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4 de outubro de 2018

Reforma ortográfica da língua francesa


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Desde 2015, sob a presidência de François Hollande, tem ganhado mais corrência e visibilidade a chamada nova ortografia da língua francesa, cujos princípios, porém, remontam a 1990, mesmo ano em que foi proposta a reforma ortográfica da língua portuguesa. Como nos países lusófonos, as propostas de retificação geraram diversas opiniões, das favoráveis às contrárias, na França, no Canadá, na Bélgica, na Suíça e em outros países onde o francês é usado correntemente. Em toda reforma ortográfica de um idioma moderno, sempre se escondem por trás interesses financeiros, estéticos e filosóficos, mas num mundo em que a atividade da leitura e escrita praticamente se democratizou, mudanças assim têm sido cada vez mais dramáticas. Além de implicar atividades extras aos já sobrecarregados professores, ela termina meio que por invalidar toda uma massa documental impressa, bem como o muito mais crescente acervo digital.

Nesta postagem especial, quero passar ao leitor de português o máximo possível de informações históricas e linguísticas sobre as chamadas retificações ortográficas da língua francesa, também chamadas “nova ortografia”, propostas pelas instâncias francófonas responsáveis, entre as quais a Académie française (Academia Francesa). O uso dessa “nova ortografia” não é obrigatório, mas é recomendado, por isso é importante que todo estudante e professor a conheça desde já. Existe um ótimo site especializado em francês que traz material completo pra curiosos, alunos, docentes, escritores e jornalistas e do qual tirei a maior parte das regras. Na Wikipédia francesa está o básico do resumo histórico que também apresento aqui.

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Ao conjunto de retificações ortográficas do francês é atribuído o objetivo de tornar a ortografia mais simples ou de suprimir-lhe certas incoerências, conforme um relatório do Conselho Superior Francês para a Língua Francesa. O texto foi publicado entre os documentos administrativos da edição de 6 de dezembro de 1990 do Diário Oficial da República Francesa, e na época a Academia Francesa, sem contar com a íntegra da resolução, aprovou os princípios que a norteavam. Contudo, em 2016, a mesma instituição criticava a “exumação” de um projeto que, 25 anos após sua elaboração, não tinha contado com a “sanção do uso” e reafirmava o alinhamento aos princípios da reforma em 1990, e não a aprovação das regras.

As regras anteriores da ortografia francesa são também chamadas “tradicionais” ou “antigas”, e enquanto o Conselho Internacional da Língua Francesa (CILF), representando todos os países francófonos, mostrou-se favorável à reforma, a Academia Francesa aceita integralmente as duas regras, sem considerar uma delas incorreta e preferindo a “recomendação” à “imposição” do novo texto. Na França, as autoridades escolares públicas decidiram em junho de 2008 usar a “ortografia revisada” como referência dos programas e materiais, mas até 2010 as regras fixas ainda eram pouco conhecidas, e sua aplicação variava entre professores e entre dicionários. Porém, na prática muitos estudantes já as aplicavam sem saber, enquanto na Bélgica e na Suíça seu ensino já estava plenamente consolidado. Entre os franceses, apenas com a citada decisão de 2008 começou-se a ter uma noção maior da reforma.

Desde o século 16, houve inúmeras tentativas de reformar a ortografia francesa, sobretudo no sentido de suprimir-lhe o caráter etimológico (ou seja, o uso de certas letras ao invés de outras conforme a origem da palavra ou do afixo). Apenas em 1740 uma primeira reforma substancial foi consagrada na terceira edição do Dicionário da Academia Francesa, atingindo cerca de 5 mil palavras, mas nos anos 1980 um movimento de acadêmicos retoma o tema da necessidade de se revisar a ortografia. Por volta de 1988, o governo da França constatou que a ortografia complexa, a variação entre dicionários e a ausência de regras claras quanto à incorporação e sistematização de neologismos estava dificultando, ou até fazendo recuar, a difusão internacional da língua francesa. Em 1989, a mobilização de linguistas e a recomposição, sob o governo do premiê Michel Rocard, das instituições oficiais de consulta linguística favoreceram as discussões sobre a reforma ortográfica, até a publicação do referido documento de dezembro de 1990, aprovado por diversas organizações francesas.

Mesmo assim, a partir de 1991, iniciou-se na França uma resistência organizada às novas regras, invocando a manutenção de uma tradição consolidada. Diante dos calorosos debates lançados, a Academia Francesa reforçou sua posição contrária a um caráter obrigatório e impositivo da reforma, enquanto o CILF sublinhou que as decisões tinham sido tomadas conjuntamente entre os países francófonos, nos quais teria havido, em geral, ampla receptividade do acordo. Ainda hoje, há aqueles que se opõem por princípio, rejeitando qualquer tipo de modificação, e aqueles que criticam o crescimento do número de exceções a se memorizar, resultante, por exemplo, do desaparecimento do acento gráfico em certas flexões de uma palavra, mas não em outras. Os gramáticos reformistas, por sua vez, julgam a reforma insuficiente, não tocando nos aspectos etimológicos que fazem realmente a ortografia complexa.

A nova ortografia francesa, no aspecto da obrigatoriedade, diferencia-se da reforma lançada à língua portuguesa, que desde 1990 demorou a ser ratificada por um número mínimo de países, gerando até hoje muita resistência, sobretudo em Portugal, cujo padrão linguístico tem uma porção de palavras muito mais atingida do que o brasileiro. Mas o contraste é maior com a reforma da ortografia alemã de 1996, imposta mais firmemente com prazos, inclusive, pra adaptação das escolas, mas posteriormente abandonada por vários jornais e pela província alemã do Schleswig-Holstein. De fato, na França não há lei específica sobre o assunto, deixado ao encargo da Academia Francesa, portanto fora do escopo do Estado. Tanto que o texto de 1990 saiu na parte administrativa do Diário Oficial, portanto sem valor compulsório. Contudo, como a maioria dos documentos estatais da França já é redigida na “ortografia recomendada”, me interesso que os estudantes falantes do português, em especial no Brasil, dominem o assunto, evitando futuros contratempos.

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Quais são as principais regras da nova ortografia retificada e recomendada da língua francesa? No geral, como no Acordo Ortográfico de 1990 pra língua portuguesa, trata-se de mudanças na acentuação gráfica, na ortografia de palavras e no uso do hífen, ou traço de união, visando basicamente suprimir certas diferenciações de uso e adequar a escrita a mudanças de pronúncia que ocorreram nos últimos tempos.

A primeira delas se refere ao uso do hífen ao se escreverem numerais cardinais por extenso. Boa parte dos números compostos liga seus elementos com hífen: dix-sept, dix-huit, dix-neuf (17, 18, 19), vingt-deux até vingt-neuf (22 a 29) – o mesmo com outras dezenas até 60 –, soixante-dix (70 = 60 + 10, no peculiar sistema francês de contagem), soixante-douze até soixante-dix-neuf (72 a 79), quatre-vingt-un a quatre-vingt-dix (81 a 90), bem como quatre-vignt-onze até quatre-vingt-dix-neuf (91 a 99). Contudo, não levavam hífen as dezenas terminadas em 1 ou 11 – “et un” e “et onze” –, bem como suas formas ordinais “et unième” e “et onzième”: vingt et un (21), trente et un (31) etc., soixante et onze (71 = 60 + 11).

Atualmente, todas as formas numerais compostas, cardinais ou ordinais, podem levar hífen. Assim, temos vingt-et-un, trente-et-un, soixante-et-onze etc., bem como os ordinais vingt-et-unième, trente-et-unième, soixante-et-onzième etc. (Lembre-se que a forma premier, -ère só se usa com o número 1 absoluto.) O mesmo com deux cents (200), un million cent (1.000.100) e outros, que se tornam deux-cents, un-million-cent etc.

Assim podem se distinguir agora, conforme se diz na língua francesa, as escritas de soixante et un tiers (60 + 1/3) e de soixante-et-un tiers (61/3). Em francês, tiers (se lê “tiérr”) significando “terço”, “terça parte”, é invariável: em português não há essa confusão, pois no primeiro caso usaríamos “terço”, e no segundo, “terços” (com o “s” bem audível).

Outra mudança está nos substantivos compostos, em que um hífen une verbo + substantivo (como pèse-lettre, “pesa-cartas, balança de correio”) ou preposição + substantivo (como sans-abri, “sem-abrigo, sem-teto, desabrigado”). Em geral, a marca do plural em francês, quase sempre a letra “s”, não se pronuncia, portanto a pronúncia da palavra no singular é a mesma da palavra no plural. O grande problema é que, na ortografia, não havia (como em português) uma regra clara pra flexão do plural nos compostos, seja representando um ou mais elementos.

Pela nova regra, nos casos citados acima, coloca-se a marca do plural sempre e somente quando a quantidade estiver no plural. Por exemplo, escrevia-se sempre un/des compte-gouttes (um/alguns conta-gotas), com “s” final, independente de se estar no singular ou plural. Agora, escreve-se un compte-goutte no singular e des compte-gouttes no plural. Já com un/des après-midi (uma/algumas tardes, período/s da tarde), a forma era sempre a do singular, mas agora o plural pode receber a marca: un après-midi, mas des après-midis.

Alguns compostos permanecem invariáveis, como prie-Dieu (genuflexório), por causa da maiúscula de nome próprio, e trompe-la-mort (pessoa que se arrisca a ponto de desafiar a morte), por causa do artigo invariável no meio. Uma palavra como garde-pêche (policial fluvial que fiscaliza a pesca e navegação; ou navio de vigilância sobre a pesca marítima) se escrevia no plural gardes-pêche, mas agora é garde-pêches, todas as formas se pronunciando “gárrd-péch”. Afirma-se que a nova regra suprime incoerências como un/des cure-dent (um/alguns palito/s de dente) só ter forma singular, e un/des cure-ongles (um/alguns limpador/es de unhas), só plural.

Na língua francesa, ao contrário do português, o grafema “é” (“e” com acento agudo) soa como nosso “ê” fechado, enquanto o grafema “è” (“e” com acento grave) soa como nosso “é” aberto. Via de regra, o som “é” fechado só aparece em sílabas abertas (terminadas em vogal), e o som “è” aberto, em sílabas fechadas (terminadas em consoante), o que terminou gerando problemas em palavras com “é” gráfico historicamente percebido como aberto, mas se tornando fechado, na pronúncia, ao evoluir a língua. É o que quase sempre acontece com “é” gráfico seguido de consoante(s), esta(s) seguida(s) de um “e” fraco, e atualmente mudo.

Exemplificando: uma palavra como événement (evento, acontecimento) é historicamente percebida com esta divisão: “é-vé-ne-ment” (algo como “ê-vê-nâ-mã”), mas o “e” gráfico, na evolução, foi sumindo na pronúncia. Assim que, foneticamente, teríamos “é-vén(e)-ment”, e como a segunda sílaba se fecha, termina se falando algo como “ê-vénn-mã”. A ortografia não acompanhou a mudança, mas a reforma propõe que se escreva évènement, com acento grave. Uma série de palavras padece do mesmo problema, como réglementaire (regulador/a, regulamentar), agora règlementaire. Isso as adequaria a uma “regra de base”, já vigente, por exemplo, em avènement (advento, chegada) e règlement (regulamento, pagamento).

Fenômeno igual ocorre nos tempos futuro e condicional do indicativo dos verbos conjugados pelo modelo de céder (ceder, conceder, renunciar), assim como em formas do tipo puissé-je (possa eu, que eu possa – agora puissè-je): je céderai (eu cederei) → je cèderai, ils régleraient (eles regularão, pagarão, arrumarão) → ils règleraient. A sílaba com um “e” fraco, de fato mudo, se chama sílaba muda, e a regra passa a ser que antes de sílaba muda, escreve-se e pronuncia-se apenas “è”. As exceções ficam por conta dos prefixos dé- e pré-, do é- inicial em vocábulos e dos termos médecin (médico/a, remédio) e médecine (medicina, sistema médico, purgante).

Outro ponto que costuma causar problemas a quem está aprendendo o francês como língua estrangeira é o uso do acento circunflexo (^), que em português tem a função bem definida de fechar o timbre das vogais “a”, “e” ou “o”. Em francês pode aparecer em todas as vogais (exceto “y”), causando modificação sonora no “a”, no “e” e no “o”, mas não mudando a pronúncia do “i” e do “u”. Em todos os casos, sua origem é etimológica, em geral indicando uma consoante (quase sempre “s”) histórica que caiu, na pronúncia, após a vogal e antes de outra consoante, mas tendo sobrevivido em palavras da mesma origem e sentido aparentado no português: pâte (pasta), bête (besta), île (ilha, espanhol isla), hôpital (hospital), coûter (custar). É algo parecido com o uso da letra “h” muda em português.

Dado que, segundo os reformadores, nas letras “i” e “u” o acento não tem nenhum papel fonético e que seu uso não pode ser justificado pela etimologia, pois seria aleatório, constituindo, assim, uma das causas centrais de erros, propõe-se aboli-lo nesses dois casos. Assim, as palavras acima se escreveriam ile e couter, bem como, por exemplo, paraître (parecer, assemelhar-se) seria paraitre, e flûte (flauta) seria flute; e o que vale pro infinitivo vale pras outras flexões do verbo.

Apenas dois casos constituem exceção. O primeiro são cinco palavras em que a ambiguidade poderia ser muito frequente: (devido) contra du (do = de + o), mûr (maduro) contra mur (muro, parede), sûr (seguro, certo) contra sur (sobre, em cima de), jeûne (jejum) contra jeune (jovem) e as formas dos verbos croire (crer, acreditar) e croitre (crescer, aumentar) que se confundiriam sem acento, como je crois, tu crois, il croit etc. (eu creio, tu crês, ele crê) contra je croîs, tu croîs, il croît etc. (eu cresço, tu cresces, ele cresce). Os três primeiros adjetivos citados, contudo, quando estão no feminino singular ou no plural, perdem o acento circunflexo, por não haver ambiguidade escrita: due(s) (devida/s), mure(s) (madura/s), sure(s) (segura/s); dus (devidos), murs (maduros), surs (seguros).

O segundo caso de exceção são algumas terminações de dois tempos verbais pouco empregados no francês moderno: o passé simple (passado simples) e o subjonctif imparfait (subjuntivo imperfeito), que têm regras próprias de utilização, mas pela morfologia equivalem grosso modo, na nomenclatura brasileira, ao pretérito do perfeito simples (indicativo) e ao imperfeito do subjuntivo, tempos bem mais usados em português. Vou dar primeiro um exemplo na conjugação mais básica, que é a do primeiro grupo dos verbos terminados em -er, como danser. Duas de suas formas no plural do passé simple são nous dansâmes (nós dançamos) e vous dansâtes (vós dançastes, vocês dançaram), e uma forma sua no singular do subjonctif imparfait é qu’il/elle dansât (que ele/a dançasse).

Também é comum o uso dos verbos avoir (ter, haver, possuir) e être (ser, estar) no subjonctif imparfait, nas formas qu’il eût (que ele tivesse) e qu’il fût (que ele fosse), como auxiliares de outro tempo ainda mais literário, sem tradução exata em português, chamado subjonctif plus-que-parfait (subjuntivo mais-que-perfeito). Por exemplo: qu’il eût dansé e qu’il fût allé (auxiliar être com o verbo aller, “ir”). O passé simple desses dois verbos também tem um circunflexo que não se retira: nous fûmes, vous fûtes (nós fomos, vós fostes/vocês foram) e nous eûmes, vous eûtes (nós tivemos, vós tivestes/vocês tiveram). Vamos ver também um exemplo de verbo do segundo grupo dos terminados em -ir, que é finir (acabar, terminar, findar): nous finîmes, vous finîtes, qu’il/elle finît (nós acabamos, vós acabastes, que ele/a acabasse).

Sabemos como o sistema verbal francês é estrambólico, e aqui temos outro exemplo de saliência sem qualquer impacto na pronúncia, mas retificada pela reforma ortográfica. Os verbos terminados em -eler e -eter têm toda uma dificuldade de conjugação advinda do fato que, dependendo da flexão, o primeiro “e” se mantém fraco ou, ganhando a tonicidade, se pronuncia “é” aberto. Dependendo do verbo, essa pronúncia “éll/ét” era grafada èl/èt ou ell/ett, o que gerava infindas listas mnemônicas, até mesmo diferentes entre dicionários. Todos esses verbos foram reduzidos à mesma regra dos verbos peler (pelar, depilar, descascar) e acheter (comprar), isto é, -èl- e -èt-. Vamos usar o exemplo dos verbos amonceler (acumular, amontoar) e épousseter (espanar): antes havia formas como j’amoncelle (eu amontoo) e ils époussettent (eles espanam), em contraste com nous amoncelons (nós amontoamos) e vous époussetez (vós espanais).

Agora, é preferível escrever j’amoncèle, ils époussètent etc., inclusive em formas nas quais o “è” não é tônico, mas é aberto: tu époussèteras (tu espanarás) ao invés de tu époussetteras. Os substantivos derivados de verbos por meio do sufixo -ment (nosso “-mento”) vão pelo mesmo caminho: amoncèlement (acumulação) é preferível a amoncellement. Pra variar, existem as exceções: os dois verbos appeler (chamar, invocar, apelar) e jeter (jogar, lançar, aitrar), além de seus compostos, como rappeler (reconvocar, chamar de volta, lembrar) – incluindo interpeler (interpelar, fazer pensar, interrogar) –, rejeter (rejeitar, jogar de novo, vomitar) etc. Assim, por exemplo, temos je pèle, j’achète etc. (eu descasco, eu compro), mas j’appelle (eu chamo, incluindo je m’appelle, “eu me chamo, meu nome é”), je jette (eu jogo) etc.

Numa área menos espinhosa, também se decidiu adotar um plural nativizado às palavras emprestadas de outras línguas pelo francês, ou seja, a simples adição do “s” mudo no lugar do plural original. Isso é válido, sobretudo, com vocábulos ingleses, que recebem “-es” dependendo da terminação, como match (partida esportiva) e miss, que formam matches e misses por terminarem nas sibilantes “tch” e “ss”. O francês as incorporou apenas juntando, por exemplo, o artigo indefinido: des matches, des misses. Contudo, como o francês nunca diferenciou seu número na pronúncia, estipulou-se adicionar apenas o “s” gráfico, ignorando o plural original: des matchs, des miss (palavras já terminadas em “s” não recebem outro).

Sempre que possível, também se colocam os acentos gráficos conforme a pronúncia do francês, assim evitando a hesitação na pronúncia. Por exemplo, o “re” de revolver era por regra pronunciado não fraco, algo como “râ”, mas forte e fechado, como nosso “rê”, mesmo isso não sendo indicado na escrita. Palavras assim passam a seguir as regras francesas, e neste caso temos a nova grafia révolver. Segundo os reformadores, os plurais regulares são familiares à maioria dos francófonos e permitem uma integração efetiva dos empréstimos.

E as composições e os prefixos unidos com hífen à palavra, que tanto tiraram o sono dos reformadores e escritores brasileiros? Na França, buscou-se dar uma solução simples, estendendo a ligação sem o hífen e privilegiando a grafia unida, além dos seguintes casos onde esta é sistemática: 1) palavras compostas com contr(e)- e entr(e)-; 2) palavras compostas com extra-, infra-, intra-, ultra-; 3) palavras compostas com elementos “eruditos” (hydro-, socio- etc.); 4) onomatopeias e estrangeirismos. Como exemplo do primeiro caso, temos contre-appel (segunda chamada) e entre-temps (nesse ínterim, enquanto isso), que passam a contrappel e entretemps. Pro segundo caso, cite-se extra-terrestre, que se torna extraterrestre. Ilustrando o quarto caso, tic-tac e week-end (“fim de semana”, que suplantou fin de semaine na França) dão em tictac e weekend. E além deles, vejamos porte-monnaie (porta-moedas, porta-níqueis), agora portemonnaie.

Agora, novamente as minúcias: palavras terminadas em -olle e verbos (junto com seus derivados) terminados em -otter passam a se escrever com uma só consoante (-ole, -oter). Exceções: as palavras colle (cola, castigo escolar, grupo de colhedores de uvas), folle (louca, rede de pesca, boiola) e molle (aroeira, mole – feminino), e os verbos em -otter derivados de uma palavra em -otte (como botter, “calçar botas, chutar, agradar”, de botte, “bota”). Exemplos da regra: corolle (corola de flor) → corole, frisotter (fazer cachinhos ou ondinhas, frisar de leve) → frisoter, frisottis (cachinhos de cabelo) → frisotis. Afirma-se que assim desaparecem algumas incongruências, unificando a ortografia de várias terminações.

Lembram-se do saudoso trema no português? Pois é, ele permanece em francês, mas com algumas mudanças: a mais evidente delas é seu uso nas sílabas “gue” e “gui”, em que pode ocorrer, como em nossa língua, a ambiguidade de se pronunciar ou não a letra “u” como uma semivogal. Mas no caso do francês, os casos são bem mais restritos, em especial com os adjetivos terminados em “u”, entre eles aigu (agudo, acerbo) e ambigu (ambíguo). Eles formam o feminino com o acréscimo de um “e” mudo, ou seja, teoricamente aigue e ambigue. Porém, a sílaba final seria pronunciada apenas como um “g” gutural, e pra que se mantenha a pronúncia do “u” vocálico, coloca-se o trema no “e”: aiguë, ambiguë. Esse trema, pela regra nova, desloca-se pro “u”: aigüe, ambigüe. O mesmo se dá em derivados com outras letras: ambiguïté (ambiguidade) → ambigüité.

Segundo a reforma ortográfica, algumas palavras também passam a ter o trema sobre o “u”, pra deixar claro que ele é pronunciado, e não mudo. O caso mais claro é o do verbo argüer (argumentar, arguir), pra se dizer “arrgu-ê”, e não “arr-guê”: j’argüe, nous argüons (eu argumento, nós argumentamos). Além disso, há certas palavras em que o dígrafo “eu” (sempre depois de um “g” com som de “j”) não é pronunciado como o “ö” alemão (ou como em bleu), mas como o “ü” alemão (ou como o “u” normal francês): gageüre (aposta, desafio), mangeüre (roedura, roído), rongeüre (roedura, tormento), vergeüre (marca de água, risco, traço, metal pra fabricação de papel). Antes, essa pronúncia devia ser decorada, agora o trema a indica graficamente.

A nova ortografia também leva em conta pronúncias que se transformaram ao longo do tempo (sim, as línguas mudam!) ou cuja representação, por algum motivo, era irregular, inserindo acentos gráficos pra corresponder aos fatos: assener (assentar, dar com força, enviar, impor) → asséner, papeterie (fábrica, comércio ou loja de papel e papelaria) → papèterie, québecois (quebequense, de Québec, no Canadá) → québécois. Além disso, palavras terminadas em -illier cujo segundo “i” do sufixo não se pronuncia mais (exceto nomes de árvores, como groseillier, groselheira) cortam essa letra: joaillier (joalheiro) → joailler, serpillière (aniagem, pano pra confecção de fardos) → serpillère. Finalmente, em caso de formas concorrentes, privilegiam-se: 1) a versão mais “francesa” (leadeur a leader – líder, chefe, guia); 2) a ausência de circunflexo (allo a allô – alô, no telefone); 3) o plural regular, como já vimos (matchs, miss, babys a matches, misses, babies); e outros detalhes, dedicados especialmente à lexicografia e à criação de palavras.

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Essas são as regras básicas que concernem diretamente à ortografia e à pronúncia, mas existe um outro detalhe, mais vinculado à gramática, que deixei aqui em separado. O francês usa amplamente tempos verbais compostos, em que o verbo principal fica no participe passé, literalmente “particípio passado”, ou nosso particípio terminado em “-ado”, “-ido”, “-to” ou outras formas irregulares. Muitas formas de particípio têm a formação do feminino em “e” e do plural em “s” que não interferem na pronúncia, fazendo com que as quatro formas do participe passé de laisser (deixar) tenham a mesma pronúncia “lessê” (igual, inclusive, à do infinitivo): laissé, laissée, laissés, laissées. Isso causa confusão, principalmente, na concordância em formas “encavaladas” com outros verbos.

Conforme a reforma proposta, não apenas o particípio de faire (fazer), mas também de laisser, deve permanecer invariável antes de um verbo no infinitivo. Assim, formas como elle s’est laissée maigrir (ela se deixou emagrecer) e je les ai laissés partir (eu os deixei partir) podem se escrever respectivamente elle s’est laissé maigrir (ela se deixou emagrecer) e je les ai laissé partir (eu os deixei partir). A ortografia muda, mas a pronúncia não.

Quem puder, perceba que esta postagem basicamente traduz quase todas as informações já contidas em francês no referido site de popularização da orthographe recommandée de 1990. Existe aí também uma lista parcial das ditas “anomalias” corrigidas em certos grupos de palavras, quanto a ortografias que não seriam mais justificadas pelo tempo. Porém, pra quem domina bem o francês lido, sugiro muito que procurem o documento público Les rectifications de l’orthographe, elaborado pelo Conseil supérieur de la langue française e publicado na parte administrativa do Journal officiel de la République française. Considero-o imprescindível aos profissionais da língua (professores, tradutores e escritores), e ele é completo nas regras ortográficas, nas palavras retificadas e nos princípios político-filosóficos dos reformadores. Estou à disposição pra dirimir qualquer dúvida de vocês!



François Hollande