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22 de fevereiro de 2019

Para Francisco saúda pelo Natal 2018


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No dia 25 de dezembro de 2018, que caiu numa terça-feira, o papa Francisco, chefe supremo da Igreja Católica Romana, pronunciou na Praça São Pedro, na cidade-Estado do Vaticano, a famosa mensagem de Natal e a conhecida bênção Urbi et Orbi (Para Roma e para o mundo), acompanhada de indulgência plenária. O Sumo Pontífice leu seu discurso na língua italiana e deu a bênção na língua latina, idioma litúrgico dos católicos.

No texto desse ano, Francisco destacou a necessidade das pessoas resgatarem a fraternidade como princípio de suas vidas e das relações entre elas. Sua preocupação maior foi com as zonas de guerra e as epidemias de fome, que parecem ter aumentado nos últimos anos ao invés de cair. O papa criticou as formas de discriminação e associou a fragilidade do Menino Jesus à vulnerabilidade das crianças no mundo: “Nossas diferenças não são um dano ou um perigo, são uma riqueza. Como para um artista que quer fazer um mosaico: é melhor estar munido com pastilhas de muitas cores do que de apenas algumas”.

Notavelmente, o pontífice faz uma referência à Ucrânia e à escassa expectativa de que a guerra civil entre os separatistas e o governo de Kyiv chegue logo ao fim. O país tem um razoável número de católicos, e na região oeste eles constituem uma sólida reserva nacionalista e antirrussa. Ao falar dos direitos das “nações”, acredito que Francisco aludiu veladamente à intransigência de certos setores do poder central em reconhecer um status diferenciado às províncias de maioria russa. O plano dos extremistas que desejam “a Ucrânia para os ucranianos”, claro, fracassou. O que também não implica ceder ao imperialismo da Rússia, cujo governo sempre viu católicos como espiões em potencial.

Na expressão Urbi et Orbi, as palavras Urbs e Orbis estão no caso dativo (objeto indireto), e tradicionalmente Urbs se refere também à cidade de Roma, em especial na Antiguidade, quando era um modelo por excelência. Essa bênção é dada na Páscoa e no Natal, junto com uma mensagem com a qual o papa se dirige diretamente ao público. Realizada na varanda central da Basílica de São Pedro, é precedida pela entrada de uma cruz processional e dos cardeais diáconos e também se concede após a eleição do pontífice, ou seja, no final do conclave. O traço maior da bênção é que dá uma penitência e uma indulgência plenária sob condições definidas pelo direito canônico (ter confessado e tomado a comunhão, e não ter caído em pecado mortal).

Numa próxima postagem vou pôr os textos completos em latim e em português da prece do “Ângelus”, que Francisco também pronunciou, e da Urbi et Orbi, incluindo o vídeo desses momentos legendado em português. Por enquanto, na descrição original do vídeo abaixo no meu canal Eslavo (YouTube), vocês podem ler o texto latino da Urbi et Orbi. O texto em italiano eu mesmo traduzi, tendo tirado o escrito de um jornal da Itália. Mesmo assim, também é possível encontrar uma versão diretamente dublada em português, oficial do Vaticano, caso não queira ouvir a voz de Francisco. No original em italiano eu apenas cortei trechos desnecessários e as preces que legendei depois.

Em vários momentos do vídeo é possível também escutar as bandas militares italianas e vaticanas executando a Marcia Pontificale, hino da Cidade do Vaticano, e Fratelli d’Italia, hino nacional italiano desde 1945. A bênção Urbi et Orbi mesma só começa aos 11 min 36 seg. Espero que os católicos tenham gostado desse presente, e que quem não é católico entenda a importância histórica de tais documentos. Seguem a legendagem e a tradução em português. Aos 21 min 28 seg leia-se “Queridos irmãos e irmãs”, e não uma repetição do masculino!



Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!

A vocês, fiéis de Roma, a vocês, peregrinos, e a todos vocês que estão acompanhando de todos os cantos do mundo, renovo o jubiloso anúncio de Belém: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2, 14).

Como os pastores que primeiro se dirigiram à gruta, seguimos atônitos diante do sinal que Deus nos deu: “Um menino envolto em faixas, deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12). Em silêncio, ajoelhamo-nos, e adoramos.

E o que nos diz aquele Menino, que nasceu para nós da Virgem Maria? Qual é a mensagem universal do Natal? Diz-nos que Deus é Pai bondoso e que todos nós somos irmãos.

Esta verdade está na base da visão cristã da humanidade. Sem a fraternidade que Jesus Cristo nos deu, nossos esforços por um mundo mais justo têm fôlego curto, e também os melhores projetos correm o risco de tornar-se estruturas inanimadas.

Por isso, o meu voto de um feliz Natal é um voto de fraternidade.

Fraternidade entre pessoas de todas as nações e culturas.

Fraternidade entre pessoas com ideias diferentes, mas capazes de respeitar-se e de escutar o outro. Fraternidade entre pessoas de religiões diferentes. Jesus veio para revelar a face de Deus a todos aqueles que o procuram.

E a face de Deus se manifestou numa face humana concreta. Não apareceu num anjo, mas num homem, nascido num tempo e num lugar. E assim, com sua encarnação, o Filho de Deus nos indica que a salvação passa através do amor, da acolhida, do respeito por esta nossa pobre humanidade que todos nós compartilhamos numa grande variedade de etnias, de línguas, de culturas... mas todos irmãos em humanidade!

Portanto, nossas diferenças não são um dano ou um perigo, são uma riqueza. Como para um artista que quer fazer um mosaico: é melhor estar munido com pastilhas de muitas cores do que de apenas algumas!

A experiência da família nos ensina isto: entre irmãos e irmãs, somos diferentes uns dos outros, e nem sempre estamos de acordo, mas há um laço indissolúvel que nos une, e o amor dos pais nos ajuda a amar-nos entre si. O mesmo vale para a família humana, mas aqui o “genitor” é Deus, o fundamento e a força de nossa fraternidade.

Que este Natal nos faça redescobrir os laços de fraternidade que nos unem como seres humanos e ligam todos os povos. Que ele permita a israelenses e palestinos retomarem o diálogo e ingressarem num caminho de paz que ponha fim a um conflito que há mais de setenta anos dilacera a Terra escolhida pelo Senhor para mostrar a sua face de amor.

Que o Menino Jesus permita à amada e atormentada Síria reencontrar a fraternidade depois desses longos anos de guerra. Que a Comunidade Internacional se empenhe resolutamente numa solução política que deixe de lado as divisões e interesses particulares, de forma que o povo sírio, especialmente todos os que tiveram de deixar as próprias terras e buscar refúgio em outro lugar, possa voltar a viver em paz na própria pátria.

Penso no Iêmen, esperando que a trégua intermediada pela Comunidade Internacional possa finalmente trazer alívio a tantas crianças e às populações exauridas pela guerra e pela carestia.

Penso, depois, na África, onde milhões de pessoas estão refugiadas ou evacuadas precisando de assistência humanitária e de segurança alimentar. Que o Divino Menino, Rei da paz, faça calarem-se as armas e surgir uma nova aurora de fraternidade em todo o continente, abençoando os esforços de todos os que se empenham em facilitar processos de reconciliação em nível político e social.

Que o Natal reforce os vínculos fraternos que unem a Península Coreana e permita-lhe prosseguir no caminho de aproximação escolhido e alcançar soluções consensuais que garantam desenvolvimento e bem-estar a todos.

Que este tempo de bênçãos permita à Venezuela reencontrar a concórdia e a todos os setores sociais trabalharem fraternalmente pelo desenvolvimento do País e pela assistência às camadas mais frágeis da população.

Que o Senhor que nasce traga alívio à amada Ucrânia, ansiosa por reconquistar uma paz duradoura que está demorando a chegar. Somente com a paz, em respeito aos direitos de todas as nações, o País pode reerguer-se dos sofrimentos vividos e restabelecer condições de vida dignas aos próprios cidadãos. Mantenho proximidade com as comunidades cristãs daquela Região e rezo para que se possam tecer laços de fraternidade e amizade.

Que diante do Menino Jesus se redescubram irmãos os habitantes da querida Nicarágua, a fim de que não prevaleçam as divisões e as discórdias, mas que todos se empenhem em facilitar a reconciliação e construir juntos o futuro do País.

Desejo recordar-me dos povos submetidos a colonizações ideológicas, culturais e econômicas, vendo dilacerada sua liberdade e sua identidade, e que sofrem com a fome e com a falta de serviços educativos e sanitários.

Dedico uma lembrança especial aos nossos irmãos e irmãs que festejam o Natal do Senhor em situações difíceis, para não dizer hostis, especialmente onde a comunidade cristã é minoritária, às vezes vulnerável ou desconsiderada. Que o Senhor permita a eles e a todas as minorias viver em paz e ver reconhecidos os próprios direitos, sobretudo a liberdade religiosa.

Que o Menino pequeno e resfriado que contemplamos hoje na manjedoura proteja todas as crianças da Terra e cada pessoa frágil, indefesa e desprezada. Que todos nós possamos receber paz e conforto com o nascimento do Salvador e, sentindo-nos amados pelo único Pai celeste, reencontrar-nos e viver como irmãos!

Reitero os meus votos de Natal a todos vocês. Um Feliz e Santo Natal!

Queridos irmãos e irmãs vindos da Itália e de diversos países, bem como aqueles que nos acompanham pelo rádio, pela televisão e por outros meios de comunicação, agradeço-os pela sua presença neste dia em que contemplamos o amor de Deus, surgido no mundo com o nascimento de Jesus. Que este amor favoreça o espírito de colaboração pelo bem comum, reavive a vontade de sermos solidários e dê a todos a esperança que vem de Deus.

Feliz e Santo Natal!




20 de fevereiro de 2019

Patrimonialismo e história (texto, 2011)


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NOTA: Minha formação em Humanas ainda era inicpiente, mas eu já me arriscava a fazer análises muito gerais de fenômenos sociológicos brasileiros. Estando pra terminar a graduação, parece que eu buscava explicar pra mim mesmo coisas de que todo mundo reclamava, mas poucos sabiam conceituar com precisão. O tema da corrupção política começava então a se tornar pauta quase única no jornalismo e não era pouca minha insatisfação com o governo Lula nesse domínio. Eu já percebia que só a mudança de líderes e a penalização indiscriminada não resolveriam um problema com raízes muito distantes, mas talvez me faltou mais fugir da análise meramente cultural e embasar meus argumentos com pesquisa histórica e econômica. Está razoável como ensaio pessoal, e pra variar, eu não perdia a ocasião de alfinetar as religiões. Só fiz algumas mudanças redacionais pra atualizar o estilo.



Muitas análises históricas e culturais do Brasil consagradas pela tradição intelectual incorrem no risco de tentar explicar processos e elementos complexos de acordo com categorias restritas, portanto reducionistas, como a sexualidade, o clima ou a ascendência étnica da população. Isso não impede que, dentre condicionamentos tão diversos, possa ser escolhido um ou mais para a elucidação de características importantes da trajetória nacional sem que se tornem, porém, soluções globais grandiosas e mágicas. É o caso do patrimonialismo, tendência privatista e excludente fincada no meio público cuja descrição, se não deixa de guardar traços caricaturais e até mesmo humorísticos, ao menos constitui uma incrível semelhança entre os cotidianos sociais dos países em desenvolvimento mais proeminentes.

Não existe ainda um consenso a respeito da natureza e abrangência do patrimonialismo, mas uma análise rasante do comportamento brasileiro médio pode fornecer algumas pistas. A frase popular mais adequada para resumi-lo talvez seja esta: “O mundo gira em torno do meu umbigo”. Por isso, tudo é meu, posso fazer o que desejar com quem ou o que quiser. A minha pessoa merece culto, louvor e sobreposição – daí o comum “personalismo” –, pois eu estou sempre certo, e os outros, errados: nasci com o dom da onisciência ou ele me foi atribuído do alto por merecimento inato. E já que me encontro sempre com a razão, o Universo inevitavelmente conspirará a meu favor e conforme meus princípios pessoais – por isso também a presença do “fatalismo”. A “regra de ouro” que nos manda tratar o próximo como queremos ser tratados recebe uma nova formulação: faça os outros lhe fazerem o que você deseja, e não os deixe lhe fazerem o que você abomina, não importa se isso é ruim para os mesmos, desde que se revele bom apenas para você.

O sistema se autoperpetua na base do tratamento hierárquico difuso entre as relações humanas, nas quais a denúncia do patrimonialismo é proibida sob pena de ofender a comodidade do interlocutor em seu lugar na escala. Em outras palavras, se você chamar seu superior de “patrimonialista”, ele lhe perguntará “Quem você pensa que é para contestar minha autoridade moral?” Se você censurar um amigo ou colega, isto é, um igual na hierarquia, ficará sabendo que “Você não manda em mim nem tem o direito de ser chato, careta ou certinho”. E se, finalmente, encontrar-se mandando em alguém, logo aprenderá que será tarefa vã dar-lhe liberdade de iniciativa, enquanto ela ou ele tiver medo de ser coagido, humilhado ou materialmente subtraído se criticar suas ordens ou cogitar a mínima insubordinação.

Deduções tão primárias e genéricas como essas não poderiam intentar a validade de hipóteses científicas, mas sua aplicação a muitos domínios da vivência coletiva brasileira lhes dá no mínimo um inegável valor de especulação jornalística. A corrupção na política, por exemplo, considera que o erário, por ser público, não é “de todos” – o que garantiria sua inviolabilidade –, mas “de ninguém”, desta forma, meu, quando muito somente meu, porque “achado não é roubado”. O mesmo esquema costuma valer para objetos perdidos em locais de grande circulação de pessoas, o que leva a se pensar menos em malevolência criminosa esporádica do que em hábitos culturais arraigados. Quanto aos roubos explícitos cometidos por gente de renda inferior, impera um sentimento de justiça contra um meio opressor e hostil, e não a ciência de se estar causando danos a outrem: o marginal privado de cidadania obriga a sociedade a pagar-lhe o dano infligido.

Outra face mais inofensiva dessa mentalidade, mas não menos danosa, é o caráter fidalgo, preguiçoso e autoritário frequente em quem ocupa cargos de chefia em empresas de todo tipo ou empregos burocráticos no funcionalismo estatal do Brasil. O lema desses indivíduos é “Nunca servir, mas ser servido”, e eles não consideram necessitar de empenho e desinteresse em suas funções, pois, vendo-as como uma simples fonte de renda, e não de auxílio a seus concidadãos, privatizam o que deveria ser de todos, dão margem a toda espécie de filhotismo e compadrio e destroem a impessoalidade que deveria ser marca do nosso serviço público. Esse personalismo, esse inchaço do próprio ego, vê no trabalho algo sujo e sofrível, e seria menos perigoso se não fosse vendido como um ideal a todas as classes sociais, daí originando um desejo generalizado de obter vantagens e lucros sem esforço, às vezes até por meio da trapaça ou da exploração alheia. A Igreja Católica Romana, nossa matriz espiritual, não colabora muito na melhora do quadro ao sugerir a espera paciente da graça vinda dos céus e ensinar um passado mítico paradisíaco sem labuta ou preocupações éticas, sendo superada de longe em eficiência prática pelas disciplinadas comunidades evangélicas europeias. É uma pena que o pentecostalismo, versão do protestantismo que venceu por aqui, cedo foi contaminada pelo vírus romano da inação e da submissão acrítica.

O famigerado imobilismo das massas brasileiras também merece uma breve consideração. A pressa analítica nos faz taxar o grosso do povo de conformado e inconsciente, mas não vejo maiores estímulos à sublevação quando desde pequenos somos formatados a obedecer calados aos superiores ou aos mais velhos e quando a mínima reivindicação dos direitos mais básicos recebe usualmente como resposta a agressão física ou moral ou a privação material por parte dos agentes que servem aos escalões mais altos da hierarquia social. O instinto natural de sobrevivência dentro de um ambiente despótico favorece o pecado da falta ao pecado do excesso e da ousadia.

Para ficarmos em apenas um exemplo estrangeiro, o marxismo, doutrina originalmente materialista, impessoal, científica, herdeira do Iluminismo francês e das revoluções do século 19, aparentemente se tornou mais uma sacada genial que sucumbiu aos vícios de onde se buscou aplicá-la. A social-democracia alemã da belle époque pode ter se mostrado uma força consideravelmente progressista em comparação à brutalidade do Estado imperial em que atuava, mas o fatalismo determinista de um Kautsky ou de um Bernstein não excedeu os limites do cristianismo pudico e nobiliárquico então em voga na política. Lenin, com a Revolução Russa e a Internacional Comunista, tentou corrigir os erros de seus camaradas germânicos que apoiaram o início da Primeira Guerra Mundial, mas o meio atrasado em que atuava parecia ser um obstáculo ainda maior. Ainda está para se avaliar o quanto ou se o líder bolchevique, exilado por tantos anos na Europa desenvolvida, realmente raciocinava como os outros russos e até que ponto ele ou outro chefe com a mesma criação intelectual conseguiria dobrar o patrimonialismo tsarista. Nesse sentido, Lenin ao menos merece o crédito de ter resgatado, em sua curta vida, a herança progressista do marxismo, mesmo ao custo de, após ter arrastado a Rússia a uma ocidentalização forçada, Stalin suceder-lhe uma nova onda orientalista extrema, na certa como acomodação da doutrina e da revolução ao antigo estilo de governo.

Como foi dito acima, buscar uma conceituação do patrimonialismo não implica querer solucionar, em um estalar de dedos, problemas difíceis e multifacetados, mas pode atentar a certos defeitos comportamentais comuns a todos os brasileiros. Evitar a apropriação privada do que é público, servir tanto quanto ser servido, tratar a todas e todos como iguais em dignidade e valorizar o esforço honesto nas conquistas pessoais parece um começo suficiente. Todavia, antes de tudo, cabe popularizar a noção de que a organicidade do conjunto social sempre faz com que o prejuízo inicial de poucos logo se torne invariavelmente uma catástrofe generalizada.


Bragança Paulista, 18-19 de julho de 2011.



18 de fevereiro de 2019

O hit “Jenifer” (Gabriel Diniz) em russo


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Confesso que postei esta montagem no meu canal Eslavo (YouTube) só por oportunismo, ou seja, quando o novo hit do Verão (que já nem está mais tão quente assim) 2019 estava começando a aparecer. No começo, teve até bastantes visualizações, mas aos poucos foi sendo abandonada, enquanto o upload original do cantor já chegava à casa das centenas de milhões... Tenho o hábito de traduzir literalmente em russo canções brasileiras que, por qualquer motivo, eu tenha achado interessantes, e no caso de Jenifer, cantada por Gabriel Diniz, quis testar a reação dos brasileiros e, ocasionalmente, dos russos que viessem ter acesso ao vídeo.

Os brasileiros, claro, não aguentaram ter que ouvir novamente uma música que tocava na cabeça deles o dia inteiro, e por razões óbvias, os russos ficaram indiferentes. Também pudera, pra construir esta “formidável” peça foram necessárias nada menos do que oito mentes: Junior Lobo, Thawan Alves, Thales Gui, Leo Sousa, Allef Rodrigues, João Palá, Fred Wilian e Junior Avelar. O importante, porém, é treinar o idioma quando não se pratica muito a conversação, além de causar uma espécie de “choque cultural” em quem frequenta minhas páginas.

Na descrição em russo do vídeo, eu informei que o intérprete desta canção “mais profunda do que um pires” ainda era pouco conhecido no Brasil. Os traços de estilo remontavam a ritmos do nordeste brasileiro, sobretudo o forró, com elementos de música eletrônica, numa mistura já difundida no país todo. Seu representante maior, Wesley Safadão, já estava conhecido nacionalmente, tendo ultrapassado os limites do próprio forró como estilo. O mais interessante é tentar traduzir em russo expressões muito específicas do português brasileiro: ao invés de achar idiomatismos equivalentes em russo, o que ia triplicar meu trabalho, claro que verti literalmente.

Por exemplo: “xingar” é simplesmente “ofender”, ou rugat, enquanto “encher o saco” é “incomodar”, “atrapalhar”, isto é, meshat. Quanto a “fazer umas paradas”, isso vai muito da interpretação de cada um, mas em se tratando de relacionamentos amorosos, pensei em carícias íntimas, formas de obter prazer sexual. Portanto, sem deixar explícita a conotação erótica e possibilitando ampliar a abrangência, traduzi como “proporcionar um tal ou determinado prazer” (uma forma de prazer que ele não teria com a namorada atual). É engraçado que “Tinder”, em textos russos, não costuma aparecer aclimatado (Тиндер), mas em alfabeto latino mesmo, hábito que descumpri nas legendas.

Não expliquei em russo a longa história de surgimento da música, não só porque não tinha tempo hábil pra buscar as palavras certas, mas também porque toda a dinâmica envolvida é culturalmente quase ininteligível ao europeu comum. Desde a história das meninas que cantavam nas férias até o sucesso de Gabriel no YouTube, passando pela vida de um dos autores e pela rejeição da gravação por Gusttavo Lima, vocês podem encontrar vários sites de fofocas que contam tudo. Nada disso é tão necessário pra desfrutar tal pérola! Baixando o áudio do canal oficial, eu mesmo montei o vídeo e pus a legenda bilíngue: assistam ao vídeo duas vezes, lendo uma parte a cada vez. Seguem abaixo minha montagem, a letra em português e a tradução russa:




Mas ela veio me xingando,
Enchendo o saco e perguntando:
“Quem é essa perua aí?”
Mas peraí! Mas peraí!
Você não paga minhas contas,
Já não é da sua conta
O que é que eu tô fazendo aqui,
Mas mesmo assim
Vou te explicar...

O nome dela é Jenifer,
Eu encontrei ela no Tinder,
Não é minha namorada,
Mas poderia ser.

O nome dela é Jenifer,
Eu encontrei ela no Tinder,
Mas ela faz umas paradas
Que eu não faço com você.

____________________


Она пришла, ругала меня,
Мешала мне, спрашивала:
“Кто такая эта шлюха?”
Но подожди! Но подожди!
Ты не платишь моих долгов,
Уже не твоё дело то,
Что я делаю здесь,
Но всё-таки
Я объясню тебе...

Её зовут Дженифер,
Я нашёл её в Тиндере,
Она не моя подруга,
Но могла быть.

Её зовут Дженифер,
Я нашёл её в Тиндере,
Она доставляет удовольствие
Такое, какого не имею с тобой.


16 de fevereiro de 2019

Os novos construtores do Brasil (2011)


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NOTA: Um dos textos mais inspirados que escrevi, mas ao mesmo tempo um dos mais decepcionantes. Confesso que a utopia ainda é correta, e eu queria que ela tivesse dado certo e que dê certo pro nosso futuro. Porém, em se tratando de 2011 e “Era Dilma”, falando de uma forma geral, cometi erros crassos. É claro que hoje o Brasil está materialmente melhor e nossa juventude, mais instruída e tecnológica. Mas os pedregulhos no caminho foram tantos que não podem ser ignorados. Primeiro, eu não considerava a aparição dos smartphones (pra variar!) e o enorme potencial dos aplicativos feitos especialmente pra eles. Segundo, o ódio virtual e a recepção passiva de informações mal escritas ou até mesmo falsas se reforçaram como nunca em 2018. E terceiro, ao invés de vermos no Estado brasileiro uma diminuição da corrupção e apadrinhamento, vimos sua fixação, até a Justiça e a Polícia enfim lançarem uma guerra contra os roubos. Mesmo assim, acredito ter posto aí um caminho interessante e soluções aceitáveis.



Há diversos motivos para se deduzir que está surgindo uma onda renovada de técnicos, políticos, intelectuais, burocratas e formadores de opinião brasileiros advindos de uma juventude mais aberta, pluralista, racional, moderna e tolerante, inaugurando grandes chances, portanto, de fazer com que sejamos dotados de uma nova elite dirigente arejada, impessoal e democrática. Esses desbravadores terão de encarar os entraves históricos ao desenvolvimento sócio-econômico nacional e, com vigor e coragem ainda maiores, as forças conservadoras que já dominam o poder há décadas ou que ressurgem parcialmente recicladas e se aproveitam das contradições populares à espera de solução.

As crianças e adolescentes de hoje, cada vez mais precocemente, se expõem a tecnologias bastante avançadas que facilitam sua vida diária e lhes proporcionam o acesso a uma quantidade quase infinita de informações sobre variados assuntos e sobre os mais diferentes lugares do mundo. A contrapartida negativa nada desprezível desse fenômeno é a saturação mental com dados muitas vezes inúteis, o cansaço físico ocasionado por horas a fio de sujeição a radiações ou posturas corporais desajeitadas e a falta de critério na escolha das polêmicas manejadas ou debatidas, não raro levando, especialmente em redes sociais da internet, a situações de ofensa, humilhação e conflito emocional sem acréscimos à inteligência de ninguém. Infelizmente, as escolas básicas não movem um dedo para reverter esse quadro e, como já tive ocasião de comprovar pessoalmente em estágios, as tão idolatradas “pesquisas na sala de informática” recaem invariavelmente no acrítico, circular e mecânico sistema “busca no Google-Wikipédia em inglês-tradutor do Google”. Além da inépcia investigativa, deixa-se aí intocada a incompetência linguística generalizada.

Porém, não se deve presentear com munição o menor estímulo ao desencanto. Se bem direcionados, os recursos interativos multimídia potencializam de modo exponencial a curiosidade e a inesgotável energia infanto-juvenis e possibilitam um contato com conhecimentos, pessoas, instituições e realidades sequer cogitáveis há alguns anos e uma facilidade de trabalho que faria se roerem de inveja os pais e os avós dos estudantes. O papel central nessa lapidação teórico-informacional é inegavelmente reservado aos pais, que devem retomar a função agora tão negligenciada de vigias das ideias que seus filhos terminam por absorver, e às instituições de ensino, que, já bem distante do mérito de ser as únicas provedoras de conteúdos aos aprendizes, precisam segurar com urgência as rédeas da orientação e da sugestão liberal e autônoma do que vale ou não a pena ser assimilado.

Críticos alertas, e não totalmente sem razão, podem objetar que essas benesses eletrônicas e intelectuais seriam apanágio de classes abastadas mais restritas que, virtualmente ou ao vivo, têm contato mais ou menos frequente com outros países e culturas. De fato, não devemos menosprezar o número de famílias brasileiras para as quais continua sendo dificuldade até mesmo pôr um prato de feijão na mesa, enquanto interpretar um texto básico ou, na pior das hipóteses, conhecer o alfabeto persiste como luxo distante. Ainda assim, é igualmente bastante expressivo o número daqueles que, nos últimos dez anos, saíram dessa situação miserável ou que, adquirindo um potencial a mais em sua renda, conseguiram acessar informações e tecnologias novas e de maior qualidade. Além disso, independentemente da aquisição de conhecimento ter se dado ou não de livre e espontânea vontade, não se deve esquecer que a realidade ainda distinta desses recém-emergentes implica uma releitura e adaptação inevitáveis da cultura e linguagem ditas altas e superiores que, consistindo numa evolução natural das experiências humanas, permanecem tratadas por certos elitistas, sem motivo algum, como degeneração e pauperização desse patrimônio.

Voltando ao tema central e mais específico deste texto, é muito visível o salto quantitativo e qualitativo dado pelos jovens brasileiros desde muitos anos atrás, qualquer que seja sua origem social ou regional. Em outras palavras, não só eles existem em grande número como também estão mais conscientes das mazelas mundiais, conhecem mais idiomas – sejam os nacionais, sejam os etário-tribais –, pensam e resolvem problemas mais rapidamente e sabem se virar melhor sozinhos. As más línguas conjuram a suposta falta de inteligência e polidez atual desse grupo, mas vejo em tal choque, antes de tudo, uma virada no comportamento e no modo de se relacionar, hoje mais simples, transparente e sincero – talvez uma crise de valores, mesmo, como nós os conhecemos hoje. Não é motivo para desespero, contudo, é antes uma alegria: amante do imprevisto, adaptada à instabilidade, elástica em seu círculo de amigos e conhecidos, aceitadora da maioria das diferenças – sejam étnicas, sexuais, de cor da pele ou de necessidades especiais – e mais bem informada que seus antepassados, nossa juventude dos anos 2010 é menos apegada ao tradicionalismo, às formalidades vazias, à conservação de costumes antigos e à submissão cega a seus superiores. Ele é uma das chaves para uma administração pública e privada limpa, enxuta, honesta, servidora e menos despótica, personalista e ineficiente.

O abalo geracional pode ser notado não apenas na política estatal ou no universo mercantil. Seu dinamismo mexe também com hierarquias e interesses consolidados no sindicalismo, na religião, nos movimentos estudantis e sociais, no sistema educacional, na academia e nas artes – em particular na literatura. Essas verdadeiras máquinas de fazer acomodados estão fossilizadas por anciãos que preferem vender caro ao povo produtos de má extração a realmente defender os interesses dele e tornar melhores o Brasil e o planeta. São egoístas e não enxergam as explosões de insatisfação de seus senhores – invertidamente tratados como servos – como o resultado da falha de várias partes de um sistema orgânico. Sendo eles próprios, contudo, o principal entrave à renovação do conjunto, é óbvio que, ainda que de modo indireto, serão os mesmos a ser prejudicados num futuro não muito distante. O discurso a respeito do suposto conformismo das massas ou dos jovens é útil justamente para ocultar o modo pelo qual essa casta mantém sua dominação: pela força, pela coerção, pelo aliciamento ou pela privação. O instinto de conservação da vida leva a maioria a não cometer duas vezes a heresia de contestar seus superiores, mas a nova turma não está nem aí e arrisca, joga todas as suas fichas, dá a cara a bater, pois sabe que o mais importante é preservar não a sua pessoa, que passa, mas o seu legado, que é eterno.

Não está faltando valentia neste e em nenhum outro país. Pelo contrário, ela sobra, é abundante e disponível. Mas sendo ela uma vantagem inerente às moças e rapazes e, ao mesmo tempo, a “árvore do conhecimento” de nossa época, sua descoberta é sonegada por quem não quer entregar o comando da história. Estes, assim, não sabem que, ao se aferrar a seus postos ou parir crias que perpetuem seu conservantismo, põem em risco a maior expectativa dos povos, que é a esperança no progresso humano por meio do cultivo de uma descendência comprometida e transformadora.


Bragança Paulista, 8 de agosto de 2011.



14 de fevereiro de 2019

Heda Hamzatova – Hay qajer (Armênia)


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Embora a Armênia não seja nem fosse parte do território propriamente da Rússia moderna, continuei o “Projeto Outras Rússias” no canal Eslavo (YouTube) pra mostrar que o país não é só Moscou, músicas folclóricas dos tempos do comunismo e loiras bonitas e magrelas. Novamente, a linda cantora Heda Hamzatova, natural da Tchetchênia e que nesta ocasião está cantando na língua da Armênia, de onde veio seu marido. A canção se chama “Հայ քաջեր” (Hay qajer), Bravos armênios, e foi composta por volta de 1983 pelo cantor armênio Nersik Ispiryan, em honra dos combatentes pela independência armênia do antigo Império Otomano no fim do século 19.

O espetáculo fazia parte das comemorações dos 10 anos de fundação da União dos Armênios da Rússia, um tipo de entidade beneficente e cultural, e até mesmo o então presidente da Armênia, Serzh Sargsyan, estava assistindo. Muitos interpretaram a atuação de Hamzatova como uma tentativa de diálogo entre povos, uma bela iniciativa pra aproximar costumes diferentes, em se tratando de uma tchetchena muçulmana que demonstrava a arte armênia, cujo povo é cristão. Contudo, não tardaram a aparecer os haters extremistas que detestam cruzamentos culturais: começaram falando mal de seu marido, cujo enlace seria impensável no islã. O próprio presidente tchetcheno Ramzan Kadyrov fez um vídeo em 2013 (matéria em russo) falando mal dos costumes “pervertidos” das cantoras locais e do casamento de Hamzatova. De fato, a rixa entre os dois povos é antiga, e não foram poucos também os azerbaijanos (povo túrquico e muçulmano) que destilaram veneno nas repostagens do show de 2010.

Entre 1988 e 1994, as então repúblicas soviéticas da Armênia e do Azerbaijão, países independentes desde 1991, travaram uma guerra pelo controle da pequena região azerbaijana de Nagorno-Karabakh, de maioria armênia. O parlamento local, com a desintegração da URSS, votou por anexar-se à Armênia (num movimento parecido com o da atual Crimeia russa), mas Baku não reconheceu a atitude e o conflito só foi aumentando. Após muitas mortes e deslocamentos, a região na prática se tornou independente com um governo de etnia armênia, mas internacionalmente é ainda considerada parte do Azerbaijão. Hay qajer se tornou um dos símbolos dessa resistência, e há alguns vídeos de época com a canção ao fundo. Já o cantor e autor Ispiryan (n. 1963), que teve formação em conservatório enquanto cantava no grupo Akunk, fugiu pros EUA após pressão do governo antinacionalista de Levon Ter-Petrosyan. Ele fez mais de 30 músicas nacionalistas sobre a Armênia Ocidental (hoje parte da Turquia) e justiçamentos.

Nesta postagem em russo, escrita por um rapaz chamado Sergei, ele reconta a história com Hamzatova e propõe a própria tradução da canção com várias notas explicativas. Pra ele, porém, o compositor é o armênio Harut Pambukjian, cantor e poeta que também reside nos EUA, mas talvez seja na verdade um dos intérpretes. “Fedaim” era a palavra usada nos anos 1890 pra designar bandos armênios que combatiam os otomanos na região da Anatólia (e o “chefe fedaim” é de fato fidayapet), mas hoje se fixou como os guerrilheiros contrários à ocupação israelense de territórios palestinos. Tanto que onde falo “tropas turcas” ou “soldados turcos” é originalmente asker, palavra otomana pra “exército” ou “soldado”. Arabo (pseudônimo, 1863-1893) foi um dos primeiros desses fedains armênios; Serob Aghbyur (1864-1899), o mais destacado deles; e Gevorg Chaush (1870-1907), um de seus mais famosos líderes. Temos também pontos geográficos que se situam na Armênia Ocidental histórica: as províncias de Sasun, Taron e Mush, e o monte Nemrut.

Sobre Heda Hamzatova, esta postagem com uma canção tchetchena que ela canta tem mais informações. Eu não traduzi diretamente do armênio, mas de duas traduções em inglês (uma do comentário do upload que legendei, e outra desta página) e uma em russo (na postagem de Sergei), que comparei e usei pra fazer meu texto final em português. No início do vídeo original sem legendas nem o corte do quadro, a mulher diz: “Дорогие друзья! От имени народов Северного Кавказа нас поздравляет замечательная певица, Заслиженная артистка Чеченской республики Хеда Хамзатова!” O homem: “Встречайте, Хеда Хамзатова!” A cantora, após terminar: “Спасибо большое! Я желаю от имени Фонда Урарту Армении и России храбрых сыновей и скромных дочерей! Спасибо!”

Seguem minha legendagem, a letra em armênio (no alfabeto original e numa das transliterações latinas mais conhecidas) e a tradução em português. Os textos não reproduzem as repetições do áudio, e as legendas foram encurtadas pra atender aos padrões audiovisuais:




Սասնա քաջեր վերցրին զենքեր,
Մահն աչքերուն մեջ առան,
Հայոց ազգի կույս աղջիկներ
Ասկյարներ խլին տարան։

Հայ քաջեր, հայ քաջեր,
Ժամն է մեր օրհասական,
Հայ կամավորների խմբով
Պիտ արշավենք Հայաստան։

Յուր քաջերով էր բյուրավոր,
Տարոն աշխարհի սարեր
Մշո դաշտեն մինչև Սասուն
Քաջ Արաբոն կու հսկեր։

Հայ քաջեր, հայ քաջեր,
Ժամն է մեր օրհասական,
Արաբոյի շիրմով կերթվինք
Պիտ ազատենք Հայաստան։

Ֆիդայապետ Գևորգ Չավուշ
Յուր քաջերով անսասան,
Յուր կատարած սխրանքներով
Գրչվեց Սարերի ասլան։

Հայ քաջեր, հայ քաջեր,
Ժամն է մեր օրհասական,
Մեր եռագույն դրոշի ներքո
Պիտ ազատենք Հայաստան։

Սերոբ Աղբյուր Նեմրութ սարում
Երդվիլտվեց քաջերուն,
Հայրենիքի սիրույն համար
Կամ մահ, կամ ազատություն։

Հայ քաջեր, հայ քաջեր,
Ժամն է մեր օրհասական,
Մեր եռագույն դրոշի ներքո
Պիտ ազատենք Հայաստան։

____________________


Sasna qajer vertsrin zenqer,
Mahn achqernoon mech aran,
Hayots azgi kous aghchikner
Asgyarner brni taran.

Hay qajer, hay qajer,
Jamn eh mer orhasakan,
Hay kamavorneri khmbov
Pit arshavenk Hayastan.

Yur qajerov er byuravor,
Taron ashkharhi sarer
Msho dashten minchev Sasoun
Qaj Arabon kuh hsker.

Hay qajer, hay qajer,
Jamn eh mer orhasakan,
Araboyi shirmov k’ertvienk
Pit azatenk Hayastan.

Fidayapet Gevork Chavoush
Yur qajerov ansasan,
Yur katarats skhranknerov
Grchvets Sareri Aslan.

Hay qajer, hay qajer,
Jamn eh mer orhasakan,
Mer yeragouyn droshi nerko
Pit azatenk Hayastan.

Serop Aghbyur Nemroot saroum
Yertvil tvets qajerun,
Hayreniqi sirouyn hamar
kam Mah, kam Azatootioun.

Hay qajer, hay qajer,
Jamn eh mer orhasakan,
Mer yeragouyn droshi nerko
Pit azatenk Hayastan.

____________________


O povo corajoso de Sasun pegou em armas
E olhou para a morte bem em seus olhos,
As meninas virgens da Armênia
Foram raptadas por soldados turcos.

Bravos armênios, bravos armênios,
Este é nosso momento decisivo
Nossas tropas voluntárias,
Devem entrar e libertar a Armênia.

Com seus incontáveis heróis,
As montanhas da região de Taron
Dos campos de Mush até Sasun
O grande Arabo percorre com a vista.

Bravos armênios, bravos armênios,
Este é nosso momento decisivo,
Sobre o túmulo de Arabo juramos
Que devemos libertar a Armênia.

O comandante fedaim Gevorg Chaush,
Junto com seus corajosos heróis,
Por conta de seus muitos feitos
Foi apelidado “Leão das Montanhas”.

Bravos armênios, bravos armênios,
Este é nosso momento decisivo,
Sob nossa bandeira tricolor
Devemos libertar a Armênia.

Serob Aghbyur aos seus heróis
Jurou sobre o monte Nemrut:
Em nome do amor à Pátria,
Liberdade ou morte!

Bravos armênios, bravos armênios,
Este é nosso momento decisivo,
Sob nossa bandeira tricolor
Devemos libertar a Armênia.




12 de fevereiro de 2019

“O que é viver filosoficamente?” (2011)


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NOTA: Este é um dos meus preferidos da série escrita no começo de 2011 e revisada em 2012 pra publicação no blog Materialismo.net, por vários motivos. De linguagem muito simples, é curto, os parágrafos são pequenos e não se lê um estrangeirismo sequer formatado em itálico. É claro, como eu já disse várias vezes, que ele tem enorme influência das matérias com teor marxista de esquerda que cursei na Faculdade de Educação da Unicamp em 2009 e 2010, mas em todo caso sinaliza uma abertura mental e um apreço pelo intelecto que cultivo até hoje. Não tem nada a ver com doutrinação ou imposição ideológica que tanto atribuem às instituições públicas de ensino. Eu até podia não concordar com os professores, ou vice-versa, mas se quisesse conhecer opiniões diferentes, bastava pegar um livro e ler. Estou feliz que este, talvez, seja o texto que mais serve ainda pros dias de hoje, mais até do que os de ateísmo, porque os riscos das redes sociais ainda não tinham sido amplificados. Mas, infelizmente, parece que o Brasil evoluiu ao contrário, ou até pior do que poderia ser o contrário do exposto aqui.



Uma vida guiada pelo espírito filosófico, a alternativa mais saudável, moderna e inteligente para acompanhar a complexidade dos dias de hoje, consiste em três atitudes básicas que se conseguem apenas com muito esforço e que não são compatíveis com soluções messiânicas ou “mágicas”. A primeira é dispor-se ao conhecimento de como funciona o mundo. A segunda é encontrar propósitos pelos quais se possa viver e objetivos que se busque alcançar, ainda que não sejam realizáveis num prazo curto. E a terceira é engajar-se num projeto político de transformação da sociedade, utilizando o máximo possível de competência e instrumental disponíveis. Tais pontos, nessa ordem, levam uns aos outros e não são realizáveis isoladamente.

Os saberes a respeito da natureza e do meio social sempre foram, no que tinham de mais eficaz e essencial, ocultados à maior parte da população por castas fechadas e dificilmente acessíveis, que sabiam do potencial revelador e sublevador desses conteúdos. A lenda bíblica da “árvore do conhecimento do bem e do mal” exemplifica bem essa mentalidade: as pessoas comuns não podem conhecer o que os poderosos conhecem, senão lhes seriam proporcionadas as condições materiais e morais para a exigência de sua libertação e para a autonomia de ação e reflexão. Assim, compreende-se que descobrir os segredos da mecânica da vida natural e humana significa prover a consciência de informações que lhe permitam fazer julgamentos ponderados e empiricamente baseados e tirá-la da ignorância a respeito do que a influencia e cerca. Só se pode alcançar isso com estudos, observações e leituras muito disciplinados, e não por meio da “iluminação” dos conteúdos prontos em nossas cabeças por pessoas ou entes superiores; afinal, o sujeito do processo de conhecimento sempre é um ser humano.

Adquirido um arcabouço intelectual básico, pode-se começar a delinear independentemente metas e motivações que sirvam de guia para a existência. Afinal, a principal condição de humanidade é encontrar um porquê para a vida, já que o cérebro humano não se limita a seguir funções biológicas instintivas, mas transcende-as e, além de produzir seus próprios meios de subsistência, também procura, como animal inatamente inconformado, influir nos acontecimentos que o atingem, abstraindo-os e manipulando essas abstrações. Tal é o funcionamento da cultura e de todas as suas subdivisões, como a língua oral ou escrita, a arte, os rituais sobrenaturais, a vestimenta, a música, os preceitos de convivência e outras manifestações. Por isso se diz que a religião tem como função dar um sentido ao existir; mas, como afirmou Sartre, todas as ideologias são revolucionárias quando nascem e reacionárias quando se consolidam, e a fraternidade espiritual deu lugar ao abuso de poder e ao fim das discussões por meio da imposição dogmática. E aí a filosofia encontra seu papel: dar orientações éticas renováveis e adaptáveis à marcha do progresso e ao surgimento de novos problemas.

Contudo, as aspirações não têm razão de ser se não se cogita colocá-las em prática, ou seja, buscar a modificação das estruturas políticas, sociais, econômicas e culturais conforme padrões de pensamento mais modernos e confortáveis. Obviamente são as necessidades reais que condicionam as ideias de uma época ou de um lugar, e, por isso mesmo, estas devem voltar ao mundo objetivo e cumprir a função para a qual foram criadas. As ondas de mudança são inexoráveis, e o pensamento conservador, buscando manter as estruturas de dominação e privilégio, inculca à maioria da população o conformismo com a situação presente, para que ela aguarde a verdadeira felicidade de um vindouro “paraíso” ou “época de ouro” após a morte ou num futuro distante. A verdade é que a luta por uma sobrevivência melhor não pode ser adiada, pertence ao aqui e agora, e exige que todos usem maximamente suas capacidades, inteligência, energia e força. Tal disposição só pode ser tornada uma “segunda natureza” por meio de prática e tirocínio incessantes, e é impossível, como se sabe, levar a cabo essa empreitada se não se domina o cabedal técnico e lógico legado pelos antepassados, o que, num ciclo, faz o retorno ao primeiro ato da vivência filosófica.

Os cidadãos comuns, em especial os brasileiros, estão acostumados, por motivos culturais e imposições sócio-políticas, a esperar que as soluções para seus tormentos e as respostas para as indagações que lhes são feitas, além de prontas, apareçam “caídas do céu”, o que mina o desenvolvimento do fôlego para a pesquisa e da criatividade e inteligência para a criação própria. É essa lacuna histórica que uma difusão maior da filosofia precisa suprir na educação e nas relações públicas, a fim de acabar com as superstições infundadas e encorajar cada um a tomar seu destino em suas próprias mãos.


Bragança Paulista, 29 de janeiro de 2011.
Levemente modificado a 5 de julho de 2012.



10 de fevereiro de 2019

Alfabeto iídiche hebraico: a pronúncia


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Em 2017, eu preparei pra uma amiga uma tabela com a pronúncia do alfabeto hebraico usado na língua iídiche, porque estávamos na época interessados nesse tema. Ela estava interessada em cultura judaica europeia, e eu na língua iídiche, que era a mais usada pelos judeus da Europa até a década de 1940. Desde o início do século, o movimento sionista estava fazendo tentativas pro idioma hebraico ressurgir e ser modernizado pro uso corrente. Muitos se opuseram a essa iniciativa, dizendo que o hebraico era uma língua sagrada, litúrgica, e por isso não devia ser “profanado” pra fins comuns. Porém, com a criação do Estado de Israel, a iniciativa venceu, e o “hebraico moderno” se tornou a língua oficial da nação judaica.

Eu nunca estudei nem hebraico nem iídiche a fundo, mas como pra criar esta tabela fiz algumas pesquisas, achei que ela podia servir de boa referência pública. O iídiche é uma língua germânica ocidental, o que significa que ela é muito aparentada ao alemão (sobretudo em sua forma medieval), e não uma língua semítica, como o hebraico (bíblico e moderno) e o árabe. Por isso, ao ser escrito no alfabeto hebraico, este sofre várias adaptações pra que se possa expressar o tipo de língua que é, em especial na pronúncia de algumas letras. O hebraico, por exemplo, nem sempre escreve as vogais, e possui muitos sons ausentes no iídiche. Por outro lado, às vezes muitas palavras são mantidas na ortografia do hebraico, mas a pronúncia muda totalmente. Além disso, o iídiche pode ser escrito na própria versão do alfabeto latino, sem grandes problemas.

Segue abaixo a tabela indicando a forma normal de cada letra (junto com a forma usada apenas em final de palavra, se for o caso), o nome dela, a romanização (alfabeto latino) mais comum e a pronúncia aproximada. Apresento no final algumas informações adicionais, como letras hebraicas ou aramaicas, grafias alternativas e a ordem alfabética completa. E lembrem-se do principal: o alfabeto hebraico, qualquer que seja a língua que ele esteja representando, é sempre lido da direita pra esquerda, ao contrário do latino.


O alfabeto iídiche – Alef-Beys (אַלף-בית)

Forma normal e forma final
Nome e romanização
Pronúncia
א
shtumer alef (nenhum sinal ou som)indica apenas que a sílaba começa com a forma vocálica da letra seguinte
אַ
pasekh alef (a)a sempre aberto, como em ato
אָ
komets alef (o)o sempre aberto, como em cota
ב
beys (b)sempre como o b de bola
ג
giml (g)sempre como o g de gato
ד
daled (d)sempre como o d de dona
דזש
daled zayen shin (dzh), os nomes das três letras grafadascomo o j do inglês jam; o dígrafo zayen shin (z + sh) vale pelo som do nosso j
ה
hey (h)como o h aspirado do inglês e do alemão
ו
vov (u)como o u de uva
וּ
melupm vov (u)idem ao vov; usado ao lado de outro vov ou antes do yud
װ
tsvey vovn (v)como o nosso v
וי
vov yud (oy)como o nosso ói
ז
zayen (z)como o z de zebra
זש
zayen shin (zh)como o nosso j
ט
tes (t)como o t de tora
טש
tes shin (tsh)como o tch de tcheco
י
yud (“y” se consonantal, “i” se vocálico)no começo da sílaba, como o j do alemão ja ou o y do inglês yes; em outros casos, como o i de vida
יִ
khirik yud (i)como o i de vida, usado apenas após um yud consonantal ou ao lado de outra vogal
יי
tsvey yudn (ey)como o nosso éi
ײַ
pasekh tsvey yudn (ay)como o ai de pai
ך) כ)
khof – forma normal, lange kof – forma final (kh)como o ch do alemão Buch
ל
lamed (l)sempre como o l de lata; também representa o conjunto final vogal reduzida + l, como no alemão Apfel
ם) מ)
mem – forma normal, schlos mem – forma final (m)sempre como o m de mau
ן) נ)
nun – forma normal, lange nun – forma final (n)sempre como o n de nulo; também representa o conjunto final vogal reduzida + n, como no alemão Morgen
ס
samekh (s)sempre como o s de sopa
ע
ayin (e)e sempre aberto, como em dela, ou a vogal neutra final do alemão Tage
פּ
pey (p)como o nosso p
ף) פֿ)
fey – forma normal, lange fey – forma final (f)como o nosso f
ץ) צ)
tsadek – forma normal, lange tsadek – forma final (ts)como o ts de tsé-tsé ou o z do alemão zehn
ק
kuf (k)como o c de casa
ר
reysh (r)variação dialetal: como o r gutural francês e alemão, ou como o r de lira
ש
shin (sh)como o nosso ch


Estas letras são usadas apenas em palavras hebraicas ou aramaicas cuja grafia original deve ser mantida, mas que são pronunciadas à maneira iídiche:


בֿ
veys (v)como o tsvey vovn
ח
khes (kh)como o khof
כּ
kof (k)como o kuf
שׂ
sin (s)como o samekh
תּ
tof (t)como o tes
ת
sof (s)como o samekh


Estas ortografias alternativas de certos sons não são padronizadas:


א
alef (“a” ou “o”)grafia alternativa para o pasekh alef ou o komets alef
בּ
beys (b)como o beys, mas com o dagesh (ponto gráfico)
וֹ
khoylem (“o” ou “oy”)grafia alternativa para o komets alef ou o vov yud
פ
fey (f)como o fey, mas sem o rafe (traço gráfico)


Da esquerda pra direita, a ordem alfabética é esta, com as formas finais da letra anterior entre parênteses:

א, ב, בֿ, ג, ד, ה, ו, ז, ח, ט, י, כּ, כ, (ך), ל, מ, (ם), נ, (ן), ס, ע, פּ, פֿ, (ף), צ, (ץ), ק, ר, ש, שׂ, תּ, ת

Da esquerda pra direita, os seguintes grafemas não são considerados letras do alfabeto:

אַ‎‎, אָ‎‎, וּ‎‎, וו‎‎, ױ‎‎, יִ‎‎, יי‎‎, ײַ




8 de fevereiro de 2019

O que é o ateísmo militante? (em 2011)


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NOTA: Este texto é um dos mais claros e diretos da série que tenho lançado nas últimas semanas. Pra quem curte os temas da laicidade e do ateísmo, e tem sentido falta desses debates no Brasil dos últimos anos, essa é uma lufada de ar fresco, colocando de forma clara termos que estavam muito em voga no ápice do “neoateísmo”. De fato, muitos desses escritos são antes tentativas de esclarecer pensamentos a mim mesmo do que expor conhecimento a outros. Mas decidi republicar porque acredito ter voltado a ser hora de falar sobre descrença e fanatismo religioso, e porque essa trajetória de meu amadurecimento intelectual também pode ajudar pessoas que pensam igual a mim. Na segunda metade de 2011 eu ainda estava ruminando o livro Deus, um delírio, de Richard Dawkins, um best-seller do assunto na época que eu jpa tinha lido outras vezes, e por isso muitas vezes aludo a ele nominalmente. Hoje penso que esta obra não é mais suficiente pra pensar um tema tão complexo, mas as gotas de reflexão novamente ajudam a encarar essa nossa época tão diferente.



A década de 2000, em que se acirraram muitos conflitos religiosos e se denunciou explicitamente constantes violações do Estado laico em algumas regiões do mundo ocidentalizado, presenciou ainda, e como consequência, o surgimento de um fenômeno que, no geral, pode ser chamado de “ateísmo militante”, às vezes taxado injustamente de “ateísmo fundamentalista”. Marcado pela forte oposição aos abusos das religiões institucionais, coloca novamente na ordem do dia o esclarecimento da definição do que é ser ateu, caracteriza-se pela atuação ativa e decidida em prol das causas com as quais simpatiza e destaca-se pela defesa de movimentos progressistas e geralmente muito polêmicos e avançados para a época em que se encontra.

Outras pessoas já tentaram fazer isso de modo resumido, e eu mesmo às vezes me vi obrigado à mesma missão inglória, mas aqui se faz necessária uma conceituação mínima do que seja “ateísmo”, ao menos dentro deste texto, para evitar ambiguidades e desenvolver com vigor a argumentação. O “ateu” – palavra que surgiu antes –, embora tenha significado originalmente “aquele que não crê nos deuses oficiais”, passou a designar aquele que nega a existência de qualquer tipo de força ou inteligência sobrenatural ou externa à matéria, incluídas as mais variadas espécies de deuses, assim como a possibilidade de violações temporárias das leis naturais conforme vontades individuais – os chamados “milagres”. Ampliando-se a descrição – e em geral isso já está subentendido –, ele também não aceita submeter-se a nenhuma forma de crença, ritual ou culto sagrado instituído pela tradição ou por grupos particulares nem seguir passivamente suas normas e restrições, o que quase sempre implica rejeição a qualquer espécie de dogmatismo ou de adoção de ideias ou teorias não verificadas sobre o mundo, sua origem e seu funcionamento. Outro ponto importante é o afastamento da noção de que a moralidade e o caráter dependem da religiosidade, e não, como parece mais plausível, de condições familiares, educacionais, culturais, psicológicas e genéticas; em última análise, há crentes bons e maldosos, assim como há ateus bons e maldosos. Por ora, deixo voluntariamente de lado as inúmeras distinções entre ateísmos “forte”, “fraco”, “agnóstico” e outros matizes da descrença, pois eles pouco interessam para os corolários práticos mais comuns da apostasia, que são o apoio a certos projetos de sociedade e a certas lutas emancipatórias.

Normalmente, e com grande correção, não se atribui nenhum preceito ou dogma adotado de modo obrigatório por todos os ateus, até porque o ateísmo, à primeira vista, é apenas a negação da existência do sobrenatural, das religiões como absolutamente necessárias ao bem-estar coletivo e da moralidade como dependente de ditames sobre-humanos, embora muitos filósofos afirmem que esses elementos são parte de uma “doutrina” ateísta. Por conseguinte, ainda que a maioria dos ateus aceite esses postulados em maior ou menor grau, não haveria um conjunto de regras positivas comuns que nascesse dessa visão. De qualquer modo, na prática, os ateus costumam consentir em muitas questões a respeito de problemas éticos e sociais, e muitas vezes com uma postura progressista, como a legalização do aborto, a liberdade de expressão e de consciência – incluída aí a religiosa –, a não interferência das religiões na ciência e na política, a criação não agressiva dos filhos com base no desenvolvimento do pensamento crítico e da tomada independente de decisões saudáveis, a objeção a modelos autoritários de governo e de gestão, a não violência, a preservação da integridade física e psíquica do ser humano e a luta contra todo preconceito, sobretudo os de cor da pele, sexo, gênero, crença, deficiência física ou mental e opção política, alimentar ou lúdica. Essa escolha advém do fato de que, normalmente, quando uma pessoa se liberta do modo religioso de pensar, isto é, procurar encaixar os fatos da vida em credos pré-concebidos ou exteriores a seu próprio raciocínio, ela experimenta uma sensação natural de simpatia por todos os grupos ou indivíduos que são ou foram subjugados por formas parecidas de opressão ou limitação.

Essa libertação frequentemente é acompanhada de uma vontade apaixonada de expressar a nova personalidade e de denunciar todas as situações em que está mais ou menos clara a contradição com o bom-senso e com os direitos humanos básicos. Daí nasce a posição “militante”, de uma loquacidade fervorosa e incisiva, muito fácil de confundir com o fundamentalismo ou outros meios de enquadramento irracional. Essa comparação, muitas vezes feita deliberadamente, mesmo quando se sabe que é incorreta – enfim, a velha desonestidade intelectual com fins propagandísticos –, advém de dois fatos muito difundidos. O primeiro, ocorrente em qualquer ponto do tempo e do espaço, é o choque entre o que o senso comum considera correto, usual e cômodo e percepções novas, muitas vezes desconstrutoras, dessas banalidades, geradas de pontos de vista nunca antes adotados ou pensados. No mais das vezes, esse impacto atinge preconceitos contra grupos divergentes do padrão dominante numa sociedade ou a posturas para com o meio-ambiente e, como eles são fortemente legitimados por forças colossais, como a Igreja, o Estado e os detentores dos meios de produção, esse trabalho consiste em um esforço ingente e nem sempre bem sucedido. O segundo, muito bem dissecado por Richard Dawkins, é a equiparação entre o fundamentalismo religioso e o dito “fundamentalismo ateu”. Como afirmado acima, é muito fácil que qualquer cabeça confunda paixão com fundamentalismo, mas a conceituação deste é clara: manutenção de um comportamento ou de uma opinião, mesmo que todas as evidências se voltem contra sua veracidade, utilidade ou viabilidade. Ora, um religioso fundamentalista afirma que continuará acreditando em Deus ou no criacionismo mesmo que a ciência os refute categoricamente. Já um dito “fundamentalista ateu”, inebriado que está com o posicionamento científico, pode defender ardorosamente uma ideia quando julga que, em certo momento, há mais provas a seu favor do que contra, mas invariavelmente será o primeiro a abandonar sua fortaleza quando a verificação empírica demonstrar o contrário. E isso inclui a existência de Deus ou a vida após a morte.

É simplesmente a divergência de conceitos extremamente enraizados nas mentes da maioria das pessoas e a contrariedade a grandes poderes instituídos que tornam os ateus militantes – em suma, os que não se contentam com o mero abandono das velhas crenças e decidem se bater ativamente contra as injustiças causadas pelas religiões ou pelas ideologias, instituições e práticas relacionadas ou corroboradas tácita ou abertamente por elas – tão rejeitados nos países menos desenvolvidos, bem mais do que os que decidem manter sua opção em segredo ou não botar suas implicações em prática. Eles são vistos como grandes demônios, incitadores da desordem e potenciais agressores físicos e verbais. Na verdade, a condescendência, que aprendem com o exercício da tolerância surgida quando percebem que sua antiga fé não é a única possível, torna-os aptos até mesmo a concordar com a aliança com religiosos progressistas e não fanáticos em busca da realização de ideais nobres, como o fim da miséria e da exploração operário-camponesa. O que está em pauta, em último caso, é o combate a qualquer forma de tirania e de supressão da individualidade e dos meios para uma existência digna e livre.


Bragança Paulista, 4 de junho de 2011.
Levemente alterado a 21 de maio de 2012.



6 de fevereiro de 2019

Kobzon – День Победы (Dia da Vitória)


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Esta bela canção é uma homenagem à derrota dos nazistas pelos soviéticos e pelos Aliados em 8-9 de maio de 1945. Seu nome é “День Победы” (Den Pobedy), O Dia da Vitória, e pra não ser confundida com outras canções do mesmo nome, é lembrada pelo seu início, “Den Pobedy, kak on byl ot nas daliok...”. Foi composta em 1975 pelo poeta Vladimir Kharitonov (letra) e pelo músico, ainda vivo, David Tukhmanov (melodia), e interpretada pelos melhores cantores soviéticos e russos, dentre os quais se destacam Lev Leschenko e Iosif Kobzon. Sua origem está num concurso lançado pela União dos Compositores da URSS pra escolher a melhor canção sobre os 30 anos da vitória.

A primeira interpretação foi feita pela poetisa e atriz Tatiana Sashko, esposa de Tukhmanov, mas o texto foi muito criticado por colegas da união de compositores, por serem os dois autores jovens demais e, supostamente, não poderem ter “vivido” o espírito da guerra. Porém, em outras apresentações feitas no final de 1975, o público mais geral aprovou a canção, que hoje é considerada uma das mais populares da Rússia. O “forno de fundição” (martenovskaia pech), inclusive, que foi como eu traduzi “forno Siemens-Martin” em favor da clareza, era o símbolo de uma indústria pesada então crucial pra URSS ter vencido a 2.ª Guerra Mundial.

Pra quem acompanha e pesquisa música e cultura da Rússia, Iosif Davydovich Kobzon (1937-2018) dispensa apresentações, pois foi um consagradíssimo cantor da URSS e da Rússia. Mesmo tendo nascido no território da atual Ucrânia, suas canções eram quase sempre em língua russa, e ele sempre foi completamente alinhado a qualquer governo que estivesse em Moscou. Fã da antiga União Soviética e filiado ao partido Rússia Unida, foi um aliado fiel de Vladimir Putin e inclusive recebeu a cidadania da República Popular de Donetsk, não reconhecida internacionalmente. Por essa razão, em 14 de maio de 2018 o presidente Petro Poroshenko tirou-lhe todas as condecorações oficiais que tinha recebido em nome da Ucrânia. Também pedagogo musical, nunca deixou de atuar politicamente, mesmo já sofrendo de problemas de saúde no início dos anos 2000.

Este grupo não oficial do VK talvez seja uma das melhores referências pro material midiático referente a Kobzon. Eles informam que o cantor não usava redes sociais, portanto eram fiáveis apenas as coisas publicadas no site oficial. Há um único vídeo em que achei o clipe original, apesar da baixa qualidade, e eu mesmo traduzi, legendei, cortei o enquadramento e aumentei o volume. Seguem abaixo minha legendagem, que postei no canal Eslavo (YouTube), a letra em russo e a tradução em português:




1. День Победы, как он был от нас далёк
Как в костре потухшем таял уголёк
Были вёрсты, обгорелые, в пыли
Этот день мы приближали как могли

Припев:
Этот день Победы
Порохом пропах
Это праздник
С сединою на висках
Это радость
Со слезами на глазах
День Победы, День Победы, День Победы!

2. Дни и ночи у мартеновских печей
Не смыкала наша Родина очей
Дни и ночи битву трудную вели
Этот день мы приближали как могли

(Припев)

3. Здравствуй, мама, возвратились мы не все
Босиком бы пробежаться по росе
Пол-Европы прошагали, пол-Земли
Этот день мы приближали как могли

(Припев)

____________________


1. O Dia da Vitória, como estava longe de nós
Como numa fogueira apagada sumia a brasa
Eram quilômetros, queimados, empoeirados
Caminhávamos até esse dia como podíamos

Refrão:
Este Dia da Vitória
Cheirou a pólvora
Este é um festejo
Com cabelo branco na testa
Esta é uma alegria
Com lágrimas nos olhos
O Dia da Vitória, Dia da Vitória, Dia da Vitória!

2. Dias e noites junto aos fornos de fundição
Nossa Pátria não pregava os olhos
Dias e noites conduzimos uma difícil luta
Caminhávamos até esse dia como podíamos

(Refrão)

3. Como vai, mamãe, nem todos de nós voltamos
Não demos uma volta descalços pelo orvalho
Mas percorremos meia Europa, meio planeta
Caminhávamos até esse dia como podíamos

(Refrão)




4 de fevereiro de 2019

O movimento ateu e o espectro político


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/espectro


NOTA: “O movimento ateu dentro do atual espectro político” é mais um dos textos que escrevi em 2011 relacionando pensamento irreligioso e reflexões políticas. Como eu estava maturando nos dois domínios, achava que eles estavam estritamente ligados, mas hoje vejo que essa correlação não é mais tão necessária. Obviamente muitos extremistas religiosos ainda se metem nos governos e a questão dos preconceitos deve ser tratada como um assunto de Estado, mas ainda assim acho que tudo isso devia ser tratado sob outros termos. Esse é um dos poucos textos em que cito nominalmente duas organizações então recém-fundadas e que eram ponta-de-lança da militância laica no Brasil, mas hoje não ganham tanto destaque na mídia quanto antes. Mesmo minha percepção sobre os campos político e religioso/filosófico em separado ainda era simplória, mas o artigo ainda é válido como semente pra pensar problemas não resolvidos. Não fiz alterações.



Apesar de todas as limitações conceituais hoje emergentes ao se rotular esta ou aquela ideologia ou ação política como “de direita”, “de esquerda” ou “de centro”, parece viável, pelo menos para uma análise prática e direta ligada à posição atitudinal de um ou outro dos coletivos aqui tratados, dizer que existem, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo ocidentalizado, um “ateísmo de direita” e um “ateísmo de centro”. Essas designações, na verdade, só fazem sentido diante de um “novo” ateísmo a ser cultivado, o “de esquerda”, que deve colocar-se como alternativa, ainda que não a única, nas batalhas pelo fim da discriminação religiosa e por um país mais justo.

É preciso definir, antes de tudo, mais ou menos claramente, não obstante a possível falta de rigor acadêmico ou científico, o que se pode entender, grosso modo, como “direita”, “esquerda” e “centro”. Hoje em dia, na política do Estado e seus três Poderes, essa divisão parece, em grande parte, ter perdido sentido, pois os interesses particulares ou grupais que sobrepujaram, em muitas nações, a defesa de ideários coerentes e complexos ligados a aspirações mais gerais ligam-se a necessidades mais imediatas e costuradas por barganhas muitas vezes frágeis e racionalmente inexplicáveis. Porém, na falta de um vocabulário que descreva com mais precisão o quadro ideológico supostamente tomado pela política contemporânea, e como a provável transição de um modelo ligado a descrições econômicas para outro baseado em fatores mais influentes na atualidade (pode-se dizer, por exemplo, a religião) ainda não está totalmente realizada, as lutas sociais continuam a poder, sem grandes contradições, ser repartidas nas três categorias. A “direita”, referente à manutenção do capitalismo, privilegia o jogo político institucional, aceita apenas as mudanças realizadas dentro da “ordem”, menospreza o papel e a validade das ideologias, funda a “natureza humana” em bases naturais e imutáveis e ressalta o caráter de progresso no correr da história da humanidade. A “esquerda”, tipicamente anticapitalista, transfere às massas populares o protagonismo do teatro político, incentiva a quebra da “ordem” por meio de revoltas dos trabalhadores, reconhece o caráter ideológico da dominação (e de sua legitimação) burguesa, não admite a existência de uma “natureza humana” preexistente à sua construção cotidiana e demonstra como, apesar das conquistas técnicas, o ser humano também produziu muita miséria e destruição. O “centro” adota princípios dos dois polos ou envereda por um “caminho do meio”: prega reformas no capitalismo para que ele torne-se mais “solidário”, incentiva a pressão popular sobre os políticos profissionais para a realização do bem comum, tolera o manifesto de insatisfações “dentro da lei”, relativiza as elaborações ideológicas (não raro denunciando seu caráter nefasto), tentando submetê-las aos limites da “natureza humana”, e condena os males da evolução científica, não deixando de elogiar suas benesses.

Após essa exaustiva elucidação, que não deixa de ser indispensável e facilita a compreensão das próximas palavras, fica mais ou menos visível a ligação do chamado “neoateísmo” (que nada tem de novo em seus argumentos) e do humanismo secular, respectivamente, com as propostas básicas da “direita” e do “centro”. A concordância da negação de Deus com o conservadorismo já tem mais de duzentos anos: iniciou-se em alguns materialistas franceses das Luzes, tomou sua face mais desenvolvida no positivismo comtiano e hoje volta à luz em sua versão “lógica”, claramente concorde às prédicas de autores como Daniel Dennett e, em menor grau, Richard Dawkins. Sem qualquer referência à revolução social ou à origem material das desigualdades humanas, usualmente demonstra um caráter bastante elitista no esmagamento das possibilidades transcendentais com uma suposta “infalibilidade da ciência” e o consequente progresso humanístico que sua aplicação inequívoca impulsiona, vê com algum desdém a sabedoria popular, as contendas ideológicas e as modernas conciliações entre religiosidade e socialismo (como ao modo, entre outros, da “teologia da libertação”) e, como os humanistas seculares, calam-se quanto aos condicionamentos sociais e históricos do que sempre foi chamado de “essência humana”. Suas referências ao Estado são muito vagas e limitadas à defesa de sua “laicidade”, não denunciando seu caráter de classe ou a opressão que perpetua sobre a população carente. Os humanistas seculares, geralmente pouco gratos às remotas origens renascentistas cristãs do livre-pensamento e de alguns ramos do conhecimento que aos poucos se foram desligando das matrizes originais, quase sempre se localizam num meio termo entre a imutabilidade do regime econômico e o estímulo a lutas sociais, politizando o cientificismo até o limite de não exigir reviravoltas mais radicais nas sociedades e, assim, enquadrando o combate antirreligioso na simples extirpação das manifestações superficiais da fé. Mostram-se favoráveis às manifestações populares, mas novamente sem atacar as verdadeiras raízes dos preconceitos que combatem, como aos LGBTTT, às mulheres, à diversidade religiosa e irreligiosa e à liberdade de expressão. Mais do que repulsa, demonstram indiferença a uma compreensão aprofundada das ideologias políticas mais consagradas como instrumento para a pugna ateísta (aliás, são menos elitistas e isolacionistas do que os “neoateus” porque não achincalham o agnosticismo e não lhe reservam um mero espaço nominal ou coadjuvante nas instituições que fundam). Quanto a questões mais propriamente mundanas, são um pouco mais “esquerdistas”: defendem o Estado laico, leis mais justas para todos os grupos sociais e, contra os abusos genocidas, uma ciência baseada em uma ética humanista, humanismo esse, porém, exibido como uma espécie de “essência atemporal” desligada das recentes condições internacionais que possibilitaram sua forma atual.

Falar em um “ateísmo de esquerda” pode até contradizer os próprios princípios do socialismo (e não só do marxista, mas também das ideias sobre religião escritas pelos anarquistas), já que as Igrejas e a religiosidade seriam apenas a manifestação de carências da maioria da população e da coerção de poderes que oprimem essa gente corporal e mentalmente e curáveis, portanto, por meio da derrubada de todos os poderes políticos e econômicos causadores da miséria e da alienação. Contudo, é justamente essa grande constatação esquecida pelos movimentos antirreligiosos modernos, que se atêm apenas ao fenômeno religioso palpável e visível e não sabem que, embora não se deva, obviamente, cair na determinação mecânica das religiões de um povo pelas suas estruturas econômicas e políticas, todos os elementos coletivos da esfera privada e a esfera pública (ou, como também se poderiam chamar, “sociedade civil” e “sociedade política”) de um país estão organicamente ligados em um funcionamento simbiótico, e sendo as Igrejas nada mais do que mais um coletivo privado, não poderiam funcionar sem relacionar-se a seu meio, ainda que, mesmo assim, não necessariamente percam sua independência e particularidades. Por isso, faz-se premente reconhecer que a luta contra as manifestações de injustiça e belicosidade no Brasil e no mundo deve estar imbricada ao combate contra o sistema político-econômico que hoje vigora praticamente em todas as nações, um sistema de exploração do trabalho, de privilégios às classes dirigentes, de desigualdade social, de falta de compromisso com o saber e de massificação das preferências e das paixões. A ciência não deve ser mais um poder acima de todos os conflitos, e sim precisamente um instrumento indissociável da peleja política (não da política estatal, mas da política das ruas, do campo, das fábricas e das instituições de ensino) e servidor dos mais fracos, que não devem, aliás, ser tutelados por ela, mas dominarem-na por si mesmos, desencastelarem-na de seus redutos acadêmicos e darem-lhe, portanto, mais vida e utilidade. E a dimensão espiritual do ser humano, não associada à fé cega e servil, mas ao pleno desenvolvimento e satisfação das vontades erótico-estéticas, de gosto, de beleza e do sentido que todas e todos precisam dar à sua curta existência, deve ser recuperada sob um novo prisma, mais realista, terreno e sensual, sem os excessos causados por uma cultura da banalização do prazer nem o vazio deixado pela ânsia doentia de riquezas e dominação. E é sobre essa confusão espiritual, hoje canalizada por inúmeras seitas fundamentalistas e preconceituosas, que os movimentos ateus, laicos e secularistas precisam debruçar-se tanto para atrair mais simpatizantes quanto para realmente tornar a humanidade melhor.

O extremismo e o dogmatismo, presentes há muitos séculos igualmente nas práticas sociais dominantes e nas alternativas contestadoras, são males que causaram irreparáveis danos à política e a religião, com reflexos castradores e repressores na cultura e na vida íntima dos indivíduos. Se o ateísmo, originalmente um rótulo imposto pelos governantes aos desvios do pensamento hegemônico e progressivamente tornado em um conjunto de doutrinas anticlericais não raro díspares, não quiser ver seu potencial desagregar-se e todo seu esforço contra as opressões ser engolido por crescentes ondas de obscurantismo, deve assentar seus pés sobre o chão e dialogar com o mundo real, com interlocutores reais e com clamores reais, longe de debates infrutíferos e acessíveis apenas a uns poucos iniciados. Só assim o equívoco vocábulo de negação dos deuses, de estigma popular, passará a ser tido como sinônimo de coragem, sabedoria, altruísmo, inteligência e fraternidade humanitária.


Bragança Paulista, 20 e 22 de abril de 2011.


Nota (23/4/2011): Após refletir um pouco, dei-me conta de que “neoateu” e “humanista secular” não são categorias necessariamente fixas ou excludentes, mas que um humanista secular pode muito bem ser um neoateu, ou vice-versa, ou ainda pode adotar apenas uma dessas visões. Na verdade, quando fiz tal classificação, referi-me especialmente a duas entidades secularistas que hoje representam com maior vigor e espaço o ateísmo organizado no Brasil: a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) e a Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS). Embora elas não sejam obrigatoriamente antagônicas, quem as conhece e acompanha seu trabalho sabe que seus meios de atuação diferem bastante e que não raro seus líderes demonstraram várias divergências quanto ao modo de tratar a religião e as pessoas religiosas (no que meu texto acerta, de fato, quando atribui, implicitamente, maior tolerância à LiHS e maior rispidez à ATEA). Além disso, ao contrário do que acontece com vários grupos de esquerda ou mesmo várias religiões, não se tem registro, até agora, de qualquer manifestação popular, reservada ou virtual que tenha contado com a colaboração mútua dos dois organismos, o que deixa claro que a falta de união de forças ainda é um dos pontos fracos desse tipo de ideologia em nosso país.



2 de fevereiro de 2019

Alex Aivazov – Из-за чего (Por que foi)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/izzachego




Entre as muitas propostas que me têm sido feitas, esta canção meio brega me agradou bastante. Ela se chama “Из-за чего” (Iz-za chego), que pode ser traduzida Por que foi ou Por qual razão, e foi gravada e composta em 2017 pelo cantor russo de origem tchuvache Aleksandr “Sasha” Aivazov. O clipe original está no canal do próprio artista: vamos ajudar o coitado, a página dele tem menos de 500 inscritos! Mas esse clipe que me passaram, postado há pouco tempo num canal de música russa contemporânea e que provavelmente exibe lindas cenas da cidade ocidentalizada de São Petersburgo, foi montado por outros produtores.

Há muito tempo eu não postava no canal Eslavo (YouTube) canções atuais da Rússia, até porque me hábito é saturar o canal com folclore antigo ou cultura soviética. Mas esse caso é bem interessante, porque tem uma batidinha um tanto “antiquada”, apesar da época, com uma voz genérica muito semelhante à do Ievgeni Osin. E não é por menos: o auge de seu sucesso foi justamente nos anos 90, quando a música local deve ter chegado ao ápice da degradação, embora a maioria dos russos mais conservadores ainda reclame do pop e do rock de hoje. Aleksandr Emilievich Aivazov nasceu em 1973 em Moscou, e é um cantor e compositor pop. Na década de 80, cursou o ensino básico e teve sua primeira formação musical, e depois cumpriu curso técnico e faculdade de música popular.

Destacando seus principais sucessos na “década de Ieltsin”, quando lançou as canções mais célebres e ganhou vários concursos musicais, a Wikipédia russa conclui com seu trabalho de menor intensidade nos anos 2000 e informa que ele também gosta muito de atuar como DJ. Porém, o site nada fala sobre sua longa dependência alcoólica, que o conduziu ao ponto de ser abandonado pela mulher e seu único filho pequeno em 2014. Segundo os sites russos StarHit e Woman’s Day, a esposa Irina não aguentou mais e levou as próprias coisas, mas Sasha não quis perder sua família e se internou voluntariamente numa clínica de reabilitação. Após muito esforço, conseguiu livrar-se do álcool em 2015 e reconquistou a confiança da esposa, que sempre o apoiou no processo. A fama e o sucesso não voltaram: embora seja riquíssima de material atual, sua rede social tem pouquíssimos seguidores, mas fiéis, e ele tem ainda um site pessoal igualmente pouco chamativo.

Eu mesmo traduzi e legendei a muito fácil letra da canção, apesar dos poucos idiomatismos. Também cortei a pequena introdução do canal que postou o clipe, mas lá vocês podem ver o original. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em russo e a tradução em português:




Помнишь, как встретил тебя украдкой я в кругу друзей,
Как целовались, как обнимались прямо у дверей.
Как ты манила, как ворожила красотой своей,
И я подумал, что буду рядом с женщиной своей.

2x:
Из-за чего расстались мы с тобой
Уже никто не разберёт, не скажет,
Но я по-прежнему в тебя влюблён,
Мне твой звонок так важен.

Но пролетели дни, недели, а за годом год,
В той, что манила, так ворожила, произошёл переворот.
То ли там кто-то появился или может что,
Только теперь у дверей целоваться нам не суждено.

4x:
Из-за чего расстались мы с тобой
Уже никто не разберёт, не скажет,
Но я по-прежнему в тебя влюблён,
Мне твой звонок так важен.

____________________


Entenda, quando espiando te encontrei numa roda de amigos,
Vendo vocês se beijarem, se abraçarem bem na porta.
Como você encantava, enfeitiçava com sua beleza,
E eu pensava que estaria ao lado de minha mulher.

2x:
Por que foi que nós dois rompemos
Ninguém mais vai entender ou dizer,
Mas como antes, você é minha paixão,
É tão importante você me ligar.

Mas voaram os dias, as semanas, e ano após ano,
Naquela que encantava, tanto enfeitiçava, houve uma virada.
Outro alguém apareceu aí ou coisa assim,
Só que agora nunca mais podemos nos beijar na porta.

4x:
Por que foi que nós dois rompemos
Ninguém mais vai entender ou dizer,
Mas como antes, você é minha paixão,
É tão importante você me ligar.