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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A música popular brasileira em russo


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No final de junho, fiz uma das maiores inovações em minha carreira cultural. Eu já tinha feito traduções poéticas do russo, bielo-russo e ucraniano pro português, e cheguei a legendar algumas canções brasileiras em russo, mas traduzidas literalmente (ou quase). Como vocês também sabem, sempre gostei de compor poesia diretamente em esperanto ou traduzir musicalmente canções brasileiras pro esperanto. A única tradução artística que eu tinha escrito (e cantado!) do português pra um idioma estrangeiro foi uma esquecida versão de 2012 em esperanto e interlíngua do então hit de Michel Teló Ai, se eu te pego. Na época, eu tinha Facebook, e me lembro que até os sérvios estavam debatendo-o na internet e cantando na TV!

No final de junho agora, como um jeito de “descansar mentalmente” do trabalho de fim de semestre que eu estava fazendo pro doutorado, comecei de súbito a mentalizar, enquanto passeava no jardim de casa ou fazia tarefas domésticas, versões em russo de vários clássicos da música popular brasileira. Dois deles grudaram tanto em minha cabeça que não resisti em logo passar o pensado pro papel, e depois elaborar com mais rigor! Infelizmente, não acredito que muita coisa da atualidade, em especial o que está bombando na mídia, mereça tradução poética pro russo, ou pra qualquer idioma que seja. Mas duas canções que me acompanham desde criança mereceram atenção.

A primeira é o sucesso mais conhecido do cantor Gilliard, hoje praticamente desconhecido das nova gerações, mas cuja voz me acompanha no rádio desde a tenra infância: Pouco a pouco. Como um belo rapaz, Gilliard ascendeu nos anos 1980 com suas músicas românticas, melodias doces e misturas de ritmos latinos e populares, tendo muito aparecido no SBT sob a batuta de Silvio Santos. Ainda o admiro muito, e fazem falta figuras assim em nosso enjoativo mainstream! A segunda canção, bem como seu intérprete e compositor, nem precisam de apresentações: Como é grande o meu amor por você, de Roberto Carlos, cuja cantarolagem eslava foi colando no meu cérebro! Além da escritura, resolvi também retomar a iniciativa de 2012 e gravar minha própria voz, com um karaokê ao fundo, mas com montagens em vídeo bilíngues e bem mais decentes.

A canção Pouco a pouco tem letra de César Augusto e Martinha, e Gilliard a gravou em 1981. Roberto Carlos, letrista de Como é grande o meu amor por você junto com Erasmo Carlos, gravou-a pela primeira vez em 1967 e muitos anos depois fez a regravação que mais conhecemos atualmente. O público-alvo principal de minhas gravações no YouTube deveriam ser os falantes de russo, mas inevitavalmente haveria uma maioria de brasileiros visualizando, então naquele site, as duas descrições consistem de breves textos bilíngues. Nesta página vocês podem escutar a versão original de Gilliard, e quanto a Roberto Carlos, estão disponíveis a de 1967 e a mais moderna. Vejam também as páginas de onde tirei a melodia karaokê (com letra em português) de Gilliard e de Roberto Carlos.

O resultado deu nas respectivas canções “Постепенно” (Postepenno), mesma coisa literalmente (escrita em 26 e 27 de junho), e “Люблю я очень тебя” (Liubliu ia ochen tebia), Eu amo muito você (composta em 28 de junho). Eu mesmo traduzi do português pro russo (versão poética, ou seja, respeita as métricas e os esquemas de rima) e montei os vídeos gravando minha voz por cima das melodias. As legendas são bilíngues, ou seja, pode-se comparar minha tradução com a letra dos compositores em português. Como sempre, postei os vídeos em meu canal O Eslavo (YouTube), e seguem abaixo as montagens, as traduções em russo e as letras em português. Espero ter colaborado pro enriquecimento cultural e o diálogo curioso entre os povos!




Постепенно

Постепенно
Всё вело нас без тревога
Впереди была дорога
И вместе мы пошли

Постепенно
Всё нас твёрдо убеждало
И, как ты меня узнала
Был тобой порог открыт

Постепенно
Ты держала моё тело
Незаметно мне хотелось
Тебе броситься в объятья

Постепенно
То росло златое чувство
В нашей жизни, вроде чуда
Ничего почти не пусто

Постепенно
Я довольно смог понять
Отличается желанье от любви
И сегодня, если очень
Любишь ты честно меня
Мне, понятно, мало нравишься не ты

____________________


Pouco a pouco
Tudo foi nos conduzindo
Sem querer nós fomos indo
Pra mesma direção

Pouco a pouco
Tudo foi nos convencendo
Você foi me conhecendo
E me abriu seu coração

Pouco a pouco
Você foi me aprendendo
Sem querer eu fui querendo
Ficar preso nos teus braços

Pouco a pouco
Esse amor que foi crescendo
Ocupou em nossas vidas
Quase todos os espaços

Pouco a pouco
Foi que eu pude perceber
Que gostar é diferente de querer
E agora pelo muito
Que você gosta de mim
Não é pouco o que eu gosto de você

Fonte: clique aqui




Люблю я очень тебя

Мне бы хотелось
Тебе сказать
Многое устно
Но не легко
Люблю я очень
Тебя, и горе
Далеко

И не сравнима
Моя любовь
Ни с чем на свете
Всё неравно
Люблю я очень
Тебя, и горе
Далеко

Даже не горы
Даже не небо
Даже не море
Даже не вечер
Ясней, красивей
Чем та любовь
Они не крепче

Я беспокоюсь
Придумывая
Чтоб объявить
Лучи-слова
Люблю я очень
Тебя, и горе
Далеко

Не забывая
Всё время помни
Горенье твёрже
Моё, чем камни
Люблю я очень
Тебя, и горе
Далеко

 

Eu tenho tanto
Pra lhe falar
Mas com palavras
Não sei dizer
Como é grande
O meu amor
Por você

E não há nada
Pra comparar
Para poder
Lhe explicar
Como é grande
O meu amor
Por você

Nem mesmo o céu
Nem as estrelas
Nem mesmo o mar
E o infinito
Nada é maior
Que o meu amor
Nem mais bonito

Me desespero
A procurar
Alguma forma
De lhe falar
Como é grande
O meu amor
Por você

Nunca se esqueça
Nem um segundo
Que eu tenho o amor
Maior do mundo
Como é grande
O meu amor
Por você

Fonte: clique aqui




domingo, 13 de agosto de 2017

O cantor pop e pianista Vladimir Putin


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Que Vladimir Putin é chegado em música, e em roubar a cena nos eventos públicos (embora não de forma patética e caricata como Boris Ieltsin), isso não é segredo pra nenhum de seus fãs. Em eventos coletivos destinados aos políticos ou aos artistas, o Rei dos Russos não perde a oportunidade de exibir seus dotes musicais em apresentações de sucesso. O primeiro vídeo que vamos ver é de 10 de dezembro de 2010, quando Putin ainda era primeiro-ministro (na presidência de Dmitri Medvedev, hoje ele mesmo premiê) e cantou e tocou o famoso hit americano Blueberry Hill, gravado pela primeira vez em 1940. Uma das gravações mais famosas foi de Elvis Presley, mas certamente Putin se inspirou então na gravação de Fats Domino. Esse show foi beneficente, em prol de hospitais que tratavam de crianças com câncer ou doenças nos olhos, e contou com a participação de muitas estrelas da música e do cinema.

A canção Blueberry Hill tem melodia de Vincent Rose e letra de Larry Stock e Al Lewis, todos norte-americanos. Eu mesmo não a conhecia até legendar, e descobri que foi gravada em todas as décadas desde 1940, por cantores de diversos estilos e origens, tornando-se, pois, um ícone da cultura popular. Existe até um restaurante muito famoso chamado “Blueberry Hill” na cidade de St. Louis, estado do Missouri, em homenagem à letra. Em 2010 e 2011, o vídeo de Putin tocando e cantando viralizou, mas só em maio pude legendar.

Não é certo de onde veio o topônimo “Blueberry Hill”, que literalmente significa “colina da blueberry” e já vi traduzido como “colina do mirtilo”. Porém a blueberry americana é da espécie Vaccinium cyanococcus, enquanto o mirtilo, ou bilberry, ou blueberry europeia, é da espécie Vaccinium myrtillus. Nenhuma espécie do gênero Vaccinum é difundida no Brasil, já que é mais apto a climas frios. Há fontes que dizem ter sido comum nos anos 40 o uso da frase “the latest thrill from blueberry hill” pra receitas com a fruta, assim como nos EUA há mesmo montes e algumas cidades chamadas “Blueberry Hill”. Mas ao que tudo indica, o uso só serviu pra compor as belas rimas da canção.

Na época do show, o porta-voz de Putin disse que ele tinha aprendido a canção como parte de seus estudos de inglês, língua estrangeira que ele domina ao lado do alemão; aliás, Angela Merkel também sabe russo, porque ela viveu na Alemanha Oriental. Essa situação de Putin tocando ou cantando é a mais conhecida de todas, e eu baixei o vídeo sem legendas desta página, e embora a qualidade não seja ótima, é uma das poucas versões integrais disponíveis. Eu mesmo legendei e também traduzi, porque as traduções por aí são tão ruins que até eu, que não sou tão fluente em inglês, tive que fazer por conta. Seguem abaixo a legendagem, a letra em inglês e a tradução em português:



I found my thrill
On Blueberry Hill
On Blueberry Hill
When I found you

The moon stood still
On Blueberry Hill
And lingered until
My dreams came true

The wind in the willow played
Love’s sweet melody
But all of those vows we made
Were never to be

Tho’ we’re apart
You're part of me still
For you were my thrill
On Blueberry Hill

____________________


Me arrepiei de emoção
Em Blueberry Hill
Em Blueberry Hill
Onde encontrei você

A Lua ainda brilhava
Em Blueberry Hill
E ela ficou lá até
Meus sonhos se realizarem

O vento tocava no salgueiro
Uma doce melodia de amor
Mas todas nossas juras
Nunca iriam se realizar

Embora estejamos distantes
Você ainda faz parte de mim
Pois você me encantou
Em Blueberry Hill

O segundo vídeo acima é de 14 de maio de 2017. Como parte do fórum Belt and Road, um dos encontros relacionados à Belt and Road Initiative, também chamada Nova Rota da Seda, intento lançado pelo presidente chinês Xi Jinping pra cooperação econômica euroasiática, Putin foi à Casa Diaoyutai, onde se dão recepções oficiais pra líderes estrangeiros. Nesse complexo no oeste de Pequim, haveria uma série de conversações entre chefes de Estado, e antes da primeira, entre Putin e Xi, o russo arranhou melodias num piano lá instalado.

Ele tocou trechos das melodias de duas músicas famosas que elogiam as duas maiores cidades da Rússia: “Слушай, Ленинград” (Ouça, Leningrado) e “Московские окна” (As janelas de Moscou), tanto a primeira quanto a segunda já traduzidas aqui no blog. A coisa é muito primária, pois ele usa as duas mãos só pra tocar a melodia. No piano profissional, usa-se a esquerda apenas pro baixo ou pros acordes, e ainda por cima Putin fez o que se chamaria em datilografia de “catar milho”. Mas não podemos negar que foi uma divertida iniciativa!

O presidente da Rússia demonstrou, senão um talento, essa quedinha pela música e pelo piano nos anos 2010, quando atingiu o ápice de seu poder. Só acho, sinceramente, que ele não precisava ter jogado a tampa do teclado quando terminou de tocar: meio grosseria isso. A cena foi filmada pela agência internacional de notícias Ruptly, mas eu tirei o vídeo sem legendas desta página de virais russos e apenas acresci algumas informações. Na descrição deste outro vídeo, embora a montagem tenha sido muito zoeira, eu tirei a maior parte das informações sobre o evento.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Bruna Lombardi em idioma estrangeiro


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/lombardi



Eu estava no meio de uma aula. Sim, eu estava desconcentrado no meio de uma aula do doutorado! Eu confesso, Prof.ª Lucilene, mas a distração me levou a agir por uma boa causa em nome da arte. Isso foi no semestre passado, no módulo 1 do tópico de história social que cursamos na linha de pós-graduação. No mês de maio, de repente eu resolvi futricar pela internet no celular procurando poemas de Bruna Lombardi, pra traduzi-los em outros idiomas. Eu queria começar uma iniciativa de longo prazo.

Atualmente penso que esse projeto não vai ter muito futuro, mas a minha ideia era pegar algum material menos consagrado na literatura brasileira e transformar em obra minha própria, escrita em outras línguas. Exercício didático-linguístico, principalmente, mas por que não também artístico e poético? Poucos sabem que Bruna Lombardi também é poetisa, e ela também poderia ser lida no estrangeiro não lusófono. Além disso, meus poetas preferidos são aqueles menos famosos, tanto dentro quanto fora de sua cultura, porque lidar com os “grandes” pode soar a muitos como pretensão, mas também mato a vontade de não ficar na mesmice. A cultura precisa de sangue novo.

Até pensei em comprar livros da Bruna Lombardi pra ter um material inicial, mas logo desisti e resolvi procurar no Google mesmo, apesar de muitas páginas não citarem a fonte (ano, edição, coletânea etc.). E o primeiro poema que encontrei muito por acaso, que achei mais fácil pra verter de cabeça ou de forma rápida com alguns dicionários online, foi “Anímico”. Era curto e denso o suficiente, sem sair muito do modelo tradicional, e também sem muitas figuras de linguagem. Logo naquela aula de maio, fui pesquisando nos dicionários eletrônicos e rabiscando os rascunhos... em francês, russo e esperanto. Em junho, descobri que Adélia Prado também tinha escrito (escute aqui no YouTube) outro poema chamado “Anímico”, quase do mesmo tamanho. Mas não achei que Bruna Lombardi plagiou (ela já sofreu várias acusações do tipo), pois as ideias eram muito diferentes.

Seguem abaixo as quatro versões, uma original e três traduzidas. O exercício se baseou nos seguintes princípios, que vão “disputando” entre si, portanto não se realizam completamente: reprodução das ideias, manutenção do tamanho dos versos e de alguns efeitos sonoros (estes, pelo menos, eu mesmo quase sempre criei), algum “truque” linguístico que eu queria passar e a conservação daquela quebra no fim de cada estrofe, mais ou menos com o mesmo tamanho. Não busquei ser literal de forma alguma, e este foi meu erro ao pedir que tradutores profissionais corrigissem algumas versões: quase sempre acabavam exigindo a fidelidade à “letra”, embora dissessem de passagem que “tradução poética era algo subjetivo”... Os títulos, que também busquei que fossem diferentes entre si, mas mantivessem mais ou menos o tamanho de “Anímico”, são “De l’âme” (francês), “Душевная” (“Dushevnaia”, russo) e “Anima” (esperanto).

Realmente, por mais que tenha buscado no Google, não consegui encontrar a fonte original do poema “Anímico”, ou seja, quando e onde Bruna Lombardi o teria publicado pela primeira vez. Cheguei apenas a duas páginas nas quais não tenho certeza se houve o input da atriz, mas parecem “menos desautorizadas” como fontes de citação: uma é postagem pessoal no site Pensador.com e outra está no meio de coleções de frases ditas ou escritas por famosos. Os dois textos em português são idênticos.

Na versão francesa, por exemplo, eu busquei ao máximo manter algumas rimas finais (que eu inventei, claro). Em russo, eu quis colocar o pronome “мы” (“my”, nós) em todos os seis casos nominais, mesmo que às vezes a forma obtida fosse pouco corrente na língua comum. E em esperanto, além das rimas, mantive estritamente uma só métrica, até mesmo o ritmo dos acentos. Por fim, a última ideia do poema (renascer pra conhecermos nosso lado sábio) foi expressa de três formas diferentes em cada versão, apenas a francesa se aproximando mais literalmente do português. Assim como fiz com outros poemas, seria interessante se eu recitasse essas versões pra postar no meu canal O Eslavo (YouTube), mas ainda não sei. Espero que a Bruna Lombardi não me processe por plágio, hahaha. Boa leitura!

____________________

Anímico

Nossa história está escrita
dentro de cada célula
só não sabemos lê-la
ainda

dentro de nós existe
a resposta que buscamos
só que não a procuramos
bem

o nosso lado mais sábio
ainda se esconde da gente
e vamos nascer novamente
até saber

De l’âme

Notre histoire est rédigée
dans chacune de nos cellules
que nous ne savons pas lire
encore.

La réponse désirée,
disparue dans notre intime,
nous ne la cherchons pas bien
assez.

Il se cache toujours de nous,
ce côté sage, sensible.
Pour le maitriser il faut
renaitre.


Душевная

Наша история написана
в каждой клетке у нас.
Мы не умеем её читать
ещё.

Желаемый нами ответ
лежит в нас, глубоко,
нам трудно его искать
добро.

Мудрость избегает нас,
сторона наша, с которой
все знакомятся в следующей
жизни.

Anima

Nia vivo jam skribita
sur celulo ĉiu korpa,
kiun ni ne scias legi
ankoraŭ.

La signif’ sola klariga
en ni loĝas kaŝe fonda,
sed ĝin devas oni serĉi
prave.

Plej vizaĝo saĝa nia
insisteme daŭre fuĝas,
kaj ĝin koni, ne por esto
ĉi tiu.




domingo, 6 de agosto de 2017

Línguas eslavas e sotaques do Brasil


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/sotaques



Originalmente, este pequeno texto era uma nota de Facebook, que escrevi há muitos anos, provavelmente em 2015, quando apaguei minha última conta pessoal (tive contas outras duas breves vezes, mas não com minha identidade real). Seu argumento geral é meio bizarro, mas serve pra divertir, e talvez tornar mais próximo o tema da palatização consonantal nas línguas eslavas, que é tão difícil aos brasileiros, mas tem paralelos em nossos falares.

O modo como varia entre as línguas eslavas o comportamento das letras/sons “d” e “t” antes da vogal “i”, ou quando sofrem o fenômeno da palatização antes de outras vogais, lembra muito como ocorre a mesma variação entre diversos sotaques do Brasil. Isso, ao menos na minha percepção pessoal, baseada na experiência de ouvido.

O comportamento em tcheco lembra o sotaque do português brasileiro padrão, que se ouve na maior parte da mídia falada brasileira, especialmente nas rádios da cidade de São Paulo e na bancada do Jornal Nacional da TV Globo. É como se fossem um “dj” e um “tch”, mas pronunciados como um som só. Quase não se percebe o “j” ou o “ch”. Ouçam a palavra dítě e escutem a pronúncia das consoantes.

No polonês, a rigor não existem as combinações “di” e “ti”, mas elas sempre viram “dzi” e “ci” na escrita, cuja pronúncia lembra o “di” e o “ti” falados com sotaque carioca, ou seja, mais chiado do que em São Paulo. São praticamente “dji” e “tchi” mesmo, mas o “j” e o “ch” são suaves, não são “duros”, como se estivesse pronunciando as palavras inglesas job e chalk. Ouçam logo no comecinho desta frase longa a palavra dzieci, como se fosse um “djétchi”.

Em algumas regiões do Brasil, especialmente no interior de São Paulo (já ouvi próximo de Campinas e em algumas pessoas de Bragança Paulista) e do Paraná, essas palatizações já se parecem quase com um “dzi” e um “tsi” feitos como se fossem um som só, sem quase se perceberem o “z” e o “s”. São sons que se parecem com o “d” e o “t” palatizados antes de “i” no russo, e falando no jargão linguístico, são realmente os sons puros “d” e “t” palatizados. Vocês podem escutar esses dois sons na palavra russa “дети” (dieti, Д = D).

Finalmente, em duas línguas é fácil descrever e não preciso dos áudios. Em sérvio, búlgaro (que usam cirílico) e croata (que usa alfabeto latino), o “d” e o “t” antes de “i” (em cirílico se escrevem respectivamente Д, Т e И) sempre são pronunciados duros, como se estivessem na frente de qualquer outra vogal, como em “da”/“ta”, “do”/“to”, e da mesma forma em “di”/“ti”. Essa pronúncia soa mais arcaica no interior de São Paulo e do Paraná, e algumas pessoas de mais idade a fazem sempre (ouçam as músicas do sertanejo José Rico), mas às vezes os habitantes mais jovens a fazem em situações mais informais ou irônicas. Por fim, em bielo-russo, o “d” e o “t” antes de “i” sempre se transformam em “dz” e “ts”, articulados de forma palatal, mas com o “z” e o “s” bem nítidos, ou seja, praticamente “dzi” e “tsi” (ДЗІ, ЦІ). Eu já escutei essas combinações em pronúncias brasileiras ditas “afetadas”, como entre alguns gays e mulheres “peruas” caricatas apresentando programas televisivos de futilidades.




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Discursos de Stalin em áudio ou vídeo


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stalin-fala

Coleção sem prazo para concluir-se


Assim como eu fiz alguns anos atrás com Vladimir Lenin, decidi também fazer com Ioseb Dzhugashvili, mais conhecido pela história como Iosif Stalin (1878-1953), uma listagem única de todos os seus discursos. À diferença de Lenin, cujas gravações foram feitas de forma sistemática, ordenada e limitada, Stalin foi gravado em muito mais vídeos e áudios, por ter governado muito mais tempo e durante uma época em que a tecnologia de registros era mais avançada.

No site Sovmusic.ru, o maior acervo online de áudios e cartazes da era soviética, estão disponíveis todas as gravações com discursos de Stalin em MP3 pra se escutar lá mesmo ou se baixar. Com sorte, pode-se encontrar também o texto transcrito em russo, o que nem sempre é possível. Porém, é mais difícil de achar na internet vídeos com atuações ou discursos de Stalin, muitos dos quais estão disponíveis no YouTube e, infelizmente, intitulados em russo. Nos últimos cinco anos, devo ter achado tudo de Stalin disponível em vídeo, e traduzi e legendei no meu canal O Eslavo (YouTube).

Alguns discursos mais históricos, como aqueles em que o líder anuncia a entrada e a vitória da URSS na 2.ª Guerra Mundial, eu resolvi legendar apenas com o áudio mesmo, dentro de montagens com várias imagens da época ou relacionadas ao assunto. Mas os mais interessantes, obviamente, são aqueles gravados em vídeo, em que é possível não apenas escutar a voz de Stalin, mas também ver sua figura viva. É algo de importante assimilação pra estudiosos do período, em especial no que tange ao gestual. Todos os discursos que legendei em meu canal também estão reproduzidos aqui no blog junto com o texto traduzido em português, e por vezes transcrito em russo. Basta procurar a tag “Iosif Stalin”, como a presente nesta postagem.

As postagens listadas abaixo, classificadas por ordem cronológica, não fazem parte de uma produção padronizada e controlada, como ocorreu com os discursos de Lenin. Elas surgiram de acordo com minha possibilidade corrente de postar os discursos de Stalin em texto e em vídeo. Como em breve pretendo também legendar outros discursos, mesmo estando apenas em áudio, esta lista será constantemente atualizada, até eu esgotar todas as possibilidades midiáticas.

Este blog completou ontem, 1.º de agosto, três anos de existência. Ele começou quando eu estava iniciando meu mestrado de forma indecisa, e me encontra agora iniciando o doutorado de modo confiante. Fico feliz que, após seguidas reformas, eu possa ter fornecido um instrumento fixo de pesquisa e conhecimento a todas e todos que gostam de história e de textos famosos traduzidos. É um complemento mais do que necessário a meu canal no YouTube, e ajuda-lhe a ter visibilidade. Os vídeos podem ser assistidos em sequência e por ordem de popularidade na minha playlist “Discursos de Stalin”.

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1. Inauguração do Metrô de Moscou (14 de maio de 1935)

2. 1.ª Conferência Stakhanovista (17 de novembro de 1935)

3. Sobre as eleições pro Soviete Supremo (12 de dezembro de 1937)

4. Anúncio da entrada na Segunda Guerra (3 de julho de 1941)

5. Encontro com deputados no metrô (6 de novembro de 1941)

6. Aniversário da Revolução e cerco nazista (7 de novembro de 1941)

7. Encontro solene com deputados (6 de novembro de 1943 e 1944)

8. Invocação da vitória final (6 de novembro de 1944)

9. Declaração da vitória sobre a Alemanha (9 de maio de 1945)

10. 19.º Congresso do PC soviético (14 de outubro de 1952)