Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Bruna Lombardi em idioma estrangeiro


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/lombardi



Eu estava no meio de uma aula. Sim, eu estava desconcentrado no meio de uma aula do doutorado! Eu confesso, Prof.ª Lucilene, mas a distração me levou a agir por uma boa causa em nome da arte. Isso foi no semestre passado, no módulo 1 do tópico de história social que cursamos na linha de pós-graduação. No mês de maio, de repente eu resolvi futricar pela internet no celular procurando poemas de Bruna Lombardi, pra traduzi-los em outros idiomas. Eu queria começar uma iniciativa de longo prazo.

Atualmente penso que esse projeto não vai ter muito futuro, mas a minha ideia era pegar algum material menos consagrado na literatura brasileira e transformar em obra minha própria, escrita em outras línguas. Exercício didático-linguístico, principalmente, mas por que não também artístico e poético? Poucos sabem que Bruna Lombardi também é poetisa, e ela também poderia ser lida no estrangeiro não lusófono. Além disso, meus poetas preferidos são aqueles menos famosos, tanto dentro quanto fora de sua cultura, porque lidar com os “grandes” pode soar a muitos como pretensão, mas também mato a vontade de não ficar na mesmice. A cultura precisa de sangue novo.

Até pensei em comprar livros da Bruna Lombardi pra ter um material inicial, mas logo desisti e resolvi procurar no Google mesmo, apesar de muitas páginas não citarem a fonte (ano, edição, coletânea etc.). E o primeiro poema que encontrei muito por acaso, que achei mais fácil pra verter de cabeça ou de forma rápida com alguns dicionários online, foi “Anímico”. Era curto e denso o suficiente, sem sair muito do modelo tradicional, e também sem muitas figuras de linguagem. Logo naquela aula de maio, fui pesquisando nos dicionários eletrônicos e rabiscando os rascunhos... em francês, russo e esperanto. Em junho, descobri que Adélia Prado também tinha escrito (escute aqui no YouTube) outro poema chamado “Anímico”, quase do mesmo tamanho. Mas não achei que Bruna Lombardi plagiou (ela já sofreu várias acusações do tipo), pois as ideias eram muito diferentes.

Seguem abaixo as quatro versões, uma original e três traduzidas. O exercício se baseou nos seguintes princípios, que vão “disputando” entre si, portanto não se realizam completamente: reprodução das ideias, manutenção do tamanho dos versos e de alguns efeitos sonoros (estes, pelo menos, eu mesmo quase sempre criei), algum “truque” linguístico que eu queria passar e a conservação daquela quebra no fim de cada estrofe, mais ou menos com o mesmo tamanho. Não busquei ser literal de forma alguma, e este foi meu erro ao pedir que tradutores profissionais corrigissem algumas versões: quase sempre acabavam exigindo a fidelidade à “letra”, embora dissessem de passagem que “tradução poética era algo subjetivo”... Os títulos, que também busquei que fossem diferentes entre si, mas mantivessem mais ou menos o tamanho de “Anímico”, são “De l’âme” (francês), “Душевная” (“Dushevnaia”, russo) e “Anima” (esperanto).

Realmente, por mais que tenha buscado no Google, não consegui encontrar a fonte original do poema “Anímico”, ou seja, quando e onde Bruna Lombardi o teria publicado pela primeira vez. Cheguei apenas a duas páginas nas quais não tenho certeza se houve o input da atriz, mas parecem “menos desautorizadas” como fontes de citação: uma é postagem pessoal no site Pensador.com e outra está no meio de coleções de frases ditas ou escritas por famosos. Os dois textos em português são idênticos.

Na versão francesa, por exemplo, eu busquei ao máximo manter algumas rimas finais (que eu inventei, claro). Em russo, eu quis colocar o pronome “мы” (“my”, nós) em todos os seis casos nominais, mesmo que às vezes a forma obtida fosse pouco corrente na língua comum. E em esperanto, além das rimas, mantive estritamente uma só métrica, até mesmo o ritmo dos acentos. Por fim, a última ideia do poema (renascer pra conhecermos nosso lado sábio) foi expressa de três formas diferentes em cada versão, apenas a francesa se aproximando mais literalmente do português. Assim como fiz com outros poemas, seria interessante se eu recitasse essas versões pra postar no meu canal O Eslavo (YouTube), mas ainda não sei. Espero que a Bruna Lombardi não me processe por plágio, hahaha. Boa leitura!

____________________

Anímico

Nossa história está escrita
dentro de cada célula
só não sabemos lê-la
ainda

dentro de nós existe
a resposta que buscamos
só que não a procuramos
bem

o nosso lado mais sábio
ainda se esconde da gente
e vamos nascer novamente
até saber

De l’âme

Notre histoire est rédigée
dans chacune de nos cellules
que nous ne savons pas lire
encore.

La réponse désirée,
disparue dans notre intime,
nous ne la cherchons pas bien
assez.

Il se cache toujours de nous,
ce côté sage, sensible.
Pour le maitriser il faut
renaitre.


Душевная

Наша история написана
в каждой клетке у нас.
Мы не умеем её читать
ещё.

Желаемый нами ответ
лежит в нас, глубоко,
нам трудно его искать
добро.

Мудрость избегает нас,
сторона наша, с которой
все знакомятся в следующей
жизни.

Anima

Nia vivo jam skribita
sur celulo ĉiu korpa,
kiun ni ne scias legi
ankoraŭ.

La signif’ sola klariga
en ni loĝas kaŝe fonda,
sed ĝin devas oni serĉi
prave.

Plej vizaĝo saĝa nia
insisteme daŭre fuĝas,
kaj ĝin koni, ne por esto
ĉi tiu.