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26 julho 2021

Morte de Bucetáui, imigrante na Itália


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É isso mesmo que você leu, certamente não vai encontrar algo mais bizarro hoje. Um imigrante marroquino que circulava pelas ruas de Voghera, cidade na região da Lombardia (norte da Itália), tinha o sobrenome Bucetáui e no último 21 de julho foi assassinado por um ex-policial ligado ao partido Lega, de Matteo Salvini: assista à íntegra do jornal TG la 7. Yunes el-Busetawi, grafado na mídia italiana como Youns El Boussettaoui, tinha 39 anos, vivia em situação de rua e aparentemente sofria de transtornos mentais.

Na frente de um restaurante da praça Meardi, começou a incomodar alguns clientes ao ar livre com atitudes desconexas, e o ex-policial e assessor municipal de segurança indicado pela Lega, Massimo Adriatici, aproximou-se dele com uma pistola na mão. Tendo sido empurrado por el-Busetawi, acabou disparando a arma, alegadamente por acidente, ainda que se estejam investigando as circunstâncias. O partido de direita alega que Adriatici exerceu um direito à legítima defesa, mas analistas criticam que o marroquino não tinha nenhum objeto à mão pra defesa pessoal. As tensões aumentam ainda mais em se tratando de imigrantes e de partidos anti-imigração.

Eu mesmo traduzi de ouvido, direto do italiano, mas com um pouco de dificuldade por causa do forte sotaque local, então não sei se está tudo certo. A reportagem não está completa, apenas cortei os trechos em que o nome da vítima é destacado. Leiam também matérias daquele dia (em italiano) sobre o ocorrido: primeira, el-Busetawi morto no tórax por assessor da Lega; segunda, Adriatici tinha deixado a pistola carregada e destravada; e terceira, informações mais detalhadas sobre o caso. Eu sei que parece sacanagem zoar em cima da morte de um imigrante, mas este nome alusivo pros falantes de português não podia passar batido...


24 julho 2021

Chinesa e mongol falando em russo


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As últimas edições do meu programa favorito de política mundial, “Международное обозрение” (Mezhdunaródnoie obozrénie; pode ser traduzido como “Panorama Internacional”), têm dado interessantes reportagens sobre como os russos têm se relacionado com os vizinhos do Extremo Oriente, sobretudo com países comunistas ou ex-comunistas. O programa é exibido pelo canal jornalístico Rossia 24, controlado pelo governo, e atualmente apresentado por Fiodor Lukianov, especialista em relações internacionais. Eu sei que contém praticamente a visão política de Putin, mas abstraindo isso, gosto do programa como um contraponto à visão ocidental predominante e uma fonte de informações muito variadas.

Na edição de 9 de julho passou uma reportagem sobre como os chineses estão curtindo cada vez mais a cultura russa, na sequência da reaproximação entre os dois países, e na edição de 16 de julho tratou-se dos 100 anos de relações internacionais da República da Mongólia, um dos primeiros Estados socialistas do mundo, com outros países, incluindo a Rússia soviética.

A moça chinesa entrevistada, identificada como Zhang Ling, frequenta um dos cursos ministrados por uma russa na China e fala algumas palavras no idioma. Há alguns pontos que não correspondem à língua padrão, como o uso de on (ele) pra se referir à avó, o uso de baba quando deveria ser babka ou bábushka (já fiz muito esse erro!) e o uso de em minha memória talvez pra se referir a alguma recordação do passado.

Zhang Ling menciona o conto Kolobók, que na verdade é conhecido entre todos os eslavos orientais e tem equivalentes aproximados em países vizinhos, eslavos ou não. Trata-se de algo parecido com um crepe redondo ou com uma carolina (o doce), dependendo da versão, que toma vida e participa da história (não existe tradução exata da palavra).

Na semana seguinte, o canal exibiu toda uma reportagem sobre a permanência da figura de Gengis Khan como um mito de fundação nacional e a constituição da Mongólia moderna como um Estado separado da China e desde o início auxiliado pelos bolcheviques. Houve uma breve participação de Jügderdemidiin Gürragchaa, nascido em 1947 e primeiro astronauta do país, treinado na antiga URSS e falante do russo, embora um pouco destreinado, como vemos. Ele também foi ministro da Defesa da Mongólia de 2000 a 2004, e lamenta a negligência dada atualmente à língua russa, tão importante outrora na diplomacia nacional.

Na verdade, mesmo mantendo uma independência formal, a Mongólia socialista era na prática tutelada pela URSS, tanto que adotou uma adaptação do alfabeto cirílico pra sua língua peculiar, diferente das de todos os vizinhos. Porém, nunca houve revolta contra o governo comunista, que acabou pacificamente em 1990, e o país permaneceu relativamente pacífico, protegido também pela China comunista e contra os invasores japoneses e do Guomindang.

Eu mesmo transcrevi, traduzi e legendei os trechos concernidos, embora no caso do mongol eu não saiba se está totalmente correto, porque ele praticamente fala pra dentro. Assista aos vídeos e leia as transcrições e as traduções:


Когда я была маленькой, баба часто мне читала русские сказки... [Какие?] «Колобок»! И она часто играла на фортепиано музыку Чайковского. В моей памяти баба всегда говорила, что Россия – это очень красивая и великая страна.

(Quando eu era pequena, vovó sempre lia contos russos pra mim... [Quais?] Kolobok! E sempre tocava no piano músicas de Chaikovski. Me lembro que vovó sempre dizia que a Rússia é um país muito bonito e grandioso.)


Русский язык знали практически все, предавал огромное значение со стороны государства, а теперь этой поддержки нет. Ну, приходится уже это, вот. Молодые люди сами вообще решают, какой язык будет для них главным языком. В этом году мы отмечаем столетие дипломатического установления... дипломатических отношений. Ну, каждое отношение с иностранной организацией, иностранным государством... на языке основа, да? И если ты язык того государства не знаешь, отношение будет не такой, какой... Но вообще я всегда говорю, думаю, что самое хорошее отношение – это отношение между простыми людьми.

(Praticamente todos sabiam a língua russa, ela recebia uma enorme consideração da parte do Estado, mas agora não existe mais esse apoio. É isso que está ocorrendo. Em geral são os próprios jovens que decidem qual será a principal língua para eles. Neste ano celebramos o centenário da constituição diplomática, das relações diplomáticas... Bem, cada relação com uma organização estrangeira, com um Estado estrangeiro... tem a língua por fundamento, não? E se você não sabe a língua desse Estado, bem, a relação não será tão como... Mas em geral eu sempre falo, penso que a mais importante das relações é a relação entre as pessoas comuns.)

18 julho 2021

Os 10 países mais violentos do mundo


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O artigo “Conflits : les 10 pays les moins pacifiés au monde” (Conflitos: os 10 países menos pacificados do mundo) foi escrito por Sabine Cessou e publicado hoje, 18 de julho, no site da RFI em francês. Notável é a informação de que os brasileiros são o povo que mais teme a violência, mesmo sem a ter vivido. Tradução de Erick Fishuk.


A edição de 2021 do Índice Global da Paz, um indicador do Institute for Economics and Peace (IEP), think tank sediado em Sydney, revela que cinco países da África estão entre as 10 nações menos pacificadas do mundo.

A África do Sul está em chamas, desde a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Ela corre o risco de somar-se, no ano que vem, à lista dos países menos pacificados do Global Peace Index (Índice Global da Paz) elaborada pelo IEP, um think tank sediado em Sydney. Islândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Portugal, Eslovênia, Áustria, Suíça, Irlanda, República Checa e Canadá são os 10 países mais pacificados do mundo.

No outro extremo, a África conta com cinco dos 10 Estados mais conflituosos e inseguros do planeta. Na ordem dos piores figuram Afeganistão, Iêmen, Síria, Sudão do Sul (na 160.ª posição), Iraque, Somália, República Democrática do Congo, Líbia, República Centro-Africana e Rússia.

Limitando o foco à África, somam-se à lista dos 10 países menos pacificados Mali (148.ª posição), Nigéria (146.ª), Camarões (145.ª), Etiópia (139.ª) e Níger (137.ª).

O Índice Global da Paz (PDF em inglês), publicado em 23 de junho pelo IEP, um think tank australiano com escritórios em Bruxelas, Harare, Cidade do México, Haia e Nova York, passa 166 sob o crivo de seus 23 indicadores de medida dos conflitos, da segurança e da “militarização” das sociedades. Globalmente, o recuo foi baixo em 2020 (-0,07%), mas ele prossegue pelo nono ano consecutivo. Enquanto 73 países viram sua situação agravar-se, 87 obtiveram ganhos em paz.

O recuo mais forte do mundo no Burquina Fasso – As manifestações violentas aumentaram fortemente, ligadas à pandemia da covid-19, assim como a instabilidade política, em alta em 45 países. “O Índice registrou 5 mil incidentes violentos no mundo entre janeiro de 2020 e abril de 2021 ligados à crise da covid, enquanto o impacto de longo prazo da pandemia sobre os crimes violentos e os suicídios ainda não está claro”, explica Serge Stroobants, diretor do IEP em Bruxelas.

A Ucrânia e o Iraque foram os que mais progrediram, enquanto o Burquina Fasso conheceu o recuo mais grave do mundo em 2020. Segundo o relatório, “a decisão do governo de financiar e armar grupos auxiliares civis (link em francês) no combate contra os insurgentes aumentou o acesso ao armamento leve e a intensidade do conflito. O Burquina Fasso encontra-se em estado de guerra civil de baixa intensidade, com 1 milhão de pessoas desalojadas no fim de 2020”.

Todos os sinais também piscam em vermelho na Zâmbia por causa de disputas de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC) e da alta dos gastos militares. Mesma coisa na Etiópia, devido ao conflito no Tigray com intervenção da Eritreia, mas também aos 291 mortos nas manifestações que se seguiram ao assassinato do cantor Oromo Hachalu Hundessa (link em francês), sem esquecer as tensões com os países vizinhos em torno da barragem da Renascença no rio Nilo.

A violência tem um preço: quase 12% do PIB mundial – O impacto anual da violência é estimado pelo Índice na soma colossal de 15 trilhões de dólares, ou seja, 11,6% do PIB mundial. Os gastos militares representam 43% dessa soma total, a segurança internacional 31% e a segurança privada quase 8%, o restante sendo repartido entre os conflitos (3%), os crimes violentos (3,1%) e os homicídios (7%).

Mais interessante ainda é que a sondagem altamente abrangente em que se apoia o Índice, o World Risk Poll (site em inglês), conduzida pela Lloyd’s Register Foundation junto a 150 mil pessoas maiores de 15 anos em 142 países. Globalmente, os crimes violentos e o terrorismo são temidos por 15% das pessoas entrevistadas, e percebidos como o segundo risco após os acidentes de carro.

A África encabeça a experiência vivida da violência – Os cinco países com a experiência da violência mais fortemente vivida (pelas pessoas entrevistadas ou por conhecidos) nos dois últimos anos encontram-se na África: 63% na Namíbia, 58% na África do Sul, 56% no Lesoto, 55% na Libéria e 54% na Zâmbia. No mundo, a experiência mais fraca da violência situa-se, por outro lado, no Turcomenistão, no Usbequistão, no Japão, em Singapura e na Polônia.

Já o medo da violência é mais forte no Brasil (83%, duas vezes maior do que a experiência vivida da violência), na África do Sul (79%), nas Ilhas Maurício (76%), no Maláui (75%) e no Lesoto (74%). A violência é percebida como um risco principal no dia a dia por mais da metade das pessoas entrevistadas no Afeganistão, no Brasil, na África do Sul, no México e na República Dominicana.

As Ilhas Maurício constituem um caso particular, na medida em que elas aparecem no primeiro lugar dos países mais seguros da África, seguidas por Gana, Botsuana, Serra Leoa, Gâmbia e Senegal (54.ª posição mundial, logo à frente da França), segundo o Índice. O medo aumentou porque as ilhas viram sua taxa de homicídio dobrar (passando de 1,8 a 2,9 a cada 100 mil pessoas) e manifestações violentas ocorrerem devido à controversa gestão de um derramamento de petróleo em 2020 (link em francês).

Notem-se ainda outras exceções: a Mauritânia, único país da África Subsaariana onde menos de 20% das pessoas entrevistadas tiveram a experiência da violência nos dois anos anteriores, e Madagascar, único país onde menos de 20% das pessoas se dizem muito preocupadas com os crimes violentos.