sábado, 19 de setembro de 2026

Memória dos comunistas no Brasil, 1922-60


    Este texto em formato de ensaio foi inicialmente destinado à publicação nos anais de um encontro periódico do Centro de Memória da Unicamp (CMU), ocorrido no final de julho de 2026 e no qual eu devia, num dos grupos de trabalho, fazer uma apresentação oral sobre o tema proposto. O título completo é “A memória dos comunistas no Brasil e as operações de lembrança/esquecimento no PCB (1922-1960)”, e meu objetivo era relacionar, de modo meio superficial, as operações de “lembrança” e “esquecimento” voluntários sobre fatos e pessoas nos países e partidos comunistas, em particular no Partido Comunista Brasileiro, a algumas reflexões dos historiadores Aleida Assmann e Pierre Nora. Porém, como não pude comparecer ao evento, o “oral” ficou na vontade e o artigo foi literalmente pros “anais”, ou seja, esta página, rs. Não sei se o CMU vai publicá-lo oficialmente, mas seja como for, ei-lo na íntegra:


Resumo: Inaugurado pela Revolução Socialista de Outubro na Rússia imperial, em novembro de 1917, sob a liderança de Vladimir Ulianov (Lenin), o movimento comunista internacional apresentou uma peculiaridade em relação a outras ideologias, regimes e partidos políticos, a saber, a dependência em modelar as representações sobre si mesmo, a constante mudança nas narrativas oficiais e a cisão radical entre passado e presente. O Partido Comunista do Brasil (PCB), tendo surgido em março de 1922 sob o influxo das notícias a respeito do triunfo dos bolcheviques sobre a monarquia tsarista, moldou-se conforme os mesmos procedimentos e sofreu diversas reviravoltas influenciadas, de acréscimo, pelas próprias lutas internas e pela conjuntura nacional. Muito já se escreveu e se pesquisou sobre a história propriamente programática e organizativa do PCB e, com menor frequência, sobre os detalhes de suas ligações materiais e institucionais com a Internacional Comunista (Comintern) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), mas o mecanismo que levava a viradas discursivas tão bruscas constitui um filão a se explorar. Inspirada em escritos clássicos de Pierre Nora e Aleida Assmann, esta comunicação traz as “operações da memória” como um possível ponto de partida nesse sentido, considerando-se a interação dialética entre a “lembrança” dos momentos de glória e o “esquecimento” das derrotas e dos militantes caídos em desgraça.
Palavras-chave: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas; Partido Comunista do Brasil (PCB); operações da memória.


A instauração do regime bolchevista na Rússia em 1917-18 e a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922 no espaço do antigo império tsarista representou, na mente de seus promotores, um corte brusco com o passado capitalista e plutocrático predominante no resto do mundo e a abertura de novas possibilidades para forjar uma “nova humanidade” no bojo de uma economia socialista. Desde o triunfo de Vladimir Lenin e de seus partidários, a criação de uma narrativa histórica representando a monarquia pretérita como um ambiente retrógrado, opressivo e irracional e a “ditadura do proletariado” em construção como o apogeu da ideologia marxista e o início do domínio das classes trabalhadoras sobre os meios de produção e sobre a organização política deixou uma rica literatura e se tornou o dogma do partido comunista agora único.

Enquanto a dura realidade dos tempos da guerra civil e dos anos de privações legavam um cenário distante do ideal pretendido e a gradual ascensão de Iosif Stalin e seu grupo a partir da morte de Lenin (1924) até 1929 tolhia os “velhos bolcheviques” tanto dos cargos no Estado quanto do registro oficial dos heróis, a conquista do poder transformou-se rapidamente em conquistas de corações e mentes no país e no exterior. Essa verdadeira “operação de lembrança/esquecimento” empreendida pelo Kremlin teve como objetivo principal a formação de um discurso bem articulado sobre a história da construção do Estado soviético e a tentativa de controle absoluto sobre sua representação interna e externa, em um esforço obsessivo que provavelmente não teve precedentes em outros regimes, mas faria escola nos séculos 20 e 21.

Com a criação da Internacional Comunista (Comintern, ou 3.ª Internacional) em 1919, buscou-se coordenar a partir de um único centro a plêiade de grupos e partidos que começavam a abandonar a herança social-democrata ou simplesmente surgiam do zero em apoio à revolução proletária na Rússia e à ideologia leninista. O novo organismo valeu-se de seus congressos mundiais para popularizar as “conquistas” do regime e moldar a organização dos membros conforme a mesma “operação da memória” realizada na URSS, isto é, uma rigorosa supervisão sobre a escrita da história do movimento comunista em cada país e a transmissão, de cima para baixo, do que os partidos comunistas deveriam relatar sobre as realizações de Stalin aos públicos nacionais. Mais do que o procedimento em si, chamam a atenção as viradas bruscas da narrativa dominante e a necessidade de racionalizá-las junto ao povo soviético e, parte mais difícil, junto aos militantes estrangeiros, que, embora pouco soubessem da realidade cotidiana sob o socialismo, possuíam outra vivência com a qual comparar a “Vulgata” padronizada.

Assim, em sequência, inúmeras viradas, algumas de 180 graus, e resoluções em aparente contradição com a doutrina marxista tomaram tempo e energia enormes na criação de representações convincentes: a política de apoio às forças antifascistas no Ocidente após o combate à social-democracia (1935), os “grandes expurgos” de 1936-38, o pacto de não agressão com a Alemanha nazista (1939), a guerra de defesa nacional (1941), a dissolução da Comintern “na canetada” (1943), o grande pacto com as potências capitalistas (1944-45), a transformação da zona soviética de influência na Europa Central e Meridional em satélites autoritários (1948) e a invasão da Coreia do Sul por Kim Il-sung (1950). E a lista se limita ao período anterior à morte de Stalin (1953), pois o tratamento sinuoso da memória não mudou bruscamente sob o comando de Nikita Khruschov (1953-1964): “coexistência pacífica” com o mundo capitalista, denúncia aberta dos crimes do stalinismo (1956), repressão sangrenta da revolta na Hungria (1956), a “crise dos mísseis” que minou a credibilidade de Khruschov no PC soviético (1962) e a ruptura com a China maoista (década de 1960) – tudo envolto pela mística criada em torno das primeiras vitórias diante dos EUA na “corrida espacial”.

Surgido em 1922 em um meio político, cultural e operário sem um sólido movimento marxista prévio, inicialmente animado por intelectuais, profissionais liberais e poucos operários, o Partido Comunista do Brasil (PCB – a partir de 1961, Partido Comunista Brasileiro) reuniria espontaneamente os simpatizantes nacionais da revolução bolchevique e mimetizaria os passos de Lenin e Stalin, começando por sua adesão à Comintern em 1924. Desde o início, expiar o passado, demarcar-se dos inimigos, explicitar as profissões de fé e tratar os debates políticos-ideológicos, basicamente, como uma questão de “sim ou não”, foram escolhas que condicionaram seu combate aos anarquistas, a precoce expulsão do “pró-maçom” Antonio Bernardo Canellas, a cisão de Joaquim Barbosa contra a instrumentalização dos sindicatos (1928), a rejeição das insurreições militares daquela década e, a partir de 1929, a renegação da geração de fundadores (notadamente Astrojildo Pereira e Octavio Brandão) varrida pela “stalinização” incondicional do movimento. A partir de 1930, a despeito das tratativas em curso na cúpula da Comintern, o Capitão Luiz Carlos Prestes e o “prestismo” tornaram-se a encarnação do “radicalismo pequeno-burguês”, e a rejeição ao golpe da Aliança Liberal, conjugada com a intervenção dos enviados de Moscou no Comitê Central, ajudou o PCB a forjar uma identidade própria, contraposta às outras esquerdas, e isolou-o do cenário político nos poucos anos seguintes.

Cada virada tática da Comintern que o PCB procurava seguir, inclusive por intermédio do Secretariado Latino-Americano (SLA/IC) sediado em Moscou e do Secretariado ou Birô Sul-Americano (SSA/IC, BSA/IC), era acompanhada de uma “releitura” da história partidária mais recente e de um requisitório apontando os novos “inimigos” que teriam induzido os comunistas a erro. Assim, as lutas intestinas dilaceraram o partido na primeira metade da década de 1930; a social-democracia (ou o que quer que se achasse de mais semelhante a ela no Brasil) passou a ser o inimigo principal; redimido do “prestismo”, leia-se “stalinizado”, Prestes foi admitido – e imposto – como o mais novo florão do bolchevismo tropical; a tática de “frentes populares” por meio da Aliança Nacional Libertadora (ANL) trouxe o fascismo – no caso, o integralismo – de volta à mira; após o quase desaparecimento do PCB sob o Estado Novo, a 2.ª Guerra Mundial e a aliança entre a URSS e o Ocidente democrático impeliram à “união nacional” em torno do outrora execrado Getúlio Vargas. Ressignificações que culminaram na legalidade e sucesso eleitoral inéditos de 1945 a 1947, quando a “luta de classes” passou a segundo plano, apenas para chegar a nova clandestinidade sob Eurico Dutra com a eclosão da “guerra fria” e o alinhamento brasileiro com os EUA.

A memória sobre os feitos passados e as realizações presentes sempre foi a maior vítima das bruscas oscilações do PCB entre radicalismo e moderação, tão criticadas por observadores internos e externos. A linha ultraesquerdista do “Manifesto de Agosto” (1950) não trouxe mais frutos do que a recepção acrítica dos mais diversos elementos e a baixa da guarda perante as autoridades no quinquênio anterior, e a passagem imediata dos ataques a Vargas enquanto presidente constitucional para a tentativa de capitalizar sua popularidade após o suicídio (1954) expôs o improviso reativo da cúpula partidária. Em 1956, os impulsos sucessivos do degelo político promovido por Juscelino Kubitschek e da recepção e deglutição desastradas do “relatório secreto” de Khruschov escancararam ainda mais a não antecipação das brechas de abertura: Diógenes Arruda, controlador do aparelho do PCB e de sua linha ideológica, tornou-se o “bode expiatório” de todos os males derivados do isolamento que teria imposto a um Prestes ainda na mira da Justiça; vários militantes fiéis subitamente renegaram o comunismo aos quatro ventos e transmutaram-se em “democratas” e “antistalinistas”, deixando as fileiras para buscar um marxismo “renovado” e organizar-se de modo “não burocrático”. Foi apenas o primeiro capítulo de uma disputa interna em que Prestes, privado ante as novas gerações de sua velha aura de “Cavaleiro da Esperança”, perdeu o controle sobre outros dirigentes e em que o gradual declínio do prestígio da URSS e a atração exercida pelos modelos das “guerrilhas” e das lutas anticoloniais impuseram novos desafios ideológicos.

Esta comunicação tem por objetivo analisar parte da história do PCB sob a ótica do que, nos rastros de Pierre Nora (NORA, 1984) e Aleida Assmann (ASSMANN, 1999), poderiam chamar-se “operações da memória” (CHARTIER, 2021) dentro de uma dialética de lembrança dos momentos considerados fortes na trajetória partidária e, sobretudo, de esquecimento – mais semelhante a um apagamento seletivo e sistemático – dos “erros” passados, das figuras caídas em desgraça e de outros aspectos em evidente contradição com um presente expurgado e autojustificado. Tendo sido já muito estudadas a própria história institucional do partido e as mudanças táticas conforme as viradas na Internacional Comunista, na URSS e na conjuntura política brasileira, constituem interessante objeto passível de estudo próprio os mecanismos que visavam legitimar essas mudanças por meio de representações e rótulos, a velocidade com que se processavam as transformações e a abundância simbólica deixada pelos comunistas em forma de textos e imagens. À maneira do regime soviético, cuja legitimação simbólica era tão ou mais importante do que sua aprovação pelas realizações e pelos benefícios sentidos pelo povo, os partidos comunistas mimetizaram, durante e depois da existência da Comintern, as mesmas “operações da memória” para criarem a imagem que queriam ter de si próprios e dividirem o mundo entre “mocinhos” e “bandidos”, categorias facilmente intertransitáveis.

O jurista e revolucionário marxista (social-democrata) russo Vladimir Ulianov (1870-1924), no mais das vezes escrevendo sob o pseudônimo “Nikolai Lenin” e passado à história como Vladimir Lenin, não poupava adjetivos e invectivas quando debatia politicamente com adversários ou mesmo aliados. Na juventude, suas leituras de Nikolai Chernyshevski, notadamente do livro Que fazer?, moldaram seu projeto exclusivista de revolução proletária – ele mesmo jamais tendo trabalhado em uma fábrica – e seu modelo de partido baseado na dedicação integral, consciência inculcada “de cima para baixo” e tomada violenta do poder. Mais do que traçar uma visão ideal de sociedade futura, seus escritos polêmicos visavam dotar a social-democracia russa de uma ideologia robusta, refutar pontos de vista que julgava errôneos e estabelecer as táticas para a ação política e revolucionária mais imediata.

Assim, fosse na Rússia imperial, fosse no exílio centro-europeu ou mesmo no país natal em convulsão social, Lenin não conhecia limites relacionados à proximidade pessoal ou à inventividade em suas representações do interlocutor: assim, o ainda menchevique Leon Trotsky teria sido chamado de “Judas” (*) durante os embates no exílio em 1911 (LENIN, 1973, p. 96), enquanto o então “papa” do movimento marxista internacional, ao criticar o rumo autoritário seguido por Moscou, foi respondido com a nada lisonjeira brochura A revolução proletária e o renegado Kautsky. E indo além, resgatou o termo empregado pelo jovem Marx e renomeou seu próprio movimento como comunista, almejando não mais somente humanizar o capitalismo ou adiar a revolução para as calendas gregas, ao contrário da “carcomida” social-democracia, mas lutar ativamente pela sociedade sem classes, pelo comunismo.

(*) A própria história desse manuscrito revela como as inúmeras reedições das Obras completas de Lenin e de Stalin durante décadas na URSS refletem a imagem que os próprios sucessores queriam deixar dos dois líderes. Datado de 1911, ele permaneceu entre os papéis pessoais de Lenin, que nunca o tinha divulgado, até 1932, quando o jornal Pravda o publicou bem em meio ao processo de eliminação de qualquer dissidência. Denominado “Sobre o enrubescimento do Iudushka Trotsky”, faz uma referência ao personagem Iudushka Golovliov, do romance A família Golovliov, publicado pelo romancista russo Mikhail Saltykov-Schedrin em 1880. Em qualquer polêmica pública na virada do século, associava-se a alcunha “Iudushka” à personalidade hipócrita e traiçoeira do personagem do livro, referência entendida pelos cultos da época, mas provavelmente não pelas bases bolcheviques da década de 1930. Portanto, a matreira publicação – perpetuada nas edições das Obras de Lenin – do manuscrito e a associação velada não a Saltykov-Schedrin, mas diretamente ao Judas bíblico, pode ter sido toda uma fabricação de Stalin. Cf. “pravda1917” (pseud. de Aleksandr Maisurian). O mito sobre o “iudushka”. Materiais. In: MAISURIAN, Aleksandr. Товарищ Троцкий [Camarada Trotsky] (blog em russo). [S. l.], 7 jul. 2014. Disponível nesta página. Acesso em: 9 abr. 2026.


Como toda revolução política, decalcada no modelo da Revolução Francesa (mais especificamente na tomada da Bastilha em 1789), os bolcheviques russos buscaram criar uma completa cisão entre o passado “feudal”, “monárquico” e “reacionário” e o presente/futuro “socialista”, “científico”, “proletário”. Não bastavam o poderio militar tsarista, a robusta industrialização incipiente, as conquistas científicas do século anterior e a relativa autossuficiência das unidades camponesas: importava, sobretudo para a propaganda externa, exorcizar o predomínio do “arado de madeira”, a tirania dos grandes proprietários de terra e o obscurantismo da monarquia ortodoxa. Pouco incomodavam o apoio logístico e financeiro do Kaiser alemão a Lenin, a acefalia que permitiu aos bolcheviques “arrombarem as portas abertas” do Palácio de Inverno, a derrota na Assembleia Constituinte – e sua posterior dissolução, que não encontra nenhuma outra justificativa –, a invasão da Polônia e a repressão cruenta do levante de Kronstadt. O “golpe de outubro” recebeu massivo apoio operário, o “poder soviético” tirou a Rússia da “guerra interimperialista”, a supressão das liberdades políticas e econômicas (o “comunismo de guerra”) justificava-se pelo cerco internacional e pelas tentativas de restauração e a manutenção dos povos eslavos orientais e não eslavos no mesmo território do antigo império foi “voluntária”, apesar da persistente centralidade russa. De episódios cuidadosamente selecionados e articulados, era um discurso voltado especialmente a jogar mais lenha na fogueira revolucionária da Europa destruída pela guerra mundial e tirar a “fortaleza sitiada” do isolamento.

A guerra civil, bem como a má gestão da economia, provocou no início da década de 1920 a primeira grande fome entre os camponeses, e rapidamente campanhas em prol dos “famintos do Volga” comoveram o Ocidente, com destaque para o trabalho de propaganda do empresário e milionário comunista alemão Willi Münzenberg e citada inclusive como moção na ordem do dia da sessão que fundou o PCB. A solidariedade nos meios intelectuais e progressistas foi suficiente para obnubilar as requisições necessárias para alimentar a frente de batalha e as cidades necessitadas – traindo, assim, as promessas de redistribuição da terra feitas aos camponeses – e as execuções sumárias de quem se recusasse pela Cheká, embrião do NKVD e, depois, do KGB.

Com o fim da insurreição europeia e a crescente debilidade física de Lenin, o massivo exílio forçado de pensadores dissidentes e o relativo recuo da “nova política econômica” (NEP) não abalaram a fé dos novos comunistas ao redor do mundo, facilmente propensos a aceitar cegamente a narrativa de Moscou e sem ligações físicas ou pessoais com a Rússia/URSS, de forma que o hoje chamado “viés de confirmação” sobrepunha-se à verificação fatual. A partir daí, uma estratégia que faria escola durante o século 20 trabalhou essa “operação da lembrança” não somente entre militantes, mas também entre os “companheiros de viagem” simpatizantes: as viagens programadas e enquadradas pelas autoridades (TÔRRES, 2013), com total protagonismo das realizações reais ou imaginadas do “poder soviético” e mínimo contato direto com a população comum.

Em meio à ritualização dos funerais de Lenin promovida por Stalin e à transformação dos escritos de ambos em teoria canônica, renegando todos os teóricos pretéritos (exceto, claro, Marx e Engels) e engessando os futuros, a Comintern continuou a auxiliar na fundação de partidos comunistas em outros continentes. Embora os quatro primeiros congressos vivessem um clima de considerável debate, a partir de 1925 a opção pela chamada “bolchevização” representou uma política de decalque da organização soviética, sem a possibilidade antes aventada de adequar o “leninismo” a cada realidade local. Assim, a Internacional tornou-se progressivamente uma mera correia de transmissão da tática staliniana, tratando os partidos como simples “seções”, em contraste com a autonomia desfrutada na Segunda Internacional social-democrata, e facilitando seu uso como arma de influência e propaganda ideológicas, de fato uma verdadeira “diplomacia paralela” concorrente com o próprio Ministério do Exterior soviético.

A prática da autocrítica, que Lenin recomendava a todo comunista, acabou tornando-se um instrumento de poder dos dirigentes partidários sobre suas bases e do PC da URSS sobre todos os outros membros da Comintern: líderes e precursores estavam sempre certos, portanto, eles exigiam dos demais uma verdadeira expiação ritual pública, impondo-lhes de fato as próprias viragens teóricas e “esquecimentos” deliberados. Na década de 1930, quando Stalin já detinha o poder absoluto em Moscou, tomaram uma forma brutal a marginalização de seus opositores políticos, a justificação das políticas de coletivização agrícola forçada e aceleração industrial – ambas com altos custos humanos –, a exigência de alinhamento incondicional e o desmantelamento de avanços societários que haviam imprimido uma fachada de progresso à década anterior.

Assim como Stalin não precisava justificar-se perante seu próprio povo, os comunistas no exterior deviam racionalizar como pudessem as incontáveis mudanças na política exterior soviética, e nesse carrossel a Comintern perdia gradualmente sua importância, pois os “enviados plenipotenciários” já eram expedidos in loco para garantir nos partidos mais importantes a aplicação da política vigente, ou seja, a fidelidade acrítica. Após o 5.º Congresso Mundial em 1924, o sexto só se reuniria em 1928, e o sétimo e último em 1935, quando subitamente a ordem do conclave anterior de aplicar o golpe principal na social-democracia foi substituída pela diretiva de aliar o máximo possível de forças progressistas visando combater o nazismo e o fascismo. É verdade que o isolamento autoimposto pelos comunistas tornou-lhes vulneráveis à repressão de regimes cada vez mais reacionários, mas ainda assim era difícil “desradicalizar” as mentes educadas sob o exclusivismo stalinista.

Enquanto em países com pujantes movimentos antifascistas, como a França e o Brasil, as “frentes populares” conservaram seu apelo mesmo após o chamado “pacto Molotov-Ribbentrop” de não agressão entre a Alemanha e a URSS, a proibição repentina de condenar Adolf Hitler e Benito Mussolini desorientou em definitivo muitos militantes. Ao mesmo tempo, os estrangeiros trabalhando para a Comintern viram-se engolidos pelo turbilhão dos “grandes expurgos” de 1936-38, em que os “velhos bolcheviques” tornaram-se “inimigos a soldo do exterior” e foram condenados pelo mero dissenso ou por crimes inventados. Jamais na história se pôde imaginar tantas mudanças de narrativa em um regime político, passíveis de pôr em risco a vida de cidadãos comuns da noite para o dia e que também concerniam a grupos externos que se arrogaram a missão de “fazer como na Rússia”, mas não tinham tempo de internalizar as mudanças de humor na “pátria do socialismo” sobre o que eram o bem e o mal.

Para quem não engoliu a pílula do retorno ao radicalismo vigente, em tese, de 1928 a 1935, não foi difícil entender a invasão alemã à URSS em 1941 – embora a expansão moscovita na Finlândia, nos Bálticos e na Polônia tenha sido rapidamente “esquecida”, isso quando foi realmente conhecida, omissão que predomina até hoje – e o combate de vida ou morte contra o Eixo. Porém, mais desafiador foi explicar a aliança de Stalin com as grandes potências capitalistas e imperiais, contra as quais ele imprecava desde a Revolução de Outubro e que ele responsabilizava por ambas as guerras mundiais, mas que o ajudariam incondicionalmente a derrotar Hitler em 1945. Embora alguns comunistas, incluindo alguns brasileiros e com o PC dos EUA de Earl Browder à frente, julgassem a própria existência de seus partidos “injustificável” perante a nova conjuntura internacional, a eclosão da “guerra fria” em 1947 frustrou todas as expectativas quanto a uma convivência harmoniosa entre regimes capitalistas e socialistas.

O afastamento dos comunistas da vida política ou mesmo sua criminalização em muitas nações ocidentais, após vitórias eleitorais inéditas que capitalizaram a vitória soviética e inclusive sua entrada em efêmeros “governos de união nacional”, muitas vezes levou novamente a uma radicalização que somente comprovava a dificuldade da extrema-esquerda em criar uma narrativa coerente e duradoura. Mais ziguezagues comprovam como as “operações da memória”, por mais insidiosas que fossem, convenciam cada vez menos os espíritos mais esclarecidos: da nova onda de repressões na década de 1950 – interrompida com a morte de Stalin – à abertura comandada por Georgi Malenkov e Nikita Khruschov, que iniciaram o desmantelamento do GULAG; da denúncia espetacular dos crimes stalinistas – cujos cúmplices, em sua maioria, ainda estavam vivos – à intervenção violenta na Hungria, ambos em 1956; da ruptura com a China de Mao Zedong, que criticava justamente o “revisionismo” quanto à possibilidade de coexistência pacífica entre os dois “blocos”, à cada vez maior concentração de poderes nas mãos do primeiro-secretário.

Tanto a história da URSS e do PC soviético quanto a trajetória do PCB podem ser analisadas entre os anos de 1922 e 1960 como um mesmo período internamente coerente, abarcando a consolidação do “poder soviético” e a crise do modelo estatal e governativo legado por Stalin, sob os quais a ideologia comunista também se espalhou ao redor do mundo na forma de partidos operários e produções intelectuais anticapitalistas. 1922 foi igualmente o ano de criação do PCB, que desde o início retratou-se como um salto qualitativo na organização proletária, contra um anarquismo que já estaria deixando de alcançar vitórias, embora vários de seus fundadores, entre eles Astrojildo Pereira e Octavio Brandão, tivessem começado a militância radical enquanto anarquistas. Pouco espaço na narrativa dos comunistas é dedicado aos primeiros leitores de Karl Marx no Brasil – que remontam ao fim do século 19 –, aos primeiros congressos operários no início do século 20 e aos efêmeros “partidos socialistas” fundados por intelectuais reformistas. Apesar das constantes acusações de atuarem “a soldo de Moscou” – o que o PCB nunca negou categoricamente, até porque o financiamento soviético era crucial –, o partido só foi aceito plenamente na Comintern em 1924, contrariando narrativas tanto sobre sua “implantação” a partir da URSS quanto sobre a real importância que era dada ao Brasil no processo da revolução mundial.

A adesão ao PCB era vista como um “novo nascimento”, e o comunista devia fazer tábula rasa do passado e renegar todas as suas adesões anteriores: anarquismo, catolicismo, sindicalismo, socialismo, positivismo, todos inferiores à “ciência da revolução proletária” que constituía o marxismo. Por isso mesmo, filiar-se era como trocar de família e incorporar uma nova essência, e romper ou ser expulso significaria perder todo o chão ontológico, toda a orientação existencial. Contudo, defecções e excomunhões foram muito mais comuns do que o desejado e chegaram a fazer parte da rotina partidária e dos pavores cotidianos de cada militante. Antonio Bernardo Canellas foi expulso ainda em 1923, quando foi responsabilizado pela não aceitação do PCB na Comintern no ano anterior, acusado de apoiar os comunistas franceses favoráveis à aceitação de maçons no movimento, algo categoricamente rejeitado por Trotsky. Em 1928, Joaquim Barbosa, um dos fundadores do partido, dirigente sindical e crítico do uso instrumental que os comunistas desejavam fazer dos sindicatos, liderou uma cisão conhecida como “Oposição Sindical”, a primeira grande saída em massa da agremiação. Por fim, acusados de não aplicarem plenamente a linha de Stalin, Astrojildo Pereira e Octavio Brandão, dois dos principais teóricos e presenças constantes em Moscou, perderam seus postos de lideranças e tiveram suas ideias oficialmente condenadas pela Comintern em 1929, mesmo período em que Leôncio Basbaum, um dos fundadores da organização juvenil, também enfrentou problemas. Todas essas figuras eram silenciadas nos relatos históricos oficiosos ou as linhas que lhes eram dedicadas justificavam a posteriori a condenação dos “erros” e do atentado à “unidade” e à “disciplina”.

A década de 1930, turbulenta no tocante à política interna brasileira, também marcou a aplicação explícita da uniformização stalinista, já em curso nos partidos da Europa, e a inconstância na formação dos organismos dirigentes. Primeiramente, já vítimas de todo um requisitório elaborado pelo PC soviético, os trotskistas revelaram-se discretamente no Brasil, até entrarem em choque completo com a direção e tentarem formar seu próprio movimento, que jamais obteria a mesma influência no país; o próprio adjetivo “trotskista” – assim como o epíteto “titoísta” a partir de 1948 – passaria a ser uma pecha lançada ao sabor das ocasiões. A seguir, “enviados plenipotenciários” vieram diretamente de Moscou, destacando-se o casal August e Inês Guralski, para reestruturar o PCB por cima dos próprios secretários-gerais, que se sucederiam aos montes no início da década, enquanto a ditadura de Vargas perseguia implacavelmente o movimento operário independente. A rotatividade só terminou quando assumiu Antônio Maciel Bonfim, partidário da coluna militar que havia percorrido o sertão na década anterior sob a liderança do Capitão Luiz Carlos Prestes, ele mesmo se encontrando na URSS para receber uma formação de líder partidário. Em um movimento discursivo típico daqueles tempos, o “prestismo” enquanto “ideologia da pequena burguesia radicalizada” e a adesão do ex-militar ao partido eram rechaçados publicamente, enquanto o “novo” Prestes stalinizado, na verdade em contato com literatura soviética desde o exílio na Bolívia, preparava-se para encarnar outros tempos: sem histórico anarquista ou socialista, com prestígio popular considerável e observando in loco a “edificação socialista”.

A Comintern, na figura do secretário Dmytró Manuilsky, literalmente impôs a filiação do “Cavaleiro da Esperança”, apesar das persistentes resistências no Brasil, a quem se devia convencer do caráter pretérito do “prestismo”, e os documentos oficiais do PCB rapidamente refletiram a mudança de opinião. Por volta de 1935, mais difícil era decidir se o país deveria passar por uma revolução violenta ou por governos radicais de transição antes de instituir o socialismo. Enquanto uma decisão não era tomada nem em Moscou, nem no Rio de Janeiro, o discurso disruptivo passou a conviver com uma prática mais flexível, imposta pelo aumento da repressão varguista, pela ascensão do integralismo e pelo surgimento da ANL (Aliança Nacional Libertadora), uma ampla frente antifascista sem distinção de classe ou ideologia. Vista como a encarnação nacional da linha de “frentes populares” da Comintern, foi animada sumamente pelos comunistas, que sequer precisaram se preocupar com uma “autocrítica” da tática anterior “errônea”. Mas o caráter ambíguo do “governo popular nacional e revolucionário” que no papel substituía a “revolução socialista” também comportou os levantes militares de novembro de 1935, ele mesmo assimilado de modos diversos: um “levante antifascista”, uma “precipitação radical” ou, para o status quo, uma “tentativa de golpe comandada diretamente da URSS”, visões essas em confronto durante todo o século 20.

A prisão de Prestes no início de 1936 proporcionou ao PCB um símbolo para seu combate à ditadura nos anos seguintes, apesar dos constantes desmantelamentos do aparelho e das sucessivas prisões de dirigentes, o que levou o partido à inexistência prática até a conferência de reorganização em 1943. Enquanto militantes como Octavio Brandão, exilado desde 1931, ajudavam a irradiar propaganda e materiais traduzidos, diretamente da “pátria dos trabalhadores”, e sofriam as agruras da invasão alemã, os comunistas brasileiros repartiam-se entre “Comitês Centrais” isolados uns dos outros, espalhados por cidades tão díspares quanto São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Realidades tão distintas quanto a vivência soviética, a prisão e a clandestinidade se chocariam no momento de reconstruir o PCB, no ocaso do Estado Novo, levando a um verdadeiro compromisso: a elevação de Prestes ao supremo posto de secretário-geral (que só assumiria com a anistia em 1945) – que também coroava o afluxo de ex-oficiais dissidentes do “tenentismo” –, a manutenção da fidelidade a Stalin – apesar das tendências “liquidacionistas” em meio à euforia dos avanços aliados – e a marginalização definitiva da “geração fundadora” em prol de dirigentes mais jovens, temperados no combate antifascista e com grande presença de nortistas e nordestinos. Nem na reorganização de 1943, nem na legalização de 1945, novamente nenhum balanço detalhado do período imediatamente anterior ou o devido reconhecimento a cada personalidade em separado.

Para o PCB, pareceu muito fácil mudar seu discurso ou sua linha oficial ao sabor da conjuntura nacional, que com a eclosão da “guerra fria” lhe foi extremamente desfavorável: afluência desordenada de afiliados e “conciliação com o capitalismo” em 1945, condenação do governo “fascista” do presidente Eurico Dutra após a cassação do registro partidário pelo TSE em 1947 e radicalismo antissistema marcado pelo “Manifesto de Agosto” em 1950 – coincidindo com o ápice do controle stalinista sobre a URSS e sobre os novos regimes europeus nela decalcados. Em cinco anos, a “colaboração” tornou-se “insurreição”, mantendo-se inexplicavelmente o arsenal teórico da extinta Comintern sobre o “etapismo” da revolução nos países “coloniais e semicoloniais”, até a vibração causada pelo nacionalismo desenvolvimentista e o clima de relativo arejamento político sob o presidente Juscelino Kubitschek suavizarem gradualmente a combatividade pecebista. Quase ao mesmo tempo (1956), o impacto do “relatório Khruschov” renegando a herança de Stalin causou um racha entre os comunistas brasileiros, mas o equilibrismo de Prestes junto a um grupo “centrista” pragmático conseguiu afugentar os mais críticos, apaziguar os mais aferrados à ortodoxia e simplesmente acompanhar os ventos de Moscou, mantendo o suporte material e a dependência ideológica. O PCB via-se obrigado a repensar-se em meio à transformação do próprio movimento comunista internacional – em que às reformas soviéticas somavam-se a ascensão chinesa e a novidade cubana – e à estabilidade geral dentro do capitalismo vigente na segunda metade da década de 1950.

No período anterior ao golpe de Estado de 1964, o 6.º Congresso do partido (1960) foi o último momento em que ocorreu uma abrangente “operação da memória”, lembrando aquilo que se julgava conveniente e esquecendo aquilo que obscurecia as vitórias. O impacto gerado pelas revoltas e reviravoltas no bloco soviético em 1956 foi absorvido como uma mera “correção de rumos” do governo Khruschov, sem uma análise global do que havia levado vários membros, sobretudos intelectuais, a deixarem o PCB nem uma tentativa de compreender o desfecho violento na Hungria – “conspiração do imperialismo” era a resposta padrão. A acolhida do “nacional-desenvolvimentismo” como linha político-econômica geral e a consequente tática sempre mais próxima do reformismo surgiram como que por inércia, sem um trabalho com as correntes mais à esquerda que persistiam – o que foi determinante no surgimento do PCdoB – nem uma avaliação realista do clima político, julgado bastante tranquilo para uma atuação menos dissimulada. Em 1961, os atos finais do período foram a mudança do nome do partido (“do Brasil” para “Brasileiro”) sem mudança de sigla, visando à legalização e a uma imagem mais “nacional”, e a expulsão dos últimos “stalinistas” e (como se autodenominavam) “antirrevisionistas”, verdadeiro recalque de tensões que Prestes e seu “núcleo dirigente” simplesmente não queriam encarar de frente.

Com esta comunicação, pretendeu-se aplicar parte das reflexões sobre a memória e as operações conscientes e inconscientes de sua manipulação teorizadas por Pierre Nora e Aleida Assmann às transformações ideológicas e ao apontamento de “heróis” e “inimigos” nas histórias da União Soviética – e, por extensão, da Internacional Comunista – e do Partido Comunista do Brasil de 1922 a 1960. Nesse espaço, era constante a tentativa de eternizar certas lembranças sobre fatos e características pessoais úteis na promoção da causa e ocultar, com maior ou menor sucesso, políticas fracassadas e críticos da direção que pudessem descreditar as ideias de Lenin e Stalin perante o público externo ou, o que exigia controle, perante o público interno. As “viradas de página” eram feitas do modo mais suave e imperceptível possível, mas não somente os observadores mais argutos percebiam as intervenções simbólicas “in the making”, como também o passado que se procurava expurgar, apagar ou formatar sempre deixava rastros reaproveitados por futuras dissidências e, sobretudo, pela historiografia acadêmica. No Brasil e na URSS, o esforço discursivo que acompanhou a luta propriamente política pela implantação de uma sociedade sem classes também foi uma forma de luta política, com seus próprios métodos, funcionários, regras e códigos, infelizmente ainda pouco estudada enquanto tal e quase sempre deixada como caudatária da rotina burocrática e das disputas pelo poder dentro dos partidos e entre eles e o mundo circundante.


Bibliografia

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Meses em ucraniano e em russo antigo


    No final de agosto, retomei o curso de ucraniano online que parei no primeiro semestre de 2025, oferecido pelo câmpus da Unicentro em Irati, PR, em colaboração com a Representação Central Ucraniano-Brasileira (RCUB). Tinha começado no nível 2, mas por já estar estudando um livro há alguns meses, voltei no nível 3, ao qual estou me adaptando bem. Em ambas as ocasiões tive como professora a atenciosa Edina Smaha, com quem trabalhamos recentemente os nomes dos meses em ucraniano e sua relação com as estações do ano.

Quem já estudou alguma língua eslava sabe como os nomes dos meses são maçantes: não somente por que em algumas línguas, como o próprio ucraniano, eles são baseados no clima e na natureza de cada tempo, e não no calendário gregoriano (como em russo, búlgaro e sérvio), mas também porque um determinado nome pode designar um mês numa língua e outro mês em outra; às vezes, há meses gregorianos enxertados no meio dos “pagãos”. Mesmo assim, é interessante como os nomes ucranianos são bastante lógicos e descrevem exatamente a meteorologia de cada período. Em relação ao russo, as estações do ano sofrem apenas pequenas alterações. A imagem acima, usada pela Edina, divide os meses conforme essas estações, e não a partir de janeiro, o que pode confundir os brasileiros.

Uma das alunas fez à mão, na folha de um caderno, um esquema com os nomes de todos os meses organizados pelas estações do ano e acompanhados de sua origem etimológica. Decidi fazer uma versão digital, o que agradou à turma e deixou material pra eu publicar na página. Nem todo material aqui está transliterado, portanto, você tem que saber cirílico pra aproveitar completamente. Seguem abaixo a figura feita a partir da tabela Word e o texto digitado, pra quem preferir; cada palavra tem também sua vogal tônica sublinhada:



Atualização: Inspirado em minha tabela, outro colega de curso fez um incremento gráfico por IA que se tornou uma verdadeira obra de arte, dividindo os meses conforme as estações do ano, mas adicionando as transliterações e ampliando os comentários!



зима = invernoгрудень = dezembro
• грудка снігу = bola de neve

січень = janeiro
• сніг січе = a neve corta/está caindo

лютий = fevereiro
• лютий сніг = neve feroz
весна = primaveraберезень = março
• береза = bétula: árvore comum na Ucrânia

квітень = abril
• квіти = flores

травень = maio
• трава = grama, relva
літо = verãoчервень = junho
• червоні ягоди = frutas/bagas vermelhas

липень = julho
• липа = tília

серпень = agosto
• серп = foice: usada no mês de colheita
осінь = outonoвересень = setembro
• верес = urze: floresce em setembro

жовтень = outubro
• жовте листя = folhas amarelas

листопад = novembro
• листя падає = as folhas caem


Na Wikipédia, achei a curiosa informação sobre nomes dos meses em russo baseados no mesmo princípio! Eles são chamados de “arcaicos” ou “protoeslavos” (i.e. baseados em raízes reconstituídas), mas suas formas variam muito de acordo com a fonte. A primeira tabela (Wikcionário em inglês) é a mais próxima do ucraniano, exceto por berezozól, cognata de bérezen, e stúden, que alude ao frio, e não a uma bola de neve. Na segunda tabela (Wikipédia em russo), ao lado das formas modernas (direita), apresentam-se o que seria “russo antigo” (esquerda).

O site de literatura em que achei a terceira tabela apresenta o que chama de “nomes dos meses no calendário eslavo antigo”. Porém, acrescenta que “Os eslavos não tinham uma representação única da ordem e nome dos meses. Existe uma ligação entre os nomes e os fenômenos da natureza característicos de cada ciclo do ano.” Da esquerda pra direita, os títulos “Russo moderno”, “Russo antigo”, “Nomes populares russos” e “Língua eslava” (talvez reconstituída):







terça-feira, 1 de setembro de 2026

Octavio Brandão ataca PC do B (1963)

    Em 28 de maio de 2015, segundo consta nos metadados dos dois arquivos de imagem que eu tinha guardados em meus backups, fotografei com a autorização do Arquivo Edgard Leuenroth da Unicamp (AEL/IFCH) o artigo datilografado “Dissidentes do PCB”, escrito por Octavio Brandão em 1.º de janeiro de 1963 e depositado no fundo que leva seu nome. Aquele ano era o segundo de meu mestrado e, assim como no doutorado, os papéis do comunista histórico brasileiro foram essenciais pra eu escrever minhas teses nos dois níveis, que tratavam das relações entre o Partido Comunista do Brasil (nome do PCB até 1961) e a Terceira Internacional (ou Comintern). Porém, por alguma razão, copiei o texto aparentemente inédito, mesmo sendo mais relacionado ao tema do TCC que defendi em fevereiro de 2012, ou seja, o impacto do “relatório Khruschov” de 1956 e da “desestalinização” soviética sobre o PCB de 1956 a 1961. Sobre este tema, já escrevi vários textos e já publiquei várias traduções aqui na página, portanto, vamos direto ao assunto.

Sem entrar no mérito teórico de sua interpretação do marxismo, mais precisamente do leninismo e da vulgata staliniana, Brandão teve uma vida venturosa antes e depois de seu ingresso no PCB. Farmacêutico de formação, o sertanejo alagoano fez vários estudos amadores sobre a geologia de seu estado e é considerado um dos pioneiros (esquecidos) na consideração da possibilidade de existir petróleo no subsolo brasileiro. Envolvido na militância anarquista após se mudar pro Rio de Janeiro, simpatizou com a revolução bolchevique e entrou no PCB meses após sua fundação. Foi o principal teórico do partido na década de 1920, quando tentou conciliar a revolução proletária com o envolvimento das classes médias radicalizadas, mas em 1929 caiu no ostracismo quando a Comintern impôs o exclusivismo classista e as insurreições imediatas.

Mesmo assim, Brandão conseguiu diversos postos técnicos voltados ao público latino-americano na Internacional, tendo fugido das precoces repressões de Getúlio Vargas e se exilado na URSS de 1931 a 1946. Lá, durante a invasão alemã, conheceu a evacuação pra distante cidade de Ufá, onde faleceu doente sua esposa, a poetisa Laura Brandão. De volta ao Brasil, sem jamais ter deixado ou sido expulso do PCB, Octavio nunca retomou postos de direção, e os diversos núcleos dirigentes que se sucederam parecem nunca ter reabilitado a importância de sua atuação. Porém, se analisarmos a abundante documentação deixada por ele, percebemos que sua colaboração política continuou frutífera e que talvez ele exagerasse a condição de pobreza e esquecimento da qual frequentemente se queixava em artigos na imprensa comunista. Seja como for, sofreu igual a todos os outros os golpes da repressão estatal, qualquer que fosse o regime, e faleceu em 1980, sempre fiel à linha pró-Moscou do “Partidão”.

Recentemente, sua biografia e sua obra teórica têm sido cada vez mais estudadas, embora o segundo volume de suas memórias, Combates e batalhas, que cobre o período posterior a 1945 e cujo manuscrito permanece no AEL, jamais tenha sido publicado. “Dissidentes do PCB”, cujas fotos também aparecem abaixo, é exemplar em vários aspectos, a começar pela menção nominal aos principais fundadores do futuro PC do B, que os exalta até hoje, em especial pela pena de historiadores como Osvaldo Bertolino e Augusto Buonicore. Também é notável que a cisão tenha começado pela tomada de um dos órgãos do partido, algo comum na história das esquerdas no século 20 e já tendo o precedente da discussão sobre o “relatório Khruschov”, iniciada sem a autorização “de cima” pela própria redação da Voz Operária.

É igualmente curioso como Brandão engole naturalmente as viradas moscovitas, como é o caso da relação com Stalin, falecido em 1953, que os “dissidentes” ainda veem como o único líder ainda certo, mas que o alagoano até tinha vergonha de citar, depois de cantar loas a sua pessoa por décadas. Outro destaque são as cisões antissoviéticas que começavam a ganhar força no mundo socialista: a China não é citada, mas a Albânia de Hoxha está aí (aliás, é o único caso em que vi Brandão o nomeando). E como cereja do bolo, as “contribuições” nos mostram a importância dos “fundões” quando não temos o almoço pago pela URSS... Atualizei a ortografia e parte da redação e adicionei umas poucas notas explicativas:





Os dissidentes do Partido Comunista do Brasil – Maurício Grabois, Pedro Pomar, João Amazonas e outros – foram expulsos como traidores e passaram a fazer uma série de manobras: realizaram uma “Conferência Nacional Extraordinária” em São Paulo, em fevereiro de 1962, adotaram o título de “Partido Comunista do Brasil”, lançaram um “manifesto-programa” e apropriaram-se d’A Classe Operária, órgão do PCB, jornal de tradições gloriosas desde 1925.

Esses dissidentes e traidores passaram a fazer uma obra de confusão. Atacaram, no papel, o revisionismo, o dogmatismo e o sectarismo, transcreveram opiniões de Lenin, fingiram defender o internacionalismo proletário, a União Soviética e a revolução cubana, lançaram frases contra o imperialismo norte-americano e a miséria dos operários e camponeses do Brasil.

Mas os dissidentes arrancaram a máscara, meses depois. Publicaram o retrato de Enver Hoxha na primeira página d’A Classe Operária de 1-15 de dezembro de 1962, com elogios a esse “talentoso e valente líder” e ao seu Partido do Trabalho da Albânia, “cuja fidelidade aos princípios do marxismo-leninismo não pode deixar de ser reconhecida por todos os que almejam o triunfo do socialismo no mundo inteiro”. Tais as palavras textuais.

A Classe Operária dissidente ignora o 20.º Congresso do PC da União Soviética. Em seu número de 16-31 de dezembro de 1962, canta um hino exaltado à personalidade de Stalin e transcreve um trecho do livro dele Sobre os Fundamentos do Leninismo. No mesmo número, os dissidentes hostilizam o compromisso da União Soviética e dos Estados Unidos, que evitou a invasão de Cuba e a guerra mundial termonuclear. Igualmente, no mesmo número d’A Classe Operária, aparece um artigo do antigo fascista-integralista Otto Alcides Olwheiler [sic pra Ohlweiler (1914-1991); deputado estadual pelo PCB do RS de 1947 a 1951, era químico e publicou também sobre filosofia política, sendo expurgado da UFRGS em 1968], segundo o qual, por ocasião do bloqueio de Cuba, “a paz momentânea foi paga à sanha dos imperialistas norte-americanos com o atendimento de seus caprichos”.

Na política brasileira, A Classe Operária dissidente ataca violentamente o governo João Goulart e prega a abstenção no plebiscito de 6 de janeiro de 1963 [que restaurou o presidencialismo em detrimento do parlamentarismo ad hoc imposto antes da posse de Goulart, em 1961]. Lança palavras de ordem “esquerdistas” e frases pomposas e vazias. Faz propaganda de “guerrilhas” prematuras e da “ação armada como meio de sobrevivência”. Não abre nenhuma perspectiva para o povo brasileiro, exceto uma “revolução” caída do céu. Afirma, em seu número de 1-15 de dezembro de 1962: “Única saída: a revolução do povo”. Sustenta no “manifesto-programa”: “Só a luta revolucionária dará ao povo um novo poder”.

Os dissidentes e traidores têm uma base financeira de origem duvidosa, publicam n’A Classe Operária listas de “contribuições” monetárias importantes, mas vagas e suspeitas...

1.º de janeiro de 1963