domingo, 23 de junho de 2024

Latim escrito em alfabeto cirílico


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/cirilico-la


Esta é uma publicação aleatória cuja ideia eu já tinha tido há alguns anos, pelo menos desde que traduzi o Hino do Vaticano do latim e fiz ao mesmo tempo, por pura diversão, uma versão da letra original em alfabeto cirílico russo, rs. Hoje resolvi sintetizar minhas opções, mudei e precisei algumas escolhas, e embora sua utilidade prática seja nula, espero que você tenha gostado pelo menos da estética!

Como você já leu várias vezes aqui, quando faço leituras em voz alta de textos em latim, opto pela externalização da língua na chamada “pronúncia eclesiástica” ou “romana”, isto é, decalcada da língua italiana. Faço isso porque a chamada “reconstituída” não se constitui apenas na diferença de pronúncia dos ditongos e de algumas consoantes, mas também na expressão correta das vogais curtas como “abertas” e das longas como “fechadas”. Ora, nem todo texto comum indica as vogais longas com exatidão (se valendo do diacrítico “mácron”), e dá um trabalhão pegar um manual calcado na variante clássica ou um dicionário qualquer e ver a pronúncia “certa” de cada palavra... Não adianta deixar esse traço de lado, mas pronunciar C sempre como K, G sempre como “guê”, S sempre como SS e Æ e Œ sempre como “ái” e “ói”. É ridículo!

Mesmo assim, decidi agradar aos dois campos, e embora não introduzindo nenhuma indicação da duração vocálica, coloquei as opções de pronúncia diferente das consoantes e vogais, mostrando qual seria “reconstituída” e qual seria “eclesiástica”. Por ser a versão do cirílico mais usada, escolhi a russa, quase toda também compartilhada com o búlgaro, e preferi não fazer menções a outros cirílicos, pois misturar idiomas é horrível. Exceto por casos extremos, também não acho necessário empregar letras de cirílicos não eslavos, sobretudo da Ásia Central. Criei o “sistema” de forma que mais nada sobre a língua pudesse ser conhecido, mas apenas se conhecessem as regras pra troca direta de letras.

Espero que quem lê esta publicação já tenha pelo menos um conhecimento básico do alfabeto cirílico russo, e de sua fonética básica, no limite, pois não vou ensinar nada aqui, embora a pronúncia cirílica seja deduzida pelas letras latinas equivalentes. Seguem a lista numerada, de acordo com o tipo de letra e a dificuldade, e alguns textos de exemplo:


1. Vogais simples: А а (A), Е е (E), И и (I), О о (O), У у (U). No começo das palavras e após outra vogal, “E e” deve ser transliterado Э э, e IE/JE deve ser transliterado Е е. Alguns exemplos com hiatos pra esclarecimento: poeta ou poëta = поэта; aer ou aër (ar) = аэр. Aqui, ao contrário do russo e assim como em várias línguas eslavas, é preciso reconhecer que as letras Е е e И и não palatizam automaticamente a consoante anterior, e por isso seu emprego em determinadas situações vai obrigar ao recurso a grafemas diferentes dos usados com as outras vogais.

2. A semivogal “i”: Quando está no começo de palavras (antes de uma vogal, obviamente) ou entre vogais e pode, portanto, ser escrita como um J conforme costume mais medieval, é transliterada em conjunto com a vogal seguinte: Я я (IA/JA), Е е (IE/JE), Ё ё (IO/JO), Ю ю (IU/JU).

Quando está após uma consoante e antes de uma vogal, é de preferência transliterado da mesma forma acima, mas se adiciona um И и pra que o caráter semivocálico seja mais marcado: ИЯ ия, ИЕ ие, ИЁ иё, ИЮ ию. Não seria errado colocar essas “vogais brandas” diretamente após a consoante, ou colocar entre elas o “sinal brando” (Ь ь) pra ressaltar a ditonguização. Porém, em ambos os casos, teríamos que admitir, mais do que com a inserção do И, uma “palatização” das consoantes estranha ao latim.

Outra possibilidade pra separar o ditongo da consoante seria o uso do “sinal duro” russo (Ъ ъ) entre as duas letras. Porém, embora nesse caso a consoante inevitavelmente permaneça dura, seu uso é limitado mesmo em russo (prefixos + raízes e umas poucas palavras estrangeiras), por isso seu aparecimento constante tornaria o texto pouco estético. Portanto, a solução de inserir um И entre uma consoante e um ditongo iniciado com “i” parece mais aceitável.

É importante destacar que em russo e belarusso, salvo raríssimas exceções, a letra Ё ё sempre está na sílaba tônica, o que não necessariamente vai acontecer em minha transliteração do latim. Aqui, a sílaba tônica deve seguir as regras dessa língua, portanto, o Ё ё não vai ser necessariamente tônico. Além disso, o uso dos dois pontos sobre a letra é opcional em russo, mas não poderia ser em latim, assim como também é obrigatório em belarusso e tajique.

3. Os “ditongos” Æ (AE) e Œ (OE): Provavelmente pra economia de espaço na era medieval, diante de sua alta frequência, os ditongos latinos AE e OE, cuja pronúncia clássica equivalia ao AI e OI gregos, ou seja, “ái” e “ói”, foram fundidas naquelas ligaturas, ou seja, não consistem em letras separadas do alfabeto. Ao evoluírem pras línguas românicas, passaram a ter a pronúncia (e, portanto, a ortografia) “E e”, igualmente refletida no latim eclesiástico (geralmente “é” em sílaba tônica e “ê” em sílaba átona), assim como em decalques eruditos da Renascença, quando adquiriram a pronúncia “i” em inglês. Eu não seria contra transcrevê-los Э э (início de palavra ou após vogal: Mariæ, “de Maria” ou “a/pra Maria” = Мариэ) ou Е е (outros casos), mas não é minha primeira escolha.

Eu prefiro utilizar os ditongos АЙ ай e ОЙ ой em cirílico, porque praticamente não existem AI e OI com que possam ser confundidos (de fato, AE/Æ e OE/Œ passaram a ser sua ortografia padrão) e porque podem agradar igualmente aos classicistas que preferem as pronúncias “ái” e “ói” (ou “áe” e “óe” com o E um pouco semivocálico). No caso do latim eclesiástico, a vantagem maior é da associação gráfica, já que o uso do Е е poderia levar a confusões, restando fazer a convenção de que АЙ e ОЙ, apesar das ortografias, devem ser pronunciados como um E.

4. Duração vocálica: Assim como nos textos eclesiásticos, a duração vocálica do latim clássico não é marcada, pois isso não traz grandes prejuízos pro significado, exceto por algumas formas gramaticais que podem ser quase sempre deduzidas pelo contexto. Caso clássico é o da palavra rosa, que tem o A curto no nominativo singular e o A longo (“rosā”) no ablativo singular (“pela rosa”, “com a rosa”, “por meio da rosa”). Em cirílico, portanto, uma vogal dobrada indica exatamente uma vogal dobrada, e não uma vogal longa: tuus (teu) = туус, filiis (aos/pros filhos, às/pras filhas) = филиис.

5. A letra agá (H): No latim clássico e pós-clássico, ela representava uma aspiração que talvez já estivesse perdida na fala comum, por isso não tem uma representação própria quando aparece no começo das palavras: homo (homem, ser humano) = омо, habitus (hábito, disposição, aparência e vários outros sentidos) = абитус, hebræus (hebreu, judeu) = эбрайус, huius (deste/a, disto) = уюс.

Atenção: no caso de hebræus, não podemos transliterar como эбраюс, porque o ditongo Æ (portanto, também a combinação АЙ) é passível de ser lido como um E simples. Dessa forma, o uso compulsório de um Ю quebraria a possibilidade de dupla leitura e só seria aceitável se realmente tivéssemos um AIU/AJU no original (majus, mês de maio = маюс).

O ocasional aparecimento de um H (geralmente mudo) entre vogais também não é transcrito, assim como sua ocorrência após consoantes que não sejam nas seguintes combinações, geralmente criadas pra transcrever consoantes de origem grega originalmente aspiradas. Aqui, como se nota, preferi levar em conta a pronúncia pós-clássica ou medieval/moderna: CH (som K) = К к, PH (som F) = Ф ф, RH (H mudo) = Р р, TH (H mudo) = Т т. Num punhado de palavras do latim eclesiástico, como mihi (me, mim) e nihil (nada), o H geralmente soa K, portanto, poderíamos transliterá-las мики e никил, mas мии e ниил também seria aceitável.

6. A vogal de origem grega Y: Geralmente transcrevia palavras gregas com Υ υ, que na pronúncia clássica soava como os modernos U francês “com biquinho” e o Ü alemão, e voltou como uma praga em palavras modernas durante a Renascença e a reabilitação do latim e grego clássicos. Porém, na era pós-clássica, senão antes, já tinha ocorrido sua deslabialização, ou seja, a pronúncia como “i”. Então, nada mais natural do que assim a transcrever: hybrida (híbrido, pessoa mestiça) = ибрида. De fato, seguindo alguns velhos dicionários, o Wiktionary também menciona uma forma alternativa hibrida que justifica minha escolha.

7. Consoantes simples (finalmente!): Б б (B b), Д д (D d), Ф ф (F f), Л л (L l), М м (M m), Н н (N n), П п (P p), Р р (R r), Т т (T t), В в (V v), КС кс (X x). Essas consoantes não têm nenhuma ambiguidade, e em caso de geminação, obviamente elas aparecem dobradas.

8. Pronúncia do V semivocálico: Os adeptos da pronúncia “reconstituída” que tentam ao máximo se ater ao latim clássico do século 1 AEC costumam usar apenas a letra V em forma maiúscula e a letra “u” em forma minúscula, ambas correspondendo ao “U u” tanto vocálico quanto semivocálico. Eles evitam o U maiúsculo e o “v” minúsculo, pois na era clássica, que só conhecia maiúsculas, só existia V, e as duas formas mencionadas foram criadas na era medieval, quando o U semivocálico começou a adquirir a pronúncia do V (como em português) no início da palavra ou entre vogais.

Aqui não há dúvidas: o tal “u” semivocálico transformado em V vai ser sempre transliterado В в, cabendo a pronúncia e grafia У у apenas após vogal e antes de consoante: taurus (bolsonarista) = таурус, Europa (a deusa ou o continente Europa) = Эуропа (só seria Еуропа no caso de um “Ieuropa/Jeuropa”), prout (de acordo com, exatamente como) = проут (aqui o U pode ser vocálico ou semivocálico, o que não faz diferença).

9. Letra C no latim eclesiástico: Antes de A, O ou U, é transliterada К к, mas antes de E, I, Y, Æ e Œ, conforme a pronúncia romana (“tch”), é transliterada Ч ч: centrum (centro) = чентрум, civis (cidadão) = чивис, cœlum (céu) = челум, amicæ (amigas) = амичай. Os aficionados por Quíquero Cícero podem transliterar sempre como К к, mas as outras escolhas do latim reconstituído devem ser coerentes. Como a letra K quase não aparece, teria a mesma transliteração: kalendæ (calendas, primeiro dia do mês) = календай.

10. Letra G no latim eclesiástico: Antes de A, O ou U, é transliterada Г г, mas antes de E, I, Y, Æ e Œ, conforme a pronúncia romana (“dj”), é transliterada ДЖ дж: genu (joelho ou cotovelo) = джену, magister (mestre, professor) = маджистер. Atenção à pronúncia bem colada desse “dê” e “jê”, exatamente como em ucraniano e belarusso, e não separada, como costuma ocorrer em russo (em que esse encontro não é nativo à língua) ou no português “adjetivo”, “Djalma” (“dij...”) etc. Os classicistas podem transliterar sempre como Г г, ou seja, “guê” sempre “duro”.

Sobre o encontro GN, ele costuma ser pronunciado como o NH do português na pronúncia eclesiástica, o que podíamos reproduzir, antes de outras vogais, pelo mero uso da letra Н н seguida das vogais “brandas” (НЯ, НЁ, НЮ, bem como НЬИ e НЬЕ, que seriam mais naturais em russo caso não quiséssemos confundir com o NI e NE latinos). Mas pra agradar aos classicistas e evitar confusões, eu não seria contra manter como ГН гн mesmo, apenas devendo ser pronunciado “gn” na reconstituída e “nh” na clássica. Exemplos: ignis (fogo) = игнис, magnus (grande, magno) = магнус (ou porventura иньис, манюс). GNI antes de vogal deveria se tornar ГНИ ou НЬИ (+ vogal branda): insignia (emblemas, brasões, insígnias) = инсигния ou инсинья.

11. Letra J de origem medieval: Como dito no item 2 sobre o “i” semivocálico, o J só aparece em textos medievais e em alguns didáticos de meados do século 20 pra representar aquele “i” entre vogais e no início da palavra, antes de uma vogal. Por vezes é intercambiável com “i” na ortografia, portanto não vou repetir aqui.

A letra Ж ж, que em cirílico representa o som do J pronunciado à francesa ou portuguesa, não tem serventia sozinha, e dado que o som do J não é como em português, não pode ser transliterado por Ж. Nos casos em que o “i” aparece no fim da palavra e após uma vogal, por consequência das declinações, não se trata de uma semivogal, portanto, a transliteração correta é И и: Dei (de Deus) = Деи, tui (teus) = туи.

12. A combinação QU: Em latim, assim como em italiano moderno, a letra Q só é usada em combinação com U pra fazer o ditongo que soa como o QU de “aquático” em português. Em latim e italiano, QUE e QUI sempre soam como se tivessem trema em nossa ortografia antiga (QÜE e QÜI), ou seja, com U semivocálico. A ortografia КУ ку em cirílico pode ser confundida com um CU (rs) em que o U não é semivocálico, mesmo antes de vogal, e por razões lógicas não existe nenhum equivalente exato ao Q em nenhuma versão daquele alfabeto.

Por isso, seria interessante adotar a transliteração КВ кв, convencionando que a pronúncia preferencial é “kw”, e não “kv”, por duas razões principais. Primeira, a combinação sonora “kv” não existe em latim, portanto, não daria margem a confusão. E segunda, não só o QU latino evoluiu pra KV em várias línguas eslavas (e o eslavo Zamenhof fez a mesma coisa em várias palavras do esperanto), mas também os falantes de alemão e de línguas nórdicas, mesmo em palavras emprestadas, costumam pronunciar o QU como KV. Exemplos: quattuor (quatro) = кваттуор, loqui (falar) = локви, quæro (procuro, busco por, pergunto, peço etc.) = квайро, Quintus (nome de homem) = Квинтус.

13. Letra S no latim eclesiástico: No latim clássico, talvez não houvesse o som sonoro do S intervocálico como no português “rosa”, por isso ele era pronunciado como em “sapato”, e da mesma forma, mas longo, quando geminado (esse, ser). Em italiano, onde em alguns dialetos, como o toscano, ocorre a mesma coisa, o SS costuma ser pronunciado como um S longo mesmo na língua padrão, mas entre vogais, o som é igual ao do português (ou seja, o Z de “zebra”).

Seguindo a pronúncia romana, podemos transliterar o S inicial ou final, e o SS, como С с (ou SS como СС сс pra evitar possíveis confusões), e o S intervocálico (“z”) como З з: sutor (sapateiro) = сутор, possum (eu posso) = пос(с)ум, fortis (forte) = фортис. Os classicistas poderiam se sentir livres pra usar С с sempre que houvesse um S simples, um СС сс na ocasião de um SS e simplesmente dispensar o З з.

Já antecipando a letra Z, ela igualmente só servia pra transcrever palavras gregas, nas quais soava “dz”, como nessa língua (a pronúncia “z” do zeta moderno é recente), por isso, acho impreciso usar a letra З з. Em prol da exatidão, eu usaria a combinação ДЗ дз, que é pronunciada numa só emissão, como em ucraniano e belarusso (mas não necessariamente em russo).

14. A combinação eclesiástica SC: Naturalmente, numa pronúncia e transliteração “reconstituídas”, poderia ser sempre tornada СК ск, mesmo antes dos sons “e” e “i”. Porém, na pronúncia eclesiástica, assim como em italiano, ela soa como o CH português antes dos mesmos sons, o que permite, nesses casos, a transliteração de SC como Ш ш. Exemplos: scire (conhecer, saber) = шире, scæna (cena, palco, teatro etc.) = шайна (há a versão alternativa scena, шена), scio (eu sei) = шиё (“io” é hiato).

15. O conjunto TI antes de vogais: No latim clássico, a pronúncia do T é inequívoca, mas no eclesiástico, existe uma tendência de pronunciar o conjunto TI como “tsi” (“i” semivocálico) antes de vogal, exceto se esse próprio “i” for tônico (formando um hiato, portanto) e se esse TI vier após S, X ou outro T, quando mantém o som T original. Nesse caso, o conjunto TI pode ser transliterado ЦИ ци: gratia (graça) = грация, patientia (paciência) = пациенция, nuntius (mensagem, enviado, notícia, ordem) = нунциюс. Compare: ostium (porta, entrada) = остиюм.

16. A combinação eclesiástica XC: Antes das vogais que soam como “e” e “i”, sua pronúncia romana é “kch” (K + CH), portanto, correspondente à transliteração КШ кш: excelsus (elevado, sublime, excelente) = экшелсус. Em outros casos, a pronúncia “ksk” equivale à transliteração КСК: exclamare (exclamar, gritar, berrar, anunciar) = экскламаре.

17. Letras inúteis nos dois alfabetos: Na língua latina, apenas a letra W não aparece em nenhum momento antes da Idade Moderna, pois é uma invenção germânica usada pra transcrever as línguas desses povos. No alfabeto cirílico (russo, lembremos), ficamos sem usar o Х х (som gutural inexistente em latim, mas pode transliterar CH; ver abaixo), o Щ щ, o Ъ ъ (salvo no caso excepcional mencionado acima) e o Ы ы. O sinal brando Ь ь tem um uso bastante limitado, como se viu ao longo do texto.

18. Diferenças em relação ao russo: Deve-se lembrar que, apesar do uso ostensivo do cirílico russo, algumas peculiaridades da pronúncia dessa língua, que não se reproduzem em outras línguas eslavas, também não são esperadas em latim: a pronúncia do И и como a vogal gutural Ы ы após certas letras, o enfraquecimento das vogais А а, Е е e О о (que se pronuncia como a primeira) em sílabas átonas e a pronúncia tensa e retroflexa de Ж ж e Ш ш.


Não era minha pretensão inicial fazer uma tabela resumindo minhas escolhas, mas como o texto ficou bastante longo, seguem as orientações pra que possam ser aplicadas imediatamente, sem a adição de possíveis soluções alternativas:

A, O, U = А, О, УJA, JE, JO, JU (ou IA, IE, IO e IU no início de palavra ou após vogal) = Я, Е, Ё, Ю
AE/Æ e OE/Œ = АЙ e ОЙ; AË e OË separados como hiato = АЭ e ОЭK, L, M, N, P = К, Л, М, Н, П
E = Е (após consoante), Э (no início de palavra ou após vogal)QU = КВ
B = БR = Р
C = Ч (antes de E, I, Y, Æ e Œ), К (antes de outras vogais e em outras posições)S = С (no início ou fim de palavra, antes ou depois de consoantes ou como SS), З (entre vogais)
CH = КT = Т; TI antes de vogal, não antecedido de S, T ou X e com “i” átono = ЦИ (A, O e U seguintes se transliteram Я, Ё, Ю)
D, F = Д, ФV = В
G = ДЖ (antes de E, I, Y, Æ e Œ), Г (antes de outras vogais e em outras posições)X = КС
GN = geralmente ГН, mas é possível também: GNA, GNE, GNI, GNO, GNU = НЯ, НЬЕ, НЬИ, НЁ, НЮ; GNIA, GNIO, GNIU = НЬЯ, НЬЁ, НЬЮXC = КШ (antes de E, I, Y, Æ e Œ), КСК (em outros casos)
H = não se transcreve, mesmo com TH, RH (Т, Р); exceto CH = sempre К, PH = Ф e em mihi, nihil = мики, никилZ = ДЗ
I, Y = И (vocálico i.e. entre consoantes e no início ou fim de palavra); IA, IE, IO, IU (após consoante) = ИЯ, ИЕ, ИЁ, ИЮ 


O essencial acaba aqui. Admitida a possibilidade de usar caracteres do alfabeto cirílico adaptados pra outros idiomas eslavos e não eslavos, podemos usar as seguintes soluções, de modo emergencial ou muito alternativo. Só em última hipótese, caso se queira realmente manter a equivalência “um som, uma letra cirílica” ou “um símbolo latino, uma letra cirílica”. Não gosto de misturar caracteres de línguas diferentes, pois não somente obrigaria à constante troca de teclado, mas também é algo esteticamente desagradável e linguisticamente errado. Seguem os itens, caso seja do interesse de alguém!

1. Os ditongos Æ e Œ: Obviamente, a opção apresentada é muito mais adequada pra quem segue a pronúncia “reconstituída”, mas pra quem insiste num grafismo diferente pra pronúncia eclesiástica, sugiro respectivamente as letras tártaras Ә ә e Ө ө. Em algumas línguas europeias modernas, bem como no Alfabeto Fonético Internacional (IPA), as ligaturas foram exatamente associadas aos sons que aquelas letras têm no tártaro: como o “a” do inglês hat e o “eu” do francês jeu (no IPA, na verdade, é aberto como no francês jeune).

Em todo caso, pra representar o latim, esse grafismo deve ser “convencionado”, ou seja, como as citadas vogais nunca existiram em latim (pelo menos como fonemas distintivos), deve-se ter em mente que Ә ә é a representação do Æ e Ө ө é a representação do Œ, ambos com o som “ê” ou “é”, e não como em tártaro.

2. O dígrafo CH: Como vimos, ele serve basicamente pra transliterar o K aspirado grego, cuja letra idêntica em forma a nosso X moderno atualmente soa como nosso RR gutural, mas mais escarrado, praticamente como o J espanhol padrão. Nas línguas ocidentais, o CH passou a soar como um K normal, mas em algumas línguas, sobretudo as eslavas, evoluiu pro mesmo som (ou semelhante) ao grego, como é o caso do russo, que pra representar esse som usa a letra Х х.

Também aqui temos uma convenção gráfica pra quem deseja realmente diferenciar na escrita o C/K do CH, já que essencialmente ambos têm o mesmo som no latim “eclesiástico”, e já que na pronúncia “reconstituída” ele não soa nem como o “qui” grego, nem como o Х х cirílico.

3. ДЖ дж e ГН гн/НЬ нь cirílicos: Equivalem respectivamente ao G antes dos sons “e” e “i” (portanto, pronunciado “dj”) e ao GN com som de “nh”. Pra ambos, podemos usar as respectivas letras sérvias e macedônias Џ џ e Њ њ, permitindo-se ainda o uso, depois da segunda, de Я я, Ё ё e Ю ю pra representar os respectivos grafemas, IA, IO e IU.

4. Pronúncia aspirada do H: Caso você queira uma letra separada pro H, pronunciando-o ou não de forma aspirada como em inglês, sugiro o uso da letra Һ һ do tártaro (a minúscula é idêntica à nossa) ou do Ҳ ҳ do tajique, que é o mesmo sinal do CH, mas com um “rabinho” ou “perninha” (como queira!) à direita. Pros classicistas mais fanáticos, não recomendo seu uso diante de consoantes aspiradas, sobretudo por razões estéticas, mas não há nada que objetivamente possa o impedir.

5. A vogal Y de origem grega: Se você quiser pronunciar o Y como em grego clássico, ou seja, como o Ü alemão ou o U francês com “biquinho”, sugiro a letra Ү ү, também do tártaro (como língua túrquica, ela tem os mesmos sons Ö e Ü do turco, além de um Ä, como visto acima, que na Anatólia despareceu como fonema distintivo). Você não enxergou errado: na forma minúscula, a “perna” inferior também é vertical, e não inclinada, como no У у (U) russo, que também a inclina na maiúscula. Se for usar, preste atenção nesse traço minucioso! Atenção: não use Ы ы à guisa do Y latino, pois o som da letra russa nada tem a ver com a pronúncia grega ou latina.

6. A semivogal “i”: Se você quiser usar uma letra separada pro som do “i” semivocálico, e não uma letra combinada, como ocorre com IA, IO e IU, use o Ј ј do sérvio e do macedônio, e não o Й й de outras línguas eslavas, quase sempre reservado pro fim de sílaba, salvo em casos raríssimos. Ele permite manter o som “e” da letra Е е em qualquer ocasião e dispensa o uso do Э э após vogais ou no começo de palavra, e permite também que você possa escrever sempre ИА, ИО, ИУ no lugar de ИЯ, ИЁ, ИЮ.

Se quiser ir ainda mais longe, use o Ў ў belarusso pra representar o U da combinação QU, que é sempre semivocálico. Eu não recomendo, pois essa letra quase só se restringe ao belarusso e só se usa em fim de sílaba, geralmente como equivalente etimológico de um L ou V final, e não como uma abertura “crescente” de sílaba.

7. A letra Z com som “dz”: Por ser raro, o Z soa “dz” tanto na pronúncia “reconstituída” quanto na “eclesiástica”, e embora possa ser representado por duas letras em cirílico (D + Z), existe também a letra macedônia Ѕ ѕ (apesar da equivalência com a forma de nosso S, não as confunda na digitação, pois têm sentidos diferentes!), cuja pronúncia une estritamente os dois sons. Essa letra foi exumada do cirílico antigo, usado pra escrever o eslavônio (eclesiástico), e hoje só se usa na língua macedônia. Portanto, meu objetivo ao sugeri-la foi apenas manter a equivalência letra-letra ou letra-som, e seu emprego não é lá muito prático.

8 (last but not least). Não confunda as bolas! A adoção das sete opções sugeridas acima, que não recomendo numa hipotética aplicação sistemática do alfabeto cirílico a textos latinos, deve ser uniforme, feita em conjunto e no lugar das respectivas alternativas da lista principal. Isso porque é muito mais fácil você manter um só teclado (o russo, nesse caso) e ir digitando fluentemente do que ficar trocando toda hora, mesmo que isso seja possível no celular, e em grau menor no computador.

Portanto, se decidiu escrever o H, escolha o Һ һ tártaro ou o Ҳ ҳ tajique, não misture os dois no mesmo texto! Se optou uma vez por transliterar o Z como ДЗ дз, não use o Ѕ ѕ macedônio no resto! E se decidiu transformar o GN em ГН гн, mesmo que a pronúncia seja “nh”, não meta um НЬ нь em parte alguma! Parece uma recomendação chata pra uma atividade que só teria valor, no máximo, numa fanfic, mas acredite, cirílicos de várias línguas misturados no mesmo texto são tão incompreensíveis e feios que não são aceitos sequer em projetos de idiomas auxiliares intereslavos. Ofendem tanto a falantes nativos, eslavo ou não, quanto a especialistas.


E como não podia deixar de ser, seguem alguns exemplos de texto, escolhidos aleatoriamente, os quais optei por transliterar pelas sugestões da tabela resumida, restrita apenas ao cirílico russo, pronúncia “eclesiástica”. O que não foi aleatório foram os períodos: um texto “clássico”, um texto eclesiástico medieval e um texto sobre um tema recente, supostamente escrito por um cidadão da atualidade. Vou apenas dar os nomes e as fontes dos textos, mas deixo a você o “agradável” exercício de transliterar e, se desejar, ler em voz alta sem usar o original em latim, rs:

Caio Júlio César, De Bello Gallico [Де Белло Галлико] (Comentários sobre a Guerra da Gália):
Галлия эст омнис дивиза ин партес трес, кварум унам инколунт Белджай, алиям Аквитани, терциям кви ипсорум лингва Челтай, ностра Галли аппеллантур. И омнес лингва, институтис, леджибус интер се дифферунт. Галлос аб Аквитанис Гарунна флумен, а Белджис Матрона эт Секвана дивидит. Орум омниюм фортиссими сунт Белджай, проптереа квод а култу аткве уманитате провинчиай лонгиссиме абсунт минимекве ад эос меркаторес сайпе коммеант аткве эа, квай ад эффеминандос анимос пертинент, импортант проксимикве сунт Джерманис, кви транс Ренум инколунт, квибускум континентер беллум джерунт. Ква де кауза Элвеции квокве реликвос Галлос виртуте прайчедунт, квод фере котидианис пройлиис кум Джерманис контендунт, кум аут суис финибус эос проибент аут ипси ин эорум финибус беллум джерунт. Эорум уна парс, квам Галлос обтинере диктум эст, инициюм капит а флумине Родано, континетур Гарунна флумине, Очеано, финибус Белгарум, аттингит эциям аб Секванис эт Элвециис флумен Ренум, верджит аб септентриёнес.

O Credo de Niceia, ou Symbolum Nicænum (Constantinopolitanum) [Симболум Ничайнум (Константинополитанум)]:
Кредо ин унум Деум, Патрем омнипотентем, факторем чайли эт террай, визибилиюм омниюм эт инвизибилиюм. Эт ин унум Доминум, Езум Кристум, Филиюм Деи унидженитум, эт экс Патре натум анте омния сайкула. Деум де Део, лумен де лумине, Деум верум де Део веро, дженитум, нон фактум, консубстанциялем Патри: пер квем омния факта сунт. Кви проптер нос оминес эт проптер нострам салутем дешендит де чайлис. Эт инкарнатус эст де Спириту Санкто экс Мария вирджине, эт омо фактус эст. Кручификсус эциям про нобис суб Понциё Пилато; пассус эт сепултус эст, эт ресуррексит терция дие, секундум Скриптурас, эт ашендит ин чайлум, седет ад декстерам Патрис. Эт итерум вентурус эст кум глория, юдикаре вивос эт мортуос, куюс регни нон эрит финис. Эт ин Спиритум Санктум, Доминум эт вивификантем: кви экс Патре Филиёкве прочедит. Кви кум Патре эт Филиё симул адоратур эт конглорификатур: кви локутус эст пер профетас. Эт унам, санктам, католикам эт апостоликам Экклезиям. Конфитеор унум баптисма ин ремиссиёнем пеккаторум. Эт эксспекто ресуррекциёнем мортуорум, эт витам вентури сайкули. Амен.

“Antisemitismus” [Антисемитисмус] (início do verbete “Antissemitismo” na Wikipédia em latim):
Антисемитисмус рациё эт коджитанди эт адженди эорум эст, кви популо Юдайорум эт релиджиёни Мозаичай тоти сине улла дистинкциёне оминум сингулорум инфенси сунт. Антисемитисми черта индичия сунт: а) сиквис Юдайос вулту, спечие, морибус интер се симилес ессе аффирмат, б) сиквис Юдайос омнес дивитес авароскве эксистимат, в) сиквис Юдайос ин доминациёнем тотиюс [totíus] мунди конспирассе опинатур. Юдайос одиё кводам инветерато мулти персекути сунт оминес, кво коммоверентур, ут контумелиис эос аффичерент, инсидияс эис парарент, эос оппримерент эт ин тумулту эциям окчидерент. Квас иниюрияс Юдайи темпорибус антиквис, кум ин Палайстина седес аберент, эт медиё квод дичитур айво пер Еуропам дисперси перпесси сунт.



sexta-feira, 21 de junho de 2024

Nas mãos de Alá os arroz tá limitado


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/maosdeala


Eu estava fazendo minha caminhada matinal nas ruas do bairro, quando passou por mim um SUV com um estepe externo coberto por uma lona com a famosa frase e desenho: “Nas mãos de Deus”. Como estudante de árabe que sou, pensei: Báyna yadáyi-llaah (lit. “Entre as [duas] mãos de Alá”), por que não? Rs.


Hoje encontrei no G1 esta foto dizendo que, devido à crise no Rio Grande do Sul e ao consequente aumento dos preços desse produto majoritariamente produzido no estado, “Os arroz está limitado”, ou seja, existe uma quantidade máxima de sacos que cada cliente pode levar. Pelo jeito, os plurais também estão limitados, rs.


Neste vídeo em russo sobre a língua portuguesa, feito por um youtuber que adora aprender idiomas sozinho (além de outros assuntos culturais), achei o mapa acima (em inglês) das principais características dos falares do português no Brasil. No contexto, “Portuguese S” é a pronúncia do esse como “ch” em fim de sílaba, muito característico do falar do Rio de Janeiro e de algumas regiões do Norte e Nordeste brasileiros.

Sobre a distribuição de “tu” e “você”, o mapa não leva em conta uma característica básica: no registro oral, coloquial e familiar, principalmente, usamos “você” (que também pode ser suprimido, se o verbo sozinho já bastar pro contexto), às vezes abreviado pra “cê” (sobretudo em Minas Gerais e no norte de São Paulo, e geralmente em posição proclítica de sujeito, junto ao verbo), como pronome sujeito ou tônico (usado sozinho ou junto a preposições, ao tipo do moi, toi, lui etc. franceses: “Foi você!”, “Você?”, “É você!”, “pra você”, “com você” etc., mas não “contigo”, e sim “com você”, no limite “cocê”, rs). Porém, como possessivo e objeto direto ou indireto, aparece com as formas do “tu”: “teu/tua”, “vou te falar”, “vou te bater” etc. Fenômeno idêntico ocorre com o voseo rioplatense, sobretudo o argentino (Buenos Aires), em que o “vos” convive com “te”, “tu/tuyo” e algumas formas verbais da segunda do singular, mas não com “ti” (a vos, con vos, para vos etc.).

Outra coisa que me irritou um pouco, embora fosse mais fácil de explicar pros gringos estrangeiros, foi chamar o “erre retroflexo” de “American R”, como se ele tivesse alguma influência do inglês, especialmente do falado nos Estados Unidos. Na verdade, ele é uma herança do tupi, que até o século 18 e sua proibição pelo Marquês de Pombal, era muito mais falado que o próprio português em São Paulo e na chamada região histórica da “Paulistânia”. Se você escutar o espanhol paraguaio (procure no YouTube qualquer discurso do ex-presidente Abdo Benítez!), ou mesmo o guarani falado no Paraguai, vai ouvir a mesmíssima articulação com muito mais frequência.


E pra terminar, este comentarista num canal russo que gosto bastante de assistir e cujo conteúdo é bastante maçante pra que não atraia chupadores de saco. Por que que o carinha precisava insistir em sua origem e pedir a todo custo um alô pra sua cidade, a capital da República da Chuváchia: Cheboksáry? Rs!


quarta-feira, 19 de junho de 2024

Plano de Macron pra enrabar a França


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/macron-rabo



O “Plano Procu”, cuja existência lhe revelei há dois dias e que podia ser rebatizado como “Hemovirtus”, parece realmente parte de um esquema maior do ex-banqueirinho filósofo pra enrabar a França. Como se o cidadão comum que não passeia na Torre Eiffel nem come baguete o tempo todo já não estivesse levando ferro todo dia devido ao desmonte do Estado e ao descalabro das contas públicas.

Alguns cidadãos provindos de um continente mais ao Çu (Grobá) parecem ter preferido combater o faxixmo lá do que cá, onde o perigo de retrocessos sociais é mais importante. Essa literal esquerda caviar, execrada há anos por nossos publicistas, parece ter mais medo de perder seus benefícios mercadolísticos do que passar a imagem de sua terra natal como um futuro Evangelistão. Até a Foia publicou em entrevista pelos 80 ânus do Xiko que ele já se conforma em ter um “público menor”; pudera, não é por falta de Rouanet, já que ele nunca precisou diante de suas décadas de consagração e de sua origem abastada, mas porque até minha mãe, em nada suspeita de antipetismo, me disse que “Esse cara é chato pra caramba!”, rs:


Até o ex-presidente Francês Holanda, primo do Ivo Holanda e sobrinho do Sérgio Buarque de Holanda (“o pai do Xiko”), que sequer concorreu à eleição de 2017 tamanha era sua impopularidade, resolveu se candidatar a deputado federal por sua circunscrição natal da Corrèze (parece Coriza, rs). Após anos exercendo a função de pinguim de geladeira correspondente a sua atual aparência, o socialista, que já parecia se preparar pra um retorno em 2027, tomou a decisão após que considerar que “a situação está grave”. O ex-marido da Ségolène contou em entrevista como a dissolução do Parlamento na sequência do “Plano Procu” revela o tamanho dos problemas que a França deverá enfrentar:


Quando ouço falar sobre o processo de “desdemonização” (dédiabolisation) do RN e vejo Jordan Bardella sendo avançado como o “bonitão instagramável” (igual a um Fernando Collor em 1989) da extrema-direita, só consigo me lembrar de duas coisas. A primeira, do Seu Creysson no Casseta & Planeta em 2002 se candidatando a presidente e colocando “uma máscaria de Brédio Pítio pra num assustá os mercádio” (referência à reação do sistema a uma possível eleição de Lula). A segunda, desta cena da grande versão em filme da peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, rs:


Num dos livros de Oswaldo Chiquetto, jornalista, tradutor e intérprete, sobre “falsos amigos” e armadilhas vocabulares do inglês publicado em 1995, o ilustrador fez por bem brincar com o significado de addiction, que não significa “adição, soma”, mas “vício”. Em minha cabeça, ele sem querer fotografou em desenhos o essencial de Lula e Bolsonaro, por isso deixo a tradução pra você mesmo:

    


Pra terminar, vamos rir um pouco com essa “Barbie Boza” (22 no nome de usuário dela não deve ser a idade nem o DDD, rs) que achei por acaso no Équis quando um dos assuntos estava em alta. Os peixecólogos de plantão na mídia adoram nos dizer que “não devemos ter um modelo ideal” nem “exagerar as expectativas”, mas duvido que o pacote da moça, se ela mesma não for um robô ou um fake, exista em qualquer um dos planos da existência. Aliás, é namorado ou filho afinal pra “assumir”?...

Se o cara chupa o saco do Mytho, há altas probabilidades de ser um “Zé Droguinha”, “ateu” (simplesmente por não ligar pra templos ou cultos ou porque “meu Deus tá aqui” numa caneca de cerveja), “favorável ao aborto” (da periguete que ele embuchou) ou mesmo mandar uma pensando no Ixperrtínhu, rs. Além disso, como dizem os aforistas do IPTC, o antifeminismo de uma pepecuda reaça acaba quando começam as surras e as ameaças armadas do chifrudo. Essa realmente eu deslizo pra esquerda (pra começar, porque “NÃO” tem til), e não tô falando de ideologia. Até a próxima, abiguinhes!


segunda-feira, 17 de junho de 2024

Macron e seu Plano Procu. Hã, pro...?


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/procu


Esta é a tradução parcial com adaptação de um artigo da Rádio França Internacional sobre a polêmica que envolve o sitePlan Procu”, abreviação de “plano procuração”, mantido pela associação “A voté” (Votou), cujo objetivo é combater a abstenção eleitoral, que na França costuma atingir metade do eleitorado, algo impensável na Banânia com seu livre voto obrigatório. O plano de nome, ao menos em português, bastante estranho e ambíguo visa facilitar o voto por procuração, ou seja, promover o encontro (ou “match democrático”, meldels, rs) entre duas pessoas, uma se oferecendo a trazer pra urna a cédula da outra, com todo o registro e aviso junto às autoridades. Na França, ao contrário dos EUA, não existe o voto por correspondência, e ao contrário da Estônia, não é possível votar por aplicativo, e como o voto não é obrigatório (daí a tentativa de estancar a abstenção), o instituto brasileiro da justificativa não faz sentido.

O Plano Praquilo Lá é voltado especificamente pras eleições legislativas nacionais que vão ocorrer em 30 de junho e 7 de julho, convocadas depois que o próprio Macron dissolveu o Parlamento com o objetivo inverossímil de obter uma maioria absoluta pra que ele se torne um mero assinador de seus projetos. Sendo o presidente o principal interessado num contexto que causou o que muitos já chamam de pior crise política desde a Constituição de 1958 (a qual igualmente surgiu após uma crise), não deixa de estranhar que uma força-tarefa pra reunir votantes e evitar o abstencionismo não pudesse estar ligada à situação. Bingo: nas redes sociais, uma das muitas críticas ao site é supostamente estar ligado ao atual governo.

O Plano Anal foi lançado ainda pras parlamentares europeias do começo de junho, visando ajudar pessoas que queiram encontrar um “procurador” (o que faz sentido, sobretudo, pra velhos e deficientes físicos), mas uma das primeiras críticas lançadas no Équis é que o domínio online do plano foi adquirido por Titouan Galopin, cofundador do site citipo.com e que trabalhou na campanha digital de Macron em 2016 e 2017. Foi feito um apelo geral ao boicote da plataforma, mas 8-7 anos atrás acho que já faz tempo não? Mas não para por aí: um dos casos tuitados foi o de uma pessoa que se inscreveu no serviço, obteve o nome da pessoa que ia votar por ela e, jogando-o no Santo e Onisciente Google, descobriu que ela militava no partido de Macron (no “En Marche !”, mas há anos o nome não é esse, então talvez a referência seja ao atual “Renaissance”). A irrefutável conclusão seria a de que o site foi criado “pelos macronistas, para o macronismo”, o que podia gerar uma séria acusação de fraude nas eleições. Mas em se tratando da unicidade do caso, e ainda alardeado numa rede abertamente conspiracionista, mantenhamos o pé atrás.

Outra acusação é a de que outro cofundador da “A voté” criou em 2022, ano de reeleição de Macron, o aplicativo “Elyze” (nem se vê a referência direta ao palácio presidencial do Elysée, né?), cuja proposta era a de propor um candidato que seria mais próximo das escolhas dos usuários. Porém, a ferramenta foi criticada por quase sempre dar o marido da Brigitte como resultado principal, havendo outros “menos compatíveis”, obviamente, mas com os mais ideologicamente afins mais próximos do topo. E pra piorar, seu criador trabalha desde fevereiro deste ano como chefe de gabinete do ministro encarregado (uma espécie de secretário ou subministro) das Contas Públicas.

Os gestores do “Plan Procu” rebatem as acusações de partidarismo, afirmando que cuidam pra que nada recaia na manipulação eleitoral e que vão apagar os dados sobre pedidos de procuração depois das eleições. O próprio articulista da RFI (uma mídia estatal, diga-se de passagem) chama de “anedóticas” as acusações lançadas nas redes sociais, mas pra esta pobre página que gosta de misturar humor ruim com a atualidade política, resta mais um “legume de duplo sentido” (salve Casseta & Planeta!) pra fazer a alegria dos lusófonos sul-americanos. Aliás, um nome que nada fica devendo, em nossa humilde interpretação, ao buraco político a que realmente o ex-banqueiro parece ter levado a antiga nação colonial, rs.



sábado, 15 de junho de 2024

Zelensky fala francês no Parlamento


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/zelensky-fr


Esta imagem de Marina Ayrton Senna serve apenas pra introduzir mais um combo de bizarrices da política internacional, a primeira delas sendo Volodymyr Zelensky falando uma pequena frase em francês quando discursou em ucraniano pra Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados) francesa, em 7 de junho de 2024. Mesmo assim, o verso podia servir muito bem como uma mensagem do presidente ucraniano a seu inimigo Putin, rs.

Em seu novo tour d’Europe, o presidente conseguiu arrecadar bastante dindim pra financiar a resistência contra a invasão militar e genocida do ditador paranoico, mas em Paris ele teve de exagerar mesmo no “biquinho”... Estes são trechos da publicação no canal Ouest France da transmissão feita pelo Parlamento, e eu tive de pular uns trechos em que os aplausos não paravam, mesmo entre mínimas palavras:


“France, je vous remercie d’être a nos côtés pour défendre la vie !” (França, agradeço-lhe por estar a nosso lado pra defender a vida!) Terminando em ucraniano, interpretado em francês: “Дякую Вам за увагу, дякую Вам за підтримку, слава Україні!” (Obrigado pela atenção, obrigado pelo apoio, glória à Ucrânia!) E meio sem saber o que fazer, Zelensky pergunta a Yaël Braun-Pivet, presidente da Assembleia: “We have [to] go?” (Temos que ir?) Ela diz algo mostrando não entender, e ele refaz: “We can go?” (Podemos ir?) Ela de novo: “No! Just a...” (Não! Só um...) – não, o Kvartal 95 ainda não terminou, me espera trazer o piano! Kkkkk.


Surpresa agradável! A booktuber Taize Odelli, que também é responsável por outros perfis, resenhou brevemente no Instagram dela minha tradução do R.U.R. direto do checo, junto com outros livros que ela estava pra ler! Fiquei feliz com a impressão positiva antes de adentrar o texto, com o fato de ter achado “chique” a tradução direta e por ter pronunciado corretamente meu sobrenome (que é ainda o que uso nas redes!), o que infelizmente não aconteceu com nosso querido dramaturgo, rs.


E pra acabar o dia com um gostinho de esperança, eis mais uma montagem sem graça, depois da feita com o Moshiach, agora com o belo dabke de Mohammed Assaf, Dammi falastini, que tanto voltou à moda nos últimos meses... O dia em que for decretado o fim da guerra e a unificação laica dos Estados da Palestina e de Israel, eu queria que ele se parecesse com essas cenas, rs.


quinta-feira, 13 de junho de 2024

Meu Big Brother Brasil dos sonhos


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/mix-politica11



Quem nunca pensou em sua própria lista pro Big Brother Brasil, ou quem nunca brincou com novas possibilidades bizarras entre amigos? Inspirado numas conversas que tive com um amigo, fiz minha própria lista com personalidades mais ou menos conhecidas da internet e do mundo da cultura, sabendo que pensei em muitas outras mais e que você pode a achar incompleta e ter esperado outros nomes, rs. Mesmo tentando ser representativo entre gênero, sexualidade, ideologia, idade e cor, foi a isto que cheguei. Uma das primeiras montagens dessa monta que consegui fazer, relembrando a primeira edição, única da qual tenho alguma “nostalgia”:


Foi revelado que Liza, filha de Dmitri Peskov, porta-voz de Vladimir Putin pra imprensa, está sob sanções ocidentais (porque ela vive nas custas do papai, e como este está sancionado...), mas ainda consegue fazer compras de luxo no Cazaquistão. As fotos mostradas outro dia na Radio Svoboda são tão fofas que decidi fazer uma montagem orkutizada com o trecho, usando uma canção ainda mais brega de Rick & Renner sobre o “amor de pai”, rs:


Até o cacique Raoni, agora “Cavaleiro da Legião de Honra” da França (seja lá o que isso signifique numa República), tá mandando o Lula acordar diante da queda livre da popularidade do governo. Olhe a cara de medo da Jararaca, até o Macron precisa “traduzir” o apelo, rs:


Andréia Sadi, alguns anos atrás, involuntariamente resumia no Jornal Hoje como todos os partidos alternantes sempre tentam “mamar nas tetas do Estado”, sem exceção alguma (ignore o “TV Eslavo” de meu antigo YouTube):


A canção Moshiach (ou Mashiach, “Messias”), típica do judaísmo hassídico, é interpretada nesta versão pelo cantor Mordechai Ben David, também conhecido como MBD. Há também a versão mais célebre de Eitan Masuri, com tradução em português no link, mas em todo caso, pra quem não sabe do que se trata nem entende hebraico, não vai distinguir do tema de abertura de qualquer desenho japonês que fazia sucesso na extinta TV Manchete na primeira metade da década de 1990, rs. Só agora estou publicando, mas faz um tempo que fiz esta montagem com parte do primeiro áudio pra mostrar como pode não fazer nenhuma diferença. Meu próprio amigo que me apresentou a música adorou a montagem, e outros comentaristas nos vídeos da gravação também acharam parecida com o gênero nipônico:


As prisões francesas são condenadas na TV estatal por acolherem cecço, dorgas e... telefone, rs:


terça-feira, 11 de junho de 2024

Piquet comenta vitórias de Verstappen



Espero que recentemente você não tenha jogado seu dinheiro esperando por vitórias do N... Lewis Hamilton, rs:


domingo, 9 de junho de 2024

Esquerdista de iPhone (banda Milei)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/zurdos


Depois de descobrir os lançadores do tema da campanha de Javier Milei, que na verdade se trata da adaptação de uma antiga canção do ano 2000 usada sem a autorização de “La Renga”, banda que a tinha gravado, vi que aqueles primeiros também lançaram umas coisas bem bizarras ligadas com a aversão às esquerdas em geral. Com seus áudios publicados no YouTube e no Spotify, a conta chamada “La Mancha Venenosa” (gíria portenha pra uma espécie de jogo), ainda com poucos seguidores, publica a maioria dos jingles de Milei e outras canções relacionadas à ideologia antissocial dos libertários latino-americanos. Não pude concluir se se trata de uma banda que grava as ditas faixas, mas achei uma das músicas tão engraçada e parecida com nossos debates de internet que decidi traduzir e publicar aqui!

Com o título Zurdos con iPhone, pode ser literalmente traduzida “Canhotos com iPhone”, deduzindo-se que zurdo (canhoto; “surdo” em espanhol é sordo) seja equivalente ao “esquerdista” brasileiro e que sob ambos os rótulos se oculte um balaio de gatos com elementos muitas vezes totalmente opostos entre si. De modo mais amplo, a ideia de “zurdo con iPhone” pode também ser traduzida “esquerda caviar” (um decalque do francês gauche caviar) ou, em inglês, “champagne socialist”. Porém, a meu ver, “esquerda caviar” alude mais à elite propriamente, intelectual ou econômica (o “rico de esquerda”, bem como o professor universitário comunista que vai lecionar nos EUA ou na Europa), enquanto Socialista de iPhone, que escolhi pra traduzir e é muito mais direto pros jovens no Brasil, remete mais a qualquer pessoa, rica ou não, que nas redes sociais defende os países socialistas, mas se aproveitando de ferramentas bastante acessíveis e “criadas pelo capitalismo”.



A riqueza dela sendo “distribuída” no chão, rs!


Ou seja, é um xingamento direitista muito comum nas brigas digitais, embora eu ache o fundo da crítica um pouco incoerente e não esteja defendendo a linha política de “La Mancha Venenosa” ou muito menos de Milei. Pra mim, o grande problema da maior parte da direita é colocar as esquerdas no mesmo saco, chamando-as de “socialistas” ou mesmo “comunistas” e daí achando que todas devam defender Lenin, Stalin, Mao, Fidel, os Kim etc. Um grande espantalho pra criticar qualquer veleidade social ou coletiva, do mesmo jeito que a esquerda radical chama qualquer direitista ou mesmo liberal de “fascista”. Mesmo assim, até por ser um topos muito comum também entre nós e por eu ter participado de “debates” políticos desde os tempos do Orkut, achei o texto bem engraçado e não deixo de concordar com a maior parte das incoerências apontadas pelo autor (quem?), rs.

Outra nota tradutória: zurdos con OSDE é uma expressão argentina equivalente a zurdos con iPhone (ou seja, esquerda caviar), referindo-se a um sistema de planos privados de saúde reunidos como uma entidade pública, que pode ser pago individualmente ou a funcionários de empresas. Ou seja, você é “socialista”, mas paga ou recebe planos privados... A pérola também pode ser ouvida no Spotify, e seguem abaixo o clipe no YouTube, o original no qual fiz algumas correções e minha tradução, não totalmente literal em muitos pontos:


Zurdos con iPhone, zurdos con OSDE
Zurdos con fotos en New York y en Londres
Zurdos con sesgos de ideología
Odian los datos, niegan la biología

Zurdos con sueños de rebeldía
Publican en TikTok o Facebook su vida
Zurdos en Harley, vistiendo Levi’s
Te hablan de patria, de igualdad y de Lenin

Odian el uso del sentido común
Adoran asesinos como Mao Tsetung
Ven el pasado con nostalgia total
Ignoran el horror y sólo ven su ideal

Yo sólo quiero que por vos mismo
Entiendas que ya fracasó el socialismo
Ese modelo liberticida
Ya se ha cargado a millones de vidas

Dicen representar al trabajador
Les tirás una pala y huyen como un roedor
Y si es de izquierda y es homosexual
Seguro al Che Guevara en su remera tendrá

La izquierda te vio débil y se aprovechó
De tu resentimiento y de tu frustración
De tus obligaciones te desligó
Y crees que te persigue un sistema opresor

____________________


Esquerdistas de iPhone e que pagam OSDE
Que tiram fotos em Nova York e em Londres
Esquerdistas com vieses ideológicos
Odeiam os dados, negam a biologia

Esquerdistas com sonhos de rebeldia
Publicam sua vida no TikTok ou no Facebook
Esquerdistas em Harley, que vestem Levi’s
Te falam sobre pátria, igualdade e Lenin

Odeiam o uso do senso comum
Idolatram assassinos como Mao Zedong
Veem o passado com total nostalgia
Ignoram o horror e só enxergam seu ideal

Quero apenas que, por sua própria conta
Você entenda que o socialismo já fracassou
Esse modelo liberticida
Já acabou com milhões de vidas

Dizem que representam o trabalhador
Lhes jogue uma pá, vão fugir como um roedor
E se você é de esquerda e homossexual
Certamente vai ter uma camiseta com Che Guevara

A esquerda te viu fraco e se aproveitou
De seu ressentimento e de sua frustração
Te livrou de suas obrigações
Mas você se crê perseguido por um sistema opressor



sexta-feira, 7 de junho de 2024

Todas as formas de “wokismo”


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/wokismo


Este meme mandado por um amigo ilustra bem o novo fantasma da direita conservadora e da extrema-direita no Ocidente. O “wokismo” está sendo considerado o novo espantalho, ou “mamadeira de piroca” se quiser, das culturas ocidentais urbanizadas, já que o medo do comunismo e mesmo da Rússia não assustam nem enganam mais ninguém. (Inclusive, os “antiwokistas” muitas vezes não escondem sua admiração pela autocracia reacionária de Putin!) O conceito básico é o de que a mídia hegemônica, as universidades, os intelectuais e mesmo os influenciadores digitais querem empurrar como “normais” ou até “obrigatórios” padrões de comportamento que não seriam majoritários nem aceitáveis entre a maioria das populações.

Na verdade, todos esses “comportamentos” que antes eram colocados no saco do “esquerdismo”, do “comunismo” ou o que valha, termos agora inadequados porque muitos esquerdistas e comunistas do passado são justamente contra essas bandeiras “identitárias”, se relacionam a setores da população cujas opções ou características diferem da maior parte ou dos grupos dominantes: progressistas ou reformistas sociais, mulheres, negros, não héteros, não cis, estrangeiros, não cristãos, pró-direito ao aborto, não monogâmicos etc. Basicamente, o “wokismo” (pros conservadores) seria dar um peso ou papel a essas populações, nas representações cotidianas, que não corresponderia à realidade, muitas vezes exagerando sua presença em épocas em que não se faziam ver tão ostensivamente. Como vemos no meme acima, por exemplo, seria colocar “gays demais” onde seriam de aparecimento pouco provável, ou apenas pra fazer o povo os aceitar como “normais” (?) ou agradar a essas “minorias”.

Falta de alteridade ou empatia. A não ser que uma pessoa, sobretudo muito jovem, esteja com problemas psicológicos ou de socialização, ela não vai “mudar” sua sexualidade, religião, opção política etc. só porque viu na televisão, no cinema ou no streaming. De fato, não é que o “wokismo” quer “super-representar” certos grupos em produções culturais, mas sim, como essa produção sempre esteve dominada pelas “maiorias” ou pela “normatividade” dominante, esses grupos estavam é sub-representados, e aí sim, sua onipresença era negada pelos grupos dominantes. Não sou grande consumidor de mídias de massa, mas é interessante que, por um lado, esses grupos em tese deveriam ser “revolucionários” e “contra o sistema”, portanto querendo o destruir e não ligando pra “representatividade”, enquanto na verdade se revelou o contrário, assim como o fato de que por décadas, as “minorias” tiveram sua própria “cartilha” moldada por setores das “maiorias” que intelectualmente rompiam com o sistema e dominavam, por exemplo, as universidades e partes da mídias. Por outro lado, parece hipócrita que esses mesmos conservadores ou extremistas de direita critiquem a representatividade “exagerada”, mas eles mesmos digam “não ver mais Globo, não ler mais Folha”, portanto ou estão sabendo demais, ou consumindo às escondidas.

Caso clássico é o do deputado federal “paulista” Eduardo Bananinha Bolsonaro, o “Zero-Três”, que há alguns anos reclamou no então Twitter (infelizmente não guardei a publicação) que a grade da Globo tinha virado uma “perversão” durante as manhãs, com o programa Encontro, quando muitas crianças podiam estar assistindo e deveria haver, portanto, os velhos desenhos do passado, como os da TV Globinho. Inquietação um tanto peculiar pra um adulto, não? Ainda mais considerando que as crianças de então e de hoje sequer viam mais desenho na TV aberta naquela hora, mais provavelmente estando na escola ou usando a internet. Uma versão mais brutal desse argumento foi dada pela mesma época por Nando Moura em seu período mais “porralouca”, e apenas sugiro que pesquise “priquito fedorento” no YouTube pra talvez achar o vídeo.

As palavras woke e wokism de fato foram criação dos próprios militantes e derivam do verbo inglês pra “despertar” ou “levantar-se”, neste caso de modo figurado em referência à opressão ou preconceito dos citados grupos sempre dominantes no Ocidente. A meu ver, representam uma ruptura com as esquerdas clássicas, sobretudo a comunista, que submetia todas as reivindicações à questão de classe e à destruição completa do modo de produção capitalista, esquerdas que, de fato, durante a década de 2010 usaram muito o termo “identitário” como um termo pejorativo pra essas bandeiras que, seguindo Sabrina “Tese Onze” Fernandes, prefiro chamar de “antiopressão”. Por isso, o fogo é duplo: das esquerdas “tradicionais” e, sobretudo, de parte da direita que adotou a tese da “guerra cultural”, manteve aí a dianteira por um tempo, mas começou a perder terreno com a retomada das redes sociais pelos que ela passou justamente a chamar de “wokistas”. (Como marcos dessa retomada, eu apontaria, no Brasil, as eleições de 2022 e a vitória de Lula, e no mundo, o movimento que levou em 2024 à vitória da narrativa anti-Israel entre a geração Z e às turbulências nas universidades americanas.) Assim, surgiu um novo rótulo pega-tudo que é ao mesmo tempo vago e forte o suficiente pra se ancorar nas brigas de redes sociais.


Na política francesa, por exemplo, o termo “wokismo” como descrição pejorativa foi popularizado pelo partido Rassemblement national e por suas figuras de proa, Marine Le Pen e Jordan Bardella, geralmente se referindo ao partido La France insoumisse, que levou a defesa da causa palestina às últimas consequências. Só nesta semana, por exemplo, a LFI foi punida duas vezes por deputados brandirem a bandeira da Palestina dentro do plenário, ato proibido com qualquer bandeira que não seja a da França. Da última vez, os “insubmissos” chegaram ao cúmulo de virem todos vestidos apenas com uma das cores da bandeira palestina, o que provocou terror na presidente macronete da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, de família judaica, ao se ver diante da pressão de uma nova bancada da melancia:


“Mente poluída” também pode ser considerada “wokismo”? Rs:


E por fim, uma cena que filmei outro dia e que eu poderia chamar de “wokismo reverso”...

Bolsominions: As universidades públicas são ateístas, pervertidas, perseguem os cristãos, doutrinam pro comunismo, ensinam maus valores e só sabem entrar em greve! (Nota: nunca pisaram numa universidade pública.)

Unicamp em 2024, hora do almoço:


quarta-feira, 5 de junho de 2024

Como pronunciar latim eclesiástico (6)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fale-latim6


Finalmente, depois de mais de três anos de pausa (fevereiro de 2021), volto a publicar minhas leituras de textos em latim! Só pra relembrar: em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio e publicar no antigo canal Pan-Eslavo Brasil, em forma de vídeo montado com as ilustrações correspondentes, todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai. Além da tradução literal livre na descrição, minha locução trazia em voz alta as leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta da década de 1950. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gostava muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Aqui na página, eu sempre publicava as leituras de 10 em 10, e a última publicação da coleção trouxe os textos lidos das lições 1 a 10 do Gradus Secundus, mas eu já tinha carregado no canal as leituras até a lição 16. Acontece que nesse meio-tempo, houve a derrubada do Pan-Eslavo Brasil em agosto de 2021, a mudança completa da página pra outra conta do Google, o exame de qualificação do doutorado, a defesa da tese e muitas outras coisas que “pediram” pra ser publicadas antes aqui... Apenas agora gravei e montei os quatro vídeos restantes, por isso seu design está um pouco diferente, em especial pela ausência de alusões (agora inúteis) ao YouTube!

Como eu disse nas outras publicações com leituras do Gradus Primus e do Gradus Secundus, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e hoje usada em larga escala (quando se emprega o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é a mais simples, menos artificial e não padece da condição de hipótese, tal como a “pronúncia reconstituída”. Comecei esta série no YouTube por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja propriamente um curso. O latim também pesou pra evangelização dos eslavos e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não caíram sob a influência ortodoxa de matriz grega.

Seguem abaixo os vídeos das lições 11 a 20 do Gradus Secundus já gravadas (de 11 a 16, ainda em 2021). Você pode ler também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros. Até a lição 16, as traduções vieram nas descrições dos vídeos no YouTube, quando eu ainda estudava o livro e o conhecimento estava “fresco” em minha mente. Pros outros vídeos, seria (e será no futuro) difícil e demorado eu mesmo traduzir sozinho, porém, achei uma playlist no canal do prof. Húdson Canuto com aulas baseadas justamente nos dois manuais de Rónai, nas quais ele lê os textos em voz alta, os traduz oralmente e explica a gramática. Claro que a tradução é vagarosa, ele não a dá pronta de uma só vez e considero sua locução bastante monótona, mas pelo menos pra esta publicação, foi uma mão na roda pra que, com minhas próprias adaptações, eu pudesse enfim desengavetar o rascunho!

Queria fazer apenas duas observações: logo no primeiro vídeo, cometi o pequeno deslize de, ao invés de pronunciar ignosco em ignosco libenter como “inhósko”, que é a forma correta, pronunciei “inhócho”. E no vídeo “Os primeiros cônsules”, minha única discórdia pra com o autor é logo no começo, eu não escreveria iam (já), mas jam, igual nos escritos católicos medievais e modernos, por ser semiconsoante:


ORBÍLIO INTERROGA SEUS ALUNOS

ORB. – Vocês estudaram a lição, meninos?

ALUNOS – Estudamos, professor.

ORB. – Quantos reis os romanos tiveram, Sexto?

SEXTO – Sete.

ORB. – Por quanto tempo (no total) eles reinaram?

SEX. – Duzentos e quarenta e três anos.

ORB. – Quem foi o primeiro rei de Roma?

SEX. – O primeiro rei de Roma foi Rômulo.

ORB. – Ótima resposta. De quem Rômulo era filho, Aulo?

AULO – Da vestal Rea Sílvia e do deus Marte.

ORB. – Ele tinha um irmão?

AUL. – Tinha, de fato gêmeo, Remo.

ORB. – A quem Amúlio levou os gêmeos?

AUL. – A um escravo.

ORB. – Por quê?

AUL. – Para que ele os matasse.

ORB. – Onde o escravo abandonou os pequeninos?

AUL. – Na beira do rio.

ORB. – Como a loba cuidou dos pequeninos?

AUL. - Alimentando-os com leite.

ORB. – Você também é um menino diligente. Agora me responda diretamente você, Lúcio. Numa reinou depois de quem?

LÚCIO – Depois de Rômulo e antes de Tulo.

ORB. – Quem sucedeu a Tulo?

LUC. – Anco Márcio.

ORB. – E a este?

LUC. – Tarquínio, o Soberbo.

ORB. – Você pensa dessa forma, Quinto?

QUINTO – De forma alguma, professor. O sucessor de Anco era Tarquínio Prisco.

LUC. – Isso mesmo. Confundi os dois Tarquínios. Perdoe pelo erro, professor.

ORB. – Claro que perdoo, Lúcio: “errar é humano”.


(SOBRE) OS ESTUDOS DAS MENINAS

Júlia, Lívia e Sílvia são levadas pela escrava Drusila para a casa de Semprônia, para que elas retomem os estudos com a professora. A professora é saudada afavelmente pelas alunas.

MENINAS – Olá, professora!

SEMPR. – Olá, meninas! Como vão?

MENINAS – Muito bem, professora. E a senhora [lit. “tu/você mesma”], como vai?

SEMPR. – Muito bem. Senti muita falta de vocês nessas férias. O que vocês querem aprender hoje?

LÍVIA – Dite provérbios para nós.

SEMPR. – Aqui estão quatro entre os mais belos:

Os amigos certos são discernidos nas horas (lit. “coisa”) incertas.

Devemos ser (ou “nos deixar ser”) advertidos de boa vontade pelos amigos.

A verdadeira virtude é exibida pelos atos.

O outro lado (lit. “A outra parte”) também deve ser ouvido.

Os provérbios são explicados pela professora e são copiados nas tábuas pelas alunas com estilete.


(SOBRE) OS PRIMEIROS CÔNSULES

ORBÍLIO – Já vimos como os romanos expulsaram Tarquínio, o sétimo e último rei. Então, em vez de apenas um rei, foram eleitos dois cônsules pela razão que, se um deles fosse mau, seria reprimido pelo outro. Mas aos cônsules foi dado o reinado de um ano.

QUINTO – Por que não durável, professor?

ORB. – Foi decidido que eles não tivessem um reinado maior do que um ano só para que não se tornassem arrogantes demais com a longa duração do poder, mas sempre fossem corteses. Portanto, foram cônsules no primeiro ano Lúcio Júnio Bruto e Tarquínio Colatino.


(SOBRE) AS GUERRAS QUE O REI EXPULSO CONDUZIU CONTRA ROMA

QUINTO – O rei expulso de Roma aceitou a ofensa com o espírito resignado?

ORBÍLIO – De forma alguma. Pelo contrário, conduziu guerras contra Roma para que tivesse o reinado restabelecido. Na primeira batalha o cônsul Bruto e Arunte, filho de Tarquínio, mataram um ao outro; porém, os romanos saíram vencedores dessa batalha, e Tarquínio vencido. Também no segundo ano Tarquínio conduziu uma guerra à pátria com a ajuda de Porsena, rei dos etruscos, e quase capturou Roma; mas também então saiu derrotado.

SEXTO – Assim finalmente a república (livre) pôde pôr as discórdias de lado.

ORB. – Ainda não. O rei expulso não descansou até sua morte. No nono ano um enorme exército foi reunido por seu genro para vingar a ofensa ao sogro. Porém, as tropas foram novamente vencidas pela virtude dos cidadãos.

SEX. – E como Tarquínio Soberbo terminou sua vida?

ORB. – Ele se transferiu para Cumas e nessa cidade logo morreu consumido pela velhice e pela aflição.


SOBRE O RESPEITO PARA COM OS IDOSOS

Enquanto Semprônia ensinava as alunas em casa, uma velha entrou para visitá-la. Escrevendo a lição, as meninas não se levantaram. Pouco depois a velha foi embora e Semprônia narrou esta história às meninas:

Lacedemônia [i.e. Esparta] era um domicílio honradíssimo para os idosos. Em nenhum outro lugar a velhice era mais venerada. Um dia, em Atenas, certo velho entrou num teatro; na grande plateia nenhum dos seus cidadãos cedeu-lhe o lugar. Então o velho se aproximou de embaixadores espartanos que estavam sentados em certo lugar. Todos eles se levantaram e o receberam para que se sentasse. Quando a plateia toda aplaudiu fortemente os embaixadores, um deles disse: “Os atenienses sabem o que é certo, mas não querem fazê-lo”.

As meninas ficaram muito perturbadas com a história da professora.

– Entendi a história, professora – disse Lívia. – Agimos mal. Perdoe o erro. Daqui em diante sempre demonstraremos respeito à velhice [i.e. aos idosos].


SOBRE CORIOLANO

ORBÍLIO – Vocês já conhecem a história dos sete reis e da república. Se desejam saber mais alguma coisa, perguntem.

SEXTO – Já ouvi muitas vezes o nome de Coriolano. Explique-nos, professor, quem foi ele e que coisas realizou.

ORB. – Caio Márcio Coriolano, general romano que havia capturado Coríolos, a cidade dos volscos, foi expulso injustamente de Roma. Irritado, ele se dirigiu aos próprios volscos e aceitou a ajuda deles para se vingar da ofensa.

Coriolano venceu os romanos muitas vezes. Recusou-se a receber os embaixadores romanos que foram enviados para oferecer a paz. Ele estava – algo terrível de dizer – prestes a sitiar a pátria, quando sua mãe e sua esposa saíram de Roma ao seu encontro.

Vencido pelo choro e pela súplica das mulheres, Coriolano afastou seu exército. E este foi o segundo general depois de Tarquínio que se voltou contra sua pátria.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Primeira parte)

LÚCIO – Professor, recentemente o senhor falou sobre Coriolano, um inimigo de sua pátria. Peço que hoje fale sobre algum homem ilustre que a amasse.

ORBÍLIO – Pedido correto, Lúcio. Os exemplos dos homens fortes despertam os ânimos dos jovens com o amor pela glória. Por isso vou lhes contar agora um caso do tipo que vocês estão pedindo, digno de admiração e meditação.

Vocês já ouviram o nome de Porsena, rei dos etruscos e companheiro de Tarquínio Soberbo, o qual o povo expulsara de Roma. Porsena atormentava nossa cidade com uma grave e constante guerra. Suportando-a com dificuldade, o jovem nobre Múcio, cingido com a espada, entrou secretamente no acampamento militar do rei. Após tentar em vão matar o rei, que estava fazendo sacrifícios ao altar, foi subjugado pelos soldados que ameaçaram o torturar.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Segunda parte)

SEXTO – As ameaças de Porsena atemorizaram Múcio?

ORBÍLIO – De forma alguma. Ele não escondeu dos soldados a razão de sua vinda; pelo contrário, mostrou a todos com admirável paciência o quanto desprezava as torturas. De fato, detestando sua mão direita, por não poder se valer de seu serviço para assassinar o rei, colocou-a dentro de um braseiro e aguentou as queimaduras.

A paciência de Múcio também obrigou o próprio Porsena, que tinha se esquecido do perigo, a transformar sua vingança em admiração.

– Múcio – diz ele –, volte para junto dos seus e lhes diga isto: “O rei devolveu a vida a mim, que queria atentar contra a dele.”


(SOBRE) RÉGULO (Primeira parte)

AULO – O que aconteceu depois com Múcio?

ORBÍLIO – Viajando para Roma, parecia mais triste pela saúde de Porsena do que alegre pela sua própria. Mas os cidadãos, admirando sua virtude, lhe deram um cognome [Cévola, no caso] de glória eterna. O que vocês acham desse exemplo de virtude?

QUINTO – A paciência do jovem nos comove à máxima admiração.

ORB. – Admirando e imitando tais exemplos, vocês vão servir à pátria.

LÚCIO – Mas diga, professor, Roma teve outros homens parecidos com Múcio?

ORB. – Teve, muitos até. Ouçam o feito do insigne Régulo. Sendo já célebre o nome da cidade de Roma, eclodiu a guerra púnica contra os africanos [i.e. cartagineses]. Essa guerra foi longuíssima e de futuro duvidoso. Com o auxílio dos espartanos, os exércitos africanos venceram e capturaram parte do exército romano, incluindo o imperador Régulo.

Porém, dois anos depois, Metelo, outro general romano, derrotou os africanos na Sicília e vingou a derrota [de Régulo]. Então, os cartagineses pediram a Régulo, a quem tinham capturado, que viajasse até Roma, obtivesse a paz junto aos romanos e fizesse a troca de prisioneiros.


(SOBRE) RÉGULO (Segunda parte)

LÚCIO – O general romano poderia executar ordens de inimigos?

ORBÍLIO – Espere um pouco e você já vai ver se agiu como um enviado dos púnicos [i.e. cartagineses] ou um cidadão romano.

Tendo chegado a Roma, Régulo foi levado ao Senado. Evitando o abraço da esposa [lit. “Afastando a esposa do abraço”], persuadiu os cidadãos a não fazerem a paz com os cartagineses.

– Prostrados por muitas desgraças – disse ele –, eles não têm nenhuma esperança. Eu, por Hércules, um único velho, não valho tanto para que seja trocado, junto com uns poucos romanos que estão presos comigo, por tantos milhares de prisioneiros.

Seguindo o conselho de Régulo, nenhum romano recebeu os africanos que pediam a paz. Os cidadãos fracassaram em reter Régulo em Roma. Ele voltou à África e morreu sob todo tipo de tortura.


segunda-feira, 3 de junho de 2024

(18+) Tortura na Iacútia ao evitar guerra


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/iacutos


No perfil Instagram da “Free Yakutia Foundation” (Fundação Iacútia Livre), contrária à ditadura de Vladimir Putin e defensora dos direitos da população autóctone da República de Sakhá, unidade federativa russa também chamada de Iacútia, foi publicado um vídeo mostrando combatentes feridos na invasão à Ucrânia que depois vão ser enviados ao centro de detenção de Iakutsk, cidade capital da região. Aqueles que, depois do tratamento, se recusam a voltar ao front são presos no comando da Polícia Militar, situada na travessa Viliuisk, n.º 20 A, onde sofrem torturas e violências físicas e são proibidos de ir ao banheiro e de se comunicar com os parentes. As autoridades tentam os enviar de volta à força, e tudo isso ocorre ao som da canção Eu sou russo!, do “cantor” Shaman, ligada no último volume.

Já vou avisando que as imagens não são agradáveis, e os próprios combatentes filmaram e enviaram ao perfil militante Polit Sakhá, de onde a Free Yakutia Foundation tirou parte do material. Pros idiotas bananeiros, de “direita” ou “esquerda”, que ainda defendem Putin, ou não defendem e acham a invasão “legítima”, ou criticam ambos do canto da boca e preferem “culpar” Zelensky ou a OTAN, sobretudo comprando a narrativa falsa do “genocídio russo na Donbás”, tomem uma amostra do que é viver na moderna Rússia infernal.



Eu poderia caçar ou republicar muito do material semelhante que vejo na mídia alternativa, mas não tenho tempo, vontade ou intenção de criar um tipo de “contrapropaganda em massa”, por isso o melhor é que você mesmo use minha página apenas como um ponto de partida pra futuras pesquisas. Porém, achei essa notícia tão grotesca que precisei cutucar três pontos pouco contestados no Brasil: a “normalidade” de uma guerra de predação (que inclui a aceitação da narrativa putinista, a ignorância do sofrimento causado aos conscritos, a impressão de que o Exército Russo é funcional, entre outras coisas), o mito da harmonia multinacional na Rússia e o suposto apoio maciço do povo à invasão. Infelizmente, vou ter que parafrasear o Padre Kelmon no debate da TV Globo, mas “aqui só se fala de Palestina, parece que não acontece outra coisa”. E sim, o problema de nossa “esquerda”, mesmo de setores do governo Lula, não é se contrapor à matança em Gaza e à opressão na Cisjordânia, mas é se calar ou mesmo justificar um crime muito maior, com impacto geopolítico muito maior e que não tem nenhuma justificativa, mesmo diante da inépcia primordial de Zelensky pra política e do antiatlantismo acrítico de muitos militantes, a saber a invasão da Ucrânia por uma ditadura racista e expansionista.



No canal Telegram da mesma Free Yakutia Foundation, também se encontra o vídeo acima, mas achei ainda este outro abaixo, que mostra um bravo e inteligente “defensor da Mãe-Rússia” desviando um drone “fascista nazista sionista banderista otanista humorista”... com o pé. Até quis fazer uma edição com a sonoplastia das Videocassetadas do Faustão, mas fiquei com preguiça (ele já estava no canal com essa música):


A última edição do Géopolitis da RTS suíça me inspirou a fazer dois memes, de gosto mais ou menos duvidoso: o professor de educação sexual na China de Deng Xiaoping, que na década de 1980 impôs a “política do filho único” (abolida em 2015) e reformou completamente a economia; e o indiano que acaba de ter sua filha no agora país mais populoso do mundo.




sábado, 1 de junho de 2024

Como se elege o presidente dos EUA


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/presidente-eua


Na mídia brasileira, todo ano em que há eleições presidenciais nos EUA é feita uma explicação do estrambótico, arcaico e injusto sistema eleitoral do país, pelo menos pra esse cargo mais alto. Foi o caso do Jornal Nacional em 2 de novembro de 2020, quando Biden ganhou e Trump disse que não perdeu, do qual você pode ver abaixo uma cópia de menor qualidade, que na época tirei do YouTube. Mas hoje lhe dou de presente uma espécie de versão premium, ou seja, a reportagem da edição mais recente do programa Géopolitis da Rádio e Televisão Suíça francófona (RTS), explicando exatamente conceitos como “colégio eleitoral”, “grandes eleitores”, “delegados” etc.

A transcrição é minha, tendo passado o texto no Google Tradutor e depois o configurado de acordo com minhas próprias escolhas e estilo. Não sei se minha tradução ficou perfeita, mas ela está inteligível, e pros estudantes de francês, pus também a transcrição dos números longos, lembrando que na Suíça eles dizem septante (70), huitante (80) e nonante (90), e não os soixante-dix, quatre-vingts e quatre-vingt-dix que atemorizam todo iniciante! O vídeo sem legendas apresentado e narrado por Laurent Huguenin-Élie, repórter que também é formado em História, também segue abaixo:




O sistema que conduz à eleição do presidente ou da presidenta é um tanto peculiar. Ele também é uma herança dos pais fundadores. Originalmente, eles tinham pensado numa votação em duas etapas, primeiro pra indicar os homens de confiança que elegem, a seguir, a pessoa mais qualificada pra se tornar presidente. Esses homens de confiança são os grandes eleitores. Hoje, seu papel é na verdade simbólico, já que representam, de certa forma, pontos a serem ganhos. Esses intermediários permitem que falemos em sufrágio universal indireto.

Os 50 estados do país indicam um total de 538 grandes eleitores que formam o Colégio Eleitoral. A cada estado é atribuído um número de grandes eleitores correspondente ao número de seus representantes no Congresso [Nacional]. É um truque que permite que os estados pequenos e menos populosos não sejam esmagados pelos grandes. Por exemplo: o estado do Wyoming tem um total de três eleitores – um que equivale a seu deputado na Câmara dos Representantes, mais dois, já que cada estado conta com dois senadores, independentemente de seu peso demográfico. Assim, um mais dois são três. A Califórnia, o estado mais populoso, pode contar com 54 grandes eleitores, ou seja, 52 mais dois.

No dia das eleições, os cidadãos americanos são convidados a marcar [na cédula] a opção correspondente aos candidatos de sua escolha. Assim, o candidato que ficar em primeiro lugar num estado leva todos os seus grandes eleitores. É eleito presidente aquele que conseguir no mínimo a maioria dos grandes eleitores, a saber 270 dos 538, mesmo que não tenha conseguido a maioria dos votos a nível nacional. Mas ainda não chegamos nessa etapa: neste verão [do Hemisfério Norte], democratas e republicanos vão apontar oficialmente, durante as convenções partidárias, os nomes de seus preferidos, ou seja, o candidato à presidência e o companheiro ou companheira de chapa à vice-presidência.


Le système qui mène à l’élection du président ou de la présidente est un peu particulier. On le doit là encore aux constituants. Ils avaient à l’origine imaginé un vote à deux étages, pour désigner d’abord les hommes de confiance qui élisent, en suite, la personne la plus qualifiée pour devenir président. Les hommes de confiance, ce sont les grands électeurs. Leur rôle est aujourd’hui en réalité symbolique, puis qu’ils représentent, en quelque sorte, des points à gagner. Ces intermédiaires font que l’on parle de suffrage universel indirect.

Les 50 [cinquante] états du pays désignent au total 538 [cinq-cent-trente-huit] grands électeurs qui forment le Collège électorale. Chaque état se voit attribuer un nombre de grands électeus qui correspond au nombre de ses représentants au Congrès. Une astuce qui permet aux petits états les moins peuplés de ne pas se faire écraser par les grands. Exemple : l’état de Wyoming compte au total trois grands électeurs - un qui encarne son élu à la Chambre des représentants, plus deux, puisque chaque état dispose de deux sénateurs, quel que soit son poids démografique. Ainsi, un plus deux égal trois. La Californie, l’état le plus peuplé, peut tabler sur 54 [cinquante-quatre] grands électeurs, à savoir 52 [cinquante-deux] plus deux.

Le jour de l’élection, les citoyens américains sont appelés à noircir la case correspondant aux candidats de leur choix. Ainsi, le candidat qui arrive en tête dans un état obtient la totalité de ses grands électeurs. Est élu président celui qui remporte au moins la majorité des grands électeurs, à savoir 270 [deux-cent-septante] sur 538, même s’il n’obtient pas la majorité des voix sur le plan national. Mais nous n’en sommes pas encore là : cet été, démocrates et républicains vont désigner officiellement, lors des conventions de partis, le nom de leurs poulains, c’est-à-dire le candidat à la présidence et la colistière ou le colistier pour la vice-présidence.