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30 de outubro de 2018

Chefes de fora parabenizam Bolsonaro


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/bolso-ganha


É a primeira vez que publico aqui algum material mais extenso sobre Jair Bolsonaro, o presidente eleito da República no Brasil. No meu canal Eslavo (YouTube), vocês podem esperar muita zoeira pro futuro, mas por enquanto estou me atendo a aspectos mais sérios e didáticos. Por cortesia, mas com graus variados de animação, vários chefes de Estado e de governo em outros países parabenizaram Bolsonaro pela vitória, e com alegria maior ainda, o fizeram os líderes de partidos da direita radical na Europa.

Eu tive a ideia de criar esta postagem logo que decidi procurar alguma manifestação de Vladimir Putin, presidente da Rússia, sobre a notícia. Consegui achar um pequeno texto no site oficial do Kremlin, mas ele não gravou nenhum vídeo ou entrevista. Como ele renderia aqui uma postagem muito pequena, resolvi adicionar manifestações em outras línguas que os brasileiros em geral desconhecem. Enfim encontrei a nota de Emmanuel Macron en nome do Élysée (presidência francesa), bem como postagens de Marine Le Pen em seu Facebook e Twitter oficiais, de Matteo Salvini em seu Facebook e Twitter oficiais, e de Ada Colau em seu Twitter oficial.

Marine Le Pen preside o Rassemblement national (União Nacional), antigo Front national (Frente Nacional), partido chamado de “extrema-direita” e que, com ela como candidata, chegou ao segundo turno nas eleições presidenciais francesas em 2017 com Macron. Seu pai, Jean-Marie Le Pen, foi o fundador do partido, mas está afastado de funções diretivas por causa de declarações muito polêmicas sobre imigração, ditaduras e judeus. Matteo Salvini, vice-premiê e ministro do Interior da Itália, é líder do partido Lega Nord, de mesma cor política que os Le Pen e que prega a separação do norte do país em relação ao Sul. Ada Colau é prefeita de Barcelona (capital da Catalunha) e, ao contrário destes dois, é de esquerda e critica os ditos “populistas de direita”.

Os governos oficiais (o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte não tem partido) receberam com gentileza a eleição de Jair Bolsonaro, mas o tom variou entre os apoiadores ou detratores em outros países: Le Pen o elogiou e incentivou, Salvini esbravejou (como bom carcamano) contra as esquerdas e opositores, e Colau rejeitou e criticou políticos homens do tipo do italiano. Desta última, a postagem alcançou grande divulgação, e os brasileiros que tomaram conhecimento dela, inclusive, disseram em sua rede social que não devia “meter-se” nos assuntos de países alheios. Seguem abaixo os originais, dos quais traduzi direto pro português, e a numeração das postagens, se fosse o caso.



Vladimir Putin, presidente da Rússia

Глава Российского государства высоко оценил весьма значительный опыт взаимовыгодного сотрудничества в различных областях, накопленный двумя странами в рамках отношений стратегического партнёрства.

Президент России выразил уверенность в дальнейшем наращивании всего комплекса российско-бразильских связей, а также конструктивного взаимодействия в рамках Организации Объединённых Наций, «Группы двадцати», БРИКС и других многосторонних структур в интересах народов России и Бразилии.

O chefe do Estado russo avaliou como positiva a experiência altamente significativa da frutífera colaboração mútua em diversos domínios, acumulada para o proveito dos dois países nos quadros das relações de parceria estratégica.

O Presidente da Rússia expressou confiança na vindoura edificação de todo o complexo das ligações russo-brasileiras, bem como de uma construtiva ação conjunta nos quadros da Organização das Nações Unidas, do Grupo dos Vinte (G-20), dos BRICS e de outras estruturas multilaterais, nos interesses dos povos da Rússia e do Brasil.


Emmanuel Macron, presidente da França

Palais de l’Elysée le, lundi 29 octobre 2018

Le Président de la République Emmanuel Macron félicite Jair BOLSONARO élu par le peuple brésilien à la présidence de la République fédérative du Brésil, dimanche 28 octobre.

La France et le Brésil entretiennent un partenariat stratégique noué autour des valeurs communes de respect et de promotion des principes démocratiques. C’est dans le respect de ces valeurs que la France souhaite poursuivre sa coopération avec le Brésil, pour relever les grands défis contemporains de notre planète, aussi bien dans les domaines de la paix et de la sécurité internationales, que dans le cadre de la diplomatie environnementale et des engagements de l’Accord de Paris sur le climat.

Palácio do Élysée, segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O Presidente da República Emmanuel Macron parabeniza Jair BOLSONARO, eleito pelo povo brasileiro para a presidência da República Federativa do Brasil no domingo, 28 de outubro.

A França e o Brasil conduzem uma parceria estratégica atada em torno dos valores comuns do respeito e da promoção dos princípios democráticos. É respeitando esses valores que a França deseja continuar sua cooperação com o Brasil, para enfrentar os grandes desafios contemporâneos de nosso planeta, tanto nos domínios da paz e da segurança internacionais quanto no âmbito da diplomacia ambiental e dos compromissos firmados no Acordo de Paris sobre o clima.


Marine Le Pen, presidenta do Rassemblement national

1. Les Brésiliens viennent de sanctionner la corruption généralisée et la terrifiante criminalité qui ont prospéré sous les gouvernements d’extrême-gauche...

2. Bonne chance au nouveau Président Bolsonaro qui devra redresser la situation économique, sécuritaire et démocratique très compromise du Brésil.

1. Os brasileiros acabam de condenar a corrupção generalizada e a aterrorizante criminalidade que se alastraram sob os governos de extrema-esquerda...

2. Boa sorte ao novo Presidente Bolsonaro, que deverá reparar a tão danificada situação da economia, segurança e democracia no Brasil.


Matteo Salvini, ministro italiano e líder da Lega Nord

1. Anche in Brasile i cittadini hanno mandato a casa la sinistra! Buon lavoro al Presidente Jair Messias Bolsonaro, l’amicizia fra i nostri Popoli e i nostri Governi sarà ancora più forte!!! [Emojis das bandeiras da Itália e do Brasil] P.S. E dopo anni di chiacchiere, chiederò che ci rimandino in Italia il terrorista rosso Battisti.

2. Anche in Brasile e in Germania i cittadini votano per il cambiamento, e da giornali e tivù italiane parte il solito ritornello per cui “ha vinto l’ESTREMA DESTRA” pericolosa e razzista. Ma basta, non vi crede più nessuno!!! Viva la Libertà e la Democrazia.

3. Non vedo l’ora di incontrare il neo-presidente Bolsonaro. Sarò lieto di recarmi personalmente in Brasile, anche per andare a prendere il terrorista rosso Cesare Battisti e portarlo in galera in Italia.

1. No Brasil, os cidadãos também mandaram a esquerda pra casa! Bom trabalho ao Presidente Jair Messias Bolsonaro, a amizade entre nossos Povos e nossos Governos será ainda mais forte!!! P.S. E depois de anos de blablablá, pedirei que nos reenviem pra Itália o terrorista vermelho Battisti.

2. No Brasil e na Alemanha os cidadãos também votam pela mudança, e dos jornais e tevês italianos parte o velho refrão de que “venceu a EXTREMA-DIREITA” perigosa e racista. Mas chega, ninguém mais acredita em vocês!!! Viva a Liberdade e a Democracia.

3. Não vejo a hora de encontrar o novo presidente Bolsonaro. Ficarei feliz de me dirigir pessoalmente ao Brasil, pra ir também prender o terrorista vermelho Cesare Battisti e mandá-lo à cadeia na Itália.


Ada Colau, prefeita de Barcelona

#Bolsonaro, Trump, Putin, Orbán, Salvini... hombres machistas, racistas, homófobos y amantes de la violencia q agitan el miedo y fakenews para conquistar poder. Las ciudades debemos trabajar juntas para generar espacios de resistencia, solidaridad y políticas q defiendan la vida.

#Bolsonaro, Trump, Putin, Orbán, Salvini... homens machistas, racistas, homofóbicos e amantes da violência que espalham o medo e fake news para conquistar poder. Nós, cidades, devemos trabalhar juntas para gerar espaços de resistência, solidariedade e políticas que defendam a vida.



28 de outubro de 2018

O “Polvo” no poder e o humor petista


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/petismo




Um povo que sabe zoar de seus próprios problemas e de seus chefes ou governantes é um povo cujo espírito democrático já é inato, a despeito de como funcionem as instituições. Manter esse dom é uma obrigação política e cultural, dado que as grandes mudanças só acontecem por meio da crítica sincera e impiedosa. Além disso, a censura e a perseguição ideológica deixaram no Brasil marcas tão indeléveis, que nossa sociedade as repudia só de ouvir falar delas, seja contra a grande mídia, seja contra os pequenos articulistas. Nem mesmo a divulgação de notícias falsas deveria servir de álibi pra restringir esses direitos, pois a aposta certa seria investir em educação literária, e não em medidas coercitivas, tal um gado sem vontade e opinião.

Infelizmente, nos últimos anos, o acirramento das paixões políticas tem se usado como pretexto pra repudiar qualquer ressalva ou sátira com o candidato ou partido de preferência, como se os argumentos a favor fossem bastante fracos ou como se os alvos de adoração fossem princípios invioláveis. Na verdade, candidatos e partidos não estão nem aí com o que falam deles, pois já têm garantidos seus benefícios do alto, e muito menos com os fanáticos que, de graça ou pagos, fazem sua bajulação pelas redes sociais ou pela internet tradicional. Esse é mais um sintoma da falta de educação psicológica e autoexaminadora.

Talvez o caso mais emblemático seja o do Partido dos Trabalhadores (PT), desde que Dilma Rousseff se candidatou pela primeira vez à presidência da República, em 2010. De maneira inédita, o Twitter, em especial (o Facebook ainda não era popular no Brasil), que estava muito na moda, depois da famigerada campanha “Cala a boca, Galvão” durante a Copa do Mundo, serviu de arena pra disputa entre defensores do lulismo e do candidato do PSDB, José Serra. Neste caso, obviamente não se falava em ativismo pago, e o terror principal vinha das classes médias que temiam a continuação da esquerda no poder. Nas eleições seguintes, em 2014, vários fatores acirraram a briga: a consolidação da cibermilitância como prática, a ascensão do Facebook e suas tecnologias mais potentes, a crise econômica às portas do Brasil, Aécio Neves do PSDB como um político medíocre, a insatisfação dos conservadores em ver uma mulher sendo reeleita, o uso do terror e intimidação simbólicos pelo PT (“Não vamos voltar ao passado”) e, como se descobriria depois, o financiamento de militantes e de postagens robóticas de ambos os lados. Os “acampamentos digitais” petistas, na época, foram acusados de pagar por esse serviço de inundação voluntária.

Hoje estamos vivendo o segundo turno das eleições presidenciais de 2018, e muita coisa aconteceu: a crise econômica, o impeachment da Dilma, os protestos de rua que o antecederam, a onda cultural e midiática contra o PT, as turbulências do interregno Michel Temer, a ascensão de Jair Bolsonaro como figura carismática de direita e, sobretudo, a consolidação dos smartphones como principal meio de acesso a rede, como suas tecnologias ainda mais rápidas e precisas. O aplicativo (já não mais site) WhatsApp, que se resume aos dois recursos mais usados nas antigas redes sociais (chats e grupos), tornou-se a bola da vez, e em paralelo se difundiu a prática não mais do mero flood, mas da real distorção, fabricação ou falsificação de informações contra opositores – chamadas por Donald Trump pela popularizada designação fake news.

Independente de quem vença o pleito de hoje, estamos certos de que chega ao fim um longo ciclo de nosso período republicano iniciado em 1985, no máximo em 1990. Os velhos políticos, militantes e intelectuais ligados à ditadura militar ou educados em sua resistência cedem lugar aos mais ou menos jovens que, mesmo aderindo ideologicamente a um dos lados, já não se caracterizam pela participação ou vivência ativas. Sarney, Collor (e Itamar), FHC, Lula e Dilma (e Temer), junto com suas famílias ou apadrinhados, saíram de cena ou perderam a relevância nacional, enquanto Bolsonaro, a despeito de seu fundo discursivo, só depois passou a ter destaque, e Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, descontadas suas afiliações, são safras muito mais recentes. O chamado “petismo”, mesmo sendo heterogêneo ou muito mais atacado do que praticado, foi a última etapa desse ciclo, e como todo fenômeno ou grupo longamente ocupando o poder, teve seus desgastes e, portanto, suas sátiras e atos falhos.

Nesta postagem, quero reunir alguns dos memes ou momentos engraçados acumulados ao longo desses anos de governos Lula e Dilma. Me chateia que tantos ditos “petistas” ou “progressistas” não aceitam sequer uma piada ou uma cena que, tirada de contexto, pode soar cômica, e isso demonstra a real insegurança ou desespero quanto à desilusão ou abalo de suas convicções quase religiosas. Nem todos os vídeos são feitos por ou tratam diretamente de membros do PT, mas têm alguma ligação com o contexto político mais geral. Todas as postagens estão no meu canal Eslavo (YouTube), e elas seguem abaixo por ordem histórica, com os comentários concernentes:



Embora ela tenha dado depois muitas explicações, Angela Guadagnin, deputada federal do PT por São Paulo, foi flagrada em 2006 dançando jocosamente após as primeiras absolvições pelo plenário do Congresso Nacional no que passaria à história como o “escândalo do mensalão”. A política de São José dos Campos ficou famosa no Brasil inteiro pela chamada “dança da pizza”, enquanto Delúbio Soares, Silvinho do PT e o “valerioduto” entravam no nosso saber cotidiano.

É óbvio que o Judiciário e a Polícia Federal podem errar ou às vezes abusar, mas desde então o Partido dos Trabalhadores vem cobrindo seu envolvimento na corrupção com “panos quentes”, embora a maioria dos grandes partidos nacionais estivesse envolvida no esquema. (E, claro, também se envolveriam nos principais escândalos posteriores, como o “petrolão”, ainda mais amplo e aparelhado.) Mas pra época, o choque foi grande, porque era apenas o terceiro ano do mandato de Lula (2005), cujo projeto alardeado há anos era acabar com a corrupção e instaurar a moralidade nas instituições. Foi um dos episódios que mais causou cisões no PT, levando inclusive à criação do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que se propunha “voltar às raízes” e retomar as bandeiras radicais. Canalizando a decepção, a candidata do PSOL à presidência em 2006, Heloísa Helena, coligada ao PSTU e ao PCB, conseguiu obter o terceiro lugar, com números e uniões que jamais seriam vistos de novo.

Como livre-pensador, sempre critiquei o PT, mesmo não sendo adepto dos partidos que lhe fazem frente diretamente. Mas nestas eleições não tomo posição explícita, e apenas relembro estas cenas pra juventude ficar sabendo, e pra fazer uma brincadeira boba sem compromisso. Isto é, coloquei algumas tomadas dela que estavam disponíveis no YouTube (postadas na época mesmo, por isso a má qualidade das imagens) e pus por cima a abertura instrumental da canção Ialta, do russo Ievgeni Osin. Foi esta música que Boris Ieltsin dançou na campanha presidencial de 1996, como já sabemos pelo meme que lancei, e agora vemos também Guadagnin dançando, com a imagem acelerada.

Como era de se esperar, os uploads ficaram abandonados (também, quase ninguém usava YouTube em 2006), e nos esquecemos de como os deputados e políticos em geral adoram sambar na cara do povo na primeira oportunidade. E fazem isso de modo escrachado e aberto, sabendo que nada sério pode os atingir. O primeiro vídeo foi uma montagem amadora, feita pra passar a imagem de uma “pizza” italiana, e o segundo vídeo é um trecho do Jornal da Globo, quando Arnaldo Jabor ainda fazia comentários ao vivo nos telejornais.



Achei tão sagaz que resolvi postar como um vídeo à parte: comentando a polêmica “dança da pizza” de Angela Guadagnin, Arnaldo Jabor fez comentários muito cortantes numa edição do Jornal da Globo em 2006. Resolvi fazer uma edição humorística, retirando as menções localizadas no tempo e deixando uma mensagem que vale pras eleições de hoje, e que será sempre, sempre atual.

Eu retirei o vídeo do referido trecho do Jornal da Globo, postado em 2006 mesmo, e por isso a qualidade não está tão boa, e também por isso terminou “abandonado” (quase ninguém então usava YouTube), mais um escracho que passou esquecido pela cultura popular. Minha intenção não foi revirar carniça, nem falar mal da Angela, mas acho que as palavras de Jabor foram tão sábias, que generalizam bem o sentimento de todas as épocas. E que importa se ele é a favor ou contra os Estados Unidos e o liberalismo? Quod dixit, dixit!

As pessoas se indignam, e os políticos desfrutam a sensação de que, blindados numa torre de marfim, nada devem aos eleitores nem à população em geral. Por isso, usando da mais fina ironia (atenção a esse detalhe, coxinhas carrancudos de direita e de esquerda!), ele estabelece que realmente, nós é que não prestamos. Sobretudo com essa linda maioria recém-formada pelo ex-nanico PSL na Câmara dos Deputados, com seus nobres e cristãos propósitos, este Congresso Nacional não estava, não está e nunca estará pro nosso bico!



Durante cerimônia de assinatura de contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, numa quinta-feira (10 de dezembro de 2009), em São Luís, capital do Maranhão, o então presidente Lula falou um palavrão. O termo foi usado durante um discurso no qual ele defendeu que nenhum governo investiu tanto em saneamento básico. Isto explicará a escolha destas palavras: “Eu quero saber se o povo tá na m..., e eu quero tirar o povo da m... [em] que ele se encontra.”

Por incrível que pareça, assim como o célebre vídeo da dança de Angela Guadagnin, este episódio ficou por anos esquecido dos brasileiros, chafurdando nas profundezas do YouTube. Eu mesmo me lembro da declaração na época, e só há alguns dias resolvi procurar. E não é que dois canais chegaram então a postar, mas sem que tivessem alcançado grandes visualizações? (Como eu disse antes, uma época em que poucos conheciam a plataforma.)

Num contexto de tanta turbulência, brigas e expectativa por causa da eleição presidencial, é sempre bom relembrar um pouco de nossa história contemporânea recente. Eu tirei o vídeo, produzido originalmente pela Globo News, deste canal com outras reportagens de época, removi a introdução da jornalista e fiz o corte no quadro, inserindo, como vocês conhecem, as velhas repetições humorísticas. Leiam também esta matéria do jornal O Globo, “Relembre as 50 frases mais polêmicas de Lula durante os oito anos de mandato” (réveillon de 2010), ou a imediata análise crítica de Reinaldo Azevedo (“Lula: do ‘povo na m...’ ao ‘povo de m...’”), quando ele ainda escrevia pra Veja.







Embora o Lula fosse um comédia, quem mais gerou memes involuntários por causa de sua inabilidade comunicativa foi a ex-presidenta Dilma Rousseff. Quando fiz a montagem dela com cenas da viagem à Bulgária em 2011, separei algumas frases isoladas que ela disse pra jornalistas e que podiam ser usadas hilariamente em outros contextos. Como postei muito tempo depois da montagem original, elas não tiveram muito sucesso, apesar da minha intenção de torná-las “memes”, e foram menos vistas do que as outras coletâneas com Dilma falando em francês e em algo parecido com o espanhol.

Dilma, então, estava no vilarejo de Gabrovo, onde nasceu seu pai Petar Rusev (Pedro Rousseff). No primeiro caso, tem coisa que não é usual mesmo, como prometer um programa de esquerda e realizar um governo de direita, deixando o caminho aberto pra um sucessor reacionário. E no segundo caso, parece uma descrição “absolutamente perfeita” de seus 5 anos e 3 meses de mandato, enquanto o governo Temer, por sua vez, foi uma tragédia mesmo.

O terceiro vídeo é autoexplicativo: após discurso em português, e depois num corpo-a-corpo pelas ruas, Dilma repete à exaustão a palavra “Благодаря” (Blagodariá), “Obrigado”, literalmente “eu agradeço”, uma das raras que aprendeu em búlgaro. A pronúncia real fica mais próxima de “blagodaryá” do que de “blagodari-á”: é que em português temos o hábito de quebrar os ditongos depois de consoante.



Já em agosto de 2017, quando mal se falavam em pré-candidaturas presidenciais, os brasileiros já estavam polarizados entre esquerda e direita. Imaginem agora, que estamos esperando os resultados das urnas e realmente entramos na fase de virar a mesa!

Esta legendagem cômica, já que não entendo nem o árabe padrão nem os seus dialetos, foi baseada originalmente no que se pretendia ser um debate em 2014, entre defensores de posições opostas sobre a guerra civil na Síria, promovido pela TV jordaniana. Foi algo que eu também tinha visto pela TV na época, e depois deixei passar, só me lembrando anos depois. A guerra entre o regime do presidente Bashar al-Assad e seus opositores armados continua desde 2011 até hoje, e não tem prazo de término, mas esse vídeo podia ser usado pra qualquer caso onde tivesse discussão acirrada e terminada em briga.



Por fim, não muito a ver com o tema central, mas mostrando como tanto o poder midiático quanto ditaduras de esquerda podem promover comoções artificiais (além disso, o PT nunca criticou frontalmente o regime norte-coreano). Na descrição, eu anunciei: “Ri Chun Bonner anuncia chorosamente a morte e o falecimento de Kim Jong Marinho. Nos dois lados do Globo, Juchê e você, tudo a ver!” Tratam-se, na verdade, dos anúncios que misturei das mortes de Roberto Marinho (2003), fundador das Organizações Globo, e Kim Jong-il (2015), segundo ditador da Coreia do Norte.

William Bonner pode até ter se emocionado de verdade com o teor da carta, mas muita gente achou que o choro era fingido. Quanto a Ri Chun-hee, que tem formação artística, tá na cara que o esquema era “ou chora, ou morre”, e está dramatizando excessivamente, mesmo que também possa ter um pingo de tristeza. Embora não possamos garantir nada nos dois casos, muito moleque acéfalo veio no meu canal, na época, ficar falando que “ah, mas o Kim era um líder amado, fez muito pelo povo, enquanto os Marinho enganavam, mimimi”. Minhas bolas!


26 de outubro de 2018

Ciência, política e apartidarismo (2013)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/apartidario3


NOTA: Eu tinha este escrito guardado em meus arquivos desde 1.º de julho de 2013, quando fiz a última mudança em seu arquivo do Word. Felizmente, sua primeira parte desdobra bem o que eu poderia estar explicando nesta introdução. Porém, pelo tamanho e pelo acabamento da segunda parte, julguei que fosse um texto incompleto, embora eu não tenha toda certeza, destinado a aparecer no blog Materialismo.net. Pensei assim porque a formatação dos parágrafos das duas partes está diferente, e o encerramento do escrito me pareceu meio súbito. Por isso, conforme a tabulação que vi, atribuí as devidas numerações e redividi os parágrafos da primeira parte conforme achei conveniente. Apesar das lacunas, decidi publicar, e de novo não tenho nenhuma reserva a fazer, a não ser que minhas notas “epistemológicas” foram bem subjetivas, exigindo de mim agora novos estudos disciplinares.



1. Alguns meses após ter escrito meu último texto mencionando a palavra “apartidarismo”, fiquei impressionado como ela repentinamente ganhou a boca das pessoas, da mídia e das redes sociais a partir dos protestos populares no Brasil, em junho de 2013. Os meus dois textos no blog que abordavam o tema, inclusive, tiveram um significativo aumento de visualizações, muitas delas certamente direcionadas pela busca no Google.

Os manifestantes, dizendo-se “apartidários”, rejeitavam a ostentação de bandeiras, faixas e cartazes que aludissem às siglas de partidos políticos, especialmente os de extrema-esquerda, alegando que eles poderiam apropriar-se de um movimento que eles não teriam ajudado a articular.

Curiosamente, várias reivindicações levantadas pelos “apartidários” já faziam parte do programa de um amplo espectro da esquerda há muitos anos, por vezes décadas, enquanto o desenlace dos eventos revelou, afinal, a apropriação do movimento, mas pela oposição conservadora, por um punhado de grupelhos de extrema-direita antes desconhecidos e pelos grandes jornais e cadeias de televisão.

Há algum tempo eu já desejava escrever um terceiro texto, com reflexões muito pessoais, sobre as relações entre ciência, política e uma postura apartidária, tal como a descrevi nos outros textos, mas fui impedido por algumas dúvidas ideológicas mais prementes, pelo redirecionamento de minhas prioridades acadêmicas e pela turbulência política nacional que implicava muita atenção antes de qualquer posicionamento social mais consequente ou bem estruturado.

As manipulações (não no sentido pejorativo) por que passou o conceito de “apartidarismo” nas últimas semanas também me levaram a olhá-lo com alguma distância e até a pensar em abandoná-lo de vez, mas creio que com a poeira abaixada, posso resgatá-lo com mais serenidade e prevenir que influências externas direcionem minha lida com ele.

O que posso dizer e quero defender é que a noção de apartidarismo aqui expressa não tem qualquer vínculo com o antipartidarismo, e sim, com a opção consciente, por motivações várias, de não vincular organicamente a própria ação e trabalho ao serviço a um partido político específico, o qual, é claro, não deixa de ser um componente imprescindível no funcionamento de nossa democracia representativa.

Também sustento a opinião, passível de possíveis críticas, de que, por mais que a ciência esteja sujeita à pressão de diversas forças maiores – econômicas, estatais ou grupais –, ela cumpriria melhor seu papel se não se obrigasse a produzir significados políticos ou ideológicos, mas apenas se orientasse, socialmente, por valores mais gerais, porém bem definidos, de respeito à vida circulante e conservação da humanidade e de sua dignidade.

2. O trabalho histórico (ou científico em geral) se divide em três “fases epistemológicas” (as aspas indicam uma denominação provisória): a “empírica”, ou “historiográfica”, ou “técnica”, a “crítica objetiva”, ou “histórica”, ou “científica”, e a “crítica subjetiva”, ou “política”, ou “militante”, ou ainda “significadora”.

A fase “empírica” é a dos dados e fatos brutos. Exemplo: saber que tal rei proclamou tal lei em tal data por tal motivo.

A fase “crítica objetiva” é a da interpretação crítica dos dados brutos, sua contextualização dentro do conhecimento mais amplo da ciência; no caso da história, saber o que tal fato significou objetivamente para uma sociedade ou época, cujas consequências podem ser metrificadas objetivamente, mas de modo crítico, por meio de contextualizações mais gerais e correlações com outros dados ou fatos. Exemplo: saber quais foram as forças ocultas por trás da promulgação da lei, qual foi seu impacto, como outros setores da sociedade o receberam.

A fase “crítica subjetiva” tem a ver com o significado político de uma descoberta ou fato para certos grupos da sociedade, “grupos significadores”, “subjetividades individuais ou coletivas”. O significado político concerne a sentimentos afetivos, relacionados a uma escolha (nem sempre racional), ou a uma condição social, geográfica, étnica, linguística, cultural ou de gênero. Exemplo: o rei proclamou a lei porque ele era um reacionário que queria controlar a população, e o Estado da época oprimia as classes camponesas, que por isso tinham que lutar etc.

“Crítica objetiva” não é “crítica subjetiva”: a ciência não dá significado político a uma descoberta (que não é um mero “fato”, o qual se localiza ainda no nível empírico), ela explica por que algo é assim ou assado, e não qual é o sentido de algo ser assim ou assado. Um mesmo fato, e mesmo uma narração histórica científica, podem ter significados distintos para grupos diferentes.

A fase “empírica” demonstra “o que é”; a fase “crítica objetiva” demonstra “por que é assim”; e a fase “crítica objetiva” demonstra “o que significa isso ser assim, para que serve isso ser assim”.

Embora se diga que “a ciência não produz política”, o mais correto é chamá-la de “apartidária”, porque escolher a ciência é uma escolha política, fazer ciência em relacionamento com a sociedade obriga a tomar posturas sobre essa sociedade. Fazer ciência não é ser neutro, pois implica também que se reconheça que por vezes ela é constrangida por “forças maiores” ou “interesses ocultos”, que podem ser não só de classe, mas relacionados a outros grupos, burgueses/dominantes ou não.



24 de outubro de 2018

Notas sobre o apartidarismo (fev. 2013)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/apartidario2


NOTA: Este texto continua a reflexão que iniciei na postagem anterior, mas desta vez é de fevereiro de 2013, quando eu ainda desenvolvia meu senso crítico e minha opinião política pessoal, logo depois de terminar a graduação em História. O novo ano representa um salto de qualidade, pois eu já estava me preparando pra seleção do mestrado em Ciência Política (que logo resolvi mudar pra História), e precisava incrementar minhas leituras e conhecimentos. Segui observando com interesse a política nacional e mundial, e nem sei como também tinha saco pra discussões e interações superficiais no Facebook, o recurso que exatamente envenenou nossas eleições. De novo me impressionei com a adequação do texto à situação atual, ou talvez até o choque ainda maior com o senso comum de hoje, embora eu seja agora mais crítico face ao comunismo. Isso não implica ficar neutro ou alheio a estas eleições presidenciais, pois eu mesmo já fiz minha escolha. Fiz poucas modificações redacionais, e quem tem fôlego de leitura, pode ler cada item como um só parágrafo.



1. Definir-se pelo que não se é consiste num desafio e num paradoxo no mundo de hoje. Existem apolíticos, apartidários, irreligiosos e ateus com atitudes bastante positivas, mas ainda estigmatizados pelo caráter negatório dos rótulos que adotam. (Rótulos, claro, de que nem sempre eles mesmos foram os inventores.)

É um desafio porque se negam verdadeiros ídolos da modernidade, do mundo burguês forjado no século 19, sacralizados pelos grupos dirigentes e considerados naturais pelo cidadão comum. É ainda um paradoxo porque a nomenclatura negativa é apenas a superfície da ideia, quando não se está preocupado apenas em destruir, mas também em construir; na verdade, é a tomada daquele conceito negado como um reflexo invertido do novo projeto a se realizar no mundo.

2. Depois das polêmicas religiosas envolvendo ateus e irreligiosos, mas especialmente ateus, mais organizados e mais consistentes ideologicamente, os grupos mais contestados pelos ideólogos militantes (“ideólogo” como aquele que adere a um conjunto de ideias, não apenas aquele que o produz) são os apolíticos e os apartidários, num debate com reflexos principalmente nas universidades, quando não limitados às redes sociais da internet.

Ambas as posturas expressam uma desilusão com a maneira moderna de fazer política, especialmente nos níveis estatal e institucional (das organizações instituídas não necessariamente influentes no Estado), e não vislumbram para ela qualquer possibilidade de aperfeiçoamento ou correção que possam resolver os problemas estruturais de qualquer país. Contudo, apoliticismo e apartidarismo são posições absolutamente divergentes, diferindo no que se poderia classificar respectivamente como passividade e ativismo.

3. Talvez não exista, até onde eu conheça, uma definição científica, consensual e definitiva sobre o que é ser apolítico. Mas não tem qualquer valor encerrar-se na mera tomada do termo como um dado primitivo e não o submeter a alguma reflexão. Pode ser que, contrastando-o com seu oposto, o ativismo político, chegue-se a alguma conclusão: ser politizado é conhecer o meio em que se vive, lutar para intervir nele com melhoras e sugestões, é considerar a si mesmo agente da história e da vida dos semelhantes, é tomar partido (no sentido de tomar uma posição) nas questões mais prementes da sociedade, sem espaço para a neutralidade ou o absenteísmo.

Assim, ser apolítico é adotar a postura contrária a tudo isso. Veremos adiante que o politicismo não tem relação necessária com qualquer adesão organizacional. Os historiadores dizem que Benjamim Constant, considerado o Pai Fundador de nossa República, não tinha qualquer interesse por política, nem mesmo por jornais noticiosos, até ser chamado para compor o novo regime. Parece estar aí um dos estigmas do Estado brasileiro, em que temos políticos sem ideias, mas bem corporativistas; muitos partidos, mas nenhuma atitude positiva diante de nossos problemas.

4. A crítica ao sistema político partidário é uma decisão ativa, consciente, não tem nada de apolítica e muito menos de passiva. Porém, nem sempre o apartidarismo surge da contestação explícita do sistema partidário, mas pode vir de outro posicionamento consciente no teatro social. Estritamente falando, o apolítico, claro, é um apartidário por definição: quem não se interessa por política não se filia em partidos. Digo “estritamente” porque me situo no nível conceitual, não falo dos políticos conchavistas sem ideias concretas que citei acima. Mas nem todo apartidário é necessariamente um apolítico: existem pessoas e movimentos, não ligados a partidos ou correntes político-ideológicas, que atuam ativamente por determinadas causas gerais ou pelo bem-estar de uma população ou de uma dada localidade.

Além disso, existem dois tipos de apartidarismo. O primeiro é aquele descrente em toda forma de organização ideológica, que também vê a ideologia apenas como um obstáculo à ação, como uma forma de dogmatismo cego, castrador das iniciativas práticas e pragmáticas. O segundo apartidarismo é um reconhecimento explícito da opção por não aderir a qualquer partido, corrente ou tendência não pela descrença neles ou nas ideologias, mas pela escolha em atuar social e politicamente de outras maneiras. É essa definição, menos conhecida, que quero aprofundar.

5. Vladimir Lenin, o revolucionário bolchevique russo, dizia que não existe prática revolucionária sem teoria revolucionária. Essa afirmação deve ser tomada junto com sua definição de partido, uma associação de vanguarda com poucos militantes ativos que encarnam a vontade das massas e agem sozinhos, ou quase sozinhos, para derrubar o poder opressor. Apesar dessa concepção limitadora, a maior parte da esquerda brasileira de hoje (e talvez não só a brasileira) acredita que não existe política fora dos partidos ou das correntes. Eu digo que existe, sim, embora concorde com Lenin e com outros pensadores que não existe prática sem ideologia, sem teoria ou reflexão.

Uma coisa, e digo pela minha experiência, é optarmos pelo trabalho científico ou outra forma de serviço como nossa forma de fazer política, conscientes de que temos um dever a cumprir em nossa sociedade. Outra coisa é a militância ativa, a luta manifesta por direitos na forma de intervenções e protestos dentro do cotidiano coletivo. Nem sempre quem opta pela primeira opção tem tempo ou disposição para encarar a segunda. Mas ainda assim, ambas as formas são fruto de uma escolha consciente, bem pensada e adequada à própria vida, se bem que no primeiro caso a exigência de reflexão é maior, pois nem sempre a dedicação a um ofício permite saber que forças ocultas, com seu próprio ideário, comandam nossas ações e moldam nossa maneira de agir.

6. E a exigência de uma postura ética humanista de um trabalhador que lida com pessoas, especialmente do cientista, é fundamental. Não devemos ignorar que muitas vezes atuamos sob os interesses velados dos governos ou das grandes corporações midiáticas, financeiras ou industriais, e que costumamos reproduzir na prática cotidiana seu modo de pensar e agir. Mas é melhor antes estar atento a esse dado do que não estar, e é melhor antes buscar direcionar as forças do trabalho para o interesse geral ou dos mais necessitados do que execrar essa opção, tal como deveria valer, para os revolucionários, mais um burguês comunista do que um burguês reacionário, apesar da mesma situação de classe.

Não estou formulando um receituário ideológico para todo cientista ou para todos os que lidam com pessoas, mas princípios de destruição e ódio são até autofágicos, sem contar que atrasam o desenvolvimento da humanidade, criando sofrimentos inúteis. O mais importante é ter uma posição ideológica, se não pré-definida por outros nem ligada a partidos, ao menos forjada na vivência prática, na experiência de vida, ou mesmo transigir com as influências superiores e involuntárias, compondo com elas quando necessário, mas sabendo também a hora de direcioná-las diferentemente. Neutralidade é algo impossível; apoliticismo é uma forma de neutralismo, mas apartidarismo não é necessariamente um neutralismo.

7. No Brasil, assim como nos países onde a crise econômica e de civilização se agrava, a afirmação do apartidarismo é um ato corajoso, pois nos momentos dramáticos, os modelos revolucionários institucionalizados, mas nem sempre consentidos pelos ativistas sociais, e os extremismos resultantes da insatisfação com os modelos democráticos ocidentais exigem de todos, sem qualquer hesitação, uma filiação nominal muitas vezes usada como rótulo denegritório antes de qualquer argumentação.

O livre-pensamento e a independência pessoal, nesse cenário, tornam-se difíceis e se passam por sinônimos da apatia, descompromisso e fuga ao posicionamento de nosso apolítico já citado. Entretanto, apesar das tormentas, não há ao final sensação melhor do que a de ser responsável pelas suas próprias ações e ideias, sem ter que levar junto outros inocentes nem ter também que pagar pelos erros de outros colegas de partido.


Bragança Paulista, 23 de fevereiro de 2013.



22 de outubro de 2018

Politizado, apartidário e não comunista


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NOTA: Há exatamente seis anos, alguns meses depois de defender minha monografia de fim de curso e atento aos debates políticos do país, escrevi este texto pro blog Materialismo.net, que intitulei então “Sou um historiador politizado, apartidário e não comunista”. Era minha primeira e mais refinada elaboração explicando por que eu gostava de estudar o comunismo, mas não considerava a mim mesmo comunista, mesmo simpático a algumas bandeiras sociais e libertárias. Deixei o artigo online por um tempo, e uns anos depois tirei, na expectativa de que fosse enfim aderir, mesmo que informalmente, a algum partido ou corrente ideológica. Após muitas idas e vindas, minha entrada na pós-graduação e fixação como estudioso do PCB, as turbulências políticas desde 2016 e o cenário de violência que o Brasil vivencia agora, reli há pouco este texto e, apesar de seu tom idealista e subjetivo, percebi que reflete exatamente o que penso na atualidade. Por isso, republico-o abaixo, mesmo que nem tudo mereça concordância, num momento em que estamos encurralados entre o aparelhamento da história e a destruição da própria disciplina. Quem tem fôlego de leitura, pode ler cada item como um só parágrafo.



1. Este texto é bastante pessoal, mas não deixa de ter um inevitável caráter dissertativo-argumentativo. Seria muita pretensão um jovem de 24 anos, recém-formado e ainda sem emprego fixo autodefinir-se como historiador? Seria muita vaidade atribuir a mim mesmo, um inexperiente intelectual em formação, adjetivos tão marcantes e definidores de uma postura no mundo tão polêmica?

Não penso dessa forma, e inclusive a falsa modéstia que toma conta de nosso meio acadêmico, uma falsa humildade que castra iniciativas e criatividades e cria profissionais medíocres e acríticos, consiste numa ineficaz “curvatura da vara para o outro lado”, não curando o pedantismo inerente a muitos de nossos pesquisadores.

De fato, definir-me como alguém preocupado e sintonizado com os destinos de minha sociedade, não filiado ou a serviço de nenhum partido ou agrupamento político e não aderente explícito da ideologia comunista marxista é um desabafo para mim mesmo e, creio e espero, uma contribuição saudável àqueles que acompanham meu incipiente trabalho e depositam nele sérias expectativas.

2. Todo cientista deve ser politizado, não importa em que área ou ramo profissional atue, e essa é uma exigência ainda mais premente no Brasil, onde muitas pessoas padecem de necessidades materiais e espirituais e carecem, mais do que ninguém, dos benefícios de uma tecnologia eficaz e refinada. A politização não implica necessariamente a adesão pessoal a um dogma ideológico predefinido nem a filiação ou recrutamento a qualquer partido político registrado ou organização que arregimente militantes em torno da mesma práxis político-ideológica. Também não exclui tudo isso, claro, mas pressupõe, antes de qualquer alistamento e independentemente dele, um amplo conhecimento, ainda que superficial, da realidade que cerca imediatamente o cientista (instituição, classe social, grupo étnico, cidade, província ou país) e de um espaço geográfico e grupal mais amplo (continente, subcontinente, comunidade linguística, civilização e o mundo inteiro).

A ciência não é um fim em si, não se faz para si mesma, mas atende às necessidades urgentes de pessoas reais que sofrem e devem ter seus problemas mitigados. O cientista, portanto, não tolera nenhum tipo de sadismo, injustiça, opressão ou angústia inútil, é um humanista por natureza, defende o uso da técnica e do conhecimento a serviço do bom, do prazeroso e do verdadeiro a serem desfrutados por todos, meta de um construtor de ciência alocada antes de qualquer opção partidária, existencial ou pessoal.

Não há como transigir quanto a isso: se o cientista não defende ideais nobres, não é um benfeitor, mas um monstro, um psicopata com um revólver nas mãos. A sociedade capitalista tem privatizado os saberes em prol do lucro de poucas pessoas ou empresas e se aproveita da escassa ou nula consciência crítica e informativa dos jovens para perpetuar o cercamento da ciência em muros, com recursos tão desumanos e mal utilizados como as patentes e os direitos autorais. Essa barbárie deve sofrer alguma oposição.

3. “Tomar partido”, como se sabe, possui o sentido dúbio de se inscrever numa agremiação política e, como descrevi acima, o de adotar um posicionamento consciente diante da realidade circundante. Na primeira acepção, não sou de forma alguma um cientista partidário. Escolhi como tema de pesquisa histórica para a vida o Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922, inúmeras vezes tendo o registro cassado, transformado em 1992 no Partido Popular Socialista (PPS) e registrado novamente como PCB em 1995 por um grupo de militantes que havia resistido à sua dissolução.

É tentador envolver-se pessoalmente com o objeto de estudo durante o trabalho, embora muitos o tenham escolhido justamente por já possuírem esse envolvimento. Paradoxalmente, escolhi o comunismo inicialmente por certa antipatia: eu o julgava uma ideologia assassina, arbitrária e antidemocrática e, influenciado pelo lamentável panfletário liberal-direitista dos grupos socioeconômicos dominantes, desejava compreendê-lo e mostrar às presentes e futuras gerações o que não se deve fazer em matéria de política e ideologia.

Pois bem, fiz minha iniciação científica entre 2008 e 2009, confeccionei minha monografia de fim de graduação em 2011, defendi-a em 2012, li vários livros, consultei documentação primária, cursei matérias, participei de debates presenciais e online e não encontrei os tiranos malévolos que procurava, mas cidadãos sofredores, resistentes, conscientes dos problemas dos mais necessitados e que, com todas as suas deficiências teóricas e intelectuais, mantiveram em pé por 90 anos uma edificação combativa que em todos gerou fascinação e ódio, temor e esperanças, não admitindo neutralidade.

Obviamente nunca deixou de me incomodar a questão sobre como uma filosofia inicialmente libertária e emancipatória pôde inspirar regimes políticos que, para muitos, significaram o que houve de mais cruel, opressivo e usurpador na história da humanidade. Mas o dilema de aderir a um ou outro partido continuava a me atormentar consideravelmente. Concluí que esse comprometimento implicava uma dedicação à qual eu não estava disposto, não por preguiça ou maldade, mas porque via na atividade científica consciente um ato político em si mesmo, capaz de contribuir com qualquer setor social interessado, mas conforme as determinações da verdade e da justiça.

Heróis e gênios possuem a capacidade extraordinária de atuar em duas ou mais frentes simultâneas em prol de uma só causa, sem desperdiçar tempo, desempenho e energias. Mas não sou herói nem gênio, sou um ser humano simples que enlouquece se não mantiver o foco, e por isso optei pela atividade científica em detrimento do partidarismo. Não são os comunistas que não me merecem, mas eu que não mereço os comunistas.

4. Muitos poderão objetar ainda que a opção pelo comunismo não exige necessariamente a filiação a um partido, assim como aceitar Jesus, para uma grande multidão, não significa automaticamente a adesão a uma igreja instituída. Bem, não sou comunista nem cristão, não por negligência, mas novamente por desmerecimento e por questões de foco. Comunistas e cristãos fazem muitas coisas boas em nome da causa ou da própria razão, mas também podem cometer abusos por cegueira dogmática ou transtornos na consciência, como a história humana já demonstrou cabalmente.

Predefinições ideológicas, assim, não compensam tanto quanto o refinamento do caráter, com reflexos na vida pessoal e profissional, nem ajudam a fazer ciência, a qual exige criatividade, pensamento autônomo e um posicionamento crítico diante de qualquer incoerência, venha ela de quem vier, com um amadurecimento mais pessoal do que no nível de assimilar passivamente instruções vindas de fora.

Ainda de forma comparável ao cristianismo, não existe um consenso, no plano teórico e prático, sobre qual é o “verdadeiro” comunismo, e condicionar a vida e o trabalho ao envolvimento com miudezas desse gênero traz prejuízos incalculáveis a ambos. A compreensão objetiva, e não o compromisso sentimental, de um universo tão vasto, contraditório e multifacetado é uma atividade muito mais premente e benéfica até mesmo aos próprios comunistas, e é dessa forma que desejo lutar pelo bem, pela verdade e pela justiça.

O historiador-detetive, como cientista, busca uma compreensão cada vez mais precisa do que aconteceu objetivamente num determinado período ou evento histórico, mas a atribuição de um significado a esse material é função dos mais diversos grupos ideológicos e sociais de determinado espaço geopolítico. Não que o profissional, muitas vezes de forma inconsciente, não sirva a certas forças ocultas interessadas, devendo ao menos ter consciência delas e direcioná-las à satisfação mais geral possível, nem que ele mesmo possa ocasionalmente empreender a tarefa significadora. Mas, em todo caso, a adesão político-ideológica quase sempre exige coragem e disponibilidade para priorizar uma camada social específica, no caso do comunismo, o proletariado oprimido.

É uma sensação paradoxal de impotência e amor à humanidade que me faz, ao mesmo tempo, abranger tudo e não escolher nada. Mais uma vez, não é o comunismo que não me merece, mas eu que não mereço o comunismo.

5. A adesão ao comunismo e a filiação a um Partido Comunista, dadas a antipatia e o desconhecimento que a sociedade média lhes reserva, são opções que exigem valentia e disposição, mais do que qualquer escolha na vida. Mas buscar compreender objetivamente temas que foram alvo de grande paixão nos últimos 150 anos, especialmente no século 20, também não é para todos, em vista do grau de desprendimento, raciocínio crítico e amadurecimento intelectual que demandam.

A história partidarizada ou ideológica não é ruim, mas despende uma quantidade de forças e energias que poderiam ser usadas por pessoas cautelosas, mas sinceras, um tanto insossas, mas laboriosas, a realizarem o trabalho inglório da pesquisa empírica que devem ofertar aos inúmeros e distintos grupos significadores de nossa sociedade, para bem de uma própria liberação de tempo e talento destes.

A verdade e a justiça dos fatos darão conta de aparar as arestas prejudiciais, e a ciência poderá receber a devida dignificação por colaborar arduamente no esclarecimento sobre algumas das pessoas mais injustiçadas da história do Brasil.


Bragança Paulista, num chuvoso e
frio feriado de 12 de outubro de 2012.



20 de outubro de 2018

Lenin – A questão das nacionalidades


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NOTA: Estas anotações ditadas por Vladimir Ilich Lenin (1870-1924), líder da Rússia socialista e fundador da União Soviética (URSS), para suas secretárias no final de 1922 descrevem a visão que ele tinha dos problemas nacionais e nacionalistas então eclodidos na Geórgia, mas que ele mesmo acreditava poderem iluminar a situação geral no país. Sua tradução direta a partir do russo foi sugerida no início de 2017, por Lúcio Flávio Almeida, professor da PUC de São Paulo, em memória do centenário da Revolução Russa de Outubro, a ser publicada na revista Ponto e Vírgula, sediada nessa universidade. Em meio às obrigações do início de meu doutorado, assim aceitei, e o texto completo em PDF foi publicado na edição n.º 21 daquele primeiro semestre, às pp. 96-105. O material traduzido contém uma introdução minha, a nota dos editores soviéticos e as três anotações de Lenin. O Lúcio só me pediu que esperasse um tempo se eu quisesse republicar aqui, pra que eles “desfrutassem do ineditismo”, e acho que a hora chegou. Seguem os textos abaixo, sem alterações e com seus respectivos subtítulos.



Observações sobre a tradução do texto (Erick Fishuk)

A presente tradução da carta “Para a questão das nacionalidades ou da ‘autonomização’”, ditada por Vladimir Ilich Lenin às suas secretárias nos dias 30 e 31 de dezembro de 1922, baseia-se no texto publicado no volume 45 de suas Obras completas em russo, 5.ª edição de 1970 (Moscou, Editora Politizdat, pp. 356-362). Consta nesse tomo que a primeira publicação do texto ocorreu em 1956, no número 9 da revista Kommunist, tendo-se seguido um exemplar datilografado das anotações da secretária. A fonte do texto original já coloca por si só alguns problemas tradutórios.

Mesmo assim, decidi traduzir também a nota 210, que contextualiza a carta e cujo conteúdo se encontra às pp. 594-596 do mesmo volume, pois ela traz informações históricas que seriam redundantes se eu as tratasse aqui. 1956, antes de tudo, foi o ano em que o líder soviético Nikita Khruschov pronunciou seu famoso “relatório secreto”, em que condenava os abusos autoritários de Stalin, embora de modo muito parcial. Na mesma época, os próprios jornais comunistas estrangeiros publicaram o texto do chamado “testamento de Lenin”, contendo reprimendas tanto a Trotsky quanto a Stalin, e cuja autenticidade muitos negaram.

De fato, tanto os documentos pessoais de Lenin quanto os de Stalin são ainda hoje praticamente inacessíveis ao pesquisador estrangeiro, e seu conhecimento só foi possível graças a essas aparições esporádicas pelas mãos dos próprios editores e estudiosos soviéticos e russos. Deve-se lembrar que na era de Leonid Brezhnev, não se retornou à canonização pura e simples de Stalin, mas tampouco sua detração continuou tão desenfreada quanto no governo anterior. Nem Stalin nem Khruschov, ao menos no discurso oficial, teriam dado contribuições fundamentais ao desenvolvimento da URSS, e o “culto a Lenin” teria sido a resposta para preencher esse vazio de liderança. É nesse espírito que deve ser lida a introdução dos editores soviéticos.

Outra característica que tornou a tradução particularmente delicada foi o amplo uso, da parte de Lenin, de expressões etnográficas peculiares ao período tsarista e que ainda não haviam sido expurgadas da linguagem oficial; nesse aspecto, a comparação com o texto em russo da nota editorial introdutória é instrutiva. Dois termos se destacam em complexidade: inorodets, várias vezes usado em seu plural inorodtsy, e natsional. O primeiro termo designava originalmente alguém de uma nacionalidade alheia, independentemente do ponto de vista, mas na Rússia imperial passou a nomear o membro de uma das nacionalidades “minoritárias”, não russas de forma geral, em especial as residentes nos limites do império e mais especificamente os povos do Oriente. Já natsional, a despeito de sua enganosa transparência, apresentava antes um problema linguístico, referente a uma realidade que desconhecemos: é o membro de uma das populações nativas de repúblicas e províncias russas e soviéticas que se distingam pelo seu caráter etnolinguístico.

Embora a compreensão global os dispense perfeitamente, não raro recorri a colchetes no interior do texto para assinalar a expressão em russo equivalente ao que se precede imediatamente, dado que a frequente não equivalência literal me levou a empregar diversas tournures em português. Trata-se dos casos mencionados acima, além de outros em que julguei por bem explicitar escolhas não literais, bem como idiomatismos que mereceriam explicação mais detalhada. Entre os últimos estão as duas palavras usualmente traduzidas por “russo” – russki, referente à etnia, e rossiiski, referente ao Estado multinacional – e o nome Derzhimorda, retirado de uma peça de Gogol e que evoca, ao mesmo tempo, propensões militaristas e semblante amedrontador.

Por fim, mas não menos importante, a linguagem frequentemente irônica de Lenin é um dos desafios daquele que se propõe a traduzi-lo. Seus textos públicos e oficiosos são caracterizados por uma linguagem padronizada e previsível, o que facilita para quem domina os temas históricos concernentes. Contudo, seus escritos pessoais e seus panfletos polêmicos recorrem com frequência não apenas a personagens consagrados da literatura russa,* como também a evocações de situações conjeturais e a ataques espirituosos contra seus contendores. Ao tradutor brasileiro cabe uma sensibilidade apurada para discernir esse traço característico do agudo intelecto de Lenin, que não deixou de se manifestar nem na redação, nem no modo como abordou a delicada “questão nacional” da Rússia soviética no texto “Para a questão das nacionalidades ou da ‘autonomização’”, que segue traduzido abaixo.


* Um exemplo pouco conhecido no Brasil é o de seu manuscrito nomeado nas Obras completas (t. 20, 5. ed. de 1973, p. 96) como “O kraske styda u iudushki Trotskogo” (em tradução livre, “Sobre o enrubescimento do iudushka Trotsky”). Iudushka, traduzido como “pequeno Judas” ou somente “Judas”, era o epíteto dado, em polêmicas na virada do século 19 ao 20, a pessoas reputadas mesquinhas, egoístas e traiçoeiras, em menção ao personagem Porfiri Golovliov, ou “Iudushka Golovliov”, do romance A família Golovliov (1880), do escritor Mikhail Saltykov-Schedrin. É claro que a contenda tem localização histórica bem definida.


Nota introdutória dos editores soviéticos

A carta Para a questão das nacionalidades ou da “autonomização” foi escrita por V. I. Lenin, por ocasião da formação da URSS, e dedicada ao problema das relações mútuas entre os povos da União Soviética.

O motivo imediato para que Lenin escrevesse essa carta foi o conflito, dentro do Partido Comunista da Geórgia, entre o Comitê Regional Transcaucásico do PCR(b), chefiado por G. K. Ordzhonikidze, e o grupo de P. G. Mdivani.

Aquele comitê, e anteriormente o Birô Caucásico do CC do PCR(b), haviam conduzido uma linha fundamentalmente correta, alcançando a coligação das repúblicas da Transcaucásia e combatendo a posição radicalmente errônea do grupo de Mdivani, a qual havia freado na prática a unificação econômica e política das repúblicas transcaucásicas, favorecido na realidade a conservação do isolamento da Geórgia e, desse modo, entrado no jogo do nacionalismo burguês, dos mencheviques georgianos. Nos congressos, conferências e reuniões da militância partidária, os comunistas da Geórgia consideraram com justeza essa posição de Mdivani e seus adeptos como um desvio nacionalista. Lenin criticava as errôneas visões de princípio desse grupo, e exatamente se contrapondo a Mdivani e seus apoiadores, Lenin sublinhou, em resolução do Birô Político do CC do partido escrita por ele em novembro de 1921, sobre a questão da criação da Federação Transcaucásica: “Reconhecer a federação das repúblicas transcaucásicas como absolutamente acorde a nossos princípios e indiscutivelmente passível de realização” (Obras completas, 5.ª ed., tomo 44, p. 255, em russo). Havendo os aliados de Mdivani insistido, mesmo após o pleno do CC do PCR(b) de outubro de 1922, que a Geórgia devia entrar na URSS diretamente, e não por intermédio da Federação Transcaucásica, Lenin revelou-se descontente, em telegrama ao Comitê Regional Transcaucásico e ao CC do PC da Geórgia, com as atitudes daquele grupo e censurou resolutamente sua “injúria contra Ordzhonikidze”. “Estou convencido – escreve Lenin – de que todas as discordâncias estão resolvidas com as resoluções do pleno do CC pela minha participação indireta e pela participação direta de Mdivani” (Obras completas, 5.ª ed., tomo 54, p. 300, em russo).

Ao mesmo tempo, Ordzhonikidze também cometeu graves erros. Ele não demonstrou a devida transigência e precaução ao realizar a política nacional do partido na Geórgia, incorreu em burocratismo e precipitação ao executar algumas medidas e nem sempre considerou a opinião e os direitos do CC do PC da Geórgia. Ordzhonikidze também não manteve uma postura digna nas inter-relações com o grupo de Mdivani. Ordzhonikidze chegou ao ponto de, tendo sido ofendido por um dos adeptos desse grupo, agredi-lo fisicamente.

Demonstrando discordar da posição do Comitê Regional Transcaucásico, os apoiadores de Mdivani, constituindo maioria no CC do PC da Geórgia, saíram do CC e apresentaram queixa ao CC do PCR(b). Em 25 de novembro de 1922, o Birô Político adotou a resolução de enviar à Geórgia uma comissão chefiada por F. E. Dzerzhinski para examinar imediatamente o requerimento dos membros do CC do PC local.

A “questão georgiana” muito incomodava Lenin, o qual, como se lê no diário de suas secretárias, esperou com impaciência o retorno de Dzerzhinski. Em 12 de dezembro ele chegou a Moscou, e no mesmo dia Vladimir Ilich teve com ele uma prolongada conversa. Mais tarde, em janeiro de 1923, Lenin diria para L. A. Fotieva: “Às vésperas de minha doença, Dzerzhinski falou-me sobre o trabalho da comissão e sobre o ‘incidente’, e isso me atingiu com muita força”. Lenin relacionava a “questão georgiana” com a questão geral da formação da URSS, mostrando-se inquieto sobre o quão consequentemente os princípios do internacionalismo proletário seriam realizados ao unirem-se as repúblicas. Em 14 de dezembro de 1922, Vladimir Ilich tencionou ditar uma carta sobre a questão nacional, ou seja, a formação da URSS, mas não pôde então executar seu plano. Numa listagem ditada por Lenin em 27 ou 28 de dezembro com os temas das próximas cartas e artigos, figura o tópico “Sobre a questão nacional e o internacionalismo (em vista do mais recente conflito no partido georgiano)”.

Na carta “Para a questão das nacionalidades ou da ‘autonomização’”, Lenin reprovou a conduta de Ordzhonikidze e julgou que a comissão de Dzerzhinski não teria demonstrado a devida imparcialidade ao investigar o “conflito georgiano”. Lenin atribuiu a responsabilidade política por todo esse caso, em primeiro lugar, a Stalin, visto que como secretário-geral do CC ele cometeu sérios erros durante a união das repúblicas. Lenin não apoiava a errônea posição de princípio de Mdivani sobre as questões da Federação Transcaucásica e da formação da URSS. Mas, percebendo naquele instante o chauvinismo de grande potência como perigo principal e considerando que a tarefa de combatê-lo repousava antes de tudo sobre os ombros dos comunistas da nacionalidade antes dominante, Lenin concentrou a atenção precisamente nos erros de Stalin, Dzerzhinski e Ordzhonikidze quanto à “questão georgiana”.

Na carta “Para a questão das nacionalidades ou da ‘autonomização’”, Lenin lançou luz sobre os mais importantes problemas da política nacional do partido. Ele considerava essa carta como norteadora, atribuiu-lhe um grande significado e tencionava que mais tarde a publicassem na qualidade de artigo. Contudo, por causa do agravamento inesperadamente forte da doença após 6 de março de 1923, Vladimir Ilich não teve tempo de tomar a decisão final com relação à carta “Para a questão das nacionalidades ou da ‘autonomização’”. Em 16 de abril de 1923, L. A. Fotieva encaminhou a carta de V. I. Lenin ao Birô Político. No 12.º Congresso do PCR(b) essa carta foi revelada a cada delegação em separado, e em conformidade com as indicações de Lenin, no projeto de resolução então aprovado sobre a questão nacional, foi incluída uma série de importantes mudanças e acréscimos.


Anotações de 30 de dezembro de 1922, tomadas por M. V.

Penso que sou fortemente culpado, perante o operariado da Rússia, por não ter intervindo com a energia e a acuidade suficientes no famigerado debate sobre a autonomização, oficialmente chamado, ao que parece, questão da união das repúblicas socialistas soviéticas.

No verão, quando essa questão emergiu, eu estava doente, e em seguida, no outono, depositei excessivas esperanças em minha recuperação, e em que os plenos de outubro e dezembro me dessem a possibilidade de intervir nesse debate. Mas, pelo contrário, eu não tive tempo de estar nem no pleno de outubro (sobre essa questão) nem no de dezembro, e dessa forma a questão me passou quase completamente ao largo.

Tive tempo apenas de conversar um pouco com o cam. Dzerzhinski, que havia chegado do Cáucaso e me contou qual era o estado dessa questão na Geórgia. Também tive tempo de trocar uma palavra com o cam. Zinoviev e expressar-lhe meus receios no tocante a esse problema. Daquilo que comunicou o cam. Dzerzhinski, que esteve à frente da comissão enviada pelo Comitê Central para “investigar” o incidente georgiano, eu só pude extrair os mais fortes temores. Se as coisas chegaram ao ponto de Ordzhonikidze irromper em empregar a força física, como me foi relatado pelo cam. Dzerzhinski, pode-se então imaginar em que pântano nos precipitamos. Pelo visto, todo esse capricho de “autonomização” era radicalmente inverídico e infundado.

Dizem que era exigida a unidade do aparelho. Mas de onde saíram essas assertivas? Não seria do velho aparelho da Rússia, o qual, como eu já apontei num dos números anteriores de meu diário, nós emprestamos ao tsarismo e o mundo soviético mal começou a engraxar?

Sem dúvida seria necessário adiar essa medida até que pudéssemos dizer que garantimos o nosso aparelho como nosso. E agora podemos dizer sinceramente o contrário, que chamamos de nosso um aparelho que na realidade ainda é inteiramente estranho a nós e constitui um imbróglio burguês e tsarista, cuja modificação em cinco anos, ante a ausência da ajuda de outros países e o predomínio dos “trabalhos” bélicos e do combate à fome, era completamente impossível.

Em tais condições, é muito natural que a “liberdade de sair da união”, com a qual nos legitimamos, se revelará um documento vazio, incapaz de defender as outras nacionalidades da Rússia [rossiiskie inorodtsy] da invasão daquele homem genuinamente russo [russki], do chauvinista grão-russo, enfim, do patife e opressor que constitui o típico burocrata russo. Não há dúvidas de que o ínfimo percentual de operários soviéticos e sovietizados afundará nesse mar de canalhas grão-russos e chauvinistas, como a mosca no leite.

Em defesa dessas medidas, dizem que se dividiram os comissariados do povo diretamente concernentes à psicologia e à educação das nacionalidades. Mas aí existe a questão sobre se é possível dividir plenamente esses comissariados, e a questão sobre se nós tomamos, com o cuidado suficiente, medidas para realmente defender as outras nacionalidades [inorodtsy] do leão-de-chácara [derzhimorda] genuinamente russo. Julgo que não tomamos essas medidas, embora pudéssemos e devêssemos tomá-las.

Penso que desempenharam aí um funesto papel a precipitação e o fervor burocratista de Stalin, bem como sua exasperação contra o tão falado “social-nacionalismo” [sotsial-natsionalizm]. Via de regra, a exasperação costuma desempenhar na política o mesmo papel danoso.

Temo ainda que o cam. Dzerzhinski, que viajou ao Cáucaso para investigar o caso dos “crimes” desses “sociais-nacionalistas”, tenha lá se distinguido também somente pelo seu humor genuinamente russo (é sabido que as nacionalidades russificadas [obrusevshie inorodtsy] sempre se desmesuram quanto ao humor genuinamente russo) e que a imparcialidade de toda a sua comissão tenha se caracterizado pela “pancadaria” de Ordzhonikidze. Eu penso que nenhuma provocação e nem mesmo qualquer ofensa possam justificar essa pancadaria russa, e que o cam. Dzerzhinski é irreparavelmente culpado por haver levianamente lidado com essa pancadaria.

Ordzhonikidze era a autoridade perante os demais cidadãos do Cáucaso, não tinha o direito a tal irritabilidade, à qual ele e Dzerzhinski se referiram. Ordzhonikidze, ao contrário, estava obrigado a controlar-se de um jeito que não era obrigatório a nenhum cidadão comum, e ainda mais inculpado por um crime “político”. Pois para falar a verdade, os sociais-nacionalistas eram cidadãos inculpados por um crime político, e apenas assim todas as circunstâncias desse crime podiam qualificá-lo.

Daí se levanta já uma importante questão de princípio: como compreender o internacionalismo?*


* O seguinte texto está riscado adiante nas notas estenográficas: “Penso que nossos camaradas não se orientaram o suficiente nessa importante questão de princípio”. (Nota dos redatores soviéticos)


Lenin


Anotações de 31 de dezembro de 1922, tomadas por M. V.

Eu já havia escrito em minhas obras sobre a questão nacional que não serve para nada avançar a questão do nacionalismo de forma genérica e abstrata. É necessário distinguir entre nacionalismo de nação opressora e nacionalismo de nação oprimida, entre nacionalismo de nação grande e nacionalismo de nação pequena.

No que concerne ao segundo nacionalismo, quase sempre nós, naturais [natsionaly] de uma nação grande, revelamo-nos culpados na prática histórica por uma quantidade infinita de violações, e inclusive mais do que isso – sem perceber estamos perpetrando uma série enorme de violências e ultrajes –, basta apenas se lembrar de minhas memórias do Volga sobre como nós maltratamos os não russos [inorodtsy], chamando os poloneses apenas de “polacozinhos” [poliachishka], zombando dos tártaros apenas como “príncipes” [kniaz], dos ucranianos apenas como “topetudos” [khokhol], e dos georgianos e outros povos do Cáucaso como “carcaças” [kapkazski chelovek].

Por isso, por parte da nação opressora, também chamada nação “grande” (embora seja grande apenas em suas violações, grande apenas como é grande um leão-de-chácara [derzhimorda]), o internacionalismo deve consistir não apenas na observância da igualdade formal entre as nações, mas também numa desigualdade que compense, por parte da nação opressora, da nação grande, aquela desigualdade que se produz na vida real. Quem não entende isso, não entende realmente a posição proletária diante da questão nacional, permanece essencialmente no ponto de vista pequeno-burguês, e por isso não deixa de descambar a todo instante no ponto de vista burguês.

O que importa para o proletário? Ao proletário não é apenas importante, mas também vitalmente necessário, garantir o máximo de confiança por parte dos povos subjugados [inorodtsy] na luta proletária de classes. O que é preciso para tanto? Para tanto é necessária não somente a igualdade formal, mas também compensar de uma forma ou outra, em suas declarações e concessões relacionadas às outras nacionalidades [inorodets], a desconfiança, a suspeita e os ressentimentos infligidos no passado histórico por quem governava o povo [natsia] da “grande potência”.

Penso que não preciso continuar elucidando isso em detalhes aos bolcheviques, aos comunistas. E penso que no referido caso, com relação ao povo georgiano, temos um exemplo típico de quando se exigem uma prudência, civilidade e transigência especiais de nossa parte para abordamos o assunto de forma realmente proletária. O georgiano que reserva desdém para com esse lado da questão usa e abusa da acusação de “social-nacionalismo” (quando ele mesmo, nos fatos e na essência, não é apenas um “social-nacionalista”, mas também um grosseiro leão-de-chácara [derzhimorda] grão-russo), esse georgiano, na verdade, transgride os interesses da solidariedade classista proletária, pois nada bloqueia tanto a evolução e o reforço dessa solidariedade quanto a opressão nacional [natsionalnaia nespravedlivost], e nada sensibiliza tanto os nativos [natsionaly] “ofendidos” quanto o sentimento de igualdade e a violação dessa igualdade, mesmo que apenas por descuido ou até em forma de gracejo, por parte de seus camaradas proletários. É por isso que, em tal situação, é melhor pecar pelo excesso de transigência e brandura para com as minorias nacionais do que pela falta delas. É por isso que, nesse caso, o interesse fundamental da solidariedade proletária e, por conseguinte, da luta proletária de classes exige que nunca incorramos em formalismo ante a questão nacional e que sempre levemos em conta a impreterível diferença de abordagem entre o proletário de nação oprimida (ou pequena) e o de nação opressora (ou grande).


Lenin


Anotações de 31 de dezembro de 1922, tomadas por M. V. (continuação)

Quais as medidas práticas que devem ser tomadas diante da situação que se criou?

Primeira, deve-se conservar e reforçar a união das repúblicas socialistas; dessa medida ninguém pode duvidar. Ela é necessária a nós, bem como ao proletariado comunista internacional para combater a burguesia mundial e defender-se de suas maquinações.

Segunda, precisamos manter a união das repúblicas socialistas no tocante ao aparelho diplomático. A propósito, esse aparelho é formado exclusivamente por quadros de nosso Estado. Nele não foi admitida nenhuma pessoa minimamente influente do velho aparelho tsarista, e todos os cargos, desde os menos autorizados, foram ocupados por comunistas. Por isso, esse aparelho já granjeou para si (pode-se dizer corajosamente) o título de provadamente comunista, purificado dos resquícios tsaristas, burgueses e pequeno-burgueses num grau incomparável e incomensuravelmente maior do que aquele com o qual somos forçados a contentarmo-nos nos demais comissariados do povo.

Terceira, deve-se punir exemplarmente o cam. Ordzhonikidze (falo isso com tanto mais pesar quanto sou um de seus amigos pessoais e trabalhei com ele durante o exílio no exterior), bem como fazer uma investigação adicional ou nova de todo o material da comissão de Dzerzhinski, com o propósito de corrigir a imensa massa de falhas e apreciações tendenciosas que sem dúvida ele contém. A responsabilidade política por toda essa verdadeira campanha nacionalista grã-russa deve ser atribuída, claro, a Stalin e Dzerzhinski.

Quarta, precisamos estabelecer as mais rígidas regras quanto ao emprego das línguas nacionais nas repúblicas não russas [inonatsionalnye] que entrarem em nossa união e aplicar essas regras com especial diligência. Não há dúvidas de que sob o pretexto de unificar em nosso país o serviço ferroviário, a arrecadação tributária etc., com o aparelho que temos atualmente, se infiltrarão inúmeros abusos de caráter genuinamente russo. Para combater esses desmandos, é necessária uma destreza especial, sem falar na particular sinceridade dos que aceitarem entrar nessa luta. Será exigido aí um código detalhado, o qual apenas os naturais [natsionaly] de cada república poderão redigir com um grau mínimo de êxito. Além disso, deve-se garantir de antemão por todos os meios que, ao fim de todo esse trabalho, retorne-se novamente ao próximo Congresso dos Sovietes, ou seja, que se conserve a união das repúblicas socialistas soviéticas apenas nos quesitos militar e diplomático, e que se restaure em todos os outros âmbitos a plena autonomia de cada comissariado do povo.

Deve-se ter em vista que o fracionamento dos comissariados do povo e o desarranjo do trabalho deles com Moscou e com outros centros podem ser refreados por uma autoridade afinada o bastante com a linha do partido, se ela for empregada com o mínimo suficiente de precaução e imparcialidade; o dano que a ausência de aparelhos para cada nacionalidade [apparaty natsionalnye] unidos ao aparelho russo pode causar a nosso Estado é infinitamente, incomensuravelmente menor do que o dano que causará não somente a nós, mas também a toda a Comintern, a centenas de milhões de habitantes da Ásia que esperamos atuarem no futuro imediato como vanguarda histórica depois de nós. Seria um oportunismo imperdoável se desfizéssemos, às vésperas desse protagonismo do Oriente e no início de seu despertar, nossa autoridade nessa região cometendo a menor grosseria ou injustiça para com os próprios não russos [k nashim sobstvennym inorodtsam]. Uma coisa é a necessidade de coligarmo-nos contra os imperialistas do Ocidente, que defendem o mundo capitalista; dela não se pode duvidar, e não preciso repetir como eu apoio irrestritamente essas medidas. Outra coisa é quando nós mesmos recaímos, ainda que em detalhes mínimos, na abordagem imperialista para com as nacionalidades oprimidas, assim quebrando completamente toda nossa franqueza de princípios, toda nossa defesa ideológica do combate ao imperialismo. E o dia de amanhã na história mundial será exatamente o dia em que os povos oprimidos pelo imperialismo finalmente começarão a despertar e em que começará a longa e penosa luta decisiva por sua libertação.


Lenin



18 de outubro de 2018

Le romanophonos non usa Interlingua


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NOTA: Eu escrevi este breve texto reflexivo em setembro de 2012 e o gravei lendo em áudio pra que fosse transmitido pela Radio Interlingua, iniciativa conduzida pelo húngaro Péter Kovács e apoiada pela União Mundial de Interlíngua (UMI), órgão internacional que gere a defesa dessa língua auxiliar. Ele se chama “Proque le romanophonos non usa Interlingua?” (Por que os falantes de línguas românicas não usam a interlíngua?), e com ele pretendi explicar por que, apesar da enorme semelhança, os italianos, portugueses, brasileiros, espanhóis e latino-americanos, bem como franceses, romenos e outros falantes destes idiomas, não demonstram muito entusiasmo pela chamada “interlíngua da IALA”. Como já citei nesta página outras vezes, ela foi lançada em 1951 pela Associação Internacional por uma Língua Auxiliar (IALA), sediada nos EUA, como alternativa mais “naturalista” ao esperanto, o qual muitos julgam artificial na ortografia, pronúncia, vocabulário e gramática. Por ser muito próxima das maiores línguas românicas e do latim, publico aqui o texto não traduzido, embora eu não escreveria mais nesse estilo hoje, e no podcast eu tenha lido muito rápido. Minha gratidão a Kovács pelas correções no escrito e no áudio.



Proque le romanophonos non usa Interlingua?

On ha frequentemente dicite in Radio Interlingua que apparentemente al romanophonos non place multo usar Interlingua inter se pro communication international. Isto, de facto, es ver. Secundo mi experientia in Brasil, io pote dicer que il ha plure motivos cultural pro isto.

Le prime esserea que le duo linguas romanic le plus parlate, le espaniol e le portugese, es multo simile inter se, e quando on non los ha apprendite in avantia, on pote practicamente communicar per medio de un sorta de “portuniol”, plus o minus efficace conforme al particularitates del region a ubi on viagia. Obviemente il existe multo del assi nominate “false amicos”, ma in general illos non prejudica gravemente le comprension.

Super le italiano, le cosa non es troppo differente, malgrado su notabile particularitates, ma le gente qui sole vader a Italia quasi sempre ha apprendite le lingua in avantia, si illes va habitar o studiar la, o simplemente non lo apprende, o apprende elementos basic, si illes es touristas. Illes non senti le necessitate de un instrumento neutral de communication.

On poterea ancora dicer alco super le francese e le romaniano, le quales ha un grande distantia morphologic e grammatic del latino, ma non solmente iste facto facerea justemente le gente apprender iste linguas profundemente como tamben le relative distantia cultural e ethnic ab le altere paises romanophone non permitterea que iste populos pote reguardar se como un sol grande unitate; al minus il pare esser isto le caso. On trova poco in iste gruppo un sentimento simile al “pan-slavismo” que pare resurger specialmente sur Internet e que demanda, inter altere cosas, un lingua commun extrahite ab un fonte commun.

Ultra isto, le idea de un lingua planate pro tote le mundo sole esser absolutemente estranie al pragmatic brasilianos, si desirose de includer se a in le joco del mercato e del media de massa, cuje symbolo, totes sape ben, es le anglese. Ci on vermente pensa que illo es le sol lingua que ja joca e que potera jocar longemente le mesme rolo como Interlingua. Isto indica clarmente un forte influentia de nostre quasi vicinos statounitese...

De maniera resumite, io crede que forsan le paises romanophone hodie, malgrado lor honorabile hereditage, non lo ha ben conservate, como on pote vider in paises como Brasil, ubi ora le inseniamento del latino e le greco classic es restricte al cursos universitari de philologia, linguistica e philosophia. Nostre governamentos, e mesmo le populo, ha pensate que esser moderne es copiar sin criticas le cosas ephemere del cultura de massas. On non sape que instrumentos como Interlingua pote facer reviver le fructuose base humanistic del mundo occidental e dar al scientia, le diplomatia e le politica le lingua commun que on besonia pro realisar le sonio de un humanitate unite e un juventute intelligente.



16 de outubro de 2018

“Esperanto, ciência e história” (inédito)


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NOTA: Este artigo deveria integrar a versão inaugural em português da revista Heroldo de Esperanto, fundada nessa língua auxiliar em 1920, reestruturada e hoje editada pelo meu amigo Fabrício Valle. Escrevi-o em novembro de 2017, e ele deveria sair no começo deste ano ou um pouco depois, mas o redator disse que a publicação seria adiada, por causa do não atendimento de alguns padrões, e depois não deu mais satisfação. Sinto-me na liberdade de publicar o texto aqui pela primeira vez e sem alterações, pois ele contém minhas reflexões mais maduras sobre a natureza do esperanto e da interlinguística em geral. Inclusive, uma de minhas preocupações pra um futuro não muito distante seria recomeçar a reflexão sobre o esperanto dentro da óptica das ciências humanas atuais, sobretudo a história. Perdoem-me pelos parágrafos grandes e pelas frases longas.



Nos quadros desta tão louvável iniciativa de trazer o esperanto de volta à realidade terrena, projeto central da revista Heroldo renovada, nada melhor do que dissertar a respeito das relações que esta língua, ao longo de sua existência centenária, manteve com as concepções predominantes sobre o que eram o fazer científico e as reflexões historiográficas. A língua internacional nasceu num cenário intelectual marcado exatamente por estas duas linhas mestras: a ciência como fornecedora de saber incontestável e a história como guia moral e identitário para as empreitadas humanas.

Zamenhof iniciou o esperanto em 1887, quando os cientistas e pensadores de todas as áreas julgavam que a realidade empírica era una, inequívoca e refletida sem mediações em nossos cérebros. Caberia à ciência, portanto, refinar os melhores meios para encontrarmos essa “verdade” oculta a nossos olhos viciados por ideologias e preconceitos, até que um dia tudo saberíamos e empregaríamos para o bem geral e contra todo dissenso. Por trás da ideia esperantista, encontra-se o pressuposto de que é possível alcançar artificialmente uma língua lógica, racional, exata e de estruturação matemática, cujos elementos se articulariam sem margem a gírias, calões ou ambiguidades. A língua internacional seria o grande código a unir no futuro, após longo progresso retilíneo, uma civilização humana dona de si e de seus meios de produção e reprodução. Era o momento propício para belas frases de efeito, como “Para cada povo uma língua, e para todos o esperanto” ou “Nem uma centena de grandes invenções fará tão bem à humanidade quanto a adoção de uma língua internacional” (Zamenhof).

As décadas posteriores, e a primeira metade do século 20 em especial, desmentiram essas esperanças do modo mais brutal possível. A sacrossanta ciência multiplicou os morticínios, a história não tinha visto jamais tamanho barbarismo e desprezo pelas liberdades individuais, os códigos e tecnologias de diversas naturezas que tornavam mais fáceis as comunicações mútuas não barraram as hostilidades, e o esperanto, desprezado pelos donos das grandes potências, foi perseguido, estigmatizado e interditado por várias ditaduras. Em resumo, a ciência já não era mais fiadora da “verdade” universal, e a história não orientava automaticamente nenhum rumo possível. Como poderia o esperanto, num mundo de incertezas e desilusões, continuar a atrair adeptos, ou mesmo provar sua utilidade para os fins a que desde o início se propôs?

As boas ideias não morrem jamais, como prova o fato de há muitos séculos os melhores pensadores terem levantado o problema de uma língua universal, ou pelo menos internacional. Apesar das intensas transformações geopolíticas e no modo de vida das comunidades urbanas, o esperanto continuou e continua a despertar interesse e ver seu movado crescendo, enquanto outros projetos de línguas auxiliares internacionais simplesmente desapareceram ou foram relegados a uma digna marginalidade. Obviamente, algumas crenças anteriores foram retificadas: a ciência se tornou um discurso cujos significados são disputados a cada momento, e cujos consensos provisórios constituem sua validade, mas também sua possibilidade de avanço; a história passou de um mero rol descritivo dos feitos, acontecimentos e heróis pretéritos para um conjunto de indagações, problemas e métodos destinados não a reconstituições exatas, mas à compreensão dos usos e abusos que os mais diversos grupos fazem dos resquícios do passado; e os idiomas tombaram de sua condição de reflexo exato da realidade para um campo de conflitos simbólicos onde o significado não é uma essência escondida, mas um momento fugaz, consentido e historicamente datado.

Nada disso poupou a língua universal. Como numa simbiose bem informada, o esperanto aos poucos se absteve de sua pretensão racionalista, admitiu sua natureza humana, inexata, equívoca e dialetológica, incorporou com cuidado as novas realidades novecentistas e, o que foi mais importante, proliferou-se pelas redes sociais, grupos de mensagem e outras conquistas das telecomunicações. De fato, certo dogmatismo ainda predomina nas gerações mais velhas, mas ele é justamente reflexo desse mundo sacralizado, quadrado, hoje derretido pelos jovens multiconectados. O mais importante é que o esperanto, mesmo não se dizendo dono da história, possui sua própria história, e uma comunidade na qual vive e se ancora, comunidade viva da qual nenhuma bela abstração pode prescindir.

Os estudos interlinguísticos ainda estão para dar conta das facetas social, gramatical, política, lógica e psicológica que permitiram o relativo sucesso do esperanto. Mas, nascido como portador da “verdade”, sua resistência num mundo sem verdades científicas e históricas é um milagre.



14 de outubro de 2018

Orações faladas em latim eclesiástico


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Nesta postagem, vocês podem aprender as seguintes orações, escritas e recitadas na língua oficial do Vaticano, a versão eclesiástica da língua latina: o Sinal da Cruz, o Credo (Creio), o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Glória, a Oração de Fátima e o Salve-Rainha. Todas essas preces constituem o conjunto geralmente chamado Santo Rosário ou, como parte dele, o Terço Mariano. Recitei ainda dois apêndices com os nomes de todos os Mistérios do Rosário em latim e o texto do chamado Credo de Niceia, ou “símbolo niceno-constantinopolitano”, ainda rezado tradicionalmente em missas. A ortografia está atualizada conforme os padrões estabelecidos na Idade Moderna, e a pronúncia segue o padrão romano, ou seja, baseado essencialmente na língua italiana contemporânea. O latim eclesiástico (que se desenvolveu em 2 mil anos de uso pelos católicos) tem algumas diferenças com o latim clássico (calcado na língua culta escrita no século 1 a.C.), principalmente a sintaxe mais simples e o vocabulário mais próximo dos atuais idiomas românicos ou neolatinos.

O Pai-Nosso é baseado numa oração que Jesus Cristo teria enunciado em seu Sermão da Montanha, cujo relato começa no capítulo 5 do Evangelho segundo são Mateus. A Ave-Maria, cuja tradição se iniciou na cristandade bem depois e que reúne trechos de evocações proféticas feitas no Antigo Testamento, é conservada, sobretudo, pela Igreja Católica, que lhe deu a versão latina final. Nos primeiros séculos, a liturgia cristã era feita em grego, língua na qual também foi escrito o Novo Testamento (variante koiné comum, e não o antecessor ático clássico dos séculos 6 a 4 a.C.). Mas com o gradual aumento da primazia de Roma, o latim passou a ser cada vez mais usado, conservando o idioma que já não era mais falado após a queda do Império Romano do Ocidente.

A pronúncia da língua latina entre os romanos variou muito, pois a língua também era diversa, conforme a classe social, origem geográfica e época em questão. A chamada pronúncia reconstituída, que teria sido usada pelos romanos cultos no século 1 a.C., pronuncia, por exemplo, a palavra Caesar como “káiçar”, e tem uma abrangência muito limitada. Ao longo dos séculos, a pronúncia real do latim pós-romano também variou muito, e essencialmente cada região onde ele ainda era usado como idioma culto o pronunciava conforme os vernáculos regionais. Além disso, até o século 19, a pronúncia eclesiástica em nada diferia da usada na ciência, tecnologia, filosofia, artes e literatura: o latim era considerado um só, cada país pronunciando conforme peculiaridades locais. Apenas no final do século 19 a pronúncia dita “romana” (Caesar = “tchézar”) se consolidou entre os católicos, mas na liturgia os vernáculos ganhavam cada vez mais espaço, deixando de ser obrigatória em 1961 a missa tridentina (em latim).

Nesta postagem eu apresentei a vocês o vídeo que montei, ensinando a pronúncia do latim eclesiástico (romano), e as regras citadas foram aplicadas também aqui. Minhas duas principais fontes pros textos das orações foram este blog que faz apologia à reza em latim e este blog que ensina a rezar o Terço na língua litúrgica. Mas a correção e completação finais das preces devo a este ótimo site inglês, que contém ainda as traduções em vernáculo. Eu mesmo não traduzi, porque são orações conhecidas e fáceis de pesquisar em suas versões modernas; apenas o Pater Noster usa a variante, menos comum em português, “perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Da mesma forma, não ensino aqui como rezar o Rosário ou o Terço, porque compete aos fiéis aprendê-los.

Vou fazer algumas observações sobre a linguagem. Minha escolha mais evidente foi o uso da letra “j” pro som do “i” semivocálico, e o uso das ligaturas “æ” e “œ” no lugar das letras “ae” e “oe” separadas. Neste segundo caso, as ligaturas indicam os ditongos “ái” e “ói” clássicos, que na língua medieval passaram a pronunciar-se “é” aberto. Inclusive, optei por escrever apenas cœlum (céu), que é padrão nos textos medievos, segundo o Wiktionary, e não cælum, embora esta também apareça na liturgia. A escolha pelo “j” explica por que se leem, por exemplo, Jesus, judicare, Jordanem, bajulavit (Jesus, julgar, Jordão, carregou – cf. “bajular”), e não Iesus, iudicare, Iordanem, baiulavit. Apenas escrevi errado no vídeo eius (seu, dele) e Eia (eia!), que em coerência deveriam ser ejus e Eja. Lembre-se, então: a letra “i” é sempre vogal, nunca consoante, então dizemos “fi-li-us”, e não “fi-lius”, “ter-ti-a”, e não “ter-tia”, “ho-di-e”, e não “ho-die”.

Notavelmente, na Nova Vulgata (a Bíblia latina autorizada pelo Vaticano), a expressão panem nostrum quotidianum (o pão nosso de cada dia) traz supersubstantialem como adjetivo. Ele é um decalque do original grego epioúsios, mas mesmo neste caso não se sabe exatamente o que o autor quis dizer, porque a palavra não aparece fora desse texto (ou seja, seria um hapax). Sugerem-se como traduções “essencial”, “substancial”, “diário” ou “sustento para a vida”. Sobre a Oração de Fátima, um dos autores dos blogs citados escreveu: “Existem algumas variações para a tradução desta oração, mas preferimos traduzir ‘conduzi’ por pérduc e não cónduc pois o verbo perdúco, -ere tem sentido mais forte do que condúco, -ere, significando conduzir até o fim. O termo misericórdiae túa às vezes se encontra como misericórdia túa, sendo ambas corretas, uma vez que o verbo indigeo, -ére pode reger tanto ablativo quanto genitivo.” E atenção: inferi, aqui declinado como inferos, significa “almas dos mortos” ou “mundo dos mortos”, e não “inferno”! Por isso, em muitas traduções aparece como “mansão dos mortos”.

Concluindo, a sílaba tônica está bem audível na pronúncia dos vídeos, mas ela também vem marcada com um acento agudo nas transcrições abaixo. Textos latinos, mesmo os eclesiásticos, em geral, não levam sinais diacríticos, mas pra comodidade do leitor, acentuei todas as palavras com duas ou mais sílabas, mesmo parecendo evidente, exceto a ligatura “œ”, por razões técnicas, mas que aqui é sempre tônica. Eu falo o “a” sempre aberto, o “e” (ou “æ” e “œ”) e “o” abertos em sílaba tônica, e o “e” (ou “æ” e “œ”) e “o” fechados em sílaba átona. Também removi a distinção entre vogais curtas e longas, não as indicando nem com braquia, nem com mácron. Desta forma, perde-se a diferença entre terra (nominativo) e in terrā (ablativo).

Integrando os dois vídeos que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube) hoje mesmo e em julho do ano passado, este material é utilizável tanto por católicos ou cristãos em geral, quanto por estudiosos ou simples curiosos. Sei que muitos tradicionalistas não concordam com a criação dos “mistérios luminosos” (ou “da luz”) pelo papa São João Paulo 2.º, mas inseri-os aqui por mero fim de documentação. Consegui a tradução deles em português no manual Terço na mão e fé no coração!, de Sônia Venâncio, publicado pela Canção Nova e disponível no Google Books. A música de fundo no primeiro vídeo são partes da Marcha da Igreja (instrumental), composta por David Julien.






SINAL DA CRUZ

Per sígnum Crúcis de inimícis nóstris líbera nos, Déus nóster. In nómine Pátris, et Fílii, et Spíritus Sáncti. Ámen.


CREDO (CREIO)

Crédo in Déum Pátrem omnipoténtem, Creatórem cœli et térræ. Et in Jésum Chrístum, Fílium éjus únicum, Dóminum nóstrum, qui concéptus est de Spíritu Sáncto, nátus ex María Vírgine, pássus sub Póntio Piláto, crucifíxus, mórtuus, et sepúltus, descéndit ad ínferos, tértia díe resurréxit a mórtuis, ascéndit ad cœlos, sédet ad déxteram Déi Pátris omnipoténtis, índe ventúrus est judicáre vívos et mórtuos. Crédo in Spíritum Sánctum, sánctam Ecclésiam cathólicam, sanctórum communiónem, remissiónem peccatórum, cárnis resurrectiónem, vítam ætérnam. Ámen.


PAI-NOSSO

Páter Nóster, qui es in cœlis, sanctificétur nómen túum. Advéniat régnum túum. Fíat volúntas tua, sícut in cœlo et in térra. Pánem nóstrum quotidiánum da nóbis hódie, et dimítte nóbis débita nóstra sícut et nos dimittímus debitóribus nóstris. Et ne nos indúcas in tentatiónem, sed líbera nos a málo. Ámen.


AVE-MARIA

Áve María, grátia pléna, Dóminus técum. Benedícta tu in muliéribus, et benedíctus frúctus véntris túi, Jésus. Sáncta María, Máter Déi, óra pro nóbis peccatóribus, nunc, et in hóra mórtis nóstræ. Ámen.


GLÓRIA

Glória Pátri, et Fílio, et Spíritui Sáncto. Sícut érat in princípio, et nunc, et sémper, et in sǽcula sæculórum. Ámen.


ORAÇÃO DE FÁTIMA

O píe Jésu, dimítte nóbis débita nóstra, líbera nos ab ígne inférni, pérduc in cœlum ómnes ánimas, præsértim íllas, quæ máxime indígent misericórdiæ túæ.

*Às vezes também se inicia O mi (píe) Jésu, “Ó meu (bom) Jesus”.


SALVE-RAINHA

Sálve, Regína, máter misericóridiæ, víta, dulcédo, et spes nóstra, sálve. Ad te clamámus éxsules fílii Évæ. Ad te suspirámus, geméntes et fléntes in hac lacrimárum válle. Éja, érgo, advocáta nostra, íllos túos misericórdes óculos ad nos convérte. Et Jésum, benedíctum frúctum véntris túi, nóbis post hoc exsílium osténde. O clémens, O pía, O dúlcis, Vírgo María. Ámen. Ora pro nóbis, sáncta Déi Génetrix. Ut dígni efficiámur promissiónibus Chrísti.


CREDO DE NICEIA (SÍMBOLO NICENO)

Crédo in únum Déum, Pátrem omnipoténtem, factórem cœli et térræ, visibílium ómnium et invisibílium. Et in únum Dóminum Jésum Chrístum, Fílium Déi unigénitum, et ex Pátre nátum ánte ómnia sǽcula. Déum de Déo, Lúmen de Lúmine, Déum vérum de Déo véro, génitum non fáctum, consubstantiálem Pátri; per quem ómnia fácta sunt. Qui própter nos hómines et própter nóstram salútem descéndit de cœlis. Et incarnátus est de Spíritu Sáncto ex María Vírgine, et hómo fáctus est. Crucifíxus étiam pro nóbis sub Póntio Piláto, pássus et sepúltus est, et resurréxit tértia díe, secúndum Scriptúras, et ascéndit in cœlum, sédet ad déxteram Pátris. Et íterum ventúrus est cum glória, judicáre vívos et mórtuos, cújus régni non érit fínis. Et Spíritum Sánctum, Dóminum et vivificántem, qui ex Pátre Filióque procédit. Qui cum Pátre et Fílio símul adorátur et conglorificátur: qui locútus est per prophétas. Et únam, sánctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam. Confíteor únum baptísma in remissiónem peccatórum. Et expécto ressurrectiónem mortuórum, et vítam ventúri sǽculi. Ámen.

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Os dias da semana em latim eclesiástico:

domínica, féria secúnda, féria tértia, féria quárta, féria quínta, féria séxta, sábbatum.


Mystéria Gaudiósa (Mistérios Gozosos)
In féria secunda et sábbato (Às segundas e sábados)

1. Quem, Vírgo, concepísti
(Aquele que, virgem, concebeste)

2. Quem visitándo Elísabeth portásti
(Aquele que, visitando Isabel, portaste)

3. Quem, Vírgo, genuísti
(Aquele que, virgem, deste à luz)

4. Quem in témplo præsentásti
(Aquele que, no templo, apresentaste)

5. Quem in témplo invenísti
(Aquele que, no templo, encontraste)


Mystéria Luminósa (Mistérios Luminosos)
In féria quínta (Às quintas)

1. Qui ápud Jórdanem baptizátus est
(Aquele que foi batizado no rio Jordão)

2. Qui ípsum revelávit ápud Canénse matrimónium
(Aquele que se revelou nas bodas de Caná)

3. Qui Régnum Déi annuntiávit
(Aquele que anunciou o Reino de Deus)

4. Qui transfigurátus est
(Aquele que foi transfigurado)

5. Qui Eucharístiam instítuit
(Aquele que instituiu a Eucaristia)


Mystéria Dolorósa (Mistérios Dolorosos)
In féria tértia et féria séxta (Às terças e sextas)

1. Qui pro nóbis sánguinem sudávit
(Aquele que, por nós, suou sangue)

2. Qui pro nóbis flagellátus est
(Aquele que, por nós, foi flagelado)

3. Qui pro nóbis spínis coronátus est
(Aquele que, por nós, foi coroado de espinhos)

4. Qui pro nóbis crúcem bajulávit
(Aquele que, por nós, carregou a cruz)

5. Qui pro nóbis crucifíxus est
(Aquele que, por nós, foi crucificado)


Mystéria Gloriósa (Mistérios Gloriosos)
In féria quárta et domínica (Às quartas e domingos)

1. Qui resurréxit a mórtuis
(Aquele que ressuscitou dos mortos)

2. Qui in cœlum ascéndit
(Aquele que subiu aos céus)

3. Qui Spíritum Sánctum mísit
(Aquele que enviou o Espírito Santo)

4. Qui te assúmpsit
(Aquele que te ascendeu aos céus)

5. Qui te in cœlis coronávit
(Aquele que nós céus te coroou)