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16 de fevereiro de 2019

Os novos construtores do Brasil (2011)


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NOTA: Um dos textos mais inspirados que escrevi, mas ao mesmo tempo um dos mais decepcionantes. Confesso que a utopia ainda é correta, e eu queria que ela tivesse dado certo e que dê certo pro nosso futuro. Porém, em se tratando de 2011 e “Era Dilma”, falando de uma forma geral, cometi erros crassos. É claro que hoje o Brasil está materialmente melhor e nossa juventude, mais instruída e tecnológica. Mas os pedregulhos no caminho foram tantos que não podem ser ignorados. Primeiro, eu não considerava a aparição dos smartphones (pra variar!) e o enorme potencial dos aplicativos feitos especialmente pra eles. Segundo, o ódio virtual e a recepção passiva de informações mal escritas ou até mesmo falsas se reforçaram como nunca em 2018. E terceiro, ao invés de vermos no Estado brasileiro uma diminuição da corrupção e apadrinhamento, vimos sua fixação, até a Justiça e a Polícia enfim lançarem uma guerra contra os roubos. Mesmo assim, acredito ter posto aí um caminho interessante e soluções aceitáveis.



Há diversos motivos para se deduzir que está surgindo uma onda renovada de técnicos, políticos, intelectuais, burocratas e formadores de opinião brasileiros advindos de uma juventude mais aberta, pluralista, racional, moderna e tolerante, inaugurando grandes chances, portanto, de fazer com que sejamos dotados de uma nova elite dirigente arejada, impessoal e democrática. Esses desbravadores terão de encarar os entraves históricos ao desenvolvimento sócio-econômico nacional e, com vigor e coragem ainda maiores, as forças conservadoras que já dominam o poder há décadas ou que ressurgem parcialmente recicladas e se aproveitam das contradições populares à espera de solução.

As crianças e adolescentes de hoje, cada vez mais precocemente, se expõem a tecnologias bastante avançadas que facilitam sua vida diária e lhes proporcionam o acesso a uma quantidade quase infinita de informações sobre variados assuntos e sobre os mais diferentes lugares do mundo. A contrapartida negativa nada desprezível desse fenômeno é a saturação mental com dados muitas vezes inúteis, o cansaço físico ocasionado por horas a fio de sujeição a radiações ou posturas corporais desajeitadas e a falta de critério na escolha das polêmicas manejadas ou debatidas, não raro levando, especialmente em redes sociais da internet, a situações de ofensa, humilhação e conflito emocional sem acréscimos à inteligência de ninguém. Infelizmente, as escolas básicas não movem um dedo para reverter esse quadro e, como já tive ocasião de comprovar pessoalmente em estágios, as tão idolatradas “pesquisas na sala de informática” recaem invariavelmente no acrítico, circular e mecânico sistema “busca no Google-Wikipédia em inglês-tradutor do Google”. Além da inépcia investigativa, deixa-se aí intocada a incompetência linguística generalizada.

Porém, não se deve presentear com munição o menor estímulo ao desencanto. Se bem direcionados, os recursos interativos multimídia potencializam de modo exponencial a curiosidade e a inesgotável energia infanto-juvenis e possibilitam um contato com conhecimentos, pessoas, instituições e realidades sequer cogitáveis há alguns anos e uma facilidade de trabalho que faria se roerem de inveja os pais e os avós dos estudantes. O papel central nessa lapidação teórico-informacional é inegavelmente reservado aos pais, que devem retomar a função agora tão negligenciada de vigias das ideias que seus filhos terminam por absorver, e às instituições de ensino, que, já bem distante do mérito de ser as únicas provedoras de conteúdos aos aprendizes, precisam segurar com urgência as rédeas da orientação e da sugestão liberal e autônoma do que vale ou não a pena ser assimilado.

Críticos alertas, e não totalmente sem razão, podem objetar que essas benesses eletrônicas e intelectuais seriam apanágio de classes abastadas mais restritas que, virtualmente ou ao vivo, têm contato mais ou menos frequente com outros países e culturas. De fato, não devemos menosprezar o número de famílias brasileiras para as quais continua sendo dificuldade até mesmo pôr um prato de feijão na mesa, enquanto interpretar um texto básico ou, na pior das hipóteses, conhecer o alfabeto persiste como luxo distante. Ainda assim, é igualmente bastante expressivo o número daqueles que, nos últimos dez anos, saíram dessa situação miserável ou que, adquirindo um potencial a mais em sua renda, conseguiram acessar informações e tecnologias novas e de maior qualidade. Além disso, independentemente da aquisição de conhecimento ter se dado ou não de livre e espontânea vontade, não se deve esquecer que a realidade ainda distinta desses recém-emergentes implica uma releitura e adaptação inevitáveis da cultura e linguagem ditas altas e superiores que, consistindo numa evolução natural das experiências humanas, permanecem tratadas por certos elitistas, sem motivo algum, como degeneração e pauperização desse patrimônio.

Voltando ao tema central e mais específico deste texto, é muito visível o salto quantitativo e qualitativo dado pelos jovens brasileiros desde muitos anos atrás, qualquer que seja sua origem social ou regional. Em outras palavras, não só eles existem em grande número como também estão mais conscientes das mazelas mundiais, conhecem mais idiomas – sejam os nacionais, sejam os etário-tribais –, pensam e resolvem problemas mais rapidamente e sabem se virar melhor sozinhos. As más línguas conjuram a suposta falta de inteligência e polidez atual desse grupo, mas vejo em tal choque, antes de tudo, uma virada no comportamento e no modo de se relacionar, hoje mais simples, transparente e sincero – talvez uma crise de valores, mesmo, como nós os conhecemos hoje. Não é motivo para desespero, contudo, é antes uma alegria: amante do imprevisto, adaptada à instabilidade, elástica em seu círculo de amigos e conhecidos, aceitadora da maioria das diferenças – sejam étnicas, sexuais, de cor da pele ou de necessidades especiais – e mais bem informada que seus antepassados, nossa juventude dos anos 2010 é menos apegada ao tradicionalismo, às formalidades vazias, à conservação de costumes antigos e à submissão cega a seus superiores. Ele é uma das chaves para uma administração pública e privada limpa, enxuta, honesta, servidora e menos despótica, personalista e ineficiente.

O abalo geracional pode ser notado não apenas na política estatal ou no universo mercantil. Seu dinamismo mexe também com hierarquias e interesses consolidados no sindicalismo, na religião, nos movimentos estudantis e sociais, no sistema educacional, na academia e nas artes – em particular na literatura. Essas verdadeiras máquinas de fazer acomodados estão fossilizadas por anciãos que preferem vender caro ao povo produtos de má extração a realmente defender os interesses dele e tornar melhores o Brasil e o planeta. São egoístas e não enxergam as explosões de insatisfação de seus senhores – invertidamente tratados como servos – como o resultado da falha de várias partes de um sistema orgânico. Sendo eles próprios, contudo, o principal entrave à renovação do conjunto, é óbvio que, ainda que de modo indireto, serão os mesmos a ser prejudicados num futuro não muito distante. O discurso a respeito do suposto conformismo das massas ou dos jovens é útil justamente para ocultar o modo pelo qual essa casta mantém sua dominação: pela força, pela coerção, pelo aliciamento ou pela privação. O instinto de conservação da vida leva a maioria a não cometer duas vezes a heresia de contestar seus superiores, mas a nova turma não está nem aí e arrisca, joga todas as suas fichas, dá a cara a bater, pois sabe que o mais importante é preservar não a sua pessoa, que passa, mas o seu legado, que é eterno.

Não está faltando valentia neste e em nenhum outro país. Pelo contrário, ela sobra, é abundante e disponível. Mas sendo ela uma vantagem inerente às moças e rapazes e, ao mesmo tempo, a “árvore do conhecimento” de nossa época, sua descoberta é sonegada por quem não quer entregar o comando da história. Estes, assim, não sabem que, ao se aferrar a seus postos ou parir crias que perpetuem seu conservantismo, põem em risco a maior expectativa dos povos, que é a esperança no progresso humano por meio do cultivo de uma descendência comprometida e transformadora.


Bragança Paulista, 8 de agosto de 2011.