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domingo, 23 de junho de 2024

Latim escrito em alfabeto cirílico


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Esta é uma publicação aleatória cuja ideia eu já tinha tido há alguns anos, pelo menos desde que traduzi o Hino do Vaticano do latim e fiz ao mesmo tempo, por pura diversão, uma versão da letra original em alfabeto cirílico russo, rs. Hoje resolvi sintetizar minhas opções, mudei e precisei algumas escolhas, e embora sua utilidade prática seja nula, espero que você tenha gostado pelo menos da estética!

Como você já leu várias vezes aqui, quando faço leituras em voz alta de textos em latim, opto pela externalização da língua na chamada “pronúncia eclesiástica” ou “romana”, isto é, decalcada da língua italiana. Faço isso porque a chamada “reconstituída” não se constitui apenas na diferença de pronúncia dos ditongos e de algumas consoantes, mas também na expressão correta das vogais curtas como “abertas” e das longas como “fechadas”. Ora, nem todo texto comum indica as vogais longas com exatidão (se valendo do diacrítico “mácron”), e dá um trabalhão pegar um manual calcado na variante clássica ou um dicionário qualquer e ver a pronúncia “certa” de cada palavra... Não adianta deixar esse traço de lado, mas pronunciar C sempre como K, G sempre como “guê”, S sempre como SS e Æ e Œ sempre como “ái” e “ói”. É ridículo!

Mesmo assim, decidi agradar aos dois campos, e embora não introduzindo nenhuma indicação da duração vocálica, coloquei as opções de pronúncia diferente das consoantes e vogais, mostrando qual seria “reconstituída” e qual seria “eclesiástica”. Por ser a versão do cirílico mais usada, escolhi a russa, quase toda também compartilhada com o búlgaro, e preferi não fazer menções a outros cirílicos, pois misturar idiomas é horrível. Exceto por casos extremos, também não acho necessário empregar letras de cirílicos não eslavos, sobretudo da Ásia Central. Criei o “sistema” de forma que mais nada sobre a língua pudesse ser conhecido, mas apenas se conhecessem as regras pra troca direta de letras.

Espero que quem lê esta publicação já tenha pelo menos um conhecimento básico do alfabeto cirílico russo, e de sua fonética básica, no limite, pois não vou ensinar nada aqui, embora a pronúncia cirílica seja deduzida pelas letras latinas equivalentes. Seguem a lista numerada, de acordo com o tipo de letra e a dificuldade, e alguns textos de exemplo:


1. Vogais simples: А а (A), Е е (E), И и (I), О о (O), У у (U). No começo das palavras e após outra vogal, “E e” deve ser transliterado Э э, e IE/JE deve ser transliterado Е е. Alguns exemplos com hiatos pra esclarecimento: poeta ou poëta = поэта; aer ou aër (ar) = аэр. Aqui, ao contrário do russo e assim como em várias línguas eslavas, é preciso reconhecer que as letras Е е e И и não palatizam automaticamente a consoante anterior, e por isso seu emprego em determinadas situações vai obrigar ao recurso a grafemas diferentes dos usados com as outras vogais.

2. A semivogal “i”: Quando está no começo de palavras (antes de uma vogal, obviamente) ou entre vogais e pode, portanto, ser escrita como um J conforme costume mais medieval, é transliterada em conjunto com a vogal seguinte: Я я (IA/JA), Е е (IE/JE), Ё ё (IO/JO), Ю ю (IU/JU).

Quando está após uma consoante e antes de uma vogal, é de preferência transliterado da mesma forma acima, mas se adiciona um И и pra que o caráter semivocálico seja mais marcado: ИЯ ия, ИЕ ие, ИЁ иё, ИЮ ию. Não seria errado colocar essas “vogais brandas” diretamente após a consoante, ou colocar entre elas o “sinal brando” (Ь ь) pra ressaltar a ditonguização. Porém, em ambos os casos, teríamos que admitir, mais do que com a inserção do И, uma “palatização” das consoantes estranha ao latim.

Outra possibilidade pra separar o ditongo da consoante seria o uso do “sinal duro” russo (Ъ ъ) entre as duas letras. Porém, embora nesse caso a consoante inevitavelmente permaneça dura, seu uso é limitado mesmo em russo (prefixos + raízes e umas poucas palavras estrangeiras), por isso seu aparecimento constante tornaria o texto pouco estético. Portanto, a solução de inserir um И entre uma consoante e um ditongo iniciado com “i” parece mais aceitável.

É importante destacar que em russo e belarusso, salvo raríssimas exceções, a letra Ё ё sempre está na sílaba tônica, o que não necessariamente vai acontecer em minha transliteração do latim. Aqui, a sílaba tônica deve seguir as regras dessa língua, portanto, o Ё ё não vai ser necessariamente tônico. Além disso, o uso dos dois pontos sobre a letra é opcional em russo, mas não poderia ser em latim, assim como também é obrigatório em belarusso e tajique.

3. Os “ditongos” Æ (AE) e Œ (OE): Provavelmente pra economia de espaço na era medieval, diante de sua alta frequência, os ditongos latinos AE e OE, cuja pronúncia clássica equivalia ao AI e OI gregos, ou seja, “ái” e “ói”, foram fundidas naquelas ligaturas, ou seja, não consistem em letras separadas do alfabeto. Ao evoluírem pras línguas românicas, passaram a ter a pronúncia (e, portanto, a ortografia) “E e”, igualmente refletida no latim eclesiástico (geralmente “é” em sílaba tônica e “ê” em sílaba átona), assim como em decalques eruditos da Renascença, quando adquiriram a pronúncia “i” em inglês. Eu não seria contra transcrevê-los Э э (início de palavra ou após vogal: Mariæ, “de Maria” ou “a/pra Maria” = Мариэ) ou Е е (outros casos), mas não é minha primeira escolha.

Eu prefiro utilizar os ditongos АЙ ай e ОЙ ой em cirílico, porque praticamente não existem AI e OI com que possam ser confundidos (de fato, AE/Æ e OE/Œ passaram a ser sua ortografia padrão) e porque podem agradar igualmente aos classicistas que preferem as pronúncias “ái” e “ói” (ou “áe” e “óe” com o E um pouco semivocálico). No caso do latim eclesiástico, a vantagem maior é da associação gráfica, já que o uso do Е е poderia levar a confusões, restando fazer a convenção de que АЙ e ОЙ, apesar das ortografias, devem ser pronunciados como um E.

4. Duração vocálica: Assim como nos textos eclesiásticos, a duração vocálica do latim clássico não é marcada, pois isso não traz grandes prejuízos pro significado, exceto por algumas formas gramaticais que podem ser quase sempre deduzidas pelo contexto. Caso clássico é o da palavra rosa, que tem o A curto no nominativo singular e o A longo (“rosā”) no ablativo singular (“pela rosa”, “com a rosa”, “por meio da rosa”). Em cirílico, portanto, uma vogal dobrada indica exatamente uma vogal dobrada, e não uma vogal longa: tuus (teu) = туус, filiis (aos/pros filhos, às/pras filhas) = филиис.

5. A letra agá (H): No latim clássico e pós-clássico, ela representava uma aspiração que talvez já estivesse perdida na fala comum, por isso não tem uma representação própria quando aparece no começo das palavras: homo (homem, ser humano) = омо, habitus (hábito, disposição, aparência e vários outros sentidos) = абитус, hebræus (hebreu, judeu) = эбрайус, huius (deste/a, disto) = уюс.

Atenção: no caso de hebræus, não podemos transliterar como эбраюс, porque o ditongo Æ (portanto, também a combinação АЙ) é passível de ser lido como um E simples. Dessa forma, o uso compulsório de um Ю quebraria a possibilidade de dupla leitura e só seria aceitável se realmente tivéssemos um AIU/AJU no original (majus, mês de maio = маюс).

O ocasional aparecimento de um H (geralmente mudo) entre vogais também não é transcrito, assim como sua ocorrência após consoantes que não sejam nas seguintes combinações, geralmente criadas pra transcrever consoantes de origem grega originalmente aspiradas. Aqui, como se nota, preferi levar em conta a pronúncia pós-clássica ou medieval/moderna: CH (som K) = К к, PH (som F) = Ф ф, RH (H mudo) = Р р, TH (H mudo) = Т т. Num punhado de palavras do latim eclesiástico, como mihi (me, mim) e nihil (nada), o H geralmente soa K, portanto, poderíamos transliterá-las мики e никил, mas мии e ниил também seria aceitável.

6. A vogal de origem grega Y: Geralmente transcrevia palavras gregas com Υ υ, que na pronúncia clássica soava como os modernos U francês “com biquinho” e o Ü alemão, e voltou como uma praga em palavras modernas durante a Renascença e a reabilitação do latim e grego clássicos. Porém, na era pós-clássica, senão antes, já tinha ocorrido sua deslabialização, ou seja, a pronúncia como “i”. Então, nada mais natural do que assim a transcrever: hybrida (híbrido, pessoa mestiça) = ибрида. De fato, seguindo alguns velhos dicionários, o Wiktionary também menciona uma forma alternativa hibrida que justifica minha escolha.

7. Consoantes simples (finalmente!): Б б (B b), Д д (D d), Ф ф (F f), Л л (L l), М м (M m), Н н (N n), П п (P p), Р р (R r), Т т (T t), В в (V v), КС кс (X x). Essas consoantes não têm nenhuma ambiguidade, e em caso de geminação, obviamente elas aparecem dobradas.

8. Pronúncia do V semivocálico: Os adeptos da pronúncia “reconstituída” que tentam ao máximo se ater ao latim clássico do século 1 AEC costumam usar apenas a letra V em forma maiúscula e a letra “u” em forma minúscula, ambas correspondendo ao “U u” tanto vocálico quanto semivocálico. Eles evitam o U maiúsculo e o “v” minúsculo, pois na era clássica, que só conhecia maiúsculas, só existia V, e as duas formas mencionadas foram criadas na era medieval, quando o U semivocálico começou a adquirir a pronúncia do V (como em português) no início da palavra ou entre vogais.

Aqui não há dúvidas: o tal “u” semivocálico transformado em V vai ser sempre transliterado В в, cabendo a pronúncia e grafia У у apenas após vogal e antes de consoante: taurus (bolsonarista) = таурус, Europa (a deusa ou o continente Europa) = Эуропа (só seria Еуропа no caso de um “Ieuropa/Jeuropa”), prout (de acordo com, exatamente como) = проут (aqui o U pode ser vocálico ou semivocálico, o que não faz diferença).

9. Letra C no latim eclesiástico: Antes de A, O ou U, é transliterada К к, mas antes de E, I, Y, Æ e Œ, conforme a pronúncia romana (“tch”), é transliterada Ч ч: centrum (centro) = чентрум, civis (cidadão) = чивис, cœlum (céu) = челум, amicæ (amigas) = амичай. Os aficionados por Quíquero Cícero podem transliterar sempre como К к, mas as outras escolhas do latim reconstituído devem ser coerentes. Como a letra K quase não aparece, teria a mesma transliteração: kalendæ (calendas, primeiro dia do mês) = календай.

10. Letra G no latim eclesiástico: Antes de A, O ou U, é transliterada Г г, mas antes de E, I, Y, Æ e Œ, conforme a pronúncia romana (“dj”), é transliterada ДЖ дж: genu (joelho ou cotovelo) = джену, magister (mestre, professor) = маджистер. Atenção à pronúncia bem colada desse “dê” e “jê”, exatamente como em ucraniano e belarusso, e não separada, como costuma ocorrer em russo (em que esse encontro não é nativo à língua) ou no português “adjetivo”, “Djalma” (“dij...”) etc. Os classicistas podem transliterar sempre como Г г, ou seja, “guê” sempre “duro”.

Sobre o encontro GN, ele costuma ser pronunciado como o NH do português na pronúncia eclesiástica, o que podíamos reproduzir, antes de outras vogais, pelo mero uso da letra Н н seguida das vogais “brandas” (НЯ, НЁ, НЮ, bem como НЬИ e НЬЕ, que seriam mais naturais em russo caso não quiséssemos confundir com o NI e NE latinos). Mas pra agradar aos classicistas e evitar confusões, eu não seria contra manter como ГН гн mesmo, apenas devendo ser pronunciado “gn” na reconstituída e “nh” na clássica. Exemplos: ignis (fogo) = игнис, magnus (grande, magno) = магнус (ou porventura иньис, манюс). GNI antes de vogal deveria se tornar ГНИ ou НЬИ (+ vogal branda): insignia (emblemas, brasões, insígnias) = инсигния ou инсинья.

11. Letra J de origem medieval: Como dito no item 2 sobre o “i” semivocálico, o J só aparece em textos medievais e em alguns didáticos de meados do século 20 pra representar aquele “i” entre vogais e no início da palavra, antes de uma vogal. Por vezes é intercambiável com “i” na ortografia, portanto não vou repetir aqui.

A letra Ж ж, que em cirílico representa o som do J pronunciado à francesa ou portuguesa, não tem serventia sozinha, e dado que o som do J não é como em português, não pode ser transliterado por Ж. Nos casos em que o “i” aparece no fim da palavra e após uma vogal, por consequência das declinações, não se trata de uma semivogal, portanto, a transliteração correta é И и: Dei (de Deus) = Деи, tui (teus) = туи.

12. A combinação QU: Em latim, assim como em italiano moderno, a letra Q só é usada em combinação com U pra fazer o ditongo que soa como o QU de “aquático” em português. Em latim e italiano, QUE e QUI sempre soam como se tivessem trema em nossa ortografia antiga (QÜE e QÜI), ou seja, com U semivocálico. A ortografia КУ ку em cirílico pode ser confundida com um CU (rs) em que o U não é semivocálico, mesmo antes de vogal, e por razões lógicas não existe nenhum equivalente exato ao Q em nenhuma versão daquele alfabeto.

Por isso, seria interessante adotar a transliteração КВ кв, convencionando que a pronúncia preferencial é “kw”, e não “kv”, por duas razões principais. Primeira, a combinação sonora “kv” não existe em latim, portanto, não daria margem a confusão. E segunda, não só o QU latino evoluiu pra KV em várias línguas eslavas (e o eslavo Zamenhof fez a mesma coisa em várias palavras do esperanto), mas também os falantes de alemão e de línguas nórdicas, mesmo em palavras emprestadas, costumam pronunciar o QU como KV. Exemplos: quattuor (quatro) = кваттуор, loqui (falar) = локви, quæro (procuro, busco por, pergunto, peço etc.) = квайро, Quintus (nome de homem) = Квинтус.

13. Letra S no latim eclesiástico: No latim clássico, talvez não houvesse o som sonoro do S intervocálico como no português “rosa”, por isso ele era pronunciado como em “sapato”, e da mesma forma, mas longo, quando geminado (esse, ser). Em italiano, onde em alguns dialetos, como o toscano, ocorre a mesma coisa, o SS costuma ser pronunciado como um S longo mesmo na língua padrão, mas entre vogais, o som é igual ao do português (ou seja, o Z de “zebra”).

Seguindo a pronúncia romana, podemos transliterar o S inicial ou final, e o SS, como С с (ou SS como СС сс pra evitar possíveis confusões), e o S intervocálico (“z”) como З з: sutor (sapateiro) = сутор, possum (eu posso) = пос(с)ум, fortis (forte) = фортис. Os classicistas poderiam se sentir livres pra usar С с sempre que houvesse um S simples, um СС сс na ocasião de um SS e simplesmente dispensar o З з.

Já antecipando a letra Z, ela igualmente só servia pra transcrever palavras gregas, nas quais soava “dz”, como nessa língua (a pronúncia “z” do zeta moderno é recente), por isso, acho impreciso usar a letra З з. Em prol da exatidão, eu usaria a combinação ДЗ дз, que é pronunciada numa só emissão, como em ucraniano e belarusso (mas não necessariamente em russo).

14. A combinação eclesiástica SC: Naturalmente, numa pronúncia e transliteração “reconstituídas”, poderia ser sempre tornada СК ск, mesmo antes dos sons “e” e “i”. Porém, na pronúncia eclesiástica, assim como em italiano, ela soa como o CH português antes dos mesmos sons, o que permite, nesses casos, a transliteração de SC como Ш ш. Exemplos: scire (conhecer, saber) = шире, scæna (cena, palco, teatro etc.) = шайна (há a versão alternativa scena, шена), scio (eu sei) = шиё (“io” é hiato).

15. O conjunto TI antes de vogais: No latim clássico, a pronúncia do T é inequívoca, mas no eclesiástico, existe uma tendência de pronunciar o conjunto TI como “tsi” (“i” semivocálico) antes de vogal, exceto se esse próprio “i” for tônico (formando um hiato, portanto) e se esse TI vier após S, X ou outro T, quando mantém o som T original. Nesse caso, o conjunto TI pode ser transliterado ЦИ ци: gratia (graça) = грация, patientia (paciência) = пациенция, nuntius (mensagem, enviado, notícia, ordem) = нунциюс. Compare: ostium (porta, entrada) = остиюм.

16. A combinação eclesiástica XC: Antes das vogais que soam como “e” e “i”, sua pronúncia romana é “kch” (K + CH), portanto, correspondente à transliteração КШ кш: excelsus (elevado, sublime, excelente) = экшелсус. Em outros casos, a pronúncia “ksk” equivale à transliteração КСК: exclamare (exclamar, gritar, berrar, anunciar) = экскламаре.

17. Letras inúteis nos dois alfabetos: Na língua latina, apenas a letra W não aparece em nenhum momento antes da Idade Moderna, pois é uma invenção germânica usada pra transcrever as línguas desses povos. No alfabeto cirílico (russo, lembremos), ficamos sem usar o Х х (som gutural inexistente em latim, mas pode transliterar CH; ver abaixo), o Щ щ, o Ъ ъ (salvo no caso excepcional mencionado acima) e o Ы ы. O sinal brando Ь ь tem um uso bastante limitado, como se viu ao longo do texto.

18. Diferenças em relação ao russo: Deve-se lembrar que, apesar do uso ostensivo do cirílico russo, algumas peculiaridades da pronúncia dessa língua, que não se reproduzem em outras línguas eslavas, também não são esperadas em latim: a pronúncia do И и como a vogal gutural Ы ы após certas letras, o enfraquecimento das vogais А а, Е е e О о (que se pronuncia como a primeira) em sílabas átonas e a pronúncia tensa e retroflexa de Ж ж e Ш ш.


Não era minha pretensão inicial fazer uma tabela resumindo minhas escolhas, mas como o texto ficou bastante longo, seguem as orientações pra que possam ser aplicadas imediatamente, sem a adição de possíveis soluções alternativas:

A, O, U = А, О, УJA, JE, JO, JU (ou IA, IE, IO e IU no início de palavra ou após vogal) = Я, Е, Ё, Ю
AE/Æ e OE/Œ = АЙ e ОЙ; AË e OË separados como hiato = АЭ e ОЭK, L, M, N, P = К, Л, М, Н, П
E = Е (após consoante), Э (no início de palavra ou após vogal)QU = КВ
B = БR = Р
C = Ч (antes de E, I, Y, Æ e Œ), К (antes de outras vogais e em outras posições)S = С (no início ou fim de palavra, antes ou depois de consoantes ou como SS), З (entre vogais)
CH = КT = Т; TI antes de vogal, não antecedido de S, T ou X e com “i” átono = ЦИ (A, O e U seguintes se transliteram Я, Ё, Ю)
D, F = Д, ФV = В
G = ДЖ (antes de E, I, Y, Æ e Œ), Г (antes de outras vogais e em outras posições)X = КС
GN = geralmente ГН, mas é possível também: GNA, GNE, GNI, GNO, GNU = НЯ, НЬЕ, НЬИ, НЁ, НЮ; GNIA, GNIO, GNIU = НЬЯ, НЬЁ, НЬЮXC = КШ (antes de E, I, Y, Æ e Œ), КСК (em outros casos)
H = não se transcreve, mesmo com TH, RH (Т, Р); exceto CH = sempre К, PH = Ф e em mihi, nihil = мики, никилZ = ДЗ
I, Y = И (vocálico i.e. entre consoantes e no início ou fim de palavra); IA, IE, IO, IU (após consoante) = ИЯ, ИЕ, ИЁ, ИЮ 


O essencial acaba aqui. Admitida a possibilidade de usar caracteres do alfabeto cirílico adaptados pra outros idiomas eslavos e não eslavos, podemos usar as seguintes soluções, de modo emergencial ou muito alternativo. Só em última hipótese, caso se queira realmente manter a equivalência “um som, uma letra cirílica” ou “um símbolo latino, uma letra cirílica”. Não gosto de misturar caracteres de línguas diferentes, pois não somente obrigaria à constante troca de teclado, mas também é algo esteticamente desagradável e linguisticamente errado. Seguem os itens, caso seja do interesse de alguém!

1. Os ditongos Æ e Œ: Obviamente, a opção apresentada é muito mais adequada pra quem segue a pronúncia “reconstituída”, mas pra quem insiste num grafismo diferente pra pronúncia eclesiástica, sugiro respectivamente as letras tártaras Ә ә e Ө ө. Em algumas línguas europeias modernas, bem como no Alfabeto Fonético Internacional (IPA), as ligaturas foram exatamente associadas aos sons que aquelas letras têm no tártaro: como o “a” do inglês hat e o “eu” do francês jeu (no IPA, na verdade, é aberto como no francês jeune).

Em todo caso, pra representar o latim, esse grafismo deve ser “convencionado”, ou seja, como as citadas vogais nunca existiram em latim (pelo menos como fonemas distintivos), deve-se ter em mente que Ә ә é a representação do Æ e Ө ө é a representação do Œ, ambos com o som “ê” ou “é”, e não como em tártaro.

2. O dígrafo CH: Como vimos, ele serve basicamente pra transliterar o K aspirado grego, cuja letra idêntica em forma a nosso X moderno atualmente soa como nosso RR gutural, mas mais escarrado, praticamente como o J espanhol padrão. Nas línguas ocidentais, o CH passou a soar como um K normal, mas em algumas línguas, sobretudo as eslavas, evoluiu pro mesmo som (ou semelhante) ao grego, como é o caso do russo, que pra representar esse som usa a letra Х х.

Também aqui temos uma convenção gráfica pra quem deseja realmente diferenciar na escrita o C/K do CH, já que essencialmente ambos têm o mesmo som no latim “eclesiástico”, e já que na pronúncia “reconstituída” ele não soa nem como o “qui” grego, nem como o Х х cirílico.

3. ДЖ дж e ГН гн/НЬ нь cirílicos: Equivalem respectivamente ao G antes dos sons “e” e “i” (portanto, pronunciado “dj”) e ao GN com som de “nh”. Pra ambos, podemos usar as respectivas letras sérvias e macedônias Џ џ e Њ њ, permitindo-se ainda o uso, depois da segunda, de Я я, Ё ё e Ю ю pra representar os respectivos grafemas, IA, IO e IU.

4. Pronúncia aspirada do H: Caso você queira uma letra separada pro H, pronunciando-o ou não de forma aspirada como em inglês, sugiro o uso da letra Һ һ do tártaro (a minúscula é idêntica à nossa) ou do Ҳ ҳ do tajique, que é o mesmo sinal do CH, mas com um “rabinho” ou “perninha” (como queira!) à direita. Pros classicistas mais fanáticos, não recomendo seu uso diante de consoantes aspiradas, sobretudo por razões estéticas, mas não há nada que objetivamente possa o impedir.

5. A vogal Y de origem grega: Se você quiser pronunciar o Y como em grego clássico, ou seja, como o Ü alemão ou o U francês com “biquinho”, sugiro a letra Ү ү, também do tártaro (como língua túrquica, ela tem os mesmos sons Ö e Ü do turco, além de um Ä, como visto acima, que na Anatólia despareceu como fonema distintivo). Você não enxergou errado: na forma minúscula, a “perna” inferior também é vertical, e não inclinada, como no У у (U) russo, que também a inclina na maiúscula. Se for usar, preste atenção nesse traço minucioso! Atenção: não use Ы ы à guisa do Y latino, pois o som da letra russa nada tem a ver com a pronúncia grega ou latina.

6. A semivogal “i”: Se você quiser usar uma letra separada pro som do “i” semivocálico, e não uma letra combinada, como ocorre com IA, IO e IU, use o Ј ј do sérvio e do macedônio, e não o Й й de outras línguas eslavas, quase sempre reservado pro fim de sílaba, salvo em casos raríssimos. Ele permite manter o som “e” da letra Е е em qualquer ocasião e dispensa o uso do Э э após vogais ou no começo de palavra, e permite também que você possa escrever sempre ИА, ИО, ИУ no lugar de ИЯ, ИЁ, ИЮ.

Se quiser ir ainda mais longe, use o Ў ў belarusso pra representar o U da combinação QU, que é sempre semivocálico. Eu não recomendo, pois essa letra quase só se restringe ao belarusso e só se usa em fim de sílaba, geralmente como equivalente etimológico de um L ou V final, e não como uma abertura “crescente” de sílaba.

7. A letra Z com som “dz”: Por ser raro, o Z soa “dz” tanto na pronúncia “reconstituída” quanto na “eclesiástica”, e embora possa ser representado por duas letras em cirílico (D + Z), existe também a letra macedônia Ѕ ѕ (apesar da equivalência com a forma de nosso S, não as confunda na digitação, pois têm sentidos diferentes!), cuja pronúncia une estritamente os dois sons. Essa letra foi exumada do cirílico antigo, usado pra escrever o eslavônio (eclesiástico), e hoje só se usa na língua macedônia. Portanto, meu objetivo ao sugeri-la foi apenas manter a equivalência letra-letra ou letra-som, e seu emprego não é lá muito prático.

8 (last but not least). Não confunda as bolas! A adoção das sete opções sugeridas acima, que não recomendo numa hipotética aplicação sistemática do alfabeto cirílico a textos latinos, deve ser uniforme, feita em conjunto e no lugar das respectivas alternativas da lista principal. Isso porque é muito mais fácil você manter um só teclado (o russo, nesse caso) e ir digitando fluentemente do que ficar trocando toda hora, mesmo que isso seja possível no celular, e em grau menor no computador.

Portanto, se decidiu escrever o H, escolha o Һ һ tártaro ou o Ҳ ҳ tajique, não misture os dois no mesmo texto! Se optou uma vez por transliterar o Z como ДЗ дз, não use o Ѕ ѕ macedônio no resto! E se decidiu transformar o GN em ГН гн, mesmo que a pronúncia seja “nh”, não meta um НЬ нь em parte alguma! Parece uma recomendação chata pra uma atividade que só teria valor, no máximo, numa fanfic, mas acredite, cirílicos de várias línguas misturados no mesmo texto são tão incompreensíveis e feios que não são aceitos sequer em projetos de idiomas auxiliares intereslavos. Ofendem tanto a falantes nativos, eslavo ou não, quanto a especialistas.


E como não podia deixar de ser, seguem alguns exemplos de texto, escolhidos aleatoriamente, os quais optei por transliterar pelas sugestões da tabela resumida, restrita apenas ao cirílico russo, pronúncia “eclesiástica”. O que não foi aleatório foram os períodos: um texto “clássico”, um texto eclesiástico medieval e um texto sobre um tema recente, supostamente escrito por um cidadão da atualidade. Vou apenas dar os nomes e as fontes dos textos, mas deixo a você o “agradável” exercício de transliterar e, se desejar, ler em voz alta sem usar o original em latim, rs:

Caio Júlio César, De Bello Gallico [Де Белло Галлико] (Comentários sobre a Guerra da Gália):
Галлия эст омнис дивиза ин партес трес, кварум унам инколунт Белджай, алиям Аквитани, терциям кви ипсорум лингва Челтай, ностра Галли аппеллантур. И омнес лингва, институтис, леджибус интер се дифферунт. Галлос аб Аквитанис Гарунна флумен, а Белджис Матрона эт Секвана дивидит. Орум омниюм фортиссими сунт Белджай, проптереа квод а култу аткве уманитате провинчиай лонгиссиме абсунт минимекве ад эос меркаторес сайпе коммеант аткве эа, квай ад эффеминандос анимос пертинент, импортант проксимикве сунт Джерманис, кви транс Ренум инколунт, квибускум континентер беллум джерунт. Ква де кауза Элвеции квокве реликвос Галлос виртуте прайчедунт, квод фере котидианис пройлиис кум Джерманис контендунт, кум аут суис финибус эос проибент аут ипси ин эорум финибус беллум джерунт. Эорум уна парс, квам Галлос обтинере диктум эст, инициюм капит а флумине Родано, континетур Гарунна флумине, Очеано, финибус Белгарум, аттингит эциям аб Секванис эт Элвециис флумен Ренум, верджит аб септентриёнес.

O Credo de Niceia, ou Symbolum Nicænum (Constantinopolitanum) [Симболум Ничайнум (Константинополитанум)]:
Кредо ин унум Деум, Патрем омнипотентем, факторем чайли эт террай, визибилиюм омниюм эт инвизибилиюм. Эт ин унум Доминум, Езум Кристум, Филиюм Деи унидженитум, эт экс Патре натум анте омния сайкула. Деум де Део, лумен де лумине, Деум верум де Део веро, дженитум, нон фактум, консубстанциялем Патри: пер квем омния факта сунт. Кви проптер нос оминес эт проптер нострам салутем дешендит де чайлис. Эт инкарнатус эст де Спириту Санкто экс Мария вирджине, эт омо фактус эст. Кручификсус эциям про нобис суб Понциё Пилато; пассус эт сепултус эст, эт ресуррексит терция дие, секундум Скриптурас, эт ашендит ин чайлум, седет ад декстерам Патрис. Эт итерум вентурус эст кум глория, юдикаре вивос эт мортуос, куюс регни нон эрит финис. Эт ин Спиритум Санктум, Доминум эт вивификантем: кви экс Патре Филиёкве прочедит. Кви кум Патре эт Филиё симул адоратур эт конглорификатур: кви локутус эст пер профетас. Эт унам, санктам, католикам эт апостоликам Экклезиям. Конфитеор унум баптисма ин ремиссиёнем пеккаторум. Эт эксспекто ресуррекциёнем мортуорум, эт витам вентури сайкули. Амен.

“Antisemitismus” [Антисемитисмус] (início do verbete “Antissemitismo” na Wikipédia em latim):
Антисемитисмус рациё эт коджитанди эт адженди эорум эст, кви популо Юдайорум эт релиджиёни Мозаичай тоти сине улла дистинкциёне оминум сингулорум инфенси сунт. Антисемитисми черта индичия сунт: а) сиквис Юдайос вулту, спечие, морибус интер се симилес ессе аффирмат, б) сиквис Юдайос омнес дивитес авароскве эксистимат, в) сиквис Юдайос ин доминациёнем тотиюс [totíus] мунди конспирассе опинатур. Юдайос одиё кводам инветерато мулти персекути сунт оминес, кво коммоверентур, ут контумелиис эос аффичерент, инсидияс эис парарент, эос оппримерент эт ин тумулту эциям окчидерент. Квас иниюрияс Юдайи темпорибус антиквис, кум ин Палайстина седес аберент, эт медиё квод дичитур айво пер Еуропам дисперси перпесси сунт.



quarta-feira, 5 de junho de 2024

Como pronunciar latim eclesiástico (6)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fale-latim6


Finalmente, depois de mais de três anos de pausa (fevereiro de 2021), volto a publicar minhas leituras de textos em latim! Só pra relembrar: em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio e publicar no antigo canal Pan-Eslavo Brasil, em forma de vídeo montado com as ilustrações correspondentes, todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai. Além da tradução literal livre na descrição, minha locução trazia em voz alta as leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta da década de 1950. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gostava muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Aqui na página, eu sempre publicava as leituras de 10 em 10, e a última publicação da coleção trouxe os textos lidos das lições 1 a 10 do Gradus Secundus, mas eu já tinha carregado no canal as leituras até a lição 16. Acontece que nesse meio-tempo, houve a derrubada do Pan-Eslavo Brasil em agosto de 2021, a mudança completa da página pra outra conta do Google, o exame de qualificação do doutorado, a defesa da tese e muitas outras coisas que “pediram” pra ser publicadas antes aqui... Apenas agora gravei e montei os quatro vídeos restantes, por isso seu design está um pouco diferente, em especial pela ausência de alusões (agora inúteis) ao YouTube!

Como eu disse nas outras publicações com leituras do Gradus Primus e do Gradus Secundus, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e hoje usada em larga escala (quando se emprega o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é a mais simples, menos artificial e não padece da condição de hipótese, tal como a “pronúncia reconstituída”. Comecei esta série no YouTube por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja propriamente um curso. O latim também pesou pra evangelização dos eslavos e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não caíram sob a influência ortodoxa de matriz grega.

Seguem abaixo os vídeos das lições 11 a 20 do Gradus Secundus já gravadas (de 11 a 16, ainda em 2021). Você pode ler também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros. Até a lição 16, as traduções vieram nas descrições dos vídeos no YouTube, quando eu ainda estudava o livro e o conhecimento estava “fresco” em minha mente. Pros outros vídeos, seria (e será no futuro) difícil e demorado eu mesmo traduzir sozinho, porém, achei uma playlist no canal do prof. Húdson Canuto com aulas baseadas justamente nos dois manuais de Rónai, nas quais ele lê os textos em voz alta, os traduz oralmente e explica a gramática. Claro que a tradução é vagarosa, ele não a dá pronta de uma só vez e considero sua locução bastante monótona, mas pelo menos pra esta publicação, foi uma mão na roda pra que, com minhas próprias adaptações, eu pudesse enfim desengavetar o rascunho!

Queria fazer apenas duas observações: logo no primeiro vídeo, cometi o pequeno deslize de, ao invés de pronunciar ignosco em ignosco libenter como “inhósko”, que é a forma correta, pronunciei “inhócho”. E no vídeo “Os primeiros cônsules”, minha única discórdia pra com o autor é logo no começo, eu não escreveria iam (já), mas jam, igual nos escritos católicos medievais e modernos, por ser semiconsoante:


ORBÍLIO INTERROGA SEUS ALUNOS

ORB. – Vocês estudaram a lição, meninos?

ALUNOS – Estudamos, professor.

ORB. – Quantos reis os romanos tiveram, Sexto?

SEXTO – Sete.

ORB. – Por quanto tempo (no total) eles reinaram?

SEX. – Duzentos e quarenta e três anos.

ORB. – Quem foi o primeiro rei de Roma?

SEX. – O primeiro rei de Roma foi Rômulo.

ORB. – Ótima resposta. De quem Rômulo era filho, Aulo?

AULO – Da vestal Rea Sílvia e do deus Marte.

ORB. – Ele tinha um irmão?

AUL. – Tinha, de fato gêmeo, Remo.

ORB. – A quem Amúlio levou os gêmeos?

AUL. – A um escravo.

ORB. – Por quê?

AUL. – Para que ele os matasse.

ORB. – Onde o escravo abandonou os pequeninos?

AUL. – Na beira do rio.

ORB. – Como a loba cuidou dos pequeninos?

AUL. - Alimentando-os com leite.

ORB. – Você também é um menino diligente. Agora me responda diretamente você, Lúcio. Numa reinou depois de quem?

LÚCIO – Depois de Rômulo e antes de Tulo.

ORB. – Quem sucedeu a Tulo?

LUC. – Anco Márcio.

ORB. – E a este?

LUC. – Tarquínio, o Soberbo.

ORB. – Você pensa dessa forma, Quinto?

QUINTO – De forma alguma, professor. O sucessor de Anco era Tarquínio Prisco.

LUC. – Isso mesmo. Confundi os dois Tarquínios. Perdoe pelo erro, professor.

ORB. – Claro que perdoo, Lúcio: “errar é humano”.


(SOBRE) OS ESTUDOS DAS MENINAS

Júlia, Lívia e Sílvia são levadas pela escrava Drusila para a casa de Semprônia, para que elas retomem os estudos com a professora. A professora é saudada afavelmente pelas alunas.

MENINAS – Olá, professora!

SEMPR. – Olá, meninas! Como vão?

MENINAS – Muito bem, professora. E a senhora [lit. “tu/você mesma”], como vai?

SEMPR. – Muito bem. Senti muita falta de vocês nessas férias. O que vocês querem aprender hoje?

LÍVIA – Dite provérbios para nós.

SEMPR. – Aqui estão quatro entre os mais belos:

Os amigos certos são discernidos nas horas (lit. “coisa”) incertas.

Devemos ser (ou “nos deixar ser”) advertidos de boa vontade pelos amigos.

A verdadeira virtude é exibida pelos atos.

O outro lado (lit. “A outra parte”) também deve ser ouvido.

Os provérbios são explicados pela professora e são copiados nas tábuas pelas alunas com estilete.


(SOBRE) OS PRIMEIROS CÔNSULES

ORBÍLIO – Já vimos como os romanos expulsaram Tarquínio, o sétimo e último rei. Então, em vez de apenas um rei, foram eleitos dois cônsules pela razão que, se um deles fosse mau, seria reprimido pelo outro. Mas aos cônsules foi dado o reinado de um ano.

QUINTO – Por que não durável, professor?

ORB. – Foi decidido que eles não tivessem um reinado maior do que um ano só para que não se tornassem arrogantes demais com a longa duração do poder, mas sempre fossem corteses. Portanto, foram cônsules no primeiro ano Lúcio Júnio Bruto e Tarquínio Colatino.


(SOBRE) AS GUERRAS QUE O REI EXPULSO CONDUZIU CONTRA ROMA

QUINTO – O rei expulso de Roma aceitou a ofensa com o espírito resignado?

ORBÍLIO – De forma alguma. Pelo contrário, conduziu guerras contra Roma para que tivesse o reinado restabelecido. Na primeira batalha o cônsul Bruto e Arunte, filho de Tarquínio, mataram um ao outro; porém, os romanos saíram vencedores dessa batalha, e Tarquínio vencido. Também no segundo ano Tarquínio conduziu uma guerra à pátria com a ajuda de Porsena, rei dos etruscos, e quase capturou Roma; mas também então saiu derrotado.

SEXTO – Assim finalmente a república (livre) pôde pôr as discórdias de lado.

ORB. – Ainda não. O rei expulso não descansou até sua morte. No nono ano um enorme exército foi reunido por seu genro para vingar a ofensa ao sogro. Porém, as tropas foram novamente vencidas pela virtude dos cidadãos.

SEX. – E como Tarquínio Soberbo terminou sua vida?

ORB. – Ele se transferiu para Cumas e nessa cidade logo morreu consumido pela velhice e pela aflição.


SOBRE O RESPEITO PARA COM OS IDOSOS

Enquanto Semprônia ensinava as alunas em casa, uma velha entrou para visitá-la. Escrevendo a lição, as meninas não se levantaram. Pouco depois a velha foi embora e Semprônia narrou esta história às meninas:

Lacedemônia [i.e. Esparta] era um domicílio honradíssimo para os idosos. Em nenhum outro lugar a velhice era mais venerada. Um dia, em Atenas, certo velho entrou num teatro; na grande plateia nenhum dos seus cidadãos cedeu-lhe o lugar. Então o velho se aproximou de embaixadores espartanos que estavam sentados em certo lugar. Todos eles se levantaram e o receberam para que se sentasse. Quando a plateia toda aplaudiu fortemente os embaixadores, um deles disse: “Os atenienses sabem o que é certo, mas não querem fazê-lo”.

As meninas ficaram muito perturbadas com a história da professora.

– Entendi a história, professora – disse Lívia. – Agimos mal. Perdoe o erro. Daqui em diante sempre demonstraremos respeito à velhice [i.e. aos idosos].


SOBRE CORIOLANO

ORBÍLIO – Vocês já conhecem a história dos sete reis e da república. Se desejam saber mais alguma coisa, perguntem.

SEXTO – Já ouvi muitas vezes o nome de Coriolano. Explique-nos, professor, quem foi ele e que coisas realizou.

ORB. – Caio Márcio Coriolano, general romano que havia capturado Coríolos, a cidade dos volscos, foi expulso injustamente de Roma. Irritado, ele se dirigiu aos próprios volscos e aceitou a ajuda deles para se vingar da ofensa.

Coriolano venceu os romanos muitas vezes. Recusou-se a receber os embaixadores romanos que foram enviados para oferecer a paz. Ele estava – algo terrível de dizer – prestes a sitiar a pátria, quando sua mãe e sua esposa saíram de Roma ao seu encontro.

Vencido pelo choro e pela súplica das mulheres, Coriolano afastou seu exército. E este foi o segundo general depois de Tarquínio que se voltou contra sua pátria.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Primeira parte)

LÚCIO – Professor, recentemente o senhor falou sobre Coriolano, um inimigo de sua pátria. Peço que hoje fale sobre algum homem ilustre que a amasse.

ORBÍLIO – Pedido correto, Lúcio. Os exemplos dos homens fortes despertam os ânimos dos jovens com o amor pela glória. Por isso vou lhes contar agora um caso do tipo que vocês estão pedindo, digno de admiração e meditação.

Vocês já ouviram o nome de Porsena, rei dos etruscos e companheiro de Tarquínio Soberbo, o qual o povo expulsara de Roma. Porsena atormentava nossa cidade com uma grave e constante guerra. Suportando-a com dificuldade, o jovem nobre Múcio, cingido com a espada, entrou secretamente no acampamento militar do rei. Após tentar em vão matar o rei, que estava fazendo sacrifícios ao altar, foi subjugado pelos soldados que ameaçaram o torturar.


(SOBRE) MÚCIO CÉVOLA (Segunda parte)

SEXTO – As ameaças de Porsena atemorizaram Múcio?

ORBÍLIO – De forma alguma. Ele não escondeu dos soldados a razão de sua vinda; pelo contrário, mostrou a todos com admirável paciência o quanto desprezava as torturas. De fato, detestando sua mão direita, por não poder se valer de seu serviço para assassinar o rei, colocou-a dentro de um braseiro e aguentou as queimaduras.

A paciência de Múcio também obrigou o próprio Porsena, que tinha se esquecido do perigo, a transformar sua vingança em admiração.

– Múcio – diz ele –, volte para junto dos seus e lhes diga isto: “O rei devolveu a vida a mim, que queria atentar contra a dele.”


(SOBRE) RÉGULO (Primeira parte)

AULO – O que aconteceu depois com Múcio?

ORBÍLIO – Viajando para Roma, parecia mais triste pela saúde de Porsena do que alegre pela sua própria. Mas os cidadãos, admirando sua virtude, lhe deram um cognome [Cévola, no caso] de glória eterna. O que vocês acham desse exemplo de virtude?

QUINTO – A paciência do jovem nos comove à máxima admiração.

ORB. – Admirando e imitando tais exemplos, vocês vão servir à pátria.

LÚCIO – Mas diga, professor, Roma teve outros homens parecidos com Múcio?

ORB. – Teve, muitos até. Ouçam o feito do insigne Régulo. Sendo já célebre o nome da cidade de Roma, eclodiu a guerra púnica contra os africanos [i.e. cartagineses]. Essa guerra foi longuíssima e de futuro duvidoso. Com o auxílio dos espartanos, os exércitos africanos venceram e capturaram parte do exército romano, incluindo o imperador Régulo.

Porém, dois anos depois, Metelo, outro general romano, derrotou os africanos na Sicília e vingou a derrota [de Régulo]. Então, os cartagineses pediram a Régulo, a quem tinham capturado, que viajasse até Roma, obtivesse a paz junto aos romanos e fizesse a troca de prisioneiros.


(SOBRE) RÉGULO (Segunda parte)

LÚCIO – O general romano poderia executar ordens de inimigos?

ORBÍLIO – Espere um pouco e você já vai ver se agiu como um enviado dos púnicos [i.e. cartagineses] ou um cidadão romano.

Tendo chegado a Roma, Régulo foi levado ao Senado. Evitando o abraço da esposa [lit. “Afastando a esposa do abraço”], persuadiu os cidadãos a não fazerem a paz com os cartagineses.

– Prostrados por muitas desgraças – disse ele –, eles não têm nenhuma esperança. Eu, por Hércules, um único velho, não valho tanto para que seja trocado, junto com uns poucos romanos que estão presos comigo, por tantos milhares de prisioneiros.

Seguindo o conselho de Régulo, nenhum romano recebeu os africanos que pediam a paz. Os cidadãos fracassaram em reter Régulo em Roma. Ele voltou à África e morreu sob todo tipo de tortura.


sábado, 12 de agosto de 2023

“Loquerisne Latine?” Memes em latim


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/loquerisne

Várias vezes tentei manter perfis no Instagram com bordões ou memes famosos traduzidos pro latim clássico (a variante escrita como era consagrada no século 1 AEC), porque acho uma maneira de provocar riso esse choque do vulgar e do escrachado com o erudito ou hiperculto. Usando a ortografia eclesiástica da Igreja Católica, fazia fotos com legendas e às vezes também legendava vídeos de poucos segundos, sempre me apropriando do nome de usuário @loquerisne, que vem da expressão Loquerisne Latine? (Você fala latim?), que geralmente também era o título de meus perfis. A pronúncia correta é “loquérisne latíne?”, sem reduzir os “e” ao som de “i”; loqueris é a segunda pessoa do singular presente do verbo com conjugação passiva lóquor, lóqui, que se traduz como “falar, dizer, declarar”, e -ne é uma partícula interrogativa átona.

Porém, raramente me sobrava tempo pra fazer novas figuras, pois costumo ser perfeccionista e eu tinha medo que isso prejudicasse o doutorado, enquanto nunca gostei de manter páginas no Facebook e no Instagram que tivessem esse tipo de conteúdo contínuo, e depois as abandonar quando não tivesse mais tempo de alimentá-las. É uma postura “oito ou oitenta” mesmo, típica de minha personalidade, rs. Infelizmente, não guardei nenhum meme da primeira versão da página, quando eu estava mais firme no estudo do latim e cheguei a traduzir até umas frases bastante complicadas. Em meados de 2021, lancei uma nova versão, retomando alguns memes da primeira vez e acrescentando outros, alguns relativos a novos acontecimentos, outros relativos a notícias muito pontuais e dos quais, por isso, não achei interessante fazer backup. Quando minha paciência pra mídias sociais acabou de vez, resolvi não apagar o que já tinha feito e esperar a oportunidade pra republicar aqui. Se você achou a proposta interessante, sinta-se à vontade pra usar o login @loquerisne em outras redes, reutilizar estes memes e, de preferência, criar novos também!

Alguns memes ou bordões são tão conhecidos, ou o contexto é claro a ponto de se poder adivinhar fazendo uma breve pesquisa, que não traduzi a maioria: a graça também está na própria adivinhação, mesmo que a pessoa desconheça o latim, rs. Só em alguns casos decidi explicar a escolha ou a ocasião, de preferência sem traduzir e dando apenas a versão original pra que ela mesmo deduza. Nesta pasta estão alguns dos templates pra você criar textos novos, caso interesse, e que pra mim foram mais difíceis de capturar, e por isso tive dó de jogar fora. Antes que eu me esqueça: aquele César com cara de louco no começo, que achei por acaso no Google Imagens, sempre era a foto de perfil do meu Loquerisne Latine?, rs.





Em 2021, o assassino Lázaro Barbosa estava sendo ferozmente caçado em Goiás e no Distrito Federal, num caso que gerou comoção nacional. Quando ele finalmente foi achado e morto pela polícia, não houve o famoso Plantão da Globo, pois no meio de seu programa matinal, Ana Maria Braga tinha feito uma chamada ao vivo com o repórter local, que acabou anunciando o fim das buscas. Porém, ela fez uma confusão muito bizarra com o nome do repórter, rs:










Jânio Quadros foi um presidente da República brasileiro, que só ficou sete meses dentro do ano de 1961, tendo renunciado por não conseguir dobrar o Congresso Nacional a suas vontades. De temperamento bem caricato e avesso a críticas, o ex-professor de português fez uma ascensão meteórica na política e costumava usar frases prontas de cunho erudito e construção inusitada, como esta que remete à sua conhecida propensão ao álcool: “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.” (Pros incautos, a última palavra equivale a “eu o comeria”.)




Este sermão do padre Fábio de Melo na sede da Canção Nova viralizou porque ele disse que os católicos não deviam temer despachos de macumba colocados nas portas de suas casas, caso sua fé cristã fosse realmente forte. Porém, a lacrosfera interpretou isso como um “desrespeito às religiões de matriz afro”, o que é uma completa descontextualização. Em minha humilde opinião, a Canção Nova é um grande circo eclesiástico, mas o que mais me enojou nesse vídeo não foi a ideia em si, e sim uma das frases que realmente era desnecessária.










Quando lancei esta imagem em algumas redes sociais não associadas ao projeto @loquerisne (o que eu realmente não devia ter feito), fui criticado por causa da situação que envolvia George Floyd. Porém, minha intenção não tinha sido fazer piada da violência, muito menos apologia, e sim traduzir a frase “I can’t breathe”, que também tinha se tornado um bordão na luta antirracista. Nessa sequência, a imagem posterior traduz a frase “Black lives matter”, e é interessante como na Antiguidade Clássica os negros africanos em geral eram chamados de “etíopes”!














Rubens Ricupero, diplomata e professor, embaixador do Brasil em vários países, uma das testemunhas do nascimento da Política Externa Independente brasileira e Ministro da Fazenda em 1994 durante o governo de Itamar Franco, quando ajudou a implantar o Plano Real, mas se demitiu após ser pego pronunciando em off a famosa frase do que seria chamado “escândalo da parabólica”.


Acréscimo que fiz em 16 de junho de 2024, de uma conta que conheço no Équis e que costuma escrever só em latim ou sobre curiosidades que ligam a língua à atualidade:


Este diálogo é tão épico que dispensa explicações! Apenas não traduzi todas as frases...














quinta-feira, 25 de maio de 2023

Hino “A Internacional” em latim


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/internacional-la

Achei por acaso esta curta versão em latim do célebre hino socialista A Internacional, e quis republicar aqui. Segundo quem postou, é a única versão que se podia encontrar com rimas conforme nossa poética atual, embora constitua apenas a primeira estrofe e o refrão. Mesmo assim, o sentido ficou muito próximo do original francês e de outras traduções!

Nesta publicação minha você pode conhecer mais sobre a história da Internacional e ler o original em francês e minha tradução literal pro português. Me parece que esta publicação pode ter representado a primeira aparição do texto na internet, na página de quem diz ser seu próprio tradutor, Scott Horne, que a fez em 2005. O vídeo já tinha legendas em inglês e latim, e eu mesmo traduzi pro português e legendei (não sei quem tá cantando, mas ficou oscilando entre pronúncia reconstituída e eclesiástica).

Fiquei com dúvida na construção de certos versos, mas minha tradução ficou assim (segue-se também uma transliteração em cirílico, pronúncia eclesiástica, que inventei na época):


Rebelem-se, párias do mundo!
Rebelem-se, famintos!
A razão renasce da agonia,
Tornando-se passado a perdição.
Vejam a velha época se abalando,
Multidão de escravos, levante-se!
Pois o mundo já muda totalmente:
Quem não é nada, tornem-se tudo!
Esta é a batalha derradeira;
Reunamo-nos para que amanhã
Seja a Internacional
Uma só humanidade!

Consurgite, damnati mundi!
Consurgite, famelici!
Ratione orta moribundi
Pereunt status relici.
Ecce, saeculum vetustum nutat –
Turba servorum, surgite! –
Nam mundus iam penitus mutat:
Qui estis nil, omnia fite!
Hoc est proelium finale;
Congregemur ut cras
Sit Internationale
Unā humanitas.

Консурджите, дамнати мунди!
Консурджите, фамеличи!
Рациёне орта морибунди
Переунт статус реличи.
Экче, сайкулум ветустум нутат –
Турба серворум, сурджите! –
Нам мундус ям пенитус мутат:
Кви эстис нил, омния фите!
Ок эст пройлиюм финале;
Конгреджемур ут крас
Сит Интернациёнале
Уна уманитас.



sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Denegrir é mesmo um termo racista?


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Backup de umas notas nervosas que fiz nos stories do WhatsApp na manhã de 17 de outubro de 2022. Pra não estragar o papel desta página como uma espécie de portfólio meu, censurei alguns termos chulos e ocultei nomes cuja menção pudesse me comprometer:




Manchar por sua linguagem alguém em sua reputação (tradução do francês).


1. Enegrecer (pretejar?), tingir de preto. 2. Denegrir, enegrecer (obscurecer?) (tradução do francês).




terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Como pronunciar latim eclesiástico (5)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/fale-latim5


Em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai, traduzi-los e montar os vídeos com as ilustrações correspondentes. Minha locução traz em voz alta as leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta dos anos 50. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gosto muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata.

Como eu disse na primeira, segunda e terceira partes da série, com o livro Gradus Primus, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e hoje usada em larga escala (quando se emprega o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é a mais simples, menos artificial e não padece da condição de hipótese, tal como a “pronúncia reconstituída”. Estou fazendo esta série por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja propriamente um curso. O latim também pesou pra evangelização dos eslavos, e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não vieram à influência ortodoxa de matriz grega.

Seguem abaixo os vídeos das lições de 1 a 10 do Gradus Secundus que eu já tinha gravado. No correr do tempo, vou continuar narrando os textos de Gradus Secundus, e a cada 10 lições vou fazendo postagens aqui na página. Vocês lerão também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros:


OS MENINOS DE NOVO NA ESCOLA

Depois das férias escolares, os alunos se reúnem de novo na escola. Orbílio Pupilo entra. Os meninos se levantam e saúdam afavelmente o professor:

MENINOS – Bom dia, professor!

ORBÍLIO – Bom dia, meninos! Está começando hoje um novo ano letivo. Advirto-os para que frequentem assiduamente a escola, sempre estejam atentos às minhas palavras e aprendam as lições. Por acaso estão todos aqui, Lúcio?

LÚCIO – Estamos todos presentes, menos Sexto.

ORBÍLIO – Por que Sexto está ausente?

QUINTO – Ficou em casa cuidando da mãe doente.

ORBÍLIO – Espero que em breve sua mãe se recupere e nosso Sexto apareça novamente entre vocês.

AULO – O que vamos aprender com o senhor este ano, professor?

ORBÍLIO – Vamos ler e aprender a história de Roma.

AULO – O estudo da história vai nos agradar muito.

ORBÍLIO – Sábias palavras, Aulo: vai agradar e instruir. Como ensina o provérbio, a história é a mestra da vida.


(SOBRE) A MORTE DE CLÁUDIA

Poucos dias depois, Orbílio ouve dos alunos sobre a morte de Cláudia, esposa de Tito e mãe de Sexto. Afligido pelo luto, o marido pede ao professor do filho que redija uma inscrição para o sepulcro. Orbílio escreve estes versos ao amigo triste:

Estrangeiro, o que digo é pouco: pare e leia tudo.
Este é o sepulcro não belo de uma bela mulher.
Seus pais a chamaram de Cláudia.
Ela amou seu marido de (todo) coração.
Criou dois filhos: destes, um
Ela deixou na terra, o outro colocou sob a terra.
Cuidou da casa, fez a lã. Terminei. Vá embora.


(SOBRE) O CONSOLO DA SABEDORIA

Muitos amigos da família (lit. “da casa”) compareceram ao enterro de Cláudia. Após o enterro, a dor do viúvo é aliviada pelos consolos (ou “consolações”) dos amigos.

– Erga o ânimo (lit. “espírito”), meu Tito! – diz um dos amigos. – Certamente você perdeu uma ótima esposa. Mas o mesmo fim espera por todos: “a morte é certa, a hora é incerta.”

Os colegas de Sexto também vieram.

– Fique de ânimo forte, amigo – diz Quinto a Sexto. – Modere sua dor. “A paciência torna mais leve tudo o que é impiedade corrigir.” Venere a memória de sua mãe vivendo honestamente.


SOBRE RÔMULO E REMO

No dia seguinte, encontramos os alunos novamente na escola, ouvindo as palavras do professor.

– Eis as coisas admiráveis – começa Orbílio – que os historiadores [rerum scriptores] narram sobre o início de Roma [Urbs, i.e. “a Cidade”]:

As vestais, guardiãs do templo de Vesta, eram proibidas de se casar. Mas a vestal Rea Sílvia teve dois filhos, Rômulo e Remo, cujo pai era o deus Marte. O cruel tio paterno Amúlio levou os gêmeos a um escravo para que ele os matasse. Mas o escravo, mais bondoso do que (seu) senhor, abandonou os meninos na beira de um rio. Pouco depois uma loba chegou ao rio. A fera não somente não matou os pequeninos, mas (também os) alimentou com leite, até que Fáustulo, um pobre pastor do rei, os encontrasse e levasse à (sua) esposa.


RÔMULO FUNDA A CIDADE (ROMA)

– Vejam agora – continua Orbílio – quão pequenos foram os princípios de uma cidade tão grande.

Os gêmeos cresciam na casa paupérrima de Fáustulo. Os jovens viviam de roubos entre os pastores. Na idade de dezoito anos, Rômulo começou a construir uma pequena cidade no monte Palatino. Remo escarneceu das exíguas muralhas da nova cidade. “Essas suas muralhas”, diz ele, “certamente serão de grande ajuda aos seus cidadãos!” Irritado com as palavras do irmão, Rômulo matou Remo. Depois ele fundou a cidade à qual chamou de Roma, a partir de seu próprio nome.

No início, a grande cidade era mais humilde do que do que uma aldeia paupérrima.


SOBRE O RAPTO DAS SABINAS
(literalmente “Sobre as sabinas raptadas”)

QUINTO – Mas diga-nos, professor, como uma pequena cidade se transformou numa grande metrópole.

ORBÍLIO – Rômulo acolheu muitos homens da vizinhança (lit. “dos vizinhos”) na cidade.

LÚCIO – Somente homens?

ORB. – Boa pergunta (lit. “Você pergunta corretamente”): faltavam mulheres para o rei e o povo. Por isso Rômulo convidou para jogos os sabinos, vizinhos da cidade, e raptou as filhas deles.

AULO – Como os sabinos suportaram a ofensa?

ORB. – Irados, moveram uma guerra a Rômulo.

AULO – Quem venceu a guerra (lit. “na guerra”)?

ORB. – Os romanos. Mas pouco depois, os vencedores fizeram as pazes com os vencidos.


(SOBRE) OS PRIMEIROS SUCESSORES DE RÔMULO

ORBÍLIO – Chego agora aos primeiros sucessores de Rômulo.

Após a morte deste, o cidadão Numa Pompílio foi nomeado rei. De fato, Numa não promoveu nenhuma guerra, mas não foi menos útil à cidade do que Rômulo. Pois ele não somente estabeleceu as leis e os costumes aos romanos, mas também dividiu o ano em doze meses e organizou muitíssimas cerimônias e templos.

Tulo Hostílio sucedeu a Numa Pompílio. Ele retomou as guerras; venceu os albanos, subjugou os veientes pela guerra e uniu o monte Célio à cidade, assim ampliando Roma. No ano 32 de seu reinado, um raio o fulminou no palácio real.


(SOBRE) ANCO MÁRCIO E TARQUÍNIO PRISCO

LÚCIO – Quem sucedeu a Tulo Hostílio, professor?

ORBÍLIO – Anco Márcio, neto de Numa que combateu o Lácio, anexou o monte Aventino e o Janículo à cidade; além disso, fundou a cidade de Óstia sobre o mar. No vigésimo quarto ano de reinado, morreu de uma doença.

SEXTO – Quem recebeu o reino depois de Anco?

ORB. – Tarquínio Prisco. Ele duplicou o número de senadores, construiu um circo em Roma [“Romae”: genitivo com função locativa] e organizou os jogos romanos, que permanecem em nossa memória. Também venceu os sabinos e anexou não poucas terras ao território da cidade de Roma. Fez muros e esgotos; iniciou o Capitólio. No trigésimo ano de reinado, os filhos de Anco mataram o rei.


(SOBRE) O REINO DE SÉRVIO TÚLIO

QUINTO – Quem tomou o império a seu cargo após Tarquínio? Acaso foram os filhos de Anco, que o mataram?

ORBÍLIO – De forma alguma; o sucessor de Tarquínio Prisco foi seu genro, Sérvio Túlio. Ele também submeteu os sabinos; anexou três montes, o Quirinal, o Viminal e o Esquilino, a Roma; trouxe fossos em volta dos muros. Ordenou o primeiro de todos os censos, que até então era desconhecido no globo terrestre. Sob ele, Roma teve oitenta e três mil cidadãos romanos, incluindo os que estavam nos campos. No quadragésimo quarto ano de reinado, pereceu por um crime de seu genro Tarquínio, o Soberbo.


SOBRE O ÚLTIMO DOS REIS DE ROMA
(ou “O último rei de Roma”)

AULO – Tarquínio, o Soberbo, obteve o império por meio de um crime?

ORBÍLIO – Obteve, mas como vocês verão, depois ele sofreu um castigo.

O primeiro povo que ele venceu foram os volscos, que viviam perto de Roma; submeteu a cidade de Gábios; fez as pazes com os etruscos; concluiu a construção do templo de Júpiter no Capitólio. Enquanto sitiava Árdea, Bruto, ele próprio também cunhado de Tarquínio, atiçou o povo e arrebatou o império a Tarquínio. Logo o exército, que sitiava a cidade de Árdea com o próprio rei, abandonou-o. Enquanto o rei voltava, o povo não o deixou entrar em Roma. Sete reis reinaram em Roma durante duzentos e quarenta e três anos.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Como pronunciar latim eclesiástico (4)


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Em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai, traduzi-los e postar os vídeos com as ilustrações correspondentes. A essa série chamei Latim Pronunciado, com minha leitura em voz alta das leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta dos anos 50. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gosto muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Se algum de vocês tiver qualquer dúvida sobre o idioma, pode me perguntar nos comentários ao vídeo.

Como eu disse na primeira e na segunda partes da série, optei por seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e hoje usada em larga escala (quando se emprega o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é a mais simples, menos artificial e não padece da condição de hipótese, tal como a “pronúncia reconstituída”. Estou fazendo esta série por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja propriamente um curso. O latim também foi importante pra evangelização dos eslavos, e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não vieram à influência ortodoxa de matriz grega.

Seguem abaixo os vídeos das lições de 21 a 30 do Gradus Primus que eu já tinha gravado, encerrando assim esse primeiro volume da série. Em algum tempo, vou começar a narrar no canal os textos de Gradus Secundus, e a cada 10 lições vou fazendo postagens aqui na página. Vocês lerão também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros:


CONSELHOS ÚTEIS DE UM PAI PARA O FILHO

Suplique a Deus. Ame seus pais. Combata pela pátria. Ande com os bons para que você mesmo seja bom. Cumprimente de boa vontade, para que também o cumprimentem de boa vontade. Conserve suas coisas. Aprenda para saber. Evite os jogos de dados [= de azar], para que você permaneça um homem honrado. Medite sempre o provérbio: “Como para viver, e não vivo para comer.”


SOBRE O DILÚVIO

Os crimes do gênero humano irritavam Júpiter. Em vão os homens pediam para que ele perdoasse; ele mandou o dilúvio à Terra. Os rios precipitavam-se pelos campos abertos e destruíam as casas. As ondas eram tão altas que não havia nenhuma distinção entre o mar e a terra.


SOBRE DEUCALIÃO E PIRRA

O dilúvio devastou tudo.

Quando as águas baixaram, de todos os seres humanos da Terra sobreviveram apenas um homem, Deucalião, e apenas uma mulher, Pirra, ambos velhíssimos. Querendo renovar os povos da Terra, Deucalião consultou o oráculo de Têmis. A deusa deu esta resposta:

“Joguem atrás das costas os ossos da grande mãe.”


SOBRE OS NOVOS SERES HUMANOS
(ou SOBRE A NOVA HUMANIDADE)

Deucalião e Pirra, que não entenderam o oráculo, meditavam longamente no espírito. Finalmente o marido disse a Pirra:

– Agora entendi o oráculo. A grande mãe é a Terra. Os ossos da mãe, portanto, são as pedras.

Então o marido e a esposa jogaram pedras atrás das costas. Logo as pedras tomaram a forma humana.


SOBRE A AMIZADE E OS AMIGOS

– Arranjem amigos para si – dizia Orbílio aos discípulos. – Sem amizade a vida seria triste. Se vocês escolherem bem os amigos, terão companheiros nas adversidades. De fato, Publílio Siro escreveu acertadamente: “As coisas favoráveis atraem os amigos, e as tristes os põem à prova.”

Os discípulos de Orbílio meditavam as palavras de Publílio. Mas vocês [leitores] sempre meditem a sentença do poeta Ovídio Naso:

“Enquanto você for feliz, vai contar muitos amigos; se os tempos forem nebulosos, ficará sozinho.”

Nos dois templos da ilustração está escrito: “Hic hábitat infelícitas” (Aqui mora o azar) e “Hic hábitat felícitas” (Aqui mora a sorte).


A ARTE DE VIVER BEM

Orbílio aos discípulos: – Vocês desejam viver bem? Não ignorem estes preceitos de Publílio Siro, meninos.

Primeiro: “Advirta os amigos em segredo, mas elogie-os em público.”

Segundo: “Tenha paz com os homens e guerra com os vícios.”

Terceiro: “Nunca acuse nem elogie ninguém apressadamente.”


SOBRE A ARTE DE DÉDALO

O rei Minos [de Creta] isolou Dédalo com seu filho Ícaro na ilha de Creta. Se Dédalo não tivesse inventado uma arte admirável, ele ficaria para sempre na escravidão. Mas o artesão colocou em ordem penas na forma de asas e as ligou com cera.


DITOS ESPIRITUOSOS/CHISTOSOS
(ou literamente “Coisas ditas de forma espirituosa”)

Orbílio aos discípulos: – Agora vou ditar a vocês novas sentenças de Publílio, todas agudas e bonitas.

“O esquecimento é o remédio para as ofensas.”

“A vida e a fama de um homem caminham lado a lado.”

“Receie o que o dia lhe concede: ele rapidamente vem o roubar.”

“Ao deliberarmos, a oportunidade frequentemente morre.”


ADVERTÊNCIAS DE DÉDALO AO FILHO

Dédalo ajustou as asas para si e para o filho. Então ele advertiu o filho com duras palavras, para que ele não voasse alto.

– Meu Ícaro, disse, seja prudente! Evite ficar próximo do Sol!

Mas Ícaro, desejoso de voar, não atendeu às advertências do pai. Porém, o menino depois se arrependeu de ter desprezado as advertências e não ter obedecido ao pai.


SOBRE A MORTE DE ÍCARO

Todos os que viam a corrida dos homens voadores ficaram maravilhados. Mas o menino, alegrando-se com o voo audacioso, dirigiu um caminho tão alto que os raios do Sol amoleceram a cera. Ícaro caiu no mar. Seu pai se arrependeu de ter inventado a arte de voar.

Assim pereceu o audacioso menino; mas sabemos que a memória de Ícaro nunca haverá de perecer.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Como pronunciar latim eclesiástico (3)


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/fale-latim3


Em fevereiro de 2018, decidi gravar em áudio todos os textos dos livros Gradus Primus e Gradus Secundus, de Paulo Rónai, traduzi-los e postar os vídeos com as ilustrações correspondentes. A essa série chamei Latim Pronunciado, com minha leitura em voz alta das leituras destinadas ao ensino do idioma latino no ginásio (mais ou menos 5.º a 9.º ano atuais) e criadas por volta dos anos 50. Paulo Rónai foi linguista, tradutor, escritor e crítico literário, e nasceu na Hungria antes de se radicar no Brasil.

Uma das críticas feitas por latinistas acadêmicos a esse método é que os textos são muito artificiais e não refletem a realidade romana antiga da língua. Mas eu gosto muito dele porque pra quem não sabe nada, é uma introdução bem didática, e serve ainda muito bem como manual autodidata. Se algum de vocês tiver qualquer dúvida sobre o idioma, pode me perguntar nos comentários ao vídeo.

Como falei na sequência anterior, decidi seguir a chamada “pronúncia eclesiástica”, baseada na língua italiana e atualmente usada em larga escala (quando se usa o latim) pela Igreja Católica Romana, porque ela é mais fácil, menos artificial e não padece da condição de hipótese, igual à “pronúncia reconstituída”. Estou fazendo a série por diversão, e pra quem não sabe nada da língua latina, embora não seja um curso propriamente. O latim também foi importante pra evangelização dos eslavos, e pra elaboração cultural feita pelos santos Cirilo e Metódio, codificadores da primeira língua eslava escrita. Além disso, muitos povos eslavos (ocidentais, além de croatas e eslovenos) não vieram à influência ortodoxa de matriz grega.

Desta vez, seguem abaixo os vídeos das lições de 11 a 20 do Gradus Primus que eu já gravei. Em breve, postarei as últimas 10 lições, até chegar finalmente na lição 30. Vocês lerão também as traduções livres que eu mesmo fiz, já que elas não acompanham os livros. Algumas leituras merecem observações: o provérbio que dá título à lição 13 (“Verba volant, scripta manent”) foi usado como epígrafe da famosa carta que Michel Temer, então vice-presidente da República no Brasil, enviou a Dilma Rousseff em 2015 pra expressar sua insatisfação com o governo. Divulgada ao público sem a aprovação do remetente, foi considerada pelos petistas como uma mostra de chororô e o ponto de virada em que o político do PMDB teria “lavado as mãos” pro processo de impeachment que finalmente depôs a chefe de Estado em abril-agosto de 2016. Ironicamente, a frase final parece uma descrição límpida do caráter dos políticos no Brasil, e ainda por cima, o número da lição é 13, o mesmo do PT! Já a lição 18 parece ter uma genealogia sobre por que gostamos de UFC e MMA, e quem teve professores de história bons, também vai lembrar a política romana do “pão e circo”. Mas o cômico é o gladiador no desenho tentando matar o inimigo com um garfão de bolo de aniversário!


SOBRE OS SENHORES E OS ESCRAVOS

Os romanos ricos tinham muitos escravos.

Rufo também era o senhor (ou “dono”) de muitos escravos. Os escravos de Rufo estimavam seu senhor, porque ele era bom: dava dinheiro aos escravos aplicados, e nem sequer batia nos maus, como faziam muitos.

Os escravos dos senhores severos levavam a vida miseravelmente, muitas vezes apanhavam e passavam fome. Raramente os escravos estavam contentes com os senhores, e os senhores com os escravos.


SOBRE A ESCOLA DE ORBÍLIO PUPILO

Muitos alunos frequentavam a escola de Orbílio Pupilo. [Prestem atenção que o objeto direto terminado em “-m” está no começo da frase.] Sexto, Aulo e Lúcio eram alunos de Orbílio. Todos os dias Orbílio instruía os meninos. O professor era um homem severo. Ele dizia muitas vezes aos meninos:

– Não aprendemos pra escola, mas pra vida, garotos!

O professor não gostava dos maus alunos e os castigava com frequência. Por isso, os alunos preguiçosos chamavam o professor de “Orbílio Espancador”.


AS PALAVRAS VOAM, OS ESCRITOS FICAM

Quinto Horácio Flaco frequenta a escola de Orbílio. O pequeno menino obedece aos preceitos do professor e sempre estuda com diligência. Quinto serve de exemplo aos colegas. O professor dá de presente um livro ao bom aluno. Flaco um dia será um grande poeta.

Orbílio frequentemente dita belos provérbios aos alunos. Os meninos copiam os provérbios, porque “as palavras voam, os escritos ficam”. Eis o primeiro provérbio:

“O dinheiro não sacia, mas irrita o avarento” [notem de novo como avarum, objeto direto, está no início da frase].


OS MENINOS NO JARDIM DE RUFO

Os meninos estão visitando o jardim de Rufo com o professor. Que bonito é o jardim! Por todo o canto, rosas vermelhas exalam perfume, narcisos amarelos riem, lírios brancos deleitam os olhos. Alegres, os meninos pulam, cantam, jogam bola, correm, decoram a estátua do deus dos jardins com coroas.


OS MENINOS NO FÓRUM

– Se vocês forem aplicados, meninos, – diz Orbílio – amanhã vamos visitar o Fórum. Lá vocês vão ver os belos templos dos grandes deuses. Também vou mostrar a vocês a Cúria, onde os senadores se reúnem. No Fórum, vocês vão ouvir os advogados.

Agora vou ditar a vocês a sentença de hoje:

“Hoje eu, amanhã você.”

Aulo, amanhã você vai recitar a sentença; você, por outro lado, Sexto, vai explicá-la.


SOBRE A SAÚDE E A DOENÇA

Lúcio, filho de Rufo e de Lucrécia, está doente. A doença do filho preocupa muito a mãe. O pai chama o médico. O médico aplica um remédio ao doente e diz:

– Coragem, Lúcio! Se você tomar o remédio, amanhã vai estar bom.

O pai também encoraja o filho.

– Não é nada, meu filho! – diz Rufo. – “A dor do espírito é mais grave do que a dor do corpo.”

As palavras do pai muito encorajam Lúcio.


SOBRE AS PROFISSÕES

Na cidade de Roma encontramos muitas profissões.

O padeiro faz pão, o alfaiate roupas, o sapateiro calçados. Os professores ensinam os meninos, os médicos curam os doentes, os marinheiros percorrem os mares e os soldados combatem.

“O marinheiro fala de ventos, o lavrador de touros.
O soldado conta feridas, o pastor ovelhas.”


SOBRE OS JOGOS CIRCENSES

O velho povo de Roma sempre exigia “pão e circo”. Os edis muitas vezes promoviam jogos para o povo. As lutas atrozes dos gladiadores no circo agradavam muito ao povo cruel.

Os homens violentos, quando desciam à arena, assim saudavam César:

“Ave, César, os que vão morrer te saúdam.” Os espectadores decidiam sobre a morte dos vencidos virando o polegar.


SOBRE A IDADE DE OURO

A primeira idade (era) da Terra foi a de ouro (áurea). Os homens então cultivavam o direito sem leis, desconheciam as guerras, os exércitos, as espadas e os clarins, e viviam sem usar soldados. O castigo e o medo eram ausentes. A primavera era eterna.


NA ESCOLA DE ORBÍLIO PUPILO

Professor: – Ontem lemos sobre a idade de ouro. Agora vou ensinar uma coisa nova. Todo o dia vocês aprendem alguma coisa; como dizia o famoso Apeles: “Nenhum dia sem uma linha.” Portanto, copiem a sentença do poeta Publílio Siro: “A prática de todas as coisas é o melhor professor.” Aulo, leia e explique a sentença.

Aulo, que estava brincando com Sexto, cala-se.

Professor: – Cuidado, Aulo! Se você brincar na escola, vou castigá-lo. Diz um sábio muito bem: “Os olhos são cegos se o espírito faz outras coisas.”