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30 de agosto de 2015

Pelos vales e colinas (canção partisan)


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Pelos vales e colinas, em russo “По долинам и по взгорьям” (Po dolinam i po vzgoriam), é uma popular marcha militar dos tempos da Guerra Civil Russa (1918-1922). Iniciada a Primeira Guerra Mundial, o escritor russo Vladimir Giliarovski compôs a letra da Marcha do Regimento Siberiano, e na época da guerra civil, foram escritas sobre sua melodia alguns textos variantes, entre eles a Marcha dos guerrilheiros do Extremo Oriente (1922).

Com nova melodia de Ilia Aturov e letra de Piotr Parfionov, essa marcha é dedicada à 2.ª Divisão da Manchúria Exterior, formada após a Batalha de Volochaievka da guerra civil (5 a 14 de fevereiro de 1922). A canção trata da luta do Exército Vermelho contra as tropas do Governo Provisório da Manchúria Exterior, comandadas pelo general Viktorin Molchanov, nos entornos de Spassk, Volochaievka e Vladivostok. Esse governo foi o último enclave “branco” da guerra civil, cuja rendição foi um dos episódios finais do conflito.

Nas décadas de 1920 e 1930, a canção passaria a ser conhecida como “Партизанский гимн” (Partizanski gimn), título que pode ser traduzido como Hino partisan ou Hino guerrilheiro. Na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) já havia surgido uma versão em espanhol entre os republicanos, e com a Segunda Guerra Mundial a canção incrementou sua popularidade, sendo escritas versões nas línguas dos resistentes de vários países. Uma das mais conhecidas é a versão em sérvio Po šumama i gorama, cirílico “По шумама и горама” (Pelos bosques e montanhas; escute aqui). Na Rússia, a canção era ensinada nas escolas até a dissolução da URSS, mas até hoje algumas crianças ainda a aprendem.

Algumas notas históricas. Primorie (Приморье) e Priamurie (Приамурье) são duas regiões histórico-geográficas do Extremo Oriente russo, bordeando o Oceano Pacífico, sendo a segunda conhecida também como “Manchúria Exterior” e a primeira, não tendo equivalente em português, mas também sendo um nome não oficial da Província Marítima, ou Krai do Litoral. Mas no geral, essas regiões podem abranger uma ou mais divisões federais russas, ou parte delas.

“Atamano” (атаман, ataman) era o título oficial dos chefes militares supremos dos exércitos cossacos do Império Russo, enquanto “voivoda” (воевода, voievoda), palavra com acepções diversas em todo o mundo eslavo, era no mesmo império o comandante militar de determinada região que, ao longo do tempo, também acumulou funções governativas, ou tinha apenas estas. Contudo, nos tempos da Guerra Civil Russa, “atamano” e “voivoda” também designavam lideres militares e/ou políticos de tropas “brancas” no Extremo Oriente russo.

Fiz a legendagem a pedido dos autores do blog do Coletivo Lenin. No verbete sobre essa canção da Wikipédia em inglês, há também a versão em sérvio com tradução. A maioria das informações que escrevi sobre a canção foi traduzida do artigo da Wikipédia em russo, mas também pesquisei em outras versões, bem como na hora de escrever as notas históricas. O vídeo abaixo está no meu canal O Eslavo no YouTube, e depois, a letra em russo e em português:


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По долинам и по взгорьям
Шла дивизия вперёд,
Чтобы с боя взять Приморье —
Белой армии оплот
Чтобы с боя взять Приморье —
Белой армии оплот

Наливалися знамёна
Кумачом последних ран,
Шли лихие эскадроны
Приамурских партизан.
Шли лихие эскадроны
Приамурских партизан.

Этих лет не смолкнет слава,
Не померкнет никогда —
Партизанские отряды
Занимали города.
Партизанские отряды
Занимали города.

И останутся, как в сказках,
Как манящие огни
Штурмовые ночи Спасска,
Волочаевские дни.
Штурмовые ночи Спасска,
Волочаевские дни.

Разгромили атаманов,
Разогнали воевод
И на Тихом океане
Свой закончили поход.
И на Тихом океане
Свой закончили поход.

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Pelos vales e colinas
A divisão seguia adiante
Para lutar pelo Primorie,
Baluarte do Exército Branco.
Para lutar pelo Primorie,
Baluarte do Exército Branco.

As bandeiras estavam cheias
Do vermelho das últimas feridas,
Seguiam os audazes esquadrões
De guerrilheiros do Priamurie
Seguiam os audazes esquadrões
De guerrilheiros do Priamurie

A glória desses anos jamais
Vai se apagar ou se calar:
Os destacamentos guerrilheiros
Conquistaram cidades.
Os destacamentos guerrilheiros
Conquistaram cidades.

E restarão, como nos contos,
Como chamas atraentes
As noites de assalto a Spassk
E os dias rumo a Volochaievka.
As noites de assalto a Spassk
E os dias rumo a Volochaievka.

Destroçamos os atamanos,
Dispersamos os voivodas
E junto ao Oceano Pacífico
Terminamos nossa marcha.
E junto ao Oceano Pacífico
Terminamos nossa marcha.




23 de agosto de 2015

“Te amo, te amo, te amo” em esperanto


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Eis que torno pública novamente outra tradução de música brasileira para o esperanto, que estava guardada. Esta é a belíssima e apaixonante Te amo, te amo, te amo, composta por João Plinta e Waldir Luz, e cantada pelo talentoso sertanejo Dalvan, e a qual verti em 9 de abril de 2011. O novo título que dei foi Destino, que não precisa de tradução. Nesta página você pode ler a letra em português, e abaixo a letra em esperanto e o vídeo com a música.

Ĉi tiu kanzono estas belega kaj pasiiga sukceso de muziko “sertanejo” en Brazilo, kantata de Dalvan kaj komponita de João Plinta kaj Waldir Luz, kies tradukon de la portugala lingvo al Esperanto mi faris la 9-an de Aprilo 2011. La originala titolo en la portugala estas Te amo, te amo, te amo, kiu signifas Mi amas vin, mi amas vin, mi amas vin, sed mi donis la novan nomon Destino. Ĉi-paĝe vi povas legi la tekston en la portugala, kaj ĉi-sube vi rigardos videon kun la kanzono kaj legos tekston en Esperanto.


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Destino

Multajn fojojn kune uzis liton ni
Kaj ĉe via sin’ matenon trovis mi
Forgesanta ĉiujn miajn kompromisojn.
Niaj vestoj, pro l’amoro, restis for
Dum kun rapideco batis mia kor’
Karesita de afabla via kis’.

Niaj vivoj estas unu nur afero,
Do, se ni apartiĝos, restos malespero,
Malfacile vivas mi sen via am’.
Jam kontaminis min parfumo via roza
Kaj se ofendas oni vin, mi furiozas.
Mi amos vin eterne, ho belega dam’!

Destino, destino, destino, destino
Por ni jam estas komponita:
Ni estos nur unu anim’.
Destino, destino, destino, destino
Min faris homo tre benita
Per ĝojo kun neniu lim’.



17 de agosto de 2015

“Amai nossa Ucrânia”, de V. Sosiura


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Esta foi a primeira tradução poética que fiz a partir de um idioma eslavo. Trata-se do poema “Любіть Україну” [Liubit Ukrainu], que significa literalmente “Amai a Ucrânia” ou “Amem a Ucrânia”. Foi escrito pelo poeta e romancista Volodymyr Mykolaiovych Sosiura, nascido em 6 de janeiro de 1898 (25 de dezembro de 1897, pelo calendário juliano ortodoxo) na cidade de Debaltseve (Debaltsevo, em russo), pertencente então ao Império Russo e hoje integrando o leste da província ucraniana de Donetsk, na divisa com a província de Luhansk. Volodymyr Sosiura faleceu em 8 de janeiro de 1965 na Kyiv soviética.

Em fevereiro de 2015, num grupo do Facebook dedicado aos brasileiros descendentes de ucranianos, um senhor residente em São Paulo apresentou esse poema e me sugeriu traduzi-lo para o português mantendo as sutilezas poéticas. Ele pontuou que a cidade onde Volodymyr Sosiura havia nascido era Debaltseve, então cenário de uma cruenta batalha entre as Forças Armadas da Ucrânia e as Forças Armadas da Nova Rússia, consideradas “separatistas” por Kyiv, no desenrolar da guerra civil iniciada durante a crise política de 2014. Debaltseve é um ponto logisticamente estratégico ocupado por forças do governo em julho de 2014 e retomado pelas tropas da autoproclamada República Popular de Donetsk em 18 de fevereiro de 2015, quando o exército ucraniano, na defensiva desde meados de janeiro, foi forçado à retirada.

Sosiura, cujo pai tinha raízes francesas (o sobrenome deve ser uma aclimatação de “Saussure”), lutou na Guerra Civil Russa entre o inverno de 1918 e o outono de 1919 nas fileiras do exército da então independente República Popular Ucraniana, comandado por Symon Petliura. Porém, com a derrota dessa república, Sosiura passou para o Exército Vermelho, e após o fim do conflito realizou seus estudos superiores, concluídos em 1925, tendo já exercido outras profissões antes de 1918, inclusive nas minas do Donbass. Tornando-se um escritor muito popular entre as décadas de 1920 e 1930, pertenceu a várias associações literárias, inclusive a União Ucraniana dos Escritores Proletários, mas frequentemente entrava em conflito com as diretrizes do Partido Comunista ucraniano, do qual, aliás, era membro, e que frequentemente criticava suas propensões “nacionalistas”. Sosiura chegou até mesmo a ser obrigado a um trabalho fabril de “reeducação” entre 1930 e 1931.

Volodymyr Sosiura foi correspondente de guerra entre 1942 e 1944, ano em que escreveu o poema “Amai a Ucrânia”, com alusões à paisagem e cultura locais, ao conflito mundial e à expulsão de tropas invasoras. Conseguiu ganhar o Prêmio Stalin de primeiro grau em 1948 por uma coletânea poética publicada no ano anterior, mas em 1951 seria alvo de uma campanha difamatória oficial, com alcance inclusive no jornal Pravda, por conta do suposto “nacionalismo burguês” de seu “Amai a Ucrânia”. O desgosto de Sosiura o teria levado a um primeiro infarto em 1958 e a vícios posteriores, até um segundo infarto que teria acelerado sua morte aos 67 anos de idade.

Após a Ucrânia ter sido declarada independente, em 1991, o poeta foi relembrado em inúmeras homenagens, monumentos, selos, artigos e republicações, e uma edição comemorativa da moeda de 2 hryvnias marcou em 1998 o centenário de seu nascimento, trazendo a efígie de Sosiura e, logo abaixo, a inscrição “Любіть Україну”. Na cidade de Zmiiv, um mastro com a bandeira nacional em honra aos 20 anos da independência tem gravadas em seu pedestal algumas estrofes do poema. Veja aqui uma foto do mastro por inteiro ou de seu pedestal com as estrofes 1, 2, 4 e a última.

Quando o senhor de São Paulo postou o poema no grupo do Facebook, uma senhora escreveu em comentário um rascunho de tradução literal, ao qual não sei como ela havia chegado, pois alguns significados estavam até errados. Mesmo assim, a colaboração dela me ajudou e, embora não sendo fluente em ucraniano, após ter deixado todo esse material guardado ao longo do primeiro semestre, decidi empunhá-lo em meados de junho e, no dia 14, concluí a tradução poética brasileira, após uns três dias de trabalho muito inspirado. Contei ainda com o auxílio de dicionários e enciclopédias online, para dúvidas vocabulares, gramaticais e sobre o contexto histórico de certas palavras.

Obviamente obedeci à métrica original, inclusive respeitando oxítonas ou paroxítonas em final de verso, mantive as maiúsculas ou minúsculas em começo de verso e procurei mexer o menos possível no significado; onde isso não foi possível devido às obrigações da forma, fiz cortes do que era redundante, adaptações e até mesmo acréscimos que não destoassem do todo. Busquei não repetir rimas ao longo do poema, recorri inclusive a rimas parciais e mantive ao máximo a ocorrência do nome “Ucrânia”, especialmente quando ele importava na rima. E o mais notável, substituí o célebre “Amai a Ucrânia” por “Amai nossa Ucrânia”, por respeito à métrica no primeiro verso, o que acredito não ter prejudicado nem um pouco os efeitos.

Parece que Volodymyr Sosiura ainda é um desconhecido no Brasil, exceto nos círculos imigrantes, enquanto as ideias que permeiam sua obra teriam um caráter apressadamente pouco palatável a certos literatos ditos progressistas encoleirados a análises unilaterais da atual conjuntura geopolítica. Logo abaixo está o poema em ucraniano, e em seguida, minha tradução brasileira. Mais informações biográficas e literárias, nas Wikipédias em inglês, em russo e em ucraniano.




Любіть Україну


Любіть Україну, як сонце, любіть,
як вітер, і трави, і води…
В годину щасливу і в радості мить,
любіть у годину негоди.

Любіть Україну у сні й наяву,
вишневу свою Україну,
красу її, вічно живу і нову,
і мову її солов'їну.

Між братніх народів, мов садом рясним,
сіяє вона над віками…
Любіть Україну всім серцем своїм
і всіми своїми ділами.

Для нас вона в світі єдина, одна
в просторів солодкому чарі…
Вона у зірках, і у вербах вона,
і в кожному серця ударі,

у квітці, в пташині, в електровогнях,
у пісні у кожній, у думі,
в дитячий усмішці, в дівочих очах
і в стягів багряному шумі…

Як та купина, що горить — не згора,
живе у стежках, у дібровах,
у зойках гудків, і у хвилях Дніпра,
і в хмарах отих пурпурових,

в грому канонад, що розвіяли в прах
чужинців в зелених мундирах,
в багнетах, що в тьмі пробивали нам шлях
до весен і світлих, і щирих.

Юначе! Хай буде для неї твій сміх,
і сльози, і все до загину…
Не можна любити народів других,
коли ти не любиш Вкраїну!

Дівчино! Як небо її голубе,
люби її кожну хвилину.
Коханий любить не захоче тебе,
коли ти не любиш Вкраїну…

Любіть у труді, у коханні, у бою,
як пісню, що лине зорею…
Всім серцем любіть Україну свою —
і вічні ми будемо з нею!

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Amai nossa Ucrânia


Amai nossa Ucrânia, amai como o sol,
os campos, o vento e as águas...
Amai se alegria e prazer reinam sós,
bem como nas horas de mágoa.

Amai nossa Ucrânia no agir e pensar,
as ginjas, e a sempre luzente
e nova beleza, e a língua a soar
igual rouxinol tão contente.

No rico mosaico dos povos irmãos,
a Ucrânia fulgura do início...
Amai-a com o âmago do coração
e vossos trabalhos propícios.

No mundo indivisa nos é, sem igual
no doce, atraente infinito...
Está nos salgueiros, no alvor sideral,
nos pulsos do peito em agito,

em tudo menor: chama, pássaro, flor,
nos cantos e nos pensamentos,
criança que ri, moça olhando em amor,
bandeiras bradando no vento.

É morro que queima, mas não vira pó,
e vive nos bosques, veredas,
no som das sirenes, no ondar do Dnipró,
nas púrpuras nuvens de seda.

no cru bombardeio que cinzas tornou
os hostes vestidos de guerra,
no rifle que da negridão nos levou
à clara e feliz primavera.

Ei, moço! A ela dá tudo ao viver,
teu choro ou risada espontânea...
Não ama outros povos sem antes querer
com zelo e paixão nossa Ucrânia!

Ei, moça! A ela e seu teto de anil
sempre ama, não causa cizânia.
O amado te nega cortejo viril
se deixas de lado a Ucrânia...

Lavrando, lutando, cuidando – amai
como ária na luz matutina...
Na alma imortal vossa Ucrânia guardai:
com ela, imortal nossa sina!



9 de agosto de 2015

Lukashenko discursa no Dia da Vitória 2010


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Introdução (Erick Fishuk)

Discurso pronunciado por Aleksandr Grigorievich Lukashenko, Presidente da República de Belarus, na parada das tropas da Guarnição de Minsk, capital do país, em comemoração aos 65 anos da vitória soviética (Belarus era uma república da URSS até 1991) na Segunda Guerra Mundial, em 9 de maio de 2010. O título russo do discurso é “Vystuplenie A. Lukashenko na parade v oznamenovanie 65-i godovschiny Pobedy v Velikoi Otechestvennoi voine”.

Lukashenko inicia pela honra da memória dos que morreram em combate ou em campos de concentração e defende a importância de se recordar o conflito como forma de celebrar o triunfo da civilização sobre a barbárie. Ressalta ainda que Belarus foi um dos países que mais sofreu em perdas materiais e humanas e que não cabe dúvidas de que a União Soviética, com todos os seus povos unidos, especialmente os eslavos, foi a maior responsável pela vitória dos Aliados, não cabendo qualquer tipo de revisão da história nem o desprezo dela como lição para o futuro. O presidente alude a um contexto geopolítico difícil, diante do qual é necessário conservar as conquistas da “geração dos vencedores”, reforçar a defesa nacional e evitar a intromissão estrangeira nos assuntos internos e na construção do bem-estar. Elogiando o povo bielo-russo como “invencível e autoconfiante”, termina o discurso com exortações otimistas ao futuro nacional e com a maior gratidão aos veteranos que ainda estavam vivos e presentes no desfile.

Os bielo-russos, uma etnia eslava oriental outrora chamada de “russos brancos” (que é o que significa literalmente seu nome), supõem que sua primeira existência como Estado teria sido o Grão-Ducado da Lituânia, que existiu até 1795, mas uma República Popular Bielo-Russa independente só existiria entre 1918 e 1919, ano em que se tornou uma república soviética. A nova Bielo-Rússia independente seria rebatizada como “Belarus” em 1991 e governada pelo presidente do Soviete Supremo até 1994, quando foi criado o cargo de Presidente de Belarus, desde então ocupado por Aleksandr Lukashenko. Tendo servido no Exército Soviético nos anos 1970 e 1980, e sendo hoje “Marechal de Belarus”, Lukashenko havia sido o único deputado do país a votar contra a dissolução da URSS, e como presidente manteve diversas políticas estatistas e antiliberais soviéticas, e é acusado de censurar e perseguir a oposição política e jornalística.

As duas línguas oficiais de Belarus são o bielo-russo e o russo, porém mais de 70% da população usa o russo em sua vida diária, língua dominante no governo e na mídia e na qual Lukahsenko fez este discurso. Mesmo entre os bielo-russos étnicos, apenas pouco mais de 26% usa o bielo-russo em família, mas este influencia fortemente o russo local, quando não ocorrem misturas entre os dois.

O texto em russo publicado na época pode ser lido nesta página. Eu baixei o vídeo do “Canal da Vitória”, administrado pelo Cristiano Alves, tradutor que admira muito a Rússia e o período soviético, e que já havia feito uma primeira tradução, com a qual cotejei meu trabalho. Abaixo está minha versão legendada, para meu canal O Eslavo no YouTube, tendo sido feitas no texto, como sempre, as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


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Caros veteranos! Camaradas soldados, sargentos, suboficiais, oficiais e generais! Estimados compatriotas e convidados estrangeiros!

Felicito-os de coração pelos 65 anos da Grande Vitória.

Todo ano, na data sagrada de 9 de maio, rendemos nossas maiores homenagens a essa inigualável façanha do povo soviético. Inclinamos nossas cabeças ante os mortos nos campos de batalha e os mártires dos campos de concentração. Honramos e glorificamos todos os que contribuíram para livrar a humanidade do nazismo.

A memória popular guardará para sempre a abnegação e a coragem dos que suportaram as piores provações e venceram a guerra mais cruel do século passado.

A importância dessa Vitória para toda a humanidade é eterna. Ela se tornou um símbolo do triunfo da vida sobre a morte, da liberdade sobre a escravidão, do humanitarismo sobre o racismo. Realizou uma justa represália à agressão e à violência e fez uma crítica severa das ambições e ideias insanas de dominação mundial.

Para o povo bielo-russo, o Dia da Vitória tem um significado especial. Nossa república sofreu nos anos terríveis da guerra como nenhum país no mundo. Por causa desse genocídio desumano, o país perdeu um terço de sua população. Foi destruída toda a infraestrutura, lembrada apenas por cinzas de aldeias incendiadas e ruínas de cidades outrora prósperas.

Muitos países participaram do combate ao agressor. Mas a verdade histórica consiste em que o papel decisivo na luta antifascista coube à União Soviética. Exatamente ela se tornou a força que mudou o curso da Segunda Guerra Mundial, selando seu desenlace e o destino não apenas de nossa Pátria, mas também de muitos outros Estados e povos, em suma, de toda a comunidade internacional.

Infelizmente, cada vez mais pessoas têm buscado substituir a verdade paga com milhões de vidas por variantes que rebaixam a importância da Grande Façanha de nossos soldados e guerrilheiros clandestinos, denegrindo os patriotas que lutaram para libertar seu país. Pior ainda, tais esforços têm se tornado uma real orientação política.

Hoje é indispensável fazer todo o possível para deter o revisionismo histórico.

Assim, em 1941, ocorreu não um simples conflito entre Estados e enormes potenciais bélicos, mas um embate universal entre sistemas políticos diferentes, entre valores morais e espirituais opostos. E nesse embate alcançamos a vitória.

À defesa da Pátria se ergueu todo o povo, e por isso mesmo essa guerra entrou para sempre na história como a Grande Guerra Patriótica.

O principal ingrediente da vitória foi a sólida fraternidade entre os soviéticos das diversas nacionalidades. O 9 de Maio é uma festa partilhada entre Belarus, Rússia, Ucrânia e todos os países da Comunidade de Estados Independentes. E hoje, na parada solene em Minsk, Moscou e Kyiv, ombro a ombro se postam os militares dos países eslavos irmãos.

A lembrança dessa heroica façanha é sagrada. Porém, para evitar erros trágicos, é indispensável tirar da experiência do passado as conclusões corretas.

Conclamamos todos os países do mundo a não ignorar as novas afrontas e tendências perigosas que ameaçam nossa segurança.

Caros compatriotas!

O complicado contexto atual apresenta elevadas exigências de fortalecermos a capacidade defensiva de nosso Estado, para o que realizaremos todo o necessário, com atenção especial em garantir um alto nível de incremento das Forças Armadas.

Recordando as lições da guerra, nos damos conta que nada nos importa mais do que conservar a paz, o bem-estar do povo e a independência de nosso Estado. É exatamente esse o sentido de nossa política.

A preciosa herança da liberdade e independência, além de venerada, deve ser defendida de ameaças políticas e econômicas como for possível.

Caros amigos!

O sentido básico de todos os nossos planos é conseguir criar condições dignas de vida ao povo bielo-russo.

Nós mesmos, e não os estrangeiros, firmaremos nosso bem-estar. Só com um esforço obstinado, cotidiano e eficiente tornaremos a pátria bielo-russa num Estado forte e próspero.

Precisamos crer nas próprias forças, consolidar a unidade nacional e a coesão social. Só assim se atinge a vitória. Essa é a manifestação do mais alto ânimo de um povo invencível e autoconfiante!

Otimismo e consolidação de forças são a chave do sucesso. Esse lema da geração dos vencedores será sempre atual e oportuno.

Honra e glória aos defensores da Pátria!

Suprema gratidão a vocês, caros veteranos, por terem nos presenteado com a vida. Podem estar certos que em Belarus a imperecível façanha do povo soviético será sempre honrada.

Saúde, paz, felicidade e sucesso a todos, caros amigos.

Viva a nossa Pátria, a República de Belarus!

Hurra, camaradas!



1 de agosto de 2015

Stalin discursa no metrô (6/11/1941)


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Este vídeo contém excertos de um informe do líder soviético Iosif Stalin à sessão solene do Soviete de Moscou de Deputados Trabalhadores com organizações partidárias e sociais da cidade de Moscou, ocorrida a 6 de novembro de 1941 na estação Maiakovski do metrô, em plena guerra contra a Alemanha nazista. O texto integral do informe foi publicado na edição do jornal Pravda do dia seguinte. Stalin alude às consequências da invasão alemã para o cotidiano e economia soviéticos, e ao fracasso de Hitler em tentar esmagar a URSS num prazo curto demais.

Dentro das Obras completas de Stalin, o informe completo em russo pode ser lido no tomo 15, editado em Moscou pela Pisatel em 1997, pp. 71-83. Seu título original é “Doklad na torzhestvennom zasedanii Moskovskogo Soveta deputatov trudiaschikhsia s partiinymi i obschestvennymi organizatsiami goroda Moskvy, 6 noiabria 1941 goda”. Existe também uma versão em português publicada originalmente em 1943 no livro Stalin, de Emil Ludwig (Rio de Janeiro, Calvino, 1943), mas que usei apenas a título de comparação, pois era bem insatisfatória. Eu baixei o vídeo sem legendas desta página, e apenas acrescentei a tradução.

O vídeo legendado está no meu canal O Eslavo no YouTube, e pode ser visto abaixo. Não houve nenhuma alteração ao se passar o discurso oral em russo para o texto escrito, mas desta vez estou colocando, abaixo do vídeo, o texto da legenda, pois sugiro uma comparação com a versão em russo, especialmente quem conhece esta língua, para se notar as diversas reduções, resumos e simplificações que fiz, todas necessárias para a adequação à mídia audiovisual. A título de curiosidade, coloquei também os trechos equivalentes da tradução brasileira de 1943, para se perceber não só como fui bem sucinto, sem porém perder o sentido principal, mas também como o(a) primeiro(a) tradutor(a) foi muito prolixo.


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Iosif Stalin assim pronuncia, e assim se publica:

Товарищи! Прошло 24 года с тех пор, как победила у нас Октябрьская социалистическая революция и установился в нашей стране советский строй. Мы стоим теперь на пороге следующего, 25-го года существования советского строя. [...] Война значительно сократила, а в некоторых областях прекратила вовсе нашу мирную строительную работу. Она заставила перестроить всю нашу работу на военный лад. Она превратила нашу страну в единый и всеобъемлющий тыл, обслуживающий фронт, обслуживающий нашу Красную Армию, наш Военно-Морской Флот. Период мирного строительства кончился. Начался период освободительной войны с немецкими захватчиками. [...] Предпринимая нападение на нашу страну, немецко-фашистские захватчики считали, что они наверняка смогут “покончить” с Советским Союзом в полтора-два месяца и сумеют в течение этого короткого времени дойти до Урала. Нужно сказать, что немцы не скрывали этого плана “молниеносной” победы. Они, наоборот, всячески рекламировали его. Факты, однако, показали всю легкомысленность и беспочвенность “молниеносного” плана. Теперь этот сумасбродный план нужно считать окончательно провалившимся.


Tradução que fiz para transformar em legenda:

Camaradas! Há 24 anos, tendo triunfado a Revolução Socialista de Outubro, instauramos em nosso país o regime soviético. Estamos prestes a entrar nos 25 anos de sua existência. [...] A guerra afetou muito, e em certas áreas parou toda nossa edificação pacífica. Ela nos fez militarizar todo o nosso trabalho. Ela uniu o país inteiro numa só retaguarda a serviço do front, do Exército Vermelho e da Marinha de Guerra. A edificação pacífica acabou. Entramos numa guerra libertadora contra a agressão alemã. [...] Ao agredir nosso país, os fascistas alemães contavam conseguir sem erro “acabar” com a URSS em um mês e meio ou dois, e nesse curto prazo atingir os Urais. Lembremos que eles não escondiam esse plano de vitória “relâmpago”, mas alardeavam de todo jeito. E os fatos provaram que era um plano leviano e infundado. Devemos declarar agora o fracasso definitivo dessa loucura.


Tradução publicada em 1943:

Camaradas! São decorridos, vinte e quatro anos, desde a vitória da Revolução Socialista de Outubro e da implantação do sistema soviético em nosso país. Estamos agora no começo de outro ano, o 25.° da existência do sistema soviético. [...] Nossa construção pacífica reduziu-se consideravelmente e, em certos ramos, paralisou por completo. Fomos obrigados a reorganizar todo o nosso trabalho, colocando-o em pé de guerra. Nosso país transformou-se numa retaguarda unida a serviço de nosso Exército e de nossa Marinha. O período de construção pacífica chegou a seu fim. Começou o período de guerra, que visa libertar-nos da agressão alemã. [...] Ao iniciar sua ofensiva contra o nosso país, os alemães calculavam que, seguramente, poderiam “acabar” com a URSS em um mês e meio ou dois meses, conseguindo, nesse breve tempo, chegar até os Urais. É preciso notar que os alemães não faziam segredo desse plano de vitória relâmpago. Pelo contrário, proclamavam sua intenção por todos os meios. Os fatos, entretanto, encarregaram-se de demonstrar a superficialidade e a falta de base desse plano. Agora já se pode considerá-lo fracassado.



“Fim da linha, seu nazistóvski sem vergonha!”