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25 de maio de 2018

Russos fazendo russice: a roleta russa


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/roleta




Daquelas coisas que parecem só acontecer na Rússia. Por vários meses, o caso teve repercussão nacional e gerou um rápido debate sobre o tipo de arma utilizada. Em 12 de dezembro de 2009, um jovem casal festejava em Astrakhan, cidade no sul da Rússia, a formalização das bodas no café “Aristokrat”. Os convidados estavam comendo, bebendo e se divertindo, até que Artur Dotsaiev, um amigo do noivo, chamou todos os homens à mesa principal pra conduzir um brinde especial. Ninguém tinha notado a pistola não letal em sua mão.

Eis que o convidado, no alto de sua esperteza, propôs que os varões fizessem uma “roleta russa”, como se percebe um mocinho falando: “Russkaia ruletka?”. O tamadá (vou explicar), o homem de camisa vinho com microfone, tenta impedir que Artur se dê um tiro na cabeça, mas ele acaba apertando o gatilho e nada acontece. Os poucos caras que seguiram começam o desafio, e o primeiro a pegar a arma é Sergei Fiodorov, outro convidado. Ele mal leva à arma perto da orelha, e num mínimo toque involuntário, dispara a bala! Os jornais dizem que foi toque mínimo, mas pelo que vi, Artur deu-lhe foi um tabefe na mão.

Sergei saiu de ambulância, e Artur, nascido na Tchetchênia, saiu de camburão, dando fim à alegre festa. O delito que ele cometeu poderia render-lhe 10 anos de prisão, enquanto o colega se encontrava em estado grave, dando trabalho aos médicos. Assim se informava nas primeiras notícias em dezembro de 2009 e janeiro de 2010, e então tive de pesquisar qual foi o desfecho da história. Em agosto de 2010, Artur foi logo julgado, mas o disparo foi considerado acidental, e o tribunal o absolveu, permitindo-lhe sair livremente já no fim da sessão. Mas Sergei, embora tenha sobrevivido, ficou inválido pra vida toda.

Achei o vídeo sem legendas muito por acaso, daqueles relacionados como memes antigos russos, mas encontrei vários desafios tradutórios na reportagem feita pelo canal NTV. Primeiro, o repórter fala numa travmaticheski pistolet, que de fato se traduz como “pistola traumática”, mas que diabo é isso? É uma espécie de arma não letal criada na Rússia nos anos 90, de fácil aquisição por civis. Ela é programada, com suas balas especiais, pra imobilizar rapidamente a vítima, mas não a matar. Isso, claro, se o tiro vem de longe, mas Sergei disparou na cara, ou seja, uma arma de fogo obviamente seria fatal. A atitude já idiota de Artur despertou ainda mais a ira dos russos comuns por ele ser tchetcheno: como um muçulmano comum na Europa Ocidental, foi logo alvo de preconceito e taxado de má companhia.

Abro um parêntese: alguns espectadores me alertaram pra diferença existente entre “revólver” e “pistola”, a qual infelizmente ignorei nas legendas. O primeiro tem um tamborete giratório de balas; a segunda, um cartucho inteiro, o que faz a famosa “roleta russa” possível apenas com o revólver. Perdão pela ignorância! Um rapaz até fez a seguinte zoeira: “Use pistolas num jogo para revólveres, só pode dar nisso.”

O segundo obstáculo foi tamadá. Segundo meu dicionário, que não traduz a palavra, trata-se de um “organizador de brindes”, mas tive de pesquisar mais no Google. A origem está na cultura georgiana, e numa festa grande ou pequena, é chamado pelos anfitriões pra puxar a cerimônia e, de fato, organizar os brindes (chamar a todos, recitar as fórmulas etc.), tendo nos inícios um papel moral muito importante. Hoje a função se banalizou, e mais parecida ao “mestre de cerimônias” ocidental, mas neste contexto podia ser também traduzido “animador” (que escolhi), “locutor” ou “orador”. Seu desafio é contar piadas, fazer jogos, criar um clima, mas não raro é desafiado pelos engraçadinhos, como vimos, que querem tomar seu papel de organizar brindes.

E enfim, o sledovatel, que o dicionário dá como “juiz de instrução”, mas que acabei verificando não existir na justiça brasileira, com seu papel de coletar provas dado à própria polícia. Assim, usei “investigadores” mesmo. Não vou citar fontes, porque fui caçando informações em diversas páginas russas. Felizmente, estava ativado o recurso do Google pra transcrição em texto, daí adaptei o que ia saindo ao que eu realmente escutava. Eu mesmo traduzi direto do russo, legendei, recortei o quadro e fiz umas montagens. Seguem a legendagem, que postei no canal Eslavo (YouTube), a tradução em português (sem as reduções exigidas pelas legendas) e a transcrição em russo:



Um vídeo enviado por um espectador de Astrakhan não deveria estar no ar. A filmagem privada que lembraria o casamento tornou-se o roteiro dramático que embasa um processo criminal: um dos convidados de repente saca um revólver. Come-se e bebe-se no restaurante em festa. Um tanto animado, um amigo do noivo leva os homens para um brinde. Nem todos notam a pistola não letal em sua mão. O animador tenta pará-lo, mas explicam-lhe que é um simples gesto bonito. O homem feriu-se gravemente e os médicos ainda lutam para salvar sua vida. Por que a pistola disparava? Seu dono de 38 anos, nascido na República da Tchetchênia, falhou em explicar. Afirma que havia tirado as balas, mas os investigadores não acreditaram. O amante das felicitações originais aguarda julgamento.

Видео, которое прислал наш зритель из Астрахани не должно было попасть в телеэфир. Снимали это на свадьбе для себя на память, теперь драматичные кадры – улика в уголовном деле: один из гостей неожиданно достал пистолет. Отмечают в кафе, гости выпивают и закусывают. Небольшое оживление, друг жениха водит произносить тост. Не все замечают травматический пистолет в его руке. Тамада пытается остановить, но ему объяснают: это просто красивый жест. Ранение очень тяжёлое, врачи до сих пор борются за жизнь мужчины. Почему пистолет выстрелял? Его владелец, 38-летний уроженец Чеченской республики, объяснить не смог. Утверждает, что извлёк все патроны. Следователи не поверили. Любитель оригинальных поздравлений ждёт суд.