Curiosidades gerais sobre política


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Aqui está mais uma leva de material que postei em minhas mídias sociais hoje apagadas, mas que salvei devido à importância do material e ao refinamento de sua elaboração. São quatro os assuntos: a ativista belarussa Jana Shostak, o esperanto na Comintern, a prisão de um filho de Stalin pelos nazistas e a influência das escolas francesas de torturadores sobre a ditadura militar brasileira. Eles não são muito conectados entre si, mas formariam postagens muito pequenas se postados sozinhos. Aproveite e divulgue em suas mídias aquilo que mais lhe interessar ou, se possível, esta página completa!


O meme do ano de 2021! Jana Shostak, artista e ativista social polaco-belarussa, achou a melhor maneira de protestar conta Aleksandr Lukashenko em frente à embaixada de Belarus em Varsóvia, capital da Polônia (24 de maio de 2021). E parece que está ganhando muitos adeptos e imitadores, hehehe. Alerta: Recomendo baixar o volume, caso esteja com fone de ouvido... Matéria em inglês sobre o protesto.


Mais uma curiosidade que achei nas atas (editadas em russo na década de 1930, p. 452) do 2.º Congresso da Comintern ocorrido em 1920. Lenin não falava esperanto, mas demonstrava simpatia logo nos primeiros anos após 1917 (ano da morte de Zamenhof), embora nada tenha feito de concreto a seu favor. Não procurei o referido debate, mas acho que ele sequer chegou a acontecer, e se aconteceu, não teve efeitos práticos:

– Grigori Zinoviev, presidente da Comintern: Resta ainda a proposta do camarada Pestaña sobre o esperanto.
– Ángel Pestaña, militante espanhol: Chamando a atenção para o fato de que traduzir para algumas línguas todos os discursos pronunciados nos congressos internacionais, a exemplo do presente, dificulta os trabalhos do congresso, proponho que futuramente cada orador fale na língua mais fácil para ele e que cada discurso seja traduzido apenas na língua auxiliar esperanto. Essa língua é fácil de se aprender e muito útil para a causa. Empregada para traduções, economizaria muito tempo e esforço.
– Zinoviev: Com a anuência do camarada Pestaña, proponho repassar essa questão para o exame do novo Comitê Executivo. (Decisão aprovada.)


Filho de Stalin preso por nazistas – Guerra de propaganda (ou propaganda de guerra?): os nazistas o capturaram e inicialmente o trataram bem, pensando poder obter informações. Não conseguindo, seu destino foi o campo de concentração, onde morreu em 1943 ao tentar fugir. Pelo que consta, Yakov Stalin não se entregou voluntariamente, mas este panfleto foi atirado de avião em território soviético:

“Você sabe quem é ele? Este é YAKOV DZHUGHASHVILI, O FILHO MAIS VELHO DE STALIN, comandante da bateria do 14.º regimento de obuses e da 14.º divisão de blindados, que em 16 de julho [de 1941] entregou-se nos arredores de Vitebsk junto com milhares de outros comandantes e soldados. [O marechal Semion] Timoshenko e seus comissários políticos, por ordem de Stalin, ensinam a vocês que os bolcheviques não se rendem. Porém, o tempo todo há soldados vermelhos passando para o lado alemão. Para atemorizá-los, os comissários mentem dizendo-lhes que os alemães maltratam seus reféns. O próprio filho de Stalin mostrou com seu exemplo que isso é mentira. Ele mesmo se entregou, PORQUE NESTE INSTANTE TODA RESISTÊNCIA AO EXÉRCITO ALEMÃO É INÚTIL! Sigam o exemplo do filho de Stalin, que está vivo, saudável e se sente ótimo. Para que vocês se sacrificarão inutilmente rumo à morte certa, se até o filho de seu chefe supremo já se entregou?”


Tortura à francesa – Há alguns meses assisti a um documentário francês chocante. Ele mostra como o Exército da França ajudou a formar os torturadores militares latino-americanos com base nas experiências do Vietnã (começo dos anos 50) e da Argélia (começo dos anos 60), antigas colônias francesas.

Um pouco de spoiler: na guerra da então Indochina, os vietcongs usaram a tática de atrair ou coagir todo o povo à resistência, servindo de empecilho aos europeus e extinguindo a distinção entre front e retaguarda. Com isso, menos numerosos e menos equipados, conseguiram a independência do país (que por alguns anos ainda ficaria dividido entre Norte e Sul). Tendo atuado no Vietnã, o coronel Roger Trinquier escreveu em 1961 o livro La guerre moderne (A guerra moderna), primeiro a preconizar o acossamento da população civil como um todo pra destruir a chamada “guerra revolucionária” ou “subversiva”, incluindo o uso da tortura e, falha a confissão, do fuzilamento extrajudicial.

A Batalha de Argel, contra a independência do país africano, foi o primeiro campo de aplicação dessa tática, cujo único registro visual (de veracidade, contudo, confirmada por oficiais da época) é o filme de ficção e denúncia de mesmo nome, escrito por Gillo Pontecorvo. Ironicamente, esse filme era exibido por missões francesas a militares argentinos e chilenos, mas também brasileiros, como exemplo da “guerra antissubversiva” largamente ensinada nos próprios estados-maiores, bem como na Escola Militar das Américas sediada no Panamá.

Apesar do propalado papel da CIA em nossos golpes, os estadunidenses tinham inveja da França nesse campo, e eles mesmo foram treinados pela “escola” do general Paul Aussaresses, notório torturador na Argélia, treinando depois brasileiros e outros sul-americanos. Aliás, os próprios argentinos e chilenos vinham estudar em Brasília e Manaus, e o Brasil deu larga ajuda ao golpe que levou o Chile à ditadura. Os próprios Pinochet e Videla aplicariam de cara os ensinamentos de Roger Trinquier, mas a Argentina se caracterizou pela brutalidade maior e, ao contrário do vizinho, pouca publicidade.

Para saber mais:
Da Batalha de Argel às operações Phoenix e Condor: contrainsurreição, a escola francesa (as vinhetas com a sombra do helicóptero voando sobre águas são alusivas): em francês, sem legendas, ou com legendas em espanhol
Entrevista do general Aussaresses em 2008 à Folha de S. Paulo.
– “Paul Aussaresses, um sanguinário torturador francês em plena ditadura militar brasileira”: matéria especial da revista Aventuras na História.
Dissertação de mestrado sobre a atuação de Aussaresses no Brasil, que achei por acaso, de Luciano Felipe dos Santos (USP, 2014).


O general Paul Aussaresses (1918-2013).