terça-feira, 4 de outubro de 2022

Miloš Zeman, o Boris Ieltsin checo


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Achei muito por acaso uma reportagem de 2013 falando sobre as aparições públicas ébrias de Miloš (“mílosh”) Zeman, então recém-eleito presidente da República Checa, e uma coletânea de imagens na mesma condição, como parte dos dossiês dos vários candidatos. Acabei descobrindo que essa figurinha, que podemos com toda segurança chamar de “Boris Ieltsin checo”, não só assumiu a presidência em março de 2013, como também foi reeleito em janeiro de 2018 e continua no cargo, mesmo só se movendo e aparecendo em público em cadeira de rodas.

A primeira reportagem é bem engraçada, embora eu tenha deixado apenas as cenas dos tropeções: na cerimônia religiosa, seus assessores tinham alegado que ele estava com virose, e o povo brincou na internet dizendo que “Virose” era o nome de uma nova bebida! Além disso, o narrador ainda diz que “num país em que a cerveja é mais barata do que a água, é de se esperar que os líderes checos apareçam bêbados”! Zeman nunca fez segredo sobre sua fixação nos etílicos e seu fumo inveterado. Só em 2015 ele abrandou levemente os vícios após ser diagnosticado com diabetes, e ainda por cima caminha com dificuldades por ter neuropatia diabética nos pés.

Não raro, perde processos após falar coisas indesejadas sobre certas figuras públicas, o que talvez se deve às suas constantes bebedeiras. Mas não é só isso: nascido em 1944, formou-se em economia e no fim do regime comunista checoslovaco entrou em encrencas por ter criticado o mau estado da economia. Primeiro-ministro de 1998 a 2002, passou de posições consideradas social-democratas a opiniões ditas “populistas” ou de “extrema-direita”, sendo criticado pela defesa de regimes autoritários e pela recusa em comemorar os aniversários da Primavera de Praga, mesmo o de 50 anos em 2018. Fundou seu próprio Partido dos Direitos Civis em 2009, mas em 2013 concorreu como independente. Recentemente, chegou a dizer que pessoas transexuais lhe parecem “abomináveis”.

Curiosamente, Zeman foi o primeiro presidente eleito pelo povo na história checa pós-comunista, pois os antecessores Václav Havel e Václav Klaus tinham sido eleitos pelo Parlamento. Sua filha Kateřina Zemanová, nascida em 1994, é considerada por ele uma “primeira-dama” informal, pois sua esposa não gosta de aparecer em público (imagino por quê...). Zeman também possui um site oficial.



domingo, 2 de outubro de 2022

Bolsominions surtando em Londres


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Esta publicação foi programada um dia antes, portanto não estou fazendo nenhuma menção ao dia do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil. Havia muita especulação sobre se Lula derrotaria Bolsonaro já no primeiro turno, mas em todo o caso uma vitória de Lula é quase certa mesmo num segundo turno. Não vou fazer julgamentos sobre as pessoas dos dois principais candidatos e de seus respectivos governos, mas quero me focar no fenômeno do “bolsonarismo”, que nada tem de doutrinário nem talvez mesmo de ideológico. A meu ver, é apenas uma onda político-partidária refletindo o humor de parte do eleitorado em determinado momento histórico, assim como foram o varguismo, o ademarismo, o malufismo, o janismo, o janguismo e (ainda embora em cena) o lulismo, apesar de qualquer comparação ser temerária. Porém, ela se caracteriza pelo despertar de tudo de pior que pode haver numa pessoa: xenofobia, patriotismo caricato, incoerência discursiva, ódio ao diferente, cegueira quanto à situação de classe (defendem os ricos, mas não o são), vício em mídias sociais, linguagem assassina, culto às armas de fogo e à masculinidade tóxica, reacionarismo social e religioso, caudilhismo (do “Mito”, no caso), negação das instituições e do sufrágio popular, desconhecimento e falseamento da história, negacionismo científico e uma fobia injustificada a qualquer corrente de esquerda, colocada no saco de um “comunismo” genérico e mal definido, embora confundido grosso modo com o stalinismo.

Várias vezes o Brasil já viveu manifestações desse comportamento entre grandes massas reunidas em público, mas a novidade dos últimos anos é que ele tem extravasado pra outros países, seja entre brasileiros que acompanham as comitivas do presidente em viagens oficiais, seja entre comunidades imigrantes não raro totalmente alheias ao que realmente acontece no país natal. A mais constrangedora de todas talvez tenha sido no último dia 18 de setembro, quando Bolsonaro desembarcou em Londres pro funeral da rainha Elizabeth 2.ª e usou o evento muito mais como uma parte de sua campanha eleitoral do que uma demonstração de respeito ao Reino Unido, fazendo inclusive um comício da sacada da embaixada brasileira. Mas pior do que termos um presidente assim é termos seguidores que, muito mais do que os de Lula no passado, demonstram enorme falta de educação e respeito fora da própria casa, mesmo sendo de idade adulta ou avançada.

Este conteúdo já estava planejado há algum tempo, mas só agora pude o elaborar totalmente. Mesmo sem os traduzir, trago os três vídeos principais que circularam nas mídias sociais com imagens do surto coletivo e da incivilidade demonstrada pelos que dizem apoiar o “imbroxável”. O episódio foi tão mais deprimente por ocorrer durante o luto de uma chefe de Estado respeitada no mundo inteiro por muitas décadas, quaisquer que sejam as reservas que tenhamos contra ela. Não apoio nenhum dos partidos na atual disputa, embora eu simpatize mais com Simone Tebet, mas espero que essa praga chamada “bolsonarismo”, que não passa de uma versão atualizada do fascismo como ele volta e meia reaparece nas sociedades capitalistas, seja varrida o quanto antes do Brasil, e que essa gente possa receber a higiene mental que merece.



Aquele sorriso gostoso que você arreganha no velório da mãe do anfitrião...


Na primeira cena, um brasileiro que se diz evangélico critica Bolsonaro e diz que ele não representa o país nem os outros cristãos. Silas Malafaia (cuja presença no Reino Unido era inexplicável), em contraposição, puxa um coro a favor do presidente e atrai a atenção de um cidadão inglês passante, momento em que o vídeo começa. Este os critica, defendendo o manifestante hostilizado e dizendo que os brasileiros devem respeitar o luto dos britânicos. Nisso, a gritaria do gado sobe cada vez mais, em proporção direta com o tom de voz e o nervosismo do simplesmente ignorado senhor nativo.


Adultos que se denominam “bolsonaristas” tendo um acesso de surto fanático, com direito a caretas, berros descontrolados e dedos do meio eriçados. Nada relacionado à monarquia enlutada e à soberana falecida. É provável que tivessem visto a equipe de algum veículo de comunicação brasileiro, ou mesmo britânico, os quais em geral eles consideram como “mentirosos” e “sabotadores” do presidente. A própria BBC Brasil (e, acredito que por extensão, a BBC britânica) foi xingada de “comunista”, e em outro vídeo a equipe brasileira é inclusive assediada e ameaçada por apoiadores que quiseram forçar os profissionais a passarem a versão “verdadeira” dos fatos, ou seja, a do Planalto. Vladimir Putin morreria de inveja dessa escumalha...


Manifestantes britânicos pelo meio-ambiente fazem um protesto com faixas e palavras de ordem em frente à embaixada, contra o desmatamento ignorado por Bolsonaro. Um dos brasileiros malucos que se aproxima do grupo diz a uma senhora que está logo à frente que ela deveria “ir à Venezuela”, se não estivesse satisfeita com o governo em Brasília. É uma variante do famoso “vai pra Cuba” lançado contra qualquer esquerdista ou antifascista, mesmo o mais democrata, e não sei se realmente a mulher entendeu o sentido da diatribe. Mas o triste é lembrar de quando Bolsonaro foi à Itália e também enfrentou um protesto feminino nativo contra seu machismo e misoginia. O gado acabou cruzando com esse protesto, e no calor da confusão, uma brasileira mandou em italiano uma das mulheres que protestavam “calar a boca”, de forma bem ameaçadora. Mais uma demonstração da estranheza desses “arautos da liberdade”, que defendem a ditadura de 1964-85 e tratam com brutalidade quem simplesmente discorda de suas ideias...


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Muitas danças ucranianas pra você!


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O hopak (гопак) é a belíssima dança nacional ucraniana (também falada em russo gopak), da qual existem muitas pérolas perdidas pelo YouTube gravadas em alguns teatros da Ucrânia. Um dos grupos mais famosos é o Conjunto Nacional Acadêmico Emérito de Dança da Ucrânia Pavló Virsky, de Kyiv (Kiev), que tem uma coreografia e uma peça orquestral muito famosas pelo mundo e facilmente reconhecíveis à primeira vista.

Uma dessas apresentações foi feita em 2018 e colocada no YouTube no mesmo ano pela usuária Ielena Ivanushkina. Vejam se há também outras pérolas no canal dela! Ao contrário de outras publicações, esta tem a introdução da dança, antes do andamento ficar bem mais rápido. E a filmagem foi feita de longe, mas é possível ver toda a beleza do palco e o que todo o grupo faz ao mesmo tempo.

O Conjunto Virsky foi criado em 1937, portanto ainda em plena Era Stalin, pelo coreógrafo e dançarino que lhe deu o nome e por Mykola Bolotov. Chegou a fazer apresentações pros soldados no front da 2.ª Guerra Mundial e foi liderado por Virsky até sua morte, em 1975, até que em 1980 seu discípulo Myroslav Vantukh finalmente tomou a direção. Virsky tinha o objetivo de criar danças que unissem tradição e inovação, e de fato Hopak e Somos da Ucrânia (ver mais adiante) foram espetáculos que ele mesmo inventou.



Mais um Hopak, desta vez executado num concerto em 15 de julho de 2017 pela Academia de Dança Folclórica Roma Pryima-Bohachevska, nos Estados Unidos. Sob a direção de Orlando Pagan, foi postada por um senhor que, infelizmente, ainda tem poucas visualizações e inscritos no YouTube: vamos lhe dar apoio!

A academia, fundada pela coreógrafa e bailarina Roma Pryima-Bohachevska, que deixou a Ucrânia durante a 2.ª Guerra Mundial e percorreu o mundo com seus shows, está hoje sediada na localidade de Kerhonkson, no estado de Nova York. Aí existe o grande parque Soyuzivka Heritage Center, abrigando hotéis, cursos e acampamentos de verão pra crianças e jovens. A falecida profissional foi quem deu também essa coreografia pro Hopak.



Quando o Conjunto Nacional Acadêmico Emérito de Dança da Ucrânia Pavló Virsky, de Kyiv, comemorou em 2015 os 110 anos de seu fundador, ele fez um concerto especial, com danças e músicas um pouco diferentes, do qual você pode ver aqui um trecho. O espetáculo se chama “Ми з України” (My z Ukrainy), Somos da Ucrânia, e tem trechos encantadores, como no final as moças apresentando o famoso “pão e sal”, indispensável em recepções de visitantes em vários países da Europa eslava.



Esta dança com crianças grandes se chama “Козачок” (Kozachók) e também é conhecida na Rússia como Kazachók. Literalmente significa “cossaquinho” ou “pequeno cossaco” e remonta ao século 16. Foi executada no 33.º Annual Ukrainian Heritage Festival (Festival Anual da Herança Ucraniana) em 2018, na cidade de Yonkers, estado de Nova York, pelo Grupo Suzirya de Danças Teatrais Ucranianas. Sob a direção de Larisa e Orlando Pagan, foi postada pelo mesmo senhor que, infelizmente, ainda tem poucos inscritos e visualizações.

O Grupo Suzirya está baseado na cidade canadense de Calgary e tem um site próprio com muito material e informação a respeito, além de página no Facebook.



Mais um show de beleza e cultura, que infelizmente está escondido nos recônditos do YouTube e do qual só aumentei o volume e cortei as extremidades. Trata-se de novo da dança Kozachok, mas executada pelo Balé Folclórico Infantil Veseli Cherevychky na cidade de Lviv, na Ucrânia, sob a direção de Maria e Volodymyr Chmyr, e as crianças em geral também cantam, além de dançar.

A filmagem foi feita em 25 de junho de 2009, mas só foi postada no dia 14 de julho, ainda com poucas visualizações e inscritos. Na descrição há a indicação da página do Facebook da iniciativa e seu site.



E pra finalizar, algo bem diferente: encontrei este show por acaso, com criancinhas bem pequenas orientadas por meninos maiores. Que coisinha mais cuti-cuti, eu não resisti em apresentar, ainda mais com o pouco de inscritos e visualizações que o canal tem! Eu tenho também esse lado fofura, e não só político ou científico, rs. A coreografia se chama “Баранята” (Baraniata), literalmente Cordeiros ou Cordeirinhos, e também foi executada pelo Balé Folclórico Infantil Veseli Cherevychky na cidade de Lviv, na Ucrânia, sob a direção de Maria e Volodymyr Chmyr. Nesse grupo, como eu disse, as crianças em geral também cantam, além de dançar, e é engraçadinho o “mééé” que os pequenos fazem em alguns momentos!

O vídeo foi postado inicialmente em 28 de junho de 2010, mesmo ano em que o grupo de balé estava completando 20 anos, tendo sido fundado em 1990. Infelizmente, o site que o dono do canal aponta na descrição original não está funcionando, mas em todo caso, deem uma força pra ele! Não tive tempo de traduzir as partes faladas, que são poucas, o que não impede de fruir o espetáculo. A entrada massiva dos pequeninos se dá aos 1 min 19 seg.



Afinal, como “ele” mesmo diz, rs (obrigado ao Cláudio pelo vídeo):


quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Partes de missa maronita em aramaico


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Uma curiosidade pra você: estes são trechos de missas no rito maronita católico, que é uma comunidade ainda em comunhão com Roma e o Vaticano, mas usando como língua litúrgica, por exemplo, o aramaico. Não sei se a TV Canção Nova ainda passa mensalmente a missa no rito maronita, rezada em São Paulo, mas foi por aí que vi pela primeira vez, há muitos anos. Alguns dos trechos, inclusive, tinham sido transmitidos pela Canção Nova e repostados lá em 2009 num canal hoje abandonado. A maioria deles mostra o momento da consagração da hóstia, ponto alto da celebração católica.

O rito maronita, assim como o rito caldeu (assírios), usa como língua litúrgica não o latim, mas o aramaico, língua do ramo semítico ocidental, o mesmo do hebraico e aparentado ao árabe (semítico oriental). O aramaico era a língua predominante na região da Palestina, tendo suplantado o hebraico e convivendo lado a lado com o grego koiné, a língua comum do Mediterrâneo. As pequenas comunidades que seguem os ritos cristãos orientais, quase sempre em comunhão com o papa, chegaram ao Brasil no início do século 20, devido às turbulências étnicas, políticas e sociais no antigo Império Otomano. Muitas vieram dos países hoje conhecidos como Líbano, Síria e Iraque, e por estarem subjugadas aos otomanos, eram chamadas impropriamente de “turcos”. Apenas ao longo do século 20 os países árabes tomariam a forma com que se encontram hoje.

Fontes (não exatamente na ordem exibida):
http://youtu.be/tZKv4XflbtA
http://youtu.be/TwL0clwG6u0
http://youtu.be/J4aWqJ5sbTo
http://youtu.be/0ZXbAMMBVII
http://youtu.be/LZO7x7QmOt0
http://youtu.be/0zNugvrdGns
http://youtu.be/QOUzZPJPf1Q
http://youtu.be/fAuoa8qk5o0
http://youtu.be/6JFXkjYlP5A



segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Reforçar a solidariedade à Ucrânia


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Tomei a liberdade de publicar, após autorização prévia do autor, o artigo “Reforçar a solidariedade à Ucrânia”, escrito pelo ucraino-descendente Vitorio Sorotiuk, presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira, e destinado inicialmente à publicação no jornal Prácia (em ucraniano, “trabalho”), quase todo escrito nessa língua eslava e em cujo site podem ser lidas edições recentes anteriores. O sr. Sorotiuk é politicamente ativo no campo democrático e progressista, foi vítima da criminosa ditadura civil-militar instalada no Brasil em 1964 e defende os interesses dos ucranianos e dos descendentes de ucranianos no Brasil. Tomei igualmente a liberdade de fazer algumas correções e modificações na redação (ortografia, sobretudo), e não no conteúdo, pra corresponder à linha editorial desta humilde página. Agradeço novamente ao amigo Cláudio pelo contato com o importante ativista social, e reitero que me alinho completamente às posições expostas neste artigo!



O mês de setembro foi altamente significativo para a Ucrânia demonstrar ao mundo a sua capacidade de resistência e determinação pela preservação da sua soberania. Mas foi também um mês de altas revelações. Revelou-se que a Rússia é um gigante de pés de barro e sua vocação imperialista pode ser vencida. A contraofensiva no oeste e no sul da Ucrânia demonstra que corpo e alma não são só palavras do refrão do hino nacional da Ucrânia, mas espírito vivo de uma nação que se levanta contra o inimigo. Revelou-se mais uma vez o caráter terrorista e genocida da agressão russa à Ucrânia com as descobertas de valas comuns na região de Kharkiv liberada.

Revela-se também quão perniciosa e nociva é a política de neutralidade frente à agressão russa para a paz mundial. O Presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky, em seu discurso perante a 77.ª Sessão Plenária das Nações Unidas, foi primoroso ao dizer: “Aqueles que falam de neutralidade quando os valores humanos e a paz estão sob ataque significam algo completamente diferente. Eles falam sobre indiferença. Cada um por si. Aqui está o que eles dizem. Eles não estão condicionalmente interessados nos problemas uns dos outros. Eles cuidam um do outro formalmente. Protocolo simpatizar. E é por isso que eles fingem proteger alguém, mas na verdade apenas seus próprios interesses mesquinhos. É isso que cria as condições para a guerra. É isso que precisa ser corrigido para criar condições para a paz.”

Como revela-se, a manifestação do Presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky na 77ª Sessão Plenária das Nações Unidas é um apelo a você, leitor, para que se levante do sofá e passe a agir com mais empenho para reforçar a solidariedade à Ucrânia. Pois não se trata tão só do destino dos ucranianos que estão lá no território da Ucrânia, mas do destino da humanidade. Como escreveu o jornalista Thomas L. Friedman e foi publicado no dia 21 de setembro no jornal O Estado de S. Paulo: “Você pode não se interessar pela guerra na Ucrânia, mas a guerra na Ucrânia se interessará por você, na energia que você consome, nos preços dos alimentos que você come e, mais importante, na humanidade a que você pertence ‒ conforme descobriram até mesmo as ‘neutras’ China e Índia.”

O Brasil inscreveu nas páginas de sua história como momento de glória a participação de seus pracinhas, entre os quais duas centenas de descendentes de ucranianos, na luta nos campos da Itália pela democracia e contra o nazifascismo. Dos escombros do terror do 3.º Reich nasceu a Organização das Nações Unidas para preservar os valores humanos e a paz. Nesse processo, o Brasil teve papel de destaque e ganhou o direito desde então de ser o primeiro a discursar nas sessões plenárias das Nações Unidas. Ninguém imaginaria que o Chefe da Nação do país fosse falar de guerra na Ucrânia, e não de guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, que fosse falar de guerra na Ucrânia, e não dos crimes cometidos pelo agressor contra o povo ucraniano. Ninguém imaginaria que na última sessão do Conselho de Segurança no dia 22 de setembro, o Embaixador do Brasil Carlos França continuasse ambíguo ao não condenar a agressão russa e os crimes de torturas, sequestros, violações às mulheres e morte de crianças e velhos, enfim, da destruição da infraestrutura civil e da cultura do país com ataques a universidades, museus e igrejas.

Frente a tragédias humanas de tal dimensão, a voz do brasileiro Castro Alves assim se levantou quando escreveu o poema Navio Negreiro:


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...


O Brasil não pode continuar sequestrado pela política do balcão de negócios de vender soja e carne e comprar ureia e potássio, de aproveitar a ocasião para comprar diesel mais barato quando as violações do direito de soberania de uma nação são reveladas, quando os valores humanos são pisoteados. O Brasil é bem maior que um balcão de negócios. Quem quer que seja o ocupante do Planalto, seja de direita, centro ou esquerda, não tem o direito de cuspir e pisotear no artigo 4.º da Constituição Federal da República, como está sendo feito. Estão inscritos em nossa Carta Magna os princípios da prevalência dos direitos humanos, autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade entre os Estados, defesa da paz, solução pacífica dos conflitos e repúdio ao terrorismo e ao racismo.

Quem defende a política de neutralidade e seus executores exerce a traição aos princípios constitucionais e aos valores universais da democracia e dos direitos humanos. É uma negação bem maior que dar as costas aos princípios da Constituição de nosso país e dar as costas à luta do povo ucraniano pela sua soberania e cultura; é negar a civilização humana. Como afirmou o Presidente da Ucrânia na 77.ª Sessão Plenária da ONU, é colocar o mesquinho à frente da grandeza humana.

Esse é o nosso desafio para os meses a seguir: reforçar a solidariedade ao povo ucraniano. Essa tarefa deve ser feita com a luta pela mudança da política nacional para que venha o país a condenar claramente a agressão russa e apoiar a política de punição por agressão; proteção da vida; restauração da segurança e integridade territorial da Ucrânia; garantias de segurança à Ucrânia, ou seja, com a determinação de reforçar o apoio e a solidariedade ao povo ucraniano que demonstra todo dia sua bravura e destemor para manter a soberania do seu país e defender seu povo e sua cultura.

A Rússia está determinada a continuar com a agressão, ameaça o planeta com armas nucleares, está convocando 300 mil reservistas de imediato para manter a ocupação de 20% do território da Ucrânia. A nossa determinação em reforçar o apoio e solidariedade ao povo ucraniano deve estar à altura da resistência heroica que o povo ucraniano vem demonstrando no campo de batalha diariamente. Vamos combater a mesquinhez e elevar o sentimento da grandeza humana.

Слава Україні! Героям Слава!
[Glória à Ucrânia! Glória aos heróis!]


Vitorio Sorotiuk
Presidente da Representação
Central Ucraniano-Brasileira

rcubras(a)gmail.com



sábado, 24 de setembro de 2022

Golpe de Estado contra Xi Jinping?


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Rumores baseados neste tuíte de jornalista chinesa anticomunista e exilada dariam conta de que Pequim, capital da China, estaria sendo cercada por veículos militares, cortando a comunicação com o exterior, e vários voos teriam sido cancelados. Além disso, Xi Jinping, presidente da China comunista, estaria em prisão domiciliar devido à insatsifação de certos grupos dentro do Partido Comunista, sobretudo a decretação da prisão perpétua de vários membros renomados. Neste vídeo de 26 minutos, a mesma jornalista continua relatando o que sabe em seu canal do YouTube, mas realmente nada foi confirmado ainda, vindo a maioria das informações de sites indianos bem suspeitos, e pouca coisa ainda da mídia de outros países, nada do Brasil nem em português.

Nada foi confirmado oficialmente na mídia estatal chinesa. Mesmo assim, comecei traduzindo este artigo do jornal espanhol La Política Online, depois trouxe mais informações ao longo deste sábado, de páginas em outras línguas que já tinham mais detalhes. Peço que repasse esta publicação ao máximo possível de pessoas, mas vamos nos precaver e esperar que as mídias consagradas mais sérias deem a palavra final a respeito.

Atualização (25/9/2022): Assisti ao boletim noticiário China Today ao vivo do canal estatal CCTV, no período das 21h às 22h de Pequim (10h às 11h de Brasília), e embora eu conheça muito pouco o mandarim, consigo identificar vários elementos, sobretudo quanto ao assunto tratado. Xi Jinping (cujo nome também não ouvi citado) e a preparação pro congresso do Partido Comunista não apareceram em nenhum momento, o que parece incomum num regime autoritário e personalista, embora eu não saiba se Xi aparece direto. Mesmo assim, sempre que eu abria notícias num horário aleatório, sua imagem aparecia em pelo menos alguns momentos. Apareceram notícias do mundo todo, e bem pouco da política chinesa, apenas o ministro do Exterior falando na ONU. Os intelectuais exilados Jennifer Zeng e Gordon Chang insistem que não é comum um líder supremo da China sumir por tanto tempo do público e da mídia (neste caso, desde o dia 16 de setembro), mas que realmente, embora as notícias pareçam desagradáveis, não há como saber ao certo o que se passa, o que pode ser desde um problema de saúde até a deposição mesma de Xi.

Os dois tuiteiros não raro recebem muitos comentários negativos, sendo acusados de divulgar notícias falsas ou simplesmente ofendidos, o que diz mais sobre o desespero do que defendem do que sobre o conteúdo daqueles a quem atacam. Tais contas podem nem ser sequer de pessoas ou cérebros reais. Chang chegou a assumir numa entrevista que um golpe de Estado é pouco provável, mas que algo anormal está acontecendo no PCCh. Alguns comentários do YouTube levantam suspeitas interessantes: o segredo pode ser, ao contrário, o indício da preparação de uma repressão ainda mais brutal, um dos motivos podendo ser a situação instável nos aliados Rússia e Irã; outros dizem que pode ser ainda uma preparação a um eventual conflito com Taiwan (e de fato, nesse período em que vi a CCTV, Taiwan foi muito citada, mas não sei em que contexto); outro ainda disse, no caso dos veículos militares, que pode ser apenas uma preparação pros festejos do feriado da revolução de 1.º de outubro.

Em todo caso, como os dois escritores mesmos dizem, são apenas rumores, mas não é porque são apenas rumores que não devem ser tratados como indícios de algo anormal na China. Ainda mais que ela passa por vários problemas (lockdown terrorista, bolha imobiliária por estourar, crescimento estagnado, pressão demográfica e insatisfação no partido com o pretenso terceiro mandato inédito de Xi), e que vivemos tempos totalmente incomuns na geopolítica. Vários líderes na ONU disseram mesmo que estamos passando, sem exagero, por um “divisor de águas”.



Rumores de golpe de Estado na China contra Xi Jinping agitam as redes, mas fontes diplomáticas desmentem

As versões sobre um complô pela insatisfação dentro do Partido Comunista Chinês semanas antes de Xi conquistar seu terceiro mandato agitaram as redes. A embaixada argentina em Pequim desmentiu.

Nesta sexta-feira, ganharam força rumores sobre a suposta prisão do Xi Jinping após um golpe de Estado na China. As versões não puderam ser confirmadas até o momento, mas também não foram desmentidas por Pequim. Todavia, fontes da embaixada argentina na China as desmentiram de maneira categórica.

Por outro lado, o cancelamento de 60% dos voos na potência asiática, segundo relatou a plataforma local de viagens Flight Master, fez crescer o rumor em torno da suposta detenção de Xi. Porém, as fontes consultadas pelo La Política Online explicaram que foram suspensos devido a um exercício militar que tinha sido previamente anunciado.

Uma das versões que circularam nas últimas horas nas redes (em sua maioria de perfis anti-China) sustentava que o complô teria sido organizado por forças especiais do Exército Popular de Libertação que obedecem ao general Li Qiaoming, a cargo do Comando do Teatro do Norte, um dos cinco do Exército chinês. Li tinha sido nomeado membro do 19.º Comitê Central do Partido Comunista da China em outubro de 2017.

No próximo 16 de outubro será realizado o Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, o órgão máximo do país, que elege os membros do Comitê Central e renova as altas autoridades, como é o caso de Xi. Supõe-se que aí será consagrado um terceiro mandato para o atual líder, que se transformou assim no governante mais poderoso desde Mao Zedong, revertendo a dinâmica mais colegiada que a China comunista moderna tinha.

De acordo com essa versão, Xi esteve ausente do seminário sobre Defena Nacional e Reforma Militar na última quarta-feira, embora já tivesse voltado de sua primeira viagem internacional após a pandemia no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai no Usbequistão, onde se reuniu com seu homólogo russo Vladimir Putin. Também esteve ausente o chanceler Wang Yi, em viagem para Nova York em razão da Assembleia Geral da ONU.

Ainda segundo essa versão, quem assistiu ao seminário foi Li Qiaoming, que se sentou junto a Liu Zhenli, comandante do Exército. A questão é que Xi está se preparando para assumir seu terceiro mandato numa concessão extraordinária que estaria incomodando setores da cúpula do Partido Comunista.

La jornalista e ativista de direitos humanos chinesa Jennifer Zeng, dissidente e ex-membro do PCCh, tuitou um vídeo onde se podem ver “veículos militares do EPL que estavam se dirigindo a Pequim em 22 de setembro”. “Começando desde o condado de Huanlai, perto de Pequim, e terminando na cidade de Zhangjiakou, província de Hebei, uma procissão inteira de no máximo 80 quilômetros”, continuou.

A narrativa dos perfis que fazem oposição ao regime argumentam que o suposto golpe teria sido planejado por militares e membros superiores do partido descontentes com a liderança férrea de Xi. Nesta mesma sexta-feira, o ex-vice-ministro da Segurança Pública, Sun Lijun, foi condenado a uma pena de morte deixada em suspenso (pode optar pela prisão perpétua) pelo Tribunal Popular Intermediário de Changchun, devido a uma suposta cobrança de propinas. Sun era acusado pelo círculo do presidente de liderar uma máfia dentro do partido que se opunha a Xi.

Também foram presos cinco ex-chefes de polícia por seus vínculos com Sun, no maior expurgo do aparelho de segurança da China e poucas semanas antes do congresso partidário em que se prevê a reeleição de Xi.


China cancela mais de 6 mil voos no país: possível golpe de Estado? (Lilia Chaleva para o jornal búlgaro Dir.bg)

Rumores sobre a deposição de Xi Jinping tomaram o Twitter

Relatos não confirmados vindos da China revelam uma chocante informação a respeito do presidente da nação sul-asiática, Xi Jinping. Embora as mídias chinesas não tenham confirmado os rumores, tuítes de perfis chineses sugerem que o presidente Xi Jinping foi posto em prisão domiciliar pelo Exército Popular de Libertação (EPL). A informação chega um dia depois de a agência Bloomberg ter comunicado que um tribunal chinês condenou o ex-vice-ministro da Segurança à prisão perpétua, completando a repressão contra a “clique política” que ele lideraria contra Xi Jinping, apenas uma semana antes de uma mudança decisiva no Partido Comunista, informa a HW News [um jornal indiano], destacando que a notícia não foi verificada por fontes independentes.

Jennifer Zeng, ativista chinesa pelos direitos humanos que vive atualmente nos EUA, publicou um vídeo em seu Twitter, no qual ela afirma que o EPL estaria se deslocando para Pequim.

[Traduzi do inglês] “Veículos militares do EPL se deslocando para Pequim em 22 de setembro. Partindo do condado de Huanlai, próximo a Pequim, e terminando na cidade de Zhangjiakou, na província de Hebei, toda uma procissão de cerca de 80 km. Enquanto isso, circulam rumores de que Xi Jinping estaria em prisão domiciliar após veteranos do PCCh o terem removido da liderança do EPL.” Relatos também sugerem que quase 60% dos voos na China teriam sido suspensos na sexta-feira, sem qualquer explicação.

O escritor chinês Gordon Chang, que também está radicado nos EUA, citou o vídeo de Zeng no Twitter e escreveu [traduzi do inglês]: “Este vídeo de veículos militares se deslocando para Pequim chega logo após o cancelamento de 59% dos voos no país e as prisões de funcionários veteranos. Há muita fumaça, o que significa que há fogo em algum lugar dentro do PCCh. A China está instável.”

No momento em que esse relato foi apresentado, apenas voos domésticos com tráfego menor do que o normal foram vistos voando no espaço aéreo chinês, como mostra o site Flightradar.

Os rumores também afirmam que Li Qiaoming, o general a serviço do EPL, pode ter substituído Xi Jinping como primeiro-ministro.

Entre os líderes políticos indianos, Subramanian Swamy escreveu no Twitter: “Um novo rumor que exige ser verificado: estaria Xi Jinping em prisão domiciliar em Pequim? Quando há pouco Xi esteve em Samarkand, os líderes do PCCh exigiram que Xi fosse afastado do comando partidário do Exército. Depois disso veio a prisão domiciliare. Assim diz o rumor”, observou Swamy, que mencionou tuítes sobre a notícia.

O canal de televisão russo Insider UA também mencionou os rumores e escreveu no Telegram: “Algo estranho está acontecendo na China. Há rumores massivos no Twitter sobre um golpe militar na China e a renúncia prematura de Xi do posto. Há muitas dessas publicações e de diferentes publicadores/mídias. Tropas foram massivamente enviadas a Pequim, foi notada uma coluna com 80 km de comprimento. Além disso, a China cancelou mais de 6000 (!) voos domésticos e internacionais. Além disso, todas as passagens vendidas para o trem de alta velocidade estão suspensas e o tráfego ferroviário foi totalmente suspenso.”

Por enquanto, nenhum rumor sobre um golpe militar na China teve sua autenticidade comprovada.

[Seguem-se informações que não traduzi sobre o aumento das tensões entre China e EUA a respeito de Taiwan.]


Ataque a Xi Jinping: fake news ou realidade? (Leopoldo Gasbarro para o Wall Street Italia)

Verdade ou fake news? A China está em alerta? Ou trata-se apenas de uma armação midiática?

Tudo começou em alguns sites indianos, segundo os quais Xi Jinping estaria passando por péssimos bocados. Inúmeras considerações e detalhes alarmantes sobre a situação interna do país são sustentadas por imagens e notícias que começam a se suceder uma após outra.

As primeiras notícias “estranhas”, ainda não verificáveis a partir da fonte, apareceram em alguns sites indianos. Também foram relatadas por alguns canais do Telegram relacionados à Rússia, e amplificadas pelo Twitter. Caso se trate de fake news, elas estão em curso de ser alimentadas.

Para uma informação correta, nos dirigimos a especialistas do assunto e do país. De Giuliano Noci, pró-reitor do politécnico de Milão para a China, a Riccardo Monti, presidente do grupo Triboo, a Piero Guseo, especialista em vendas institucionais e responsável para o mercado italiano da Leverage Shares. Todos souberam das referências feitas na Índia e na China sem receber nenhuma confirmação merecida por tais notícias publicadas nos sites indianos.

Dada a abundância de detalhes e informações, reproduzimos o artigo de Dailyindia.net, cuja tradução segue logo abaixo:

Segundo notícias não confirmadas, Xi Jinping há muito tempo não se encontra nem sequer com os dirigientes máximos do PCCh, e pela primeira vez em dois anos Xi Jinping foi visto deixando o país ao participar da cúpula da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX) em Samarkand. Ao mesmo tempo, em junho deste ano também foi cancelada a visita de Xi Jinping à Arábia Saudita, para a qual Riad tanto tinha se preparado. Ao mesmo tempo, mesmo sendo um membro fundador da OCX, o líder chinês não participou ativamente da cúpula. Não fez nenhum discurso memorável na abertura da cúpula nem se encontrou com Narendra Modi ou outros líderes destacados da organização além de Putin. Porém, se recusou a participar do jantar com Putin e o motivo apresentado estava ligado à covid-19. Na sequência, foi revelado que Xi Jinping tinha acabado de partir para Pequim antes do encerramento oficial da cúpula da OCX. ufficiale del vertice SCO. Talvez estivesse preocupado e amedrontado com algo grave e assustador.

Milhares de pessoas estão escrevendo nas mídias sociais chinesas que Pequim tinha sido militarmente ocupada e que Xi Jinping tinha sido deposto, mas o mondo não tem ideia do que esteja ocorrendo, já que a cidade foi cortada do resto do mundo. Segundo o News Highland Vision, o ex-presidente chinês Hu Jintao e o ex-primeiro-ministro chinês Wen Jiabao tinham retomado o controle do Escritório Central de Segurança (ECS) do PCCh, satisfazendo ao ex-membro do Comitê Permanente, Song Ping. A função do ECS é fornecer segurança aos membros do Comitê Permanente do Birô Político do PCCh e a outros líderes do partido. O ECS também é responsável pela segurança do presidente chinês Xi Jinping, e se qualquer outra pessoa tomar o controle do ECS, isso é considerado um golpe de Estado militar.

Xi Jinping em prisão domiciliar em 16 de setembro? Embora ainda não tenha sido feito nenhum anúncio oficial, as mídias sociais chinesas, monituradas de perto pelo governo, receberam milhares de publicações sobre o golpe de Estado militar, indicando que algo não estava certo. Segundo o relato, não somente Hu Jintao e Wen Jiabao teriam retomado o controle do ECS, como também Jiang Zeng e membros do Comitê Central de Pequim teriam sido informados por telefone. sono stati informati telefonicamente. Os membros originários do Comitê Permanente teriam posto fim à autoridade militar de Xi Jinping bem naquele instante. Xi Jinping teria voltado a Pequim na noite de 16 de setembro, depois de ter sabido a verdade. Porém, teria sido preso no aeroporto e provavelmente segue agora em prisão domiciliar em Zhongnanhai.

O mapa do percurso já estaria pronto? Segundo relatos não confirmados, Hu Jintao teria tomado o controle do poder chinês e, se acreditarmos nas notícias, esse é um dos maiores incidentes na China desde a descoberta do coronavírus em 2019. Nos últimos dez dias, as reuniões políticas ocorreram a portas fechadas e em segredo absoluto. Nas notícias provindas da China, também foram dadas informações sobre tudo o que teria nos últimos dez dias. Esses dois vice-presidentes teriam chefiado a reunião de reforma do comitê de finalização em 8 de setembro, informou o FTI Global News. O presidente das operações, fiel a Xi, teria sido retirado da reunião. Enquanto esteve ali, o comandante Li Qiaoming, um general do EPL, teria se sentado no centro da primeira fila antes do palco para participar da reunião.

Como ocorreu o golpe de Estado na China? Segundo o FTA Global News, Hu Jintao e Wen Ki Song Ping teriam se encontrado quando o presidente estava fora do país para participar da cúpula da OCX e Wen teria sido convencido a agir contra Xi Jinping, que está se preparando para assegurar seu terceiro mandato no poder. Enquanto estava ali, Wen teria aceitado e então Xi Jinping teria sido mantido em custódia pelos seus próprios guardas do ECS. Os ex-líderes do PCCh teriam previsto que os lealistas de Xi Jinping sem dúvida usariam a força para evitar sua detenção, mas isso não teria ocorrido. Então, o comandante Li Qiaoming teria transformado Pequim em uma fortaleza militar. Um grande comboio de 80 km teria entrado em Pequim e todas as entradas possíveis para a cidade teriam sido fechadas. Segundo a fonte o EPL estaria bloqueando as rodovias, e no momento está se falando de prisão dos manifestantes. Quando as desordens em Pequim teriam sido notadas pela inteligência russa, a gigante energética russa Gazprom teria interrompido temporariamente o fluxo de gás para a usina do oleoduto Sibéria, que envia o gás russo à China. Embora a Rússia tenha justificado os cortes como “serviços de manutenção programada”, pode-se deduzir claramente que tenha feito isso em apoio a Xi Jinping como um protesto furioso.

Rebelião contra Xi Jinping? Além disso, os cidadãos chineses estão escrevendo nas mídias sociais da China que o aeroporto de Pequim teria cancelado mais de 6 mil voos domésticos e internacionais nos últimos dois dias. Ao mesmo tempo, as passagens do trem de alta velocidade também teriam sido canceladas, e desses trens, os que vão à capital chinesa teriam sido totalmente parados até segunda ordem. Horas depois, a aviação civil chinesa teria mandado as companhias aéreas com aviões Boeing Max retomarem as operações. Ao mesmo tempo, a defesa nacional teria sido discutida na reunião da Comissão Militar de 22 de setembro. Também estaria presente na reunião Shenyang Kang, que foi demitido pelo governo de Xi Jinping. Ao mesmo tempo, Li Qiaoming, que se ocupava da segurança do presidente, estaria de novo sentado no centro da primeira fila. Ao mesmo tempo, Song Ping, o mais antigo membro do PCCh, também estaria presente nesse encontro. Song, que tem 105 anos e é considerado um opositor de Xi Jinping, também teria levantado a voz contra Xi durante o encontro. Segundo o relato, Song Ping teria afirmado que o país devia sofrer uma transformação e se abrir ao mondo. Segundo ele, o PCCh deveria lhes dar prioridade máxima pelo bem da nação. Ao mesmo tempo, quase todos os líderes conhecidos do PCCh estariam presentes na sala da memória, exceto Xi Jinping e seu ministro do Exterior, Wang Yi.

Wang Yi se encontrou com Henry Kissinger. Ao mesmo tempo, o incidente recente mais suspeito foi a visita improvisada de Wang Yi, ministro do Exterior chinês, a Nova York. Encontrou-se com Henry Kissinger. Em 21 de setembro, enquanto Song Ping estaria externando seu protesto contra Xi Jinping, o ministro Wang Yi se encontrou com o ex-secretário de Estado americano. O ministro Wang Yi surpreendeu Kissinger por ocasião de seu iminente centésimo aniversário, descrevendo-o como um velho e com amigo do povo chinês. Kissinger tem proximidade com os membros veteranos do PCCh e deu uma contribuição histórica à instauração e desenvolvimento das relações entre China e EUA. Esse encontro improvisado não lança dúvidas sobre o real objetivo por trás disso? Contudo, nada está sendo revelado sobre o que está ocorrendo na China. Mas, com base no comportamento de Xi Jinping nos últimos dois anos, parece que Xi sempre tenha assumido que os veteranos do PCCh estivessem contra ele. Esses gigantes estavam exortando Xi a mudar seu comportamento intransigente. Contudo, a fome de poder de Xi foi inegavelmente obstada. Se esse relato for correto, então podemos dizer que o mandato de Xi terminou e que o ex-presidente Hu Jintao seria responsável por isso.

Termina aqui o artigo publicado pelo site indiano, mas nós mesmos também investigamos diretamente, sobretudo quanto à situação dos voos e trens no país.

Um artigo online publicado no The Epoch Times cita exatamente o cancelamento massivo de quase 60% dos voos na China. Mas o que pode realmente ter acontecido? Estão aparecendo no Twitter muitas imagens abordando a notícia, caso se trate realmente de uma notícia, já que tudo ainda resta a ser verificado. Uma dessas imagens parecia ter filmado um aparato militar entrando em Pequim [o vídeo citado de Jennifer Zeng]. Será verdade ou uma fake news? Em qualquer um dos casos, saberemos mais coisas nas próximas horas.



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Trio Pakai (música folclórica friuliana)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/pakai


Nova leva de vídeos do meu finado YouTube. Com base nesta playlist, e após editar os áudios (aumentando o volume, sobretudo), montei o presente vídeo com as melhores canções instrumentais, algumas com breves vocais, do antigo grupo Trio Pakai, especializado em música folclórica da região do Friuli, no norte da Itália. Não me limitei à gravação dos três músicos originais, e coloquei também os áudios que tinham outras pessoas cantando/tocando suas canções (covers) ou com estilo parecido. A música da região é muito parecida com a da Eslovênia, ambas por sua vez fortemente influenciadas pela cultura austríaca. Tanto que boa parte das faixas, sobretudo no final, parece muito com a chamada “música de bandinha” da Oktoberfest!

Seguem abaixo os nomes das faixas, com os momentos do vídeo em que elas começam. Arbitrariamente escolhi quais seriam as três primeiras, e deixei no fim as não executadas pelo Trio Pakai. As outras posicionei de acordo com a ordem em que apareciam na playlist original. Com todas as limitações que meu trabalho pode ter, sobretudo na busca por informações lacunares, espero que você aproveite, e viva a música do Friuli, e também do Vêneto!

00:00 Slovenska polka
2:34 L’agho di Ludario
6:30 Melodia slovena
9:15 Mont da Sûdri
11:12 Valzer popolare
13:29 Zoventût
15:15 Valzer di Pakai
17:12 Sere d’estât
19:25 Primavera in Carnia
22:04 La pesarina
24:52 La serenade dal pastôr
27:06 La vôs da mê valade
29:17 La polka da mê int
31:20 In chêdì da las mês gnoços
34:30 Gnoçis
36:47 Fieste
39:13 Fantastico gaithal
42:29 Cence pinsîrs
45:16 Allegro Friuli
47:17 Al tramont
49:27 Sagre in pais
51:25 Trio Pakai ai Mistirs (2009, música não identificada)
55:13 Baronadis (cover)
57:56 Come une volte (cover)
59:50 evento nomeado “Un’allegra serata nelle Valli del Natisone”
1:03:21 Bo (grupo I rapeciaz no programa Lo scrigno)
1:05:59 Ma (idem)
1:09:14 Un biel fiascut (idem)



Enquanto procurava as mesmas canções do antigo Trio Pakai, originário da região italiana do Friuli (hoje Friuli-Venezia Giulia), achei também este vídeo gravado ao vivo em 6 de outubro de 2019, intitulado na língua friuliana Una domenia in alegrìa cun Pakai e amîs (Um domingo de alegria com Pakai e amigos). Embora os músicos originais não estivessem lá, decidi pegar o áudio e editar deixando apenas as partes tocadas e cantadas, muitas delas com sucessos do Trio Pakai, mas também com músicas de outras regiões, como a célebre eslovena Na Golici!

Por isso as fotos são idênticas às da montagem anterior. Se você se interessar pelos momentos em que há diálogos claramente falados em friuliano, pode sem hesitar recorrer ao vídeo original. Quem souber francês, talian/vêneto ou alguma língua românica vizinha, perceberá a presença de muitas palavras e expressões em comum! Em todo caso, espero que goste da nova montagem e se divirta mais uma vez.



quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Música eslovena, holandesa, húngara...


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Mais uma publicação que é um pretexto pra ressuscitar outros vídeos que eu tinha lançado no meu extinto canal do YouTube, e aos quais agora dou aqui uma unidade conceitual, com a ocasião de mostrar também os textos informativos que eu tinha inserido na descrição. Hoje vai ser muito legal, porque são canções instrumentais de vários lugares da Europa, com destaque pra Eslovênia, da qual é raro acharmos algo naquela plataforma usando apenas o português!



Achei muito por acaso o canal esloveno IMA NADE GROBNIK, que ainda tem muito poucos escritos e visualizações, mas quase diariamente posta um tesouro escondido: muita música folclórica e popular da Eslovênia (antiga e moderna) sem nenhuma propaganda interrompendo (há raras exceções). Esta é a playlist original, mas executando as canções em ordem inversa à que pus no vídeo. Você pode ver inclusive os títulos, com clássicos nacionais como Na Golici e Na avtocesti.

Pelo que consta, a banda em questão se chama Lady Luna, e esta é a gravação em áudio de um show que eles dizem ter sido ao vivo, dado na cidade eslovena de Boljun (Bogliuno, em italiano) em 2006. Não pesquisei mais sobre o grupo nem sobre o evento, mas espero que você aproveite essa música tão animada. Precisamos regar as veias da cultura brasileira com sangue novo!



Uma hora e vinte minutos de música instrumental eslovena tocada em acordeão, extraída de uma fita antiga republicada no YouTube.


Uma hora e meia de música folclórica holandesa. Retiradas de dois CDs antigos, fora de circulação, comprados na cidade de Holambra, SP, que trazem as principais canções (em geral instrumentais) tocadas e dançadas nas apresentações da Expoflora, que se realiza em agosto e setembro de todos os anos nessa cidade. Infelizmente estou sem os títulos das faixas comigo.


Música e dança folclóricas da Hungria, filmadas em Budapeste, capital do país, pelo visitante David McWilliams, que postou o vídeo no YouTube após selecionar os melhores momentos.


O kolo (literalmente “anel, roda”), uma dança de fato executada em roda, dançada numa festa de casamento provavelmente de muçulmanos na cidade de Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegóvina, em novembro de 2018. Eu baixei sem mudanças do YouTube, mas infelizmente perdi o endereço da fonte. Os “bósnios” na verdade são etnicamente sérvios ou croatas, mas apenas a religião muçulmana, herança da dominação otomana, que é diferente.


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Nasser, Gaddafi, Saddam: chefia árabe


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Esta publicação é um pretexto pra ressuscitar mais três vídeos que eu tinha lançado no meu extinto canal do YouTube, e aos quais agora dou aqui uma unidade conceitual, com a ocasião de mostrar também os textos informativos que eu tinha inserido na descrição.

Primeiro, várias filmagens reunidas, feitas nos anos de 1969 e 1970, em eventos com a rara participação conjunta de Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito que derrubou a monarquia em 1952 e controlou o país até a morte, e Muammar Gaddafi, militar que depôs o rei da Líbia em 1969 e liderou um regime peculiar até ser assassinado em 2011. Embora os encontros tenham sido frequentes em 1970, por causa das ideologias que os aproximavam, digo que foram “raros” porque Gaddafi ascendeu ao poder em 1969, e Nasser logo teria um infarto fulminante em 1970.

O legado dos dois governantes ainda é muito discutido, mas sem dúvida eles colaboraram pra que seus países conhecessem um desenvolvimento jamais visto em suas histórias e tivessem ainda relevante papel nas relações internacionais. Considerados ditadores pelo Ocidente, seus povos continuam os venerando, sobretudo Nasser, que era muito carismático e não tão excêntrico quanto Gaddafi. Reuni alguns vídeos que consegui achar no YouTube, e tirei o áudio de alguns porque podia ter problemas com direitos autorais das músicas de fundo.

O primeiro é provavelmente o mais antigo e que me levou a continuar a série, e tentei o quanto possível colocar em ordem cronológica. Seguem as fontes, que não estão nessa ordem e uma das quais (não sei qual) me esqueci de inserir na montagem:

http://youtu.be/Rc65-48iTac
http://youtu.be/CGURHWsfGWc
http://youtu.be/1RJO-0bQE98
http://youtu.be/k7kHfqp7Wr0
http://youtu.be/yHovguFusVI
http://youtu.be/2TyzkWo9JUw
http://youtu.be/l92ZFXlEmVA
http://youtu.be/oB1DvO7SUsE



Encontrei estes vídeos por acaso, num canal iraquiano com muito material raro sobre a TV do Iraque em décadas anteriores à derrubada de Saddam Hussein. Eu fundi a parte 1 e a parte 2, tendo também cortado o quadro e tirado uns trechos com chegadas, falatórios e orações. Após passar os títulos, descrições e alguns comentários no Google Tradutor, concluí que talvez seja uma grande comemoração em Bagdá da reconstrução, após 4 meses de trabalho, da cidade de Faw (ou Al-Faw), localizada no estreito litoral que dá no golfo Pérsico e bem na fronteira com o Kuwait.

Durante a guerra contra o Irã (1980-88), a cidade de Faw, importante e estratégico porto costeiro, foi quase toda destruída, e depois acabou sendo toda remodelada. Nos referidos festejos, em que também podem se ver o rei Hussein (Jordânia), os presidentes Ali Abdullah Saleh (Iêmen), Omar Bashir (Sudão), Hosni Mubarak (Egito) e Yasser Arafat (Autoridade Palestina), há demonstrações bélicas e, sobretudo, um grande show cultural e musical mais pra frente, praticamente uma celebração da “unidade pan-árabe” (atenção à música típica que aos 39 min 20 seg começa a tocar).

Há ainda uma terceira parte que, por ter sido achada e editada bem depois, está com o design diferente e, portanto, decidi não colocar junto. Ao contrário do vídeo anterior, este contém os selos de quem editou e postou primeiro. Usando as informações traduzidas do árabe, cheguei a esta notícia da Associated Press que, se está certa, anuncia as celebrações por Faw pra 25 de outubro de 1989.

O presidente “baathista” Saddam Hussein invadiria o Kuwait no ano seguinte pra anexar toda a saída ao mar, mas seria derrotado pela coalizão internacional liderada pelos EUA em 28 de fevereiro de 1991. As grandes mãos que seguram espadas ao fundo se chamam comumente “Arco da Vitória” (Qaws an-Nasr), e foram construídas entre 1986 e 1989 pra homenagear os soldados mortos na guerra contra o Irã. Até hoje são a maior atração turística de Bagdá, mas imagino que realmente Saddam não tinha nada mais útil pra construir no Iraque...



Encontrei este vídeo por acaso, num canal iraquiano maravilhoso com muitíssimo material raro sobre a TV do Iraque em décadas anteriores à derrubada de Saddam Hussein. É a parada militar completa, ocorrida em Bagdá, do Dia do Exército, comemorado até hoje no Iraque todo 6 de janeiro. Como convidados especiais junto ao ditador, temos os reis Fahd da Arábia Saudita (de amarelo) e Hussein da Jordânia (de terno).

A edição do vídeo, do qual cortei o quadro e tirei uns trechos com chegadas, falatórios e orações, data de 1990, exatamente o mesmo ano em que o presidente Saddam Hussein, cujo regime similar ao da família Assad na Síria era chamado “baathismo”, invadiu o Kuwait pra anexar essa saída ao mar do golfo Pérsico. Como eu já disse acima, a invasão se iniciaria em 2 de agosto, mas o Iraque seria derrotado pela coalizão internacional liderada pelos EUA em 28 de fevereiro de 1991.

Como disse um antigo inscrito meu do YouTube: o Saddam dessa época tá parecendo o Nicolás Maduro com esse bigodão preto, rs.



sábado, 17 de setembro de 2022

Jogo da memória (alfabeto glagolítico)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/glagolitico


Eu criei este inusitado joguinho da memória em janeiro de 2018 e o deixei guardado por quase três anos, até que em 27 de dezembro de 2020 finalmente “tomei coragem” pra gravar um vídeo apresentando-o e explicando-o. Ele foi originalmente postado no YouTube, mas como meu canal foi derrubado, estou o republicando aqui.

Cada peça, que vem em pares iguais, contém uma letra do alfabeto glagolítico, presumidamente criado no fim do século 9 pelos monges Constantino (Cirilo) e Metódio pra escrever a língua eslava antiga de evangelização dos eslavos na Grã-Morávia. Inseri seus supostos nomes, equivalentes em cirílico e valores numérico e fonético. Criei o jogo como uma espécie de meio pra memorizar esta inusitada escrita antiga, e pra que mais pessoas pudessem conhecê-la.

Baixe aqui caso você se interesse pelo modelo original em formato PDF. Porém, você mesmo vai ter que completar com as partes que foram feitas a caneta!

NOTA: As observações sobre comentários abertos e pedidos de opiniões se inserem no contexto de quando o vídeo tinha sido publicado primeiramente no meu extinto canal do YouTube. É dentro disso que devem ser entendidos.



quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Festa de santa Catarina de Alexandria


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/zejtun


Como tenho tido muita curiosidade sobre a história, cultura e língua do pequeno arquipélago de Malta ultimamente, acabei encontrando dois belos vídeos que mostram trechos da popular festa em louvor a santa Catarina de Alexandria, celebrada na cidade de Żejtun todo terceiro domingo de junho. Resolvi postar aqui porque além de ser visualmente bonito, as bandas marciais que tocam na ocasião também são muito agradáveis. Malta já foi um domínio árabe, siciliano, francês, italiano e inglês, e hoje constitui um país independente, o único pertencente à União Europeia a ter uma língua semítica como oficial.

De fato, a língua maltesa tem um núcleo estrutural e gramatical semítico, descendendo do siculo-árabe, ou seja, uma variante do árabe falada na Sicília quando ela teve domínio islâmico, em meados da Idade Média. Com a mudança de muitos habitantes sicilianos pra ilha de Malta, a língua deles também foi levada pra lá, mas quando a região foi cristianizada, a ligação do siculo-árabe com o resto do mundo islâmico foi cortada. Por isso, apenas 1/3 do vocabulário maltês atual tem origem árabe, aliás muito parecido com o dialeto tunisiano. Metade das palavras se originam do italiano, e o resto tem origem inglesa (sobretudo) e francesa, refletindo outras dominações a partir do século 19.

Malta é pequenininha, mas tem muitas igrejas e atrações turísticas, e o povo de lá é muito orgulhoso de sua identidade católica. Santa Catarina de Alexandria, que também é muito celebrada em outros países e até por confissões ortodoxas e pelos coptas, é padroeira da cidade de Żejtun (se lê “zeytún”), onde tem uma bela paróquia com igreja. Estas imagens foram gravadas em 2019, e infelizmente, em 2020 a festa que reúne multidões foi cancelada por causa da pandemia. Vídeos originais por ordem cronológica (o canal também registra outras festas católicas locais):

http://youtu.be/4RAGOAwiBko
http://youtu.be/U4mcdaeLQeo



Como brinde, também ofereço algumas marchas tocadas pelas referidas bandas, em homenagem à santa, que postei no meu extinto canal do YouTube! Infelizmente não sei mais de que vídeos tirei os áudios, mas apenas do primeiro eu guardei o endereço, porque achei mais recentemente e inseri numa nova edição de minha montagem. Baixe aqui também o áudio MP3 com todas as músicas, caso queira ouvir em separado. Bom divertimento!



terça-feira, 13 de setembro de 2022

Morte da rainha pode ser mau agouro


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/morte-rainha

Esta edição do programa de entrevistas francês C dans l’air (Está no ar), geralmente apresentado pela jornalista Caroline Roux, me deixou espantado em retrospectiva. O título da transmissão faz alusão ao fato de Liz Truss, sucessora de Boris Johnson no comando do Reino Unido, apresentar-se como uma nova Margaret Thatcher, mas o foco das conversas é a crise econômica, social e política que atravessa o país, e em dado momento, chega a pergunta de um telespectador, sobre os perigos desses abalos pra sobrevivência da monarquia.

Uma das jornalistas participantes responde que a crise em si não apresenta perigo pra monarquia, mas que a morte da rainha poderia sacudir bastante a sociedade britânica. Isso foi no dia 5 de setembro, e no dia 8 falecia Elizabeth 2.ª, a soberana que parecia imortal. Achei o mau agouro tão interessante que decidi separá-lo e traduzi-lo aqui, seguido da transcrição em francês. Apenas numa palavra entre colchetes fiquei em dúvida se a primeira jornalista falou isso mesmo, mas não prejudica o todo. Obviamente, é esta que fala a maior parte, mas decidi colocar a resposta de ambas, porque traz informação instrutiva e pra não tirar de contexto a frase da segunda.

Vamos ver se a profecia vai se cumprir...


Caroline Roux – Pergunta de Dominique, do departamento de Yvelines: “A crise no Reino Unido poderia desestabilizar a monarquia inglesa?”

Anne-Élisabeth Moutet – Não, provavelmente não, não é isso que vai desestabilizar a monarquia inglesa. Só se o príncipe Andrew continuar pensando que pode ocupar o centro das atenções, não é bom. Mas é que nesse caso dizem: “Espera-se da família real uma moralidade absoluta, a mesma da rainha, e quando um de seus filhos não a tem, é algo que choca”. Mas pelo contrário, o símbolo da rainha é o símbolo de alguém frugal, mesmo se ela mora num palácio de 360 cômodos, que apaga a luz quando sai do cômodo em que está, que baixa a temperatura – porque em todo caso a calefação central não é algo de sua geração. E acho que não, pelo contrário, a monarquia, assim como a covid, vai unir as pessoas, e provavelmente, aliás, vai haver gestos tanto da rainha quanto do príncipe Charles – que está se aproximando, mesmo devagar, do trono e que fundou há muito tempo uma instituição de caridade que é mais do que isso e que trabalha pra dar oportunidades a jovens desfavorecidos. É algo que educa até os 30 anos, o Prince’s Trust. Portanto, não, pelo contrário, isso vai manter uma certa coesão no país.

Marion Van Renterghem – De fato, acho que a crise não pode desestabilizar a monarquia. Em contrapartida, acho que a morte da rainha pode desestabilizar consideravelmente a sociedade britânica.


Caroline Roux – Question de Dominique, dans les Yvelines : “La crise au Royaume-Uni pourrait-elle déstabiliser la monarchie anglaise ?”

Anne-Élisabeth Moutet – Non, probablement pas, c’est pas ça qui va déstabiliser la monarchie anglaise. C’est si le prince Andrew continue à penser qu’il peut venir sur le devant de la scène, c’est pas bien. Mais, parce que là on dit : “On attend de la famille royale une moralité absolue, qui est celle de la reine, et quand l’un de ses enfants ne l’a pas, ça c’est quelque chose qui choque”. Mais au contraire, le symbole de la reine, c’est le symbole de quelqu’un de frugal, même si elle vit dans un palais de 360 (trois-cent-soixante) pièces, qui ferme la lumière quand elle quitte la pièce où elle est, qui fait baisser la température – parce que de toute façon le chauffage central, c’est pas quelque chose de sa génération. Et je pense que non, au contraire, la monarchie, comme pour le covid, va rassembler les gens, et il y aura probablement des gestes d’ailleurs, et de la reine, et du prince Charles – qui se rapproche, même lentement, du trône et qui a créé depuis très longtemps un organisme charitative qui est plus que ça et qui s’occupe de donner des chances à des jeunes défavorisés. Ça c’est quelque chose qui [élève] 30 (trente) ans, le Prince’s Trust. Et donc non, au contraire, ça va garder une certaine cohésion au pays.

Marion Van Renterghem – Je pense que la crise, en effet, ne peut pas déstabiliser la monarchie. En revanche, je pense que la mort de la reine peut déstabiliser la société britannique considérablement.



domingo, 11 de setembro de 2022

Putin curte mais o Jair que o Charles


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/putin-charles

Vamos comparar três telegramas que Vladimir Putin mandou nos últimos dias, já que ele não usa Twitter e ainda se vale desse precioso meio de comunicação pra fugir das tretas. Em ordem cronológica, um dá os parabéns a Jair Bolsonaro pelos 200 anos da proclamação da independência do Brasil, outro dá as condolências ao agora rei britânico Charles 3.º pela morte de sua longeva mãe e o terceiro dá os parabéns ao mesmo por assumir a coroa do Reino Unido.

Eu mesmo traduzi os três, e podemos observar como a mensagem ao presidente brasileiro, além de ser mais longa, parece mais calorosa, já que a Rússia e a Europa Ocidental como um todo não estão nos seus melhores momentos diplomáticos. Engraçado também é o nome do presidente transcrito em russo, no caso gramatical dativo, ou seja, “Jairu Messiasu Bolsonaro”, e o nome de Charles constar como Karl na língua russa (também no dativo, “Karlu”). Por fim, observe que o fuso de Moscou está seis horas à frente do nosso.



A Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil
Felicitações – 7 de setembro de 2022, 9h de Moscou

Estimado senhor Presidente,

Aceite minhas mais calorosas felicitações pelos 200 anos da proclamação da independência do Brasil.

Seu país é um membro extremamente prestigioso da comunidade internacional, desempenha um papel importante na economia mundial e participa ativamente das decisões de muitas questões atuais da ordem do dia regional e global.

As relações russo-brasileiras portam um caráter amistoso, como foi plenamente confirmado por nossas conversações de fevereiro em Moscou. Estão dando um bom retorno a colaboração bilateral em diversas áreas e a cooperação no âmbito da ONU, dos BRICS, do G-20 e de outras estruturas multilaterais.

Estou confiante em que, com esforços conjuntos, garantiremos a contínua expansão da parceria estratégica entre a Rússia e o Brasil em proveito de nossos povos.

Desejo-lhe sinceramente sucesso e muita saúde, e a todos seus concidadãos, felicidade e prosperidade.

Respeitosamente,

Vladimir Putin


À Sua Majestade, o Rei Charles 3.º
Condolências – 8 de setembro de 2022, 22h45min de Moscou

Majestade,

Aceite minhas profundas condolências pelo falecimento da Rainha Elizabeth 2.ª.

Com o nome de Sua Majestade [a Rainha] estão indissociavelmente ligados os mais importantes acontecimentos da história contemporânea do Reino Unido. No decorrer de muitas décadas, Elizabeth 2.ª desfrutou legitimamente do amor e do respeito de seus súditos, bem como da autoridade no cenário mundial.

Desejo-Lhe coragem e firmeza em face dessa pesada e irreparável perda. Peço que transmita minhas palavras de sentimentos e apoio sinceros aos membros da família real e a todo o povo da Grã-Bretanha.

Respeitosamente,

Vladimir Putin


À Sua Majestade, Charles 3.º, Rei do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Felicitações – 10 de setembro de 2022, 13h35min de Moscou

Majestade,

Aceite minhas sinceras felicitações por ocasião de Sua ascensão ao trono.

Desejo a Vossa Majestade sucesso, muita saúde e tudo de melhor.

Respeitosamente,

Vladimir Putin



E olha que o monarca já comparou Putin ao Adolfinho!

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Primeiro discurso do rei Charles 3.º


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Este foi o discurso transmitido pela TV britânica em 9 de setembro de 2022, um dia após a morte da rainha Elisabeth (Isabel) 2.ª aos 96 anos de idade, feito pelo príncipe herdeiro Charles, que desde então passou a ser conhecido como Charles (Carlos) 3.º. O evento é considerado histórico, pois Elisabeth foi a monarca que mais reinou na história da Inglaterra e do Reino Unido, não havendo transição desde 1952 (a coroação foi no ano seguinte), ou seja, antes até da morte de Stalin.

A transmissão ao vivo ocorreu do Palácio de Buckingham às 18h de Londres, 14h de Brasília, e segue abaixo a gravação publicada pelo Washington Post, com Charles visivelmente emocionado. Eu mesmo traduzi direto do inglês usando esta transcrição, que também segue abaixo porque não tenho certeza se um dia a fonte não sai do ar. Me permiti algumas liberdades quanto a pontuação e uso de maiúsculas. Fiz também algumas notas explicativas, às vezes quanto a minhas opções de tradução, mas se tiver alguma sugestão ou correção, não heiste em me mandar um WhatsApp.


Hoje me dirijo a vocês com sentimentos de profundo pesar. Por toda a sua vida, Sua Majestade a Rainha, minha amada mãe, foi para mim e para toda minha família uma inspiração e exemplo. E guardamos para com ela a mais sincera dívida que qualquer família poderia guardar à sua mãe, por seu amor, afeição, orientação, compreensão e exemplo. A rainha Elizabeth teve uma vida bem vivida, cumpriu sua promessa com o destino e está recebendo o mais profundo luto por seu falecimento. Essa promessa de servir por toda a sua vida eu renovo hoje a vocês.

Além da dor pessoal que toda minha família está sentindo, também partilhamos com tantos de vocês no Reino Unido, em todos os países onde a rainha era chefe de Estado, na Commonwealth e ao redor do mundo, um profundo sentimento de gratidão pelos mais de setenta anos em que minha mãe, como rainha, serviu ao povo de tantas nações.

Em 1947, quando completou vinte e um anos de idade, ela prometeu, em uma transmissão a partir da Cidade do Cabo para a Commonwealth, dedicar sua vida, por mais curta ou longa que fosse, a serviço de seus súditos. Essa foi mais do que uma promessa. Foi um compromisso profundo e pessoal que definiu sua vida inteira. Ela fez sacrifícios pelo dever. Sua dedicação e devoção como soberana nunca vacilaram, através de tempos de mudança e progresso, através de tempos de alegria e celebração e através de tempos de tristeza e perda. Em sua vida de serviço, vimos esse persistente amor pela tradição, junto com sua aceitação destemida do progresso, o que nos faz grandes como nações. O afeto, admiração e respeito que ela inspirava tornaram-se marca registrada de seu reinado, e como cada membro da família pode atestar, ela combinava essas qualidades com a simpatia, o humor e uma infalível habilidade de sempre ver o melhor em cada pessoa.

Presto tributo à memória de minha mãe e honro sua vida de serviço. Sei que sua morte traz uma grande tristeza para muitos de vocês, e eu partilho desse sentimento de perda, além da medida, com todos vocês. Quando a rainha acedeu ao trono, a Grã-Bretanha (1) e o mundo ainda estavam superando as privações e consequências da Segunda Guerra Mundial, e vivendo ainda sob as convenções de tempos passados. Ao longo dos últimos setenta anos, vimos nossa sociedade tornar-se um mosaico de culturas e fés. Em resposta, as instituições de Estado transformaram-se. Mas, por entre todas as mudanças e desafios, nossa nação e a família mais ampla dos países da Commonwealth, (2) por cujos talentos, tradições e conquistas nem sequer sei como expressar meu orgulho, prosperaram e floresceram. Nossos valores permaneceram, e devem permanecer, constantes.

O papel e os deveres da monarquia também permanecem, assim como a relação e responsabilidade particulares do soberano para com a Igreja da Inglaterra, (3) a igreja em que minha própria fé está tão profundamente enraizada. Nessa fé e nos valores que ela inspira, fui educado para nutrir um senso de dever para com os outros e para manter com o máximo respeito as preciosas tradições, liberdades e responsabilidades de nossa história inigualável e de nosso sistema parlamentar de governo. Assim como a própria rainha fez com inquebrantável devoção, eu mesmo também prometo agora solenemente, através do tempo restante que Deus me conceder, sustentar os princípios constitucionais no coração de nossa nação. E onde quer que vocês possam viver no Reino Unido, nos países da Commonwealth ou nos territórios ao redor do mundo, e qualquer que seja sua origem ou crença, farei de tudo para servir-lhes com lealdade, respeito e amor, assim como fiz por toda a minha vida.

Obviamente minha vida mudará assim que eu assumir minhas novas responsabilidades. Não me será mais possível dedicar tanto do meu tempo e energia à caridade e assuntos pelos quais me preocupo tão profundamente. Mas sei que esse importante trabalho passará para outras mãos confiáveis. Este também é um tempo de mudança para minha família. Conto com a ajuda amorosa de minha querida esposa, Camilla. Em reconhecimento a seu próprio serviço público leal desde que nos casamos, há dezessete anos, ela se tornará minha rainha consorte. Sei que ela trará às exigências de seu novo papel a incansável devoção ao dever com a qual tanto posso contar.

Como meu herdeiro, William agora assume os títulos escoceses que tanto significaram para mim. Ele me sucederá como Duque da Cornualha e assumirá as responsabilidades para o Ducado da Cornualha que detive por mais de cinco décadas. Hoje tenho o orgulho de investi-lo como Príncipe de Gales, Tywysog Cymru, (4) o país cujo título fui tão privilegiado de portar, durante tanto tempo de minha vida e ofício. Com Catherine a seu lado, sei que nossos novos Príncipe e Princesa de Gales continuarão inspirando e liderando nossas conversações nacionais, ajudando a aproximar as áreas remotas da zona central, onde podem receber ajuda para viver. Quero também expressar meu amor por Harry e Meghan, que continuam a construir suas vidas no exterior.

Em pouco mais de uma semana, estaremos unidos, como nação, como Commonwealth, e de fato como uma comunidade global, para sepultar minha amada mãe. Em nosso pesar, recordemos e tiremos forças da luz de seu exemplo. Em nome de toda minha família, posso oferecer apenas os mais sinceros e cordiais agradecimentos pelas condolências e apoio de vocês. Eles significam para mim mais do que eu possa expressar de qualquer forma.

E à minha querida mamãe, que está começando sua última grande viagem para juntar-se a meu finado papai querido, quero dizer simplesmente: obrigado. Obrigado por seu amor e devoção à nossa família e à família de nações a que você serviu com tanta diligência por todos esses anos. Que “anjos em revoada cantem para o teu descanso”. (5)

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I speak to you today with feelings of profound sorrow. Throughout her life, Her Majesty The Queen – my beloved Mother – was an inspiration and example to me and to all my family, and we owe her the most heartfelt debt any family can owe to their mother; for her love, affection, guidance, understanding and example. Queen Elizabeth was a life well lived; a promise with destiny kept and she is mourned most deeply in her passing. That promise of lifelong service I renew to you all today.

Alongside the personal grief that all my family are feeling, we also share with so many of you in the United Kingdom, in all the countries where The Queen was Head of State, in the Commonwealth and across the world, a deep sense of gratitude for the more than seventy years in which my Mother, as Queen, served the people of so many nations.

In 1947, on her twenty-first birthday, she pledged in a broadcast from Cape Town to the Commonwealth to devote her life, whether it be short or long, to the service of her peoples. That was more than a promise: it was a profound personal commitment which defined her whole life. She made sacrifices for duty. Her dedication and devotion as Sovereign never wavered, through times of change and progress, through times of joy and celebration, and through times of sadness and loss. In her life of service we saw that abiding love of tradition, together with that fearless embrace of progress, which make us great as Nations. The affection, admiration and respect she inspired became the hallmark of her reign. And, as every member of my family can testify, she combined these qualities with warmth, humour and an unerring ability always to see the best in people.

I pay tribute to my Mother’s memory and I honour her life of service. I know that her death brings great sadness to so many of you and I share that sense of loss, beyond measure, with you all. When The Queen came to the throne, Britain and the world were still coping with the privations and aftermath of the Second World War, and still living by the conventions of earlier times. In the course of the last seventy years we have seen our society become one of many cultures and many faiths. The institutions of the State have changed in turn. But, through all changes and challenges, our nation and the wider family of Realms – of whose talents, traditions and achievements I am so inexpressibly proud – have prospered and flourished. Our values have remained, and must remain, constant.

The role and the duties of Monarchy also remain, as does the Sovereign’s particular relationship and responsibility towards the Church of England – the Church in which my own faith is so deeply rooted. In that faith, and the values it inspires, I have been brought up to cherish a sense of duty to others, and to hold in the greatest respect the precious traditions, freedoms and responsibilities of our unique history and our system of parliamentary government. As The Queen herself did with such unswerving devotion, I too now solemnly pledge myself, throughout the remaining time God grants me, to uphold the Constitutional principles at the heart of our nation. And wherever you may live in the United Kingdom, or in the Realms and territories across the world, and whatever may be your background or beliefs, I shall endeavour to serve you with loyalty, respect and love, as I have throughout my life.

My life will of course change as I take up my new responsibilities. It will no longer be possible for me to give so much of my time and energies to the charities and issues for which I care so deeply. But I know this important work will go on in the trusted hands of others. This is also a time of change for my family. I count on the loving help of my darling wife, Camilla. In recognition of her own loyal public service since our marriage seventeen years ago, she becomes my Queen Consort. I know she will bring to the demands of her new role the steadfast devotion to duty on which I have come to rely so much.

As my Heir, William now assumes the Scottish titles which have meant so much to me. He succeeds me as Duke of Cornwall and takes on the responsibilities for the Duchy of Cornwall which I have undertaken for more than five decades. Today, I am proud to create him Prince of Wales, Tywysog Cymru, the country whose title I have been so greatly privileged to bear during so much of my life and duty. With Catherine beside him, our new Prince and Princess of Wales will, I know, continue to inspire and lead our national conversations, helping to bring the marginal to the centre ground where vital help can be given. I want also to express my love for Harry and Meghan as they continue to build their lives overseas.

In a little over a week’s time we will come together as a nation, as a Commonwealth and indeed a global community, to lay my beloved mother to rest. In our sorrow, let us remember and draw strength from the light of her example. On behalf of all my family, I can only offer the most sincere and heartfelt thanks for your condolences and support. They mean more to me than I can ever possibly express.

And to my darling Mama, as you begin your last great journey to join my dear late Papa, I want simply to say this: thank you. Thank you for your love and devotion to our family and to the family of nations you have served so diligently all these years. May “flights of Angels sing thee to thy rest”.


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) É sempre bom lembrar: Reino Unido compreende todo o Estado monárquico, ou seja, a Grã-Bretanha e a Irlanda do Norte, mais os domínios ultramarinos; Grã-Bretanha é a porção de terra que inclui apenas Inglaterra, Escócia e País de Gales, e não as duas Irlandas; e Ilhas Britânicas é o conjunto geográfico que inclui a porção europeia do Reino Unido e a República da Irlanda. Às vezes também se usa o adjetivo “britânico” (ou mesmo “inglês”, embora mais específico) em referência ao Reino Unido em geral.

(2) “Paíse(s) da Commonwealth” foi a melhor forma que encontrei de traduzir a expressão “realm(s)”. Além disso, dada sua particularidade histórico-política, decidi não traduzir Commonwealth, nem como “Comunidade” ou “Comunidade Britânica de Nações”.

(3) Também conhecida como Igreja Anglicana, fundada pelo rei Henrique 8.º e cujo chefe é o próprio monarca britânico.

(4) Expressão em língua galesa, língua céltica nativa do País de Gales (Wales em inglês, Cymru em galês), e não germânica, como o inglês.

(5) Expressão extraída de Hamlet, peça de William Shakespeare, aqui na tradução/adaptação que achei aleatoriamente no Google Livros feita por Júlio Emílio Braz (Jandira, Editora Principis, 2021).



domingo, 4 de setembro de 2022

Porta-voz de Putin fala de Gorbachov


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Encerrando nossa série em memória de Mikhail Gorbachov, último líder da extinta União Soviética (URSS) e seu primeiro e único presidente (cargo criado como consequência de suas reformas fracassadas), apresento minha tradução a esta resposta dada à pergunta de um repórter por Dmitri Peskov, secretário de imprensa do Kremlin e porta-voz do presidente russo Vladimir Putin. Decidi traduzir porque também achei interessante como documento histórico sobre a relação tensa e ambígua do putinismo com essa época de reformas (Gorbachov e Ieltsin), a se notar pelo jeito balbuciante com que Peskov tenta fornecer um argumento.

Obviamente que o porta-voz do invasor da Ucrânia, devendo refletir em alto grau a opinião do governo, não podia rasgar-se em elogios ao ex-dirigente, mas também não podia “meter o pau”, já que, segundo consta, uma geração de jovens está estudando sozinha a história e tirando suas próprias conclusões. Porventura, jamais saberemos o que Peskov realmente pensa, e como ele viveu aquela parte tão turbulenta do que ele chama de “nossa grande história”.

A melhor transcrição, que pelo menos não exponha só fragmentos da fala, foi publicada pelo jornal Komsomolskaia pravda, e eu apenas preenchi com a tradução direta de alguns trechos orais que não constavam no site. O vídeo de Peskov sem legendas, que também segue abaixo, foi publicado no canal do jornal russo Kommersant. E no final, um presente: o vídeo de propaganda gravado em 2005, que fica na página inicial do site do Fundo Gorbachov, que resgatei caso os donos tirem do ar. Tem legendas em inglês, não tive tempo de traduzir.


Falecido ontem, Mikhail Sergeievich Gorbachov foi um homem de Estado que vai ficar pra sempre na história de nosso país. Muitos disputam sobre o papel que ele desempenhou. Mas que ele foi uma pessoa extraordinária, uma pessoa única, isso é ponto pacífico. Ele é conhecido e lembrado, e será lembrado, no mundo todo.

Também há muitas disputas. Por exemplo, a conclusão da guerra fria. Sim, Gorbachov impulsionou a conclusão da guerra fria, e ele quis crer sinceramente que quando ela terminasse, começaria um eterno período de romance entre a nova URSS e o chamado “Ocidente coletivo”. Esse romance não se concretizou, não se obteve nenhum romance nem o século de lua de mel: a sede de sangue de nossos oponentes ficou escancarada. Que bom que isso foi reconhecido e entendido a tempo.

Hoje de manhã o presidente enviou um telegrama de condolências aos familiares e amigos de Gorbachov. Essa é realmente uma grande perda pra todos nós.

Quanto à força da convicção, a história não se conjuga no modo subjuntivo. Por isso, argumentar se fosse assim, se hoje tudo fosse diferente, se fosse assado, isso não existe. Só podemos e devemos conhecer nossa história em detalhes, cada um terá seu ponto de vista sobre o que foi bom, o que foi ruim e o que falhou.

Mas em todo caso, tudo isso é nossa história, da qual você e eu nos orgulhamos e vamos sempre nos orgulhar. Porque essa é uma grande história.