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28 de fevereiro de 2018

‘Caturro 13’ ou ‘Filando a boia’ (poema)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/caturro13



Eu traduzo música e poesia (do português pra outras línguas ou vice-versa) em três ocasiões: quando estou inspirado, quando a peça me agrada esteticamente ou quando ela me diz algo sobre a atualidade. Esta postagem se encaixa no terceiro caso, praticando o que em sua teoria os tradutores chamam transcriação. Em tradutologia, transcriar não é apenas traduzir palavras, ocorrendo que o resultado não soaria inteligível na língua de chegada; é também traduzir ideias, conceitos, situações, personagens, elementos culturais, de forma a transmitir não exatamente a carga semântica do texto, mas antes uma aproximação do efeito que ele teria causado no ambiente original.

O exemplo mais básico é quando trocamos personagens de folclore, datas festivas ou provérbios por outros que queiram dizer algo igual ou parecido, sempre com palavras diferentes, e em geral repassando uma mesma ideia de alegria, tristeza, moralidade, festividade, humor, suspense etc., e não necessariamente a visão que faríamos com a figura traduzida literalmente. Isso pode ser chamado de transcriação, mas num sentido mais amplo, transcriar também é reconstruir todo um texto, refazê-lo, ordená-lo e montá-lo todo, de modo a quase sempre não permanecer nenhuma equivalência literal. Assim, o que tentamos reconstruir (já que jamais nenhuma tradução é perfeita) não é o significado literal, digamos, de um poema, mas sua função dentro do contexto em que ele apareceu primeiro.

Por isso que dizemos transcriar, e não, por exemplo, recriar: nós não tiramos nosso material do nada, mas de alguma forma transportamos (ou tentamos) pra nossa cultura o mesmo instrumento, sensação ou efeito que serviram ao deleite de outra cultura. E acredito que essa é uma das mais nobres maneiras de fazer uma nação progredir. Primeiro, porque as(os) tradutoras(es) sempre foram indispensáveis ao aperfeiçoamento das civilizações, já que nenhum povo podia viver apenas com sua própria língua e costumes. Novas incorporações sempre foram essenciais pra saltos de qualidade, embora nem sempre todos fossem poliglotas. E segundo, porque a transcriação, mais do que qualquer outra modalidade de tradução (as quais, obviamente, sempre exigem talentos parecidos), demanda um cabedal intelectual, uma empatia ou alteridade, uma criatividade e uma desinibição (e também, portanto, maior abertura a críticas construtivas) em grau muito mais alto. O extremo oposto da quase “transposição de tijolinhos de significado” dos manuais de máquinas e utensílios.

Aprender novos idiomas, e de roldão conhecer outras culturas (mesmo que até um momento somente por revistas ou pela internet), é condição essencial pra querermos evoluir mais e derrotarmos todo tipo de xenofobia e estranhamento nacional. Infelizmente, estamos vivendo no mundo todo uma ressurgência dos chauvinismos porque toda essa indústria multicultural, tecnológica e telecomunicativa (bem como as atuais redes sociais) só levou em conta seu papel material e ignorou ou desprezou o trânsito de valores que ela acarretava. Apenas agora, por exemplo, Mark Zuckerberg está querendo mudar os misteriosos “algoritmos” visando tornar seu site mais voltado pra família e menos pra empresa jornalística. Já passamos do tempo em que “escolinhas de inglês” deviam enlatar papagaios pro mercado e inculcar a sede de lucro. O contato com línguas estrangeiras, com ou sem tradutoras(es), qualquer língua que seja, reeduca todos os comodismos cerebrais e nos leva a perceber como outras pessoas enxergam o mundo, não necessariamente de um jeito melhor ou pior. Apenas diferente.

Imagine-se que amplo papel tem na cultura, sobretudo na literatura e nas artes plásticas, a tradução levada ao limite na modalidade da transcriação. Pois cultura não é somente acúmulo de informações ou domínio das técnicas necessárias pra atuar numa profissão. (Talvez cultura nem seja isso, pois senão não teríamos tantos empresários e cientistas incultos ou desaculturados por aí...) Cultura tem a ver, antes, com cultivo, cultivar, palavras com que tem em comum o radical de origem latina. A cultura não visa apenas juntar dados, visa também criar valores, educar sensações, aprimorar o espírito. Por isso ela é tão fundamental quanto as chamadas “disciplinas científicas”, não se justificando, assim, a marginalização da música e das artes plásticas nos currículos escolares. De fato, vemos no Brasil um movimento pra tirar essa habilidade do domínio jovem sob o pretexto de uma “preparação melhor pro mercado”. Ora, mas não existe mercado livre sem trânsito, trocas, viagens, deslocamentos, intercompreensões. E a cultura é justamente o grande carrefour das civilizações, o feirão onde se troca de tudo. Deste modo, não existe técnica neutra, sem um valor embutido, sem uma marca cultural de origem. Na verdade, a própria inspiração cultivada é a chave e o substrato que dá origem e favorece todo tipo de criação/inovação conceitual.

____________________


Após este pequeno manifesto involuntário, creio estarem dadas as condições pra que se entenda a filosofia por trás da presente e de toda minha (trans)criação poética. Quando fiz uma extensão de língua latina na Unicamp, ministrada no primeiro semestre de 2017 pela Prof.ª Bárbara Polastri, ela não se limitou ao conteúdo programático em si e nos passou vários exemplos de textos e resquícios históricos relativos à Roma antiga. Um deles foi uma folha com quatro poemas de Caio Valério Catulo, poeta romano que viveu aproximadamente de 84 a 54 AEC (antes da era comum) – ou seja, no século clássico da língua e cultura latinas – e foi o único a legar à posteridade obras do círculo que Cícero chamou de "poetas novos”. Catulo era conhecido (e criticado) por ter trazido à literatura temas simples, prosaicos e diretos, sem a grandiloquência ou mitologia dos escritos tradicionais.

Os poemas dados pela Bárbara foram traduzidos, reunidos e anotados por João Ângelo de Oliva Neto, professor de Língua e Literatura Latina da USP, no volume O livro de Catulo (São Paulo, Edusp, 1996), que contém diversos de seus ditos carmina (sing. carmen), literamente “cantos” ou “poemas”. Um deles, denominado “Catullus XIII” ou “Catulo 13”, trata de um convite a um amigo pra que ele venha jantar na casa do narrador, mas que de fato traga toda a comida, porque seu bolso está “cheio de teias de aranha”. Em troca, receberia “amores, amizade e perfumes”, numa temática bastante familiar a nossos folgazões brasileiros. São esses clássicos que sempre dizem algo ao cidadão comum, não importa a época e lugar, os resistentes ao tempo, e tomo a liberdade de reproduzir abaixo o texto em latim (com maiúsculas apenas em nomes próprios) e a tradução do Prof. João Ângelo:


cenabis bene, mi Fabulle, apud me
paucis, si tibi dei fauent, diebus,
si tecum attuleris bonam atque magnam
cenam, non sine candida puella
et uino et sale et omnibus cachinnis.
haec si, inquam, attuleris, uenuste noster,
cenabis bene; nam tui Catulli
plenus sacculus est aranearum.
sed contra accipies meros amores
seu quid suauius elegantiusue est:
nam unguentum dabo, quod meae puellae
donarunt Veneres Cupidinesque,
quod tu cum olfacies, deos rogabis,
totum ut te faciant, Fabulle, nasum.

Jantarás bem, Fabulo, em minha casa,
muito em breve se os deuses te ajudarem,
se contigo levares farto e bom
jantar, e não sem fina artista, vinho,
graça e as risadas todas. Isso tudo,
se levares, encanto meu, garanto,
jantarás bem, pois teu Catulo tem
o bolso cheio de teias de aranha.
Em troca aceitarás meros amores
e o que há de mais suave ou elegante,
pois um perfume te darei que à minha
garota Vênus e os Cupidos deram,
que ao sentires aos deuses vais pedir
te façam, Fabulo, todo nariz.


Nesta transcrição latina, como é costume no meio acadêmico, usa-se “u” no lugar do “v” minúsculo e “i” no lugar do “j”, letras cuja introdução só se deu séculos depois. Existem também outras traduções: pode-se ler nesta página a inovadora versão de Haroldo de Campos, e encontra-se neste blog sobre cultura clássica uma tradução literal do latim. Em espanhol, podem-se ler nesta página os poemas de 1 a 60 de seus carmina, traduzidos literalmente por Ana Pérez Vega.

Agora, apresento-lhes minha transcriação deste poema, que realizei em Bragança Paulista na mesma quarta-feira, 14 de junho de 2017, em que a Bárbara nos apresentou Catulo (aluno à tarde, poeteiro à noite). Piada explicada não tem graça, então vou dar o poema primeiro (a “Carminha”, hahaha), vocês fruem/entendem como quiserem, e depois explico o que eu tinha em mente ao escrevê-lo. Atribuí-lhe também uma nova métrica, semelhante à latina, mas baseada na do português, um esquema próprio de rimas (ABAB CDCD EFE FEF) e a forma de um soneto, inclusive com o “verso de ouro” final. Quanto ao nosso Fabullus (Fabulo), apenas recentemente descobri que a pessoa responsável pelo sucesso de K.O. e Corpo sensual, e a qual não tinha ainda “bombado” na época, foi legalmente registrada como “Phabullo”. Eu poderia ter agora trocado nosso personagem, por exemplo, pra “Pabllinho”, mas como o texto não concerne à sua área de interesse ideológico, mantive o mais sonoro, natural e popular Fabinho:


Caturro 13, ou Filando a boia

Que bom, Fabinho, se vier na minha casa,
Aproveitando uma piscada da patroa,
Comer churrasco, pão, pirarucu na brasa,
Tomar cerveja, mulherada e pinga boa.

À tarde a gente vai jogar conversa fora,
Faz futebol, rasga viola no modão.
Mas meu querido, compra tudo e traz na hora
Porque o papai aqui tá sem nenhum tostão!

“É a crise”, eu digo, amigos tão aí pra isso,
Pro aperto, pra gandaia ou pra esconder tramoia,
Aparecer sem marcar dia ou compromisso.

Garanto que a bocada vai ser muito joia,
Mas se, fedendo, der PT, gorfar no piso,
Fabinho, não vai mais filar a minha boia!


Primeiramente, vocês devem ter notado minha onipresente influência sertaneja, tanto na temática quanto no vocabulário: realmente, é o tipo de música de que mais gosto e escuto... Isso é errôneo? Não sei, gosto dessas poesias “misturadas” não por delírios literários, mas pra fazer graça mesmo, zombar de um domínio que sempre foi visto como etéreo e superior, apanágio de pessoas “iluminadas” e ditas mais talentosas. Quero mais que as pessoas riam do que se admirem; a dessacralização e a irreverência são as melhores armas contra mitos e trevas, e destruí-los é a missão de todo cientista.

Agora, por que “Caturro”? Tá na cara que vem do Catulo, mas vamos resgatar o sentido (dentre outros) do verbo caturrar, segundo o Aurélio: “questionar com insistência; teimar”, “mostrar-se caturra”, “caturra” sendo um adjetivo que pode qualificar uma “pessoa teimosa, agarrada a velhos hábitos, sempre disposta a achar defeitos, a discutir; pechoso”. Não temos uma associação plenamente direta com o tema da minha versão, mas se estendermos pro domínio da conversa, conchavo, folga, impertinência, delação e falta de autopercepção (“semancol”), até que se adéqua bem. Afora também a inserção de todo um cenário típico de fim de semana e lazer masculinos no centro-sul do Brasil (churrasco, peixes, pães, mulheres, etílicos, papo furado, futebol e, por vezes, música – “modão” e “viola” dão a localização final), troquei toda a temática de “amores, deuses e perfumes” (já que o clima não é de “rosas, versos e vinhos”!) pela suposta chantagem que o narrador estaria fazendo, pedindo almoço grátis em troca de ocultar algum segredo.

O encerramento de aparência surreal, em que o “hóspede” ameaça futuras proibições a um almoço do qual ele não é nem mesmo o financiador, termina de dar um choque no(a) leitor(a), embora não seja necessariamente a “transcriação” de um possível efeito gerado por “te façam, Fabulo, todo nariz”. Não sei se Catulo teve a mesma intenção que eu, mas a inserção desse efeito foi de minha própria decisão. Pra quem não conhece, “boia” é um antigo sinônimo rural de “comida, refeição” (especialmente almoço, e mais ainda de quem volta da roça), e “gorfar”, na verdade “golfar”, sempre escutei muito em minha cidade como sinônimo de “vomitar”, pelo menos no sentido fisiológico, e não apenas (ou nem mesmo) figurado.

O toque final, que vocês daqui a pouco vão achar ideia fixa minha, fica por conta de três elementos interligados. Por feliz coincidência, o número do poema é 13, código eleitoral do partido que governava o Brasil enquanto explodia a “crise” econômica a que se referia o narrador (na verdade, também pintada aqui como uma desculpa genérica, sendo de fato “É a crise” um bordão muito generalizado nas redes sociais). O “PT”, jargão popular pra “perda total” (o famoso vexame numa balada ou festa alcoólica), lacra o assunto. E, claro, pode-se ter a liberdade de fazer as mais diversas associações: feder, sujeira, corrupção, tramoia, fisiologismo, desordem, bebida e futebol, crise/falta de dinheiro, gastança além da conta, caturra/implicância, pedidos descarados... (Não, eu não sou um antipetista de direita fanático, mas acho que ninguém está imune à Santa Zoeira, exceto se estiver na intenção ser chulo, ofensivo ou ameaçador!)

Com isso encerro minha exposição, que já foi mais do que suficiente.



25 de fevereiro de 2018

O vermelhinho (poema de Erick Fishuk)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/vermelhinho


Observando as notícias acadêmicas e jornalísticas do dia anterior e escutando Tonico & Tinoco após o café da manhã, me inspirei pra escrever este poema no dia 24 de fevereiro de 2018, em Bragança Paulista. Misturo linguajar simples, palavras rebuscadas, referências implícitas e eventos temporalmente localizados, ou seja, é mais uma poesia de banheiro expelida na hora do que um monumento pra eternidade ou um clássico asséptico. Com o bicho pegando e a chapa esquentando, ficarei curioso sobre que usos far-se-lhe-ão.




O vermelhinho

Lá vai o vermelhinho
Tremendo bandeira,
Critica opressão
Mais a roubalheira,
Sai do sindicato,
Combate a pobreira,
Renova as esquerdas,
Reúne as estrelas
Por nação altaneira.

De barba esculpida,
Disputa eleição:
“Caçar marajás?
Mas que enganação!”
Se diz contra tudo,
O fim da inflação,
Real e outros planos
Que apontam enganos
Da má administração.

Quer prender corruptos,
Afina o discurso:
Explora as fraquezas
De um rei sem recursos
E bate panelas
Pedindo outro curso.
Carta aos Brasileiros
Agrada aos banqueiros,
O Planalto vem num impulso!

Agora co’as rédeas,
Descobre a verdade:
Deter o pepino
Chama habilidade,
E a parasitagem
Exige sua parte.
Maluco por grana,
Se afunda na lama
Da governabilidade.

A “paz social”
Surfava na onda
Do crédito livre,
Finanças com sonda
E o mundo comprando
Primários sem conta.
Aos pobres, migalhas,
Ao Eike, medalhas:
Não há crise que o ronda!

As picaretagens
Saltavam às vistas,
Julgadas nas cortes
Por duros juristas.
A cada denúncia,
Culpava a revista:
“Pobre no avião,
Com carro e cartão
Enfurece os elitistas!”

A ave bicuda
Não cheira nem fede:
Louvando o passado,
Do pau se escafede.
E o velho Centrão
Mais quer e mais pede.
Em dois mil e dez,
Sucessão aos pés
Briga e ódio nas redes.

A companheirada
Está nos caixotes,
Mais firmes e armados
Se encontram os hostes.
Pra manter o osso
Restou só um poste.
Nos próximos anos,
Entre altos e danos,
A luta seria de morte.

Os dias de glória
Sustinham as facas,
Mas logo foi fácil
Fundir-se na jaca:
Sempre generosas
As tetas da vaca,
A inflação subiu,
Dinheiro sumiu
E aí o Estado empaca.

O povo é esperto
Vivendo à espreita:
Em dois mil e treze
Os roubos rejeita.
Mas o “Vem pra rua”
Passou pra direita:
Agora as panelas
De ricas janelas
Rechaçavam a dama eleita.

O Novo Reaça,
Babando de espuma,
É velho de cuca,
Na CIA se apruma,
Bajula milicos
E o resto é comuna.
Até o vermelhinho,
De papo mansinho,
Serviria à barafunda.

O ardor partidário
Virou palhaçada,
Lobões e Olavos
Lecionam piadas,
E a esquerda abstrata,
Atabalhoada,
Gritava na pista:
“Coxinha, fascista!”,
Na cátedra mimada.

O Centro então salta
Do barco imergindo:
Governabilidade
Ficou sem arrimo
E o vice vampiro
Lá do Gradus Primus
Põe frase na carta:
“Se vão as palavras,
Mas os escritos ficam.”

Sem claro programa,
Ao Cão paralelo
Restou só o mesmo
Que o Collor de Mello:
“Impitchar” a líder,
Botar no chinelo,
Berrando na web
Com o eme-bê-ele
E um lindo pato amarelo.

O escorraçamento
Chegou a galope.
Como um papagaio,
Gritava: “É golpe!”
Vermelho de raiva,
Chamou gente pop:
De Chico até Wagner
Xingava o PTemer,
Dizia que ele era torpe.

O choro prossegue,
Nenhuma esperança,
Põe culpa nos outros
Igual a criança
E quer vermelhinho
No pleito-lambança:
Chuchu, Bolsonaro,
Marina, Ciralho,
Só cidadãos de pança!

A tal gerentona
Viaja por milhas
Falando estrangeiro,
Mas é dislalia
Contrária à raposa
Que apoiou um dia.
Dizia já Gramsci:
Não era só lanche,
Faltou a velha hegemonia!

O som do Plim-Plim
Deu logo o sinal:
A revolução
Virou Carnaval
E a Sapucaí,
O Paço Invernal.
Cobrir Tuiuti,
Descer jabuti,
Beijar a flor do normal.

Grade optativa,
Escola e partido,
Facção e cadeia
Tomaram o pito,
E a tal Previdência
Aumenta o prurido.
De Cabral a Cabral,
Preso num lamaçal,
O Brasil tá perdido!




21 de fevereiro de 2018

Vitas: ‘Седьмой элемент’, ‘Улыбнись’


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/vitas-meme


Mesmo que conheçamos o papel de Richard Dawkins na criação do conceito de “meme”, sua aplicação prática nas redes sociais ainda está longe de ser totalmente compreendida. Em 2015 e 2017, um ótimo laboratório pra tanto foi o caso do cantor russo-ucraniano Vítas: no primeiro ano, viralizou o bizarro clipe de sua canção “Седьмой элемент” (Sedmoi element), O sétimo elemento, gravada no seu primeiro álbum Filosofia do milagre (2001), e no segundo, tornou-se célebre post factum sua música “Улыбнись” (Ulybnis), Sorria, na turnê “Песни моей мамы” (Pesni moiei mamy), As canções de minha mãe, de 2003. Esta última teve a mão dos brasileiros da página Facebook “South America Memes”, e acabou também puxando de volta o outro clipe. Sedmoi element provavelmente foi filmado também em 2001, mas o álbum e faixa Ulybnis datam de 2002.

A primeira vez que Vítas ficou famoso no mundo todo foi quando em 2015 viralizou o clipe de Sedmoi element, em vídeo rebatizado “Weird Russian singer” (Cantor russo bizarro). A letra é simplória e a maior parte do tempo é recheada pelas inconfundíveis onomatopeias do cantor. Porém, outra onda de fama viral ocorreu na metade de 2017, quando a South America Memes soltou memes criados com a imagem do vídeo feito em 2003. Os brasileiros se apaixonaram por essa apresentação, e o cantor agradeceu pelo carinho. É muito comum que vídeos postados há muitos anos, alguns nos primórdios do YouTube, sejam descobertos por internautas do Ocidente e se tornem virais a qualquer momento, não importa o motivo. Foi o que ocorreu com Eduard “Trololo” Khil em 2010, que antes era quase todo desconhecido fora da URSS e Rússia. Hoje é a página e canal SAM que tem alcance grande e então promove qualquer coisa ao sucesso.

Mas Vitas não foi nenhum ex-astro soviético, nem é subcelebridade na Rússia. Ao contrário, “Vítas” é o nome artístico de Vitali Vladasovich Grachov, cantor, compositor e ator nascido em 1979 na então RSS da Letônia, mas hoje com nacionalidade russa e ucraniana. Sua voz se encaixa na categoria de contratenor, conhecida por entoar falsetes no meio das canções, essas intervenções agudas que são o registro mais alto da voz humana (um exemplo é o da música Condenado por amor, da dupla Bob e Robison). Ele também toca sanfona e piano, e transita entre os gêneros pop, rock, pop-rock, ópera e etno. Fã de Michael Jackson na infância, estreou sua carreira solo em dezembro de 2000 e já em 2001 estourou nas paradas da Rússia. Mesmo na Rússia e na Ucrânia, Vitas costuma levar uma vida pessoal discreta. Casou-se em 2006 com Svetlana Grankovskaia e teve com ela a filha Alla, nascida em 2008 e à qual ele já fez homenagens nos palcos, e o filho Maksim, nascido em 2014. Na internet brasileira, há atualmente um movimento pra que ele cante nos shows concernentes à Copa da Rússia de 2018.

Outro nome que dão a Sedmoi element é “Chum Drum Bedrum”, ou mais exatamente “Tchandram brandram”, e como outros internautas lembraram, ele tá muito parecido aí com o ator mirim dos anos 90 Macaulay Culkin. Também é notável possível influência indiana, a começar pelo back vocal e instrumentação iniciais, além dos “mantras sânscritos” ocultos ao ouvinte comum no refrão. Já o álbum e turnê Canções de minha mãe foram homenagens à sua mãe Lilia Grachova, falecida em 2001, e os agudinhos que ele dá têm a ver com sua formação lírica, que propicia um treinamento mais forte da voz. Ambas as canções são de autoria do próprio Vitas, como a maioria das que ele canta. Eu tirei desta página a “letra” em russo de Sedmoi element, e desta página a letra da parte falada em Ulybnis. Transcrição do que ele fala no começo do show de 2003: “Я хочу сказать огромное спасибо вам, моему зрителю, ради которого я живу, который есть моя жизнь. Я хочу, чтобы у вас жизнь была побольше, тёплее, светлее и в ней много радости, счастья и улыбок.”

Eu apenas traduzi, legendei, mudei o enquadramento e cortei créditos dos dois vídeos. O clipe oficial de Ulybnis, gravado em 2002, está nesta página. Seguem abaixo, respectivamente, as legendagens de Sedmoi element e Ulybnis que postei no meu canal Eslavo (YouTube), as letras em russo e as traduções em português.

Nota (11/6/2018): Acabei também de legendar outras duas versões das mesmas duas músicas: um show dado por Vitas em 2002 e o clipe original de Ulybnis, bastante dramático e gravado no mesmo ano. Apenas na segunda canção fiz pequenas alterações na tradução, mas elas só aparecem no vídeo:





Я пришёл дать эту песню
Я пришёл дать эту песню
Я пришёл дать эту песню
Я пришёл дать эту песню

(4x:)
А-а-а, а-а-а, а-а-а, ааа...
Брлллл, брлллл, а-ааа...

(2x:)
Чандрам, брандрам,
Чандрам, чандрам, брэндрам!
Уо, уо, уо, уо, ооо...
Чандрам, брандрам,
Чандрам, чандрам, брэээндрааам!

Я пришёл дать эту песню
Из мира грёз
Я пришёл дать эту песню
Из хрустальных слёз
Я пришёл дать эту песню
Для любви
Я пришёл дать эту песню…

(4x:)
А-а-а, а-а-а, а-а-а, ааа...
Брлллл, брлллл, а-ааа...

Чандрам, брандрам,
Чандрам, чандрам, брэндрам!
Чандрам, брандрам,
Чандрам, чандрам, брэээндрааам!

____________________


Cheguei agora para cantar
Cheguei agora para cantar
Cheguei agora para cantar
Cheguei agora para cantar

(4x:)
A-a-a, a-a-a, a-a-a, aaa...
Brllllll, brllllll, a-aaa...

(2x:)
Tchandram, brandram,
Tchandram, tchandram, brendram!
Uô, uô, uô, uô, ooo...
Tchandram, brandram,
Tchandram, tchandram, breeendraaam!

Para cantar, cheguei agora
Do mundo dos sonhos
Para cantar, cheguei agora
Das lágrimas cristalinas
Para cantar, cheguei agora
Em prol do amor
Para cantar, cheguei agora...

(4x:)
A-a-a, a-a-a, a-a-a, aaa...
Brllllll, brllllll, a-aaa...

Tchandram, brandram,
Tchandram, tchandram, brendram!
Tchandram, brandram,
Tchandram, tchandram, breeendraaam!





Улыбнись
Если дождь за окном не кончается
Улыбнись
Если что-то не получается
Улыбнись
Если счастье за тучами спряталось
Улыбнись
Если даже душа поцарапалась

Улыбнись
И увидишь – тогда всё изменится
Улыбнись
Дождь пройдёт и земля в свет оденется
Улыбнись
И печаль стороною пройдёт
Улыбнись
И тогда душа заживёт

____________________


Sorria
Mesmo se a chuva na janela não passar
Sorria
Mesmo se alguma coisa não der certo
Sorria
Mesmo com a felicidade atrás das nuvens
Sorria
Até mesmo se a alma estiver machucada

Sorria
E então vai ver que tudo vai mudar
Sorria
A chuva passa e a terra se reveste de luz
Sorria
E a tristeza vai passar ao largo
Sorria
E a alma reviverá curada!




18 de fevereiro de 2018

Los Muchachos Peronistas (marche)


Lien court vers cette page : fishuk.cc/peroniste


Aujourd’hui je présente une chanson suggérée par Leonardo Cupertino et qui s’appelle Marche péroniste ou Los Muchachos Peronistas (Les Jeunes/Garçons péronistes), contenant un hommage à Juan Domingo Perón, l’un des plus aimés leaders argentins. Militaire, homme politique et écrivain (1895-1974), il a été le Président de la République de 1946 à 1955 et de 1973 à 1974, et autour de son Parti justicialiste (justicia = « justice » en espagnol) il a rassemblé le mouvement politique le plus influent du pays au XX siècle, basé sur de vastes réformes sociales implantées par le général. Le PJ, parti des ex-présidents Menem et les Kirchner, maintient toujours une force politique considérable.

Cette chanson sous-titrée est l’hymne le plus connu du péronisme, ou « justicialisme », et on suppose qu’elle ait été chantée pour la première fois dans la Maison rose en 17 octobre 1948. On ne sait précisément pas qui en a composé les paroles et la mélodie (bien que certains attribuent les paroles à Rafael Lauría et la mélodie à Vicente Coppola), mais l’enregistrement le plus célèbre, que vous écouterez ici, c’est celui du chanteur Hugo del Carril (1949). Il est probable que la marche ait surgi en 1948, quand on en note les premières mentions, et elle est basée sur deux autres chansons populaires, l’une qui en a prêté les trois strophes (l’insertion « Vive Perón, vive Perón » a aussi un auteur anonyme) et l’autre qui en a prêté le refrain. Dès lors, plusieurs chanteurs l’ont enregistrée, sous des sytles divers. Le titre « premier travailleur » donné à Perón tire son origine d’un discours publique du dirigeant syndical socialiste José Domenech.

Les paroles sont très simples et faciles à traduire dans n’importe quelle langue. Le trait linguistique le plus remarquable est celui appelé voseo de l’espagnol argentin. Dans la langue standard, on utilise (tu) et vos (vous pluriel), mais vos n’est pas un pronom de politesse (fonction exercée par usted(es)). Toutefois, les Argentins ont l’habitude d’utiliser vos pour se diriger à une seule personne, avec les formes verbales correspondantes dans la chanson: sos et valés (dans le standard, sois et valéis). J’ai extrait le son de cette vidéo, et les paroles en espagnol et le récit historique sont de la Wikipédia espagnole. Regardez ci-dessous le sous-titrage, qui se trouve sur ma chaine Eslavo (YouTube), et lisez le poème en espagnol et la traduction française :


____________________


1. Los muchachos peronistas,
Todos unidos triunfaremos,
Y como siempre daremos
Un grito de corazón:
¡Viva Perón, viva Perón!

Por ese gran argentino
Que se supo conquistar
A la gran masa del pueblo,
Combatiendo al capital.

Estribillo:
¡Perón, Perón, qué grande sos!
¡Mi general, cuánto valés!
Perón, Perón, gran conductor,
Sos el primer trabajador.

2. Por los principios sociales
Que Perón ha establecido,
El pueblo entero está unido
Y grita de corazón:
¡Viva Perón, Viva Perón!

Por ese gran argentino
Que trabajó sin cesar
Para que reine en el pueblo
El amor y la igualdad.

(Estribillo)

3. Imitemos el ejemplo
De este varón argentino
Y siguiendo su camino
Gritemos de corazón:
¡Viva Perón, Viva Perón!

Porque la Argentina grande
Con que San Martín soñó
Es la realidad efectiva
Que debemos a Perón.

(Estribillo)

____________________


1. Nous, les jeunes péronistes,
Vaincrons tous ensemble,
Et nous, comme d’habitude,
Crierons du fond du cœur :
Vive Perón, vive Perón !

Pour ce grand Argentin
Qui a appris à conquérir
La grande masse populaire,
En combattant le capital.

Refrain :
Perón, Perón, que tu es grand !
Mon général, tu es valeureux !
Perón, Perón, leader superbe,
Tu es le premier travailleur.

2. Autour des règles sociales
Que Perón a établies
Tout le peuple se rassemble
Et crie du fond du cœur :
Vive Perón, vive Perón !

Pour ce grand Argentin
Qui a travaillé sans cesse
Pour que règnent chez nous
L’amour et l’égalité.

(Refrain)

3. Imitons l’exemple
De ce brave Argentin
Et, en suivant son chemin
Crions du fond du cœur :
Vive Perón, Vive Perón !

Car l’Argentine grandiose,
Le vieux rêve de San Martín,
C’est une réalisation réussie
Grâce aux efforts de Perón.

(Refrain)




14 de fevereiro de 2018

“La Espero” – hino do esperanto (1890)


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Por incrível que pareça, conheço esta canção desde adolescente, mas só no fim do ano passado eu resolvi traduzi-la e legendá-la. Ela se chama La Espero (A Esperança), e se baseia num poema em esperanto de Lejzer Ludwig (ou Lázaro Luís) Zamenhof, escrito em 1890 pelo próprio iniciador dessa língua. Esse é um dos apenas nove poemas originais que Zamenhof escreveu em esperanto, e com a melodia composta por Félicien Menu de Ménil por volta de 1905 ou em 1909, tornou-se um dos símbolos mais conhecidos do movimento esperantista, ao lado da bandeira verde com uma estrela. É considerado por muitos como o “hino do esperanto” (ou de seu movimento), mas outros não gostam de usar a palavra “hino”, por ter conotações nacionais e sectárias, e de fato não foi “adotado” por nenhuma instituição, constiuindo apenas um elemento de tradição.

O poema La Espero foi publicado pela primeira vez em 1890, logo se tornando popular entre as primeiras rodas esperantistas europeias em formação. Ele sintetiza a crença pacifista e internacionalista do autor, segundo quem apenas a adoção de uma língua neutra comum que servisse de veículo internacional poderia acabar com as guerras. Foram compostas também outras melodias em 1891 e 1903, mas a de 1905/09, pelo francês Menu de Ménil, foi a que se popularizou. O próprio Zamenhof, segundo algumas de suas cartas, mostrava preferência por outro poema seu, La Vojo (O Caminho), pra qualidade de hino do movimento. No Primeiro Congresso Mundial, ocorrido em 1905, foi adotada a bandeira que hoje conhecemos, mas nem então, nem depois se decidiu sobre um possível hino do movimento.

Embora desde o início dos anos 1920 os esperantistas do mundo todo reconheçam La Espero como seu hino “oficial” e o cantem nas mais diversas ocasiões, não há qualquer deliberação a respeito por parte da Associação Universal de Esperanto (UEA), que regula os assuntos práticos do movimento, ou da Academia de Esperanto, que estipula as normas do idioma. Atualmente, entre os cultivadores da língua, o poema continua popular, dando origem a inúmeras expressões idiomáticas, como nova sento (novo sentimento), rondo família (círculo familiar) etc., e resume o ideal de paz e união imbricado desde o início ao esperantismo. Contudo, quem não gosta de associar o esperanto a uma ideologia prefere que o hino seja trocado ou que ele não tenha um “papel” tão grande, e muitos de fato abominam o uso de bandeiras, canções, datas festivas, símbolos, patronos etc., como numa etnia.

É inegável, porém, a beleza e força do poema, mais sentidas quando se sabe pronunciar e se entende o esperanto. Eu mesmo fiz essa tradução literal em português, montei o vídeo e legendei. Na verdade, o vídeo “olímpico” da bandeira tremulando está no canal de Jacinto Yogui, e eu apenas fiz o recorte das bordas pretas e coloquei os créditos e legendas. O áudio também pode ser ouvido neste vídeo, postado pelo próprio Coral e Orquestra Sinfônica das Ferrovias Estatais Húngaras que gravaram a versão. A canção foi poeticamente traduzida pra muitos idiomas, e no verbete La Espero da Wikipédia em português vocês podem ler a boa versão de João Baptista de Mello e Souza. Seguem abaixo a legendagem postada no meu canal Eslavo (YouTube), a letra em esperanto e a tradução em português:


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1. En la mondon venis nova sento,
Tra la mondo iras forta voko;
Per flugiloj de facila vento
Nun de loko flugu ĝi al loko.
Ne al glavo sangon soifanta
Ĝi la homan tiras familion:
Al la mond’ eterne militanta
Ĝi promesas sanktan harmonion.

2. Sub la sankta signo de l’ espero
Kolektiĝas pacaj batalantoj,
Kaj rapide kreskas la afero
Per laboro de la esperantoj.
Forte staras muroj de miljaroj
Inter la popoloj dividitaj;
Sed dissaltos la obstinaj baroj,
Per la sankta amo disbatitaj.

3. Sur neŭtrala lingva fundamento,
Komprenante unu la alian,
La popoloj faros en konsento
Unu grandan rondon familian.
Nia diligenta kolegaro
En laboro paca ne laciĝos,
Ĝis la bela sonĝo de l’ homaro
Por eterna ben’ efektiviĝos.

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1. Veio ao mundo novo sentimento,
Pelo mundo passa um forte apelo;
Que pelas asas de vento propício
Ele voe agora de lugar a lugar.
Não à espada sedenta de sangue
Ele impele a família humana:
Ao mundo eternamente em guerra
Ele promete uma harmonia santa.

2. Sob o signo santo da esperança
Lutadores pacíficos se reúnem
E a causa cresce rápido com o
Labor dos que têm esperança.
Muralhas milenares subsistem
Entre os povos divididos;
Mas ruirão barreiras insistentes,
Explodidas pelo amor santo.

3. Baseados numa língua neutra,
Entendendo-se uns aos outros,
Os povos formarão em acordo
Um só grande círculo familiar.
Nós, como colegas diligentes,
Persistiremos no labor pacífico
Até o belo sonho dos humanos
Por eterna bênção realizar-se.




11 de fevereiro de 2018

Marche des Malouines (islas Malvinas)


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Ce chant s’appelle Marcha de las Malvinas (Marche des Malouines) et a été composé par Carlos Obligado (paroles) et José Tieri (musique). Il date de 1940 et chante la revendication que fait l’Argentine, depuis le XIX siècle, de sa souveraineté sur les iles Malouines, tout au sud de l’Atlantique. Les Anglais appellent cet archipel « Falkland Islands », tandis que les Argentins l’appellent « Islas Malvinas ». Jusqu’à présent cette marche est jouée dans les écoles et pendant tous les évènements officiels pour la revendication de la souveraineté.

Depuis 2001, on célèbre chaque année la Journée des vétérans et des combattants tombés pendant la guerre des Malouines le 2 avril, date où a commencé la guerre lancée par le dictateur militaire Leopoldo Galtieri en 1982. Mais la création de la chanson est plus ancienne, car en 1939 on a créé le « Comité pour la reprise des Malouines », destiné à ouvrir le débat publique à ce sujet. On a aussi organisé alors un concours de poésie et musique, et début 1941 cette chanson a réussi la dispute. Il va de soi que la marche est devenue très populaire lors de la guerre échouée contre le Royaume-Uni en 1982.

Le général sur l’écran est Galtieri même, qui dit au peuple à la fin de la vidéo : « Si quieren venir que vengan, ¡les presentaremos batalla! » (S’ils [les Anglais] veulent venir, qu’ils viennent ; on va les recevoir par la guerre !). Au début, les gens crient : « ¡El pueblo unido jamás será vencido! » (Le peuple uni ne sera jamais vaincu !). La dictature voulait recouvrer sa popularité dans un temps de crise, mais le conflit a été favorable à Margaret Thatcher, qui a ainsi camouflé les effets récessifs de ses politiques fiscales. Quoique la guerre ait été une tragédie pour les militaires et pour la nation, cette chanson est un des symboles de l’« irredentismo argentino », une idéologie qui prône la souveraineté de l’Argentine sur des territoires disputés avec les voisins.

J’ai extrait le son de cette vidéo qui a aussi des images concernant la Guerre des Malouines et les sous-titres en espagnol. Le discours de Galtieri a été prononcé lors de la déclaration de guerre, la veille de Pâques, et on peut le regarder tout entier ici. Moi-même ai traduit, monté et sous-titré la vidéo, et ci-dessous on peut regarder mon sous-titrage, qui se trouve sur ma chaine Eslavo (YouTube), et lire le poème en espagnol et la traduction française :


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Tras su manto de neblinas,
No las hemos de olvidar.
“¡Las Malvinas, Argentinas!”,
Clama el viento y ruge el mar.

Ni de aquellos horizontes
Nuestra enseña han de arrancar,
Pues su blanco está en los montes
Y en su azul se tiñe el mar.

Por ausente, por vencido,
Bajo extraño pabellón,
Ningún suelo más querido
De la Patria en la extensión.

¿Quién nos habla aquí de olvido,
De renuncia, de perdón?
¡Ningún suelo más querido,
De la Patria en la extensión!

¡Rompa el manto de neblinas,
Como un sol, nuestro ideal,
Las Malvinas, Argentinas
En dominio ya inmortal!

Y ante el sol de nuestro emblema,
Pura, nítida y triunfal,
Brille ¡oh Patria! en tu diadema,
La perdida perla austral.

¡Para honor de nuestro emblema,
Para orgullo nacional,
Brille ¡oh Patria! en tu diadema,
La perdida perla austral.

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Derrière leur voile nébuleux,
Nous ne les oublierons jamais.
« Les Malouines, Argentines ! »,
Crie le vent et rugit la mer.

Pas même de ces horizons
On n’arrachera notre enseigne,
Car son blanc est sur les monts
Et son bleu colore la mer.

Bien qu’absent ou vaincu,
Sous un drapeau étranger,
Il n’y a pas de sol plus cher
Dans le territoire de la Patrie.

Qui, parmi nous, a parlé d’oubli,
De renoncement ou pardon ?
Il n’y a pas de sol plus cher
Dans le territoire de la Patrie!

Que nos idées, comme un soleil,
Rompent le voile nébuleux,
Les Malouines sont Argentines,
Dans un domaine déjà immortel !

Devant le soleil de notre emblème,
Pure, limpide et triomphale,
Que la perle lointaine du sud
Brille sur la couronne de la Patrie.

Pour l’honneur de notre emblème,
Pour l’orgueil de la nation,
Que la perle lointaine du sud
Brille sur la couronne de la Patrie.




7 de fevereiro de 2018

Canção de Horst Wessel (hino NSDAP)


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Esta música é conhecida como Canção de Horst Wessel (em alemão, Horst-Wessel-Lied), e foi feita em 1929 justamente por Horst Ludwig Georg Erich Wessel (1907-1930), líder distrital das Sturmabteilung (Tropas de Assalto), também conhecidas como SA, que serviam de força paramilitar em combates de rua do NSDAP (Partido Operário Nacional-Socialista Alemão). Imitando a prática recorrente também no partido comunista (o KPD), ele escreveu a letra, embora os estudiosos ainda discutam de que fonte ele tirou a melodia. Sob o governo de Hitler, a lenda oficial fez crer que o ritmo também era de sua autoria.

Na virada das décadas de 20 e 30, a penúria e a polarização política na Alemanha eram tão grandes que o KPD e o NSDAP chegavam a se enfrentar frequentemente em combates de rua, usando suas próprias forças paramilitares. Numa dessas brigas, Horst Wessel foi ferido gravemente e morreu no hospital, mas após a tomada do poder em 1933, Joseph Göbbels, Ministro da Propaganda, alçou-o à condição de um dos vários mártires e mitos que o regime estava criando pra se legitimar. Assim, o relato canônico informa que Wessel compôs a canção toda e foi morto diretamente pelos comunistas. Na sequência, a música, que já tinha sido adotada como hino partidário em 1930, tornou-se um símbolo nacional em 1933 e era na prática usada como um hino nacional paralelo, ao lado da primeira estrofe da Canção dos Alemães (Deutschlandlied).

Após a derrota alemã na 2.ª Guerra Mundial, a Canção de Horst Wessel teve a execução proibida na Alemanha, assim como em outros países que proibiram a ostentação pública de símbolos do NSDAP, entre eles o Brasil. Mencionadas na música, as SA foram fundadas em 1920, submetidas ao SS (Esquadrão de Defesa) em 1934 e extintas formalmente em 1945, com a ocupação aliada. Quando o hino se tornou um símbolo nacional, alguns trechos do texto original foram trocados, pra mudar o tom de um partido militante pra um partido no poder. (Eu mesmo só vi depois que onde se lê “passo firme e corajoso” devia ser “passo firme e calmo”.) O Rotfront era a organização paramilitar do KPD; a “reação” é uma referência aos conservadores e liberais-democratas que formavam o status quo da Alemanha de Weimar; e a “servidão” refere-se à geopolítica criada pelo Tratado de Versalhes, que impôs aos alemães duras reparações aos vencedores.

Foram feitas versões em várias línguas por outros grupos menores de extrema-direita, inclusive em russo, mas também paródias cômicas e pejorativas em diversos países e momentos da história. Eu tirei a letra em alemão e baixei o áudio da Wikipédia em inglês, e eu mesmo traduzi diretamente daquela língua. O canal Eslavo (YouTube), onde carreguei o vídeo, e este blog consistem em iniciativas culturais e educativas apartidárias e reforçam compromisso com a democracia e a disponibilização de material histórico de conteúdo variado a todos os públicos, sem qualquer forma de limitação. Seguem abaixo minha legendagem, a letra em alemão (os apóstrofos indicam letras “e” surpimidas na fala coloquial) e a tradução em português:


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Die Fahne hoch! Die Reihen fest geschlossen!
SA marschiert mit ruhig festem Schritt.
Kam’raden, die Rotfront und Reaktion erschossen,
Marschier’n im Geist in unser’n Reihen mit.
Kam’raden, die Rotfront und Reaktion erschossen,
Marschier’n im Geist in unser’n Reihen mit.

Die Straße frei den braunen Bataillonen.
Die Straße frei dem Sturmabteilungsmann!
Es schau’n aufs Hakenkreuz voll Hoffnung schon Millionen.
Der Tag für Freiheit und für Brot bricht an!
Es schau’n aufs Hakenkreuz voll Hoffnung schon Millionen.
Der Tag für Freiheit und für Brot bricht an!

Zum letzten Mal wird Sturmalarm geblasen!
Zum Kampfe steh’n wir alle schon bereit!
Schon flattern Hitlerfahnen über allen Straßen.
Die Knechtschaft dauert nur noch kurze Zeit!
Schon flattern Hitlerfahnen über allen Straßen.
Die Knechtschaft dauert nur noch kurze Zeit!

Die Fahne hoch! Die Reihen fest geschlossen!
SA marschiert mit ruhig festem Schritt.
Kam’raden, die Rotfront und Reaktion erschossen,
Marschier’n im Geist in unser’n Reihen mit.
Kam’raden, die Rotfront und Reaktion erschossen,
Marschier’n im Geist in unser’n Reihen mit.

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Bandeira ao alto! Fileiras bem cerradas!
Marcha a SA a passo firme e tranquilo.
Os camaradas fuzilados por comunistas e liberais
Acompanham nossas divisões em espírito.
Os camaradas fuzilados por comunistas e liberais
Acompanham nossas divisões em espírito.

A rua livre para os Batalhões marrons.
Livre para o homem das Tropas de Assalto!
Milhões já olham para a suástica cheios de esperança.
O dia para a liberdade e o pão está raiando!
Milhões já olham para a suástica cheios de esperança.
O dia para a liberdade e o pão está raiando!

O clarim está sendo tocado pela última vez!
Já estamos todos prontos para o combate!
Os pendões de Hitler já estarão em todas as ruas.
A servidão não vai durar por muito tempo!
Os pendões de Hitler já estarão em todas as ruas.
A servidão não vai durar por muito tempo!

Bandeira ao alto! Fileiras bem cerradas!
Marcha a SA a passo firme e tranquilo.
Os camaradas fuzilados por comunistas e liberais
Acompanham nossas divisões em espírito.
Os camaradas fuzilados por comunistas e liberais
Acompanham nossas divisões em espírito.




4 de fevereiro de 2018

La Marche de San Lorenzo (Argentine)


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J’ai ajouté à ma chaine Eslavo (YouTube) ce chant appelé Marcha de San Lorenzo (Marche de San Lorenzo) et composé par Cayetano Alberto Silva (mélodie, 1901) et Carlos Javier Benielli (paroles, 1907). Il célèbre le combat de San Lorenzo (ville dans la province argentine de Santa Fe), mené le 3 février 1813 entre les troupes du colonel José de San Martín, héros de l’indépendance de l’Argentine, et les soldats royalistes qui défendaient la domination espagnole.

Dans une zone presque désertique près du Couvent de San Carlos Borromeo, la chanson commence quand le soleil se lève (« Febo » – Phébus, Apollon ou Helios, selon la figuration mythologique grecque) et finit quand meurt le granadier pro-indépendance Juan Bautista Cabral, tué à l’âge de seulement 22 ans dans le poste de sergent. Cabral est devenu un héros national dont le mythe se doit au fait d’être allé au secours de San Martín, dont le cheval était tombé lors de ce combat qui a incarné le « baptême de feu » de l’Armée argentine.

Cette chanson est devenue une des pièces les plus célèbres de la musique militaire, au point des troupes nazis l’avoir jouée lors de l’occupation de Paris en 1940, et quelques ans après le général Eisenhower même la faire aussi sonner quand les Alliés y sont entrés. Les musiciens militaires du Brésil, Uruguay, Pologne et d’autres pays l’ont également ajoutée à son répertoire. Cette vidéo a été la source du son et a aussi un montage cool avec des images historiques et les paroles en espagnol. Moi-même ai traduit, sous-titré et monté la vidéo, après avoir copié le récit historique et les paroles originales de la Wikipédia espagnole. Regardez ci-dessous mon sous-titrage, le poème en espagnol et la traduction française :


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Febo asoma; ya sus rayos
iluminan el histórico convento;
tras los muros, sordos ruidos
oír se dejan de corceles y de acero.

Son las huestes que prepara
San Martín para luchar en San Lorenzo;
el clarín estridente sonó
y la voz del gran jefe
a la carga ordenó.

Avanza el enemigo
a paso redoblado,
al viento desplegado
su rojo pabellón.

Y nuestros granaderos,
aliados de la gloria,
inscriben en la historia
su página mejor.

Cabral, soldado heroico,
cubriéndose de gloria,
cual precio a la victoria,
su vida rinde, haciéndose inmortal.

Y allí salvó su arrojo,
la libertad naciente
de medio continente.
¡Honor, honor al gran Cabral!

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Le soleil vient; ses rayons déjà
éclairent l’historique couvent;
derrière ses murs, la sonnerie
des chevaux et des épées est audible.

Ce sont les troupes préparées
par San Martín pour lutter à San Lorenzo;
le clairon strident a sonné
et la voix du grand chef
a ordonné l’attaque.

L’ennemi avance
au pas redoublé
en secouant dans le vent
son drapeau rouge.

Et nos grenadiers,
alliés à la gloire,
écrivent dans l’histoire
sa meilleure page.

Cabral, soldat héroïque,
couvert de gloire,
comme prix de la victoire,
a donné sa vie et est devenu immortel.

Et là son courage a sauvé
la liberté naissante
à la moitié du continent.
Honneur, honneur au grand Cabral !