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31 de maio de 2018

“Avante, camarada” (PCP), três idiomas


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/avante


Foi a primeira vez que fiz uma coisa dessas no meu canal Eslavo (YouTube). Verti uma mesma canção, quase ao mesmo tempo, pra três idiomas diferentes. Eu já tinha, por exemplo, traduzido canções de outros idiomas pro português e depois pro francês ou inglês, mas nunca tinha feito um conjunto sistemático de versões, e com descrições parecidas na plataforma. Quando estava se aproximando este ano o aniversário da Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal em 25 de abril, decidi traduzir algumas músicas locais de época pra outras línguas conhecidas. A primeira foi Avante, camarada, um hino comunista que, porém, simboliza a participação do Partido Comunista Português (PCP) no evento e o qual eu curto desde o começo da graduação em História. O autor da letra e da melodia é Luís Cília.

Vou reproduzir agora as informações que pus em francês, russo e inglês no canal. A chamada “Revolução dos Cravos” foi um movimento popular e militar que derrubou a ditadura salazarista de Portugal (então comandada por Marcello Caetano) em 1974. Seu nome se deve ao cravo vermelho que os rebelados usavam na lapela sinalizando sua ação conjunta, bem como aos cravos que o povo colocava nos canos de seus fuzis por ter chegado a primavera. Nesse processo, o PC português, fundado em 1921 e ilegal sob António Salazar, teve papel destacado, por isso legendei Avante, camarada, criada nessa época.

O cantor e compositor Cília a escreveu em 1967, quando estava no exílio em Paris. A primeira versão foi gravada em Moscou no mesmo ano pela cantora portuguesa Luísa Basto, a fim de ser transmitida pela Rádio Portugal Livre. Após a Revolução dos Cravos, a artista ainda gravou Avante, camarada outras duas vezes, em 1974 e 1981, que vocês escutarão sucessivamente em cada vídeo. A música se tornou um dos mais célebres cantos de resistência antifascista e uma espécie de segundo hino do PCP, muito popular entre filiados e simpatizantes.

Eu mesmo verti o texto português pro francês, pro russo e pro inglês. Então, montei os três vídeos e legendei. Lembrei aos estrangeiros que a pronúncia tem o padrão europeu, mas que a ortografia é totalmente igual à usada no Brasil (mesmo após o Acordo ratificado em 2009), país onde vivo. Eu baixei o primeiro áudio do ótimo site SovMusic.ru, e o segundo, que tem melhor qualidade, deste vídeo. Seguem abaixo a letra original, as três legendagens, parte das informações nas três línguas e as respectivas versões:


Refrão:
Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada
E o sol brilhará para todos nós!
Avante, camarada, avante, camarada
E o sol brilhará para todos nós!

1. Ergue da noite, clandestino,
À luz do dia a felicidade,
Que o novo sol vai nascendo,
Em nossas vozes vai crescendo
Um novo hino à liberdade.
Que o novo sol vai nascendo,
Em nossas vozes vai crescendo
Um novo hino à liberdade.

(Refrão)

2. Cerrem os punhos, companheiros,
Já vai tombando a muralha.
Libertemos sem demora
Os companheiros da masmorra,
Heróis supremos da batalha.
Libertemos sem demora
Os companheiros da masmorra,
Heróis supremos da batalha.

(Refrão)

3. Para um novo alvorecer,
Junta-te a nós, companheira,
Que comigo vais levar
A cada canto, a cada lar
A nossa rubra bandeira.
Que comigo vais levar
A cada canto, a cada lar
A nossa rubra bandeira.

(Refrão)

____________________



Le 25 avril a été l’anniversaire de la « Revolução dos Cravos » (Révolution des Œillets), mouvement populaire et militaire qui a renversé la dictature salazariste (alors commandée par Marcello Caetano) au Portugal en 1974. Elle doit son nom à l’œillet rouge que les conjurés portaient à leur boutonnière en signe de ralliement. Dans ce processus, le Parti communiste portugais (PCP), fondé en 1921 et illégal sous la dictature de António Salazar, a joué un rôle majeur. C’est pourquoi j’ai présenté une belle chanson communiste composée vers cette époque. Elle s’appelle Avante, camarada (En avant, camarade), et son auteur est Luís Cília.

Le chanteur et compositeur Cília a créé Avante, camarada en 1967, lors de son exile à Paris. La première version a été enregistrée à Moscou la même année par la chanteuse portugaise Luísa Basto, pour être diffusée à la Rádio Portugal Livre. Après la Révolution des Œillets, l’artiste a fait deux autres enregistrements, en 1974 et 1981, lesquels vous écoutez dans cette vidéo. Avante, camarada est devenu un des plus célèbres chants de résistance antifasciste et une sorte de deuxième hymne du PC portugais, très populaire parmi les militants et compagnons de route.

Moi-même ai traduit le texte portugais vers le français, monté la vidéo et composé les sous-titres. La prononciation est européenne, mais la façon d’écrire est tout à fait courante au Brésil (je suis Brésilien). J’ai téléchargé le premier extrait du site SovMusic.ru, mais le deuxième, de meilleure qualité, de cette vidéo. Version française :


Refrain :
En avant, camarade, en avant,
Joins ta voix à la nôtre !
En avant, camarade, en avant, camarade
Et le soleil brillera pour nous tous !
En avant, camarade, en avant, camarade
Et le soleil brillera pour nous tous !

1. Lève de la nuit, clandestin,
Le bonheur à la lumière du jour,
Car un nouveau soleil se lève
Et nos voix font croitre
Un nouvel hymne à la liberté.
Car un nouveau soleil se lève
Et nos voix font croitre
Un nouvel hymne à la liberté.

(Refrain)

2. Serrez les poings, compagnons,
La muraille commence à tomber.
Libérons des oubliettes
Sans délai nos compagnons,
Les meilleurs héros de la bataille.
Libérons des oubliettes
Sans délai nos compagnons,
Les meilleurs héros de la bataille.

(Refrain)

3. Pour une nouvelle aube,
Rejoins-nous, compagne,
Car tu apporteras avec moi
À chaque endroit, chaque foyer,
Notre drapeau rouge.
Car tu apporteras avec moi
À chaque endroit, chaque foyer,
Notre drapeau rouge.

(Refrain)

____________________



25 апреля было юбилеем «Revolução dos Cravos» (Революции красных гвоздик), народное и военное движение, что свергнуло салазаристскую диктатуру (тогда под руководством Мареслу Каэтану) в Португалии в 1974 г. Это имя происходит от красной гвоздики, которую заговорщики носили в петлицах в знак сплочения. Во время событий, Португальская коммунистическая партия (PCP), основанная в 1921 г. и подпольная при диктатуре Антониу Салазара, играла значительную роль. Поэтому я представил красивую коммунистическую песню, сложенную в это время. Она называется Avante, camarada (Вперед, товарищ), автор которой – Луиш Силиа.

Певец и песенник Силиа написал Avante, camarada в 1967 г., во время его ссылки в Париже. Первая версия записана в Москве в том же году португальской певицей Луиза Башту, чтобы передаваться по радиостанции «Portugal Livre». После Революции гвоздик, артистка сделала другие две записи, в 1974 и 1981 гг., которые вы слушаете в этом видео. Avante, camarada стала ондой из самый известных песен антифашистской сопротивлении и нечто вроде второго гимна португальской компартии, очень популярного среди активистов и попутчиков.

Я сам перевел португальский текст на русский язык, создал видео и положил субтитры. Певица произносит по-европейски, но самое письмо используется в Бразилии (я – бразилец). Я скачал первое аудио со сайта SovMusic.ru, а второе – с этого видео, с высоким качеством. Русская версия:


Припев:
Вперёд, товарищ, вперёд,
Соедини твой голос с нашим!
Вперёд, товарищ, вперёд, товарищ,
И солнце засветится для нас всех!
Вперёд, товарищ, вперёд, товарищ,
И солнце засветится для нас всех!

1. Подними с ночи, подпольщик,
Счастье под свет дня,
Ведь новое солнце восходит
И от наших голосов растёт
Новый гимн свободе.
Ведь новое солнце восходит
И от наших голосов растёт
Новый гимн свободе.

(Припев)

2. Сожмите кулаки, соратники,
Каменная стена разваливается.
Давайте освободим из тюрьмы
Немедленно соратников,
Лучших боевых героев.
Давайте освободим из тюрьмы
Немедленно соратников,
Лучших боевых героев.

(Припев)

3. За новый рассвет
Присоединись к нам, подруга,
Чтобы мы с тобой принесли
В каждый город, в каждый дом,
Наше красное знамя.
Чтобы мы с тобой принесли
В каждый город, в каждый дом,
Наше красное знамя.

(Припев)

____________________



On April 25th there was the celebration of the ‘Revolução dos Cravos’ (Carnation Revolution), a popular and military movement that overthrew the Salazarist dictatorship (at that time leaded by Marcello Caetano) in Portugal in 1974. Its name comes from the fact that when the population took to the streets to celebrate the end of the dictatorship, carnations were put into the muzzles of rifles and on the uniforms of the army men. During this process, the Portuguese Communist Party (PCP), founded in 1921 and illegal under António Salazar’s dictatorship, played a major role. So I presented a nice communist song made by this time. Its name is Avante, camarada (Forward, comrade), and the author is Luís Cília.

The singer and songwriter Cília created Avante, camarada in 1967, when he was exiled in Paris. Its first version was recorded in Moscow in the same year by the Portuguese singer Luísa Basto, to be broadcast by Rádio Portugal Livre. After the Carnation Revolution, she made two new recordings, in 1974 and 1981, which you listen to in this video. Avante, camarada has become one of the most famous songs of antifascist resistance and a kind of second hymn of the Portuguese CP, very popular among activists and supporters.

I translated the Portuguese lyrics into English myself, made the montage and subtitled. The pronunciation is European, but the writing style is totally current in Brazil (I am Brazilian). I downloaded the first audio from the site SovMusic.ru, but the second, higher-quality, from this video. English version:


Chorus:
Forward, comrade, forward,
Add your voice to ours!
Forward, comrade, forward, comrade,
And the sun will shine for all of us!
Forward, comrade, forward, comrade,
And the sun will shine for all of us!

1. Lift from the night, undergrounder,
Happiness to the daylight,
Because a new sun is rising
And from our voices is growing
A new hymn to freedom.
Because a new sun is rising
And from our voices is growing
A new hymn to freedom.

(Chorus)

2. Clench your fists, companions,
The walls are falling down.
Let us remove quickly
From the dungeon our companions,
Greatest heroes of the battle.
Let us remove quickly
From the dungeon our companions,
Greatest heroes of the battle.

(Chorus)

3. For a new dawn to arise
Join us, fellow woman,
And together we will take
To every spot, to every home,
Our red flag.
And together we will take
To every spot, to every home,
Our red flag.

(Chorus)




29 de maio de 2018

“Slowly”, Charles Aznavour em francês


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/slowly


A presença de Charles Aznavour na minha vida é constante. Desde que comecei a escutar por conta própria um velho LP de minha avó com as melhores canções dele, não parei mais de ouvir e pesquisar as letras. Com ele comecei a gostar e a aprender a língua francesa, aprendendo a pronúncia, praticamente, comparando o áudio com o texto. Hoje, ao lado de Julio Iglesias e Sergio Endrigo, considero-o um dos maiores ícones da música romântica mundial, e como eles, um dos mais estimados quando quero ouvir algo realmente elaborado.

Quase sempre, Aznavour mesmo compunha suas próprias canções, como nosso Roberto Carlos. Uma delas, com título inglês, chamava-se Slowly (Devagar), que era justamente mais conhecida por sua versão inglesa, e foi gravada em francês no álbum Voilà que tu reviens (1976). Aznavour era tão mitológico que, além de compor em francês, compunha também em inglês, espanhol, alemão, italiano etc. e depois retraduzia pro francês! Há uns anos tenho o áudio em MP3 dessa versão francesa, mas quando fui procurar agora no YouTube pra adicionar a uma playlist pessoal, não achei de jeito nenhum. Como supus que tinha se tornado algo raro (como o próprio álbum de 76), decidi eu mesmo carregar com uma montagem e tradução próprias.

Quando Aznavour fala em slow na música, ele se refere à parte de uma festa ou baile em que, após a dança e curtições animadas e barulhentas, baixa-se o volume, diminui-se a luz e os casais se abraçam num bailado lento. Por isso traduzi slow apenas como “baile”: pelas imagens e pelo contexto geral (incluindo a melodia), dá pra se deduzir que é essa parte do baile, e não a festa toda. Na verdade, não é nem uma coreografia propriamente, mas um pretexto pra azaração e carícias... Vocês não conhecem a canção A raposa e as uvas, de Reginaldo Rossi, falando dos nossos “bailinhos” dos anos 50? “Lembro com muita saudade/Daquele bailinho/Onde a gente dançava/Bem agarradinho/Onde a gente ia mesmo/É pra se abraçar”. Atualmente, ainda é algo muito comum nas festas de 15 anos, que se tratam praticamente de uma iniciação social, amorosa e “libidinosa” dos adolescentes. Essa ocasião teve sua pintura maior na França em 1980, com o filme La Boum, que lançou a jovem Sophie Marceau, mas na Europa o slow como música é quase considerado gênero à parte.

Do próprio Charles Aznavour nem preciso falar, mas pros jovens que tão se iniciando na música internacional, aí vai um estímulo. Nascido Shahnourh Varinag Aznavourian (1924), de pais armênios que por acaso se instalaram em Paris, foi registrado com o prenome “Charles” por não entenderem o original e adotou o “Aznavour” quando começou a carreira artística aos 9 anos de idade. Fazendo sua estreia pública em 1956, consagrou-se como astro nos anos 80, e ao longo dos anos, além de ser cantor, compositor, ator e escritor, empreendeu várias ações beneméritas em prol da Armênia. O país do Cáucaso lhe tem dedicado várias homenagens, como estátuas e museus, e Aznavour mesmo é de religião cristã armênia. Na vida artística e pública, sempre tocou em temas societais polêmicos, e atualmente reside na Suíça. Seu maior sucesso, inclusive no Brasil, é She, que tem também a versão francesa, minha preferida, Tous les visages de l’amour.

Eu mesmo traduzi a canção direto do francês, montei o vídeo e legendei. Não posso dizer a fonte do áudio, porque há muito tempo o tenho, mas tenho dúvidas sobre se baixei do YouTube mesmo ou do 4shared. Eu copiei a letra original desta página, mas ela também segue abaixo, com minha própria divisão em versos e junto da legendagem que postei no canal Eslavo (YouTube) e da tradução em português. Já que as legendas são bilíngues, assistam ao vídeo duas vezes, lendo uma parte de cada vez! Nota importante: somente agora percebi que legendei errado, quando “Les violons nous ferons un tapis” devia ser “Les violons nous FERONT un tapis”. Desculpem pela falha:


____________________


Slowly, slowly
Nous ferons tout au long de la nuit
Le chemin de l’amour
Qui conduit
Du slow au lit

Slowly, slowly
Pas à pas et petit à petit
Nous irons corps à corps
Et sans bruit
Du slow au lit

Viens contre moi, viens
Et reste accrochée
Pour un instant doux et magique
Qu’ensemble on se laisse entrainer
Dans un océan de musique
De musique

Slowly, slowly
Les violons nous feront un tapis
Pour guider nos désirs réunis
Du slow au lit

Nous rentrerons
Tous deux au petit jour
Et nous ferons dans le silence
Les derniers gestes de l’amour
Qu’on se promet pendant la danse
Ah, la danse

Et slowly, slowly
Nous aurons mille jours, mille nuits
Pour aller corps à corps
Et sans bruit
Du slow au lit, oui
Pour aller corps à corps
Et sans bruit
Du slow au lit

____________________


Devagar, devagar
Faremos durante a noite toda
O caminho do amor
Que conduz
Do baile até a cama

Devagar, devagar
Passo a passo e pouco a pouco
Iremos corpo no corpo
E silenciosamente
Do baile até a cama

Venha até mim, venha
E fique abraçada
Num momento doce e mágico
Que juntos nos deixamos levar
Por um oceano de música
De música

Devagar, devagar
Os violinos nos farão um tapete
A guiar nossos desejos reunidos
Do baile até a cama

Nós voltaremos
Os dois ao amanhecer
E faremos em silêncio
Os últimos gestos do amor
Prometido durante a dança
Ah, a dança

E devagar, devagar
Teremos mil dias, mil noites
Para irmos corpo no corpo
E silenciosamente
Do baile até a cama, sim
Para irmos corpo no corpo
E silenciosamente
Do baile até a cama




27 de maio de 2018

Hino da Grécia no tempo dos coronéis


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/21abril


Enquanto buscava material sobre a ditadura da junta militar na Grécia de 1967 a 1974, liderada por Georgios Papadopoulos (principalmente discursos dele em grego), achei esta linda marcha por acaso. Depois, descobri que ela tinha sido o hino nacional no mesmo período, sendo que nem mesmo na Wikipédia grega, mas apenas em inglês, existe informação a respeito. A canção se chama “Ο Ύμνος της 21ης Απριλίου” (O Ýmnos tis 21is Aprilíou), Hino do 21 de Abril, data do golpe militar, como o 31 de Março no Brasil. A esse hino sucedeu-se o célebre Hino à Liberdade, usado várias outras vezes e ainda em vigor.

A letra é de Giórgos Oikonomídis, a melodia é de Giórgos Katsarós, foi composta no próprio ano de 1967 e quem está cantando é o grego Fotis Dimas. De fato, parece uma daquelas músicas ufanistas dos tempos de nossa ditadura, mas o conteúdo não fica devendo nada aos poemas soviéticos (Sol, corações, sorrisos, jovens, operários). A união “primeiramente com o soldado” mostra o caráter absolutamente militar do regime, que era considerado de extrema-direita, uma espécie de movimento protofascista e com membros simpatizantes de Hitler. Há até uma metáfora interessante: diz-se que “a estação do dia 21” se funde com “o próprio 21 de Abril”, ou seja, a primavera (na Europa) emociona junto com a suposta alegria pelo movimento golpista. De resto, como vemos, instrumentos e batida são bem gregos mesmo.

A Junta Militar Grega de 1967-1974 também é chamada simplesmente “Junta”, Regime dos Coronéis, A Ditadura ou Os Sete Anos, e marcou profundamente a história e a mentalidade da Grécia. De caráter cristão conservador e anticomunista, decorreu de uma crise política devida à falha em formar um governo parlamentar estável, ainda nos quadros da antiga monarquia. De 1970 a 1974, vigorou justamente essa bandeira com azul mais escuro, que vocês veem: a atual é de tom mais claro. O monarca seguiu como chefe simbólico até 1973, quando o coronel Papadopoulos proclamou a república e foi presidente ao longo desse ano. Ele também foi regente monárquico em 1972 e 1973 e primeiro-ministro de 1967 a 1973. Julgado, condenado à morte e passado à perpétua residencial, Papadopoulos morreu em 1999 e, pelo menos no YouTube, ainda parece dividir as opiniões dos gregos.

Esta foi minha primeira experiência de tradução direta do grego moderno, língua que estive aprendendo gradualmente. Baseei-me também na tradução em inglês que a Wikipédia oferecia, mas olhei palavra por palavra no Wiktionary, já que conheço a estrutura básica do grego. Eu mesmo montei o vídeo, usando uma transliteração que também é mostrada na Wikipédia, baseada ao mesmo tempo na ortografia e pronúncia originais. Vocês verão que nem sempre a cada som corresponde uma letra, pois também no alfabeto grego, as combinações “oi” e “ei” soam como um “i” simples, o “ai” soa como um “é” e o “ou” soa como um “u” simples. Além disso, o som real de “gk” é “nk”, e o de “nt” é “nd”. Notem ainda que o grego faz muitas elisões ou reduções de vogais, assim como na poesia de língua portuguesa.

Seguem abaixo a legendagem que postei no canal Eslavo (YouTube), a letra em grego e a tradução em português. Já que as legendas são bilíngues, assistam ao vídeo duas vezes, lendo uma parte de cada vez! Como brinde pra vocês, adicionei também a transliteração que eu tinha escrito pra pôr no vídeo:


____________________


Μέσα στ’ Απρίλη τη Γιορτή
Το Μέλλον χτίζει η Νιότη
Αγκαλιασμένοι – δυνατοί
Μ’ Εργάτη, Αγρότη, Φοιτητή
Και πρώτο τον Στρατιώτη,
Μ’ Εργάτη, Αγρότη, Φοιτητή
Και πρώτο τον Στρατιώτη.

(Mésa st’ Apríli ti Giortí
To Méllon chtízei i Nióti
Agkaliasménoi – dynatoí
M’ Ergáti, Agróti, Foitití
Kai próto ton Stratióti,
M’ Ergáti, Agróti, Foitití
Kai próto ton Stratióti.)

Τραγούδι αγάπης αντηχεί
Γελούν όλα τα χείλη
Και σμίγουν μέσα στην ψυχή
Του Εικοσι-ένα η εποχή
Κι η Εικοσι-μιά τ’ Απρίλη,
Του Εικοσι-ένα η εποχή
Κι η Εικοσι-μιά τ’ Απρίλη.

(Tragoúdi agápis anticheí,
Geloún óla ta cheíli
Kai smígoun mésa stin psychí
Tou Eikosi-éna i epochí
Ki i Eikosi-miá t’ Apríli,
Tou Eikosi-éna i epochí
Ki i Eikosi-miá t’ Apríli.)

Μες στις καρδιές φτάνει ζεστή
Του Απριλιού η λιακάδα
Κι έχουν στα στήθια μας χτιστεί
Θρησκεία, Οικογένεια
Και πάνω απ’ όλα Ελλάδα!
Θρησκεία, Οικογένεια
Και πάνω απ’ όλα Ελλάδα!

(Mes stis kardiés ftánei zestí
Tou Aprilioú i liakáda
Ki échoun sta stíthia mas chtisteí
Thriskeía, Oikogéneia
Kai páno ap’ óla Elláda!
Thriskeía, Oikogéneia
Kai páno ap’ óla Elláda!

____________________


Durante a Celebração do Abril
A Juventude constrói o Futuro
Abraçada, forte
Com o Operário, Fazendeiro, Universitário
E primeiramente com o Soldado,
Com o Operário, Fazendeiro, Universitário
E primeiramente com o Soldado.

Ressoa uma canção de amor,
Todos os lábios sorriem
E se fundem dentro da alma
A estação do dia Vinte e Um
E o próprio dia 21 de Abril,
A estação do dia Vinte e Um
E o próprio dia 21 de Abril.

Dentro dos corações chegam calorosos
Os raios do Sol de Abril
E estão edificadas em nossos peitos
A Religião, a Família
E acima de tudo a Grécia!
A Religião, a Família
E acima de tudo a Grécia!




25 de maio de 2018

Russos fazendo russice: a roleta russa


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/roleta




Daquelas coisas que parecem só acontecer na Rússia. Por vários meses, o caso teve repercussão nacional e gerou um rápido debate sobre o tipo de arma utilizada. Em 12 de dezembro de 2009, um jovem casal festejava em Astrakhan, cidade no sul da Rússia, a formalização das bodas no café “Aristokrat”. Os convidados estavam comendo, bebendo e se divertindo, até que Artur Dotsaiev, um amigo do noivo, chamou todos os homens à mesa principal pra conduzir um brinde especial. Ninguém tinha notado a pistola não letal em sua mão.

Eis que o convidado, no alto de sua esperteza, propôs que os varões fizessem uma “roleta russa”, como se percebe um mocinho falando: “Russkaia ruletka?”. O tamadá (vou explicar), o homem de camisa vinho com microfone, tenta impedir que Artur se dê um tiro na cabeça, mas ele acaba apertando o gatilho e nada acontece. Os poucos caras que seguiram começam o desafio, e o primeiro a pegar a arma é Sergei Fiodorov, outro convidado. Ele mal leva à arma perto da orelha, e num mínimo toque involuntário, dispara a bala! Os jornais dizem que foi toque mínimo, mas pelo que vi, Artur deu-lhe foi um tabefe na mão.

Sergei saiu de ambulância, e Artur, nascido na Tchetchênia, saiu de camburão, dando fim à alegre festa. O delito que ele cometeu poderia render-lhe 10 anos de prisão, enquanto o colega se encontrava em estado grave, dando trabalho aos médicos. Assim se informava nas primeiras notícias em dezembro de 2009 e janeiro de 2010, e então tive de pesquisar qual foi o desfecho da história. Em agosto de 2010, Artur foi logo julgado, mas o disparo foi considerado acidental, e o tribunal o absolveu, permitindo-lhe sair livremente já no fim da sessão. Mas Sergei, embora tenha sobrevivido, ficou inválido pra vida toda.

Achei o vídeo sem legendas muito por acaso, daqueles relacionados como memes antigos russos, mas encontrei vários desafios tradutórios na reportagem feita pelo canal NTV. Primeiro, o repórter fala numa travmaticheski pistolet, que de fato se traduz como “pistola traumática”, mas que diabo é isso? É uma espécie de arma não letal criada na Rússia nos anos 90, de fácil aquisição por civis. Ela é programada, com suas balas especiais, pra imobilizar rapidamente a vítima, mas não a matar. Isso, claro, se o tiro vem de longe, mas Sergei disparou na cara, ou seja, uma arma de fogo obviamente seria fatal. A atitude já idiota de Artur despertou ainda mais a ira dos russos comuns por ele ser tchetcheno: como um muçulmano comum na Europa Ocidental, foi logo alvo de preconceito e taxado de má companhia.

Abro um parêntese: alguns espectadores me alertaram pra diferença existente entre “revólver” e “pistola”, a qual infelizmente ignorei nas legendas. O primeiro tem um tamborete giratório de balas; a segunda, um cartucho inteiro, o que faz a famosa “roleta russa” possível apenas com o revólver. Perdão pela ignorância! Um rapaz até fez a seguinte zoeira: “Use pistolas num jogo para revólveres, só pode dar nisso.”

O segundo obstáculo foi tamadá. Segundo meu dicionário, que não traduz a palavra, trata-se de um “organizador de brindes”, mas tive de pesquisar mais no Google. A origem está na cultura georgiana, e numa festa grande ou pequena, é chamado pelos anfitriões pra puxar a cerimônia e, de fato, organizar os brindes (chamar a todos, recitar as fórmulas etc.), tendo nos inícios um papel moral muito importante. Hoje a função se banalizou, e mais parecida ao “mestre de cerimônias” ocidental, mas neste contexto podia ser também traduzido “animador” (que escolhi), “locutor” ou “orador”. Seu desafio é contar piadas, fazer jogos, criar um clima, mas não raro é desafiado pelos engraçadinhos, como vimos, que querem tomar seu papel de organizar brindes.

E enfim, o sledovatel, que o dicionário dá como “juiz de instrução”, mas que acabei verificando não existir na justiça brasileira, com seu papel de coletar provas dado à própria polícia. Assim, usei “investigadores” mesmo. Não vou citar fontes, porque fui caçando informações em diversas páginas russas. Felizmente, estava ativado o recurso do Google pra transcrição em texto, daí adaptei o que ia saindo ao que eu realmente escutava. Eu mesmo traduzi direto do russo, legendei, recortei o quadro e fiz umas montagens. Seguem a legendagem, que postei no canal Eslavo (YouTube), a tradução em português (sem as reduções exigidas pelas legendas) e a transcrição em russo:



Um vídeo enviado por um espectador de Astrakhan não deveria estar no ar. A filmagem privada que lembraria o casamento tornou-se o roteiro dramático que embasa um processo criminal: um dos convidados de repente saca um revólver. Come-se e bebe-se no restaurante em festa. Um tanto animado, um amigo do noivo leva os homens para um brinde. Nem todos notam a pistola não letal em sua mão. O animador tenta pará-lo, mas explicam-lhe que é um simples gesto bonito. O homem feriu-se gravemente e os médicos ainda lutam para salvar sua vida. Por que a pistola disparava? Seu dono de 38 anos, nascido na República da Tchetchênia, falhou em explicar. Afirma que havia tirado as balas, mas os investigadores não acreditaram. O amante das felicitações originais aguarda julgamento.

Видео, которое прислал наш зритель из Астрахани не должно было попасть в телеэфир. Снимали это на свадьбе для себя на память, теперь драматичные кадры – улика в уголовном деле: один из гостей неожиданно достал пистолет. Отмечают в кафе, гости выпивают и закусывают. Небольшое оживление, друг жениха водит произносить тост. Не все замечают травматический пистолет в его руке. Тамада пытается остановить, но ему объяснают: это просто красивый жест. Ранение очень тяжёлое, врачи до сих пор борются за жизнь мужчины. Почему пистолет выстрелял? Его владелец, 38-летний уроженец Чеченской республики, объяснить не смог. Утверждает, что извлёк все патроны. Следователи не поверили. Любитель оригинальных поздравлений ждёт суд.

23 de maio de 2018

Merkel fala em inglês (Parlamento, UK)


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Perambulando pelo YouTube, este foi mais um vídeo que achei bem por acaso, e que por causa de sua facilidade e brevidade, também resolvi legendar. Trata-se da chanceler (primeira-ministra) alemã Angela Merkel num dos trechos de seu discurso às duas casas do Parlamento do Reino Unido (a Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns), na visita de um dia ao país em 27 de fevereiro de 2014. Existe na internet o texto do discurso inteiro em inglês, mas apenas a primeira e a última página, mais ou menos, foram realmente faladas nessa língua. O vídeo sem legendas, que baixei, contém a transcrição, mas informa erroneamente que a visita foi em 28 de fevereiro.

Como se vê, face à crise econômica e de refugiados, já esquentavam as discussões sobre o Brexit, ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia. Sabemos que em 2016 um referendo aprovaria o desligamento, causando uma crise no governo conservador de David Cameron. Na visita de Merkel, ele aparece logo à frente do público, à direita, de gravata roxa. Ao seu lado estão Nick Clegg (gravata dourada), então líder dos Liberais Democratas, e Ed Miliband (gravata azul), chefe do Partido Trabalhista. Nenhum dos três atualmente comanda suas respectivas legendas, e hoje o governo conservador encabeçado por Theresa May (que assumiu logo após o Brexit) lida com problemas de confiança, terrorismo e imigração.

Angela Merkel sempre foi vista como a mulher forte da UE, por causa da desproporcional preponderância política e econômica da Alemanha sobre o bloco, tanto que ela foi recentemente reeleita pra chancelaria. Mas o acolhimento dos refugiados africanos e asiáticos pelo seu governo, considerado excessivo, abalou-lhe a confiança e tornou mais difícil formar um governo em 2018. As desavenças entre os parceiros europeus, várias delas voltadas contra os alemães, também são muitas, e o futuro da União, assim como da democracia representativa, está sendo posto em cheque.

Nesta parte do discurso em inglês, Merkel fala justamente, com sua típica sinceridade, que não era o caso nem de remodelar a UE ao bel-prazer dos britânicos, nem de dar um aviso coletivo de que eles poderiam sair à vontade. Sabemos que fim levou a história, e quem paga o preço não é o continente, mas o Reino Unido. A rápida visita incluiu também conversas privadas com David Cameron e um chá com a rainha. Eu mesmo traduzi direto do inglês e legendei, e seguem abaixo minha legendagem no canal Eslavo (YouTube), a transcrição em inglês e a tradução, sem as reduções exigidas pelas legendas:



I have been told many times during the last few days that there are very special expectations of my speech here today. Supposedly, or so I have heard, some expect my speech to pave the way for a fundamental reform of the European architecture which will satisfy all kinds of alleged or actual British wishes. I am afraid they are in for a disappointment. I have also heard that others are expecting the exact opposite and are hoping that I will deliver the clear and simple message here in London that the rest of Europe is not prepared to pay almost any price to keep Britain in the European Union. I am afraid these hopes will be dashed, too.

Nestes últimos dias, ouvi de muita gente que havia elevadas expectativas quanto a este meu discurso de hoje. Suponho, ou ao menos ouvi, que alguns esperam que ele abra a via para uma profunda reforma do edifício europeu, a qual satisfaria todo tipo de desejo suposto ou real dos britânicos. Temo que eles vão se decepcionar. Ouvi também que outros aguardam exatamente o oposto, esperando que eu dirija a clara e simples mensagem, aqui em Londres, de que o resto da Europa está pouco disposto a pagar o preço de manter o Reino Unido na União Europeia. Receio que também essas esperanças se esvairão.

21 de maio de 2018

Inezita: marvada pinga, marvada vodca


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Uma das minhas criações mais inusitadas, mas que mais esperei pra fazer. A descrição do vídeo no meu canal Eslavo (YouTube) está toda em russo, por isso aqui no blog estou a repostando traduzida, com mais algumas informações que acrescentei. Esta célebre “moda de viola” foi eternizada na voz de Inezita Barroso, sob o título Marvada pinga, embora muitos outros também tenham gravado, sob outros nomes. A um russo, o nome mais famoso não passaria de uma “Злая водка” (Zlaia vodka), mais literalmente uma Vodca maldosa. Ambas as bebidas destiladas ocupam o mesmo lugar nas respectivas culturas.

Na Rússia deve-se aprender que a pinga, também conhecida como “cachaça”, “caninha” e “aguardente”, entre outros nomes, não é feita de cereais, mas da cana de açúcar. É uma planta cultivada em sua maioria no estado de São Paulo, lugar onde justamente mais se bebe pinga no Brasil e onde foi composta nossa referida canção. Outro nome com que é conhecida é Moda da pinga, a um russo Canção sobre a vodca. Mas tendo sido composta por Ochelsis Laureano, foi gravada pela primeira vez por Raul Torres em 1937, em faixa chamada Festança no Tietê. A versão mais famosa viria na voz de Inezita em 1954, e a partir daí surgiram as inúmeras regravações.

Nesta filmagem, Inezita Barroso está cantando na edição de 19 de fevereiro de 1982 do programa Viola Minha Viola, o qual ela mesma apresentou de 1980 a 2015, ano de sua morte. Mas eu mesmo não sei quem estava apresentando nesse dia, e o vídeo sem legendas é uma versão abreviada e melhorada de uma outra gravação disponível no YouTube. Eu mesmo traduzi “literalmente” (as aspas se devem às inquebráveis barreiras regionais!) o texto da música do português “caipira” pro russo padrão e pus as legendas.

Vocês devem imaginar que não é fácil levar a cabo tal iniciativa transcultural, tentando passar aos russos ou aos falantes da língua russa uma noção do estilo sertanejo de raiz, sua linguagem e sua temática. Pra mim, o que facilitou foi o fato de eu viver desde os seis anos de idade no interior de São Paulo, por isso estou bastante familiarizado com o jeito como o pessoal fala “no sítio”. Mas muitas palavras do próprio poema me eram desconhecidas, seja por diferença regional, seja pelo modo muito peculiar de dicção. Nem preciso reproduzir de novo a letra em português, tão conhecida por muitos, embora eu lhe tenha dado uma redação mais “decente” no YouTube.

Portanto, seguem abaixo apenas o vídeo legendado e a transcrição do texto em russo. Pra quem está aprendendo uma língua estrangeira, sugiro que faça com frequência esses exercícios de versão (da língua materna pra língua estrangeira), porque nos ajudam a pesquisar sobre os “modos de dizer” em outros idiomas, já que o palavra por palavra é sempre impossível. As canções têm a vantagem de ser textos curtos, muito consumidos no mundo todo e, por sua linguagem em geral figurada, nos ajuda a tentar entendê-la e explicá-la em outra língua!


____________________


Злой водкой я растеряюсь,
Вхожу в лавку и уже запиваю,
Беру стакан и оттуда не выхожу,
Там же пью, там же падаю.
Трудно только унести меня,
Ой ла...

Я ухожу из города и уже пою,
Ношу бутылку, которую сосаю,
Иду спотыкаясь по дороге
Ударю овраги головой, кривлю ноги
И куда падаю, там уже засыпаю,
Ой ла...

Муж сказал мне, он просил меня:
«Будь добра, броси пьянство».
Никогда не уважаю мужского совета,
Пью под солнцем, чтоб охлаждаться
И пью вечером, чтоб согреваться,
Ой ла...

Каждый раз я падаю различно:
Хочу назад, падаю вперёд,
Падаю медленно, падаю внезапно,
Верчусь при падении, падаю прямо,
Но из-за водки падаю весело,
Ой ла...

Я беру бутылку и качаю её,
Чтоб проверить, полна ли же она.
Допивать сразу считаю неприличным:
Первым глотком, половину бутылки,
Только вторым осушаю бутылку,
Ой ла...

Я пью водку, ведь мне нравится,
Пью белую или жёлтую водку,
Пью стаканом или чашкой
Или приправленную гвоздикой и корицей.
При любой погоде, водку из горла,
Ой ла... Эх, злая водка!

Я пошла на вечеринку на берегу реки Тиете,
Туда пришла на рассвете,
Сразу мне дали водку, чтоб пить,
Сразу мне дали водку, чтоб пить:
Не была кипячена!

Я слишком много пила, опьянела,
Упала на землю и там лежала
И вернулась домой под руку,
Под руку с двумя полицейскими,
Ой, большое спасибо!




19 de maio de 2018

Dois modos de ver a juventude da RDA


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Eu traduzi, legendei e postei no meu canal Eslavo (YouTube) esses dois vídeos em momentos diferentes, mas decidi abordá-los na mesma postagem, porque falam de um assunto semelhante. O primeiro vídeo achei por acaso, decidi procurar o texto e encontrei tanto a descrição da parte que Margot Honecker pronuncia quanto informações sobre o contexto do evento. Margot Feist se casou em 1953 com Erich Honecker, líder da Alemanha Oriental (RDA, ou DDR) de 1971 a 1989, e foi Ministra da Educação (praticamente por uma era geológica) de 1963 a 1989, quando o marido foi deposto. Ela nasceu em 1927 e morreria exilada em Santiago do Chile, em 2016.

Legendei um pequeno trecho de seu discurso na abertura do 9.º Congresso de Pedagogia da RDA, em 12 de junho de 1989. Segundo Margot, a educação escolar e familiar deveria reforçar sua orientação socialista. Contudo, Anna Saunders escreve em seu livro Honecker’s Children: Youth and Patriotism in East(ern) Germany, 1979-2002 (p. 5 do capítulo 3) que até aquela época, mais de 400 sugestões foram enviadas por cidadãos comuns e opositores com pedidos de reformas. Mas apesar do congresso ter tocado na questão da liberalização do sistema, pouco foi feito pra pôr isso em prática, e a Sr.ª Honecker, como vemos, reafirma a orientação marxista-leninista do currículo. Apenas com a ascensão dos protestos de massa seriam removidos os conteúdos mais abertamente partidários e patrióticos, e a renúncia de Margot, em 2 de novembro, pareceu abrir uma nova era no ensino. Mesmo assim, uma enxurrada de cartas continuaria aumentando pro Ministério da Educação no fim de 1989 e começo de 1990.

Vejam que texto sugestivo. Ironicamente, o Muro de Berlim logo ia cair. Já que hoje se cria tanta celeuma em torno da batida “pedagogia do oprimido” de Paulo Freire, e já que tivemos a “pedagogia da cinta” do jornalista Luiz Carlos Prates, parece que Tia Margô dá uma prévia da política que Trump quer seguir na educação: a pedagogia do rifle. Não é mágico? “Uma arma para cada aluno”, na linguagem do marketing tucano paulista. O interessante é que, analisando o “debate” partidário atual no Brasil, a nova pedagogia podia ter duas interpretações:

1) “Mortadela” “petralha” Lula: Tem que pegar em armas contra a burguesia mesmo. Já tínhamos que ter nos oposto ao golpe de 2016 com a força das armas. Reformismo e esquerdismo soft não dá, tem que ter tiro, porrada e bomba pra fazer a revolução!

2) “Coxinha” “reaça” Bolsonaro: Agora sabemos que o PT se inspira nos países comunistas pra aparelhar as escolas e fazer as crianças defender esse sistema. Eles querem transformar o ensino numa fonte de baderna e num diretório partidário. Os socialistas defendem a violência, mesmo por crianças, em todos os âmbitos!

Da “pedagogia do rifle” à “pedagogia da picaretagem”, a presente chanceler alemã Angela Merkel, em rara entrevista, participou de uma conversa com Günter Gaus em 1991, na gravação, talvez, de algum documentário sobre a recém-extinta RDA. Ela diz que a maioria dos jovens que participavam da FDJ (a juventude comunista oficial) nem ligava pra ideologia. Quase não se fala nada neste trecho, mas ele é revelador por causa da sinceridade e do estágio físico em que estava uma pessoa hoje célebre no mundo inteiro. Merkel, hoje filiada à democracia cristã, nasceu e cresceu na antiga Alemanha comunista e diz que sempre ia mal nas aulas de marxismo-leninismo, mas não nas de língua russa, a qual domina até hoje.

A transcrição e mais algumas informações sobre a fala de Honecker estão nesta página, e entre colchetes está um trecho do mesmo parágrafo que não aparece no vídeo. Na busca, achei por acaso um equivalente ao TCC defendido em alemão na Suíça, sobre a educação profissional e patriótica na RDA. Do vídeo com Merkel eu apenas eliminei um trecho e reenquadrei, e uma transcrição em alemão pode ser lida nesta postagem do Facebook. Eu mesmo traduzi os textos diretamente do alemão e legendei, seguindo abaixo as legendagens, as falas originais e as traduções mais ou menos literais em português:



[Noch ist nicht Zeit, die Hände in den Schoß zu legen,] unsere Zeit ist eine kämpferische Zeit, sie braucht eine Jugend, die kämpfen kann, die den Sozialismus stärken hilft, die für ihn eintritt, die ihn verteidigt mit Wort und Tat und, wenn nötig, mit der Waffe in der Hand.

[Ainda não é hora de cruzar os braços.] Nós estamos num tempo de combate, ele demanda uma juventude que saiba lutar, que ajude a reforçar o socialismo, que o conserve, que o defenda em atos, palavras e, se preciso, de armas nas mãos.



Ich war gern in der FDJ, muss ich sagen, aus einer Unterbetätigung in der FDJ, dass man nämlich in Seminargruppen, unter jungen Leuten im Institut, auch Dinge unternommen hat, die mit dem System und seiner Ideologie eigentlich wenig zu tun hatten. Das will ich zugeben. Aber ansonsten war’s auch 70% Opportunismus, natürlich.

Posso dizer que gostava da FDJ, que tendo atuado pouco na FDJ, também se faziam coisas, sobretudo nas monitorias, entre os jovens da faculdade, que quase nada tinham a ver com o sistema e sua ideologia. Quero admitir isso. Mas por outro lado, havia também obviamente 70% de oportunismo.

17 de maio de 2018

“As andorinhas” – esperanto e francês


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No dia 2 de fevereiro de 2016, traduzi pro esperanto a famosa canção sertaneja As andorinhas, composta pelos brasileiros Rossi, Alcino Alves e Rosa Quadros e gravada pelo Trio Parada Dura em 1985. No dia 3 seguinte, traduzi-a também pro francês, e depois eu mesmo gravei. Nos dois vídeos que carreguei no canal Eslavo (YouTube), coloquei duas legendas: a tradução em esperanto ou francês e a letra original em português. As duas traduções são poéticas, e não literais, mas o sentido ficou praticamente igual. Neste vídeo pode-se escutar a gravação original do Trio Parada Dura.

La 2-an februaro 2018 mi tradukis ĉi tiun konatan kanzonon, La hirundetoj, lanĉitan de la Trio Parada Dura (1985), de la portugala lingvo al Esperanto, kaj poste mi mem gravuris ĝin per mia voĉo. Ĝi estis komponita de la brazilanoj Rossi, Alcino Alves kaj Rosa Quadros. Mi enmetis du subtekstojn: mian Esperantan tradukon kaj la originalan tekston en la portugala. La traduko ne estas laŭlitera, sed la signifo restis preskaŭ tute egala. Brazila versio en ĉi tiu video.

Le 3 février 2018 j’ai traduit cette célèbre chanson, Les hirondelles, lancée par le Trio Parada Dura (1985), du portugais vers le français, et puis moi-même l’ai enregistrée de ma voix. Elle a été composée par les Brésiliens Rossi, Alcino Alves et Rosa Quadros. J’ai mis deux sous-titres sur la vidéo : ma traduction française et les paroles originales en portugais. La traduction n’est pas littérale, mais le sens est presque totalement resté le même. Version brésilienne dans cette vidéo.

La hirundetoj revenis,
Revenis ankaŭ mi
Sidiĝi sur la nesto
Lasita tie ĉi.

Ni estas hirundetoj,
Ni iras, ni venas
En serĉo por am’.

Kelkfoje lacaj revenas,
Doloro ĉirkaŭprenas,
Sed hejme reflugas,
La brakoj korpon skurĝas
Kun granda dram’.

Mi, kiel hirundeto,
Revante forflugis,
Sed estis pere’:

Revenis tre malfeliĉa,
Jen laŭ saĝo riĉa
Unu hirundeto
Sunbrilan printempon
Alportas ne!




Les hirondelles reviennent,
Et je reviens aussi :
Retour au nid des proches
Laissé longtemps ici.

Nous sommes des hirondelles
Qui viennent et qui vont
Pour détendre le cœur.

Mais quelquefois la fatigue
Nous blesse, fustige
Et on bat les ailes
Vers la maison réelle
Avec douleur.

Et comme une hirondelle
J’ai suivi mes rêves,
J’ai fui vainement :

Rentrée gonflée de tristesse,
Car dit la sagesse :
L’hirondelle qui vole
Toute seule ne bricole
Aucun printemps !




15 de maio de 2018

Jdun, boneco Homunculus loxodontus


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O Homunculus loxodontus é uma estátua criada pela artista plástica holandesa Margriet van Breevoort, originalmente colocada no Centro Médico da Universidade de Leiden (Holanda) na primavera de 2016. A intenção da autora era que a obra simbolizasse o sentimento daqueles que esperavam por uma consulta médica, mas ao ser acessada pela primeira vez por russos em fevereiro de 2017, o destino da foto online acabou sendo outro. Na Rússia, o personagem virou um meme de internet muito popular e difundido, aí rebatizado de “Ждун” (lê-se “jdúnn”), que vem do verbo zhdat (esperar, aguardar), aparecendo nas mais diversas montagens humorísticas. Também viralizou na Ucrânia (onde foi chamado Pochekun), Belarus (onde virou Pachakun) e outros países vizinhos. Podemos transliterar “Zhdun” ou “Jdun”.

Neste vídeo curto que baixei sem legendas do canal russo IQ Trading, com variedades e curiosidades da internet, há uma breve história do meme Jdun, mostrando várias imagens e outras coisas sobre a origem na Holanda. Em outras mídias, explica-se o sucesso do personagem pelo papel que ocupam a espera e as filas nas culturas russa e ucraniana, algo nada estranho ao brasileiro comum. Mas na Rússia, esse cenário é temperado pelo atávico autoritarismo estatal, que sempre gerou sátiras geniais e também deixa a internet como o único meio de expressão e protesto, e pela atual crise econômica e social no país, ante o baixo preço do petróleo e as sanções do Ocidente.

Aliás, 2018 foi ano de eleições presidenciais, e como no Brasil, os pró e contra Putin se arranhavam nas redes sociais quando postei a legendagem no canal Eslavo (YouTube); os segundos diziam que seus gastos militares dilapidaram o investimento previdenciário e social. Por isso, mais do que representar a eterna espera por apartamentos, bens de consumo e vagas diversas na era soviética, o Jdun satiriza pra muitos uma espera por mudanças do atual cenário, seja no modo de vida, seja dos políticos no poder (um tanto frustrada pela reeleição de Putin). Eu mesmo traduzi e legendei, usando a ferramenta de leitura automática do YouTube pra saber o que o narrador estava falando.

Abaixo estão as legendas, seguidas pelo texto da fala traduzido em português. No vídeo, eu adaptei um pouco pra facilitar a leitura, mas sem prejudicar o sentido; apenas não transcrevi novamente o original russo, porque traduzi diretamente enquanto lia o texto no YouTube:


____________________


Olá a todos! Vocês estão no canal IQ Trading, eu sou Valentin Krokodil.

Certamente em muitas redes sociais vocês viram essa imagem: uma estranha criatura como misturando um inseto e um elefante, sentada num banco e esperando por alguma coisa. Chamado popularmente de “Jdun”, quem é ele? Por que virou um meme? Quem o inventou? Vou agora responder a essas perguntas!

O Jdun é a foto de uma escultura da artista holandesa Margriet van Breevoort, que a criou pra Universidade de Leiden, na Holanda, e chamou-a de início “Homunculus loxodontus”, uma mistura de inseto e elefante. É um ser esquisito, sem pernas, com mãos humanas e olhos de elefante marinho.

Os internautas deram à escultura seu nome “Jdun”, que pegou perfeitamente. A intenção da artista era assentar o Jdun no banco em frente ao hospital infantil, dedicando sua obra aos pacientes que aguardam a consulta. Essa escultura está no Centro Médico da Universidade de Leiden.

Os habitantes da Rússia e países vizinhos curtiram na hora a incomum figura e começaram a usar sua imagem em diversas situações reais: o Jdun espera na fila do médico, arranja um trabalho... Hoje se podem encontrar na internet dezenas de montagens com a imagem do Jdun nos mais variados cenários cotidianos.

A estranha criatura se tornou de pronto a heroína de brincadeiras de humor gráfico e de memes demotivators, pois ela é tão meiga e incomum! São muitos os personagens assim em nossa vida real, e o Jdun absorveu todos os seus melhores traços.

Dê seu like, inscreva-se no canal e compartilhe o vídeo!



13 de maio de 2018

Dilma de novo: espanhol ou ibero-mix?


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Dilma Vana Rousseff (por enquanto) já é página virada de nossa história. Concordemos ou não com sua ideologia e governo, nossos conflitos e desafios agora são outros. Ela deixou sua marca por ter sido a primeira presidenta de nossa história política tão machista, mulher filha de búlgaro, preocupada com causas sociais e não vinculada às elites econômicas. Porém, centralista, de caráter teimoso e vínculos eleitorais duvidosos, permitiu que fatores de outra forma domináveis jogassem o Brasil numa das maiores crises econômicas de sua história. Por outro lado, o que mais fez sua celebridade na internet foi sua escassa capacidade (menor até que a de Lula) de conduzir longos discursos articulados e colocar rapidamente as ideias em ordem pra se expressar. Acredito que isso foi fatal pra ineficácia de sua defesa durante o processo de impeachment. Mas no exercício do mandato, rendeu enorme zoação por parte dos internautas, com direito a memes e elaboradas montagens. Após sua destituição, decidiu não parar e rodou o mundo pra denunciar os supostos “complôs” contra ela, o que a direita batizou ironicamente “turnê do golpe”.

O brasileiro, povo irônico e zoeiro, não a perdoou nem mesmo no (a não ser que realmente se candidate ao Senado por MG) post-mortem político. As tentativas de Dilma de articular línguas estrangeiras, já se sabendo de seus problemas com o próprio português (carregado, aliás, das origens mineiras), geraram muitos vídeos escarnecedores e constrangedores. Um deles, pelo menos uma parte, eu cheguei a legendar por ocasião de sua visita à Suíça, transcrevendo um francês muito enferrujado, mas não tive a intenção de ofendê-la ou criticá-la. Como alguns professores explicaram, o francês é idioma que ela conhece relativamente bem, mas deve não ter treinado por longos períodos. Contudo, os vários vídeos em que ela aparece afirmando falar espanhol revelam uma atitude desnecessária: ao invés de ter assumido um evidente desconhecimento do idioma, fez uma mistureba de elementos castelhanos dentro da estrutura geral do português, gerando um idioleto que não mereceria nem mesmo a dignidade do nome “portunhol/portuñol”. Mesmo o decadente vampiro Michel Temer tem em geral a humildade de se valer de intérpretes, assumindo sua monoglossia e não fazendo papel ridículo.

Uma palavra aí pronunciada pode ser a chave pra explicar sua atitude: CEPAL. Ao contrário dos economistas de orientação liberal, centrados na realidade e produção dos países anglo-saxões, a escola de economia latino-americana tão influente nas esquerdas brasileiras deve ter levado Dilma a ler passivamente muitos textos em espanhol (e, por que não, também falar com hispanófonos condescendentes, ouvir músicas e assistir à TV na língua). Ela devia entender, mesmo sem ter estudado o idioma a fundo (com gramáticas, conversação, cursos etc.), mas na hora de falar, por isso mesmo travou toda. Se é que travou, porque tenho a impressão que ela criou deliberadamente essa embromação, não sei se por exibicionismo ou zoeira. O fato de ter sofrido impeachment e estar com possível impressão de “não dever nada a ninguém” deve ter reduzido a inibição. Eu, pelo menos, não posso confirmar se ela teve ou não aulas de espanhol, mas a “língua” dela nem tem estrutura, mesmo pro nível iniciante (e ela já é idosa!).

Como eu disse, minhas postagens sobre a Dilma não têm caráter partidário ou ofensivo, e até me senti constrangido ao ter de retirar as marcas de grupos reacionários dos vídeos que coletei (nem por isso deixo de citar as fontes). Já que muita gente me pergunta, relembro que votei nela duas vezes, mas me arrependo: em 2010 foi esperança de sobriedade, e em 2014 foi falta de opção (e em 2018, nem sei o que vai ser!), mas a teimosia e a desordem da “gerentona”, além da fraqueza ante a oposição que ela rotulou de “golpista”, me desiludiram. Sou de “esquerda em geral”, mas não me identifico com um partido específico, nem com os leninismos (Stalin, Mao, Hoxha etc.) em geral, ante os quais tenho uma postura bem crítica, mas tento entender objetivamente, como historiador. Mas não gosto de reclamar à toa ou ofender, e vejo no humor uma forma de expiarmos nossas mazelas. Esses vídeos da Dilma são mesmo humorísticos, mesmo não tendo sido essa a intenção dela; quem sai na chuva é pra se molhar, e eu apenas tentei transcrever seu idioleto com a ortografia do português, sem acrescentar nada. Isso aí eu não diria nem que é “portunhol” ou “espanguês”, mas uma espécie de falar ibero-romance indefinido que resolvi designar ibero-dilmês.

Em resumo, é uma variante ibérica do que eu chamaria, ao modo da linguística estruturalista, de sistema “dilmês” pra articular as ideias. Talvez uma chave pra entender seu romanesco esteja na chamada Interlingua de IALA. Eu organizei as falas não por ordem cronológica (tem coisas de antes e depois da deposição), mas de duração, e no final o discurso em Sevilha (Espanha) tem outra parte, transcrita por Augusto Nunes, que não incluí (e outras ainda devem não ter sido publicadas). A segunda parte da fala da repórter chilena do jornal El Mercurio só pude entender consultando uma transcrição parcial. O resultado dessa salada está no meu canal Eslavo (YouTube), e estes foram os vídeos-fonte, na ordem em que legendei:

http://youtu.be/v_er1ItkSws
http://youtu.be/lf3BWAr-joY
http://youtu.be/47sOJacJCzI
http://youtu.be/5_Q9Gm6b-3w
http://youtu.be/o8pi2d1YopU
http://youtu.be/5L7eKB3f9Ps




11 de maio de 2018

As melhores canções de Vice Vukov (2)


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Nesta postagem, estou continuando a publicação de minhas traduções e legendagens do cantor croata Vice Vukov, pouco ou quase nada conhecido no Brasil. Enquanto no começo da semana postei canções gravadas em estúdio, hoje mostro aqui duas gravações ao vivo muito especiais. A antiga Iugoslávia sempre foi celeiro de grandes talentos musicais, sobretudo cantores, com destaque pras repúblicas da Croácia e da Bósnia e Herzegóvina, mesmo havendo bons nomes sérvios, como Zdravko Čolić. Os dialetos daquelas duas regiões são muito parecidos, e a pronúncia peculiar torna a musicalidade muito bonita. Além disso, o que vale especialmente pra Croácia e seu extenso litoral no Adriático, os iugoslavos sempre foram influenciados pela Itália, por si só uma potência cultural mundial.

Após me dar conta, no começo deste ano, do lixo que está inundando nossa música brasileira atual (e o YouTube, com os haters histéricos que só fazem replicar esses lixos), até mesmo meu querido sertanejo com boçais que gritam, decidi criar uma resistência. Não sou hater, não sou lambe-saco, por isso minha resistência é silenciosa, cultural e produtiva. Comecei a legendar pérolas musicais do mundo eslavo que quase ninguém no Ocidente, sobretudo no Brasil, veio a conhecer profundamente. Por meio desta iniciativa, que batizei Momento da Música Boa, quero que vocês conheçam coisas novas, mesmo que cronologicamente antigas. Porque não existe nada mais revolucionário do que o conhecimento e sua difusão. Em fevereiro conheci por acaso o cantor croata Vice Vukov, que possuía voz comparável, aqui, apenas a Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol e Agnaldo Timóteo. Apresento hoje as quatro primeiras canções dele que traduzi.

Vinko Vukov, mais conhecido como Vice Vukov (1936-2008), ganhou fama instantânea em 1959 e durante os anos 60 se tornou um dos mais célebres cantores da Iugoslávia. Esteve no concurso Eurovision em 1963 e 1965, mas em 1972 teve sua carreira nacional interrompida por ter sido associado ao movimento nacionalista croata de protesto. Só em 1989 circulou um novo álbum seu sem assinatura, e com o fim do comunismo Vukov pôde retornar triunfalmente aos palcos. Foi eleito deputado federal em 2003, mas em 2005 sofreu uma queda que lhe feriu a cabeça e o deixou em longa agonia.

As duas canções que postei no canal Eslavo (YouTube) são U duši s tobom (Minha alma está com você), uma forte declaração de amor incondicional, e Zvona moga grada (Os sinos da minha cidade), que narra as belezas do litoral da Croácia. Como outras músicas cantadas por Vukov, essas duas têm letra de Drago Britvić e melodia de Zvonko Špišić, dois caras que o acompanharam ao longo de toda a carreira. Britvić (1935-2005), poeta, jornalista e letrista croata, foi um dos mais famosos autores de letras pra festivais musicais. Formado em língua e literatura croata em Zagreb, alternava entre seu trabalho no rádio e nos jornais e a escrita de poesia e letras musicais populares. Tendo lançado seu primeiro livro em 1993, também produziu musicais, escreveu roteiros e publicou libretos de ópera. Špišić (1937-2017), também croata, foi cantor, compositor, letrista e artista plástico, que como autodidata em música, exerceu várias profissões. Mesmo assim, presidiu a Sociedade dos Compositores Croatas, ainda nos anos 70 foi parlamentar e recebeu vários prêmios nacionais e um polonês. Lançou três livros com as letras de suas canções. Nasceu e morreu em Zagreb, a capital da Croácia.

U duši s tobom é uma das mais emocionantes que já legendei de uma língua eslava, e fala de uma pessoa que percorre um longo caminho na tempestade fria pra encontrar a quem ama, mas cuja alma e “canções” já teriam chegado ao destino. Na poética terceira estrofe, a fumaça e a luz da casa a que se vai são a indicação de que o caminho está certo, como faróis, boias e ancoradouros no mar. Não há referências de gênero no poema, então os papéis do homem e da mulher são permutáveis, e podem ser até dois meninos ou duas meninas... O vídeo sem legendas deve ser de meados pra frente nos anos 90, e o programa da TV croata se chama Crno-bijelo u boji (Preto e branco em cores), exibido de 1992 a 2005 e que era especializado em mostrar vídeos antigos da Croácia, exibir séries e documentários e receber músicos e cantores.

No ano de 1970, Vice Vukov venceria com Zvona moga grada a edição do célebre festival musical de Split (vídeo sem legendas), localizada na Croácia (então parte da antiga Iugoslávia), quando se destacou a participação do italiano Sergio Endrigo com a canção Kud plovi ovaj brod, também cantada aí pela croata Radojka Šverko. Na ocasião, Endrigo gravou um compacto com essa música no lado 1 e com Više te volim no lado 2, a qual, por sua vez, Vice Vukov também interpretou no festival. O Festival da Canção Popular de Split, realizado desde 1960, é famoso ainda hoje por lançar as grandes estrelas da música croata, e Vukov também o venceu de 1965 a 1968.

Eu mesmo traduzi as duas letras direto do croata (que é uma variante específica do sistema “servo-croata” mais geral), com ocasional ajuda das referidas traduções russa e inglesa no caso de Zvona moga grada, e após ter recortado os enquadramentos, legendei os vídeos. Na descrição deste vídeo está o texto de U duši s tobom em que me baseei, e nesta página podem-se ler a letra em croata e as traduções em inglês e russo de Zvona moga grada. Está disponível ainda um breve texto em croata sobre o programa Crno-bijelo u boji.

É muito nítido, por exemplo, em Zvona moga grada o caráter croata da linguagem, como nas palavras com a variante ijekavica, que usa “(i)je” no lugar do “e” (vjenčanja, vječna, gnijezda, zvijezda, bijeli, čovjek, kolijevki), palavras típicas do dialeto local (glazba, música; povijest, história) ou palavras que designam a realidade local (trabakul, barco de carga e pesca, chamado trabaccolo em italiano; gromača, grande muro de pedras encaixadas sem cimento; kolonada, colunatas, ou colunas enfileiradas num pórtico ou corredor). Abaixo estão minhas legendagens, seguidas pelos respectivos poemas em croata (às vezes corrigidos pra alinhar-se a como Vice Vukov canta, ou com quebra de linha e pontuação adaptadas por mim) e traduções em português:


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1. Već divlje guske
Lete iznad brijega,
Nad pustim poljem
Već se magle dime.
Nek’ ode s jatom
Tko se boji snijega,
A ja ću s tobom
U magle i zime.

2. Prostranstva plava,
Divlje guske lete,
Za suncem juga
Vuku ih daljine.
A ti se ne boj.
Nek’ nas snijeg zamete.
Ja za te čuvam
Dovoljno topline.

Pripjev:
U duši s tobom,
Od života jači,
Pa nek’ mi, stoput,
Snijeg zamete trag.
Dok može srce
Pravu stazu naći,
Pjesme će moje
Stići na tvoj prag.

3. Ko svjetionik,
Sidrište i bova,
Na mom su putu
Vredniji od zlata,
Taj pramen dima
Iznad tvoga krova,
Ta mrva svjetla
Ispod tvojih vrata.

(Opet strofa 1)

(Pripjev)

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1. Os gansos selvagens
Já voam pelos montes,
Sobre o campo vazio
Já sobem as névoas.
Siga o curso do vento
Aquele que teme a neve.
Prefiro estar com você
Faça frio, faça neblina.

2. Nas vastidões azuis,
Gansos brutos voam
Além do Sol do Sul
Para longe do lobo.
Não fique com medo.
Pode nevar sobre nós.
Eu vou te proteger
Com bastante calor.

Refrão:
Minh’alma está contigo,
Mais forte que a vida,
E que a neve cubra
Cem vezes meu rastro.
Até que meu coração
Encontre a trilha certa,
Minhas canções vão
Chegando até seu lar.

3. Como o farol, a boia
E o ancoradouro
Em meu caminho
Valem mais que ouro,
Assim é a leve fumaça
Por sobre seu telhado,
Assim é o facho de luz
Debaixo da sua porta.

(Repete estrofe 1)

(Refrão)


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Zvonila su za oluje,
Zvonila su za vjenčanja,
Zvonila su za živote
I za zadnja putovanja.
Kao neka vječna glazba
Naše slave, našeg jada,
Zvonila su od davnina
Stara zvona moga grada.

Boga su i ljude zvala
Za trabakul koji tone,
Zvonila su, zvonila su
Za gromače i balkone,
Skupljala su naše lađe
Kao ptice svoga gnijezda,
Ko da srce majke kuca
U zvoniku ispod zvijezda.

Dok spavaju stare luke
I treperi plavi svod,
Zvonici su kao ruke
Koje prate bijeli brod.
U kamenu nema neba,
Čovjek prođe težak put,
Al’ su jednom kad ih trebam
Stara zvona opet tu.

Pričaju nam našu povijest
Brižno kao otac sinu,
U večeri kao ova
Izlila su svu toplinu.
Kao neka vječna glazba
Kolijevki, kolonada,
Slušajte ih kako zvone
Stara zvona moga grada.

U kamenu nema neba,
Čovjek prođe težak put,
Al’ su jednom kad ih trebam
Stara zvona opet tu.

Pričaju nam našu povijest
Brižno kao otac sinu,
U večeri kao ova
Izlila su svu toplinu.
Kao neka vječna glazba
Kolijevki, kolonada,
Slušajte ih kako zvone
Stara zvona moga grada!

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Soavam nas tempestades,
Soavam nos casamentos,
Soavam durante as vidas
E nas viagens para o além.
Como uma música eterna
De nossas glórias e penas,
Soavam há muitos séculos
Os velhos sinos de minha cidade.

Chamavam Deus e o povo
Ao afundar um pesqueiro,
Eles soavam, eles soavam
Rumo a muralhas e sacadas,
Recolhiam nossos barcos
Como pássaros a seu ninho,
Como se um coração de mãe
Batesse na torre sob estrelas.

Dormindo os velhos portos
E estremecendo o céu azul,
Campanários parecem mãos
Seguindo um barco branco.
Na pedra não existe céu,
O caminho humano é duro,
Mas se um dia preciso deles,
Os velhos sinos voltam aqui.

Contam-nos nossa história
Com o zelo do pai ao filho,
Em noites como esta
Verteram todo o calor.
Como uma música eterna
Do berço e filas de colunas,
Ouçam-nos, como badalam
Os velhos sinos de minha cidade.

Na pedra não existe céu,
O caminho humano é duro,
Mas se um dia preciso deles,
Os velhos sinos voltam aqui.

Contam-nos nossa história
Com atenção de pai ao filho.
Em noites como esta
Verteram todo o calor.
Como uma música eterna
Do berço e filas de colunas.
Escutem como badalam
Os velhos sinos de minha cidade!




9 de maio de 2018

S. Kurginyan relaciona Stalin e a Vitória


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/kurginyan-stalin


Cientista político deu ao canal independente Russia.ru uma entrevista em 2010 dizendo sua opinião sobre a suposta incompatibilidade entre a ditadura de Iosif Stalin na URSS e a vitória soviética sobre os nazistas na 2.ª Guerra Mundial. Pra ele, não se pode dizer que a ideologia e a pessoa seriam um “obstáculo” à defesa pátria (“Apesar de... ganharam a guerra”), mas que pensamentos e atos não podem ser separados. Mesmo que não se concorde com o comunismo, seria preciso juntar todas as variáveis a fim de criar uma história razoável da Grande Guerra Patriótica. Mas como opina Sergei Kurginyan, é um trabalho de muitos anos e muita gente, a se separar de partidarismos.

Sergei Iervandovich Kurginyan nasceu em Moscou em 1949, embora seu pai seja de origem armênia e sua mãe, de ascendência nobre e com raízes suecas. Formado primeiramente em geofísica, também estudou matemática, ciência política e teatro, tendo atuado e escrito em todas essas frentes. Intelectual célebre em seu país, apresentou vários programas televisivos sobre história e sempre foi ativo na política, criticando a atuação de Putin, mas não o confrontando diretamente. Esquerdista, porém não radical, curiosamente ingressou no PC soviético apenas em 1988 sob o pretexto de deter a dissolução do país. Fundou em 2011 o movimento Sut vremeni (Essência do tempo), de tendência basicamente nacionalista que une a recordação da URSS com cristianismo ortodoxo. Com seus camaradas, participou de muitos comícios no turbulento ano de 2012, sempre agindo para que radicais anti-Putin não tomassem o poder.

A entrevista foi intitulada “É preciso entender Stalin”. Embora fosse produzido por um site técnico, que parece ter parado de atuar por volta de 2013, eu baixei o vídeo sem legendas de um canal favorável a Stalin. Há alguns anos ele foi um pedido de legendagem feito pelo amigo comunista Charles Moraes, mas que só agora tive tempo de traduzir, por ocasião de mais um aniversário da vitória aliada sobre os alemães na guerra de 1939-45. Eu não conseguiria legendar sem ter encontrado o texto transcrito no próprio site de Kurginyan, e o evento que ele menciona se chamou “A guerra real”, promovido pelo Fundo Social Internacional “Centro Criativo Experimental” (Centro Kurginyan). Seguem abaixo as legendas que postei no canal Eslavo (YouTube), o texto em russo (porque nunca sabemos quando o original pode ser apagado; apenas o alinhei mais à fala e adicionei as letras “io”) e a tradução em português, adaptada no vídeo:


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O combate ao fascismo é uma guerra metafísica, contra um mal absoluto. Um mal precisamente metafísico. O povo soviético venceu essa guerra. Venceu-a sob a liderança de Stalin. E minha mãe, que odiava Stalin porque ele tinha destruído nossa família, prendido meu avô e tudo o mais, sempre dizia que era impossível separar a personalidade da Vitória, era algo totalmente risível. Dizer que o país ganhou a guerra apesar de Stalin é simplesmente ridículo. Sob a liderança de Gorbachov, o país se desintegrou tranquilamente porque Gorbachov queria ou não impediu isso. Esse papel é do líder. Apesar do líder, do Comandante Supremo, é impossível ganhar uma guerra. Deve-se entender que a mera técnica é impotente.

Como líder, Stalin tinha traços horríveis, que eram fortes, um se entrelaçava a outro. Mas neste caso, dizer que ele não tinha defeitos é usar de uma artimanha grosseira. Isso não convence ninguém, e só instiga novos mitos sobre a impecabilidade de Stalin.

O que eu quis dizer foi que além dos velhos mitos antistalinistas que racham pouco a pouco (bem, o sr. Igor Chubais vai murmurar ou gritar mais algumas vezes, lidando com números totalmente falsos, e todos vão bocejar e dizer: “Sim, sim, é claro!”), surge uma nova mitologia, a de um Stalin imaculado, carente de quaisquer erros, de uma grandeza absoluta. O combate atual é o do novo stalinismo contra o velho antistalinismo. E nesse embate a realidade perece, é falsificada.

A história é uma ciência que não pode se formar apenas com fatos. Ela sempre se constrói de concepções, paradigmas, princípios de interpretação, seleção de fatos, da escolha sobre quais fatos se usarão ou se guardarão. Mas a história nunca comete violações contra os fatos. A variação em história advém do grau de interpretação dos fatos. Isso não significa que os fatos sejam contorcidos. Não se deve contar incorretamente o número de nossas perdas. Não se deve contar incorretamente o número de nossas forças armadas. Não se deve contar incorretamente isto, isto, isto... Não se deve dizer que vencemos apenas “na carne”, como militares muito famosos da Alemanha me disseram uma vez: no fim da guerra os russos estavam a tantos quilômetros do front, com tantos pelotões, então não podiam deter-nos, íamos como a faca para a manteiga.

A verdade existe. Ela é complexa: a guerra tem o começo trágico, os problemas, o heroísmo, o ficar negando, tudo junto e misturado. Mas é uma guerra metafísica! É uma guerra sagrada, na qual foi destruído um mal mundial que aniquilaria a humanidade, destruiria o humanismo, a história e muito, muito mais. Deve-se compreender qual era o preço de acabar com Hitler. Nosso povo fez isso! Sob aquela liderança, aquela ideologia! Quando dizem: apesar da ideologia, disso, daquilo... Pois bem, em 1914 não havia aquela superpotência, o super-Reich de Hitler, e então? Venceram? Não, não venceram! E nós vencemos, ganhamos! Vencemos a um preço terrível? Obviamente! Teria sido um preço ainda mais terrível se tivéssemos perdido!

E tudo isso nos despertou para que nós mesmos reuníssemos uma pequena conferência que constituísse nosso serviço, nosso tributo à memória dos que tombaram, nosso tributo à grande data. Como cidadãos, decidimos que era nosso dever. E nos dirigimos aos historiadores. Eles corresponderam. E foi essa pequena conferência que ocorreu. E estou feliz por ela ter ocorrido, pois foi uma conferência de coidealistas, de pessoas sóbrias e tranquilas. Uma conferência de gente que falava de fatos e gente que interpretava esses fatos à sua maneira, vivenciou a guerra como um evento existencial, metafísico... Os cientistas leram poemas no meio dessa conferência, projetaram slides de caráter trágico. Tudo isso se encadeou em algo genuíno. Na sala assistiam umas 100 pessoas que conseguiram fugir do trabalho, correr até aí, sacrificar a isso o resto de seu tempo livre. Sentadas quase até a meia-noite, discutiram, refletiram. Não havia nisso nenhuma mitologia, nenhum êxtase. Havia apenas um impulso: o desejo de receber algo real.

Qualquer verdade é melhor do que a mentira. A verdade sobre a guerra é totalmente necessária. Ela é muito difícil de ser extraída. Muitos arquivos estão fechados, muito poucas pessoas se ocupam de sua interpretação – mas elas existem! Apesar de tudo o que foi feito, apesar dos enormes golpes que recebemos por sermos intelectuais, há historiadores, jovens que com paixão extraem essas cifras e vivem essa verdade histórica.

Hoje o preço da história é nossa identidade. Hoje devemos reconstituir a história para reconstituirmos a identidade do povo. De pequenos eventos tecemos o fio da reconstituição dessa identidade. Cremos que isso que estamos fazendo compõe-se de centenas, milhares de outros pontos. É uma união que representa exatamente o dever cidadão não mistificado sobre o qual se tagarela demais e se realiza muito pouco. Mas se realiza! No país todo! Essa onda de paixão pela verdade histórica e pelo retorno à identidade normal é uma onda séria! A sociedade não esmoreceu, quer o tempo todo essa restauração. E agora nossa principal tarefa é ajudar os historiadores e uni-los à sociedade, a fim de que tudo isso seja restaurado.

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КУРГИНЯН Сергей
Реальная война: Сталина необходимо понять

Война с фашизмом – это метафизическая война, война с абсолютным злом. Со злом именно метафизическим. Эту войну выиграл советский народ. Он выиграл её под руководством Сталина. И моя мать, которая ненавидела Сталина, потому что Сталин разрушил семью, арестовал деда и всё, что угодно, она всегда говорила, что отделять личность от Победы невозможно, что это абсолютно смехотворно. Говорить, что страна вопреки Сталину выиграла войну – это просто смешно. Страна под руководством Горбачёва мирно развалилась, потому что Горбачёв этого хотел, или этому не препятствовал. Вот эта роль лидера. Вопреки лидеру, вопреки Верховному главнокомандующему войну выиграть невозможно. Просто технически невозможно – это надо понять.

У Сталина как лидера были страшные черты, а были сильные черты, одно переплеталось с другим. Но в данном случае говорить, что его тут нет – это лукавить, очень сильно лукавить. Это никого не убедит, и только разожжёт новые мифы о безупречности Сталина.

Вот я хотел сказать, что помимо старых антисталинских мифов, которые постепенно трещат (ну, ещё несколько раз пробормочет или прокричит господин Игорь Чубайс, оперируя абсолютно лживыми цифрами – все зевнут и скажут: «Ну, ладно, всё кончено!»), растёт новая мифология – мифология безупречности Сталина, отсутствия у него ошибок, его абсолютного величия. Новый сталинизм против старого антисталинизма – вот что сегодня происходит. И в этой схватке гибнет реальность, реальность фальсифицируется.

История – наука, которая не может складываться из одних фактов. Она всегда строится на концепциях, на парадигмах, на принципах осмысления, отбора фактов, на том, какие факты выбираются, а какие откладываются. Но история никогда не осуществляет преступлений по отношению к фактам. Вариативность истории начинается на уровне интерпретации фактов. Нельзя, чтобы факты при этом пострадали. Нельзя, чтобы неправильно считалась численность наших потерь, нельзя, чтобы неправильно считалась численность наших вооружённых сил, нельзя, чтобы неправильно считалось это, это, это... Нельзя, чтобы говорили, что мы победили лишь «мясом», когда очень известные военные Германии мне когда-то говорили, что у русских в конце войны было на столько-то километров фронта столько-то взводов, а мы их остановить не могли – они шли, как нож в масло.

Есть правда. Она сложная: есть трагическое начало войны, есть изъяны войны, есть героизм войны, есть негативизм войны – всё вместе, всё собрано. Но это метафизическая война! Это священная война, в которой было истреблено мировое зло, которое уничтожило бы человечество, прекратило бы гуманизм, прекратило бы историю, прекратило бы очень-очень многое. Это нужно понимать, какова была цена погибели Гитлера. Это сделал наш народ! Под этим руководством, с этой идеологией! Когда говорят, что вопреки идеологии, вопреки прочему... ну вот, в 14-ом году не было никакой супердержавы, суперрейха Гитлера – и что, выиграли? Ведь нет, не выиграли! А тут выиграли, победили! Страшной ценой победили? Страшной! Ещё более страшная была бы цена, если бы проиграли!

И вот всё это побудило нас к тому, чтобы для самих себя собрать небольшую конференцию, которая бы являлась нашим служением, нашей данью памяти тех, кто пал, нашей данью великой дате. Мы, как граждане, решили, что мы обязаны. И обратились к историкам. Историки откликнулись на это. И произошла вот эта небольшая конференция. И я счастлив, что она произошла, потому что она была конференцией единомышленников, конференцией трезвых, спокойных людей. Конференцией людей, которые говорили о фактах и людей, которые осмысливали эти факты по-своему, людей, которые переживают войну как экзистенциальное, метафизическое событие... Учёные читали стихи посреди этой конференции, показывали слайд-фильмы трагического характера. Всё это вместе сплелось во что-то подлинное. В зале сидело около ста людей, которые сумели сбежать с работы, прибежать сюда, пожертвовать на это остатки своего свободного времени. Они сидели чуть ли не до 12 часов ночи, спорили, думали. В этом не было никакой мифологии, никакого экстаза. В этом был единственный нерв внутренний – желание получить что-то реальное.

Лучше любая правда, чем ложь. Правда о войне абсолютно необходима. Она очень трудно добывается. Многие архивы закрыты, очень мало людей, которые занимаются этим осмыслением – но эти люди есть! Вопреки всему, что сделано, вопреки гигантским ударам, которые нанесены по нашему интеллектуальному сословию – есть историки, есть молодые люди, которые страстно добывают эти цифры, которые страстно живут этой исторической правдой.

Цена истории сегодня – наша идентичность. Мы сегодня должны восстановить историю, дабы восстановить идентичность народа. Из мелких событий сплетается нить восстановления этой идентичности. Мы верим, что то, что мы делаем – делается и в сотнях и тысячах других точек. И вместе оно представляет собой именно тот гражданский долг немистифицированный, о котором слишком много болтают и который слишком редко исполняется. Но исполняется! По всей стране! Эта волна страсти по исторической правде и возвращению в нормальную идентичность – это серьёзная волна! Общество не мертво, оно всё время хочет этого восстановления. И главная наша задача сейчас – помочь историкам и соединить историков с обществом с тем, чтобы это всё было восстановлено.