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15 de novembro de 2018

Por que escolhemos o mundo? (2011)


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NOTA: Eis o segundo de dois textos antigos meus, que republico aqui e que tratam de questões ligadas ao ateísmo e ao Estado laico. Datam de uma época em que eu progressivamente estava abandonando o catolicismo e lendo mais filosofia séria e acadêmica, quando o dito “neoateísmo” ainda era uma onda intelectual em voga no Ocidente. Hoje mesmo não gosto mais de me rotular estritamente como “ateu”, mas as reflexões desses escritos ainda são muito atuais. Recuando no tempo, a última alteração no arquivo deste artigo data de 24 de janeiro de 2011, quando minha cabeça fervia ainda mais buscando respostas sobre a fé, e eu me indignava sempre mais contra os religiosos que nos mandavam relativizar as coisas do “mundão”, da Terra. Zombando de um termo em voga na renovação carismática católica, argumentei que eu preferia viver esta vida da melhor forma possível, sem cair na depravação, mas também sem me tornar um monge castrado. Essas palavras valem igualmente pra quem tem uma crença, mas despreza o fanatismo e a estreiteza.



Escolher o mundo como objetivo e cenário de nossa vida não é uma opção voluntária, nem tampouco significa que abandonamos a busca de propósitos para nossa existência. Pelo contrário, é uma necessidade física e psicológica que exige o abandono de tormentosos fantasmas imaginários e proporciona a abertura de novos horizontes, com infinitas possibilidades de sensações e experiências, levando inevitavelmente à satisfação e à tranquilidade.

O conceito cristão de “mundo”, ou de “mundão”, na linguagem popular, relaciona-se às coisas terrenas, aos prazeres sensíveis, aos problemas reais e às paixões humanas, consequentes da queda do homem por causa do “pecado original”. Em franca oposição está o céu, o Paraíso, a presença de Deus, a perfeição e a imortalidade, objetivos dos que suprimem justamente seus prazeres, vontades e paixões a fim de transcender esta vida sofrida em busca de um post mortem constituído, em poucas palavras, da trajetória terrena virada ao avesso. Porém, tal cisão, filha legítima do dualismo platônico “alma/corpo”, com predominância da primeira, foi um resultado da crise do mundo antigo, mundano em todos os aspectos – até mesmo na religião –, da qual os problemas pessoais de Paulo de Tarso mostraram ser o fruto maior. Sua incapacidade de ter uma vivência digna não por limitações externas, mas internas, tornou-se uma ânsia em moldar o planeta conforme os próprios ressentimentos, uma recusa em aceitar o mundo como era por não se adaptar a ele.

Se, há quase dois mil anos, o progresso trazia no mais das vezes caos, instabilidade e assassinatos em massa, hoje essa não é mais a norma; nem sempre temos tantos motivos para temer mudanças, e a percepção atual do tempo acelerou-se junto com a aceleração das tecnologias. A “fuga do mundo”, se antes proporcionava segurança, saúde e paz interior, presentemente é uma fonte de ansiedades e neuroses: o meio humano nos cerca e interfere em nós de forma tão intensa que, se não estamos preparados para lidar com ele, a força do impacto atua de forma comparável à de uma grande catástrofe natural. Esse bombardeio, resultante de uma sociedade extremamente rápida e instrumentalizada, pode resultar em vícios psíquicos tratáveis apenas em um prazo de longos meses ou anos. Sob uma condição neurológica tão frágil, a criação ou introdução de vírus mentais tão poderosos quanto as obsessões anteriores, a submissão a onipresentes e onividentes “grandes irmãos” imaginários e a autoimposição de restrições e cobranças pode causar problemas psiquiátricos irreversíveis.

É por isso que a escolha pelo mundo põe-se como a única alternativa possível; ela, de fato, não é uma escolha, mas uma convocação, a única possibilidade de, pode-se dizer, vencer o próprio mundo. Não há cidades celestes e Paraísos após a morte, e mesmo que houvesse, nossa passagem pela Terra, a mais deliciosa de todas, transformar-se-ia em uma clínica de castração em série comandada por um tirano orgulhoso e egoísta e tendo como produto real uma coleção de bilhões de bonecos implicantes, carrancudos e de criatividade limitada. Encarar a realidade de frente, pensar nas verdadeiras raízes de nossos tormentos e criar soluções adequadas ao materialmente existente, o que passa pela liberdade individual e coletiva de pensamento, de reflexão, de expressão e de estudo, é o meio exclusivo de evitar o movimento circular e exponencial do surgimento de novos buracos enquanto tapamos os já eclodidos. Preme ainda a necessidade de cultivar prazeres que não causem sofrimento a outrem, de tornar a existência mais bela e rica descobrindo, sem preconceitos ou tabus, do que realmente gostamos e não gostamos, do que verdadeiramente nos faz felizes ou infelizes, de minar a insalubre monotonia cotidiana com atividades variadas que aumentem nossas habilidades e conhecimentos. Porque somente nós somos a medida de nós mesmos.

A restrição da felicidade da maioria em prol do gozo de poucos, tendo como meta o controle e a usurpação, deu-se em grande parte pela inculcação de assombrações com suposto poder de deixar viver ou fazer morrer. Embora o mito tenha surgido como expressão de nossas carências, não deixou de verter-se usualmente em nosso mais cruel carrasco.