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28 de outubro de 2018

O “Polvo” no poder e o humor petista


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/petismo




Um povo que sabe zoar de seus próprios problemas e de seus chefes ou governantes é um povo cujo espírito democrático já é inato, a despeito de como funcionem as instituições. Manter esse dom é uma obrigação política e cultural, dado que as grandes mudanças só acontecem por meio da crítica sincera e impiedosa. Além disso, a censura e a perseguição ideológica deixaram no Brasil marcas tão indeléveis, que nossa sociedade as repudia só de ouvir falar delas, seja contra a grande mídia, seja contra os pequenos articulistas. Nem mesmo a divulgação de notícias falsas deveria servir de álibi pra restringir esses direitos, pois a aposta certa seria investir em educação literária, e não em medidas coercitivas, tal um gado sem vontade e opinião.

Infelizmente, nos últimos anos, o acirramento das paixões políticas tem se usado como pretexto pra repudiar qualquer ressalva ou sátira com o candidato ou partido de preferência, como se os argumentos a favor fossem bastante fracos ou como se os alvos de adoração fossem princípios invioláveis. Na verdade, candidatos e partidos não estão nem aí com o que falam deles, pois já têm garantidos seus benefícios do alto, e muito menos com os fanáticos que, de graça ou pagos, fazem sua bajulação pelas redes sociais ou pela internet tradicional. Esse é mais um sintoma da falta de educação psicológica e autoexaminadora.

Talvez o caso mais emblemático seja o do Partido dos Trabalhadores (PT), desde que Dilma Rousseff se candidatou pela primeira vez à presidência da República, em 2010. De maneira inédita, o Twitter, em especial (o Facebook ainda não era popular no Brasil), que estava muito na moda, depois da famigerada campanha “Cala a boca, Galvão” durante a Copa do Mundo, serviu de arena pra disputa entre defensores do lulismo e do candidato do PSDB, José Serra. Neste caso, obviamente não se falava em ativismo pago, e o terror principal vinha das classes médias que temiam a continuação da esquerda no poder. Nas eleições seguintes, em 2014, vários fatores acirraram a briga: a consolidação da cibermilitância como prática, a ascensão do Facebook e suas tecnologias mais potentes, a crise econômica às portas do Brasil, Aécio Neves do PSDB como um político medíocre, a insatisfação dos conservadores em ver uma mulher sendo reeleita, o uso do terror e intimidação simbólicos pelo PT (“Não vamos voltar ao passado”) e, como se descobriria depois, o financiamento de militantes e de postagens robóticas de ambos os lados. Os “acampamentos digitais” petistas, na época, foram acusados de pagar por esse serviço de inundação voluntária.

Hoje estamos vivendo o segundo turno das eleições presidenciais de 2018, e muita coisa aconteceu: a crise econômica, o impeachment da Dilma, os protestos de rua que o antecederam, a onda cultural e midiática contra o PT, as turbulências do interregno Michel Temer, a ascensão de Jair Bolsonaro como figura carismática de direita e, sobretudo, a consolidação dos smartphones como principal meio de acesso a rede, como suas tecnologias ainda mais rápidas e precisas. O aplicativo (já não mais site) WhatsApp, que se resume aos dois recursos mais usados nas antigas redes sociais (chats e grupos), tornou-se a bola da vez, e em paralelo se difundiu a prática não mais do mero flood, mas da real distorção, fabricação ou falsificação de informações contra opositores – chamadas por Donald Trump pela popularizada designação fake news.

Independente de quem vença o pleito de hoje, estamos certos de que chega ao fim um longo ciclo de nosso período republicano iniciado em 1985, no máximo em 1990. Os velhos políticos, militantes e intelectuais ligados à ditadura militar ou educados em sua resistência cedem lugar aos mais ou menos jovens que, mesmo aderindo ideologicamente a um dos lados, já não se caracterizam pela participação ou vivência ativas. Sarney, Collor (e Itamar), FHC, Lula e Dilma (e Temer), junto com suas famílias ou apadrinhados, saíram de cena ou perderam a relevância nacional, enquanto Bolsonaro, a despeito de seu fundo discursivo, só depois passou a ter destaque, e Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, descontadas suas afiliações, são safras muito mais recentes. O chamado “petismo”, mesmo sendo heterogêneo ou muito mais atacado do que praticado, foi a última etapa desse ciclo, e como todo fenômeno ou grupo longamente ocupando o poder, teve seus desgastes e, portanto, suas sátiras e atos falhos.

Nesta postagem, quero reunir alguns dos memes ou momentos engraçados acumulados ao longo desses anos de governos Lula e Dilma. Me chateia que tantos ditos “petistas” ou “progressistas” não aceitam sequer uma piada ou uma cena que, tirada de contexto, pode soar cômica, e isso demonstra a real insegurança ou desespero quanto à desilusão ou abalo de suas convicções quase religiosas. Nem todos os vídeos são feitos por ou tratam diretamente de membros do PT, mas têm alguma ligação com o contexto político mais geral. Todas as postagens estão no meu canal Eslavo (YouTube), e elas seguem abaixo por ordem histórica, com os comentários concernentes:



Embora ela tenha dado depois muitas explicações, Angela Guadagnin, deputada federal do PT por São Paulo, foi flagrada em 2006 dançando jocosamente após as primeiras absolvições pelo plenário do Congresso Nacional no que passaria à história como o “escândalo do mensalão”. A política de São José dos Campos ficou famosa no Brasil inteiro pela chamada “dança da pizza”, enquanto Delúbio Soares, Silvinho do PT e o “valerioduto” entravam no nosso saber cotidiano.

É óbvio que o Judiciário e a Polícia Federal podem errar ou às vezes abusar, mas desde então o Partido dos Trabalhadores vem cobrindo seu envolvimento na corrupção com “panos quentes”, embora a maioria dos grandes partidos nacionais estivesse envolvida no esquema. (E, claro, também se envolveriam nos principais escândalos posteriores, como o “petrolão”, ainda mais amplo e aparelhado.) Mas pra época, o choque foi grande, porque era apenas o terceiro ano do mandato de Lula (2005), cujo projeto alardeado há anos era acabar com a corrupção e instaurar a moralidade nas instituições. Foi um dos episódios que mais causou cisões no PT, levando inclusive à criação do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que se propunha “voltar às raízes” e retomar as bandeiras radicais. Canalizando a decepção, a candidata do PSOL à presidência em 2006, Heloísa Helena, coligada ao PSTU e ao PCB, conseguiu obter o terceiro lugar, com números e uniões que jamais seriam vistos de novo.

Como livre-pensador, sempre critiquei o PT, mesmo não sendo adepto dos partidos que lhe fazem frente diretamente. Mas nestas eleições não tomo posição explícita, e apenas relembro estas cenas pra juventude ficar sabendo, e pra fazer uma brincadeira boba sem compromisso. Isto é, coloquei algumas tomadas dela que estavam disponíveis no YouTube (postadas na época mesmo, por isso a má qualidade das imagens) e pus por cima a abertura instrumental da canção Ialta, do russo Ievgeni Osin. Foi esta música que Boris Ieltsin dançou na campanha presidencial de 1996, como já sabemos pelo meme que lancei, e agora vemos também Guadagnin dançando, com a imagem acelerada.

Como era de se esperar, os uploads ficaram abandonados (também, quase ninguém usava YouTube em 2006), e nos esquecemos de como os deputados e políticos em geral adoram sambar na cara do povo na primeira oportunidade. E fazem isso de modo escrachado e aberto, sabendo que nada sério pode os atingir. O primeiro vídeo foi uma montagem amadora, feita pra passar a imagem de uma “pizza” italiana, e o segundo vídeo é um trecho do Jornal da Globo, quando Arnaldo Jabor ainda fazia comentários ao vivo nos telejornais.



Achei tão sagaz que resolvi postar como um vídeo à parte: comentando a polêmica “dança da pizza” de Angela Guadagnin, Arnaldo Jabor fez comentários muito cortantes numa edição do Jornal da Globo em 2006. Resolvi fazer uma edição humorística, retirando as menções localizadas no tempo e deixando uma mensagem que vale pras eleições de hoje, e que será sempre, sempre atual.

Eu retirei o vídeo do referido trecho do Jornal da Globo, postado em 2006 mesmo, e por isso a qualidade não está tão boa, e também por isso terminou “abandonado” (quase ninguém então usava YouTube), mais um escracho que passou esquecido pela cultura popular. Minha intenção não foi revirar carniça, nem falar mal da Angela, mas acho que as palavras de Jabor foram tão sábias, que generalizam bem o sentimento de todas as épocas. E que importa se ele é a favor ou contra os Estados Unidos e o liberalismo? Quod dixit, dixit!

As pessoas se indignam, e os políticos desfrutam a sensação de que, blindados numa torre de marfim, nada devem aos eleitores nem à população em geral. Por isso, usando da mais fina ironia (atenção a esse detalhe, coxinhas carrancudos de direita e de esquerda!), ele estabelece que realmente, nós é que não prestamos. Sobretudo com essa linda maioria recém-formada pelo ex-nanico PSL na Câmara dos Deputados, com seus nobres e cristãos propósitos, este Congresso Nacional não estava, não está e nunca estará pro nosso bico!



Durante cerimônia de assinatura de contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, numa quinta-feira (10 de dezembro de 2009), em São Luís, capital do Maranhão, o então presidente Lula falou um palavrão. O termo foi usado durante um discurso no qual ele defendeu que nenhum governo investiu tanto em saneamento básico. Isto explicará a escolha destas palavras: “Eu quero saber se o povo tá na m..., e eu quero tirar o povo da m... [em] que ele se encontra.”

Por incrível que pareça, assim como o célebre vídeo da dança de Angela Guadagnin, este episódio ficou por anos esquecido dos brasileiros, chafurdando nas profundezas do YouTube. Eu mesmo me lembro da declaração na época, e só há alguns dias resolvi procurar. E não é que dois canais chegaram então a postar, mas sem que tivessem alcançado grandes visualizações? (Como eu disse antes, uma época em que poucos conheciam a plataforma.)

Num contexto de tanta turbulência, brigas e expectativa por causa da eleição presidencial, é sempre bom relembrar um pouco de nossa história contemporânea recente. Eu tirei o vídeo, produzido originalmente pela Globo News, deste canal com outras reportagens de época, removi a introdução da jornalista e fiz o corte no quadro, inserindo, como vocês conhecem, as velhas repetições humorísticas. Leiam também esta matéria do jornal O Globo, “Relembre as 50 frases mais polêmicas de Lula durante os oito anos de mandato” (réveillon de 2010), ou a imediata análise crítica de Reinaldo Azevedo (“Lula: do ‘povo na m...’ ao ‘povo de m...’”), quando ele ainda escrevia pra Veja.







Embora o Lula fosse um comédia, quem mais gerou memes involuntários por causa de sua inabilidade comunicativa foi a ex-presidenta Dilma Rousseff. Quando fiz a montagem dela com cenas da viagem à Bulgária em 2011, separei algumas frases isoladas que ela disse pra jornalistas e que podiam ser usadas hilariamente em outros contextos. Como postei muito tempo depois da montagem original, elas não tiveram muito sucesso, apesar da minha intenção de torná-las “memes”, e foram menos vistas do que as outras coletâneas com Dilma falando em francês e em algo parecido com o espanhol.

Dilma, então, estava no vilarejo de Gabrovo, onde nasceu seu pai Petar Rusev (Pedro Rousseff). No primeiro caso, tem coisa que não é usual mesmo, como prometer um programa de esquerda e realizar um governo de direita, deixando o caminho aberto pra um sucessor reacionário. E no segundo caso, parece uma descrição “absolutamente perfeita” de seus 5 anos e 3 meses de mandato, enquanto o governo Temer, por sua vez, foi uma tragédia mesmo.

O terceiro vídeo é autoexplicativo: após discurso em português, e depois num corpo-a-corpo pelas ruas, Dilma repete à exaustão a palavra “Благодаря” (Blagodariá), “Obrigado”, literalmente “eu agradeço”, uma das raras que aprendeu em búlgaro. A pronúncia real fica mais próxima de “blagodaryá” do que de “blagodari-á”: é que em português temos o hábito de quebrar os ditongos depois de consoante.



Já em agosto de 2017, quando mal se falavam em pré-candidaturas presidenciais, os brasileiros já estavam polarizados entre esquerda e direita. Imaginem agora, que estamos esperando os resultados das urnas e realmente entramos na fase de virar a mesa!

Esta legendagem cômica, já que não entendo nem o árabe padrão nem os seus dialetos, foi baseada originalmente no que se pretendia ser um debate em 2014, entre defensores de posições opostas sobre a guerra civil na Síria, promovido pela TV jordaniana. Foi algo que eu também tinha visto pela TV na época, e depois deixei passar, só me lembrando anos depois. A guerra entre o regime do presidente Bashar al-Assad e seus opositores armados continua desde 2011 até hoje, e não tem prazo de término, mas esse vídeo podia ser usado pra qualquer caso onde tivesse discussão acirrada e terminada em briga.



Por fim, não muito a ver com o tema central, mas mostrando como tanto o poder midiático quanto ditaduras de esquerda podem promover comoções artificiais (além disso, o PT nunca criticou frontalmente o regime norte-coreano). Na descrição, eu anunciei: “Ri Chun Bonner anuncia chorosamente a morte e o falecimento de Kim Jong Marinho. Nos dois lados do Globo, Juchê e você, tudo a ver!” Tratam-se, na verdade, dos anúncios que misturei das mortes de Roberto Marinho (2003), fundador das Organizações Globo, e Kim Jong-il (2015), segundo ditador da Coreia do Norte.

William Bonner pode até ter se emocionado de verdade com o teor da carta, mas muita gente achou que o choro era fingido. Quanto a Ri Chun-hee, que tem formação artística, tá na cara que o esquema era “ou chora, ou morre”, e está dramatizando excessivamente, mesmo que também possa ter um pingo de tristeza. Embora não possamos garantir nada nos dois casos, muito moleque acéfalo veio no meu canal, na época, ficar falando que “ah, mas o Kim era um líder amado, fez muito pelo povo, enquanto os Marinho enganavam, mimimi”. Minhas bolas!