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31 de janeiro de 2016

A despedida da eslava (versão 1)


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Eis uma das mais belas e famosas canções populares russas, “Прощание славянки” (Proschanie slavianki), A despedida da eslava ou O adeus da mulher eslava. O vídeo abaixo gravou-se na Rússia em 2005 com o Coral dos Cossacos de Kuban (Кубанский казачий хор), para o espetáculo “Святки в России” (Festas de Natal na Rússia). Esse grupo folclórico, fundado em 1811, é um dos mais fortes do país, canta em russo e ucraniano e remonta às tradições da região de Kuban, no sul da Rússia, fronteiriça ao Cáucaso.

A guerra citada na canção, porém, não era russa, e sim a Primeira Guerra Balcânica, que de outubro de 1912 a maio de 1913 opôs o decadente Império Otomano à Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia. Partindo voluntários russos lutar em favor dos segundos, o militar Vasili Ivanovich Agapkin (1884-1964) compôs a melodia (marcha), tendo em mente um combate da cristandade ortodoxa às agressões islâmicas. Uns contam ter sido composta em Tambov, e outros falam de um período de serviço de Agapkin na Armênia.

A melodia teve várias letras desde que se tornou popular, na 1.ª Guerra Mundial, passou pelo Exército Branco e enfim se tornou patrimônio russo e soviético. Estendeu-se além do tema dos combates de 1912-1918 e hoje alude a qualquer ida à guerra, defesa da pátria ou partida para longe. O próprio Agapkin entrou para o Exército Vermelho em 1918, fez carreira como maestro militar na URSS e até regeu o conjunto de bandas da famosa parada de 7 de novembro e tocou na Parada da Vitória de 24 de junho de 1945. Sua canção jamais foi censurada pelos comunistas.

Segundo a Wikipédia em russo, esta versão foi feita nos anos 1990 pelo ator Andrei Mingaliov, mas nas próximas semanas vou postar mais duas versões que conheço, das décadas de 1960 e 1970. Eu baixei o vídeo sem legendas desta página. A legendagem abaixo está no meu canal O Eslavo no YouTube, e em seguida estão a letra em russo e a tradução em português:


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1. Много песен мы в сердце сложили,
Воспевая родные края,
Беззаветно тебя мы любили,
Святорусская наша земля.
Высоко ты главу поднимала,
Словно солнце, твой лик воссиял,
Но ты жертвою подлости стала
Тех, кто предал тебя и продал.

Припев:
И снова в поход труба нас зовёт.
Мы вновь встанем в строй
И все пойдём в священный бой.
Встань за Веру, Русская земля!

2. Ждёт победы России святыня,
Отзовись, православная рать!
Где Илья твой и где твой Добрыня?
Сыновей кличет Родина-мать.

(Припев)

3 (não cantado). Под хоругви мы встанем все смело
Крестным ходом с молитвой пойдём,
За Российское правое дело
Кровь мы русскую честно прольём.

(Припев)

4. Все мы — дети Великой Державы,
Все мы помним заветы отцов,
Ради Знамени, Чести и Славы
Не жалей ни себя, ни врагов.
Встань, Россия, из рабского плена.
Дух победы зовёт, в бой пора!
Подними боевые знамёна
Ради Правды, Красы и Добра!

(Припев)

____________________


1. Nosso coração fez muitas canções
Celebrando o torrão natal
E amávamos você sem reservas,
Nossa santa terra russa.
Você erguia alto sua cabeça
E sua face reluzia como o sol,
Mas você foi vítima da baixeza
Dos que a traíram e venderam.

Refrão:
De novo o clarim nos chama à marcha.
De novo vamos tomar nosso posto
E partir todos ao combate santo.
Defenda sua Religião, Terra Russa!

2. A santidade espera vitória russa,
Vá ao socorro, tropa ortodoxa!
Onde estão seus Ilia e Dobrynia?
A Mãe-Pátria convoca seus filhos.

(Refrão)

3 (não cantado). Postados corajosos sob as bandeiras,
Vamos partir rezando em procissão
E pela Causa Justa de Toda a Rússia
Verter sangue russo honrosamente.

(Refrão)

4. Nós, filhos da Grande Potência,
Recordamos os preceitos paternos,
Pela Insígnia, Honra e Glória,
Não poupe a si nem aos inimigos.
Fuja do cativeiro servil, Rússia,
O gênio da vitória chama à luta!
Levante as bandeiras de guerra
Pela Verdade, a Honra e o Bem!

(Refrão)




24 de janeiro de 2016

Песня о Ленине (Canção sobre Lenin)


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Celebrando o Réveillon de 2016, postei no meu canal O Eslavo no YouTube um pedido do Guilherme Andrade Saldanha: a canção soviética “Песня о Ленине” (Canção sobre Lenin) na voz de Boris Gmyria. A melodia é de Aleksandr Kholminov e a letra, de Iuri Kamenetski. Tirei as filmagens do documentário “Живой Ленин” (Lenin em vida), que também já legendei. É a primeira vez que faço minha própria montagem com retalhos de vídeos, mas é de outro vídeo o áudio. Após a legendagem, a letra em russo e português:


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1. Ветви оделись листвою весенней,
И птицы запели, и травы взошли...
Весною весь мир отмечает рожденье
Великого сына великой земли.

Припев:
Ленин – это весны цветенье.
Ленин – это победы клич,
Славься в веках, Ленин,
Наш дорогой Ильич!

2. Судьбы народов, мечты поколений
Провидел он взором орлиным своим.
Бессмертный, как жизнь, вечно жить будет Ленин
В делах мудрой Партии, созданной им.

(Припев)

3. К дружбе и миру народы звал Ленин.
Мы ленинским светлым заветам верны.
И нас вдохновляет в победном движенье
Могучая Партия нашей страны.

(Припев)

Ленину Слава!
Партии Слава!
Слава в веках,
Слава!!!

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Os ramos vestiram as folhas da primavera,
Os pássaros cantaram, a relva germinou...
Na primavera o mundo celebra o nascimento
De um grande filho da grande Terra.

Refrão:
Lenin é a primavera florindo.
Lenin é a vitória gritando,
Glória pelos séculos, Lenin,
Nosso querido Ilich!

2. Ele anteviu com sua vista de águia
Destinos de povos, sonhos de gerações.
Como a vida, Lenin ficará imortalizado
Nas causas do sábio Partido que ele criou.

(Refrão)

3. Lenin chamou os povos à amizade e paz.
Somos fiéis aos lúcidos preceitos leninistas
E inspirados no movimento triunfante
Pelo grandioso Partido de nosso país.

(Refrão)

Glória a Lenin!
Glória ao Partido!
Glória pelos séculos,
Glória!!!



17 de janeiro de 2016

Lenin em vida (documentário raro)


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Todos os filmes com Vladimir Ilich Lenin que restaram no tempo, unidos em documentário de 1969 por Mikhail Romm: “Живой Ленин” (Zhivoi Lenin), Lenin vivo ou Lenin em vida. Postos em ordem cronológica e acrescidos de comentários, formam um indispensável material ao estudioso do comunismo, da URSS e do século 20.

As películas, guardadas nos arquivos do Partido Comunista da União Soviética, abrangem os anos de 1918 a 1921. Desde o governo Khruschov se buscou apagar os resquícios do chamado “culto à personalidade” de Stalin por meio de um novo “culto a Lenin”, com raízes na própria morte do fundador. Idealizou-se uma “idade de ouro” leniniana também sob Brezhnev, homem sem carisma para gerar “culto” e envolvido nos problemas que iniciariam o colapso da URSS.

A política vigente desde 1956 marcou o filme, pois nem Stalin, bolchevique atuante já antes de 1917, nem Trotsky, colaborador de Lenin desde o fim do tsarismo e criador do Exército Vermelho, sequer são citados. É provável que não haja tomadas dos dois junto com Lenin (não sei se as imagens com Trotsky numa parada foram filmadas), ainda que haja algumas de Trotsky em outros eventos.

Uma riqueza são as cenas do segundo (1920, das “21 condições”) e terceiro (1921, da adoção da “frente única”) congressos da Comintern, que forjou o marxismo-leninismo e os partidos comunistas no século 20. Alguns topônimos hoje são diferentes: o Aterro Prechistensk, por exemplo, se chamava “Kropotkin” desde 1924, mas em 1992 voltou ao nome histórico. E Palácio de Uritski foi um nome que se tentou dar ao Palácio de Tauride em 1918, mas não vingou.

Eu baixei o filme sem legendas desta página no YouTube. O site russo Net Film também tem dados gerais e descrições das tomadas que ajudaram na tradução. O discurso de Lenin no meio do documentário, “Apelo ao Exército Vermelho”, pode ser no próprio blog lido e ouvido na íntegra. Os vídeos do documentário e do discurso estão no meu canal O Eslavo no YouTube:


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Fiz também a transcrição completa do texto em russo do vídeo para estudantes, incluindo numerais por extenso e ocorrências da letra Ё (io), escrita em russo impresso como o Е (ie):


Ленин. Его образ навсегда вошёл в сердце и память миллионов людей на нашей планете. Каждая черта его живого облика драгоценна для современников и потомков. Собранные в этом фильме уникальные кинокадры донесли до наших дней отдельные мгновения жизни Владимира Ильича ЛЕНИНА.

В этом году [1918] была поздняя весна, и в Москве ещё лежал снег. День Первомая был отмечен демонстрацией трудящихся и парадом молодой Красной Армии. Председатель Совета народных комиссаров Владимир Ильич Ленин, сопровожденный Надеждой Константиновной Крупской и Марией Ильиничной Ульяновой, присутствовал на военном параде на Ходынском поле.

Во время митинга на бывшей заводе Михельсона, в августе 1918 (тысяча девятьсот восемнадцатого) года, было совершено злодейское покушение на жизни Владимира Ильича. Все трудящиеся нашей родины с волнением и надеждой ожидали выздоровления любимого вождя. Могущий организм Ленина выстоял в поединке со смертью. Наступили минуты, когда Ильич мог выйти на первую прогулку в Кремле. На прогулке Владимира Ильича сопровождал управляющий делами Совнаркома Владимир Дмитриевич Бонч-Бруевич. Враги молодой советской республики распространяли слухи, что жизнь Ленина находится в смертельной опасности. Миллионы советских людей не верили в этом. Они хотели видеть Владимира Ильича. Сначала Ленин не хотел сниматься. «Но зачем вам эта съёмка? Мне и так много раз снимали», говорил Ленин. Но узнав, что его хотят видеть рабочие, он согласился.

В первую годовщину Октября в Москве был открыт памятник Марксу и Энгельсу. На митинге Ленин говорил: «Великая всемирная исторческая заслуга Маркса и Энгельса состоит в том, что они научным анализом доказали неизбежность краха капитализма и перехода его к комунизму. Великая всемирная исторческая заслуга Маркса и Энгельса состоит в том, что они указали пролетариям всех стран их ролю и задачу, их призвания: подняться первыми на революционную борьбу против капитала, объединить вокруг себя в этой борьбе всех трудящихся и эксплуатируемых.»

В марте 1919 (тысяча девятьсот девятнадцатого) года в Пертограде умер первый народный коммисапрь путей сообщения Марк Тимофеевич Елизаров, муж сестры Ленина. Владимира Ильича с Елизаровым связали долгие годы дружбы и совместной революционной деятельности. Владимир Ильич приехал из Москвы, чтобы проводить в последний путь товарища и соратника и поддержать в горькие минуты сестру Анну Ильиничну. А через несколько дней, 18 (восемнадцатого) марта, трудящиеся Советской России провожали в последний путь одного из самых близких боевых соратников Ленина, председатель Всероссийского центрального исполнительного комитета Якова Михайловича Свердлова. Всенародным трауром отметили трудящиеся эту тяжёлую утрату. Выступая на митинге на Красной площади, Владимир Ильич говорил: «Мы опустили в могилу пролетарского вождя, который больше всего сделал для организации рабочего класса, для его победы. Вечная память товарищу Свердлову! На его могиле мы даём торжественную клятву ещё крепче бороться за свержение капитала, за полное освобождение трудящихся.»

Обращаясь к участникам первомайской демонстрации, Владимир Ильич сказал: «До сих пор как о сказке говорили о том, что увидят дети наши. Но теперь, товарищи, вы ясно видите, что заложенное нами здание социалистического общества не утопия. И ещё усерднее будут строить это здание наши дети.» Закончилась демонстрация. Владимир Ильич, как всегда окружённый народом, перед отъездом с Красной площади беседует с секретарём московского комитета партии Загорским.

В Москве, в Колонном зале Дома Союзов, состоялся Первый Всероссийский съезд по внешкольном образовании. Вне объектив запечатлел Владимира Ильича, Надежду Константиновну Крупскую и наркома Просвещения Анатолия Васильевича Луначарского среди делегатов после заседания.

Трудным для советского государства был 1919 (тысяча девятьсот девятнадцатый) год. Республика сражалась в огненным кольце фронтов. Партия звала трудящихся на защиту завоевания Октября. 25 (двадцать пятого) мая в Москве на Красной площади состоялся парад курсантов военного училища рабочих полков, которые прошли единое военное обучение за 96 (девяносто шесть) часов. Принимать парад прибыл глава совестского правительства, председатель Совета труда и обороны Владимир Ильич Ленин. Вместе с Лениным на параде присутствовал народный коммисарь Венгерской советской республики Тибор Самуэли. Ленин обошёл войска и поднялся на площадку грузовой автомашины, которая заменяла трибуну. Обращаясь к будущим военным сказал: «Сегодня мы празднуем день всеобщего военного обучения трудящихся. До сих пор военное дело был одним из орудий эксплуатации пролетариата классом капиталистов и помещиков. Но эта самая прочная опора буржуазии падёт, когда рабочие возьмут в свои руки винтовку, когда не начнут сдавать свою огромную армию пролетариата, начнут воспитывать солдат, которые будут знать, за что они боют, будут защищать рабочих и крестьян, фабрики и заводы, чтобы помещики и капиталисты не могли вернуть своей власти.» Закончив речь, Ленин представил комиссара Венгерской советской республики Тибор Самуэли, который передал участникам парада боевой привет трудящихся революционной Венгрии. Участники парада демонстрировали свою боевую готовность защищать республику советов от врагов рабочего класса.

Советская республика напрягала силы в борьбе с Белой армии Деникина, ворвавшейся к Москве. Защищиать столицу ходили рабочие полки. Провожал их Ленин, выступил с речью с балкона Моссовета. В грамофонной записи сохранилась обращение Ленина к Красной армии. Слушайте голос Ильича:


Товарищи красноармейцы! Капиталисты Англии, Америки, Франции ведут войну против России. Они помогают деньгами и военными припасами русским помещикам, которые ведут против Советской власти войска из Сибири, Дона, Северного Кавказа, желая восстановить власть царя, власть помещиков, власть капиталистов. Нет. Этому не бывать. Красная армия непобедима, ибо она объединила миллионы трудовых крестьян с рабочими, которые научились теперь бороться, научились товарищеской дисциплине, не падают духом, закаляются после небольших поражений, смелее и смелее идут на врага, зная, что близко полное его поражение. [Полный текст здесь]

Наступила вторая годовщина Великой Октябрьской социалистической революции. На Красной площади столицы состоялись демонстрация трудящихся и боенный парад. Владимир Ильич Ленин был среди народа, отмечающего свой великий праздник. Железная поступь красноармейцев напоминала врагам революции, что сила молодой республики несокрушима, что справедливое дело трудящихся восторжествует.

Чем увереннее была поступь молодой республики советов, тем больше к ней возрастала интерес капиталистического мира. Вот в этом кабинете в Кремле, обстановка которого в неприкосновенности сохранена до сегодняшнего дня, Владимир Ильич принимал государственных и партийных деятелей, делегатов с фабрик и заводов, ученых, деревенских ходоков, гостей из-за рубежа. В середине февраля Владимира Ильича посетил корреспондент одной из нью-йоркских газет Линкольн Эйр. Вместе с ним приехал кинооператор Виктор Кюбз, который и запечатлел эту встречу. Беседа проходила на английском языке в рабочем кабинете Ленина. Затем, следуя настоятельной просьбы оператора снять Владимира Ильича в домашней обстановке, беседа продолжалась в маленькой, просто обставленной квартире, которая находилась недалеко от кабинета Ленина. Здесь жили Владимир Ильич, Надежда Константиновна и младшая сестра Ильича, Мария Ильинична.

В Первомайский праздник 1920 (тысяча девятьсот двадцатого) года, в Москве на Площади Свердлова был заложен памятник Карлу Марксу. Ленин, присутствовавший на закладке памятника, так писал памятную доску. Владимир Ильич собственноручно положил первый кирпич в основание будущего памятника. В тот же день, на бывшей Пречистенской набережной, ныне Кропоткинской, Ленин присутствовал при закладке памятника Освобождённому труду. «На этом месте прежде стоял памятник царю», говорил на митинге Владимир Ильич, «а теперь мы совершаем здесь закладку памятнка Освобождённому труду.»

Трудящиеся красного Петрограда встречали дорогих гостей, посланцев мирового пролетариата, делегатов Второго Конгресса Коммунистического Интернационала. Владимир Ильич Ленин приехал в Петроград на открытие конгресса вместе с московской делегацией. Во Дворце Урицкого, на первом заседании Второго Конгресса, Ленин выступил с докладом «О международном положении и основных задачах Коммунистического Интернационала». Идеи, выраженные в ленинском докладе, дали направление деятельности Коммунистического Интернационала, способствовали сплочению сил пролетариев мира в борьбе за освобождение трудового человечества от рабства и угнетения. В день открытия конгресса на площади перед Зимнем дворцом состоялся многотысячный митинг трудящихся Петрограда. На митинге выступил Владимир Ильич Ленин. Конгресс продолжил свою работу в Москве. Ленин принимал участие в работе конгресса и председательствовал на втором заседании.

Через год в Москве состоялся Третий Конгресс Коминтерна. Заседания проходили в Большом Кремлёвском дворце. Ленин пришёл, когда заседание уже начилось. Не желая мешать, Владимир Ильич присел на ступеньки возле трибуны и стал слушать ораторов. Ленин целиком поглощён творческой атмосферой конгресса. Готов в любую минуту выйти на трибуну, чтобы отстаивать свою точку зрения, опровергнуть ошибочные взгляды и убедить колеблющихся. На Третьем Конгрессе Ленин выступил с докладом «О тактике РКП(б)» и произнёс речи по итальянскому вопросу и в защиту тактики Коминтерна.

В этот зимний день в Кремле Владимира Ильича посетил американский экономист Христенсен. Эти кадры были обнаружены недавно. Время оставило на плёнке глубокие слюды, но это одна из последних киносъёмок, запечатлевших Владимира Ильича, и этим она нам особенно дорога.

Ленин. Каждая черта его живого облика драгоценна для современников и потомков. Образ его навсегда сохранится в сердцах людей, в памяти поколений. Таким мы его знали, таким мы его помним, таким он будет жить в веках!



10 de janeiro de 2016

O “Relatório Secreto” de Khruschov entre a pequena e a grande história


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Nikita Khruschov, líder da URSS, discursa no 20.º Congresso do Partido soviético, em 1956.


Nota inicial: A primeira vez em que tomei contato com este artigo, na biblioteca da Unicamp, foi quando redigia minha monografia de fim de curso, em 2011, e pesquisava como o “Relatório Secreto” do líder soviético Nikita Khruschov impactou sobre o Partido Comunista Brasileiro (PCB) entre 1956 e 1961. Já na época, a partir de uma cópia xérox, havia começado a rascunhar uma tradução à mão, mas só anos depois passei tudo no Word e fiz correções definitivas. E pouco antes de publicar no blog, revisei ainda a transliteração das palavras em russo, que havia escrito conforme a ortografia portuguesa, em cujo lugar uso hoje meu próprio sistema. Em francês, por exemplo, “Khruschov” é grafado “Khrouchtchev”.

O artigo é de autoria do historiador e jornalista de origem sérvia Branko Lazitch (1923-1998), especialista em União Soviética e Internacional Comunista, bastante crítico ante os regimes comunistas. Foi publicado inicialmente na revista francesa Communisme, n. 9, 1.º trimestre/1986, pp. 52-58, e o título em francês é “Le «Rapport secret» de Khrouchtchev entre la petite et la grande histoire”. Eu traduzi e coloquei notas explicativas, que suprem em parte o fato do texto estar hoje desatualizado e eu não ter acrescentado novas informações históricas. Mesmo assim, julgo sua publicação importante (no blog, pois o artigo é velho demais para revistas impressas), e para tanto obtive por e-mail a autorização pessoal de Stéphane Courtois, diretor e um dos fundadores da revista. Também respeitei a decisão do autor de escrever “Relatório Secreto” com iniciais maiúsculas.

A respeito do “Relatório Secreto” de Khruschov, o próprio Courtois me sugeriu olhar também estes dois artigos da revista Communisme:

Stéphane Courtois. Le « Rapport secret » de Khrouchtchev : la fracture du système communiste. Pp. 43-60, 4e trimestre 2006 – 1er trimestre 2007, n. 88/89 (número especial sobre a revolução húngara de 1956).

Nicolas Werth. Histoire d’un « pré-Rapport secret » : audaces et silences de la Commission Pospelov, janvier-février 1956. Pp. 9-38, 3e et 4e trimestres 2001, n. 67/68.

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por Branko Lazitch

“A máquina escapou de nossas mãos”, dizia Lenin em 1921, atestando a situação dramática da Rússia soviética e, ao mesmo tempo, defendendo uma viragem drástica. Mais tarde, em 1956, ocorreria um novo “descontrole”, mas agora num plano triplo: na Rússia soviética, no bloco soviético e no movimento comunista internacional. Na origem de todos os eventos que tornaram 1956 o ano mais turbulento e mais importante da história comunista desde novembro de 1917, encontra-se um simples documento reputado confidencial: o relatório de Nikita Khruschov (1) ao 20.º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, apresentado a 25 de fevereiro de 1956. Poucas vezes na história do século 20, e mesmo antes, um texto concerniu tanto à pequena quanto à grande história. A pequena história: um documento destinado a permanecer secreto (e a ser lido unicamente aos membros do Partido) terminou, no espaço de três meses, conhecido em todo o mundo “capitalista”. A grande história: seus efeitos no mundo comunista, primeiro de imediato (1956), em seguida no longo prazo e, enfim, de forma permanente.


Um relatório secreto tornado público

A própria noção de segredo (konspirativnost) na ação política remonta a Lenin, e os comunistas russos, especialistas na matéria, apenas transpuseram essa ideia do plano russo para o plano do movimento comunista internacional. Quando foi decidido, na cúpula do Partido Comunista soviético, que Khruschov apresentaria ao congresso o “Relatório sobre o Culto à Personalidade”, nem os delegados soviéticos nem os estrangeiros haviam sido informados de nada nos dias que precederam imediatamente o evento. A regra da “konspirativnost” devia ser estritamente aplicada.

Nos corredores do congresso, aberto a 14 de fevereiro, bem como nos assentos dos delegados soviéticos e estrangeiros, encontravam-se centenas, senão milhares, de pessoas. Hoje, entretanto, após trinta anos, apenas um depoimento público é conhecido, o de Vittorio Vidali, chefe do PC de Trieste, na forma de um diário completo que seria publicado em 1974: Diario Del XX Congresso. (2) Velho agente da Internacional Comunista (e provavelmente também dos serviços secretos soviéticos), profundo conhecedor de seus bastidores e já destacado pelas reservas expressas no ano anterior (1955) quanto à visita de Khruschov a Tito, ele percebe desde a abertura do congresso que a personagem principal seria Stalin, ou antes, seu espectro, não pelo que se diria dele, mas pelo que ficaria implícito. O enfadonho Relatório do Comitê Central apresentado por Khruschov, primeiro documento do congresso, trata de uma “certa personalidade”, o que faz Vidali notar que “a sombra de Stalin pairava sobre a sala do congresso”. Entretanto, Vidali pergunta-se: por que não se ataca Stalin nomeadamente, ao menos para evitar confusão? Seu vizinho, um delegado brasileiro, garante a Vidali que a pessoa visada não era Stalin, mas Beria. Mas a maioria dos presentes não se deixa enganar: assim, o islandês dirige-se a Vidali: “Você viu? Você entendeu? Essa ‘certa personalidade’ é Stalin. O que será que vai acontecer ainda...?” E nesse mesmo dia de abertura do congresso, Vidali, voltando ao hotel, encontra Togliatti e troca algumas palavras com ele: “O secretário-geral do PC italiano responde com monossílabos, visivelmente insatisfeito.”

Dois dias mais tarde, a 16 de fevereiro, Vidali percebe que o discurso inteiro de Mikoyan era um ato de acusação contra “certa personalidade”, mas que os delegados estrangeiros, ao comentá-lo, permaneciam prudentes. Com a atmosfera do congresso permanecendo a mesma ao longo dos três dias seguintes, Vidali, a 19 de fevereiro, questiona Togliatti: “Você acha mesmo que vão parar por aí com Stalin? Eles não vão mais longe?” “Não, não acho”, responde Togliatti. O relato de 25 de fevereiro termina com estas duas frases: “Ao longo da sessão a portas fechadas, Khruschov falou de Stalin por quatro horas. Mas não havíamos sido avisados antes, nem mesmo Togliatti”. Assim, a “konspirativnost” foi mantida a 25 de fevereiro, mas pelo último dia.

Visivelmente satisfeito com o impacto fulminante produzido sobre o auditório do 20.º Congresso, Khruschov decide levar o conteúdo de seu Relatório ao conhecimento de outros comunistas. À medida que ele alarga esse círculo, o caráter secreto do documento começa a comprometer-se. Assim, nas 24 horas que se seguiram a seu discurso a portas fechadas, Khruschov decidiu mostrar o Relatório aos chefes de certos “Partidos irmãos” vindos ao congresso em Moscou. O roteiro foi igual com todos: os soviéticos levavam o documento em russo ao chefe da delegação e a leitura devia ser imediata, após o duplo compromisso de não tomar notas nem citar seu conteúdo no exterior. Por outro lado, os chefes das diversas delegações reagiam de maneiras diferentes: Thorez fez virem os outros delegados franceses – Jacques Duclos, Pierre Doize e Georges Cogniot, tendo este último se encarregado de traduzir e resumir o documento –, enquanto na delegação italiana Togliatti reservou para si a leitura do texto.

Se era relativamente fácil manter a “konspirativnost” dentro de um círculo muito restrito de comunistas estrangeiros, deu-se o contrário nas reuniões a portas fechadas convocadas pelas organizações de base do Partido Comunista soviético ao longo de março de 1956. Svetlana Alliluieva conta que alguns dias após ter lido uma cópia do Relatório Secreto dada por Mikoyan, assistiu à reunião do Partido no Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou, e testemunhou a emoção do auditório, o qual o representante do Comitê Central tentava acalmar. O abalo foi o mesmo em milhares de outras organizações do Partido. Veljko Mićunović, embaixador iugoslavo recém-estabelecido em Moscou, escreve em seu diário (3) a 18 de abril: “Temos indícios de que após quinze dias, por diretiva do Presidium do Comitê Central (Politburo), (4) foram interrompidas as reuniões do Partido a portas fechadas que apresentavam o Relatório Khruschov [...] Pelo que pudemos saber, o Relatório Khruschov foi bem recebido nas primeiras reuniões, mas sua leitura resultou, um tempo depois, em confusão e discórdia no seio do Partido e do povo...”. E a 20 de abril ele acrescenta: “Um de nossos informantes disse-nos que as discussões sobre Stalin haviam assumido um caráter desagradável junto aos operários e aos quadros”. Aliás, foi graças a essas reuniões em março que os primeiros vazamentos do conteúdo do Relatório Secreto apareceram tanto em jornais comunistas do Ocidente (L’Humanité, Daily Worker etc.) quanto na imprensa “burguesa”. Mas eram apenas fragmentos; estava-se longe de poder-se ler e, com maior razão, divulgar a íntegra do texto.

Em março de 1956, Khruschov permitira que os comunistas soviéticos conhecessem o Relatório, mas pôs fim à experiência em abril assim que ela ameaçou tornar-se perigosa. O caso foi ainda mais simples com os chefes comunistas ocidentais: eles não tomaram conhecimento nem em março, nem em abril. Na França, a 9 de março, Jacques Duclos, discursando após retornar de Moscou, arranca aplausos para Stalin. Na Itália, a 14 de março, Togliatti lê diante do Comitê Central um longuíssimo relatório, mas consagra apenas um breve parágrafo ao “culto da personalidade”.

Khruschov realizara ainda uma terceira abertura aos países comunistas, que receberam um exemplar do Relatório, instruídos a limitar seu conhecimento ao Comitê Central dos Partidos. A Iugoslávia estava entre eles, como atesta Veljko Mićunović, que escreve a 14 de março em Belgrado (antes de partir para Moscou): “Após o 20.º Congresso, os russos enviaram-nos confidencialmente o texto do Relatório Secreto de Khruschov. Nós tivemos este mês uma reunião especial do Comitê Central em que o Relatório foi lido. É um livro inteiro. A leitura era longa, mas a atenção foi excepcional [...] Aprovamos o Relatório por unanimidade, atribuindo-lhe uma importância histórica”. A 20 de março de 1956, o Borba, jornal diário da Liga dos Comunistas da Iugoslávia, publicou um artigo que resumia os principais temas do Relatório Secreto, tendo sido esse o único vazamento iugoslavo que chegou ao Ocidente.

Com a Polônia resultou diferente: ela foi a fresta pela qual o Relatório Secreto escapou para tornar-se um Relatório Público. Edward Ochab, eleito primeiro-secretário do Partido em março de 1956 (substituindo Bierut, falecido em Moscou), confirmou decisivamente esse fato, e por duas vezes! Na Polônia do Solidariedade, questionado por Teresa Torańska (autora do livro Them: Stalin’s Polish Puppets, (5) Londres, 1985) se “Em nosso país, o Relatório Secreto de Khruschov era vendido no mercado das pulgas?”, ele respondeu: “Eu não sei, mas o Relatório era lido e discutido em todas as organizações do Partido. Sei também que foi graças a nós que os comunistas dos outros países socialistas e mesmo da União Soviética puderam conhecê-lo, pois eram distribuídas cópias no país inteiro e alguns exemplares certamente devem ter chegado ao exterior”. A mais antiga versão concernente a Ochab e os poloneses remonta a junho de 1956, mês da publicação do Relatório Secreto pela imprensa ocidental. Segundo as memórias de Enver Hoxha, foi durante a reunião do Comecon, na presença de todos os dirigentes do Leste Europeu, que Nikita Khruschov censurou Ochab furiosamente: “Nós lhes demos o Relatório Secreto do 20.º Congresso e vocês o imprimiram e venderam por 20 zlótis o exemplar. Vocês não sabem guardar segredo!” “É verdade”, murmurou Ochab.

A única correção a fazer-se nesse requisitório de Khruschov é que no mercado negro de Varsóvia a moeda de troca não era o zlóti, mas o dólar, e o Relatório Secreto caiu nas mãos da CIA por uma quantia inferior a 300 dólares. É a partir de então que o Relatório sobre o “culto à personalidade” deixaria a pequena história oculta para ocupar seu lugar no palco da grande história. Se não houvesse aquela fresta polonesa desde a primavera de 1956, como saber em que momento o Relatório poderia tornar-se conhecido? Mas uma coisa é certa: quanto mais se atrasava o conhecimento do conteúdo do Relatório, menos impacto ele produzia. Um exemplo extremo disso foi a publicação do Relatório pelo PC francês em 1982 – um não acontecimento.


O Relatório Secreto: um demiurgo histórico

Por ironia da história, um documento secreto não somente se tornou público ‒ isso ocorreu com frequência no passado ‒, mas também produziu efeitos sem igual e sem precedentes na história do comunismo. O Relatório Secreto possui a dupla particularidade de ser o requisitório histórico mais constrangedor já redigido pelos próprios comunistas, bem como um ato político de incalculáveis consequências imediatas e de longo prazo. Até então, os comunistas sabiam praticar a autocrítica, mas o Relatório Secreto constitui uma crítica nunca vista e ouvida antes; é o massacre do “paizinho dos povos”. À importância do ato soma-se a originalidade da forma: os comunistas do mundo inteiro haviam escrito milhares de resoluções, apelos, manifestos etc., mas era a primeira vez que redigiam um Relatório desse gênero.

O Relatório Secreto, lido a 25 de fevereiro e tornado público a 4 de junho de 1956, teve impacto imediato, como mostra a simples comparação entre os acontecimentos no mundo comunista antes e depois de sua publicação. Antes, a desestalinização no Leste fora muito limitada e prudente: duas ou três flechadas contra Stalin em declarações públicas, um ou dois velhos bolcheviques reabilitados, Béla Kun reabilitado em Moscou (onde ele fora assassinado) e László Rajk em Budapeste (onde ele fora enforcado), reabilitação do Partido Comunista da Polônia em Moscou (onde ele fora liquidado em 1938) etc. Após 4 de junho, os acontecimentos não são mais canalizados e tornam-se incontroláveis, começando pelos distúrbios em Poznań (no mesmo mês, ainda que sem correlação direta com o Relatório Secreto). O ano culmina com os “acontecimentos” na Polônia e na Hungria, em que pela primeira vez os comunistas (militantes e dirigentes) escolheram ficar do lado de seu povo, sob o risco de contrariar a União Soviética, “pátria do socialismo”. Embora as esperanças do Outubro Polonês tenham-se esvanecido após algum tempo e a revolução húngara tenha sido esmagada imediatamente, 1956 entrou para a história como o primeiro ano de um recuo geral do comunismo.

Ainda estão para inventariarem-se todas as consequências do Relatório Secreto e seu impacto sobre três esferas distintas do comunismo mundial: a URSS, os países comunistas e o movimento comunista internacional. Quer se tratasse apenas de questionar os fundamentos do mundo comunista ou, com maior resolução, de destruí-los sistematicamente, eles não seriam mais os mesmos após 1956. E a listagem desses princípios, mesmo não sendo exaustiva, permanece impressionante:

O Partido – É o alfa e o ômega do poder, teoricamente sempre o mesmo, igual a si próprio: Gorbachov, tal como seus antecessores, concluiu seu Relatório ao 27.º Congresso do PC soviético enaltecendo-o. Mas, apesar de todos os esforços, o Partido já não é mais o mesmo. Nos tempos de Khruschov, o célebre monolitismo ainda era uma joia preciosa da coroa do Partido; hoje, a palavra ‒ e, com maior razão, a coisa ‒ despareceu do vocabulário comunista, processo no qual o impacto demolidor de longo prazo do Relatório Secreto tem sua influência. E o questionamento ou mesmo o abandono efetivo do “centralismo democrático” por outros Partidos irmãos mostram que o processo de “desbolchevização” está longe de terminar.

O papel do Partido Comunista soviético – Durante décadas foi obrigatória a atribuição do papel de guia ao grande irmão russo. Ainda na Conferência Internacional dos Partidos Comunistas, em novembro de 1957, em Moscou, discutiu-se sobre o termo a empregar-se para qualificar o Partido russo: Partido-guia ou vanguarda? Hoje esse termo desapareceu, e a hegemonia soviética defasou-se muito na prática. Quando ocorre uma cisão, seja na Finlândia ou nas Filipinas, ocorre agora que a fração pró-URSS torna-se definitivamente minoritária, situação impensável nos tempos da Internacional Comunista.

As relações entre os “Partidos irmãos” – Eram marcadas pelo “internacionalismo proletário”, cuja pedra de toque era a “fidelidade incondicional à URSS”. Hoje o termo é cada vez mais evitado pelos Partidos irmãos ocidentais, mesmo nos informes em comum que os mais importantes dentre eles assinam com o PC soviético, e só aparece quando é Álvaro Cunhal quem assina o documento.

A doutrina marxista-leninista – Após Khruschov haver eliminado o adjetivo “stalinista”, a doutrina passou a ser apenas “marxista-leninista”, fórmula bem própria ao Partido nos países outrora coloniais e semicoloniais tornados independentes, mas menos adequada ao Partido Comunista Italiano. A referência ao marxismo-leninismo caminha no sentido oposto ao da evolução do mundo ocidental. Mais uma vez Khruschov contribuiu para esse trabalho de demolição ao se encontrar impossibilitado de explicar doutrinariamente o fenômeno staliniano na sociedade soviética.

O dogma da infalibilidade – Após ter sido endeusado por três décadas (portanto, considerado eterno e infalível), Stalin foi atirado de seu pedestal e ninguém pôde recolocá-lo. A divisa “Stalin sempre tem razão” significava que o Partido sempre tinha razão, mas desde que Stalin transformou-se no réu número 1, o que restava da infalibilidade do Partido?

A ilusão de reformar o sistema – O Relatório Secreto de Khruschov era a peça-chave da desestalinização que deveria inaugurar reformas no sistema. A sorte do Outubro Polonês e, depois, a do próprio Khruschov são bastante reveladoras, mas ainda não significam o fim das apostas dos “observadores” ocidentais sobre a evolução “liberal” e o reformismo no Leste; elas apenas mostram que essas previsões têm-se mostrado falsas até hoje, trinta anos após o Relatório Secreto.

O destino da Internacional Comunista – Na sequência da reconciliação com Tito e da desestalinização impulsionadas pelo 20.º Congresso, Khruschov dissolveu o Kominform em abril de 1956, confirmando o fracasso de um determinado modo de organizar o movimento comunista internacional, mas de forma alguma abandonando todos os vínculos entre os “Partidos irmãos”. Como prova disso, no ano seguinte, em novembro de 1957, reunia-se em Moscou uma grande conferência internacional dos Partidos Comunistas, com a presença de Mao Zedong em pessoa. Outra iniciativa no mesmo sentido da conservação dos vínculos internacionais foi o lançamento, em Praga, de uma revista mensal editada em todas as línguas estrangeiras importantes, Problemas da Paz e do Socialismo, cujo núcleo dirigente era formado (e ainda é) por uma equipe soviética.

A desestalinização ‒ incluindo, obviamente, o Relatório Secreto ‒ contribuiu com três fortes efeitos negativos sobre o mundo comunista.

Por um lado, o cisma chinês e a cisão do bloco comunista entre os satélites soviéticos europeus e os países comunistas asiáticos. Pouco após 1956, a reunião da Conferência Mundial dos 81 “Partidos irmãos” em novembro de 1960 marcou o fim da irmandade: a China estava prestes a romper com a URSS, a Coreia do Norte pôs-se ao lado dos chineses e o Vietnã do Norte, nesse momento, declarou-se neutro no conflito sino-soviético. Desde então, o império soviético não abarca mais a totalidade dos países comunistas, tornando-se dissidentes o maior deles, a China, e o menor deles, a Albânia, situação que persiste até hoje.

Por outro lado, os países da Europa Central e Oriental submetidos ao “rolo compressor” soviético de 1944 a 1956 (e dominados, mesmo em caso de revolta, no espaço de 24 horas, como em Berlim Oriental, em junho de 1953) experimentariam aos poucos uma nova forma de relacionar-se com Moscou. De fato, em virtude da “doutrina Brezhnev”, nenhum desses países pôde escapar ao domínio soviético, o qual, porém, não é igual ao do passado, mesmo quando o poder comunista susteve-se in extremis graças aos tanques soviéticos na Tchecoslováquia ou aos tanques poloneses na Polônia.

Por fim, durante o 20.º Congresso, Khruschov elaborou uma teoria e uma estratégia sobre a “via parlamentar e pacífica” de acesso ao poder pelos “Partidos irmãos” nos países industrialmente desenvolvidos. A prática não obedeceu a tal formulação: já na conferência de 1960, o representante chinês que havia questionado em que país capitalista essa teoria teria chances de traduzir-se em atos recebeu como réplica de Luigi Longo o exemplo da Itália; ora, analisando hoje em retrospectiva, o fracasso dessa tese “revisionista” de Khruschov é evidente e total.

Paradoxalmente, o comunismo soviético expandiu-se para onde Khruschov e os delegados ao 20.º Congresso sequer haveriam sonhado em teorizar seu avanço: o Terceiro Mundo (África, Ásia e América Latina). Esse “sistema comunista mundial” só veria a luz vinte anos após o 20.º Congresso e o Relatório Secreto de Khruschov, mas o documento não teria qualquer influência no nascimento desse novo dado fundamental da história mundial.

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Notas (Erick Fishuk)
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(1) Em 1956, Khruschov já ocupava o cargo de primeiro-secretário (antigo secretário-geral) do PCUS e ainda se tornaria presidente do Conselho de Ministros em 1958.

(2) Também publicado em inglês pela Lawrence Hill & Co. (Diary of the Twentieth Congress of the Communist Party of the Soviet Union) e em espanhol pela Grijalbo do México (Diario del XX congresso).

(3) Seu livro Moskovske godine seria publicado em inglês pela Chatto & Windus sob o título Moscow Diary.

(4) O Politburo do CC do PCUS era o órgão dirigente do Partido entre um congresso e outro, e se chamou “Presidium” entre 1952 e 1966.

(5) No original francês, “Eux” (na verdade, foi publicado pela Flammarion com o título Oni: Des staliniens polonais s’expliquent); publicado em polonês pela Przedświt com o título Oni, e no Brasil, pela Nova Fronteira, com o título Eles: stalinistas poloneses se explicam.



Cabeça de Stalin arrancada na Hungria durante as revoltas de 1956.

3 de janeiro de 2016

Stalin bebum inaugura metrô (1935)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stalin-bebum


Alguns construtores do Metrô de Moscou ganharam a Ordem de Lenin. Outros, a Estrela Vermelha. Outros ainda, a Bandeira Vermelha do Trabalho. E mais outros, diplomas do Comitê Executivo Central. E os outros, vão ficar sem nada? Não, vão ganhar o agradecimento oficial do Partido e do governo!

Foi com esse show de generosidade e justiça que Iosif Vissarionovich Stalin, o Secretário-Geral de Todas as Rússias, inaugurou em 14 de maio de 1935 o Metrô de Moscou, famoso até hoje pela beleza e suntuosidade de suas instalações, futuro cenário de discursos igualmente memoráveis que pretendo postar em breve.

O reconhecimento, em todo caso, era mais do que justo, pois a época era dos primeiros sucessos da industrialização acelerada, que daria as bases para a URSS se tornar uma potência e enfrentar o monstro nazista. A escolha do Partido Bolchevique, desde o fim dos anos 1920, tinha sido pelos operários industriais urbanos, os maiores beneficiados das colossais mudanças e, ao entrarem em massa na burocracia, base de apoio do regime staliniano. Os perdedores seriam os camponeses, vedetes da NEP e das teses de Nikolai Bukharin, privados da livre venda e produção, compelidos a produzir no sistema kolkhoziano.

O “Metrostroi” citado no fim do vídeo é a empresa fundada em 1931 para lidar com o nascente ramo da construção de metrôs e túneis, edificando todas as estações do Metrô de Moscou e continuando ainda hoje a atuar sob o nome “Mosmetrostroi” com soluções de engenharia no solo e no subsolo também em países vizinhos.

Eu baixei o vídeo deste endereço, com legendas em francês (não consegui achar uma versão sem) que deu para encobrir com o português. Há duas transcrições do discurso (incluindo as partes não filmadas) que não reproduzem fielmente a fala de Stalin no vídeo: a versão definitiva impressa no Pravda de 15 de maio de 1935 e publicada em 1997 no tomo 14 das Obras completas de Stalin, e um estenograma não corrigido e incluído em 2006 no tomo 18 das mesmas Obras. Cotejando as duas, fiz minha própria transcrição, que segue abaixo em russo e português, após o vídeo que, como sempre, carreguei no meu canal O Eslavo no YouTube:


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СЛОВО ДЛЯ ПРЕДЛОЖЕНИЯ ИМЕЕТ ТОВАРИЩ СТАЛИН

Подождите авансом рукоплескать, вы еще не знаете, что я скажу. Партия и правительство наградили за успешное строительство Московского метрополитена одних орденом Ленина, других – орденом Красной Звезды, третьих – орденом Трудового Красного Знамени, четвертых – грамотами Центрального Исполнительного Комитета Советов ССР. И вот у нас вопрос – а как быть с остальными? Как быть с остальными товарищами, которые работали не хуже, чем награжденные, которые по мере сил клали свою кровь, труд, усилие на дело Московского метрополитена. Как быть с ними – вот вопрос. Мы из президиума глядим на вас: рожи не у всех одинаковые. Одни из вас будто бы рады, а другие недоумевают – что же это, сволочи, обошли нас. Так вот, эту ошибку партии и правительства мы хотим поправить перед честным миром. За успешную работу по строительству Московского метрополитена объявить от имени Совета Народных Комиссаров и Центрального Исполнительного Комитета Советов ССР благодарность ударникам и ударницам и всему коллективу инженеров, техников, рабочих и работниц Метростроя.

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COM A PALAVRA PARA UMA PROPOSTA, O CAMARADA STALIN

Esperem antes de apaludir, se ainda não sabem o que vou falar! Pela construção bem-sucedida do Metrô de Moscou, o Partido e o governo condecoraram alguns com a Ordem de Lenin, outros com a da Estrela Vermelha, outros ainda com a da Bandeira Vermelha do Trabalho, e mais outros com diplomas do Comitê Executivo Central dos Sovietes da URSS. Mas perguntamos: e os restantes? Como ficam os outros camaradas que fizeram tão bem quanto os condecorados, que deram ao máximo seu sangue, braços e esforços pelo Metrô de Moscou? Nos perguntamos o que fazer. Nós do Presidium vemos que vocês fazem caras diferentes... Uns parecem felizes, outros não entendem: “Mas que canalhas, nos enganaram!” Pois bem. Queremos corrigir este erro do Partido e do governo ante o respeitável público. Pelo trabalho bem-sucedido de construção do Metrô de Moscou, em nome do Conselho de Comissários do Povo e do Comitê Executivo Central dos Sovietes da URSS, agradeço oficialmente aos trabalhadores e trabalhadoras de choque e a toda a equipe de engenheiros, técnicos, operários e operárias do Metrostroi!