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21 de janeiro de 2021

Como se escreve o nome da covid-19?


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por Erick Fishuk


Estou escrevendo este texto de cabeça, após a dúvida surgir durante a correção, que estou fazendo pra outra pessoa, de um texto acadêmico. Ela mencionou o nome da doença “COVID-19” (escrito assim, com maiúsculas e hífen) e eu decidi pesquisar se já existe, afinal, alguma regra que determine a grafia correta da maldita praga causada pelo coronavírus (esta sim, uma palavra consagrada, pois há outros tipos de coronavírus). Achei vários sites que dizem algo a respeito, nem sempre concordando entre si, mas decidi não os citar aqui.

Resumindo as regras e recomendações que li neles, redijo aqui o que, por enquanto, pode ser um procedimento mais saudável. Se alguém tem outras sugestões ou sabe de algo mais que foi determinado ou deliberado, por favor mande-me um e-mail diretamente, e evite fazer escândalo polemizando contra mim sem avisar ou detratando meu texto pelas minhas costas. Conhecimentos unidos podem tornar este material ainda mais útil!

O primeiro ponto ressaltado é que, em se tratando de ideia e fenômeno novos, alguma oscilação pode existir, e nas mídias hoje tão abundantes a prática pode variar muito. Até os “organismos autorizados” estabelecerem a palavra final, pode levar ainda algum tempo, e pode ser mesmo que a forma triunfante, por força do uso, nem seja a que obedeça às normas vigentes. Mesmo assim, toda tentativa de padronização é bem-vinda, pra unificar os usos e dirimir dúvidas em horas cruciais de redação.

Um dos exemplos citados é o da aids, que originalmente era a sigla inglesa AIDS, significando nessa língua “Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida” (em espanhol, é mais comum lermos e ouvirmos SIDA). Muitos ainda escrevem “AIDS” toda capitalizada, mas a forma minúscula de substantivo comum “aids” também é considerada correta. Por vezes, à medida que nomes de marcas de produtos acabam sendo identificadas com os próprios produtos, sobretudo quando eles não têm equivalente em determinada língua, esses nomes também se tornam substantivos comuns. Por vezes passam a ser escritos apenas em minúsculas, mas não raro também são “aclimatados” à língua-hóspede, mudando-se a pronúncia e, claro, a ortografia.

Pra começo de conversa, o nome científico do vírus em expansão é Sars-CoV-2, o famoso “coronga”, embora ele seja apenas um dos tipos de coronavírus existentes, como escrevi acima. Esta não é a doença causada pelo referido vírus, a qual recebeu, enfim, um nome próprio após a descoberta: CoViD-19, isto é, corona-virus disease em inglês, detectada pela primeira vez na China em 2019 (mais exatamente em dezembro). Uma das dúvidas, então, está solucionada: “covid-19” é uma palavra feminina, pois se refere à “doença”, esta de gênero feminino em português.

Por razões óbvias, tanto de comunicação imediata em aplicativos de mensagens quanto de rapidez numa produção midiática sempre mais informatizada e lucrativa, ninguém ficaria alternando o tempo todo entre maiúsculas e minúsculas pra escrever “CoViD”. A solução foi simplificar, e julgando-se ser ainda uma sigla composta de iniciais de substantivos próprios, surgiu a forma COVID-19, de longe a mais usada hoje na mídia, e não considerada errada de forma alguma. Contudo, seu uso cada vez mais massivo põe em evidência o fato de que nossos olhos se cansam muito fácil de ler muitas maiúsculas em sucessão, além de que mesmo em computadores e celulares, a passagem à capitalização sempre desacelera um pouco a fluência da escrita, via de regra feita em minúsculas.

Mesmo jornais brasileiros consagrados, como O Estado de S. Paulo, já aderiram massivamente à forma covid-19, toda em minúsculas, como um substantivo comum. E também por força do uso, visando à comunicação dinâmica, direta e simplificada, o mesmo órgão paulistano não raro reduz tudo apenas a covid, a qual sabemos muito bem do que se trata. Nas fontes que consultei, nada se diz a respeito de “covid”, criação típica dos brasileiros abreviadores, e desconheço seu emprego e aceitação em Portugal. (No telejornalismo estrangeiro, sobretudo italiano e francês, ouvir só “covid” já é algo corrente.)

Mas vamos nos ater a nosso melhor resultado até agora, que é “covid-19”. O portal de notícias G1 da Globo utiliza “Covid-19”, de inicial maiúscula, com bem mais frequência. Porém, se consideramos “a covid(-19)” como uma doença reproduzível em cada ser humano, e seguindo a tendência de todos os substantivos comuns de doenças em português, a obrigatoriedade do cê maiúsculo não se justifica, quiçá mesmo seu próprio uso. Isso, claro, se o nome for apropriado de vez pela língua corrente, o que parece longe de ser negado, mesmo apenas um ano após o início do surto.

Enfim, não sejamos dogmáticos, até porque os “doutos acadêmicos”, cujas preocupações sempre parecem muito mais voltadas a séculos anteriores e em hermetizar a língua mais do que flexibilizá-la, ainda não saíram de seu isolamento sanitário obrigatório. O que vale nos dias de hoje é a clareza, a constância e o dinamismo, e a mim, como simples blogueiro, me parece que “COVID-19”, “covid-19” e mesmo “covid” se prestam todas igualmente ao mesmo propósito. Não julguem, e também não sejam julgados.

Quanto à pronúncia, que é um tópico menos importante, apenas algumas palavras. O famoso “sítio” Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, que está sediado na Europa, não o impedindo de ser bastante abrangente, menciona a corrência da pronúncia lusitana “curônaVÍruch” com relação ao coronavírus. No Brasil, onde o primeiro ó não costuma ser reduzido, é mais comum ouvirmos “côrônaVÍrus” ou “côrônaVÍruch”, além de “covid” ser quase sempre pronunciado “côVÍdji” ou, em partes do Nordeste, “cóVÍdji” ou até “cóVÍdi” com dê duro. O que tenho ouvido na mídia estrangeira é “CÓvid” em Portugal (que não raro emudece consoantes finais) e na Itália, “CÔUvid” ou “CÂUvid” em inglês e “côVÍD” em francês.

Mas paremos por aí, na esperança de já ter ajudado o suficiente, porque senão já seria regulação demais. E justamente na parte mais bela e menos controlável da linguagem!

19 de janeiro de 2021

Jarbas Medeiros, “Sociedade drogada”


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Outro dia, remexendo em meus papéis “de refugo”, encontrei um texto chamado “Sociedade drogada”, de autoria do cientista político Jarbas Medeiros, publicado na revista Caros Amigos e que, pelo conteúdo, parecia ser do início dos anos 2000. Não havia outras informações: o estilo, inclusive, era muito parecido com aquela época, e com coisas que nos dava pra ler na escola minha querida professora de História de esquerda, Flávia Otatti Valle. Achei que teria de digitar todo o artigo, mas por sorte, após pesquisar no Google, achei uma única cópia em formato DOC no site do Liceu Albert Sabin, indicada como “sugestão de leitura” de um prof. Marcelo Góes. Melhor ainda, nosso amigo indicou ter sido publicado em agosto de 2003 (acertei!), no número 77, página 26. Relendo o texto interessante, quase caí de costas quando vi praticamente uma previsão distópica do caos que vivemos hoje; embora ele descrevesse a própria época, não deixa de assombrar como tudo piorou ao invés de melhorar. Talvez os pontos mais chocantes sejam o triunfo do ultraliberalismo, a campanha contra o sexo e a burrice causada pela internet. Enfim, só leiam e repassem!


Civilização drogada, sociedade enferma, doentia, neurótica, psicótica, autodestrutiva. Talvez, quem sabe, a caminho da implosão. É onde vivemos.

Não é de hoje que desconfio – e parece (ou estou certo) que muitos outros também – de que esse problema das drogas nas sociedades modernas está sendo muito mal entendido e tratado. Todas essas campanhas contra a droga e seus usuários, com suas ramificações tentaculares pelo rendoso mercado desse produto – a droga – estão, acredito eu, resultando inúteis, ou quase. Para cada drogado “curado” (?), certamente estão surgindo muitos milhares ou mesmo milhões de novos usuários que entram e aderem à ciranda das drogas. Palmadas, palmatórias, reprimendas, ficar ajoelhado sobre o milho no canto da sala de aula, papos compreensivos ou amigáveis, prisão domiciliar ou não, sermão moral e religião, psicologia e divã psicanalítico de nada adiantam, nessa altura dos acontecimentos históricos nacionais e internacionais, penso eu. A própria campanha contra o fumo (e a próxima, ao que parece, sobre o álcool e quem sabe, em futuro próximo, contra o beijo e o sexo) são, em essência, duvidosas na sua histeria maluca obsessiva – esta última, sim, a “histeria de massa, de Estado e de empresa” –, uma droga muito perigosa e ainda não reconhecida de todo.

E não confio muito nas estatísticas e nos diagnósticos da medicina, tão voláteis e incertos, que ora sustentam uma coisa, ora outra. O que fazia mal ontem já não faz tanto assim e o que faz bem hoje é veneno. Cautela com estatísticas e diagnósticos. E o pior de tudo é que vivemos todos hoje sob o império da medicalização e da medição estatística, do nascimento à velhice e à morte.

Bem, é sabido que o homem (ou a “raça humana”, se preferem) desde sempre fumou, se drogou, se embriagou, sempre foi supersticioso, místico, exagerado, violento, brutal, letal, cientista, poeta, artista e sonhador – e tudo ao mesmo tempo. Tenho, por exemplo, dúvidas se o pai da ciência política foi mesmo Maquiavel, com O Príncipe, ou Macbeth, do mestre Shakespeare, consultando as feiticeiras para saber de seu destino como rei. Aliás, o próprio Maquiavel dizia que os homens são mais fiéis aos seus preconceitos do que aos seus princípios... A mente racional não tem esse poder todo que se imagina.

O fenômeno das drogas como peste ou pandemia é coisa relativamente recente, fenômeno típico da moderna sociedade capitalista de massas. A droga hoje, como disse, é uma mercadoria, produto mercadológico – e o mercado, quanto mais livre e desimpedido for, mais sagrado e fundamental ele é na economia moderna. Produz tudo para todos os gostos e necessidades, reais ou inventadas. Na sociedade consumista, quem não consome não existe. As pessoas hoje se identificam e avaliam pelo que consomem. E a cada dia novos produtos são lançados e divulgados com tal furor por mais sofisticadas tecnologias de comunicação, que se torna praticamente impossível viver sem eles. Eles nos são impostos pela propaganda massiva, invasiva e agressiva ou pela sedução. Quem não entra no jogo torna-se logo um ser descartável, desprezível, solitário – um extravagante a quem não se deve dar ouvidos.

As drogas, ao mesmo tempo em que são combatidas – chamam-se elas crack, maconha, cocaína, morfina, heroína, ópio, ecstasy, cigarro e agora a obesidade (que já está sendo considerada uma droga, com suas anorexias e bulimias) –, são estimuladas, por outros meios e métodos, por seu mercado produtor. Combate-se e estimula-se, em uma sociedade que perdeu o sentido e o horizonte da vida.

Vejam-se, por exemplo, o automóvel e a motocicleta, hoje verdadeiros ícones e vícios de massa, inteiramente fetichizados. O mesmo com as top-models, parâmetros mercadológicos do vestir, do desfilar (leia-se, do caminhar) e da postura corpórea. Elas dizem: é assim que se veste, é assim que se anda. A internet é outra droga potencial ou já efetiva, apesar de seus supostos benefícios. Netviciados ou internautas enlouquecidos ou idiotizados proliferam. Todos esses, automóveis, motocicletas, internets, top-models, escritórios modernos, televisões, a Coca-Cola, a Pepsi e o McDonald’s, tudo isso provoca alucinações, manias e obsessões tão perigosas e alienantes como o crack, a cocaína e a heroína. Tudo isso alucina.

A minha conclusão é que a “doença das drogas” é uma doença de toda a nossa sociedade, somos todos drogados, de alguma forma. Tudo é droga ou pode se transformar em droga amanhã, se o mercado antever aí possibilidades de bons investimentos e lucros. É sabido que o narcotráfico constitui um dos negócios mais rendosos do mundo. A própria moeda é uma droga muito perigosa, cuidado! E o futebol é mania a ser evitada a todo custo. A religião, se bebida em excesso, pode levar a rumos desconhecidos e perigosos de mau delírio. E a política é droga falsificada! Ópio do povo, como dizia Marx.

Não sou contra o combate às drogas, em geral. Só gostaria que percebessem que o seu uso massificado, imoderado, alucinado, alienante, obsessivo, mercadológico e ideológico tem raízes mais profundas e mais complexas do que se costuma pensar e dizer. E isso não se refere às drogas, como tais, mas também às drogas “travestidas” de sociabilidade de mercado.

Antigamente, muito antigamente, havia medida, oportunidade, método e sentido criativo e transcendente no uso das drogas e então elas eram um fator de coesão e identidade social, de sonho e libertação. Como dizia Aldous Huxley, elas eram as “portas da percepção” para um outro mundo, tão belo e maravilhoso como este que vemos e ao qual assistimos, mas que está escondido dentro de nós, como uma rara pedra preciosa.

Somos muito mais do que apenas parecemos ser. É lamentável que tudo esteja sendo transformado em peste.




17 de janeiro de 2021

Interlíngua, a solução natural (parte 2)


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Segue a segunda parte da brochura “Interlíngua, a solução natural”, escrita pelo falecido prof. Waldson Pinheiro e disponibilizada como material de propaganda pela União Brasileira Pró-Interlíngua. Assim como na primeira parte, tomei a liberdade de adequar parte do estilo a meu próprio estilo, fazer correções e adicionar notas, sem prejudicar o conteúdo, mesmo parte do argumento sendo hoje um tanto antiquada. Após uma introdução ao problema das línguas internacionais, enfim esta parte apresenta a história e a proposta da interlíngua!


História da IALA

Enquanto paciente de uma clínica no início da década de 1920, uma senhora americana muito rica, Alice Vanderbilt Morris, esposa de Dave Hennen Morris, embaixador dos Estados Unidos em Bruxelas (1933-1937) descobria por acaso uma revista sobre esperanto e ficava muito entusiasmada com a ideia de uma língua auxiliar para todo o mundo. Foi então que o dr. Frederick G. Cotrell interessou o casal Morris na criação de uma organização que continuasse os estudos sobre línguas internacionais já iniciados por várias Comissões. Ambos os Morris acolheram de bom grado a oportunidade que se lhes apresentava de promoverem tal empreendimento.

O movimento em favor de uma língua auxiliar já tinha recebido um novo ímpeto com os trabalhos resultantes da Conferência em Bruxelas em 1919. Essa Comissão reunia pessoas de grande experiência em assuntos internacionais e comunicações, além da grande erudição linguística para discutir o problema. Como resultado do trabalho desta equipe, as Associações para o Progresso da Ciência britânica, francesa, italiana e americana instituíram a IALA – sigla em inglês (International Auxiliary Language Association), ou seja, a Associação Internacional para a Língua Auxiliar.

Em 1924, a IALA foi legalmente constituída nos Estados Unidos como organização sem fins lucrativos, cujo objetivo era “promover estudos, discussões e extensa publicidade de todas as questões relativas ao estabelecimento de uma língua auxiliar, com pesquisas e experimentos aptos a facilitar a consecução destas metas de forma inteligente e com sólidos alicerces”. A língua em torno do qual se formasse um consenso deveria ser recomendada “para adoção final pelos governos do mundo”. Seu objetivo também era “estabelecer uma língua sintética para ser ensinada em todos os sistemas de educação do mundo, como meio normal de intercâmbio de ideias e difusão do saber entre pessoas com diferentes línguas maternas”.

As pesquisas começaram tanto na América como na Europa e a IALA recebia apoio financeiro de diversas fontes, como por exemplo a Carnegie Corporation, Rockfeller Foundation, mas o apoio mais importante era dado pelo casal Morris.

Os primeiros anos foram utilizados na exploração do problema da língua. Portanto, iniciava também uma investigação comparativa do esperanto de Zamenhof (1887), do Ido de Couturat (1910), do Occidental de von Wahl (1922) e do Novial de Otto Jespersen (1928). Havia também um estudo comparativo das línguas étnicas [o termo mais correto é “línguas nacionais”] mais importantes – inglês, francês, espanhol/português, italiano, alemão, russo e latim –, das quais as línguas em estudo retiravam seu material.

Diversas reuniões foram patrocinadas entre 1925 e 1930 em Paris, Bex, Genebra e Montreux. Durante o 2.º Congresso Internacional de Linguística em Genebra, em 1931, a IALA conseguia pela primeira vez que linguistas profissionais, filólogos e especialistas em idiomas auxiliares se reunissem por um período de 2 semanas para troca de ideias, convocados pelo Prof. Otto Jespersen. No 3.º Congresso de Linguistas em Roma, 1933, 27 linguistas eminentes assinaram seu apoio às pesquisas.

Nesse ínterim, a IALA também fazia pesquisas na América do Norte. O prof. Herbert Shenton, da Universidade de Syracuse, procedia a um estudo sobre as dificuldades linguísticas em encontros internacionais. O dr. Edward Thorndike fez experiências sobre a facilidade relativa do aprendizado de línguas construídas e naturais, e publicava seu Relatório. Helen Eaton fazia pesquisas com a hipótese de uma língua internacional que poderia utilizar-se como língua-ponte. Publicou seu Relatório em 1940 juntamente com uma lista de frequências semânticas.

Em 1936 uma equipe internacional de especialistas em Filologia Comparativa reunia-se na Universidade de Liverpool com o prof. Collinson e Clark Stillman. A Fundação Rockfeller patrocinou uma subvenção para a equipe de pesquisadores.

O início da guerra em 1939 obrigou a equipe multinacional a se dispersar. Todos os dados linguísticos e o acervo bibliográfico foi transferido para Nova York. Ali, o sr. Clark Stillman organizou uma nova equipe de linguistas de várias nacionalidades, até se pôr a serviço do governo americano em 1943. Foi quando o dr. Alexander Gode von Aesch, doutor em Germanística assumiu a direção dos trabalhos. O dr. Gode levou avante o programa de pesquisas que culminaram com o Relatório Geral de 1945, que apresentava as bases teóricas das pesquisas, o conceito de vocabulário internacional, as regras a observar na escolha das palavras, a padronização da escrita segundo protótipos etimológicos, e as características gerais da gramática proposta.

Foram apresentados quatro modelos, e após a guerra, em 1946 o prof. André Martinet partiu da Sorbonne em Paris para ser Diretor de Pesquisas da IALA em Nova York. As variantes C, K, M, P são caracterizadas por seu grau de proximidade ao esquematismo ou ao naturalismo.

Essas quatro variantes foram endereçadas, na época, a 3 mil eruditos de vários países e universidades no mundo inteiro, como base de sondagem de opiniões. Deu-se o nome INTERLINGUA e os resultados mostraram uma tendência esmagadora pelo modelo natural e uma rejeição ao modelo esquemático.

Três anos mais foram necessários para completar os detalhes. Em 1950 a sra. Morris faleceu. Em 1951 foi publicado o IED – Interlingua English Dictionary de Alexander Gode com 27 mil palavras internacionais e também uma gramática completa escrita por Gode e Hugh Blair. Após concluir seu objetivo, a IALA foi dissolvida em 1953. Em 1955 foi fundada a UMI – Union Mundial pro Interlingua, visando divulgar este idioma.

Estava assim concluído o mais detalhado estudo para descobrir uma língua auxiliar, a um custo estimado em 3 milhões de francos suíços. A interlíngua é um verdadeiro idioma que transcende os esforços de um só homem, método seguido por todas as outras línguas planejadas. É o resultado de trabalhos desenvolvidos durante um quarto de século por cientistas do mundo inteiro. A língua a que se chegou é tal que todos os falantes de idiomas românicos compreendem um texto técnico sem estudo prévio; para os anglófonos e falantes de línguas germânicas e eslavas, ela é reconhecível devido às suas raízes internacionais originárias da terminologia greco-latina. Para os povos da Ásia e África, ela é o denominador comum, a chave que abre a porta da ciência e da tecnologia.

NOTA (Erick Fishuk): Há aí algo de eurocentrismo e desinformação histórica. Inspirado nos lugares-comuns do que Edward Said chamou de “orientalismo”, o autor ignora que países árabes, China, Japão e outros fizeram verdadeiras revoluções técnicas, científicas e econômicas (por vezes após violentas revoluções anticoloniais) produzindo em seus próprios idiomas, quando muito por intermédio do inglês, língua toda recheada desse vocabulário clássico comum.

Exemplo escrito em interlíngua:

In tote Europa e Americas le populos pote usar Interlingua, proque le linguas principal de iste continentes es del família indo-europee. Post multe annos de labor, Interlingua es le synthese e le resultato natural de seculos de naturalitate e internationalitate linguistic e vocabular. Illo es un conquesta scientific, tanto importante como in le passato le invention del alphabeto latin, del cifras arabe [sic] o del systema metric francese. Circa 900 milliones de personas comprende un texto technic in Interlingua sin studio previe. Illo es anque recognoscibile al parlantes de linguas slavic e germanic. Pro le populos de Asia e Africa, Interlingua es le clave que aperi le porta del scientia e del technologia.



15 de janeiro de 2021

Interlíngua, a solução natural (parte 1)


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Hoje os adeptos da interlíngua da IALA, um projeto de idioma internacional e alternativo ao esperanto que preza mais pela naturalidade do aspecto do que pela facilidade em aprender, comemoram o 70.º aniversário da publicação dos primeiros materiais o apresentando nos EUA. Em 15 de janeiro de 1951, a International Auxiliary Language Association lançava um dicionário interlíngua-inglês e uma pequena gramática expondo o básico do idioma, após um trabalho de pesquisa que tinha começado em 1924. O idioma tem hoje uma comunidade pequena, mas muito ativa na internet, e eu mesmo tenho ficado cético quanto à utilidade de línguas internacionais planejadas. Mas dado meu interesse intelectual, e pra lembrar a data, publico aqui a primeira parte da brochura “Interlíngua, a solução natural”, escrita pelo falecido prof. Waldson Pinheiro e disponibilizada como material de propaganda pela União Brasileira Pró-Interlíngua. Tomei a liberdade de adequar parte do estilo a meu próprio estilo, fazer correções e adicionar notas, sem prejudicar o conteúdo, mesmo parte do argumento sendo hoje um tanto antiquada. Dia 17 publico a parte apresentando a interlíngua!

“Não é preciso inventar nenhuma língua artificial. Já existe uma língua comum dentro das línguas da Europa que se difundiram pelo resto do mundo. São milhares de palavras de origem latina e grega, que servem de veículo à moderna civilização científica e tecnológica mundial. Dotada de um mínimo de gramática, essa INTERLINGUA é a solução do problema da comunicação internacional.”
Prof. Waldson Pinheiro, Natal, RN


Introdução

A grande maioria dos brasileiros não tem sentido necessidade de preocupar-se com outra língua que não seja a portuguesa. Muita gente nem com esta se preocupa! A verdade é que, no Brasil, pode-se viajar até milhares de quilômetros sem qualquer problema maior de comunicação, o que não acontece em vários países europeus que, num curto raio à sua volta, têm até meia dúzia de idiomas diferentes. Nossas próprias fronteiras não representam um grande obstáculo para o entendimento, uma vez que do outro lado se fala espanhol, que muitos por aqui acham apenas um português arrevesado. Daí que o brasileiro esteja muito mais para monoglota do que para poliglota.

Mesmo assim, este quadro está mudando. Uma parte da população brasileira, os que viajam ao exterior, os que trabalham com turistas, os que compram produtos importados, os universitários e profissionais que precisam ler livros e publicações em língua estrangeira, aqueles com acesso à comunicação por satélite produzida fora do país e os usuários da internet, todos esses já se tornaram mais conscientes da aldeia global em que vivemos e da necessidade do estudo de outros idiomas como exigência para a comunicação.

A pergunta a fazer é: que língua estudar?

Para os brasileiros que não fazem parte do núcleo mais antigo formado por portugueses, índios e africanos, a escolha poderia recair no idioma de suas origens, tais como o alemão, o italiano, o polonês, o árabe ou o japonês, para só citar os grupos mais numerosos. Outra opção seria um aprendizado sério do espanhol, visando a uma integração latino americana maior. Ou então, a manter-se a tradição predominante entre nós no século passado e atual, privilegiar o estudo do francês e do inglês.

Bem entendido, o domínio de uma segunda língua exige bastante esforço, pois não basta trocar cumprimentos e safar-se nas lojas e restaurantes. A familiaridade com outro idioma deve incluir a capacidade de ler livros, revistas e jornais, assistir a filmes, ir ao teatro, ver televisão, ouvir palestras e programas de rádio, falar ao telefone, manter uma conversa sobre assuntos gerais e também comunicar-se por escrito.

A verdade é que não é tão simples dominar uma língua estrangeira. Tanto no Brasil como na maioria dos países, o ensino de línguas estrangeiras nas escolas apresenta resultados decepcionantes.

Este quadro de bilinguismo aqui sugerido já resolveria parcialmente o problema da comunicação dos brasileiros com o exterior. Porém, cabe perguntar se esta seria a melhor solução. O caso é que o problema da comunicação internacional não deve ser enfocado de um ponto de vista setorial, de um só país, mas precisa de uma solução de alcance planetário.

A existência de milhares de línguas em nosso mundo costuma ser vista como castigo ou maldição. Uma tentativa para explicar a multiplicidade de idiomas na Terra é a conhecida história da Torre de Babel. Mas, se olharmos com objetividade a atual diversidade de línguas, concluiremos por sua inteira normalidade, pois milagre mesmo seria existir uma língua só.

A dispersão dos grupos humanos por todos os continentes e seu posterior isolamento por barreiras geográficas de difícil transposição como oceanos, desertos, florestas, mares e cordilheiras levaram fatalmente ao surgimento de troncos linguísticos independentes, que se esgalharam no decorrer de milênios na forma dos idiomas atuais.

Um desses troncos, o indo-europeu, ramificou-se nas línguas da Índia, do Irã e da Europa e transplantou-se, com espanhóis, portugueses, franceses, holandeses e ingleses, para as Américas, Austrália e Noza Zelândia, penetrando igualmente na Ásia e na África.

Outro, o semita, chegou aos nossos dias representado pelo árabe e pelo hebraico. Outros ainda se difundiram a partir da China, das ilhas dos oceanos Índico e Pacífico, ou dos povos negros da África.

Cada uma dessas línguas da Terra vem servindo de veículo para uma cultura particular que enriquece muitíssimo a extraordinária herança folclórica, moral, religiosa, literária, tecnológica e científica da Humanidade. Sua existência é antes uma bênção, e todas que têm atrás de si um grupo de falantes, muitos milhões ou apenas alguns milhares, merecem preservação e respeito.

NOTA (Erick Fishuk): O que o autor chama de “troncos linguísticos” são, na verdade, as chamadas grandes famílias primordiais de línguas do mundo, uma delas obviamente sendo a indo-europeia. Porém, a família a que pertence propriamente o hebraico, assim como o árabe, é hoje chamada afro-asiática, da qual um dos ramos, aí sim, é o semítico, no qual ambos se incluem. A partir daí, começam outras subdivisões técnicas que separam hebraico e árabe.


A questão da língua internacional

Desde algumas décadas vivemos na chamada Aldeia Global, que existe de fato na instantaneidade da informação do que acontece em qualquer parte do mundo. Infelizmente, quando os habitantes de diversas localidades dessa aldeia topam uns com os outros, o que prevalece é a velha imagem do babelismo: não se entendem com seus dialetos diferentes.

A multiplicidade de idiomas ocasiona sérias dificuldades, e não seria sensato tentar fazer as pessoas poliglotas. Isso não significa, porém, desaconselhar o estudo de línguas estrangeiras. Tal estudo pode ser altamente gratificante e mesmo necessário. Nenhum brasileiro conseguirá ser versado na cultura islâmica sem conhecer a língua árabe, ou especialista em Goethe sem saber alemão.

Periodicamente, determinado idioma nacional tem servido de instrumento parcial de comunicação, propagado pelo poder militar, econômico, social, cultural ou tecnológico de seus falantes nativos. No Mundo Antigo Ocidental foi o grego, o latim na Idade Média, o francês nos últimos dois séculos. Atualmente, o inglês assumiu a liderança, quem sabe a ser sucedido pelo mandarim em futuro próximo. É oportuno lembrar que o português foi no século 16 a língua franca do comércio marítimo para a Índia e o Japão.

Está claro que, se houvesse um acordo internacional para se adotar uma das línguas nacionais como segunda língua da humanidade, o problema imediato das barreiras idiomáticas estaria resolvido. Mas a um custo muito elevado em termos de autoestima de cada nacionalidade. Fosse o inglês, por exemplo, esta seria a solução ideal para os povos anglófonos, que assim poderiam ter o resto do mundo como uma grande colônia. Daí que, por motivos nacionalistas, os outros grandes países jamais concederão aos Estados Unidos e ao Reino Unido o privilégio inaudito de utilizar sempre o inglês como única língua oficial nas organizações internacionais.

Além disso, o inglês não é tão fácil como querem seus propagandistas. Sua gramática é realmente muito mais simples que a do russo, do alemão e do português. Mas sua grafia é um caso doentio [sic]. Teríamos todos de conviver com a escrita mais caótica dos idiomas nacionais europeus [o autor parece ignorar as bases do dinamarquês e do gaélico]. Tanto que existe o ditado: “Os ingleses dizem Manchester e escrevem Liverpool”. Nunca se pode saber ao certo como ler uma palavra que antes já não se conheça... O inglês escrito é o chinês da Europa, e não há como fazer-lhe uma reforma ortográfica. Aliás, já se estuda inglês em todos os países, mas em nenhuma parte o bastante que um não anglófono possa publicar nessa língua, por exemplo um livro, sem o mandar revisar por um falante nativo.

Alguns propõem uma língua nacional politicamente neutra, como seria, por exemplo, o norueguês. Se bem que a Noruega tem dois idiomas oficiais, ou melhor, o norueguês escrito de duas formas. O bokmål e o nynorsk, que aliás derivou o islandês antigo falado pelos navegadores vikings.

A realidade hoje é que não existe uma língua comum a nível planetário. Imagine o mal-estar de muitos cientistas sabendo da existência de valiosas pesquisas desconhecidas por falta de tradução.

O que foi feito, até agora, a nível oficial, para enfrentar esta realidade?

Após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações, cuja sede ficava na Suíça, tinha somente o inglês e o francês como línguas oficiais. A ONU, fundada em 1945, adotou esses dois idiomas como línguas de trabalho, entre as seis línguas oficiais: inglês, francês, espanhol, russo, árabe e chinês. Dessa forma, os discursos ou comunicações poderiam ser feitos em qualquer dessas línguas oficiais, observando-se o seguinte dispositivo: um pronunciamento feito em uma das línguas de trabalho só precisaria ser traduzido para a outra; mas, se feito em uma das outras quatro oficiais, teria de ser traduzido em ambas as línguas de trabalho. Pressão posterior levou ao reconhecimento de outras línguas de trabalho. Em 1966 a UNESCO aceitou o árabe como a sexta língua para as conferências e sua revista é publicada, com o mesmo conteúdo, em 11 línguas.

Apenas a Corte Internacional de Justiça, em Haia (Holanda), mantém o inglês e o francês como únicas línguas oficiais. Ironicamente o princípio básico de justiça e igualdade fica prejudicado, pois um advogado anglófono ou francófono, perante aquele Tribunal, dispõe de uma vantagem injusta sobre qualquer outro.

O problema com a diversidade de idiomas é ainda mais complicado na União Europeia, onde atualmente existem 28 países [27 após o Brexit] e 24 línguas oficiais. Como muitas outras nações devem ingressar na União Europeia, a tendência é que esse número se eleve a 30 ou mais línguas. A União Europeia já gasta 60% de seu orçamento administrativo com traduções e interpretações.

Por sua vez, o sistema de traduções e interpretações se presta a muitas falhas. Mesmo com tradutores de primeira classe, os mal-entendidos são frequentes, como diz o ditado latino [na verdade italiano]: traduttore, traditore (tradutor, traidor). Sirva de exemplo o famoso incidente na ONU entre o representante francês e o americano, que protestou contra as palavras do colega.

Dizia o francês: “La France démande aux États-Unis de...” (A França pede aos Estados Unidos que...), frase traduzida em inglês como: “France demands that the United States...” (A França exige que os Estados Unidos...). É que o tradutor confundiu o démande francês com o demands inglês, semelhante na grafia e som mas diferentes em significado. A essa espécie de termos facilmente confundíveis os franceses chamam de “faux amis” (falsos amigos).

Quanto mais técnico e especializado seja o discurso ou o texto, maior deve ser a competência nas duas línguas por parte do tradutor, aliada ainda a um bom conhecimento da matéria tratada.

Muitas vezes também não se traduz ou interpreta de língua original, mas de uma tradução noutra língua. Podem-se facilmente imaginar as divergências que surgem nesse processo. Por exemplo, discursando o representante da Dinamarca, um tradutor português poderá achar mais cômodo traduzir da versão que está fazendo seu colega italiano ou espanhol.

O número de tradutores e intérpretes necessários em qualquer conferência aumenta em progressão geométrica, de fórmula X = N (N – 1), onde N representa o número de línguas usadas.

Daí para quatro línguas, por exemplo, da OEA:
X = 4.(4 – 1) = 4 x 3 = 12.

E para as 24 atuais da União Europeia:
X = 24. (24-1) = 24 x 23 = 552.

Quando se traduz de determinada língua para outra neutra, uma língua-ponte, e em seguida desta para cada uma das demais, isto possibilita uma grande economia de tempo, dinheiro, material (recursos naturais) e funcionários recursos humanos).

Como acabamos de ver e constatar, recorrer a tradutores e intérpretes, sempre em demanda crescente, não garante perfeita satisfação e envolve investimentos pesados. Derivou-se então para as possibilidades da tradução mecânica através da versatilidade dos computadores.


Utilização da informática nas traduções

Evidentemente ninguém espera que um programa de computador produza textos literários... Feita essa ressalva, em matérias técnicas e científicas, torna-se aceitável obter uma tradução um tanto tosca mas inteligível ao especialista. A grande dificuldade da tradução por computador ou máquinas está na linguagem humana, frequentemente ilógica e ambígua.

O computador poderá mesmo reproduzir a piada do estudante de inglês que, ouvindo bater a sua porta, folheia rápido o dicionário procurando a palavra “Entre!” e grita... “Between!”. A confusão aqui feita entre verbo e preposição pode repetir-se com muitas outras palavras. O português “como”, dependendo do contexto, será traduzido em inglês pela forma verbal “I eat”, pelo advérbio “how” ou pelas conjunções “as, like”.

A palavra “alto” poderá ser os adjetivos “high, tall”, que tem uso diferenciado (edifício alto é high building, mas homem alto é tall man), ou o substantivo “top” ou a interjeição “halt!”.

A tradução também não pode ser simplesmente a substituição de uma palavra por outra. A frase em inglês “At last he wakes up!” (Finalmente ele desperta!) poderia terminar como “Em lastro ele acorda para cima”, ou seja, um completo disparate.

Ainda outro problema é que muitas vezes não há correspondência perfeita entre as palavras de duas línguas. Por exemplo, a palavra inglesa room (Raum em alemão), imediatamente vertida como “sala” ou “quarto” por alguém que tenha estudado um pouco de inglês. Ocorre, porém, que o significado básico desta palavra é “espaço”, como na frase “It took up much room!” (Ocupou muito espaço!), que uma tradução desastrada, palavra por palavra, transformaria em algo como “Ele tomou em cima muita sala!”, isto é, outro absurdo!

NOTA (Erick Fishuk): Naturalmente a evolução dos tradutores eletrônicos modernos, que envolvem o cruzamento entre línguas, o acréscimo de situações contextuais e o input (honesto) de um número maior de pessoas, tornou raros alguns desses absurdos mais evidentes.

Outras vezes a tradução pressupõe conhecimentos gerais, como é o caso de um texto alusivo à Guerra de Troia, no qual a passagem “Paris’ Arrow” foi vertida como “Flecha de Paris”, capital da França, quando o legítimo significado era “Flecha de Páris”, aquela envenenada com que o príncipe troiano Páris acertou o calcanhar de Aquiles.

Por último, cabe comentar as tentativas de solucionar a questão da língua comum internacional através de uma língua planejada, sem as irregularidades das línguas naturais e dotada de um caráter de neutralidade.


Em busca de uma língua auxiliar

No século 18, sábios do porte do francês Descartes, do checo Komensky (mais conhecido como Comenius) e do alemão Leibnitz defendiam a ideia de uma língua filosófica, perfeitamente regular e isenta das ambiguidades dos idiomas nacionais.

Quando os europeus, por meio dos seus missionários, entraram em contato com a escrita ideográfica chinesa, houve quem imaginasse que ali estava a solução para o intercâmbio de ideias entre os povos de idiomas diferentes. Bastaria dividir os conhecimentos humanos em certo número de categorias lógicas e criar símbolos para todos os conceitos. Chama-se a isto pasigrafia, ou escrita universal.

Em 1661, Johannes J. Becher, na Alemanha, criou um sistema em que todas as palavras eram representadas por números. Note-se que o sistema de numeração usado mundialmente funciona como uma pasigrafia. O símbolo “5” evoca em todas as pessoas a mesma ideia, não obstante ser chamado cinco em português, cinq em francês, five em inglês, fünf em alemão, pyat em russo, khamsa em árabe e go em japonês.

Uma utilização moderna dos princípios da pasigrafia pode ser encontrada nos sinais internacionais de trânsito.

No início do século 19, o músico francês François Sudre inventou o “Solresol”, idioma totalmente artificial e baseado nas sete notas musicais que pode ser falado e tocado. Exemplo: “mi sirelasi solresol” significa “Eu falo solresol”.

A primeira língua planejada a ter notável difusão por toda uma década foi o volapuque (“vol” = mundo, pük = fala), a partir de 1880, criado pelo sacerdote bávaro Johann Martin Schleyer, língua extraordinariamente regular e incompreensível para todos os não iniciados, o que pelo menos lhe dá extrema neutralidade: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje” em volapuque equivale a “bodi absik vädelik givolös obes adelo”!

O volapuque foi logo em seguida suplantado pelo esperanto, divulgado em 1887 pelo oftalmologista judeu-polonês Lazar Ludwig Zamenhof. Em 1907, surgiu o projeto reformista do esperanto, chamado Ido, por Couturat, cujo pseudoautor era Louis de Beaufront.

Em 1903 o matemático italiano Giuseppe Peano propôs seu projeto naturalista “Latino sine flexione”, mais tarde batizado de Interlingue, que simplesmente usava o vocabulário latino despido de flexões nominais e verbais e livre de quase toda gramática.

O linguista dinamarquês Otto Jespersen, reconhecido internacionalmente como uma das maiores autoridades linguísticas, contribuiu em 1928 com um projeto de sua autoria, o Novial, sob o lema de que “a melhor língua internacional é aquela que em todos os pontos oferece maior facilidade ao maior número de falantes”.

Outro conhecido projetista de língua auxiliar foi o teuto-lituano Edgar von Wahl. Sua criação, o Occidental, aproxima-se de perto da interlíngua. Ele tentou equilibrar as exigências da regularidade da derivação vocabular com a naturalidade do aspecto das palavras.

Cabe também registrar a tentativa de C. K. Ogden, da Universidade de Cambridge, criador do Basic English, em 1935, que reduziu o vocabulário inglês a 850 palavras, das quais apenas 18 eram verbos. Tal simplificação, porém, mostrou-se ilusória, por admitir uma excessiva quantidade de idiomatismos (perífrases) e expressões longas. Por exemplo, a palavra “espelho” (mirror) em BE se diz “luk luk”.

A linguista americana Arika Okrent investigou cerca de 900 projetos inventados nos últimos cem anos. Publicou seu recente ensaio In the Land of Invented Languages (Na terra das línguas inventadas), no qual analisa todos esses códigos desconhecidos e sintetiza por qual razão nenhum deles teve sucesso:

A razão é muito simples, nós nunca falaremos línguas perfeitas porque somos imperfeitos. A evolução humana é imperfeita e a língua é um instrumento da própria evolução, faz parte de um todo: “Taal is aan den het Totaal” (Língua é parte de um todo). Assim como não podemos respirar debaixo d’água ou correr na velocidade de um leopardo, também nós não podemos falar uma língua estranha às nossas imperfeições. A língua não é uma simples ferramenta, mas uma parte da conduta humana. É um instrumento de socialização, não um aparelho que se pode manipular de modo técnico. É o mesmo que querer aguar uma planta de plástico – por mais que se tente, você acredita que ela vai crescer?

Quanto ao projeto da IALA, a interlíngua, iniciaremos o estudo de suas origens no próximo bloco.




13 de janeiro de 2021

Canções de Ano Novo em ucraniano


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Por dois anos seguidos, postei no meu canal canções ucranianas de Ano Novo no dia 31 de dezembro, em 2019 e 2020. Não sei se vou fazer a mesma coisa nos anos seguintes. A primeira música está num clipe da pequena cantora ucraniana Katerina (ou Katia) Zolotar, cantando “Новий рік” (Novy rik), Ano Novo, tradução do grande sucesso do ABBA Happy New Year. Eu mesmo traduzi direto do ucraniano e legendei.

É incrível que quase não haja menções modernas a Katia Zolotar como artista ou cantora, muitos vídeos seus em redes sociais e plataformas datando no máximo de 2014 ou 2015. Ela parece simplesmente ter abandonado a carreira, tomado rumo na vida ou aconteceu algo com ela ou a família. Notavelmente, embora ele tenha sido gravado em 2012, tem muito poucas visualizações e comentários, assim como um outro upload que baixei pra fazer minha legendagem. O bom, pelo menos, é que na montagem não há referência a um ano específico, então ele vale pra todos!

Contudo, garimpando no VK, a esquecida rede social mais famosa da Rússia (onde muitos, suponho, já estejam migrando pro Zuckerbook), consegui achar uma comunidade aberta dela, praticamente sem nenhum conteúdo próprio, e seu próprio perfil pessoal, em que a foto mais recente dela mesma data de 2017.

Lembro só mais duas coisas: 1) Infelizmente não consegui achar quem foi o autor ou autora da versão em ucraniano, já que a própria divulgação do vídeo original foi bem rasteira. 2) Embora no refrão ela use a palavra lito no genitivo plural, que significa “verão”, aqui está se usando com o sentido figurado de “ano(s)”, já que rokiv, genitivo plural de rik, não ia caber na métrica.

A segunda música é com Natalia Mai, ela mesma tendo composto “З Новим роком, Україно!” (Z Novym rokom, Ukraino), Feliz Ano Novo, Ucrânia!, embora o vídeo em questão seja uma tosca montagem privada e se refira a 2015.

Natalia Mykhailivna Mai nasceu em 1960, é escritora, compositora e cantora, e porta o título de Artista Emérita da Ucrânia desde 2009. Atuando nos campos da música folclórica e popular, fundou seu próprio centro cultural de apoio à música ucraniana e ajuda crianças que desejam ingressar na carreira musical. Está em atividade desde 1990, mas só em 2000 lançou seu primeiro álbum infantil, ao qual outros se seguiram. Mai é mãe de Serhi, Olesia e Stanislava, ambas também cantoras que já receberam prêmios.

Feliz Ano Novo, Ucrânia! foi lançada na coleção “Vento verde” em 2010, um conjunto de músicas feito especialmente pro emprego em escolas. Em geral, a própria Mai escreve as letras e compõe as melodias das canções que grava. O texto original está num ótimo e completo site com todo tipo de música da Ucrânia, e as informações acima sobre Natalia Mai estão na Wikipédia ucraniana. Eu traduzi e fiz a legenda bilíngue (ucraniano em transliteração latina), apenas cortando o quadro do vídeo original, que não é da Mai, mas tem belas imagens da Ucrânia no inverno.




1. Знов Новий рік, знов летить лапатий сніг.
В цей нічний, добрий час, Новий рік прийшов до нас.
Ждуть завжди цього свята, люди всі і ти і я,
Щоб в цю мить нам побажати, мрія в кожного своя.

Приспів:
Щастя тобі, щастя мені, щастя всім людям на землі,
Хай буде мир і квітнуть усмішки дітей, мов ясен-цвіт.
Будем дружить, Богу служить, у доброті і згоді жить,
Зі святом вас, усім бажаємо здоров’я й довгих літ, добрих літ.

2. Друже мій, знай, де б не був твій рідний край
Сумувати не час – Новий рік прийшов до нас.
Чорний, а чи білий ти – свято нас єднає всіх.
Ну ж за руки, друзі милі, хай луна веселий сміх.

(Приспів)

3. Знов Новий рік, знов летить лапатий сніг
В цей нічний, добрий час, Новий рік прийшов до нас.
Нумо диву ми радіти, і дорослі і малі!
Якщо буде мир на світі, буде щастя на землі.

____________________

1. Novamente Ano Novo, novamente cai neve por tudo.
Nesta boa hora noturna, o Ano Novo chegou até nós.
Sempre espera por esta festa toda gente, e eu, e você,
Pra nesse lapso nos desejarem, cada um com seu sonho.

Refrão:
Felicidade pra você e pra mim, felicidade a todos na Terra,
Que haja paz e brotem sorrisos infantis, palavras floridas.
Vamos ser amigos, servir a Deus, viver em bondade e acordo,
Boas Festas, desejamos a todos saúde, longos e bons anos.

2. Meu amigo, saiba, qualquer que seja sua terra natal,
Não é hora de chorar: o Ano Novo chegou até nós.
Sejamos negros ou brancos, a festa une todos nós.
De mãos dadas, caros amigos, que ressoe um riso alegre.

(Refrão)

3. Novamente Ano Novo, novamente cai neve por tudo.
Nesta boa hora noturna, o Ano Novo chegou até nós.
Alegremo-nos com a maravilha, crianças e adultos!
Se houver paz no mundo, haverá felicidade na Terra.




1. На порозі Новий рік
І горить вогнів намисто,
І лунає щирий сміх,
Це радіє рідне місто!

(Na porozi Novy rik
I horyt vohniv namysto,
I lunaie shchyry smikh,
Tse radie ridne misto!)

Приспів:
З Новим роком, Україно!
Святкувати всім пора!
З Новим роком, Україно!
Щастя, радості й добра!

(Z Novym rokom, Ukraino!
Sviatkuvaty vsim porá!
Z Novym rokom, Ukraino!
Shchastia, radosti i dobrá!)

2. На порозі новий день,
Завтра диво нас чекає,
Скільки радісних пісень,
Ми сьогодні заспіваєм!

(Na porozi novy den,
Zavtra dyvo nas chekaie,
Skilky radisnykh pisen,
My siohodni zaspivaiem!)

(Приспів)

____________________

1. O Ano Novo está chegando,
E colares de fogos queimando,
E uma risada sincera ecoando,
Isso alegra a cidade natal!

Refrão:
Feliz Ano Novo, Ucrânia!
É hora de todos celebrarem!
Feliz Ano Novo, Ucrânia!
Felicidade, alegria e bem!

2. Um novo dia está chegando,
Amanhã um milagre nos espera,
Quantas canções alegres
Vamos cantar hoje!

(Refrão)


11 de janeiro de 2021

Jorge Heitor: “Os eslavos do Sul”, 1999


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O texto abaixo se chama “Os eslavos do Sul”, foi escrito pelo jornalista Jorge Heitor e publicado no site do jornal português Público em 29 de março de 1999, quando poucos brasileiros sequer sabiam o que era internet. Eu o achei pela busca do Google por acaso, há alguns meses, e dada sua riqueza, importância e provável esquecimento, decidi republicá-lo aqui, sem mudanças, nem mesmo na ortografia lusitana, que inclui a forma “Jugoslávia” pro país que conhecíamos como “Iugoslávia”. Também não o editei conforme meu “manual de estilo” pessoal, não corrigi nomes próprios com ortografias inusitadas ou errôneas, nem adicionei notas explicando fatos e pessoas específicos: quem quiser, pesquise por si. Peço compreensão quanto a isso, até porque ao final tive mesmo de colocar esclarecimentos, por causa de fatos que já caducaram em 2021 ou que Heitor não explica bem. No mais, como o texto não tem divisão clara de parágrafos, eu mesmo a fiz, de acordo com cada povo da antiga Iugoslávia explicado.

De todos os Estados da Europa central e balcânica, aquela que foi a Jugoslávia (na sua versão anterior a 1991) apresentava a estrutura étnica mais complexa, sendo difícil estudar os seus povos isoladamente, sobretudo a partir de finais do século passado. No entanto, é possível pintar em traços largos a caminhada de cada um deles. Segue-se uma breve história:

País sensivelmente com o tamanho e a população de Portugal, a Sérvia faz parte da grande família linguística eslava, que totaliza mais de 260 milhões de cidadãos, distribuídos desde as margens do Adriático até às terras da antiga União Soviética. Estêvão Nemanta proclamou-se Rei dos sérvios em 1217 e criou uma igreja ortodoxa independente, que ao longo dos séculos muito se identificaria com a própria nacionalidade, ajudando a Sérvia a procurar a hegemonia nos Balcãs. Em meados do século XIV, os sérvios foram vencidos pelos turcos no Kosovo e tornaram-se vassalos do Império otomano, só tendo recuperado a independência em 1878, aquando do Congresso de Berlim. Quando em 1914 a Sérvia rejeitou o ultimato austro-húngaro, motivado pelo assassínio em Sarajevo do arquiduque Francisco Fernando, principiou a I Guerra Mundial, tendo sido ocupada de 1915 a 1918, ano em que se criou o reino dos sérvios, croatas e eslovenos, a partir de 1929 chamado Jugoslávia, ou pátria dos eslavos do Sul. O rei Alexandre I foi assassinado em Marselha em 1934 por um extremista croata, tendo-lhe sucedido seu irmão Pedro II, derrubado por uma revolução durante os anos da II Guerra Mundial. A Sérvia chegou então a estar ocupada pela Alemanha, antes de se ter criado a República Federativa da Jugoslávia.

No início do século XVI as tribos do Montenegro, território outrora conhecido como Zeta, agruparam-se, em Boka Kotorska e em Cetinje, em redor dos seus chefes espirituais, oriundos da família dos Petrovitch Njegoch, e passaram a transmitir o poder de tio para sobrinho. As dificuldades sentidas com os turcos, em expansão pela Europa, levaram os montenegrinos a travar-se de amizades com os russos e em particular com o czar Pedro, “o Grande”. O bispo Pedro I Njegoch fez a sua dignidade de metropolita independente ser reconhecida pelo Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa e pelo Patriarcado de Constantinopla. Também introduziu o primeiro código escrito e reorganizou a Justiça. Em 1848, o bispo filósofo Pedro II Petrovitch Njegoch, senhor de grande cultura, apoiou o levantamento dos eslavos contra os turcos na Herzegovina, na Metohija e na Albânia meridional. Dez anos depois, Danilo Petrovitch obteve um traçado preciso das fronteiras e o reconhecimento da independência do Montenegro, que em 1912 passou de principado a reino. Em 1918, um Conselho Nacional reunido em Podgorica depôs o rei Nikita e votou a incorporação no reino dos sérvios, croatas e eslovenos. Depois da II Grande Guerra, e durante algumas décadas, Podgorica chegou a chamar-se Titogrado, a cidade de Tito.

Instalados na actual Eslovénia em finais do século VII, os mais ocidentais dos eslavos do Sul colocaram-se no século seguinte sob a protecção dos bávaros e foram com eles arrastados para o império de Carlos Magno, depois Sacro Império Romano-Germânico. Os Habsburgos, senhores da Áustria, tomaram, no fim do século XIII, o controlo das terras eslovenas, que no século XIX Napoleão Bonaparte integrou nas chamadas Províncias Ilíricas do império francês, com a capital em Liubliana. Quando em 1941 se desfez a Jugoslávia criada em 1918, a Eslovénia foi partilhada pela Alemanha e pela Itália, voltando em 1946 a fazer parte do conjunto jugoslavo, até 1991, ano em que se tornou independente, sob a presidência de Milan Kusan, que fora secretário da Liga dos Comunistas. A superfície da Eslovénia não ultrapassa os 20.200 quilómetros quadrados, com uns escassos dois milhões de habitantes, católicos, situados na zona de passagem das terras germânicas para os Balcãs.

O primeiro Rei dos croatas foi Tomislav, em 925, tendo a sua independência sido reconhecida pelo Papa João X, mas não pelo Imperador de Bizâncio. No século XII, a Croácia ficou dependente da Hungria, da qual só se afastaria em 1918, para se associar aos eslovenos e aos demais eslavos do Sul. Na Jugoslávia ocupada em 1941 pelas potências do Eixo constituiu-se um Estado croata controlado por alemães e italianos, com o Governo entregue ao advogado Ante Pavelic, fundador do grupo terrorista ustachi. Depois da guerra, e sob a presidência federal do marechal Tito, os croatas estiveram associados aos sérvios, mas em 1991 proclamaram-se independentes, sob a direcção de Franjo Tudjman, nascido em 1922. A Croácia ocupa uma grande parte do litoral da antiga Jugoslávia, desde a península de Ístria, junto à cidade italiana de Trieste, até à costa do Montenegro, englobando estâncias turísticas tão importantes como Split e Dubrovnik, a antiga Ragusa dos tempos medievais, que foi veneziana de 1205 a 1358.

Codificada no início do século XIX, a língua servo-croata tem a particularidade de admitir duas transcrições: em caracteres cirílicos para os sérvios e em caracteres latinos para os croatas, que são católicos e voltados para o Ocidente.

É difícil falar de um povo bósnio, dado que toda a população da Bósnia-Herzegovina fala o servo-croata, tal como as populações vizinhas, tendo os acordos de Dayton dividido o país numa República Sérvia e numa Federação Croato-Muçulmana, bem ilustrativas da pluralidade de populações existentes nas terras da antiga Jugoslávia. Quarenta por cento da população é muçulmana, 32 por cento ortodoxa sérvia e 18 por cento católica, croata, de onde a dificuldade de se conseguir a identidade desse conjunto de quatro milhões e meio de seres humanos, distribuídos por 51.100 quilómetros quadrados, com a capital em Sarajevo. A bandeira da Bósnia-Herzegovina inspira-se na heráldica francesa, com um campo azul semeado de lírios de ouro, mas a verdade é que, a partir de 1435, os bósnios tiveram de pagar tributo ao Império otomano, que procurou islamizá-los. Foi em resultado da influência turca que ficou ali, em plena Europa meridional, um segmento populacional que não se reconhece nos croatas nem nos sérvios, apesar dos laços linguísticos e étnicos, que não se conseguiram impor à diferenciação religiosa.

Criou-se assim um dos maiores quebra-cabeças da Europa contemporânea, que só o futuro irá ajudar a resolver. Encontra-se aqui um povo que é simultaneamente dos mais antigos e dos mais jovens do continente europeu. Não foi conhecido como povo durante largos séculos, desde a campanha fulgurante de Alexandre, “o Grande” quase até à actualidade. Eslavos libertados dos turcos em 1912, os macedónios foram logo a seguir cobiçados por sérvios e por búlgaros, tendo em 1946 passado a constituir uma das repúblicas da Jugoslávia, com 25.700 quilómetros quadrados e a capital em Skopje. A região conquistada pelos romanos e depois parte integrante do Império do Oriente foi a partir do século VII reivindicada por búlgaros e por bizantinos, mas também viria a ser alvo do interesse sérvio, antes de os turcos lá terem chegado em finais do século XIV. Apoiada pela Bulgária e pela Turquia, a actual Macedónia, proclamada independente no mês de Setembro de 1991, deparou com uma profunda hostilidade da Grécia, que não queria um Estado com semelhante nome, dadas as suas conotações históricas, derivadas do tempo em que Alexandre foi o símbolo máximo do helenismo. A entrada nas Nações Unidas só foi possível depois de um compromisso que levou a que o país presidido por Kiro Gligorov adoptasse o nome provisório de “Antiga República Jugoslava da Macedónia”.


Notas de atualização:

Lembremos que até o ano 2000, os territórios que restaram da antiga Iugoslávia (Sérvia, Montenegro, Voivodina e Kosovo) mantinham o nome “República Federal da Iugoslávia”, quando adotaram a denominação “Sérvia e Montenegro”. Em 2006, Montenegro (cuja língua também é o servo-croata, ou “BCS”) se separou da Sérvia como país independente, enquanto o Kosovo, de maioria albanesa, proclamou a independência da Sérvia em 2008, porém não obteve reconhecimento internacional.

Já na década de 2010, a população de falantes de línguas eslavas era estimada em mais de 400 milhões de pessoas, metade delas apenas falando a língua russa.

O nome do movimento fascista croata, grafado das mais diversas formas em várias línguas, está incluído como Ustaša (pronúncia “ústacha”) dentro da denominação completa. A palavra ustaša é masculina singular e significa “insurgente, rebelde”, historicamente sem conotação fascista. O movimento como um todo também é conhecido como Ustaše (“ústache”), que é o plural de ustaša, ou seja, "insurgentes, rebeldes".

Quando se fala na “República Sérvia” (Republika Srpska) como parte integrante da Bósnia e Herzegóvina, convém distingui-la da “República da Sérvia” (Republika Srbija), o país propriamente dos sérvios cuja capital é Belgrado. Além disso, o autor cita a primeira bandeira bósnia, que já tinha sido abandonada em 4 de fevereiro de 1998, quando foi adotada a atual bandeira de estilo geométrico.

A disputa em torno do nome do país Macedônia se deve ao fato de que esse também é o nome da região histórica mais ampla, que abrange tanto gregos quanto eslavos. Após separar-se da Iugoslávia, pra fins de ingresso em organizações internacionais, ela usava em caráter provisório o nome “Macedônia (ARIM)”, sigla pra “Antiga República Iugoslava da Macedônia” (“ARJM” em Portugal). Em junho de 2018, os primeiros-ministros Zoran Zaev (Macedônia) e Alexis Tsipras (Grécia) celebraram um acordo que aceitava o nome “Macedônia do Norte” ao país de capital Skopje, diferenciando da região no norte da Grécia e permitindo abandonar a sigla “ARIM” a partir de fevereiro de 2019. Amplamente aceito entre os macedônios, que assim puderam ingressar na OTAN, o acordo irritou os gregos, colaborando assim pra derrota eleitoral do partido de Tsipras em 2019.




9 de janeiro de 2021

Trump ordena: “Go home. We love you”


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Quando pensamos que as eleições norte-americanas não podem se tornar um circo ainda maior, eis que manifestantes que apoiam o presidente Donald Trump e acreditam em seu discurso sobre “fraude” tentam invadir o Capitólio, sede do congresso nacional dos EUA, e melar a sessão que ratificaria a vitória de Joe Biden. No começo da tarde de 6 de janeiro, hora de Washington, Trump tinha feito um comício exatamente insuflando seus apoiadores a se oporem ao resultado, mas duramente criticado por político e pela imprensa, ele mesmo tentou botar panos quentes e disse que não insuflou nada. Foi publicada no Twitter sua curta fala e depois apagada pelo próprio site, mas há uma cópia no canal da ABC News.

O patético vídeo manda a multidão “ir para casa”, mesmo ainda defendendo que ele mesmo é quem teria ganhado o pleito. Trump trata exatamente os fãs como eles são, e como a sociedade vê a ele próprio: crianças mimadas que precisam ser afagadas e lembradas que podem ser punidas se fossem “malvadas”. O próprio Twitter anexou a seguinte mensagem à postagem: This claim of election fraud is disputed, and this Tweet can’t be replied to, Retweeted, or liked due to a risk of violence (Esta alegação de fraude eleitoral é contestável, e este tuíte não pode ser respondido, retweetado ou curtido devido ao risco de violência).

Neste site de notícias há o texto da fala de Trump que me serviu de apoio. Eu mesmo legendei e traduzi tudo do inglês, e por isso desculpem qualquer imprecisão: deixo os originais à disposição!



Sei da dor de vocês, sei que estão feridos. Tivemos uma eleição que nos foi roubada. Nós vencemos de lavada, e todo mundo sabe disso, especialmente o outro lado. Mas vocês devem ir para casa agora. Devemos ter paz. Devemos ter lei e ordem. Devemos respeitar nosso grande povo com lei e ordem. Não queremos ninguém ferido. Estes são tempos difíceis. Nunca houve tempos assim, em que tal coisa acontecia, em que eles poderiam tirar isso de todos nós. De mim, de vocês, de nosso país. Esta foi uma eleição fraudada, mas não podemos cair na armadilha dessas pessoas. Devemos ter paz. Então vão para casa. Amamos vocês, vocês são muito especiais. Temos visto o que acontece, vocês veem como são tratados os outros que se comportam tão mal assim. Sei o que estão sentido. Mas vão para casa, e vão para casa em paz.

I know your pain, I know you’re hurt. We had an election that was stolen from us. It was a landslide election and everyone knows it, especially the other side. But you have to go home now. We have to have peace. We have to have law and order. We have to respect our great people in law and order. We don’t want anybody hurt. It’s a very tough period of time. There’s never been a time like this, where such a thing happened, where they could take it away from all of us. From me, from you, from our country. This was a fraudulent election, but we can’t play into the hands of these people. We have to have peace. So go home. We love you, you’re very special. We’ve seen what happens, you see the way others are treated that are so bad and so evil. I know you how feel. But go home, and go home in peace.





Mas ontem, 8 de janeiro, ocorreu um fato sem precedentes: após apagar várias postagens do presidente Trump relacionadas à invasão do Capitólio, a administração do Twitter decidiu banir de vez a conta @realDonaldTrump por temer que nos últimos dias de mandato ele pudesse instigar ainda mais violência. Muitos chamaram de “censura esquerdista” a atitude da empresa, mas os memes abundaram, e logo começou a zoeira no próprio Twitter sobre esse banimento. Eu mesmo postei no meu canal uma montagem de Trump “comemorando” a própria censura e uma versão do “Dmitri descobre”, que eu fiz, a respeito do fato, como vocês veem acima!

7 de janeiro de 2021

Discurso de Putin pelo Ano Novo 2021


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/novygod2021


Após um pequeno atraso por causa da alocução de Donald Trump sobre a invasão do Capitólio, enfim consegui legendar mais um discurso de Ano Novo do Presidente de Todas as Rússias, Vladimir Putin. Este ano foi muito especial pro inspirador do partido Rússia Unida, com os 20 anos de sua primeira eleição direta à presidência da federação e com a vitória no referendo que mudou a Constituição de 1993 e, na prática, deu mais poderes ao autocrata. Mas também houve dificuldades como a alta taxa de infecção e mortes pela covid-19, a acusação de que estaria por trás do envenenamento do opositor Aleksei Navalny e o abalo em dois de seus bastiões internacionais: a Moldova com a eleição da presidente pró-Europa Maia Sandu e os protestos contra seu escudeiro Aleksander Lukashenko em Belarus.

Putin lembrou as comemorações dos 75 anos da vitória sobre a Alemanha nazista na 2.ª Guerra Mundial e concentrou sua atenção no drama das famílias afetadas pelo coronavírus. Eu mesmo traduzi direto do russo e legendei, tendo tirado texto e vídeo do próprio site oficial).



Estimados cidadãos da Rússia! Caros amigos!

Em apenas alguns minutos, 2020 vai terminar.

Celebrando-o há exatamente um ano, vocês e eu, como as pessoas do mundo todo, é claro, pensávamos, sonhávamos com boas mudanças. Ninguém podia então conceber as provações pelas quais todos nós deveríamos passar.

E agora parece que o ano que acaba continha em si o peso de vários anos. Ele foi difícil para cada um de nós, com angústias e grandes dificuldades materiais, com tormentos e, para alguns, com perdas amargas de parentes e pessoas queridas.

Mas o ano que acaba também esteve sem dúvidas ligado às esperanças pela superação das adversidades, ao orgulho por aqueles que demonstraram suas melhores qualidades humanas e professionais, à consciência do quanto valem as relações firmes, sinceras e autênticas entre as pessoas, a amizade e a confiança entre nós.

Passamos este ano juntos, com dignidade, como bem convém a um povo unido que respeita as tradições de seus antepassados. Os valores da coragem, da empatia e da caridade estão em nossos corações, em nosso caráter e atitudes.

Espelhamo-nos em nossos caros veteranos, na geração valorosa que venceu a praga nazista. Contrariando as expectativas, cumprimos nosso dever sagrado de filhos: com gratidão e reconhecimento, celebramos os 75 anos da Grande Vitória.

Sim, um novo vírus perigoso mudou, revirou o jeito corriqueiro de viver, trabalhar e estudar, obrigou a revisar e corrigir muitos planos. Mas o mundo é feito de uma tal forma que nele as provações são inevitáveis.

Elas nos impelem a observarmos a vida com mais atenção, escutarmos nossa própria consciência, rejeitarmos miudezas e vaidades e valorizarmos as coisas propriamente essenciais. São elas: o dom da vida humana, a família, nossas mães e pais, avôs e avós, nossos filhos ainda pequenos ou já crescidos, nossos amigos e colegas, a ajuda desinteressada e a energia comum das boas ações em larga escala, por todo o país, e das pequenas, nos limites do distrito, da rua, da casa, mas nem por isso menos notáveis.

As provações e penas inevitavelmente passam. Sempre foi assim. E conosco permanece o principal, tudo o que nos faz fortes e generosos: o amor, a compreensão mútua, a confiança e o apoio.

Por isso, faço votos de que as dificuldades do ano que acaba caiam logo no esquecimento. E que tudo o que nós conseguimos, tudo de melhor que se manifestou em cada pessoa, nunca nos deixe de forma alguma.

Hoje é muito importante acreditar em si, não ceder diante das dificuldades, manter nossa coesão, coisas que vão basear nossos sucessos comuns no futuro.

Estou convencido de que juntos vamos superar tudo, ajustar e restaurar a vida normal e com uma energia nova continuar realizando as tarefas colocadas diante da Rússia na vindoura terceira década do século 21.

Caros amigos!

Nem todos estão agora junto à mesa de Ano Novo. Ainda há muitas pessoas nos hospitais, e estou certo de que todas elas sentem como os parentes e amigos estão as apoiando. Desejo-lhes do fundo do coração, meus caros, a vitória sobre a doença e a volta para casa o mais rápido possível.

Infelizmente, a pandemia ainda não pôde ser totalmente contida. O combate a ela não cessa um só minuto. Os médicos, as enfermeiras e os socorristas continuam trabalhando corajosamente. Muitos deles estão dando plantão nesta noite de festa.

Com o mesmo fôlego, realizam as tarefas mais difíceis com alta responsabilidade o pessoal dos serviços de emergência, nossos militares em zonas de conflito fora da Rússia, nossos pacificadores e artilheiros do Exército e da Marinha.

Graças a todos que executam seu serviço dia e noite, estando a postos sob quaisquer circunstâncias, os cidadãos da Rússia podem hoje se reunir tranquilamente nos lares familiares com seus próximos; com esperança no melhor e com planos para o futuro, celebrar o Ano Novo e cultivar desejos íntimos.

Caros amigos!

Sonhemos nestes instantes com o que há de mais luminoso, com a paz e o bem-estar, com a felicidade e a alegria para todos que estão ao lado, que estimamos, para todo nosso país.

Quero agradecer a cada um de vocês, porque estamos juntos. E ao sentirmos o ombro firme das pessoas que estão ao lado, a Rússia se torna uma grande e única família.

Desejo sinceramente a todos vocês uma saúde de ferro, fé, esperança e amor, como a pessoas próximas e queridas. Sejam felizes no novo ano de 2021 que começa!

Boas festas, caros amigos!




5 de janeiro de 2021

De Gaulle sobre esperanto e volapuque


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Eu achei este vídeo por acaso, com o ex-presidente francês, general Charles de Gaulle, fazendo uma brincadeira com o esperanto e o volapuque (ou volapük) numa conferência de imprensa em Paris, em 15 de maio de 1962. Porém, o contexto mais amplo com gravação melhor é uma fala em que o herói da Resistência antinazista critica uma integração europeia da França, no caso de haver supressão das fronteiras nacionais e das particularidades locais (imagens do INA).

Ele critica as ideias de “federalismo europeu” e defende a manutenção da soberania nacional dos Estados-membros da União Europeia. Parecia uma previsão quanto ao que está ocorrendo hoje... Cada cultura nacional seria uma contribuição integrante da Europa, ao contrário do esperanto e do volapuque, projetos que visam ser línguas internacionais “neutras”. Esperanto ou volapuque “integrados” quer dizer exatamente sem características nacionais, fundidos em algo único, desnaturado.

O raciocínio de Charles de Gaulle é bem problemático, primeiro porque hoje a condição de “apátrida” é considerada pelas organizações internacionais uma situação de fragilidade, causada especialmente pelo exílio ou expulsão devidos a guerras e ditaduras, não raro surgidas em meio justamente à exacerbação de nacionalismos. Além disso, os judeus sempre foram considerados apátridas por definição, e nesta ou outra entrevista, o general cita de forma pejorativa o espírito “dominador” desse povo.

Diga-se também que a cultura europeia, notadamente o cristianismo, só pôde florescer justamente por causa dos impérios helênico e romano, não nacionais e com seus “esperantos” pan-mediterrâneos, o grego koiné e o latim, bases da linguagem técnica e científica modernas. E Zamenhof, o iniciador do esperanto, era judeu polonês que vivia no racista Império Russo, em província em que vários povos brigavam entre si, instigados pelo tsar.

Eu mesmo traduzi do francês a partir do texto dado no YouTube, e legendei, tendo feito apenas pequenas correções (ele disse qu’ils avaient pensé, mas talvez ele quis dizer s’ils avaient pensé):

Je ne crois pas que l’Europe puisse avoir aucune réalité vivante si elle ne comporte pas la France avec ses Français, l’Allemagne avec ses Allemands, l’Italie avec ses Italiens etc. Dante, Goethe, Chateaubriand appartiennent à toute l’Europe dans la mesure même où ils étaient respectivement et éminemment italien, allemand et français. Ils n’auraient pas beaucoup servi l’Europe s’ils avaient été des apatrides et qu’ils avaient pensé et écrit en quelque esperanto ou volapük intégrés...

Não creio que a Europa possa ter nenhuma realidade viva se não comportar a França com seus franceses, a Alemanha com seus alemães, a Itália com seus italianos etc. Dante, Goethe, Chateaubriand pertencem a toda a Europa na própria medida em que eles eram respectiva e eminentemente italiano, alemão e francês. Eles não teriam servido muito à Europa se tivessem sido apátridas e se tivessem pensado e escrito em algum esperanto ou volapuque integrados...



3 de janeiro de 2021

Maia Sandu vira presidente da Moldova


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Este catatau de mais de uma hora e meia possui a cobertura completa da posse, em 24 de dezembro de 2020, da nova presidente da República da Moldova, Maia Sandu, eleita em segundo turno em 15 de novembro. Selecionei apenas as partes fundamentais e mais interessantes, tirando o longo discurso de posse e adicionando explicações ou tiradas cômicas. Como sabemos, a Moldova, antes conhecida como Moldávia, já pertenceu ao Império Russo, à Romênia e à União Soviética, até ficar independente em 1991. Sua localização a tornou um caldeirão de culturas, sendo a romena predominante, e a ucraniana, a russa, a gagaúza e a búlgara, minoritárias.

Igor Dodon, socialista eleito em 2016, perdeu a reeleição de novembro passado pra sua ex-premiê Maia Sandu, que é da direita liberal e pró-Europa. Ela também já trabalhou em bancos no Ocidente e foi uma impopular ministra da Educação em outro governo. Solteira, tornou-se primeira-ministra por breve tempo num ato fracassado de conciliação. Dodon deixa uma Moldova afundada em crise política, econômica e sanitária (covid-19), criticado por sua posição pró-Rússia e pela manobra de, antes da saída, tentar a aprovação de uma lei que reduzia os poderes presidenciais. Não conseguiu.

Maia Sandu já anunciou que será “a presidente da integração europeia”, num país dividido entre aqueles que querem a reunificação com a Romênia (situação comparada à da Alemanha na “guerra fria”, já que o país foi fundado por Stalin) e aqueles que defendem a herança russa ou até a independência da região da Transnístria, conflito ainda não resolvido. Presidentes de uma coalizão de países vizinhos contrários à política externa da Rússia enviaram uma nota conjunta de felicitação à presidente. Eu mesmo escolhi as cenas, embora possa parecer um pouco arbitrária, traduzi algumas falas importantes e coloquei notas explicativas em alguns trechos. Algumas das marchas estão no YouTube, como Dumitru Cantemir e La Mulți ani.



O vídeo permite perceber uma situação inédita na Moldova, e mesmo em outros países: só mulheres regendo a posse, ao mesmo tempo na presidência do Parlamento, da Corte Constitucional e agora da República. Mesmo com engasgo, ela até ensaiou algumas frases nas línguas minoritárias da Moldova, como lemos na íntegra do discurso:

Em russo: Дорогие граждане! Я буду бороться против тех, которые нас обкрадывают и доводят до нищеты. Я буду действовать в интересах всех граждан, чтобы повысить уровень жизни и вселить уверенность в завтрашнем дне. (Caros cidadãos! Lutarei contra aqueles que nos roubam e nos conduzem à miséria. Atuarei no interesse de todos os cidadãos para elevar o nível de vida e instilar a confiança no dia de amanhã.)

Em ucraniano: Я буду голосом людей і буду вимагати від відповідальних державних установ вирішувати проблеми громадян. (Serei a voz das pessoas e exigirei que as instituições estatais responsáveis resolvam os problemas dos cidadãos.)

Em gagaúzo: Bӓn çalışacam, ki devletin herbir vatandaşı duyabilsin, ani bizdӓ cuvapçılı devlet önetmesi var. (Não traduzi, quem souber chame no Insta.)

Em búlgaro: Аз щe уважавам културата и традициите на всеки една общност. (Respeitarei a cultura e as tradições de cada uma das comunidades.)

Este é o texto do juramento, conforme exibido no site da presidência e que pude também comparar com a tradução oficial russa:

Jur să-mi dăruiesc toată puterea şi priceperea propăşirii Republicii Moldova, să respect Constituţia şi legile ţării, să apăr democraţia, drepturile şi libertăţile fundamentale ale omului, suveranitatea, independenţa, unitatea şi integritatea teritorială a Moldovei. (Juro dedicar toda a minha força e capacidade à prosperidade da República da Moldova, respeitar a Constituição e as leis do país, defender a democracia, os direitos e liberdades fundamentais das pessoas, a soberania, a independência, a unidade e a integridade territorial da Moldova.)

1 de janeiro de 2021

Felipe Dideus, um não historiador


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Fiz esta nota pra aba Comunidade do meu canal no YouTube há algumas semanas, e estou a republicando aqui como forma de tentar retomar o ritmo regular de postagens, novamente interrompido no fim de setembro. Não estou fazendo ataques pessoais ao Felipe, mas com este texto ressalto a necessidade dos historiadores entrarem novamente na batalha da memória: o combate pela ciência não deve se limitar à epidemiologia. Aproveito a ocasião pra lhes desejar um feliz, pelo menos melhor, 2021!

Vi alguns vídeos do tal Felipe Dideus (ou “de Deus”, dependendo da fonte), que se denomina “historiador” e tem ou teve em algum momento ligação com os conspiracionistas do Terça Livre. Não achei nada sobre a formação dele, mas o conteúdo é bastante fraco pra ser chamado de “histórico”. Não passa de um show de curiosidades, e o rapaz nem falar direito sabe.

Claro que só vi uma parte dos muitos vídeos, mas eles são bastante representativos, no caso do Felipe não ter retificado algumas opiniões. Pra começar, lambe saco de uma monarquia inexistente e falida, tirando o reinado de D. Pedro 2.º (no mais uma grande figura) do contexto mais amplo do Império e de nossa economia escravista agroexportadora. Isso mesmo já mostra sua fixação pela história dos grandes políticos, algo já criticado pelos historiadores sérios há mais de cem anos. Diz que a República “faliu”, fazendo uma comparação esdrúxula entre 50 anos bem específicos e mais de 130 anos de desenvolvimento econômico e social jamais vistos. Já deu pra ver que a “história” dele não tem povo, não tem pobres, não tem negros e mulheres, não tem conflitos, não tem violência de classe, não tem sociedade enfim. Pior: pro Felipe, é um regime que determina como se molda a sociedade ou a economia, e não o contrário, quando a produção material condiciona em última instância as formas políticas. Daí a argumentação descabida de que vários países prósperos são monarquias, na verdade monarquias porque prósperos (não raro com base em espoliação, trapaças comerciais, invasões, hiperexploração do trabalho, protecionismo etc.), isto é, estáveis o suficiente pra não precisar trocar de regime.

Seu vídeo sobre a ditadura militar (que ele ameniza chamando de “regime”) é extremamente nojento. Diz que Jango queria “implantar o comunismo” no Brasil (Jorge Ferreira, Moniz Bandeira, Hélio Silva e Daniel Aarão Reis que o digam!) e absolutiza os números verticais da economia, esquecendo do aumento brutal da desigualdade, da bomba armada da hiperinflação, do endividamento externo, do desmonte do ensino público e da violência indiscriminada não só contra a guerrilha, mas contra qualquer crítico da ditadura. Não só nesse vídeo como em vários outros, ele demonstra claro desconhecimento da história do comunismo e da diferença mesmo entre os vários períodos da URSS. Já disse aqui várias vezes, não cabe defender o comunismo, mas colocar as coisas em seu devido lugar, sem fazer, como Felipe, as reduções ridículas dos manuais da “guerra fria”.

Ele também é fixado em história militar e tudo o que se relaciona a Forças Armadas (talvez por algum vínculo profissional), o que não é condenável, mas mostra a imagem distorcida que adolescentes gamers, seu público preferencial, têm da história como uma sucessão de guerras e decisões de cúpula. Isso explica também o baixíssimo nível cultural de quem comenta em seus vídeos, conseguindo ser ainda mais estapafúrdio em visão de mundo e leitura da história brasileira. Sem contar, claro, vendendo o truque da “história não contada”, que Felipe não cita nenhuma bibliografia especializada, quando muito alguns sites de curiosidades históricas, já que ele mesmo parece desprezar o conhecimento acadêmico, feito com pesquisa demorada e reflexão crítica, como “mentiroso” e “manipulador”. E falando em gamers, num dos vídeos ele oferece de seus patrocinadores um “tanque soviético” pra um jogo, mesmo paradoxalmente reduzindo o comunismo a “fome, mortes e ditadura”, rs.

Correndo o risco de ser rígido demais, concluo com um vídeo mais recente, sobre o qual ele fez tanto alarde, dos dois irmãos brasileiros que participaram da 1.ª Guerra Mundial, e fecho minha visão sobre história. O enredo é interessante e o filme é bem feito, mas reúne fatos desconexos, sem qualquer relação explicativa relevante com o cenário maior nem do Brasil, nem da Europa, nem da guerra, nem da geopolítica. Nem de “micro-história” isso pode ser chamado, porque, pelo conceito que Carlo Ginzburg deixou, o exemplo tomado deve ser representativo por estar no cruzamento entre várias dimensões importantes pra época. Indicativo do nível do público é chamarem de “patriotas” os dois brasileiros que foram defender... a Inglaterra, numa guerra em que o Brasil sequer entrou, deu pouca contribuição ao final e só decretou o estado de guerra em 1917 pra poder reprimir o movimento operário.

Enfim, curiosidades, relatos, biografias, ação, mas não “história”.