-socialista” em nada indica que era de esquerda, já que na época podia haver socialistas com posições pró-mercado ou conservadoras). Ou que conheça a história: os primeiros partidos que ele fechou em 1933 foram o social-democrata e o comunista...




1 de agosto de 2019

Postagem n.º 500 e os 5 anos da página


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por Erick Fishuk


Por uma armação do destino, coincidiu que a postagem número 500 da minha página coincidisse com a data de cinco anos de lançamento do site como um todo. Isso porque no fim do ano passado, quando anunciei uma breve pausa em meus lançamentos, esse texto também contou pro cálculo, e somando ainda o período que fiquei fora na maior parte de dezembro de 2018, além do período entre 14 de junho e 14 de julho de 2019, os aniversários casaram certinho.

Mas o que significa o número de 500 postagens ou o aniversário de cinco anos de uma iniciativa online? Alguns anos atrás, quando celebrei a postagem n.º 200, aproveitei muito mais pra contar sobre minha história como pessoa, estudante, historiador e tradutor. Na época, eu ainda estava essencialmente transferindo pra página traduções que já estavam postadas em forma de vídeos legendados no meu canal do YouTube “TV Eslavo” (que já se chamou no passado “Pan-Eslavo Brasil”, “Pan-Eslavo”, “Canal Eslavo”, “O Eslavo” e simplesmente “Eslavo”) ou republicando os textos mais substanciais que eu já tinha escrito, mas antes postados em outros meios ou sequer divulgados. Eu estava, portanto, criando uma massa crítica pra que pudesse formar um razoável cartão de visitas cultural e vinculando gradualmente o conteúdo da página ao do canal no YouTube. Além disso, a frequência de publicações foi aumentando ao longo do tempo (exceto nos períodos em que tive de dar uma pausa): as postagens eram primeiramente semanais, depois saíam toda quinta-feira e domingo, e a partir de meados de 2016, quando eu tinha muito material acumulado, decidi lançar coisas a cada dois dias, ritmo que mantenho até agora.

No dia de hoje, quando a página já está muito conhecida por fornecer material em certos nichos e meus leitores e visitantes da TV Eslavo me conhecem nos traços pessoas e intelectuais básicos, vou dispensar novas apresentações e apenas contar sobre minhas experiências virtuais nos últimos anos, além de dissertar sobre as características e desafios que encontram os atuais empreendimentos culturais na internet. De alguma forma, o balanço deixa de ser apenas pessoal ou individual pra se integrar no mundo mais amplo das interações à distância, dentro do Brasil e com outras partes do mundo.

Pra começar, eu acho que manter a página foi uma experiência positiva e contendo somente frutos exitosos? No geral sim, porque uma espécie de serviço intelectual mais “manual”, que envolve formatação de textos às vezes já prontos (incluindo descrições de vídeos no YouTube) e sua transformação num código HTML, bem como a adaptação da redação pro formato de escrita fixa, envolve raciocínio saudável, concentração e noções de estética e redação clara. Esse é um bom treino pra minha mente, e envolve um esforço que ultrapassa a mera passividade de leituras ou pesquisas. É uma das poucas atividades redacionais em que me sinto à vontade, por exemplo, pra escutar músicas, notícias ou telejornais, e até conversar com amigos no WhatsApp. O próprio ato de escrever ou adaptar também é um treino pra trabalhos intelectuais mais sérios, como artigos acadêmicos, avaliações universitárias, mensagens pra entidades hierárquicas e as próprias teses de grau (mestrado e doutorado). E outra coisa que me agrada é ver o conteúdo da TV Eslavo sintetizado, tanto com a possibilidade de divulgar os vídeos em outros meios quanto de proporcionar ao espectador outro tipo de vivência que não seja apenas a assistência passiva.

Quanto aos ganhos culturais e humanísticos, não há qualquer comparação ou disputa: o fato de ter um espaço próprio e desenvolvido pra publicar textos e outros materiais de leitura (escritos ou não por mim, ou traduzidos por mim), o que inclui expressão de ideias e compartilhamento de experiências, já é uma grande felicidade pra quem desde pequeno foi atraído pelas letras e humanidades. E se publico, é porque não quero que o conteúdo fique limitado a mim ou a pequenos grupos, mas disponível a quem quer que se interesse ou precise, por ser de interesse geral, e não particular ou grupal. A partilha e a ajuda sempre foram os motores de minha vida social, e é a empatia, ou o sentimento conjunto das necessidades alheias, que define meu campo de atuação. O auxílio acadêmico, intelectual, informativo e documental não se limita, pois, a mim mesmo, que em todo caso tenho referências de consulta própria ou prontas pra repassar a outras pessoas; estudiosos e curiosos interessados têm à disposição um razoável material de pesquisa e supressão de dúvidas.

Porém, quem analisa o cenário cultural e educativo global e as relações interpessoais nas mídias digitais tem invariavelmente feito um balanço pessimista e crítico. E esse cenário tem uma ligação indissolúvel com os atuais movimentos políticos e sociais do mundo inteiro, incluindo o Brasil. Tal análise me preocupa e também me concerne, pois se quero difundir conhecimento, preciso saber do que os internautas precisam, por que disso precisam e o que acham do que eu publico. Nesse âmbito, o balanço é inquietante: a chamada “alta cultura” está se diluindo, há um ódio (ou no mínimo desconfiança) crescente contra os intelectuais e os acadêmicos, o grau de leitura das populações está diminuindo, as universidades são cada vez mais atacadas pelos governos (material e moralmente), as agências de notícias estão assediadas por quem simplesmente discorda de sua linha editorial (e, paradoxalmente, a crença em manchetes falsas que circulam pelos smartphones se reforçou), os chefes de Estado procuram convencer os eleitores e governados muito menos pelo argumento racional do que pelo sentimento passional, a xenofobia e o chauvinismo voltam a assombrar a civilização ocidental e a produção artística é valorizada muito mais por sua capacidade de idolatria, lucro rápido e descarte do que pela profundidade da mensagem, qualidade técnica e enraizamento temporal. O “politicamente correto”, na verdade um conjunto mutável de valores e etiquetas que nos orienta para evitar a discriminação ou vexação de grupos mais vulneráveis à sátira dos privilegiados pelo status quo, é acusado de promover censura intervencionista e tirar a graça de espetáculos e entretenimentos sem utilidade evidente.

Há quem diga que são todos indícios de uma barbarização ou mesmo fascistização do Ocidente capitalista e dos territórios externos ligados a ele, decorrente de mais uma deriva autoritária destinada a manter os altos rendimentos privados das indústrias e bancos, socializar a inescapável pobreza e consolidar a condição de meros fantoches manipuláveis do sistema (o célebre “gado” de que falam atualmente os jovens) à massa colossal que consome produtos ou usa recursos tecnológicos acriticamente. Eu diria brincando que estamos passando de uma “república” como modelo ideal de governança a uma “rês pública”, ou falando em latim, da coisa pública original (“res publica”) estamos virando uma “grex publica”, isto é, a manada que prefere vibrar em torno de líderes carismáticos do que ouvir propostas concretas. Não só no Brasil, mas no mundo todo. E os governantes, ainda por cima, apresentam traços externos e discursivos de falta de alteridade, banalização da vida humana e elogio da violência e contorno das leis como forma de resolver rapidamente os problemas e obter um crescimento econômico focado somente no aspecto quantitativo e vertical, e não na qualidade de vida e na manutenção e aperfeiçoamento do capital humano. A outra face dessa tendência, já vulgarizada entre boa parte do público, é tratar o ecologismo como “histeria ideológica”, legitimando a predação produtiva dos frágeis recursos naturais planetários e negando suas nefastas consequências sociológicas e ambientais, já comprovadas solidamente por evidências científicas.

Esse diagnóstico é contemporâneo e não leva necessariamente em conta a evolução desde a inauguração de minha página, em 1.º de agosto de 2014, ou desde a citada postagem n.º 200. Eu poderia ir além e pensar o que aconteceu desde 20 de novembro de 2010, bem no fim da Era Lula e perto de iniciar o primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando criei a TV Eslavo nos primórdios da popularização do YouTube. Não é a mesma coisa do que refletir sobre outros sites, canais e espaços midiáticos voltados apenas a entreter e desligados ou pouco relacionados aos acontecimentos nacionais e internacionais, porque tudo ou a maioria do que disponibilizo, tanto pela circunstância de aparecimento quanto pelo caráter do conteúdo, está estreitamente relacionado a política, histórica, sociedade, cultura, educação e idiomas, resumindo, temas de valor mediato, e não efêmero, pra quem desfruta das plataformas digitais. E com a democratização e inclusão da informática, mais e mais gente tem desejado saber mais e mais coisas, e ao mesmo tempo se julga mais e mais apta a dar opiniões sobre qualquer assunto, sem estudo aprofundado. Se a democratização tecnológica já é em si uma revolução, também o é a democratização dos foros opinativos e, mais ainda, o potencial de pressão, intervenção ou até intimidação nos que opinam nessa zona livre, fato inédito na história das ideias e das inter-relações. Tal capacidade de atingimento é o perigo maior, e quem lida com conteúdos sensíveis, mesmo que não tenha sido seu elaborador, está mais vulnerável à perseguição da “ciberturba”.

Por que afirmo tudo isso? Voltando agora mais detidamente à minha atuação, todos estão cansados de saber que o teor das traduções e legendagens se deve à minha especialização em história social do trabalho, mais especificamente em história política do Brasil República e da Europa no século 20, porquanto sempre me foi mais fácil traduzir a partir de temas que já eram familiares e mais fácil saber as demandas de quem pertencia à mesma área do que a outras dos estudos históricos ou mesmo de outras disciplinas superiores. O assunto no qual acabei me aperfeiçoando foi o do comunismo no Ocidente e na Europa Oriental, seja como partidos político-eleitorais, seja como regimes instituídos. A temática comunista já causava sensação no início desta década? Sempre causou, e nunca deixou de despertar paixões favoráveis ou contrárias, inclusive nos primeiros recursos disponíveis pra publicação na internet. Desde muito cedo, nunca foram volumosos os comentários deixados nas postagens desta página, por isso não hesitei em desativar esse recurso, ante a atual popularidade escassa dos blogs como ferramentas de exposição e escrutínio textuais. Pra ser sincero, o maior motivo de eu ter mantido o Fishuk.cc foi minha recorrência predominante à escrita e à leitura na carreira profissional do que ao audiovisual: se o contrário ocorresse, era a TV Eslavo que teria frequência fixa de atualização, e não a página.

No canal do YouTube, a dinâmica foi diversa: em 2010 e 2011, poucos tinham uma conta, que aliás não era vinculada ao hoje extinto Google Plus, a rede social do gigante informático, e por isso as seções de comentários não serviam como fóruns de discussão à parte. A partir de 2012, sobretudo de 2013, com a maior articulação política dos brasileiros, as conexões online mais modernas e previsíveis, o fim das desconfianças face às redes sociais e o refinamento das técnicas audiovisuais, Facebook, WhatsApp, Instagram e YouTube começaram a cair no gosto popular, de início um pouco como imitação dos hábitos dos países desenvolvidos, mas com gradual aclimatação ao cenário nacional e, assim, “orkutização” das participações, em outras palavras, poluição visual e histrionia discursiva acentuadas. Pari passu, como é óbvio, caminhou a difusão e acessibilidade dos smartphones, que dispensavam a necessidade de estar parado, sentado a qualquer tipo de computador de mesa, pra interagir com outros ou ficar informado. Facilitação das vantagens, facilitação dos atritos. A frequência dos comentários no hospedeiro de vídeos disparou, as brigas também, e em vários momentos me vi obrigado ou inspirado a interditar essa seção, atitude que ficou cada vez menos frequente, porque a abertura ou fechamento deviam ser feitos em cada vídeo, e com cerca de 700 vídeos atuais, qualquer mudança é broxante.

Indo direto ao ponto, quem predomina hoje: comunismo ou anticomunismo? Uma teorização de como evoluíram as interações e o acesso a conteúdos no YouTube pode ajudar a explicar o resultado. No passado, as pessoas só encontravam o que procuravam, portanto num vídeo de conteúdo comunista era claro que a maioria dos comentários ia ser de comunistas, socialistas ou esquerdistas em geral, apoiando os que produziram o hino, canção ou documentário. O mecanismo de oferta de sugestões ou de notificação de atualizações era bastante primário, levando à pouca exibição do que não lhes interessava. Quem criticava o bolchevismo ou a URSS quase sempre eram internautas atraídos pela minha proposta original de ser “pan-eslavo”, ou seja, abordar o máximo possível de línguas eslavas sem me limitar a um ou poucos temas, e que quando viam algo comunista, reclamavam se não gostavam. Mas cada um usualmente ficava na sua, e não sentia a necessidade de provocar ou muito menos ofender quem pensava diferente. Quando havia troca de ideias, mesmo se eram opostas, o debate continuava amigável.

Muita coisa mudou de lá pra cá. Ainda me concentrando na TV Eslavo, a grande maioria do público passou a ser de jovens que já cresceram, desde muito cedo, com acesso a internet de qualidade ou mesmo recursos mais avançados como laptops (até certa época), smartphones e tablets. O ensino escolar passou a priorizar cada vez mais desempenho em provas pontuais, com mais memorização de tópicos do que absorção e utilização de conhecimento, tornando os vestibulares e até mesmo o ENEM um caso muito mais de vida ou morte do que na minha época (2005), quando praticamente só estudei com livros, e separando o aprendizado da vida real e da dignidade ou identidade social. O acirramento da mentalidade concorrencial e a mordomia tecnológica levaram a epidemias de ansiedade, depressão, baixa autoestima e até suicídio, pois a mínima falha técnica era motivo de desespero, o desempenho na escola e no escritório exigia metas desumanas, a disputa de vaidades ou cotidianos irreais nunca chegava a um termo e a sensação de ser contrariado numa troca opinativa era equiparada a uma derrota moral ou a um atestado de inépcia. Acrescente-se o secular espírito de rebanho, e note-se como o novo comportamento literalmente “viralizou”, como dizemos hoje.

E o comunismo, onde entra nisso? Bem, do ponto de vista intelectual, evidencia-se uma popularização das ideias conservadoras de direita, tradicionalmente avessas aos comunistas e a outras formas de esquerda radical. Essa predominância de “direita” e “esquerda” na opinião pública, a meu ver, é rotativa e ocasional, pois o que nossa cultura popular tem de mundana ou puritana, ao contrário do que muitos pensam, nada tem a ver com o espectro ideológico de extração europeia, o qual termina concernindo, portanto, a um domínio tão distante da vida comum quanto a vida parlamentar e a troca de governos. Explica-se, então, por que parece haver nos comentários do YouTube, em meu canal e em outros, uma predominância da “direita” ou do “conservadorismo”, mais ou menos associado ao apoio à figura do presidente Jair Bolsonaro. Acontece que esse encurtamento de distâncias apenas virtual, e não físico, na esteira da supracitada banalização da vida humana, fez o homem comum agir com muito mais violência, crueldade e pressa ao externar seu incômodo com quem não lhe dá razão. Esquecemos que por trás de perfis, contas ou até “fakes” existem pessoas, vidas, experiências, sentimentos, fragilidades, e a mistura de vaidade, prepotência e egoísmo faz o resto. Ninguém é contestado por seus argumentos ou coerência, mas desumanizado sem dó meramente por ter se definido “de direita” ou “de esquerda”, ou por ter o outro achado precocemente que ela(e) assim se rotularia.

Infelizmente, não são apenas os “bolsominions” ou “coxinhas” que agem dessa maneira: tenho inabalável certeza de que os apoiadores do PT e os militantes antissistema radicais forjaram esse modo de agir, rapidamente apropriado, adaptado e aperfeiçoado pelo outro lado da barricada. Desde 2013 pelo menos, presencio pessoal ou virtualmente a atitude dos que chamam de “reacionários” e “fascistas” os que simplesmente expressaram críticas mais ou menos articuladas ou incisivas aos governos de Lula e Dilma, aos regimes autoritários de esquerda ao redor do mundo e à corrupção e gastança pública que grassaram em Brasília (aí incluídos, claro, os ocasionais apoiadores despolitizados do “centrão”). Isso me dava nojo e me fez deixar de seguir muitos blogs, páginas e canais que, fora isso, apresentavam conteúdos muito didáticos e interessantes. A postura dogmática e arrogante do PT (em parte, creio, derivada do próprio jeito presunçoso de Lula) e de outros esquerdistas afugentou muitos eleitores potenciais, num momento em que conquistado o Estado, pensava-se que nada mais se havia de fazer pra legitimar a hegemonia. Daí uma boa parte do eleitorado popular petista ter facilmente passado ao PSDB novamente ou ao PSL. Em suma, como virou lugar-comum se dizer, a polarização e o ódio se generalizaram, tornando a política menos um caso de valores e persuasão do que de adesão fanática e blindagem passional.

Quem produz conteúdo relativo ou voltado à história e à política não podia passar imune a esse clima. O campo do conhecimento é o mais facilmente visado ou atingido pelos que desejam manipular fatos e mobilizar exércitos. As humanidades têm essa estranha propriedade de parecer tão fluidas ou tão próximas do dia a dia, que qualquer um se sente no direito ou capacidade de emitir pareceres sobre seus procedimentos e conclusões. A verdade é que história, ciência política, sociologia, filosofia, redação, linguística, literatura, tradução, legendagem e o que mais seja afim a meu trabalho de divulgação cultural, tudo isso se domina apenas com longo aprendizado, cansativa disciplina e reflexão sóbria, mesmo que seja inevitável a intervenção apaixonada ou a opção partidária em querelas sociais mais abrangentes. O essencial é não confundir meios com fins, nem sacrificar os primeiros aos segundos, mantendo uma relativa independência da área técnica, científica e acadêmica. Mais do que nunca, urge uma tradução pro português do pequeno mas instigante artigo do historiador francês Pierre Nora, L’histoire au péril de la politique (A história sob o perigo da política), que pretendo fazer em breve, advogando pela não instrumentalização de nosso ofício e pela aceitação geral dos resultados de pesquisas, a despeito do que se vá ou não pensar delas.

A página “Traduções de Erick Fishuk” e o canal “TV Eslavo” surgiram exatamente com o propósito humanístico de ultrapassar as rixas político-ideológicas, sem contudo perder o contato com elas. É chavão afirmar que a história dá lições sobre o que devemos ou não fazer, sobre o que causou ou não grandes retrocessos civilizatórios, porém mais do que isso, sua utilidade e obrigação é dar à interação social um chão mínimo pra pensarmos que resultamos de uma jornada muito mais longa e dolorida do que entendem nossos confortos, pra lembrarmos que nosso modo de vida não é o único possível e pra internalizarmos de vez que a condição humana, portanto todas as suas carências, riscos, potenciais e fragilidades, são compartilhados por pessoas muito distantes de nós no espaço, no tempo, nos pertencimentos e nas escolhas. Soa estranho uma página de traduções e um canal de legendagens adotarem um projeto valorativo, mas se nos damos conta do input humano por trás de cada empresa do tipo, compreendemos por que o objetivo das traduções é aproximar, desvelar, incomodar, e por que não me limito à tradução “seca”, mas incorro às vezes em montagens e misturas culturais, despertando o senso de absurdo que faz a essência da arte. Como disseram vários grandes intelectuais ocidentais, a atividade tradutória enriquece cultura, engendra progressos literários e estimula, ao invés de desencorajar, o conhecimento de novas línguas e realidades.

Não há razões pra desanimar ou calibrar a esperança: a vida é um mosaico de imprevistos e possibilidades, e a civilização sempre encontra pedras no caminho antes de alcançar estágios mais avançados. A função da cultura, da ciência e da arte não é acelerar ou deter a marcha, mas apenas mantê-la constante e direcioná-la no caminho do esclarecimento, da conservação e da intercompreensão. Jogando ao acaso, os frutos permanecem misteriosos, mas a virtude não está em produzir isto ou aquilo, mas em continuar apostando, aceitando os desafios que um mundo natural e humanamente hostil nos põe diariamente. Quem age mais e julga menos, quem pensa com humildade e faz com abnegação, consegue mais facilmente seu lugar ao sol, mesmo que no edifício da história ela(e) se torne um tijolo pequeno, nem por isso descartável. Que minha página e meu canal sigam prestando nesse sentido, que mais gente encontre neles um auxílio e que sejam mais cinco, dez vinte ou cinquenta anos, com incontáveis postagens!


Bragança Paulista, 31 de julho de 2019