segunda-feira, 27 de abril de 2026

Khristo Grozev: Radev não será novo Orbán

Como você viu, não tenho “aparecido” por aqui com muita regularidade, embora minha intenção fosse continuar programando publicações diárias nos fins de semana. A vida deu um choque de realidade: apesar do material abundante, muita coisa ficava acumulada e resolvi dedicar sábados e domingos pra outras tarefas de organização pessoal ao invés de maratonar em cima do computador como um louco por dois dias seguidos. Porém, sempre que ocorre um evento importante, que consigo pegar “no pulo” ou que logo pode ficar velho, tento fazer um esforço, mesmo que a preparação seja lenta. Tenho coisas interessantes reservadas e espero que um dia volte a fazer programações diárias!

O assunto da semana pros nerds em “Leste europeu” (termo que abomino tanto quanto “Oriente Médio”!) foram as últimas eleições parlamentares na Bulgária, que pela primeira vez desde 1997 deram maioria clara a apenas um partido. Curiosamente, é uma legenda criada menos de dois meses antes, com o genérico nome “Bulgária Progressista” e fundada por ninguém menos que o ex-presidente Rumen Radev, no cargo há quase dez anos e que renunciou pra concorrer ao pleito. Embora o presidente seja eleito pelo voto popular, o regime é parlamentarista e seu cargo é mais cerimonial, impedindo Radev, portanto, de resolver a crise política aberta pela renúncia do premiê Boiko Borisov, que governou de 2011 a 2021.

Em cinco anos, essa foi a oitava eleição parlamentar, pois nenhum governo conseguia formar maioria e logo caía. No fim de 2025, o povo fez grandes protestos contra a classe política, apoiados por Radev, que se sentiu, assim, ungido pra formar o próprio partido. Deu certo: levando em conta o sistema, seu BP conseguiu quase 45% dos votos, mas mais da metade das cadeiras, o suficiente pra mudar juízes da Suprema Corte e o procurador-geral – mas não pra mudar a Constituição. Os antigos partidos saíram desacreditados, e até os socialistas, herdeiros dos comunistas, pela primeira vez não entraram no Parlamento desde a volta da democracia. Os fatos já são bem conhecidos, mas o que eu trouxe foi uma entrevista do jornalista investigativo búlgaro Khristo Grozev pro programa semanal de geopolítica de Ekaterina Kotrikadze na TV Dozhd (TV Rain).

Embora eu tenha incorporado o corte que saiu depois, eu tirei a transcrição de um trecho mais restrito, que omite a apresentação do tema. Usei um site que cria legendas a partir de vídeos do YouTube e confrontei com o áudio, com o agravante que o russo não é a língua materna de Grozev, portanto, ele faz muitos “aaa, ééé”, erros de concordância e construções incomuns, além da pronúncia induzir o leitor a algo “nada a ver”; pode não ter ficado perfeito. Depois traduzi pro português, e dada a importância do documento e o trabalhão que deu pra corrigir, ele também segue abaixo, depois da tradução. No final da página, o vídeo no canal de Kotrikadze, e logo abaixo, brincando com a pecha de “pró-Rússia” de Radev, a ideia que logo me vem à cabeça quando vejo o símbolo do partido BP, rs:



Vamos discutir com Khristo Grozev, jornalista investigativo da Bulgária que está com a gente ao vivo. Olá, Khristo.

Olá, Ekaterina.

Muito obrigada por ter achado um tempo. E de repente percebemos que você deve saber muito mais sobre a Bulgária do que muitas outras pessoas. E estou curiosa pra ouvir sua reação. Pode-se dizer basicamente que Putin substituiu seu protegido Orbán por seu protegido Radev?

Bem, não se pode dizer que se equivalem. Não é como se Putin tivesse recebido as mesmas ferramentas dentro da UE e da OTAN que tinha com Orbán. Ainda assim, a perda de Orbán é significativamente pior em termos absolutos do que o ganho de Radev nas eleições búlgaras, embora estivesse claro, antes da campanha eleitoral, que ele tinha se tornado o candidato preferido, com Russia Today e Sputnik publicando longos artigos em seu favor. Grupos búlgaros que monitoravam a desinformação durante as eleições também viram que o grupo “Matrioshka” e grupos afiliados a Russia Today repostaram milhares de artigos em apoio a ele.

Mas o mais importante a entender é que ele não equivale a Orbán por vários motivos. Primeiro, ele já estava no governo. A razão pela qual ele obteve uma votação tão grande é precisamente a instabilidade da situação política na Bulgária. Há vários anos, a Bulgária não consegue produzir resultados eleitorais que deem a um ou dois partidos votos suficientes pra formar um governo estável, seja de um só homem ou uma coalizão. Por isso, perdi a conta de quantos governos interinos a Bulgária teve nos últimos anos. Muitos deles foram nomeados pelo próprio Radev em sua função de presidente.

E vimos que, embora ele falasse frequentemente, desde o início da guerra, que a Bulgária não se envolveria no apoio à Ucrânia, que não prejudicaria suas relações com a Rússia e que sempre entendeu que a Rússia é muito mais importante pra Bulgária que a Ucrânia, seu governo interino sempre reafirmou o apoio militar à Ucrânia, embora tentasse mantê-lo em segredo. E isso é lógico. O próprio Radev se tornou general durante seu serviço na Bulgária como membro da OTAN. Ele participou de muitos programas de treinamento e instrução nos EUA. E pode-se dizer que parte das declarações consideradas pró-Rússia são retóricas, destinadas a aumentar sua base eleitoral na Bulgária. Mas quando se trata de decisões práticas e pragmáticas, ele segue as mesmas linhas que a UE e a OTAN consideram corretas.

Sim. Mas uma situação em que o ministro das Relações Exteriores de Radev saísse de uma reunião da UE, ligasse pra Lavrov e recebesse instruções de algum oligarca russo seria inimaginável. Estou certa?

Seria inimaginável. E, novamente, pegue o exemplo de seu ministro da Defesa, que ele nomeou no governo interino e agora provavelmente vai voltar ao cargo: um homem leal que estruturou todos os fornecimentos de armas e munições à Ucrânia em 2022-2023. Portanto, é impossível supor que alguém tão pró-OTAN, que seguiu tão estritamente suas políticas, de repente, manche sua reputação e mude sua política por qualquer motivo. Portanto, isso é muita retórica; pode-se considerar isso um prêmio de consolação pra Putin. Ou seja, vai haver outro país, além da Eslováquia, dizendo: “Vamos ser amigos da Rússia”. Mas não espero grandes consequências disso.

Sim, esse é o prêmio de consolação. Entendo, que nem no [show de prêmios] Campo dos Milagres há muitos anos. Khristo, queria te perguntar, de forma mais ampla, sobre o nível atual de influência do Kremlin, da Rússia e de Vladimir Putin nos países europeus. Está diminuindo ou aumentando? Você é um dos melhores investigadores que monitoram isso e, em particular, os serviços de inteligência russos. O quanto você está satisfeito ou, ao contrário, decepcionado com a dinâmica atual?

A perda da Hungria e de Orbán, que era um porta-voz tão poderoso dos movimentos pró-Putin em geral na Europa, pode ser considerada o início de uma espécie de cataclismo. No mínimo, vejo, e pode-se até afirmar, que o presidente Trump tentou dar seu apoio total a Orbán e recebeu em troca uma queda significativa no apoio popular. E se analisarmos isso sob a perspectiva de Trump dando apoio semelhante a outras forças de extrema-direita e pró-Rússia na Europa, acho que podemos considerar isso uma tendência que vai favorecer o declínio desses movimentos pró-Rússia.

Na Bulgária, uma razão completamente diferente levou a essa vitória: a presença de instabilidade por três, quatro anos e corrupção generalizada nas elites empresariais e políticas. Assim, o presidente Radev conseguiu unir duas forças eleitorais decisivas: a juventude anticorrupção e a parcela da população que, por algum motivo, considera a Rússia sua amiga. São pessoas que nunca estiveram na Rússia nem sequer conheceram pessoalmente um russo na vida. Mas, como aprenderam na escola que foi a URSS que sempre nos ajudou, sempre vão votar pela Rússia. Portanto, uniu duas forças, duas forças eleitorais que simplesmente não existem em outros países, são muito mais fracas eleitoralmente. Há muito menos corrupção política na Europa Ocidental que na Bulgária.

E como está o FSB [Serviço Federal de Segurança da Rússia, antigo KGB] na Europa como um todo?

Esse é um assunto à parte. Quero falar sobre isso, porque estamos preparando uma nova investigação sobre o que o FSB e o GRU [Diretoria Principal de Inteligência, voltada pro exterior] estão exatamente fazendo, mas podemos afirmar novamente que os países europeus estão muito mais conscientes e preparados pra responder mais rapidamente a uma ameaça potencial hoje do que estavam há um ano. Portanto, o FSB não está se saindo muito bem. Além disso, entendemos que após nossa grande investigação sobre o novo departamento do FSB e do GRU que deveria substituir o antigo, obsoleto e falho 29155 e similares, eles tiveram que fechar esse novo ninho de fantasmas que tinha sido criado. Então, não posso dizer que o FSB esteja em boa fase.

Bem, boas notícias no essencial. Muito obrigada. Khristo Grozev, jornalista investigativo do Der Spiegel e do Insider, falou ao vivo na TV Dozhd.



Pausa pro humor (quase) anônimo, rs!


Обсудим с Христо Грозевым, журналистом-расследователем из Болгарии. Он присоединяется к нам в прямом эфире. Христо, приветствую.

Здравствуйте, Екатерина.

Спасибо вам большое, что нашли возможность. Так, вдруг мы вспомнили, что вы же должны про Болгарию знать гораздо больше, чем многие другие. И вот интересно, как вы реагируете. Можно ли говорить о том, что в принципе Путин заменил своего парня Орбана своим парнем Радевым?

Ну, нельзя сказать, что это эквивалент. Нельзя сказать, что получил такой же инструментарию внутри Евросоюза и внутри НАТО, как был через Орбана. Всё-таки потеря Орбана значительно хуже в абсолютных измерениях, чем выигрыш Радева на болгарские выборы, хотя перед выборной кампанией было очевидно, что всё-таки он стал предпочитанным кандидатом, а Russia Today и Sputnik делали длинные комментарии в его пользу. И тоже болгарские группы, которые отслеживали дезинформации во время выборов, тоже увидели, что группа “Матрёшка” и группы, которые связаны с Russia Today, перепубликовали, перепостили там тысячи статей его поддержку.

Но всё-таки самое важное, что надо понять, что он не является эквивалентом Орбана по неком нескольким причинам. Во-первых, он уже был в правительстве. Причина, почему он вообще сейчас получил такой огромнейший выигрыш, это именно из-за нестабильности политической ситуации в Болгарии. Уже несколько лет Болгария не может получить результаты выборов, которые бы дали одной партии или там двум партиям достаточно голосов, чтобы они сделали стабильное, либо единоличное, либо коалиционное правительство. Поэтому уже я потерял счёт, сколько временных служебных правительств на последние несколько лет были в Болгарии. Многие из них назначались именно Радевом в качестве его президентской должности.

И мы видели, что хотя он очень часто ещё с начала войны против Украины говорил о том, что Болгарии нельзя включаться в поддержку Украине, что нельзя расшатать вообще отношения с Россией, что надо всегда понимать, что у России намного больше значимости, чем у Украины для Болгарии, то его временное служебное правительство всегда подтверждало военную поддержку Украине, хотя в публичном пространстве они пытались об этом не говорить. А это логично. Сам Радев стал генералом во время его службы в натовской Болгарии. Он был на очень многих тренировках и обучениях в Америке. И можно сказать, что часть из того, что многие называют пророссийское утверждение, они риторические, они предназначены для того, чтобы он увеличил свою электоральную базу в Болгарии. Но когда вот идёт к моменту практических решений, прагматических решений, он следует по тем же самым линиям, которые Евросоюз и которые НАТО считает правильным.

Да. Ну вот ситуации, при которой Министр иностранных дел при Радеве выходит с заседание Европейского Союза и звонит Лаврову и получает поручение от какого-нибудь российского олигарха, она невообразима. Верно я понимаю?

Она невообразима. И ещё раз можно даже взять пример, что с его Министром обороны, которого он назначил в служебном правительстве и сейчас, скорее всего, опять будет министром Обороны – это лояльный человек, который наложил в 2022-2023 годах все поставки оружия и муниции Украине. Поэтому нельзя считать, что настолько пронатовский человек, который настолько следовал этим политикам, сейчас вдруг по каким-то причинам будет плевать на свою репутацию и поменяет политику. Поэтому это очень много риторики, можно считать утешительным выигрышем для Путина. То есть, будет ещё одна страна, кроме Словакии, которая будет говорить: “Давайте будем друзьями с Россией”. Но последствий больших от этого я не ожидаю.

Да, утешительный приз такой. Я понимаю, как в Поле Чудес было ещё много лет назад. А, Христо, я хочу вас спросить в широком смысле о том, каков сейчас уровень влияния, скажем, Кремля, России, Владимира Путина в европейских странах, понижается это влияние, повышается наоборот. То есть вы один из лучших расследователей, кто именно за этим следит и, в частности, за российскими спецслужбами. Насколько динамика сейчас вас радует или наоборот огорчает?

Потеря Венгрии и Орбана, который был настолько громким мегафоном пропутинских вообще движений внутри Европы, можно считаться началом какого-то катаклизма. По крайней мере, я вижу, и даже можно сказать, что президент Трамп пытался дать свою поддержку полностью Орбану и получил в ответ значительное понижение поддержки от населения. А если посмотреть на это с тех глаз, что Трамп такую поддержку даёт и другим крайне правым и пророссийским силам внутри Европы, я думаю, что можно считать, что это тренд, который будет в пользу уменьшения таких пророссийских движений.

В Болгарии совершенно другая причина привела к этому выигрышу: это то, что была нестабильность на протяжении 3-4 лет и огромная коррупция внутри бизнеса и политической элиты. И вот президент Радев смог объединить две решающих электоральных силы: это антикоррупционная молодёжь и та часть населения, которая по каким-то причинам считает Россию своим другом. Это люди, которые никогда не были в России, не встречали даже в жизни своего русского человека. Но из-за того, что они учились в школе, что это Советский Союз нам всегда помогал, они будут всегда голосовать за Россию. Поэтому он объединил две силы, две электоральные силы, которые в других странах просто отсутствуют, намного меньше электорально. Намного меньше политической коррупции в Западной Европе, чем в Болгарии.

А как у ФСБ дела в Европе в целом?

А это отдельная тема. Давайте об этом поговорим, потому что мы сейчас готовим ещё новое расследование о том, что именно ФСБ и ГРУ делают, но можно сказать опять, что европейские страны намного лучше понимают сегодня и готовы быстрее реагировать на потенциальную угрозу, чем год назад. Поэтому ФСБ не очень хорошо. А кроме того, мы понимаем, что после нашего большого расследования о новом ФСБшном, ГРУшном отделении, которое должно было заменить старое, устаревшее и сломанное 29155 и так далее, вот эту самую новую строшилку, которая была создана, им пришлось закрывать. Так что я не могу сказать, что у ФСБ хорошие дни.

Ну, в принципе, неплохие новости. Спасибо вам большое. Христо Грозев, журналист-расследователь Der Spiegel и Insider в прямом эфире телеканала Дождь.



E pra divertir um pouco... Depois da morte do MC Catra, eis que surge a MC Kotri, rs:


sábado, 25 de abril de 2026

Parte do Donbás vai ser “Donnyland”?

No último dia 21 de abril, os jornalistas Anton Troianovski (baseado em Washington, D.C.) e Andrew E. Kramer (baseado em Kyiv) publicaram no New York Times uma reportagem intitulada “‘Donnyland’? Ucrânia propõe renomear parte do Donbás em homenagem a Trump”. A publicação original só está disponível pra assinantes, mas usei um dos burladores disponíveis e salvei em formato PDF pra então copiar o texto e traduzir. Usei o Google Tradutor e depois comparei com o original, corrigindo eventuais falhas (cada vez mais raras nessa tecnologia!) e imprimindo um estilo mais “brasileiro coloquial” e mais pessoal. Também mantive os links indicados ao longo do texto (matérias do próprio NYT), sobre as mesmas palavras do original.

A se confiar nas “pessoas familiarizadas com as negociações” citadas a cada instante, a proposta é bem engraçada, mas diz muito mais sobre a personalidade megalômana do Laranjão do que sobre os problemas enfrentados pelos ucranianos. Quem acompanha fontes minimamente confiáveis, por exemplo, sabe que a cidade caucasiana de Tuaps, na Rússia, está virando uma “nova Chornobyl” devido aos ataques às refinarias, exatamente 40 anos depois da tragédia nuclear. Ar e água contaminados, animais morrendo, lembra muito a explosão da barragem de Nova Kakhovka, não?... Mas não vou focar em atualidades, apenas aproveite a anedota:



A proposta reflete uma realidade global em que governos apelam à vaidade do presidente Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.

Quando a Polônia buscou uma base militar dos EUA em 2018, apresentou a ideia como Forte Trump.

Quando a Armênia e o Azerbaijão assinaram uma garantia de paz na Casa Branca no ano passado, batizaram a rota de transporte então criada como Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais.

Mas o caso mais improvável do nome do presidente Trump sendo emprestado a um ponto crítico geopolítico pode ser um que permaneceu fora da vista do público até agora. Nas negociações de paz na Ucrânia nos últimos meses, autoridades ucranianas sugeriram que a porção da região do Donbás pela qual a Rússia ainda luta no país poderia ser chamada de “Donnyland”.

O apelido, uma referência a “Donbás” e “Donald”, foi descrito por quatro pessoas familiarizadas com as negociações, todas falando sobre o assunto sob condição de anonimato devido ao sigilo que as envolve.

Quando um negociador ucraniano mencionou o termo pela primeira vez, em parte jocosamente, foi como parte de uma tentativa de convencer o governo Trump a resistir mais às exigências territoriais da Rússia, de acordo com três das pessoas familiarizadas com as negociações. O presidente Vladimir Putin tem prometido continuar lutando até que as forças russas alcancem uma importante fronteira administrativa no limite do Donbás, a região industrial no leste da Ucrânia onde o Kremlin iniciou a guerra em 2014.

O fato de um nome que evoca a Disneylândia ter sido aplicado a uma faixa despovoada e devastada da região ucraniana produtora de carvão e aço pode parecer chocante, visto que os combates mais mortais na Europa desde a 2.ª Guerra Mundial continuam devastando o país. Mas também reflete uma realidade global na qual os governos apelam à vaidade de Trump a fim de dispor o poderio americano a seu favor.

Pra Ucrânia, o esforço ainda não deu frutos. O termo continua sendo usado nas negociações, embora não tenha sido escrito em nenhum documento oficial. Os negociadores também aventaram a possibilidade do Conselho da Paz de Trump desempenhar um papel na administração da área, embora nem a Rússia nem a Ucrânia tenham aderido até agora, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com as negociações.

Mas a Rússia não concordou com um acordo que fosse aceitável pra Ucrânia. Isso fez com que o destino da área que os ucranianos propuseram chamar de Donnyland – com cerca de 80 km de comprimento e 65 km de largura – se tornasse um dos principais pontos de discórdia nas negociações.

As negociações com a Ucrânia prosseguiram nos bastidores nas últimas semanas, mesmo com os principais negociadores dos EUA – Steve Witkoff, amigo próximo e enviado especial de Trump, e Jared Kushner, genro do presidente – concentrados na guerra com o Irã. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse este mês que esperava que Witkoff e Kushner visitassem a Ucrânia em breve. Mas uma pessoa familiarizada com as negociações disse que os americanos ainda aguardavam progresso suficiente pra justificar tal viagem e que pretendiam também fazer outra visita à Rússia.

“A Ucrânia está avançando. Gostaria que eles pudessem se entender”, disse Trump a repórteres na semana passada. “Vamos ver o que acontece. Há coisas acontecendo lá.”

É claro que na campanha presidencial, Trump prometeu acabar com a guerra na Ucrânia em 24 horas. Já faz mais de um ano que ele e seus principais negociadores tentam forjar um acordo de paz, dedicando horas a conversas com Putin e frustrando autoridades ucranianas com a aparência de que estavam agindo como mediadores em vez de defender a Ucrânia.

A “Donnyland” foi uma das maneiras pelas quais os ucranianos tentaram fazer Trump ficar mais do lado deles. Desde que Trump se encontrou com Putin no Alasca em agosto passado, o governo Trump até sinalizou que podia apoiar um acordo de paz no qual a Ucrânia se retirasse pra fronteira administrativa da região de Donetsk, uma das províncias do Donbás – medida que os críticos viram como uma concessão maior ao Kremlin.

Autoridades ucranianas afirmam que cerca de 190 mil pessoas vivem nesse território atualmente. Outras pessoas próximas às negociações dizem que o número real pode ser cerca de metade disso. A região fica tão perto da linha de frente que a principal rodovia de acesso está coberta por redes de proteção contra drones explosivos russos.

Pouco restou da economia local além de uma mina de carvão em operação e comércios que atendem os soldados baseados na área, incluindo lojas que vendem balões e flores pros soldados comprarem às esposas ou namoradas que os visitam.

A Ucrânia insiste que pode defender essa área e que não vai entregá-la. Mas em dezembro, Zelensky sinalizou estar aberto a um compromisso que formaria uma zona desmilitarizada ou uma zona econômica livre sem o controle total de nenhuma das partes beligerantes.

Os ucranianos consideraram, mas não endossaram, propostas pra um administrador neutro ou órgão governamental que teria representantes russos e ucranianos, contanto que a Rússia não pudesse reivindicar o território após a guerra.

O Kremlin afirmou que a Rússia poderia estar aberta à formação de uma zona desmilitarizada se a polícia russa ou soldados da guarda nacional tivessem permissão pra patrulhá-la – medida inaceitável pra Kyiv.

A Ucrânia queria que o governo Trump pressionasse Moscou pra suavizar ainda mais sua posição. Os negociadores ucranianos passaram a chamar a zona proposta de Donnyland, uma área que não seria totalmente controlada por nenhum dos lados e considerada uma conquista pra Trump.

Samuel Charap, cientista político do think tank RAND Corporation que acompanhou as negociações de perto, argumentou que tanto Moscou quanto Kyiv têm mostrado certa flexibilidade quanto ao futuro dessa parte do Donbás ainda controlada pela Ucrânia.

Pra Ucrânia, uma preocupação fundamental é o risco de ceder esse território junto com as fortificações aí construídas e, assim, acabar facilitando uma futura renovação da invasão russa. Charap disse que a Ucrânia parecia ver um benefício de segurança em ter o nome de Trump associado à área.

“Acho que provavelmente eles considerariam ter a chancela de Trump numa zona econômica livre como uma espécie de dissuasão”, disse Charap, referindo-se à Ucrânia.

Outra sugestão foi chamar o acordo pós-guerra de “modelo de Mônaco”, referência à cidade-Estado no Mediterrâneo francês. Assim como Donnyland, tratava-se de um possível mini-Estado semiautônomo que desfrutaria do estatuto de zona econômica offshore. A expressão “modelo de Mônaco” apareceu em rascunhos de tratados, enquanto Donnyland só surgiu em discussões, de acordo com uma pessoa com conhecimento direto das estratégias ucranianas de negociação.

Mas as negociações travaram no final de fevereiro devido à questão territorial, justamente quando a guerra com o Irã distraiu a equipe de negociação dos EUA. Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, disse que o país aceitaria apenas o controle legal total do Donbás. E Zelensky minimizou as perspectivas de trocar território por paz, dizendo que fazê-lo seria um “grande erro”.

Desde então, Rússia e Ucrânia não cederam quanto ao controle do território, mesmo que as negociações sobre outras questões continuassem, incluindo os compromissos dos EUA em garantir a segurança da Ucrânia após a guerra, de acordo com pessoas familiarizadas com as negociações.

Um negociador ucraniano até criou pelo ChatGPT uma bandeira pra Donnyland – nas cores verde e dourado – e um hino nacional, disse a pessoa que conhece as estratégias ucranianas de negociação. Não está claro se o lado americano chegou a vê-los.



Até os autores tiveram de dizer que a imagem foi feita por IA, rs.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Leozinho e Chiquinho falando português

Há quem diga que o papa polonês João Paulo 2.º não era poliglota, mas apenas (cito de memória) “decorava e exibia algumas frases”. A opinião é suspeita, pois há muitos anos eu era inscrito numa lista de e-mails de uma falecido professor universitário aposentado “anti-imperialista” (leia-se pró-Putin, embora ele não declarasse), materialista e que expressou essa ideia, embora eu prefira não citar seu nome. Mas a verdade é que o bispo Karoł Wojtyła estudava, sim, vários dos idiomas em que se expressava, inclusive o português, que teria aprendido com um cardeal na década de 1970. Prova de seu relativo domínio são as várias visitas que fez ao Brasil durante seu pontificado, em que falava – inclusive com repórteres – ou discursava sem ler nenhum papel. Realmente, é muito rancor pra pouco acadêmico...

Isso fez com que no imaginário popular, o “João de Deus” (não o abusador de Abadiânia!) ficasse associado à figura de um poliglota. Dessa forma, seria redundante republicar aqui qualquer vídeo seu falando português. Seja como for, esse não parece ter sido o caso de seus sucessores alemão (Bento 16), argentino (Francisco) e americano (Leão 14). Pros dois últimos pontífices, temos registros de discursos seus completos na língua de Camões e de Machado, ainda que a pronúncia pareça ter sido aprendida em seu básico. Mas creio que apenas o bispo Robert Prevost realmente tenha estudado alguns idiomas, pois o bispo Jorge Bergoglio se recusava a rezar missa em inglês até mesmo nos EUA.

O que quero lhes trazer aqui hoje são dois discursos completos em português, apenas com o vídeo (cujos trechos cortei das publicações originais) e sem as transcrições, do papa Francisco no Brasil, em 28 de julho de 2013 (pouco depois de assumir e por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro), e do papa Leão 14 em Angola, em 18 de abril de 2026 (recebido por autoridades na capital Luanda).

Um fato curioso sobre a estadia do argentino em nosso país é que eu vi a despedida, na data mencionada, ao vivo pela TV Globo e a tinha até hoje na recordação, mas só alguns dias atrás resolvi procurar o vídeo no YouTube. Achei no canal da televisão estatal, e duas coisas chamam a atenção: a presença do então “vice-presidente decorativo” Michel Temer no lugar da titular Dilma Rousseff e a rara execução instrumental completa da Marcha Pontifícia, o hino não oficial do Vaticano. Mais engraçado ainda é ver o Vampirão Maçom com as mãos entrelaçadas como se fosse o Drácula, sem que suspeitássemos da iminente vinda do “gópi de 16”, rs.





Pra sua diversão e prazer, também separadas, seguem abaixo as execuções instrumentais da Marcha Pontifícia e do Hino Nacional Brasileiro em 2013, que quase fizeram o “Papa Chico” dormir em pé, apesar dos gritos histéricos da multidão que cantava frases estranhas:




sábado, 18 de abril de 2026

“Dansons” (Céline Dion, lançamento 2026)

Após uma pausa na carreira pra tratar de uma doença que prejudicou sua voz, a cantora canadense Céline Dion lançou ontem, 17 de abril, a canção Dansons (Dancemos ou Vamos dançar) em formato single, em suas plataformas digitais. Mais adiante, incorporei diretamente o vídeo oficial (clipe) no YouTube, que tem também as legendas em francês. Por essa razão, segue abaixo apenas minha tradução pro português, sem o texto original.

Dansons foi composta pelo cantor, compositor e letrista francês Jean-Jacques Goldman (nascido em Paris em 1951), que também foi um dos responsáveis pela produção e arranjos e já colaborou outras vezes com Dion. O clipe ficou ainda mais bonito com a participação de casais anônimos de diversos tipos, dançando ao ar livre, ideia que está no cerne da letra. Por isso, dedico esta publicação a você que está estressado com o mundo atual (guerras, redes sociais, extremismo, preconceito, incivilidade) e precisa “balançar” um pouco, rs.

Tirei a letra em francês da descrição do próprio vídeo do YouTube, mas a diagramação está um pouco estranha, o que dificulta o entendimento: ora há pontuação final, ora não há; ora os versos começam com letra maiúscula, ora com minúscula. Por isso, tomei a liberdade não só de uniformizar a redação nesse aspecto, mas também, por vezes, de inverter a ordem dos versos pra facilitar a compreensão de quem lê a tradução.

Minha opção mais explícita foi por não usar a 1.ª pessoa do plural do presente do subjuntivo (“dancemos”, “flutuemos”, o que dá um ar meio de igreja: “oremos”, “louvemos”...) e substituir pela locução “vamos + infinitivo”, típica de nossa linguagem oral. Ambas estão certas, mas sempre opto pela naturalidade. Em alguns pontos, a linguagem é figurada ou claramente idiomática, portanto, pesquisei muito ao traduzir, mas sei que pode não ter ficado perfeito. Sinta-se livre pra propor outras opções nos comentários:


Vamos dançar, por cima dos abismos,
Nas cristas dos cumes,
E vamos deixar as baixadas,
Vamos voar, vamos valsear.

Vamos dançar, enquanto o mundo vacila,
Com nossos corpos enredados
A um passo, a um fio [de distância],
Nossas mãos atadas.

Pra esquecermos nossas mágoas,
Que nada nos detenha,
Nos detenha.

Vamos dançar, por cima dos grandes vazios,
Que nossa respiração nos guie,
Os corpos em uníssono,
Que toquem os violinos.

Vamos dançar, tem baile esta noite
Em meio às estrelas,
Doce encontro
Dirigido a nós e contra nós.

Vamos flutuar, testa com testa,
Flocos, sobre o horizonte,
Flocos, sobre o horizonte.

Vamos dançar, pra nos pormos e ficarmos retos,
Porque é uma obrigação
Pra todos os que não se mexem
E que não têm voz nem lei,
Porque é inútil,
Porque você e eu,
Nossos rostos, nossos braços,
Apesar de tudo, já que
Só se pode dançar de pé.

Vamos dançar, inventar nossas vertigens
Antes de ficarmos parados:
Um idílio, uma ilha
Em meio a um universo hostil.

Vamos dançar, por cima dos abismos,
Nas cristas dos cumes,
Vamos girar, porque o mundo
Não está mais dando voltas
[i.e. Não está mais funcionando].



quinta-feira, 16 de abril de 2026

FARMAR AURA


Hoje começamos com o alto astral dessa moçada bacana e pé-quente rumo ao Équiça, expressando meus votos pra essa Copa de Vinte e Seis, rs. Mas o assunto principal é outro: há uns dias, o portal Jeum lançou uma interessante matéria sobre “farmar aura”, uma gíria das gerações Z (nascida a partir de 1996) e alfa (nascida a partir de 2010 – haja alfabeto pra tanto capirotinho!) que eu mesmo, obviamente, não conhecia. Só cheguei no “tankar” e olhe lá:


Eles só se esqueceram de dizer que já entre 2004 e 2014, quando o computador de mesa ainda dominava sobre os smartphones, o povo já “farmava aura” no Orkut com as famosas pontuações de carinha (simpático), gelo (legal, ou seja, cool) e coração (atraente):


Esta publicação teve o patrocínio da Charcutaria Beirute. Frios, embutidos e tudo pro seu lanche com o Chico Anysio levantino, rs:


domingo, 12 de abril de 2026

Viktor Orbán admite derrota a Péter Magyar

Reaparecendo aqui pra tentar cobrir o que parece ser um evento histórico, rs. Hoje, 12 de abril de 2026, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, de extrema-direita e amiguinho de Bolsonaro, Trump e Putin, admitiu sua derrota pro dissidente do partido de centro-direita Tisza, Péter Magyar, mais conhecido como Pedro Húngaro ou, pros íntimos, Pepê Gulache. Em ato inusual pra um líder reputado autoritário, Orbán reconheceu a derrota avassaladora e publicou há pouco mais de uma hora o seguinte discurso em seu YouTube oficial.

Consegui fazer esta transcrição (cuja qualidade não pude verificar) usando uma ferramenta de IA voltada pra plataforma do Google no site Maestra.ai e joguei o resultado no Tradutor do mesmo Google. Como tá difícil achar até mesmo uma transcrição original, decidi botar o resultado pra documentação, enquanto revisei levemente a redação, mas não o significado, da tradução.



Boa noite a todos, meus queridos amigos. O resultado das eleições, embora ainda não esteja completo, é compreensível e claro. O resultado é doloroso para nós, mas é claro. A responsabilidade e a oportunidade de governar não nos foram concedidas. Parabéns ao partido vencedor e agradeço o enorme trabalho realizado. Nunca trabalhamos tanto, nem em nenhuma campanha eleitoral. Isso transparece, pois conseguimos reunir 2,5 milhões de eleitores; 2,5 milhões de pessoas confiaram em nós hoje também. Meus queridos amigos, gostaria de agradecer especialmente pelo apoio esmagador que recebemos do outro lado da fronteira, e enviamos uma mensagem a todos que podem contar conosco no futuro. Meus queridos amigos, não sabemos agora o que este resultado significa para o destino do nosso país e da nação, e qual o seu significado mais profundo ou elevado; só o tempo vai dizer. Mas, independentemente do resultado, nós, como oposição, vamos servir a nosso país e à nação húngara. Meus queridos amigos, a tarefa que temos pela frente é clara. O peso da governança não está sobre nossos ombros, então agora é nossa missão fortalecer nossas comunidades. 2,5 milhões de eleitores confiaram em nós. Vamos lhes enviar uma mensagem daqui. Jamais vamos os decepcionar. E talvez, talvez eu não devesse dizer isso, porque estamos juntos aqui há mais de 30 anos. Vivemos anos difíceis e fáceis, anos belos e tristes, mas uma coisa todos nesta sala e em todo o país sabem: jamais, jamais, jamais, jamais desistiremos. Os dias que se aproximam ainda são para curar feridas, mas então o trabalho vai recomeçar, e neste trabalho conto com todos vocês, todos os nossos 2,5 milhões de eleitores. Senhoras e senhores! Desejo a todos muita força, saúde e noites mais belas do que a de hoje. Que Deus nos abençoe a todos, e a Hungria acima de tudo. Força, Hungria! Força, húngaros! Muito obrigado. Obrigado por tudo! Boa noite a todos!

Jó estét kívánok mindenkinek, kedves barátaim, a választási eredmény, bár még nem teljes, de érthető és világos. A választási eredmény számunkra fájdalmas, de egyértelmű. A kormányzás felelősségét és lehetőségét nem nekünk adták. A győztes pártnak gratuláltam nektek, önöknek köszönöm a rengeteg munkát. Soha ennyien és soha ennyit nem dolgoztunk egyetlen választási kampányban sem. Van is ennek látszatja hisen két és fél millió szavazót sikerült összegyűjtenünk két és fél millió ember bízott bennünk a mai napon is. Kedves barátaim, hogy a különösen is, különösen is köszönöm a határon túl érkezett elsöprő erejű támogatást, és üzenjük a határon túlra, hogy ránk a jövőben is számíthatnak. Kedves barátaim, hogy a hazánk és a nemzet sorsa számára ez a ma esti választási eredmény mit jelent, és mi ennek a mélyebb vagy magasabb értelme, azt most nem tudjuk, ezt majd az idő eldönti. De akárhogyan is alakult, mi ellenzékből is a hazánkat és a magyar nemzetet fogjuk szolgálni. Kedves barátaim, a feladat, amely előttünk áll, világos. A kormányzás súlya nem nyomja a válunkat, ezért most az a dolgunk, hogy a közösségeinket megerősítsük. 2 500 000 szavazó bízott bennünk. Üzenjük meg nekik innen. Soha nem fogjuk őket cserben hagyni. És talán és talán mondanom sem kellene, hiszen több mint 30 éve vagyunk itt együtt. Élt már meg nehéz és könnyű, szép és szomorú éveket, de egy dolgot mindenki tudhat itt ebben a teremben és az egész országban. Mi nem adjuk fel soha, soha, soha, de soha nem adjuk fel. Ezek a napok, amelyek előttünk állnak, még a sebek gyógyításáról szólnak, de aztán újra indul a munka, és ebben a munkában mindenkire, mindannyiotokra, mind a 2 500 000 szavazónkra számítok. Tisztelt hölgyeim és uraim! Mindannyiuknak sok erőt, jó egészséget, és a maiál szebb estéket kívánok a jó Isten mindannyiunk fölött, Magyarország mindenek előtt. Hajrá Magyarország! Hajrá magyarok! Köszönöm szépen. Köszön minden! Jó éjszakát mindenkinek!



Reportagem do Fantástico de hoje (TV Globo, 4 min) sobre a vitória de Péter Magyar (Tisza) e a derrota de Viktor Orbán (Fidesz):