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22 de setembro de 2018

Mina – Tintarella di luna (Banho de Lua)


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É evidente que traduções sempre enriquecem uma cultura, e no caso do Brasil, a versão de músicas italianas dos anos 50 a 70 fez nossa história, sobretudo pelo estilo da “jovem guarda”. Eu queria saber se vocês reconhecem esta canção, que talvez muitos nem saibam que foi traduzida do italiano, mas que a maioria dos jovens hoje nem deva conhecer. Portanto, mostre o vídeo pro seu avô ou sua avó, e espere a resposta. Eles se lembraram da canção Banho de lua, que estourou na voz de Celly Campello? Pois acertaram!

Esta linda moça, que parece estar recebendo um caboclo e parece um clone da atriz e youtuber Kéfera Buchmann, se chama Mina Anna Maria Mazzini, mais conhecida pelo nome artístico Mina. Ela gravou Tintarella di luna (literalmente, Bronzeado de Lua ou Bronzeada pela Lua) num compacto de 1959, junto com a faixa Mai (Nunca). A letra é de Franco Migliacci e a melodia é de Bruno De Filippi, com arranjos de Tony De Vita. Mina, que também tem nacionalidade suíça desde 1989 e se especializou em pop e na chamada “música leve”, começou sua carreira em 1958, aos 18 anos. Tornada com os anos a mais exitosa cantora italiana, adotou vários ritmos, gravou mais de 1500 músicas, vendeu mais de 150 milhões de discos entre álbuns e compactos e também atuou no rádio, no cinema e em programas de TV. Atuou com artistas consagrados do mundo inteiro, teve uma agitada vida privada (embora sempre se esforçasse por guardar discrição) e foi pioneira nos costumes: além dessa roupa e cabelo que seriam modernos ainda hoje, Mina foi a primeira na Itália a usar minissaia na mídia.

Meio ao estilo de um “hino dos supremacistas brancos” ou no mínimo um “consolo às meninas branquelas”, numa cultura que valoriza as peles bronzeadas sexy (tanto lá como aqui), Mina faz também um trocadilho com os dois sentidos de cândida, que são “branca”, “alva”, e “pura”, “imaculada”. Outras bandas já a executavam em seus shows, mas ao ouvir a primeira vez, Mina se apaixonou pela canção e pediu permissão pra gravar, já parecendo que tinha sido feita especialmente pra ela. A faixa termina sendo sua marca registrada, lança a garota nacionalmente e a distingue entre tantas artistas parecidas, na véspera do boom econômico dos anos 60. A melodia foi composta primeiro, e então deixada à genialidade de Franco Migliacci, já consagrado com Domenico Modugno como coautor da celebérrima Nel blu dipinto di blu. Além da própria trama incomum, criou o “tin tin tin” que deveriam ser os “raios de Lua” batendo no corpo da moça.

A canção também foi traduzida em francês como Un petit clair de lune, e em português como Banho de Lua (versão de Fred Jorge), gravada em 1969 pelo grupo tropicalista brasileiro Os Mutantes, mas celebrada já em 1960 quando nascia a “jovem guarda”, na voz de Celly Campello (nome artístico, 1942-2003), eternizada como “Namoradinha do Brasil”. Cantando e atuando no rádio e TV desde criança, Celly estourou no país com Estúpido Cupido em 1959 e se tornou a precursora do rock nacional. Coisas do destino: encerrou a carreira no auge, aos 20 anos, pra se casar e ir morar em Campinas, perdendo, por isso, a chance de apresentar o mítico programa Jovem Guarda de Roberto e Erasmo Carlos. Todas as vezes em que tentou relançar-se, inclusive em 1976, na época da novela Estúpido Cupido, quando voltou aos holofotes, não obteve sucesso, e terminou falecendo de câncer de mama.

Eu mesmo traduzi e legendei, tendo copiado o texto italiano do ótimo site musical Rockol.it e baixado este vídeo sem legendas. Seguem abaixo a legendagem no meu canal Eslavo (YouTube), o original em italiano e a tradução em português:


____________________


Abbronzate, tutte chiazze,
Pelli rosse un po’ paonazze
Son le ragazze che prendono il sol,
Ma ce n’è una
Che prende la luna.

Tintarella di luna,
Tintarella color latte
Tutta notte sopra il tetto,
Sopra al tetto come i gatti.
E se c’è la luna piena,
Tu diventi candida.

Tintarella di luna,
Tintarella color latte
Che fa bianca la tua pelle,
Ti fa bella tra le belle.
E se c’è la luna piena,
Tu diventi candida.

Tin tin tin,
Raggi di luna,
Tin tin tin,
Baciano te.
Al mondo nessuna è candida come te.

____________________


Bronzeadas, bem manchadas,
Peles vermelhas, meio roxas
São as meninas que tomam Sol,
Mas uma delas
Toma banho de Lua.

Bronzeada pela Lua,
Bronzeada cor-de-leite
Toda noite no telhado,
No telhado como os gatos.
E se a Lua está cheia,
Você se torna cândida.

Bronzeada pela Lua,
Bronzeada cor-de-leite
Que deixa sua pele branca
E te faz a mais bela mulher.
E se a Lua está cheia,
Você se torna cândida.

Tim, tim, tim,
Raios de Lua,
Tim, tim, tim,
Beijam você.
Ninguém no mundo é cândida como você.




20 de setembro de 2018

Воевать мы мастера: música da URSS


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/mestres


Há uns dias estavam reclamando que meu canal Eslavo (YouTube) “não estava eslavo”, por causa das legendagens em outras línguas. Então, “arrebentei a boca do balão” e mandei algo ao mesmo tempo em russo, comunista e da 2.ª Guerra Mundial. Mais um fã do canal também me pediu esta por meio do título em inglês, e descobri que se tratava de “Воевать мы мастера” (Voievat my masterá), que pode ser traduzido como Somos mestres em guerrear. É mais uma canção de propaganda nacional com letra de Vasili Lebedev-Kumach, o “trovador de Stalin”, desta vez com melodia de Tikhon Khrennikov, ao que tudo indica, datada de 1941.

No canal do vídeo sem legendas há muito mais material documental da época, e trata-se de um cinejornal musicado, e não de um longa-metragem, ilustrando o esforço antinazista. É interessante que, pra mobilizar a população, Stalin só podia usar o nacionalismo patriótico e a mitologia dos heróis militares russos, extensamente repetidos ao longo da canção. Como ele ia mover as massas, já combalidas com fome, violência, produção acelerada e outras guerras, recorrendo à retórica ultrapassada de “defender a revolução mundial” e “ajudar o proletariado de outros países”?

Aparentemente, mesmo entre os russos, essa canção não era popular, nem conhecida fora do material onde ela foi gravada: o chamado “Боевой киносборник № 6” (Coleção de Cinema de Guerra, episódio 6), um dos rolos de uma série de filmes feita pras forças armadas da URSS, certamente depois de junho de 1941, quando os alemães se lançaram à invasão ao país. Em outros uploads feitos na Rússia, há o mesmo trecho cantado, bem como a crônica inteira e a informação de que, sobre a voz do ator à frente, canta o artista Vladimir Zakharov. Choca a linguagem ofensiva com que são chamados os “cachorros” (псы) alemães, remetendo a outras guerras que os dois povos já tinham travado no passado. Destaque pra trechos do filme Aleksandr Nevski (também escrito “Alexander Nevsky”), um dos mais famosos do cinema histórico soviético.

Há um artigo muito interessante em russo, escrito por Ie. V. Baraban, chamado “A Mãe-Pátria no cinema soviético, 1941-1945”, do qual eu copiei a fala inicial dos atores, ausente da música. A apresentadora começa assim: “За наших матерей и сестёр, за наших отцов и братьев, за смерть, принесённую тобой в нашу страну, Красная Армия отплатит сторицей” (Por nossas mães e irmãs, por nossos pais e irmãos, pela morte que você trouxe ao nosso país, o Exército Vermelho responderá cem vezes pior). O ator continua: “Отплатим, товарищи. Русский народ никогда не оставался в долгу врага” (Responderemos, camaradas. O povo russo nunca ficou em dívida com o inimigo).

P.S. Reparem no soldado mais à esquerda dando um leve escorregão na escada aos 4 min 52 seg: foi uma pena que deixei essa escapar, na hora de montar a legendagem. Eu mesmo traduzi direto do russo e legendei, tendo copiado o texto desta página. Seguem abaixo minha legendagem, o original russo e a tradução em português:


____________________


1. Эй, герои! Разве не с кого
Брать нам в доблести пример?
Вспомним ратный подвиг Невского,
Боевой его манер.
Брал отвагой молодецкою
Он на озере Чудском,
И остались псы немецкие
Под холодным русским льдом!

Припев:
Воевать мы мастера,
И сегодня, как вчера,
По-геройски бьются русские бойцы.
И сегодня, как вчера,
Под могучее «ура»
Сыновья идут на битву, как отцы!
И сегодня, как вчера,
Под могучее «ура»
Сыновья идут на битву, как отцы!

2. Не задаром распеваются
Нами песни про Петра,
В каждом сердце отзывается
Та великая пора.
Все пути, что были пройдены,
Помнит храбрый наш народ.
Боевая слава Родины
Нас на подвиги зовёт.

(Припев)

3. Люди мы такого норова,
Что дерёмся до конца.
Мы – наследники Суворова,
Полководца и бойца.
Славы русской не забыли мы
И суворовских побед,
В сердце свято сохранили мы
Боевой его завет.

(Припев)

4. Честь, и храбрость, и достоинство
Русских воинов-отцов
Носит в сердце наше воинство
Краснозвёздных храбрецов.
И звезда красноармейская
Прежней славою горит.
Разгромим орду злодейскую,
Враг, как прежде, будет бит!

(Припев)

____________________


1. Ei, herói! Por acaso não temos
Ninguém para imitar em bravura?
Lembremos a façanha bélica de Nevski,
Suas maneiras lutadoras.
Ele atacou no lago Chud
Com intrépida valentia,
E os alemães cachorros ficaram
Sob o resfriante gelo russo!

Refrão:
Somos mestres em guerrear,
Tanto hoje quanto ontem,
Combatentes russos são heroicos.
Tanto hoje quanto ontem,
Sob um poderoso “hurra”
Os filhos vão lutar, como os pais!
Tanto hoje quanto ontem,
Sob um poderoso “hurra”
Os filhos vão lutar, como os pais!

2. Não é em vão que entoamos
Canções sobre Pedro, o Grande,
Em cada coração repercutem
Aqueles tempos grandiosos.
Nosso povo corajoso rememora
Todos os caminhos percorridos.
A glória lutadora da Pátria
Nos chama a realizar façanhas.

(Refrão)

3. Somos pessoas tão obstinadas
Que pelejamos até o final.
Somos herdeiros de Suvorov,
O comandante e soldado.
Não esquecemos a glória russa
Nem as vitórias de Suvorov,
Mantemos no peito com devoção
Seus preceitos para a guerra.

(Refrão)

4. A honra, a coragem e o valor
Dos pais russos que combateram
Está no peito de nosso corajoso
Exército com Estrela Vermelha.
E a estrela do Exército Vermelho
Brilha com as glórias passadas.
Destruamos a horda abominável,
Como antes, o inimigo perecerá!

(Refrão)




18 de setembro de 2018

Andrés do Barro: Corpiño xeitoso, 1970


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/xeitoso


Outra canção que traduzi e legendei a partir da língua galega, a mais próxima do português, desta vez cantada pelo já falecido artista galego Andrés do Barro. Ela se chama Corpiño xeitoso, que podemos traduzir, obviamente, como Corpinho jeitoso, mas também Corpinho elegante, e foi composta pelo próprio Andrés. No ocaso da ditadura de Francisco Franco, que perseguiu as minorias linguísticas, o sucesso de Andrés do Barro foi algo excepcional, tanto com este clipe, gravado em 1970, quanto com outra música sua, O tren (O tren que me leva pola beira do Miño/Me leva, me leva polo meu camiño...), que estourou na Espanha.

Idiomas quase iguais são interessantes, e podemos entender o galego escrito, mas seria difícil traduzir literalmente as palavras ao português e ter algo que soasse palatável. Segundo as teorias modernas, uma tradução não deve ser apenas “compreensível” na língua-alvo, mas também parecer que foi escrita na língua-alvo. Isso porque um idioma não consiste só de palavras-tijolos unidas numa estrutura-gramática, mas compõe-se, sobretudo, de “modos de dizer”, que fazem com que certas combinações, embora logicamente corretas, soem estranhas devido à falta de uso. Essa é a perspectiva da linguística histórica, que há alguns anos emprego neste site e no meu canal Eslavo (YouTube).

Por isso, mais do que decalcar elementos do galego que tenham um cognato em português (o qual, porém, pode ser arcaizante ou pouco usado, sobretudo no Brasil), busquei outras formas de dizer a mesma coisa, mais comuns no português brasileiro. Até porque Andrés do Barro foi um poeta capcioso nesta canção, por criar combinações que obedecessem à métrica e à rima, e utilizar interessantes metáforas. Inclusive, às vezes também gosto de provocar vocês e, bem brasileiro, traduzi balance, que poderia ser “balanço”, como “gingado”, muito comum em nossa cultura popular pra mesma situação. Lembremos que em Garota de Ipanema, Vinícius de Moraes também usa “O seu balançado é mais que um poema”.

A música Corpiño xeitoso saiu como faixa 2 do álbum de estreia Me llamo Andrés Lapique do Barro (1970), lançado com o selo da RCA. Ator, cantor e compositor, Andrés do Barro (1947-1989) foi o cantor pioneiro em alçar sucessos em galego ao topo das paradas, apesar das dificuldades culturais dessa língua. Além de vários compactos, gravou outros dois LPs em 1971 e 1974, e no começo dessa década, ápice de seu êxito, chegou a dar shows na Argentina, Brasil e México, bem como em alguns países da Europa. Aos poucos, seus discos iam tendo menos sucesso, chegou a viver no México de 1976 a 1980 e enfim retornou a La Coruña. Atuou algum tempo no rádio, mas morreu jovem (câncer no fígado), já sofrendo de problemas financeiros. Com a esposa Paula López, a qual deixou alguns anos antes de morrer, teve três filhos e duas filhas.

Andrés do Barro cantava em galego, espanhol e italiano, mas ganhou fama por levar a cultura da Galiza pra além de suas fronteiras. Nos anos 2000, um movimento conhecido como “dobarrismo” começou a resgatar sua memória e relançar vários de seus sucessos, tornando a canção galega ouvida em outros países, sobretudo com o advento da internet. Escutando músicas de Andrés, podemos perceber alguns traços de espanhol, que era sua língua materna, como a pronúncia do LL como “i” (idêntica à pronúncia “caipira” do LH no Brasil) ou “dj”. A transcrição da letra de Corpiño xeitoso varia muito entre sites, quase sempre havendo a grafia primaveira pra primavera, errada até em galego. Outra peculiaridade é a fusão do infinitivo verbal ver com o artigo a, resultando em vela (erronemanete grafado ve-la), que muitos interpretam como “vê-la”. Mas na verdade, é fenômeno igual ao que acontece, por exemplo, com todos + os = tódolos.

Eu mesmo traduzi direto do galego e legendei, recortando o quadro, o vídeo desta página. Agora conheça este clone do ator Rafael Vitti na legendagem que segue abaixo, junto com a letra original e a tradução:


____________________


Que muller máis xeitosa que eu encontrei,
Doces foron as verbas que eu lle escoitei.
Ela ficaba na praia deitada na area,
Cos meus ollos abertos eu ollei pra ela.
Eu lle dixen “¡Ven!”
E me dixo “¿Que?”.

Déixame verche o corpo dourado
Polo sol primeiro do mes de abril.
Ergue as túas mans ata que cheguen ó ceo,
Colle as estrelas, foron feitas pra ti.

Teu corpo xeitoso indo sobre a area,
O teu movemento é coma as ondas do mar,
Teu doce balance coma o vento che leva,
Teu corpo xeitoso quer botarse a voar.

Que feitura levaba no seu camiñar,
Confundín o seu paso co meu palpitar.
Cando ela chamoume fun á súa beira,
Abondaba o seu corpo pra vela primavera.
Eu lle dixen “¡Ven!”
E me dixo “¿Que?”.

Déixame verche o corpo dourado
Polo sol primeiro do mes de abril.
Ergue as túas mans ata que cheguen ó ceo,
Colle as estrelas, foron feitas pra ti.

Teu corpo xeitoso indo sobre a area,
O teu movemento é coma as ondas do mar,
Teu doce balance coma o vento che leva,
Teu corpo xeitoso quer botarse a voar.

____________________


Que mulher mais elegante que eu encontrei,
Foram doces as palavras que escutei dela.
Ela ficava na praia deitada na areia,
Com vista arregalada eu olhei pra ela.
Eu lhe disse: “Vem!”
Ela respondeu: “Quê?”.

Deixe-me ver seu corpo bronzeado
Pelo primeiro Sol que saiu em abril.
Levante as mãos até chegarem ao céu,
Pegue as estrelas, foram feitas pra você.

Seu corpo elegante anda sobre a areia,
Você se movimenta como as ondas do mar,
Como o vento, seu lento gingado te leva,
Seu corpo elegante quer levantar voo.

Ela caminhava de maneira bonita,
Meu coração batia seguindo seus passos.
Quando ela me chamou, fui a seu lado,
Seu corpo bastava pra enxergar a primavera.
Eu lhe disse: “Vem!”
Ela respondeu: “Quê?”.

Deixe-me ver seu corpo bronzeado
Pelo primeiro Sol que saiu em abril.
Levante as mãos até chegarem ao céu,
Pegue as estrelas, foram feitas pra você.

Seu corpo elegante anda sobre a areia,
Você se movimenta como as ondas do mar,
Como o vento, seu lento gingado te leva,
Seu corpo elegante quer levantar voo.




16 de setembro de 2018

Julio Iglesias: Un canto a Galicia (1972)


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Um dos meus cantores preferidos, Julio Iglesias gravou em 1972 Un canto a Galicia (Um canto/Uma canção à Galiza), na língua galega e de sua própria autoria, como seu primeiro sucesso internacional. Julio José Iglesias de la Cueva honrou suas origens cantando no idioma nativo da região mais pobre da Espanha, muito próximo do português. As duas línguas mesmas fazem parte de uma mesma sub-ramificação dos idiomas ibero-românicos, que é a galego-portuguesa. Isto era um único idioma até o meio da Idade Média, e então se dividiu em dois, sobretudo com a precoce formação do Estado português (1140).

O cantor nasceu em Madrid, em 1942, e seu pai, Julio Iglesias Puga (“Iglesias” é o sobrenome paterno de ambos), que viveu entre 1915 e 2005, nasceu na cidade galega de Ourense, capital da província de mesmo nome (a Galiza, como um todo, é considerada “comunidade autônoma”). A mãe do cantor era filha de um jornalista andaluz e de uma porto-riquenha, quando a ilha ainda pertencia à Espanha. Quando jovem, jogou pelo Real Madrid e estudou Direito, mas teve a carreira e a faculdade interrompidas por um grave acidente de carro em 1962. Durante o tratamento, aprendeu a tocar violão, e sabemos no que isso foi dar (curiosamente, retomou estudos de Direito nos anos 90). Tinha começado a carreira em 1968 e já alcançado a fama em 1970-71.

Un canto a Galicia ocupou o primeiro lugar nas paradas da Espanha, vários países da América Latina e na Holanda, França e Bélgica, além da posição 12 na Alemanha Ocidental (onde ganhou a versão Wenn Ein Schiff Vorüberfährt) e espaço de destaque na África do Norte e Oriente Médio. Gravado inicialmente em compacto, entrou também no disco Suspiros de España, de Manolo Escobar, em dueto com Iglesias. O astro também a incluiu em outras coletâneas e cantou também em italiano e português (Um canto a minha terra). Não sendo a língua materna do Julio, o texto foge um pouco do padrão culto, a começar pela peculiar pronúncia de pai e nai como pae e nae. Além disso, a forma normal de de esos (desses) é deses, bem como soidade é mais empregado que saudade. Uma grande polêmica rodeia leixos (longe): variante regional, nenhum dicionário oficial a registra, e ela quase não aparece nos corpora da língua. Uma espécie de cognata evolutiva do espanhol lejos, é por isso reputada “castelhanismo” e substituída por lonxe, em raros registros aparecendo a forma híbrida lexos.

Pelo que parece, Julio Iglesias “corrigiu” esses pontos em gravações posteriores. Esta matéria em espanhol do jornal La Voz de Galicia tem um relato interessante do dia em que ele estreou a música em público. Na internet, só aparecem as letras “corrigidas”, mas consegui achar o texto mais fiel ao aúdio no livro Writing Galicia into the World: New Cartographies, New Poetics, de Kirsty Hooper (Liverpool, Liverpool University Press, 2011), p. 54, disponível no Google Livros. A autora destaca o vínculo da canção com o sentimento de nostalgia da vasta imigração galega pelo mundo, mas outros analistas contrastam essa melancolia com a vivacidade do ritmo, ao menos nesta gravação. Pra piorar, há uma polêmica sobre se o galego é ou não idioma separado do português, tanto que há falantes que usam uma versão muito mais próxima deste, apenas com algumas alterações morfológicas. É meio o caso do polonês e do cachubo, este tido como dialeto do primeiro. Mas a variante mais comum tem fonética semelhante à espanhola e usa a ortografia do espanhol, que é o caso de Un canto a Galicia.

Julio Iglesias sempre destacou que a Galiza lhe é muito querida, e não raro lhe dedica esta música quando se apresenta. Eu mesmo traduzi e legendei, fazendo uma legenda bilíngue galego (em cima) e português (embaixo). Nesta página pode ser lida a letra alterada, gravada anos depois, mas seguem abaixo a legendagem carregada no meu canal Eslavo (YouTube), o texto do áudio e a tradução em português:


____________________


Eu quéroche tanto,
E aínda non o sabes...
Eu quéroche tanto,
Terra do meu pai.

Quero as túas ribeiras
Que me fan lembrare
Os teus ollos tristes
Que fan me chorare.

Un canto a Galicia, hey,
Terra do meu pai.
Un canto a Galicia, hey,
Miña terra nai.

Teño morriña, hey,
Teño saudade,
Porque estou leixos
De esos teus lares.

Teño morriña, teño saudade,
Porque estou leixos de esos teus lares
De esos teus lares, de esos teus lares,
¡Teño morriña! ¡Teño saudade!

____________________


Eu amo tanto você,
E você ainda não sabe...
Eu amo tanto você,
Terra do meu pai.

Amo os seus riozinhos
Que me fazem recordar
Os seus olhos tristes
Que me fazem chorar.

Uma canção à Galiza, ei,
Terra do meu pai.
Uma canção à Galiza, ei,
Minha terra-mãe.

Eu sinto falta, ei,
Tenho saudade,
Porque estou longe
Dessas suas casas.

Eu sinto falta, tenho saudade,
Porque estou longe dessas suas casas.
Dessas suas casas, dessas suas casas,
Eu sinto falta! Tenho saudade!




14 de setembro de 2018

“Гандзя” (Handzia), canção ucraniana


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/handzia


Esta tinha sido a primeira contribuição de Tiago Rocha Gonçalves pro meu canal Eslavo (YouTube), bem como a primeira tradução de um “visitante” que aí carreguei. Ele traduziu diretamente do ucraniano a canção popular “Гандзя” (Handzia), personagem feminina jovem que habita o folclore, tal como a “Marússia” da cultura russo-ucraniana. O autor foi Denys Bonkovsky, e no áudio está sendo cantada pelo Coral Aleksandrov do Exército Russo, o famoso Coral do Exército Vermelho.

Dionisi Fedorovych Bonkovsky, mais célebre como Denys Bonkovsky (1816-1881), foi um poeta, compositor e tradutor ucraniano. De origem polonesa, deixou uma vasta obra cultural, inclusive muitas traduções ucranianas a partir da língua polaca. Em 1869, fez o famoso artigo “Sobre a musicalidade das canções populares” (Про музику народних пісень), em que ele enumerou as particularidades do folclore musical ucraniano. Por muitos anos trabalhou no serviço público do tsarismo russo, mas na Ucrânia ainda é estimado por seus versos e melodias.

“Handzia” é uma forma afetiva do prenome feminino Hanna (às vezes “Ganna” em russo), que vem do alemão e equivale a Anna. Há outras canções tendo Handzia como personagem principal já conhecidas no século 18. Essa onipresença se nota até junto ao escritor ucraniano Ivan Frankó, um dos mais celebrados do país, como no conto “Mavka” (nome de moça mitológica). No meio culto russo, como na ocidental São Petersburgo, Handzia (ou Gandzia) era conhecida como peça de piano baseada no folclore da “Pequena Rússia” (Malo-Rossia).

Como eu disse, o próprio Tiago traduziu diretamente do ucraniano e pôs legendas nesta montagem. Ele também copiou a letra original de um comentário feito na própria página, e eu apenas cortei o quadro pra deixar com o tamanho da tela moderna. Pessoalmente não me agrada a montagem usando o brasão da URSS, que é extremamente ofensivo à maioria dos ucranianos. Mas se considerarmos que os eslavos orientais têm uma longa história juntos, e que não apenas o Coral do Exército Vermelho, mas também outras instituições soviéticas atuaram pra preservar a cultura da Ucrânia (ainda que sob o rígido controle da Rússia), não precisamos criar caso.

Além da própria Wikipédia em ucraniano, tirei informações sobre o autor e a canção deste blog dedicado à cultura ucraniana e deste site repleto de letras e explicações de canções populares da Ucrânia. Também não fiz nenhuma correção na tradução, mas quem quiser dar uma sugestão ou opinião, pode escrever direto pro tradutor. Seguem abaixo a legendagem do Tiago no meu canal, os trechos da letra em ucraniano que são cantados no áudio e a tradução em português:


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1. Чи є в світі молодиця,
Як та Гандзя білолиця?
Ох, скажіте, добрі люди,
Що зі мною тепер буде?
Ох, скажіте, добрі люди,
Що зі мною тепер буде?

Приспів:
Гандзя душка, Гандзя любка,
Гандзя мила, як голубка.
Гандзя рибка, Гандзя птичка,
Гандзя цяця-молодичка.

2. Як на мене щиро гляне –
Серце моє, як цвіт в’яне,
А як стане щебетати –
Сам не знаю, що діяти...
А як стане щебетати –
Сам не знаю, що діяти...

(Приспів)

3. Гандзю моя, Гандзю мила,
Чим ти мене напоїла?
Чи любистком, чи чарами,
Чи солодкими словами?
Чи любистком, чи чарами,
Чи солодкими словами?

(Приспів)

4. Чи є в світі молодиця,
Як та Гандзя білолиця?
Ох, скажіте, добрі люди,
Що зі мною тепер буде?
Ох, скажіте,
Що зі мною тепер буде?

(Приспів)

Гандзя рибка, Гандзя птичка,
Гандзя молодичка!

____________________


1. Há alguma outra no mundo
Tão bonita como a Handzia?
Pois me falem, meu bom povo,
O que será de mim agora?
Pois me falem, meu bom povo,
O que será de mim agora?

Refrão:
Handzia, meu doce, meu amor,
Handzia querida como um pássaro.
Meu peixinho, meu passarinho,
Handzia, minha jovenzinha.

2. Como no meu sincero olhar
E como o canto dos pássaros,
Meu coração como flor despedaça
E não sei o que fazer.
Meu coração como flor despedaça
E não sei o que fazer.

(Refrão)

3. Handzia minha, Handzia querida,
O que me dará para beber?
Algo com amor, algo mágico,
Algo com palavras doces?
Algo com amor, algo mágico,
Algo com palavras doces?

(Refrão)

4. Há alguma outra no mundo
Tão bonita como a Handzia?
Pois me falem, meu bom povo,
O que será de mim agora?
Me falem,
O que será de mim agora?

(Refrão)

Meu peixinho, meu passarinho,
Handzia jovenzinha!




12 de setembro de 2018

Steg Partije (Bandeira do Partido), 1948


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/steg


Como um admirador das minhas traduções me pedia há tempos esta canção, dediquei-a a ele. Composta em servo-croata, chama-se Steg Partije (A Bandeira do Partido), em alfabeto cirílico “Стег Партије”, também chamada Stijeg Partije (Стијег Партије) no dialeto ijekavica. A letra é de Čedomir Minderović, a melodia é de Oskar Danon e foi feita em 1948 como réplica à briga da recém-fundada Iugoslávia comunista contra a União Soviética. Segundo a Wikipédia sérvia, o Cominform, birô que reunia os principais partidos comunistas e meio que sucedeu à Comintern após a Guerra Mundial, emitiu resolução subestimando a luta de libertação nacional antifascista dos partisans iugoslavos.

Era quando o marechal Josip Broz Tito, por causa de discordâncias geopolíticas e ideológicas, estava rompendo com Iosif Stalin e saindo gradualmente da zona de influência soviética. Também edificando sua própria ditadura, Tito incentivou a composição de músicas em louvor à Resistência, aos partisans e a ele mesmo. Só esta canção recebeu oito melodias, até ser enfim escolhida uma e gravada pela primeira vez com arranjos do conjunto Dubrovački Poklisari (não sei se é eles que estão no áudio). Na versão dos vídeos, a quarta estrofe não é cantada, o que nos possibilita trocar “Tito” por “Lula” e começar uma bagunça.

Eu mesmo traduzi direto do servo-croata e legendei duas montagens: a primeira, feita por um canal muito bom com muito material sobre a antiga Iugoslávia, e a segunda, por outro canal menos conhecido, que acrescentou também a letra em alfabeto latino. No caso da primeira montagem, eu também cortei o enquadramento: trata-se do filme A batalha de Sutjeska, ou apenas Sutjeska, gravado pelos iugoslavos em 1973 e narrando essa batalha ocorrida em 1943, a maior travada pelos partisans, contra exércitos alemães, italianos, búlgaros e da Croácia fascista. Eu só legendei uma segunda versão porque pensei também em quem não curte diversões “cruentas”, violência ou filmes de guerra.

Quando se fala “Plano” no texto, indica o plano de desenvolvimento econômico lançado pelo Estado, do tipo dos quinquenais na URSS. Por isso, vocês podem ver a tradução “explicativa” que dei à quarta estrofe, que não aparece nos vídeos. Seguem as duas legendagens, que carreguei no meu canal Eslavo (YouTube), a letra em servo-croata com as diferenças da variante ijekavica indicadas entre parênteses (o áudio é cantado em ekavica, e após cada estrofe em cirílico, coloquei em alfabeto latino itálico) e a tradução em português. Nas legendas, o texto está um pouco abreviado, sem mudança no sentido:




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1. С Титом, за тобом, кроз јурише пламне
Пошли смо у одлучни бој!
Партијо наша – из пустоши тамне,
– Ст(иј)ег нас је водио Твој!
Партијо наша – из пустоши тамне,
– Ст(иј)ег нас је водио Твој!
S Titom, za tobom, kroz juriše plamne
Pošli smo u odlučni boj!
Partijo naša – iz pustoši tamne,
– St(ij)eg nas je vodio Tvoj!
Partijo naša – iz pustoši tamne,
– St(ij)eg nas je vodio Tvoj!

2. Дух храбро палих, у теби, у нама,
Жив је и никад не мре!
Партијо наша – Твој см(ј)ели дух слама
Препреке поб(ј)едно све!
Партијо наша – Твој см(ј)ели дух слама
Препреке поб(ј)едно све!
Duh hrabro palih, u tebi, u nama,
Živ je i nikad ne mre!
Partijo naša – Tvoj sm(j)eli duh slama
Prepreke pob(j)edno sve!
Partijo naša – Tvoj sm(j)eli duh slama
Prepreke pob(j)edno sve!

3. Слободан радник – и града и села –
Живот сад стварају нов!
Партијо наша – за велика д(ј)ела
Снажи нас моћни Твој зов!
Партијо наша – за велика д(ј)ела
Снажи нас моћни Твој зов!
Slobodan radnik – i grada i sela –
Život sad stvaraju nov!
Partijo naša – za velika d(j)ela
Snaži nas moćni Tvoj zov!
Partijo naša – za velika d(j)ela
Snaži nas moćni Tvoj zov!

4. Сад борац гради – и д(ј)ела јунака,
Слободно зари сад дан!
Партијо наша – к’о гранит си јака,
– Другови! Напр(иј)ед за План.
Партијо наша – к’о гранит си јака,
– Другови! Напр(иј)ед за План.
Sad borac gradi – i d(j)ela junaka,
Slobodno zari sad dan!
Partijo naša – k’o granit si jaka,
– Drugovi! Napr(ij)ed za Plan.
Partijo naša – k’o granit si jaka,
– Drugovi! Napr(ij)ed za Plan.

5. Народи братски, будућност нас зове
С Титом – за План – сад у бој!
Партијо наша – у поб(ј)еде нове,
Дижемо славни ст(иј)ег Твој!
Партијо наша – у поб(ј)еде нове,
Дижемо славни ст(иј)ег Твој!
Narodi bratski, budućnost nas zove
S Titom – za Plan – sad u boj!
Partijo naša – u pob(j)ede nove,
Dižemo slavni st(ij)eg Tvoj!
Partijo naša – u pob(j)ede nove,
Dižemo slavni st(ij)eg Tvoj!

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1. Com Tito, seguindo você, por entre disparos,
Marchamos à luta decidida!
Ó, partido nosso, sua bandeira
Nos tirou do deserto obscuro!
Ó, partido nosso, sua bandeira
Nos tirou do deserto obscuro!

2. A alma dos caídos vive corajosa
Em mim e você, nunca morrerá!
Ó, partido nosso, sua alma valente
Rompe vitoriosa todos os obstáculos!
Ó, partido nosso, sua alma valente
Rompe vitoriosa todos os obstáculos!

3. Os operários e os camponeses livres
Edificam agora uma vida nova!
Ó, partido nosso, para grandes obras
Seu chamado potente nos reforça!
Ó, partido nosso, para grandes obras
Seu chamado potente nos reforça!

4. Agora o soldado constrói, o herói produz,
Agora o dia brilha livremente!
Ó, partido nosso, você é duro como granito,
Camaradas! Avante planejar a economia.
Ó, partido nosso, você é duro como granito,
Camaradas! Avante planejar a economia.

5. Povos fraternos, o futuro nos chama
Com Tito, pelo Plano, à luta agora!
Ó, partido nosso, a novas vitórias
Elevamos sua bandeira gloriosa!
Ó, partido nosso, a novas vitórias
Elevamos sua bandeira gloriosa!




10 de setembro de 2018

Io le toccai (canto sem vergonha, Itália)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/toccai


Canção de autor anônimo, tradicional da região italiana de Marche (às vezes dita “Marcas” em português), se chama Io le toccai (Peguei nela, ou “toquei”), também denominada Su e giù (Em cima e embaixo). A gravação é do grupo típico La Martinicchia, que o incluiu no álbum A paccà e se especializou no dialeto “marchigiano”, cujos traços ocorrem nesta música. O vídeo com áudio está no canal do grupo, que tem muita coisa legal, mas a primeira vez que escutei foi nesta página, incluindo a letra, com bem mais visitas e cujo áudio, porém, é pior.

Engraçado como muitas vezes, entre culturas, a tradução não se dá entre palavras, mas temas ou enredos. Descobri uma canção do Trio Parada Dura, de música sertaneja brasileira, chamada Eu tô parpano (“Estou apalpando”, em dialeto caipira), que constrói quase a mesma história. Só que minha sacada foi um dia em que passei pela sala, enquanto minha avó assistia à novela das 6 da TV Globo, Orgulho e paixão. Por acaso vi uma cena da festa depois do casamento de Ema e Ernesto, um dos pares românticos da trama, em que o italiano, ao ouvir o conjunto clássico, pediu que tocassem uma tarantella, pra aí começar a dança vista no vídeo.

Pensei primeiro em fazer pro áudio uma montagem no Windows Movie Maker, com legendas em italiano e português. Mas achei esta cena tão legal que captei a tela no site GShow e pus o trecho de som audível tirado de uma matéria do programa Video Show. Ainda preciso arrumar meu notebook pra que ele capte a tela com som e imagem melhores... Mesmo assim, a música e a cena (da qual removi alguns pedaços) casaram certinho, até com passagens que se adéquam à letra! Eu mesmo traduzi do italiano, a partir do texto do site LyricsTranslate.com (que mudei um pouco), montei o vídeo e legendei.

Cliquem aqui pra ter acesso a uma versão com peso reduzido da minha montagem em vídeo. Eu a tinha carregado na versão reserva do meu canal Eslavo no Vimeo, porque foi bloqueada no YouTube, mas no Vimeo também apagaram, por causa dos direitos autorais. Assim, acabei fazendo outra montagem só com áudio e imagens mesmo, e ela pode ser vista abaixo.

A tradução reflete o sentido do original, mas não está totalmente literal. Inclusive, pras legendas serem lidas mais rápidas, encurtei um pouco o texto. De qualquer modo, não dá pra ser todo literal, porque ia perder a graça. Por exemplo, traduzi toccai (toquei) por “pegar”, que soa mais natural nesse contexto, pelo menos pros brasileiros. Grotta também significa “caverna”, e não exatamente “gruta”, como parece, só que onde está crepaccio, que é uma fenda entre blocos de gelo ou em montes nevados, deveria ser “crevasse”. Mas poucos fora da Europa conhecem a palavra, então pus “gruta” (embora não seja isso), pra aproximar o sentido. Stanza, entre várias noções, pode nomear um “quarto”, um “cômodo”, indicando uma hospedagem, mas não ia ter conotação lasciva. Então pus “cama”, que dá a ideia de repouso e prazer, e em geral fica num quarto. E capita vem de capire, que pode significar “entender” ou “capturar”, então usei “captar”, que dá mais ou menos esse duplo sentido. Note-se ainda que panza (pança, barriga) é variante regional de pancia.

Agora que vocês já conhecem esta música de duplo sentido, seguem abaixo a legendagem com montagem que está no meu canal Eslavo (YouTube), a longa letra em italiano, com muito pouca marca dialetal “marchigiana”, e a tradução em português:


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Io le toccai i capelli,
Lei mi disse: “Non son quelli,
Vai più giù che son più belli!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più giù tu devi andar.
Allora più giù, più giù, più giù,
Allora più giù, più giù, più giù,
Allora più giù, più giù, più giù,
Più giù...

Io le toccai il nasino,
Lei mi disse: “Sei un cretino,
Vai più giù che c’è un giardino!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più giù tu devi andar...

Io le toccai la bocca,
Lei mi disse: “Non se tocca!
Vai più giù che c’è una grotta!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più giù tu devi andar...

Io le toccai le spalle,
Lei mi disse: “Ma che palle!
Vai più giù c’è una valle!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più giù tu devi andar...

Io le toccai il petto,
Lei mi disse con rispetto:
“Vai più giù che c’è un boschetto!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più giù tu devi andar...

Io le toccai la panza,
Lei mi disse con creanza:
“Vai più giù che c’è una stanza!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più giù tu devi andar...

Io le toccai il tallone,
Lei mi disse: “Sei un coglione!
Non conosci la posizione!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più su tu devi andar.
Allora più su, più su, più su,
Allora più su, più su, più su,
Allora più su, più su, più su,
Più su...

Io le toccai il polpaccio,
Lei mi disse: “Sei un pagliaccio,
Vai più su che c’è un crepaccio!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più su tu devi andar...

Io le toccai il ginocchio,
Lei mi disse: “Sei un finocchio,
Vai più su sennò te crocchio!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più su tu devi andar...

Io le toccai la coscia,
Lei mi disse con angoscia:
“Vai più su che te se ’mmoscia!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più su tu devi andar...

Io le toccai il sedere,
Lei mi disse con dovere:
“Vai più là, me fai piacere!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Più là tu devi andar.
Allora più là, più là, più là,
Allora più là, più là, più là,
Allora più là, più là, più là,
Più là...

Io le toccai la fica,
Lei mi disse con fatica:
“Finalmente l’hai capita!”
Oh oh oh.

Amor, se mi vuoi bene,
Su e giù tu devi andar.
Allora su e giù, su e giù, su e giù,
Allora su e giù, su e giù, su e giù,
Allora su e giù, su e giù, su e giù,
Su e giù!!

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Peguei nos cabelos dela
E ela disse: “Não são esses,
Vai embaixo, são mais bonitos!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra baixo.
Então embaixo, embaixo, embaixo,
Então embaixo, embaixo, embaixo,
Então embaixo, embaixo, embaixo,
Mais pra baixo...

Peguei no nariz dela
E ela disse: “Seu cretino,
Vai embaixo, tem um jardim!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra baixo...

Peguei na boca dela
E ela disse: “Não toca aí!
Vai embaixo, tem uma caverna!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra baixo...

Peguei nos ombros dela
E ela disse: “Mas que saco!
Vai embaixo, tem um vale!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra baixo...

Peguei no peito dela
E ela disse com respeito:
“Vai embaixo, tem um bosque!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra baixo...

Peguei na barriga dela
E ela disse com educação:
“Vai embaixo, tem uma cama!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra baixo...

Peguei no calcanhar dela
E ela disse: “Seu babaca!
Você não sabe a posição!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra cima.
Então em cima, em cima, em cima,
Então em cima, em cima, em cima,
Então em cima, em cima, em cima,
Mais pra cima...

Peguei na panturrilha dela
E ela disse: “Seu palhaço,
Vai em cima, tem uma gruta!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra cima...

Peguei no joelho dela
E ela disse: “Seu maricas,
Vai em cima, senão te quebro!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra cima...

Peguei na coxa dela
E ela disse angustiada:
“Vai em cima, você tá broxando!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais pra cima...

Peguei no bumbum dela
E ela disse com firmeza:
“Vai ali e me dá prazer!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Tem que ir mais ali.
Então ali, ali, ali,
Então ali, ali, ali,
Então ali, ali, ali,
Mais ali...

Peguei na pepeca dela
E ela disse bem cansada:
“Finalmente captou ela!”
Oh, oh, oh.

Amor, se você me ama,
Vai pra cima e pra baixo.
Então pra cima e pra baixo,
Então pra cima e pra baixo,
Então pra cima e pra baixo,
Pra cima e pra baixo!!




8 de setembro de 2018

Falando algo sobre o sentido de “Rus”


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/rus-urss




Aproveitei a postagem deste vídeo no meu canal Eslavo (YouTube) pra discutir um conceito histórico que ainda gera muita confusão entre os brasileiros. A União Soviética era no todo um país multinacional e internacionalista. Mas a Rússia (ou RSFS da Rússia), enquanto existiu dentro dessa federação, manteve diversos símbolos nacionalistas do tempo do tsarismo, embora repaginados sob a estética comunista. Seu nome inteiro era República Socialista Federativa Soviética da Rússia, e também era “federativa”, e não somente “RSS”, como as demais, porque ela mesma comportava diversas subunidades nacionais numa enrolada teia administrativa. Essa complexidade permanece, tornando a divisão da Federação Russa uma das mais difíceis de compreender.

A célebre canção patriótica “Славься” (Slavsia), Glória ou Glorie-se, por muitos considerada uma espécie de hino nacional informal da Rússia, é parte da ópera Ivan Susanin, composta pelo célebre músico Mikhail Glinka, e tem várias versões da letra. Em postagem anterior do meu site, vocês podem conhecer melhor a história e a letra desta música e ler as três primeiras estrofes, que são as cantadas no vídeo abaixo. O engraçado é que um dos meus maiores dilemas, inclusive na tradução do hino da URSS, era como traduzir o termo “Русь” (Rus), que originou o adjetivo russki (russo), bem como o nome Rossia (Rússia). Eu traduzia como “Mãe-Rússia”, com tintura nacionalista, até estudar a história real da federação da Rus, que uniu principados de forma frouxa entre os séculos 9 e 13. Estes, de fato, constituíram os ancestrais dos eslavos orientais (russos, ucranianos, bielo-russos e rutenos), inclusive na língua, que era única.

Por isso, às vezes seria melhor traduzir Rus como “eslavos orientais”, como no início do hino da URSS: “A grande Mãe-Rússia coligou para sempre a união indestrutível das repúblicas livres”, ou antes: “Os (grandes) eslavos orientais coligaram...” (já que Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia, hoje Belarus, eram a maior parte do território e da população). Ou talvez o certo seria nem traduzir Rus, por se tratar de uma entidade política especial. Porém, “Mãe-Rússia” passa o sentido nacionalista de que a Rússia seria a herdeira da Rus, portanto que ucranianos e bielo-russos seriam “derivações” da Rússia. Tanto que o nome “Ucrânia” tem relação com a palavra russa okraina (ou seja, a “periferia” do Império Russo), e que o nome antigo e histórico dos ucranianos era “pequenos russos”, e o nome dos bielo-russos, “russos brancos”. Dessa forma, ainda em livros ocidentais do século 20, a Ucrânia e Belarus ainda aparecem com as denominações tsaristas de “Pequena Rússia” e “Rússia Branca”...

Contudo, ucranianos e bielo-russos também se consideram “herdeiros” da antiga Rus e se arrogam o direito de chamar o velho eslavo oriental comum de “ucraniano antigo” ou “bielo-russo antigo”, como os russos o chamam de “russo antigo”. Agravando o caso, o centro político maior da federação da Rus era Kyiv (o que a faz ser chamada também “Rus kievana/kievita”), num período em que Moscou não passava de uma aldeia crescida. Isso faz da memória medieval um embate não apenas entre russos, mas também deles com os países vizinhos. O canal com este vídeo sem legendas tem muito mais material raro (não traduzido) sobre a URSS que pretendo legendar. Eu usei a mesma tradução que já tinha publicado, mas encurtei ainda mais pra pôr nestas legendas:



6 de setembro de 2018

Proezas e realizações dos bielo-russos


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/bielo-russo




Há uns meses, postei no meu canal Eslavo (YouTube) dois vídeos que achei ao acaso, feitos em Belarus (antiga Bielo-Rússia): o primeiro, um material documental, que podia ser de utilidade pública, e o segundo, um filme caseiro que tentei transformar num meme, mas que hoje vejo um pouco como de mau gosto (porque não sei se o rapaz em questão era meio “deficiente”). Mesmo assim, decidi manter lá e repostar aqui.

Primeiro, baixei um programa que dá material pra muitas legendagens no meu YouTube. Trata-se da transmissão de Ano Novo 2017-18 (uma espécie de “show da virada”) do canal estatal Belarus 1, o principal do país, contendo vinhetas de Natal, atuações cômicas, participação de cantores, propaganda estatal, o discurso de Réveillon do Presidente da República, a contagem regressiva e o hino nacional. Por enquanto, legendei só aquele discurso e a propaganda do governo, que aparece logo antes. O vídeo integral em russo tem quase 43 minutos.

A República de Belarus, antiga República Socialista Soviética da Bielo-Rússia, é um país encravado entre a Ucrânia, a Lituânia e a Polônia na Europa Oriental, e desde 1994 é governada pelo autoritário Aleksandr Grigorievich Lukashenko. Ele foi o único deputado da pátria a votar contra a independência em face da URSS e manteve uma política econômica contrária às “terapias de choque” vividas pelos vizinhos, mantendo boa parte da produção, por exemplo, nas mãos do Estado. Belarus tem ultimamente sofrido problemas econômicos e sanções do Ocidente, vendo seu IDH até mesmo cair em 2017 (dados de 2015). Mesmo assim, nesta propaganda, cantam-se loas às ditas conquistas do país, que seria um mar de tranquilidade e independência ante um mundo turbulento (como a Ucrânia em guerra civil e a França, Reino Unido e Espanha então às voltas com o terrorismo).

As duas línguas oficiais de Belarus são o bielo-russo e o russo, sendo o primeiro muito aparentado ao segundo e ao ucraniano. Mas em casa, a maioria das pessoas usa o russo, idioma que é também o das relações econômicas e políticas em geral. Contudo, quem conhece o bielo-russo padrão (na realidade, existe muita mistura linguística pelo território) pode notar em Lukashenko um característico sotaque local, não idêntico ao russo de Moscou. Não vou aqui explicar isso, mas um dia acho a ocasião certa. No vídeo são inseridas várias passagens de discursos, encontros e eventos, parecendo uma propaganda do PSDB sobre as “conquistas” de São Paulo. Belarus parece uma “Slovetzia” (ver o filme Um conto quase de fadas) perdida e incógnita no meio da Europa, um pedacinho intacto da antiga URSS, e as matérias de onde eu tirei as transcrições das falas provam isso.

Cortei o vídeo apenas no pedaço em que aparece essa propaganda, saindo ao final a chamada pro discurso de Lukashenko. Eu mesmo traduzi e legendei os trechos falados pelo presidente, e abaixo eles podem ser lidos em russo, com os links noticiando os contextos:

Мои земляки – это вся моя Беларусь. (Festival de Ofícios Populares “Aleksandria reúne os amigos”: leia aqui)

Двигайтесь вперёд. Предлагайте! Вы всегда будете услышаны. (2.º Congresso dos Cientistas de Belarus: leia aqui)

Беларусь сегодня есть и будет всегда донором нашей региональной, а возможно, и мировой безопасности. (26.ª Sessão Anual da Assembleia Parlamentar da OSCE: leia aqui)

Беларусь сегодня – мир и спокойствие. Нужно детей научить ценить это. (sessão plenária do Conselho de Pedagogia da República: leia aqui)

Моя мечта сделать свой легковой автомобиль осуществилась. (inauguração da franquia sino-bielo-russa BelGee, abrindo a primeira montadora de Belarus: leia aqui)

Вы – наш завтрашний день! (não localizei a ocasião)

Вера людей в то, что мы работаем ради них – это главный результат наших усилий. (participação na celebração em memória do acidente em Chornobyl na Ucrânia: leia aqui)

Discurso de Ano Novo do Presidente da República de Belarus A. G. Lukashenko ao povo bielo-russo



Esta é outra pérola que achei por acaso na Runet, ou seja, na internet de língua russa. Pelo que consta, esse moço é chamado Saniók, mais uma das centenas de apelidos pro prenome Aleksandr, ou seja, o mais comum da língua russa. Esse é o idioma do vídeo, mas ele se passa em Belarus, embora eu não saiba em que cidade. Parece que é uma turma de jovens baderneiros comuns, do tipo que enche muito o saco na adolescência do Brasil, e estão aprontando perto de alguma casa meio abandonada. Quem comenta o vídeo xinga pra caramba, dizendo ter vergonha de ser bielo-russo como esses “babacas”. Mas é uma postagem antiga, de dezembro de 2011, talvez gravada pouco antes.

Também se faz uma pergunta básica: será que ele entorna de uma vez toda uma garrafa de vodca mesmo, ou se trata de água comum (vodka é um diminutivo de voda = água) trolando os internautas?... Não se sabe ao certo, mas se notam bem a voz e a cara acabadas do Saniok, além das palavras e gestos estranhos, indicando que ele já estaria habituado (“curtido”) a esse consumo excessivo. Além disso, como teria coragem de fumar ainda um cigarro e pra quê precisaria se encher de suco (glicose) se fosse só água? Embora seja uma situação esdrúxula, postei com adaptações (corte no quadro) e o acréscimo de um refrão da minha adolescência: Dim terim bebim, da dupla Ney & Nando (nos cantos), com participação de Lelles & Leonardo, duas duplas que não emplacaram no cenário nacional, mas que eu escutava direto na Rádio Laser FM de Campinas.



4 de setembro de 2018

Discurso de Trotsky alerta sobre Hitler


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/trotsky-hitler


O dissidente soviético Leon Trotsky é filmado no exílio criticando, em língua francesa com sotaque, a política da Internacional Comunista (Comintern) dirigida por Iosif Stalin, de rejeição à “frente única” com os socialistas e a social-democracia. Isso teria levado à vitória de Adolf Hitler na Alemanha e, provavelmente por isso, o filme deve ser por volta de 1933. Porque embora ele só fale em “desdobramentos na Alemanha” e “os acontecimentos confirmaram”, parece evidente que ele fala da ascensão do nazismo.

Em 1921, diante do isolamento da Revolução Russa, Lenin decidiu lançar um apelo de unidade aos trabalhadores que ainda aderiam ao reformismo, política chamada “frente única”. Ao longo dos anos, sobretudo após a morte de Lenin, em 1924, essa política fracassou diante da resistência dos sociais-democratas, das lutas internas no PC soviético e da hostilidade ocidental à URSS. Na prática, desde 1928, Stalin e a Comintern tinham abandonado a política de “frente única”, embora mantivessem em palavras. As esquerdas não bolcheviques culparam a hostilidade para com os socialistas, que pros comunistas seriam um perigo “pior do que o fascismo”, pelo caminho deixado aberto pra Hitler ser escolhido chanceler em 1933. Na verdade, outros fatores também influíram nessa eleição, mas o racha das esquerdas alemãs enfraqueceu qualquer possibilidade de resistência, em meio a um ódio SPD versus KPD que era mútuo.

Devemos lembrar que, na prática, a política da Comintern esteve imbricada, na maior parte do tempo, à política externa soviética, e que apenas em 1934 ia se pensar numa amenização dos ataques. Em 1935, a linha de “frentes populares” antifascistas obteve resultados unitários num curto prazo, mas não impediu o avanço de Hitler e o recrudescimento de Stalin. Trotsky, distante de sua terra desde 1929, excomungado pelo seu partido e por sua Internacional, faz outra atuação quixotesca desesperada, insistindo que a união com a social-democracia era imprescindível naquele instante. Discursando sozinho numa sala fechada pra um público imaginário, o pretenso chefe do proletariado luta insistentemente contra um moinho de vento que é o direcionamento stalinista do bolchevismo soviético. Ele não percebeu que se tornou uma peça descartada assim que pôde, na hora em que explodiu a luta pela sucessão de Lenin.

O vídeo original está legendado em grego, mas com base nesse texto, eu transcrevi o francês, que está muito difícil de entender. A tradução grega está longe de ser literal, mas acredito ser bem fiel às ideias de Trotsky. Agradeço os tradutores Rui Correia, Jane Lamb e Silvio Levy pelo auxílio na transcrição. Fiz o corte do vídeo, de maneira que não aparecesse o texto grego, e depois eu mesmo traduzi e legendei. Seguem abaixo a legendagem no meu canal Eslavo (YouTube), a fala em francês transcrita e as traduções em português e em grego:


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Les nouveaux développements en Allemagne donnent un exemple saisissant de la politique fondamentale fausse de la direction du prolétariat : assimilation de lá démocratie au fascisme, éviction de la politique de front unique et par suite rénonciation aux Soviets. Les grands évènements ont vérifié et confirmé notre attitude. Des cadres sérieux sont éduqués. Regardons avec confiance dans l’avenir. Aucune force ne pourra nous détacher de l’avant-garde prolétarienne internationale. L’Union soviétique, c’est notre patrie. Nous la défendrons jusqu'au bout ! Les idées et les méthodes de Marx et de Lénine deviendront les idées et les méthodes de l’Internationale communiste.

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Os últimos desdobramentos na Alemanha dão a mostra gritante de como são falsos os alicerces políticos dos chefes proletários ao assimilarem a democracia ao fascismo, rejeitarem a política de frente única e, assim, renunciarem aos Sovietes. Os principais acontecimentos testaram e confirmaram nossa atitude. Quadros confiáveis foram educados. Olhemos com confiança para o futuro. Força nenhuma poderá nos separar da vanguarda internacional proletária. A União Soviética é nossa pátria. Nós a defenderemos até o fim! As ideias e métodos de Marx e Lenin se tornarão as ideias e métodos da Internacional Comunista.

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Οι πρόσφατες εξελίξεις στη Γερμανία δίνουν ένα χτυπητό παράδειγμα της θεμελιωδώς λάθος πολιτικής της ηγεσίας του προλεταριάτου: πρώτα εξίσωσε τη δημοκρατία με το φασισμό, ύστερα απέρριψε την πολιτική του Ενιαίου Μετώπου και τελικά εγκατέλειψε εντελώς την ιδέα των Σοβιέτ. Μεγάλα γεγονότα έχουν αποδείξει ότι η θέση μας είναι σωστή και δικαιολογημένη. Πολλά στελέχη έχουν εκπαιδευτεί. Ας αντιμετωπίσουμε το μέλλον με αυτοπεποίθηση. Καμιά δύναμη δεν είναι σε θέση να μας αποτρέψει, εμάς την πρωτοπορία του διεθνούς προλεταριάτου. Η Σοβιετική Ένωση είναι η πατρίδα μας, θα την υπερασπιστούμε μέχρι τέλους. Οι ιδέες και οι μέθοδοι του Μαρξ και του Λένιν θα γίνουν διεθνείς κομμουνιστικές ιδέες και μέθοδοι.




2 de setembro de 2018

Doideiras no filme “Stalin”, de I. Passer


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Em dois momentos diferentes do ano passado, selecionei duas cenas recortadas do filme histórico Stalin, escrito e dirigido por Ivan Passer, que conta a história do dirigente russo-georgiano por um viés bem ocidentalista. A primeira parte ilustra a dança da lezginka, que eu já tinha citado várias vezes no site ao falar do falecido comandante Givi do Donbass e dos cossacos do Cáucaso. É uma dança bem típica da Geórgia e do Cáucaso em geral, e Stalin a domina razoavelmente, como alguém simples que veio do povão. A segunda parte, ainda mais engraçada, refaz um dos vários jantares com bebedeira e música que Iosif “Koba” Dzhugashvili dava pra alta cúpula do partido comunista soviético, já próximo do fim da vida. Os líderes supremos da URSS passam um micão na frente da primeira-filha, Svetlana Alliluieva, moça que sempre teve problemas de relacionamento com o pai, fugiu anos depois pro Ocidente, casou-se e adotou o nome de Lana Peters.

A primeira cena representa o casamento de Stalin com sua segunda esposa, Nadezhda Alliluieva, que nos anos 30 supostamente teria se suicidado. Sua primeira esposa tinha sido Ekaterina Svanidze, também georgiana, que militava no mesmo partido, mas morreu por doença. Dizem que esta teria sido a mulher que Stalin mais e unicamente amou, e a perda nunca teria sido superada. Nadezhda (Nadia) é de família russa, e nas cenas anteriores os pais demonstram preconceito, como muitos sulistas do Brasil têm para com os nortistas.

A opção ideológica do filme, que vi inteiro há alguns anos, é clara: Stalin é o tirano rude, deselegante, pouco instruído e sem escrúpulos. Trotsky seria tão violento quanto, mas não chegou a exercer o poder, e Khruschov, bem ao final, é visto como um arrependido, no fundo um democrata, sem mencionar a matança que ele fez na Ucrânia. O resto eu acho que está acorde à realidade, a começar pelo papel de Grigori Zinoviev e Lev Kamenev: são intelectuais, desprezam o “montanhês rude” e desde o início se unem a Trotsky. Nikolai Bukharin aparece dançando alegre, como que servindo de ponte entre os dois grupos rivais: realmente, ele ficou junto a Stalin até 1929, mas ao criticar a crescente violência, foi excomungado.

Outras duas coisas que devem ser notadas são as seguintes. Primeira, o filme é narrado por Svetlana Alliluieva: não sei se o roteiro é baseado em algum escrito dela, mas podemos ver bem que ele reflete as opiniões dela, ou seja, insatisfeita com Stalin e com a URSS. Segunda coisa, o outro dançarino do quarteto, parecido com o cantor Belchior, certamente é Sergo Ordzhonikidze, georgiano que por muito tempo foi próximo de Stalin, mas morreu em 1937 em circunstâncias incertas: uns dizem que teria se matado, desiludido com os rumos da política, outros dizem que teria sido forçado ao suicídio, por ser um potencial alvo dos expurgos de 1936-38. Neste vídeo podemos ver uma breve tomada com Stalin e Sergo juntos. E Lenin, num dado momento, logo que entra na sala, até ensaia um passinho! O líder começou com alguma complacência com Stalin, mas também foi se desiludindo (o que o filme não retrata são suas contradições com Trotsky).



Fora Stalin, que está muito bem caracterizado e de voz igualzinha, é difícil reconhecer na segunda cena as fisionomias dos personagens nos outros. Se bem que, convenhamos, se já acharam no Reino Unido alguém parecido com o “guia genial”, seria pedir muito achar clones de todos os restantes. Nikita Khruschov (o “Careca”), por exemplo, não lembra nem parece nada, mesmo se pegamos fotos de quando ele era novo (a cena é no começo dos anos 50). Lavrenti, claro, sabemos que era Beria, o fiel chefe do NKVD, a polícia secreta, e o militar medroso talvez seja o marechal Kliment Voroshilov, herói da Segunda Guerra.

A diversão fica por conta de vocês verem o vídeo! Stalin não confia em ninguém, hein? Vou provocar vocês, dizendo que eu cortei a parte da “sopa envenenada” que viria logo depois. Uma das coisas que critico no filme é pintar Khruschov como um democrata que já estava se arrependendo da ditadura. Na verdade, ele ajudou a efetivar o Grande Terror de 1936-1938 na Ucrânia, de cujo partido local ele era o chefe, e ficou ao lado de Stalin elogiando-o até o final, antes de fazer uma “ruptura” escandalosa como parte de uma luta interna pelo poder. Ruptura cuja implicada crítica à opressão foi mais do que parcial.

Nesta página está o filme completo, legendado em português. Pra não perder informações gráficas, eu deixei os dois vídeos com o mesmo enquadramento, sem recortar. Na época em que carreguei as cenas no meu canal Eslavo (YouTube), tive preguiça de pôr os nomes dos atores e a ficha técnica do filme, e hoje tenho o mesmo sentimento.



31 de agosto de 2018

G. Kasparov e o pintocóptero de Putin


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Esse foi um daqueles lampejos que costumo ter na cabeça de repente, na parte da tarde. Me lembrei por acaso de um vídeo circulado há alguns anos, em que alguém direcionava um pênis teleguiado, munido de hélice, no rumo da bancada ou do discursante num evento político ou empresarial. Não me lembrava do que se tratava, embora tivesse a vaga lembrança de que fosse russo, e foi batata: xeretando o YouTube e o Google, descobri que era uma alocução feita por Garry Kasparov, o famoso enxadrista, durante a campanha presidencial da Rússia em 2008. Mais uma mitada cossaca que estava esquecida na rede.

Eu busquei no YouTube pela palavra “pintocóptero”, e apareceram uns vídeos de qualidade meio ruim que não faziam alusão a que evento se tratava. Daí num deles, alguém cometou sobre Kasparov e consegui achar em inglês no Google Notícias sobre o assunto. Como Kasparov fala muito rápido e pra dentro, pesquei algumas palavras em russo e taquei novamente na busca. Resolvido o mistério: há algum tempo, Kasparov já tinha se decidido a passar à oposição ativa contra Vladimir Putin e seu governo, e por isso percorria o país em busca de apoio. Em 2008, tentou se candidatar à Presidência, mas não obteve forças suficientes e encontrou os obstáculos do regime.

Especificamente, esse evento foi em 17 de maio, na primeira reunião da que era então chamada “Assembleia Nacional – Protoparlamento Alternativo”, que dizia reunir “representantes do mais amplo espectro político oposicionista, de nacional-patriotas a defensores dos direitos humanos, de socialistas e comunistas a liberais”. Está transcrito todo em russo o discurso de Kasparov, e embora não haja indícios diretos da ação de Putin, tá na cara que foi zoeira de algum simpatizante da situação. Saiu na imprensa internacional que quando o “peniscóptero” foi derrubado, Kasparov disse que esse era o nível de discurso que deviam enfrentar na campanha, em geral com argumentos “abaixo da cintura”. Alguém do público gritou: “O poder político revelou sua face!” Kasparov respondeu: “Se essa é a face, imagine o resto...”

Parafraseando Manuel Bandeira: “Eles passarão, e eu passaralho”!

A parte semântica inteira da fala, com o áudio sublinhado, é esta:

Стало очевидно: прежде чем договариваться о совместных действиях, необходимо договориться об общих правилах политической борьбы. В основе этих правил – уважительное отношение к политическому оппоненту; признание равноправия политиков, придерживающихся различных взглядов; стремление к открытому диалогу; приверженность ненасильственным, демократическим методам борьбы.

Tradução: Ficou evidente que, antes de combinarmos ações conjuntas, é preciso combinar as regras gerais da luta política. O básico dessas regras são a relação respeitosa para com o oponente político, a admissão de direitos iguais aos políticos que tenham visões divergentes, o esforço pelo diálogo aberto e a fidelidade aos métodos democráticos e não violentos de luta.

Ironicamente, o elemento voador apareceu logo depois que Kasparov falou em “relação respeitosa”, “admissão de direitos iguais” e “esforço pelo diálogo aberto”: de fato, se essa era a cara do governo Putin, poderíamos dizer sem receio que ele tinha “cara de pau”! Imaginem que resposta pra quem pedia diálogo, respeito, compreensão e direitos iguais... O vídeo sem legendas que eu usei está com a qualidade bem melhor do que a dos outros clones, e eu o cortei em comprimento e enquadramento. Também traduzi direto do russo e legendei, tendo postado a legendagem no canal Eslavo (YouTube):




29 de agosto de 2018

Michel Teló em esperanto e interlíngua


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Em meados de 2012, eu estava ainda começando meu canal Eslavo (YouTube) e sequer tinha uma internet decente em casa. Porém, tendo acabado de terminar minha graduação em História, me preparando pro mestrado e incrementando meus conhecimentos linguísticos, já tinha algumas ideias de vídeos zoeiros pra criar, quando os “virais” e canais como o SAM sequer eram cogitados. Pior: quando ninguém sonhava que youtuber podia ser profissão e, no Brasil, o Facebook ainda estava começando a bombar!

Pra chegar até onde cheguei com meu site e meu canal, eu precisava ainda de muito estudo de russo, muita leitura, muita tradução, muito dicionário e muito material melhor e mais acessível do que havia à época. Por isso, meu poliglotismo e comunicações internacionais ainda se limitavam aos projetos de línguas auxiliares esperanto e interlíngua, ou ao menos eram predominantemente neles, e um pouco também em inglês e francês. Mas como vocês viram em outras postagens, vinham já de anos minhas traduções da música brasileira pro esperanto. A novidade é que agora eu acrescentava um razoável conhecimento da interlíngua, projeto mais “naturalista” e próximo do grupo românico, lançado em 1951 e que eu estudava sem compromisso desde 2009.

Qual hit internacional estava bombando lá em 2012? A canção Ai, se eu te pego, do cantor sertanejo Michel Teló, que ficou grudada por anos na cabeça dos brasileiros e de muito mais gente pelo planeta! Claro que foram feitas paródias em muitas línguas, a maioria seguindo muito mais o som do que o significado da letra. Mas... num sábado daquele ano, eu estava tão “artisticamente” aceso que minha cabeça começou a fazer sozinha uma tradução em esperanto e interlíngua, que eram os idiomas que eu mais dominava na época. Mas não me contentei com isso: fiz minha primeira experiência, que só repetiria anos depois (e que você também já conhecem), de gravar minha voz por cima de uma melodia de videokê, mas cantando a letra em outra língua! Esse vídeo, portanto, foi inaugural pra mim.

Ai, se eu te pego teve a versão de Teló lançada em 2011, a qual rodou o mundo em 2012, mas a história da canção, que não cabe retraçar aqui (leiam a Wikipédia em português), é bem mais complexa. Ela está registrada com a autoria de Antonio Dyggs e Sharon Acioly, datada de 2008, mas tem coautoria de algumas garotas paraibanas que, em 2006, criaram numa brincadeira as palavras que deram origem ao refrão. Antes de Teló, algumas bandas de forró já a tinham gravado, e era bem conhecida, portanto, no Nordeste.

Muita gente do círculo dos idiomas auxiliares planejados achou por acaso esse vídeo e saudou a iniciativa, e até compartilhei em alguns grupos do Facebook do qual eu participava. Mas sobrou um grande problema: em geral, os “adeptos” do esperanto ou da interlíngua costumam rivalizar entre si, então os mais fanáticos não gostaram nada da mistura dos dois textos... Nem liguei, porque não acho que ambos se excluam mutuamente, mas hoje penso que talvez teria mais compartilhamentos se tivesse feito um vídeo pra cada língua, o que obviamente me daria muito mais trabalho. Porém, o grande lance é que deixei o vídeo vegetando no canal, nem dei mais tanta bola, e vez ou outra era achado, mas foi passado por outras produções minhas.

Só que agora, como tenho um longo plano de trazer pra este site tudo do canal Eslavo que ainda não tem uma “base HTML”, decidi contar essa história que vocês leram e dar a forma escrita final pros textos em esperanto e interlíngua. Assim, vocês podem compartilhar muito mais fácil o material e ainda cantar junto! Até porque até hoje o vídeo nunca teve uma descrição no YouTube, e pretendo que esta postagem sirva a tal papel. Portanto, seguem a tosca montagem com as legendas nos dois idiomas, o texto em português e as traduções em esperanto e interlíngua. Pra fins didáticos, vou trazer também as traduções literais das novas versões, pra vocês verem que não são totalmente literais, mas se aproximam muito do original, ou até o completam:



____________________

Nossa, nossa,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda.
Tomei coragem e comecei a falar:

Nossa, nossa,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.

____________________

Esperanto:

Ho Dio, ho Dio,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.
Delico, delico,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.

Semajnfin’, ĝoja festo,
Ni distriĝis per drinko,
Kis’ kaj danc’.
Kiam pasis knabin’
La plej bela,
Al ŝi mi diris,
En ĝusta horo de ŝanc’:

Ho Dio, ho Dio,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.
Delico, delico,
Vi tiel min mortigas.
Ha, mi vin kaptos,
Aj, aj, mi vin kaptos.

Tradução literal:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.

Fim de semana, festa alegre,
Nos distraíamos com bebida,
Beijo e dança.
Ao passar a menina
Mais linda,
Eu disse a ela,
Na hora certa de sorte:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, vou te pegar,
Ai, ai, vou te pegar.

____________________

Interlíngua:

O Deo, o Deo,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.
Delicia, delicia,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.

Sabbato in le festa
Nos allegre
Comenciava a dansar
E passava le plus
Belle pupa.
Incoragiate,
Io comenciava a parlar:

O Deo, o Deo,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.
Delicia, delicia,
Assi tu me occide.
Ah, si io te prende,
Ai, ai, si io te prende.

Tradução literal:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.

Sábado na festa
Nós começamos
A dançar alegres
E passou a menina
Mais linda.
Encorajado,
Eu comecei a falar:

Ó Deus, ó Deus,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.
Delícia, delícia,
Assim você me mata.
Ah, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego.




27 de agosto de 2018

Capitulação incondicional nazista, 1945


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O documento dado hoje é o Ato de Capitulação Militar da Alemanha, também conhecido como Instrumento da Rendição Alemã, assinado em Berlim pelo Alto Comando das Forças Armadas nazistas em 8 de maio de 1945 e transmitido em russo pela rádio soviética na voz de Iuri Levitan, o mais conhecido locutor do período de Iosif Stalin. Há um bom tempo eu já tinha postado o áudio legendado no meu canal Eslavo (YouTube), mas só agora me lembrei de postar no site.

Já em 1944, as potências aliadas na 2.ª Guerra Mundial preparavam o rito da rendição incondicional alemã, prevendo a iminente derrota de um Adolf Hitler que recuava cada vez mais. Com o suicídio do Führer, os líderes remanescentes que tomaram o Terceiro Reich nas mãos enfim se entregaram em maio de 1945. O primeiro documento de rendição foi assinado em 7 de maio, na cidade de Reims, e o segundo documento, lido neste vídeo, foi assinado no dia 8, em instalações soviéticas de Berlim. Em nome da Alemanha, puseram assinaturas o marechal-de-campo Wilhelm Keitel, o general-almirante Hans-Georg von Friedeburg e o coronel-general Hans-Jürgen Stumpff. Pelo lado aliado, estiveram o marechal Georgi Zhukov (URSS), o marechal da Royal Air Force Arthur Tedder (Reino Unido), o general Carl Spaatz (Estados Unidos) e o general Jean de Lattre de Tassigny (França).

Quem está falando o áudio em russo é o famoso locutor Iuri Borisovich Levitan (1914-1983), que por ter narrado a maioria dos grandes fatos históricos da Era Stalin, pode ser justamente conhecido como o “Cid Moreira soviético”, até pela semelhança na voz. Radialista da Rádio Soviética desde 1931, era membro do partido comunista desde 1941 e narrava a maioria dos documentários oficiais. Condecorado Artista Popular da URSS em 1980, possuía uma locução de expressividade e timbre raros, e até hoje está muito presente na cultura popular. Vivia com simplicidade num apartamento em Moscou, junto com a filha e a sogra, não se casando mais após sua esposa ter lhe deixado.

O áudio e o texto em russo transcrito podem ser encontrados no ótimo site de material histórico soviético SovMusic.ru (em russo e inglês). O conteúdo do ato de rendição está dado conforme foi publicado no jornal Izvestia em 9 de maio de 1945, p. 1, e pode-se ler ainda no link mencionado a matéria “Esta noite em Moscou”, de correspondentes do Izvestia nas ruas da capital na madrugada de 8 pra 9 de maio. Eu mesmo traduzi, montei o vídeo e legendei. Seguem a legendagem no meu canal, a tradução e, pelo alto valor didático, o original em russo:


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Moscou Fala!

ATO DE CAPITULAÇÃO MILITAR
Assinatura do ato de rendição incondicional pelas forças armadas alemãs.

1. Nós, subscreventes, em nome do Alto Comando Alemão, aceitamos a rendição incondicional de todas as nossas forças armadas em terra, água e ar e de todas as forças encontradas atualmente sob comando alemão ao Comando Superior do Exército Vermelho e ao Alto Comando das Forças Aliadas Expedicionárias.

2. O Alto Comando Alemão expedirá imediatamente a ordem para que todos os comandantes alemães de forças terrestres, marítimas e aéreas e todas as forças encontradas sob comando alemão cessem as atividades militares às 23h01min, horário da Europa Central, de 8 de maio de 1945, permaneçam nos lugares onde então se encontrarem e se desarmem totalmente, entregando todas as suas armas e pertences bélicos aos comandantes ou oficiais aliados locais escolhidos como representantes do Alto Comando Aliado, não destruam nem causem quaisquer avarias a vapores, navios e aviões, a seus cascos, motores e equipamentos, nem a máquinas, munições, aparelhos e a todos os meios técnico-militares em geral de gestão da guerra.

3. O Alto Comando Alemão entregará imediatamente os comandantes correspondentes e garantirá o cumprimento de todas as ordens que serão emitidas pelo Comando Superior do Exército Vermelho e pelo Alto Comando das Forças Expedicionárias Aliadas.

4. Este ato não impedirá que ele seja substituído por outro documento geral sobre a capitulação, assinado pelas nações unidas ou em nome delas e aplicável à Alemanha e às forças armadas alemãs como um todo.

5. No caso do Alto Comando Alemão ou de quaisquer forças armadas que se encontrem sob seu comando não agirem de acordo com este ato de capitulação, o Comando Superior do Exército Vermelho e o Alto Comando das Forças Expedicionárias Aliadas tomarão as medidas punitivas ou outras atitudes que eles considerarem necessárias.

6. Este ato está redigido nas línguas russa, inglesa e alemã. Apenas os textos em russo e em inglês gozam de autenticidade.

Assinado a 8 de maio de 1945, na cidade de Berlim.

Em nome do Alto Comando Alemão:
KEITEL, FRIEDEBURG, STUMPFF.

Na presença de:

representando o Comando Superior do Exército Vermelho
o Marechal da União Soviética G. ZHUKOV;

representando o Alto Comandante das Forças Expedicionárias Aliadas
o Marechal da Royal Air Force TEDDER.

Também estiveram na assinatura na qualidade de testemunhas:

o comandante das Forças Aéreas Estratégicas dos EUA
general SPAATZ;

o Comandante em Chefe do Exército Francês
general DE LATTRE DE TASSIGNY.

Transmitimos o Ato de Capitulação Militar da Alemanha!

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Говорит Москва!

АКТ О ВОЕННОЙ КАПИТУЛЯЦИИ
Подписание акта о безоговорочной капитуляции германских вооруженных сил.

1. Мы, нижеподписавшиеся, действуя от имени Германского Верховного Командования, соглашаемся на безоговорочную капитуляцию всех наших вооруженных сил на суше, на море и в воздухе, а также всех сил, находящихся в настоящее время под немецким командованием, – Верховному Главнокомандованию Красной Армии и одновременно Верховному Командованию Союзных экспедиционных сил.

2. Германское Верховное Командование немедленно издаст приказы всем немецким командующим сухопутными, морскими и воздушными силами и всем силам, находящимся под германским командованием, прекратить военные действия в 23-01 часа по центрально-европейскому времени 8-го мая 1945 года, остаться на своих местах, где они находятся в это время и полностью разоружиться, передав всё их оружие и военное имущество местным союзным командующим или офицерам, выделенным представителями союзного Верховного Командования, не разрушать и не причинять никаких повреждений пароходам, судам и самолётам, их двигателям, корпусам и оборудованию, а также машинам, вооружению, аппаратам и всем вообще военно-техническим средствам ведения войны.

3. Германское Верховное Командование немедленно выделит соответствующих командиров и обеспечит выполнение всех дальнейших приказов, изданных Верховным главнокомандованием Красной Армии и Верховным Командованием Союзных экспедиционных сил.

4. Этот акт не будет являться препятствием к замене его другим генеральным документом о капитуляции, заключенным объединенными нациями или от их имени, применимым к Германии и германским вооруженным силам в целом.

5. В случае, если немецкое Верховное Командование или какие-либо вооруженные силы, находящиеся под его командованием, не будут действовать в соответствии с этим актом о капитуляции, Верховное Командование Красной Армии, а также Верховное командование Союзных экспедиционных сил, предпримут такие карательные меры, или другие действия, которые они сочтут необходимыми.

6. Этот акт составлен на русском, английском и немецком языках. Только русский и английский тексты являются аутентичными.

Подписано 8 мая 1945 года в гор. Берлине.

От имени Германского Верховного Командования:
КЕЙТЕЛЬ, ФРИДЕБУРГ, ШТУМПФ.

в присутствии:

по уполномочию Верховного Главнокомандования Красной Армии
Маршала Советского Союза Г. ЖУКОВА.

по уполномочию Верховного командующего экспедиционными cилами союзников
Главного Маршала Авиации ТЕДДЕРА.

При подписании также присутствовали в качестве свидетелей:

командующий стратегическими воздушными силами США
генерал СПААТС.

Главнокомандующий Французской армией
генерал ДЕЛАТР де ТАССИНЬИ.

Мы передавали Акт о военной капитуляции Германии!


Acrescento ainda uma breve montagem com música e diversos trechos de filmes e discursos, criada e lançada nas redes sociais em maio de 2015 pelo russo Dmitri Babich, em homenagem aos 70 anos da vitória dos Aliados sobre o Eixo na 2.ª Guerra Mundial. A alusão também é à Parada da Vitória que Vladimir Putin organizaria na Praça Vermelha pra essa comemoração, a maior inclusive em comparação com os tempos da URSS. Eu mesmo traduzi e legendei.

O vídeo original tem o título “9 мая. Жизнь за победу” (9 maia. Zhizn za pobedu) e pode ser assistido também no canal de Dmitri Babich (Дмитрий Бабич), seu produtor. A música de fundo se chama Dream Chasers, e é executada pela banda orquestral Future World Music. No fuso horário de Moscou, já era 9 de maio no momento da capitulação.

O discurso de Stalin, do qual se pode ver um pequeno trecho depois do início do vídeo, foi pronunciado na Praça Vermelha no aniversário da Revolução Bolchevique, em 7 de novembro de 1941. É o trecho em que ele diz: “Великая освободительная миссия выпала на вашу долю. Будьте же достойными этой миссии!” A tradução e o vídeo legendado podem ser vistos na íntegra nesta página.

O anúncio da invasão nazista à União Soviética tinha sido feito pelo rádio em 22 de junho de 1941 por Iuri Levitan, que também narrou muitos outros materiais importantes, como o famoso filme A batalha de Stalingrado, produzido em 1942-43, que pretendo lançar legendado no canal Eslavo. O anúncio pode ser escutado nesta página, e o texto em russo, lido na descrição do vídeo.

O discurso do presidente russo Vladimir Putin, do qual também se usa um breve trecho, foi pronunciado numa festa solene em comemoração ao Dia da Defesa da Pátria, em 20 de fevereiro de 2015. Ele diz o seguinte: “... и в нашей памяти, и в нашем сердце всегда будут места для тех, кто совершил уникальный подвиг во имя нашей Родины, защищая её ценою своей жизни, своего здоровья, беззаветно служа Отечеству.”




25 de agosto de 2018

“Беларусачка” (A mocinha bielo-russa)


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Esta música, talvez gravada por volta de 2011 (quando foi postada no canal original), tem o nome “Дзяўчынка-беларусачка” (Dziauchynka-belarusachka), Uma mocinha bielo-russa (ou A mocinha...). Está na língua bielo-russa, e quem canta é Angelina Pipper, garota de Belarus então com 10 anos de idade, que ficou famosa na internet ao gravar canções típicas e históricas da Rússia e da antiga URSS. Assista ao clipe sem legendas num dos canais da cantora, que tem muitas outras músicas de quando ela era criancinha.

Eu copiei a letra original do site Lyricstranslate.com, onde há também traduções em russo e inglês, que facilitaram minha tarefa. A língua bielo-russa é do ramo eslavo oriental, como o russo e o ucraniano, então mesmo eu não sendo fluente em bielo-russo, essa genética facilita a tarefa. Isso é verdadeiro, sobretudo, quando a estrutura do idioma, em especial da gramática, é a mesma, devendo-se apenas procurar as palavras no dicionário. Pra isso, além do Google Tradutor e do Wiktionary, me vali principalmente do dicionário bidirecional russo e bielo-russo Skarnik.by. Em poucos pontos, o texto não bate com o áudio, então este foi minha referência pra fixar o escrito.

Infelizmente, não achei nenhuma informação adicional sobre a canção, nem os compositores, nem a data de surgimento. Eu supus, portanto, que fosse popular e anônima, inclusive por uma indicação que vi num site obscuro de arquivos MP3. Nos próprios canais da Angelina, quase não há pistas, o que dificulta o trabalho de se citarem as origens. Eu mesmo traduzi e legendei o vídeo, e embora a tradução seja bem fiel, não está estritamente literal. Uma das coisas difíceis é traduzir os inúmeros diminutivos das línguas eslavas, que são usados com muito mais frequência do que em português, mas não deixam as palavras tão pesadas. O tema é bem “feudal-romântico”, e acho que isso deu alegria aos críticos do comunismo no meu YouTube.

Angelina Pipper, cuja língua principal de trabalho é o russo, nasceu em 14 de maio de 2000, mora atualmente na cidade de Brest e já ganhou vários prêmios, tendo sido inclusive finalista do Festival de Sanremo Junior. Hoje com 18 anos, permanece ativa e sempre se renovando, tendo começado no ano passado seu trabalho com o nome “Jolya Pi”. Como redes sociais e canais, ela tem seu VK oficial, seu grupo no VK, seus Instagrams como Angelina e como Jolya Pi, seu site oficial com fotos, vídeos, áudios, biografia e notícias, seu canal antigo no YouTube e seu canal novo. Mas não criem esperanças: ela tem namorado...

O russo é a língua mais falada em Belarus, sobretudo nas cidades e como idioma profissional, enquanto o bielo-russo e seus vários dialetos se limitam ao campo e aos mais velhos, mas com novos movimentos de ressurgimento. Eu mesmo legendei o vídeo original, e abaixo se encontram a legendagem no meu canal Eslavo (YouTube), a letra em bielo-russo e a tradução em português:


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1. Ручаёнак, ручаёнак, ручаіначка,
Я дзяўчынка-беларуска, белалічанька.
Светлы броўкі быццам бы шнурочкі,
Ну а вочкі, нібы ў жыце васілёчкі.
Светлы броўкі быццам бы шнурочкі,
Ну а вочкі, нібы ў жыце васілёчкі.

Прыпеў:
Вось так я, Вось такая я,
Дзяўчынка-беларусачка.
Вось так я, Вось такая я,
Дзяўчынка-беларусачка.

2. Ручаёнак, ручаёнак, ручаіначка,
Я дзяўчынка-беларуска, белалічанька.
Дома маме я заўсёды памагаю,
Калі сумна мне, то песенькі спяваю.
Дома маме я заўсёды памагаю,
Калі сумна мне, то песенькі спяваю.

(Прыпеў)

3. Я жыву ў нашай роднай Беларусі
І сваёй Радзімай любай ганаруся.
Размаўляць на роднай мове мне не сорам,
Хай узлятае мая песня на прасторі.
Размаўляць на роднай мове мне не сорам,
Хай узлятае мая песня на прасторі.

(Прыпеў)

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1. Riachinho, riachinho, ribeirinho,
Sou uma mocinha bielo-russa, de rostinho branco,
Sombrancelhas clarinhas como um fio,
Olhos azuis como um campo de centáureas.
Sombrancelhas clarinhas como um fio,
Olhos azuis como um campo de centáureas.

Refrão:
Eis como sou, assim que sou,
Uma mocinha bielo-russa.
Eis como sou, assim que sou,
Uma mocinha bielo-russa.

2. Riachinho, riachinho, ribeirinho,
Sou uma mocinha bielo-russa, de rostinho branco.
Sempre ajudo mamãe em casa,
Quando estou tristinha, entoo uma canção.
Sempre ajudo mamãe em casa,
Quando estou tristinha, entoo uma canção.

(Refrão)

3. Vivo em nossa Belarus natal
E me orgulho da querida Pátria.
Não me envergonho da língua materna,
Que minha canção voe pela imensidão.
Não me envergonho da língua materna,
Que minha canção voe pela imensidão.

(Refrão)