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14 de outubro de 2018

Orações faladas em latim eclesiástico


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/reze-latim1




Nesta postagem, vocês podem aprender as seguintes orações, escritas e recitadas na língua oficial do Vaticano, a versão eclesiástica da língua latina: o Sinal da Cruz, o Credo (Creio), o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Glória, a Oração de Fátima e o Salve-Rainha. Todas essas preces constituem o conjunto geralmente chamado Santo Rosário ou, como parte dele, o Terço Mariano. Recitei ainda dois apêndices com os nomes de todos os Mistérios do Rosário em latim e o texto do chamado Credo de Niceia, ou “símbolo niceno-constantinopolitano”, ainda rezado tradicionalmente em missas. A ortografia está atualizada conforme os padrões estabelecidos na Idade Moderna, e a pronúncia segue o padrão romano, ou seja, baseado essencialmente na língua italiana contemporânea. O latim eclesiástico (que se desenvolveu em 2 mil anos de uso pelos católicos) tem algumas diferenças com o latim clássico (calcado na língua culta escrita no século 1 a.C.), principalmente a sintaxe mais simples e o vocabulário mais próximo dos atuais idiomas românicos ou neolatinos.

O Pai-Nosso é baseado numa oração que Jesus Cristo teria enunciado em seu Sermão da Montanha, cujo relato começa no capítulo 5 do Evangelho segundo são Mateus. A Ave-Maria, cuja tradição se iniciou na cristandade bem depois e que reúne trechos de evocações proféticas feitas no Antigo Testamento, é conservada, sobretudo, pela Igreja Católica, que lhe deu a versão latina final. Nos primeiros séculos, a liturgia cristã era feita em grego, língua na qual também foi escrito o Novo Testamento (variante koiné comum, e não o antecessor ático clássico dos séculos 6 a 4 a.C.). Mas com o gradual aumento da primazia de Roma, o latim passou a ser cada vez mais usado, conservando o idioma que já não era mais falado após a queda do Império Romano do Ocidente.

A pronúncia da língua latina entre os romanos variou muito, pois a língua também era diversa, conforme a classe social, origem geográfica e época em questão. A chamada pronúncia reconstituída, que teria sido usada pelos romanos cultos no século 1 a.C., pronuncia, por exemplo, a palavra Caesar como “káiçar”, e tem uma abrangência muito limitada. Ao longo dos séculos, a pronúncia real do latim pós-romano também variou muito, e essencialmente cada região onde ele ainda era usado como idioma culto o pronunciava conforme os vernáculos regionais. Além disso, até o século 19, a pronúncia eclesiástica em nada diferia da usada na ciência, tecnologia, filosofia, artes e literatura: o latim era considerado um só, cada país pronunciando conforme peculiaridades locais. Apenas no final do século 19 a pronúncia dita “romana” (Caesar = “tchézar”) se consolidou entre os católicos, mas na liturgia os vernáculos ganhavam cada vez mais espaço, deixando de ser obrigatória em 1961 a missa tridentina (em latim).

Nesta postagem eu apresentei a vocês o vídeo que montei, ensinando a pronúncia do latim eclesiástico (romano), e as regras citadas foram aplicadas também aqui. Minhas duas principais fontes pros textos das orações foram este blog que faz apologia à reza em latim e este blog que ensina a rezar o Terço na língua litúrgica. Mas a correção e completação finais das preces devo a este ótimo site inglês, que contém ainda as traduções em vernáculo. Eu mesmo não traduzi, porque são orações conhecidas e fáceis de pesquisar em suas versões modernas; apenas o Pater Noster usa a variante, menos comum em português, “perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Da mesma forma, não ensino aqui como rezar o Rosário ou o Terço, porque compete aos fiéis aprendê-los.

Vou fazer algumas observações sobre a linguagem. Minha escolha mais evidente foi o uso da letra “j” pro som do “i” semivocálico, e o uso das ligaturas “æ” e “œ” no lugar das letras “ae” e “oe” separadas. Neste segundo caso, as ligaturas indicam os ditongos “ái” e “ói” clássicos, que na língua medieval passaram a pronunciar-se “é” aberto. Inclusive, optei por escrever apenas cœlum (céu), que é padrão nos textos medievos, segundo o Wiktionary, e não cælum, embora esta também apareça na liturgia. A escolha pelo “j” explica por que se leem, por exemplo, Jesus, judicare, Jordanem, bajulavit (Jesus, julgar, Jordão, carregou – cf. “bajular”), e não Iesus, iudicare, Iordanem, baiulavit. Apenas escrevi errado no vídeo eius (seu, dele) e Eia (eia!), que em coerência deveriam ser ejus e Eja. Lembre-se, então: a letra “i” é sempre vogal, nunca consoante, então dizemos “fi-li-us”, e não “fi-lius”, “ter-ti-a”, e não “ter-tia”, “ho-di-e”, e não “ho-die”.

Notavelmente, na Nova Vulgata (a Bíblia latina autorizada pelo Vaticano), a expressão panem nostrum quotidianum (o pão nosso de cada dia) traz supersubstantialem como adjetivo. Ele é um decalque do original grego epioúsios, mas mesmo neste caso não se sabe exatamente o que o autor quis dizer, porque a palavra não aparece fora desse texto (ou seja, seria um hapax). Sugerem-se como traduções “essencial”, “substancial”, “diário” ou “sustento para a vida”. Sobre a Oração de Fátima, um dos autores dos blogs citados escreveu: “Existem algumas variações para a tradução desta oração, mas preferimos traduzir ‘conduzi’ por pérduc e não cónduc pois o verbo perdúco, -ere tem sentido mais forte do que condúco, -ere, significando conduzir até o fim. O termo misericórdiae túa às vezes se encontra como misericórdia túa, sendo ambas corretas, uma vez que o verbo indigeo, -ére pode reger tanto ablativo quanto genitivo.” E atenção: inferi, aqui declinado como inferos, significa “almas dos mortos” ou “mundo dos mortos”, e não “inferno”! Por isso, em muitas traduções aparece como “mansão dos mortos”.

Concluindo, a sílaba tônica está bem audível na pronúncia dos vídeos, mas ela também vem marcada com um acento agudo nas transcrições abaixo. Textos latinos, mesmo os eclesiásticos, em geral, não levam sinais diacríticos, mas pra comodidade do leitor, acentuei todas as palavras com duas ou mais sílabas, mesmo parecendo evidente, exceto a ligatura “œ”, por razões técnicas, mas que aqui é sempre tônica. Eu falo o “a” sempre aberto, o “e” (ou “æ” e “œ”) e “o” abertos em sílaba tônica, e o “e” (ou “æ” e “œ”) e “o” fechados em sílaba átona. Também removi a distinção entre vogais curtas e longas, não as indicando nem com braquia, nem com mácron. Desta forma, perde-se a diferença entre terra (nominativo) e in terrā (ablativo).

Integrando os dois vídeos que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube) hoje mesmo e em julho do ano passado, este material é utilizável tanto por católicos ou cristãos em geral, quanto por estudiosos ou simples curiosos. Sei que muitos tradicionalistas não concordam com a criação dos “mistérios luminosos” (ou “da luz”) pelo papa São João Paulo 2.º, mas inseri-os aqui por mero fim de documentação. Consegui a tradução deles em português no manual Terço na mão e fé no coração!, de Sônia Venâncio, publicado pela Canção Nova e disponível no Google Books. A música de fundo no primeiro vídeo são partes da Marcha da Igreja (instrumental), composta por David Julien.






SINAL DA CRUZ

Per sígnum Crúcis de inimícis nóstris líbera nos, Déus nóster. In nómine Pátris, et Fílii, et Spíritus Sáncti. Ámen.


CREDO (CREIO)

Crédo in Déum Pátrem omnipoténtem, Creatórem cœli et térræ. Et in Jésum Chrístum, Fílium éjus únicum, Dóminum nóstrum, qui concéptus est de Spíritu Sáncto, nátus ex María Vírgine, pássus sub Póntio Piláto, crucifíxus, mórtuus, et sepúltus, descéndit ad ínferos, tértia díe resurréxit a mórtuis, ascéndit ad cœlos, sédet ad déxteram Déi Pátris omnipoténtis, índe ventúrus est judicáre vívos et mórtuos. Crédo in Spíritum Sánctum, sánctam Ecclésiam cathólicam, sanctórum communiónem, remissiónem peccatórum, cárnis resurrectiónem, vítam ætérnam. Ámen.


PAI-NOSSO

Páter Nóster, qui es in cœlis, sanctificétur nómen túum. Advéniat régnum túum. Fíat volúntas tua, sícut in cœlo et in térra. Pánem nóstrum quotidiánum da nóbis hódie, et dimítte nóbis débita nóstra sícut et nos dimittímus debitóribus nóstris. Et ne nos indúcas in tentatiónem, sed líbera nos a málo. Ámen.


AVE-MARIA

Áve María, grátia pléna, Dóminus técum. Benedícta tu in muliéribus, et benedíctus frúctus véntris túi, Jésus. Sáncta María, Máter Déi, óra pro nóbis peccatóribus, nunc, et in hóra mórtis nóstræ. Ámen.


GLÓRIA

Glória Pátri, et Fílio, et Spíritui Sáncto. Sícut érat in princípio, et nunc, et sémper, et in sǽcula sæculórum. Ámen.


ORAÇÃO DE FÁTIMA

O píe Jésu, dimítte nóbis débita nóstra, líbera nos ab ígne inférni, pérduc in cœlum ómnes ánimas, præsértim íllas, quæ máxime indígent misericórdiæ túæ.

*Às vezes também se inicia O mi (píe) Jésu, “Ó meu (bom) Jesus”.


SALVE-RAINHA

Sálve, Regína, máter misericóridiæ, víta, dulcédo, et spes nóstra, sálve. Ad te clamámus éxsules fílii Évæ. Ad te suspirámus, geméntes et fléntes in hac lacrimárum válle. Éja, érgo, advocáta nostra, íllos túos misericórdes óculos ad nos convérte. Et Jésum, benedíctum frúctum véntris túi, nóbis post hoc exsílium osténde. O clémens, O pía, O dúlcis, Vírgo María. Ámen. Ora pro nóbis, sáncta Déi Génetrix. Ut dígni efficiámur promissiónibus Chrísti.


CREDO DE NICEIA (SÍMBOLO NICENO)

Crédo in únum Déum, Pátrem omnipoténtem, factórem cœli et térræ, visibílium ómnium et invisibílium. Et in únum Dóminum Jésum Chrístum, Fílium Déi unigénitum, et ex Pátre nátum ánte ómnia sǽcula. Déum de Déo, Lúmen de Lúmine, Déum vérum de Déo véro, génitum non fáctum, consubstantiálem Pátri; per quem ómnia fácta sunt. Qui própter nos hómines et própter nóstram salútem descéndit de cœlis. Et incarnátus est de Spíritu Sáncto ex María Vírgine, et hómo fáctus est. Crucifíxus étiam pro nóbis sub Póntio Piláto, pássus et sepúltus est, et resurréxit tértia díe, secúndum Scriptúras, et ascéndit in cœlum, sédet ad déxteram Pátris. Et íterum ventúrus est cum glória, judicáre vívos et mórtuos, cújus régni non érit fínis. Et Spíritum Sánctum, Dóminum et vivificántem, qui ex Pátre Filióque procédit. Qui cum Pátre et Fílio símul adorátur et conglorificátur: qui locútus est per prophétas. Et únam, sánctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam. Confíteor únum baptísma in remissiónem peccatórum. Et expécto ressurrectiónem mortuórum, et vítam ventúri sǽculi. Ámen.

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Os dias da semana em latim eclesiástico:

domínica, féria secúnda, féria tértia, féria quárta, féria quínta, féria séxta, sábbatum.


Mystéria Gaudiósa (Mistérios Gozosos)
In féria secunda et sábbato (Às segundas e sábados)

1. Quem, Vírgo, concepísti
(Aquele que, virgem, concebeste)

2. Quem visitándo Elísabeth portásti
(Aquele que, visitando Isabel, portaste)

3. Quem, Vírgo, genuísti
(Aquele que, virgem, deste à luz)

4. Quem in témplo præsentásti
(Aquele que, no templo, apresentaste)

5. Quem in témplo invenísti
(Aquele que, no templo, encontraste)


Mystéria Luminósa (Mistérios Luminosos)
In féria quínta (Às quintas)

1. Qui ápud Jórdanem baptizátus est
(Aquele que foi batizado no rio Jordão)

2. Qui ípsum revelávit ápud Canénse matrimónium
(Aquele que se revelou nas bodas de Caná)

3. Qui Régnum Déi annuntiávit
(Aquele que anunciou o Reino de Deus)

4. Qui transfigurátus est
(Aquele que foi transfigurado)

5. Qui Eucharístiam instítuit
(Aquele que instituiu a Eucaristia)


Mystéria Dolorósa (Mistérios Dolorosos)
In féria tértia et féria séxta (Às terças e sextas)

1. Qui pro nóbis sánguinem sudávit
(Aquele que, por nós, suou sangue)

2. Qui pro nóbis flagellátus est
(Aquele que, por nós, foi flagelado)

3. Qui pro nóbis spínis coronátus est
(Aquele que, por nós, foi coroado de espinhos)

4. Qui pro nóbis crúcem bajulávit
(Aquele que, por nós, carregou a cruz)

5. Qui pro nóbis crucifíxus est
(Aquele que, por nós, foi crucificado)


Mystéria Gloriósa (Mistérios Gloriosos)
In féria quárta et domínica (Às quartas e domingos)

1. Qui resurréxit a mórtuis
(Aquele que ressuscitou dos mortos)

2. Qui in cœlum ascéndit
(Aquele que subiu aos céus)

3. Qui Spíritum Sánctum mísit
(Aquele que enviou o Espírito Santo)

4. Qui te assúmpsit
(Aquele que te ascendeu aos céus)

5. Qui te in cœlis coronávit
(Aquele que nós céus te coroou)