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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Canções partisans balcânicas (4)



Em tese, minha publicação com traduções de algumas das chamadas “canções partisans” iugoslavas seria a última, por isso, sugiro que a visite pra poder ter todos os detalhes a respeito desse gênero. Porém, fiquei com vontade de traduzir outras duas, a primeira porque acho importante, e a segunda porque acho muito bonita e tocante. A primeira, em servo-croata, se chama Uz Maršala Tita (Com o Marechal Tito), e a segunda, em búlgaro, se chama “Партизан се за бой стяга” (Partizán se za boi stiága), Um partisan se prepara pra luta (ou ainda “combate”, se quiser). Embora “Iugoslávia” signifique originalmente “terra dos eslavos do sul”, e os búlgaros também sejam eslavos meridionais, a Bulgária só não se uniu ao vizinho por pouco. Portanto, mesmo mantendo a numeração, intitulei estas canções como “balcânicas”.

Na Wikipédia em inglês, achei a história da canção Uz Maršala Tita, a tradução literal em inglês e a versão poética em outros idiomas iugoslavos. Porém, mesmo não tendo feito como no passado (jogar o original no Google Tradutor), me baseei essencialmente nessa tradução, procurando também as palavras no Wikcionário, quando necessário. Isso porque tanto no caso do servo-croata quanto do búlgaro, as letras são bastante simples e conheço razoavelmente os dois idiomas. No caso de Partizan se za boi stiaga, achei o texto original e uma tradução italiana neste famoso portal de canções de protesto, que já utilizei muito no passado. Aí também, fiz várias buscas no Wikcionário.

A canção iugoslava, que tem claros traços dialetais croatas (notadamente o uso de -(i)je- ao invés de e, como em smjelo, osjetiti e svijest), também é conhecida como Pjesma o pesti (Canção sobre o punho) sendo “pjesma” também croata típico. Ela foi composta em 1943 por Vladimir Nazor (letra, um croata) e Oskar Danon (melodia, um judeu bósnio), originalmente começando com o verso “Uz Tita i Staljina, dva junačka sina” (Com Tito e Stalin, dois filhos heroicos). Segundo Danon, o povo espontaneamente “rebatizou” a canção, até a versão original ser oficialmente proibida com a ruptura entre Tito e Stalin, em 1948. A referência aos godos se deve à ideia corrente entre os fascistas croatas pró-Hitler, segundo a qual seu povo teria mais origens góticas do que eslavas, algo refutado pelos comunistas. Enquanto essa era uma peça do culto à personalidade do marechal, Partizan se za boi stiaga tem autoria anônima, datando essa gravação de 1974 pelo Coral do Comitê de Televisão e Rádio da Bulgária socialista.

Escolhi usar a palavra partisan em francês, mais adequada ao contexto de 1939-45 e mais abrangente, equivalente ao eslavo meridional partizan (com “z”) e ao italiano partigiano Em francês, significa literalmente “partidário” ou “relativo a partido(s)”, mas evitei “guerrilheiro”, que às vezes é justamente traduzido como partisan fora do contexto europeu, porque a meu ver os partisans era apenas alguns dos adeptos, como vários em outros tempos e lugares, da “tática de guerrilha”. Não sei se também foi o Partizanski pevski zbor que gravou a canção iugoslava, mas o mesmo áudio está em vários vídeos, inclusive algumas traduções pro português que ignorei. Um dos vídeos em búlgaro tem a letra original, e o outro, em tom um pouco distinto, apenas o áudio lançado com direitos autorais:


Com o filho heroico Marechal Tito,
Nem o inferno vai nos deter.
Andamos valentes, de cabeça erguida
E punho fortemente cerrado.
Andamos valentes, de cabeça erguida
E punho fortemente cerrado.

Somos todos de antiga linhagem, não godos,
Somos partes dos eslavos seculares.
Quem diz outra coisa, calunia e mente,
E vai sentir nosso punho.
Quem diz outra coisa, calunia e mente,
E vai sentir nosso punho.

Todos os dedos nas mãos, na miséria e tormento
A consciência partisan se consolidou.
E agora se preciso, pro Sol ou pro céu
Erguemos o punho bem alto.
E agora se preciso, pro Sol ou pro céu
Erguemos o punho bem alto.

____________________


Uz maršala Tita, junačkoga sina
Nas neće ni pakao smest’.
Mi dižemo čelo, mi kročimo smjelo
I čvrsto stiskamo pest.

Rod prastari svi smo, a Goti mi nismo,
Slavenstva smo drevnoga čest.
Ko drukčije kaže, kleveće i laže,
Našu će osjetit’ pest.

Sve prste na ruci u jadu i muci
Partizanska složila je svijest.
Pa sad kad i treba, do sunca do neba
Visoko mi dižemo pest.

____________________


Уз маршала Тита, јуначкога сина
Нас неће ни пакао смест’.
Ми дижемо чело, ми крочимо смјело
И чврсто стискамо пест’.
Ми дижемо чело, ми крочимо смјело
И чврсто стискамо пест’.

Род прастари сви смо, а Готи ми нисмо
Славенства смо древнога чест.
Ко друкчије каже, клевеће и лаже
Нашу ће осјетит’ пест.
Ко друкчије каже, клевеће и лаже
Нашу ће осјетит’ пест.

Све прсте на руци у јаду и муци
Партизанска сложила је свијест.
Па сад кад и треба, до сунца до неба
Високо ми дижемо пест.
Па сад кад и треба, до сунца до неба
Високо ми дижемо пест.




Um partisan se prepara pra luta,
Joga um fuzil sobre o ombro!
“Adeus, mamãe, adeus, papai,
Adeus, querida irmãzinha!
Adeus, mamãe, adeus, papai,
Adeus, querida irmãzinha!”

“Estou indo à luta feroz,
Lá onde se morre e é morto!”
Seis meses se passaram,
A mãe ainda não viu o filho.
Seis meses se passaram,
A mãe ainda não viu o filho.

Certa manhã chegou uma carta.
A mãe pensa que o filho escreveu,
E na carta, duas-três linhas,
Comunicam do monte Chumerna:
E na carta, duas-três linhas,
Comunicam do monte Chumerna:

“Seu filho já foi morto
Na luta feroz contra o inimigo!
Foi um bom camarada nosso
E um excelente partisan.
Foi um bom camarada nosso
E um excelente partisan.”

A mãe, ao invés de chorar,
Ergueu orgulhosa sua cabeça,
Pois foi assim que educou o filho –
Pra que morresse pela pátria.
Pois foi assim que educou o filho –
Pra que morresse pela pátria.

____________________


Партизан се за бой стяга,
Мята пушка на рамо!
“Сбогом, майко, сбогом, татко,
Сбогом, мила сестрице!
Сбогом, майко, сбогом, татко,
Сбогом, мила сестрице!”

“Аз отивам в боя люти,
Де се гине, де се мре!”
Шест месеца изминаха,
Майка сина не виде.
Шест месеца изминаха,
Майка сина не виде.

Една сутрин писмо стига.
Майка мисли син пише,
А в писмото два-три реда,
От Чемерник съобщават:
А в писмото два-три реда,
От Чемерник съобщават:

“Твоят син е веч загинал
В боя люти със врага!
Той ни беше добър другар
И отличен партизан.
Той ни беше добър другар
И отличен партизан.”

Вместо майка да заплаче,
Гордо вдигна тя глава,
Че отгледа такъв сина –
За родината да мре,
Че отгледа такъв сина –
За родината да мре.

____________________


Partizan se za boi stiaga,
Miata pushka na ramó!
“Sbogom, maiko, sbogom, tatko,
Sbogom, mila sestritsé!
Sbogom, maiko, sbogom, tatko,
Sbogom, mila sestritsé!”

“Az otivam v boia liuti,
De se gine, de se mre!”
Shest mesetsa izminakha,
Maika sina ne vidé.
Shest mesetsa izminakha,
Maika sina ne vidé.

Edna sutrin pismo stiga.
Maika misli sin pishé,
A v pismoto dva-tri reda,
Ot Chemernik sâobshtavat:
A v pismoto dva-tri reda,
Ot Chemernik sâobshtavat:

“Tvoiat sin e vech zaginal
V boia liuti sâs vragá!
Toi ni beshe dobâr drugar
I otlichen partizan.
Toi ni beshe dobâr drugar
I otlichen partizan.”

Vmesto maika da zaplache,
Gordo vdigna tiá glavá,
Che otgleda takâv sina –
Za rodinata da mre,
Che otgleda takâv sina –
Za rodinata da mre.



domingo, 19 de janeiro de 2025

Discurso de Tito em Split (1962)


Endereço curto: fishuk.cc/tito-split


Alguns anos atrás, publiquei aqui o pequeno trecho de um famoso discurso público de Josip Broz, o Marechal Tito, presidente da Iugoslávia socialista, feito na cidade croata de Split, em 7 de maio de 1962. Aludi então à existência de outro vídeo há muitos anos no ar, com um homem fazendo uma breve apresentação e um dos principais trechos do discurso, mas cuja transcrição nunca consegui encontrar na internet. Procurando durante algum tempo, achei alguns fragmentos, em especial do início, mas eles não contemplavam o resto da fala. E mesmo tendo estudado um pouco de servo-croata por algum tempo, nem em 2019 nem em 2025 me sinto capaz de transcrever só de ouvido, até porque às vezes o ditador fala meio rápido.

Soube que em algumas bibliotecas ao redor do mundo, inclusive a de Belgrado, existem exemplares de um Govor na narodnom mitingu u Splitu, o que parece ser a transcrição completa desse discurso publicada logo depois, com leves edições e sem cópias gratuitas online em PDF. Embora eu entenda muito pouco servo-croata, consegui tirar algumas frases de ouvido, e por esses milagres que só parecem acontecer após insights inesperados que a gente tem, ao invés de continuar procurando pelo Google, resolvi procurar pelo Yandex, o buscador russo. Ele é o maior indexador de escrita cirílica do mundo (salvo engano, pois faz muitos anos que ouvi isso), mas não procurei em cirílico, e sim em “latinica”, e mesmo assim caí neste longo artigo historiográfico, croata, que incrivelmente tinha a transcrição quase idêntica daquele primeiro vídeo específico! Tudo bem que a publicação é de 2018, mas mesmo assim me admira que o “onipotente” Google não a tenha indexado, e que eu tenha demorado tantos anos pra encontrá-la...

Mesmo contendo apenas a transcrição do primeiro trecho que legendei, e não deste, que estou apresentando sem legendas, bem como a transcrição de vários outros trechos, deixo à disposição um arquivo em PDF com trechos selecionados daquele livreto (e que tem também uma pequena nota explicativa) e uma página com a mesmíssima transcrição, mas um pouco mais abrangente no final. Num dos comentários desta publicação de um blog, há mais um trecho transcrito e não contido nos textos anteriores, mas sem o vídeo correspondente na internet. A partir da transcrição do site croata, fiz correções pra deixar mais fiel à oralidade, mesmo que isso implicasse manter algumas repetições inúteis, e troquei as palavras em ijekavica pelas formas ekavica equivalentes, usadas por Tito. Depois, joguei no Google Tradutor, corrigi o resultado (usando inclusive o Wiktionary) e padronizei a formatação.

No vídeo abaixo, as únicas modificações que fiz foram tirar a introdução com o senhor falando e recortar o quadro pra dimensão 16:9. Nota linguística: drug (pl. drugovi) e drugarica (pl. drugarice) são respectivamente o masculino e o feminino de “camarada”, que em português é um substantivo de dois gêneros, mas igualmente não, por exemplo, em alemão, que tem Genosse (masc.) e Genossin (fem.). A foto acima, com fins meramente ilustrativos, não é do discurso de Split, mas de algum outro evento parecido. Afinal, vemos que os microfones não são os mesmos e que ele está segurando um chapéu ao invés de um exemplar da revista Crusoé, rs:


Camaradas! Quando falamos aqui hoje sobre mais uma grande conquista de nossos trabalhadores, estamos orgulhosos dela. Estamos orgulhosos de tudo o que conquistamos até hoje. E, de fato, a Iugoslávia renasceu em sua industrialização, e não apenas na industrialização, mas em geral, na construção, em geral na construção! Ela não é mais o que costumava ser.

Vocês sabem que recentemente realizamos uma sessão do Comitê Executivo do Comitê Central da Liga dos Comunistas da Iugoslávia. Devo dizer que é justamente essa preocupação e inquietação com diversas anomalias que nos obrigou a analisar todos esses fenômenos de forma muito precisa, muito, como devo dizer, completa, e a criticar a nós mesmos. E, por Deus, não pouparemos ninguém das críticas. (Aplausos. Multidão canta: “Camarada Tito, nós lhe juramos que não nos desviaremos de seu caminho.”)

Camaradas! E se hoje temos dificuldades objetivas e deficiências objetivas, então elas são resultado de erros subjetivos de nossos dirigentes. (Aplausos) É claro que quando falo sobre os erros subjetivos dos dirigentes, não me refiro a todos. Mas há muitos deles! (Aplausos) E discutimos essas questões, essas mesmas questões entre nós. Eu gostaria, camaradas... (Aplausos. Grito em coro: “Tito é necessário, Tito é necessário...”) Camaradas, quando falo dos erros dos dirigentes, também me refiro à responsabilidade indireta pelo que os outros fizeram. Pois os comunistas também devem responder por tudo, mesmo agora depois da guerra, na construção do socialismo. (Aplausos estrondosos. Grito em coro: “Tito, partido...”)

Por um tempo, por um tempo, houve uma opinião constante: agora os comunistas, com a democracia e a descentralização, eles não têm mais o direito nem o dever de responder pelo desenvolvimento, pelo desenvolvimento interno de nosso país. Isso está errado! Mais uma vez devemos, mais uma vez devemos insistir que os comunistas respondem pelo desenvolvimento do socialismo! E quem mais o fará senão os comunistas?

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Drugovi i drugarice! Kada danas ovde govorimo o jednom opet velikom dostiženju naših radnih ljudi, mi se time ponosimo. Mi se ponosimo sa svime time šta smo postigli do danas. I zaista Jugoslavija je u svojoj industrijalizaciji, i ne samo u industrijalizaciji, nego u opšte, u izgradnji, opšte u izgradnji preporođena! Nije više ono što je bila.

Vi znate da smo nedavno održali sjednicu Izvršnog komiteta Centralnog komiteta Saveza komunista Jugoslavije. Ja moram da kažem da baš ta briga, i ta zabrinutost zbog raznih anomalija nas je prisilila da vrlo oštro, vrlo, kako da kažem, temeljito proanaliziramo sve te pojave i da izvršimo kritiku i sami sebe. A boga mi, nećemo štediti i sa kritikom i svi drugih. (Aplauz. Masa peva: „Druže Tito, mi ti se kunemo da sa tvoga puta ne skrenemo.“)

Drugovi i drugarice! I ako danas imamo objektivnih teškoća, i objektivnih nedostataka, onda su oni rezultat subjektivnih grešaka naših rukovodećih ljudi. (Aplauz) Ja, razume se, kada govorim o subjektivnim grešaka rukovodećih ljudi ne mislim na sve. Ali ih ima ne malo! (Aplauz) I mi ta pitanja, baš ta pitanja smo diskutirali u nas. Ja bih htio, drugovi i drugarice… (Aplauz. Horsko uzvikivanje: „Tito treba, Tito treba…“). Drugovi i drugarice, kako govorim o greškama rukovodećih ljudi, ja podrazumevam tu i indirektnu odgovornost, za ono što su drugi radili. Jer i komunisti moraju biti odgovorni za sve i sada posle rata u izgradnji socijalizma. (Gromoglasan aplauz, horsko uzvikivanje: „Tito, partija…“)

Neko vreme, neko vreme se bilo stalno mišljenje, komunisti sada, demokratija, decentralizacija, i sada oni nemaju više tako, ni pravo, a ni dužnost, da moraju, da odgovaraju za razvoj, za unutrašnji razvoj naše zemlje. To je pogrešno! Ponovno mi moramo, ponovno mi moramo stati na to, da komunisti odgovaraju za razvitak socijalizma! A tko će drugi ako ne komunisti?



domingo, 29 de dezembro de 2024

“Moj otok” e “Corsi ci steremmu”


Endereço curto: fishuk.cc/vukov-arcusgi


Hoje tomei uma iniciativa diferente! Como em meus arquivos havia uma canção de Vice Vukov e outra do grupo corso L’Arcusgi pra traduzir, e eu não tinha outras canções nem de um, nem de outro tipo pra fazer uma nova coleção, decidi publicar as duas juntas pra variar sua diversão linguístico-musical, rs. Não tenho no momento a intenção de ampliar minha coleção de canções nacionalistas corsas que traduzi uns anos atrás, pois tenho vários outros planos de traduções, mas não há nada que me impeça um dia de a retomar. Quanto à faixa de Vukov, Moj otok (Minha ilha), eu tinha demorado pra achar uma boa versão da letra, e agora que achei, me apressei em traduzir e lançar!

A canção corsa se chama Corsi ci steremu (Vamos permanecer corsos), foi composta por Louis Franceschi, um dos integrantes da banda L’Arcusgi (se lê “larcúji”), e gravada no álbum Sò elli de 1993. Este vídeo traz a legenda na língua original e em francês, cuja tradução foi copiada deste portal. Mesmo esta, porém, tem algumas imprecisões que corrigi notando sentidos óbvios ou usando o Wikcionário e até o Google Tradutor (que agora também tem corso) à guisa de dicionário. Como se pode notar, as falas entre aspas representam o colonizador francês lhes tirando o moral. O último álbum de L’Arcusgi foi lançado justamente este ano, com o título 40 anni: Eterna lotta (40 anos: Luta eterna).

Nesta página do Facebook achei uma transcrição mais fiel de Moj otok, canção composta por Zvonko Špišić, enquanto a deste blog tem vários erros e imprecisões. Confesso que esta, sim, traduzi pelo Google, mas fiz várias conferências usando o Wikcionário, rs. Não vou novamente apresentar a vida e a obra de Vice Vukov, que podem ser lidas na última edição das traduções de suas músicas, nem de L’Arcusgi, disponível em meu link acima.


Tenho minha própria ilha
E uma casa perto de um grande pinheiro
Longe do mundo
No meio do mar

Tenho minha nascente e ribeiro
E alecrim, cipreste e floresta
E uma velha agave em flor
Numa estrada empoeirada

Tenho minha própria ilha
E uma brilhante lagoa tranquila
Como uma concha mágica
De prata e areia

Sobre minha ilha se aglomeram
E se reúnem enxames de estrelas
Sobre elas os pássaros perdidos
Fazem seus ninhos

Minha ilha é uma baía
E um porto pra barcos cansados
Onde o viajante que desejar
Encontra um abrigo e uma lareira

Minha ilha é um lagarto
Que cochila solitário sob o Sol
Minha ilha azul está te esperando
Mas você não está, não está aqui

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Ja imam svoj otok
I kuću kraj velikog bora
Daleko od svijeta,
Na sredini mora

Ja imam svoj izvor i potok,
I ružmarin, čempres i šumu
I staru agavu u cvatu
Na prašnjavu putu

Ja imam svoj otok
I tihu lagunu što ljeska
Ko čarobna školjka
Od srebra i pijeska

Nad mojim se otokom jate
I skupljaju rojevi zvijezda
Na njemu zalutale ptice
Savijaju gnijezda

Moj otok je zaton
I luka za umorne lađe
Gdje namjerni putnik
I zaklon i ognjište nađe

Moj otok je gušter
Što na suncu usamljen drijema
Moj plavi otok te čeka
Al’ tebe nema i nema.


1. Venham, meus queridos e queridas
Convidamos vocês a cantar
Porque parece que hoje
Não sabemos mais fazer isso
Parece que nossas canções
Só falam sobre matar
Querem nos dar lições:
“Quem sabe das coisas não vive aqui...”

Refrão:
Vamos permanecer corsos
Com nossas tradições
E vamos sempre atacar
A colonização

2. Venham, meus queridos e queridas
Chamamos vocês pra festejar
Porque parece que hoje
Não sabemos mais fazer isso
Gente bem-intencionada
Quer nos fazer passar
Por um bando de alienados:
“Não vamos deixar que eles ajam...”

(Refrão)

3. Venham, meus queridos e queridas
Precisamos confraternizar
Porque parece que hoje
Não sabemos mais fazer isso
Os saqueadores e enganadores
[Lit. “Os corvos e as raposas”]
Gritam aqui e acolá
Mas nós, corsos, somos pela paz:
“A que preço, meu camarada...”

(Refrão)

Vamos permanecer corsos
Com nossas tradições
E juntos vamos construir
A Nação Corsa

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1. Aiò cari, aiò care,
V’invitemu a cantà
Per via chì oghje pare
Ùn sapemu più la fà
Pare ch’è nostre canzone
Parlanu chè di tumbà
Ci volenu dà lezzione:
“Sò furdane què si sà...”

Ripigliu:
Corsi ci steremu
Cù e nostre tradizione
E sempre impetteremu
A culunisazione

2. Aiò cari, aiò care
Vi chjamemu a festighjà
Per via chì oghje pare
Ùn sapemu più la fà
I sapiente intenziunati
Ci volenu fà passà
Per un pugnu d’alienati:
“Ùn li lascieremu fà...”

(Ripigliu)

3. Aiò cari, aiò care,
Ci tocc’a fraternizà
Per via chì oghje pare
Ùn sapemu più la fà
E curnachje e vulpacce
Stridanu quind’è quallà
Simu Corsi per’a pace:
“A chì prezz’o sgiò cumpà...”

(Ripigliu)

Corsi ci steremu
Cù e nostre tradizione
E insème feremu
A Corsica Nazione



quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Idiomas da antiga Iugoslávia socialista


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/servocroata


Mapa da antiga Iugoslávia socialista (“SFRJ”) com a indicação geográfica dos idiomas falados. Todos eles pertencem ao chamado ramo meridional, que inclui também o búlgaro, do grupo eslavo das línguas indo-europeias. Não estão indicadas outras línguas minoritárias, como o húngaro, o ruteno, o romani, o albanês, o romeno e o arromeno.

No extremo norte, o esloveno, e no extremo sul, o macedônio. As partes coloridas indicam os muitos dialetos do que era então chamado “servo-croata” (hoje sérvio, croata e bósnio; segundo alguns, também “montenegrino”): o “shtokaviano” (štokavski, que baseou as línguas literárias), o “kajkaviano” (kajkavski) e o “chakaviano” (čakavski). Cada um é nomeado segundo a forma como se diz a palavra “quê?”: što, kaj ou ča.

Predominante, o dialeto “shtokaviano” se dividia entre os falares (narečja) “ekaviano” (ekavsko, base do atual sérvio literário), “jekaviano” (jekavsko, base do atual croata literário) e “ikaviano” (ikavsko, comum na Dalmácia, onde pode ser observado em muitas canções populares regionais).

A belíssima imagem foi retirada da primeira contracapa do livro Serbo-Croatian Reading Passages (1968), da professora Slavna Babić, que também lecionava inglês e escrevia livros ensinando essa língua. Seus manuais são todos escritos no alfabeto latino, pois o uso do cirílico é associado à exclusiva identidade cultural ortodoxa sérvia, e sob o socialismo o latino também era visto como uma escrita mais internacional. Hoje mesmo, também é amplamente usado na Sérvia, sobretudo na televisão e na internet; na Croácia, o alfabeto latino é o único usado, e na Bósnia ambos são usados.


quarta-feira, 3 de maio de 2023

“Kud plovi ovaj brod” (Radojka Šverko)


Endereço curto: fishuk.cc/sverko-brod


Hoje apresento a cantora iugoslava (croata) Radojka Šverko, sua voz potente e a linda e poética canção Kud plovi ovaj brod (Aonde vai esse barco), com letra de Arsen Dedić (croata) e melodia de Esad Arnautalić (bósnio). Como já publiquei neste texto, o cantor italiano Sergio Endrigo participou em 1970 do célebre festival musical de Split, localizada na Croácia (então parte da antiga Iugoslávia), e cantou Kud plovi ovaj brod no dialeto servo-croata que seria hoje conhecido como a língua croata. O Festival de Split, realizado desde 1960, é famoso ainda hoje por lançar as grandes celebridades da música croata, como Radojka Šverko, que interpretou a mesma música na mesma ocasião que Endrigo. Os arranjos foram feitos então por Stipica Kalogjera (n. 1934), conhecido compositor, arranjador, maestro e produtor croata, nascido em Belgrado. Especialmente por ocasião daquela edição do festival de Split, Endrigo gravou um compacto cuja faixa 2 era Više te volim (Mais quero você), outra canção em croata. Ele era amigo pessoal de Arsen Dedić e tinha uma relação muito especial com a Croácia.

O original do primeiro vídeo abaixo, com Šverko cantando em Split em 1970, está nesta página, e apenas o legendei e cortei. No segundo vídeo, ela executa a mesma canção na Sala de Concertos Vatroslav Lisinski em 1986, numa situação não identificada (talvez um show dela). A Sala Lisinski está situada em Zagreb, capital da Croácia, foi inaugurada em 29 de dezembro de 1973 e já passou por várias reformas. Eu baixei o vídeo original desta página, e também apenas legendei e cortei. Comparando com a apresentação de 1970, sua técnica vocal está bem mais aprimorada. Alguns traços da letra são explicitamente croatas, como i’ko, contração de itko (alguém, quem é que), uvijek (pra sempre) e ostat ću (vou ficar), mas são perfeitamente compreensíveis a quem domina sérvio ou bósnio.

Radojka Šverko (n. 1948) é uma cantora ainda muito célebre em seu país, tendo participado em inúmeros festivais lá mesmo e ao redor do mundo, e se apresentado pela primeira vez nesse festival de Split em 1970. No mesmo ano, chegou a concorrer no Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, com a canção Svijet je moj (O mundo é meu), e em 1971 retornou com Balada o snježnoj nevjesti (Balada sobre a noiva de neve). Embora o ápice de sua carreira fosse nas décadas de 1970 e 1980, parece que ela sempre manteve a discrição quanto ao sucesso e obtinha mais retorno quando atuava no exterior. Tem duas filhas de dois ex-maridos, e hoje vive na cidade de Rijeka (Fiume). Arsen Dedić (1938-2015), cantor, compositor e poeta, tornou-se um respeitado nome da canção pop e popular desde os tempos comunistas, e sua família também se dedica à música. Esad Arnautalić (1939-2016), maestro, produtor e redator, foi um dos fundadores da chamada “escola pop-rock de Sarajevo”, alcançou fama na banda iugoslava Index e compôs pra muitos outros cantores e grupos.

Num momento em que a valorização das mulheres está sendo seguida por constantes denúncias de assédio físico, moral e sexual e pela conscientização sobre a amplitude e gravidade desse problema no Brasil e no mundo, no cinema e no esporte, a canção simboliza os dilemas de um relacionamento amoroso. Quando nos apaixonamos e queremos nos entregar totalmente, não sabemos o que o futuro nos reserva, estamos totalmente entregues à corrente e os riscos corridos são iminentes. As mulheres se dão de corpo e alma num namoro ou casamento, mas não raro os companheiros as veem como coisas, bens sociais, que lhes devem total obediência e passividade. Daí o sofrimento da agressão ser tão dilacerante, pois há um rompimento de expectativas e a sensação de que fora da bolha, a situação seria pior.

Nesta página bósnia, pode-se ler a notícia sobre a morte de Arnautalić, e neste vídeo há um pequeno trecho da atuação de Endrigo com a canção em Split. Na versão de 1986, Šverko cantou apenas as duas primeiras estrofes e o refrão, repetindo tudo depois, mas na segunda vez ela troca o verso “Kud ljude odnosi” (Aonde leva as pessoas) por “Što srce odnosi” (Que leva o coração). Seguem abaixo as duas legendas e a letra em croata (a tradução já está nos vídeos e em minha publicação citada):




Kud plovi ovaj brod,
Kud ljude odnosi?
I da li i’ko zna
Što more sprema?

Kud vodi ovaj put,
Kojim smo krenuli?
Od svega samo znam,
Povratka nema.

2x:
Na moru ljubavi
I na pučini sna,
U plavom beskraju
Uvijek ostat ću ja.

Kud plovi ovaj brod
Što srce odnosi?
Taj put je tako dug,
Al’ luka nema.

2x:
Na moru ljubavi
I na pučini sna,
U plavom beskraju
Uvijek ostat ću ja.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Tito encontra Gaddafi na Líbia (1970)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/tito-gaddafi


Achei este vídeo num ótimo canal de que gosto muito por conter vastíssimo material sobre a antiga Iugoslávia e a resistência antifascista. Fiquei com dó de “copiar” o vídeo de um canal tão valoroso e que merece mais visualizações, mas pra ser sincero, dada sua indisposição em explicar o conteúdo e seu costume de postar, quase sempre, materiais prontos com ínfimas alterações, estou cometendo esse “pecado”.

Este vídeo é um resumo documental da visita que o marechal Josip Broz Tito, ex-ditador da Iugoslávia, fez à Líbia recém-submetida ao golpe militar de Muammar Gaddafi, coronel do Exército que tiranizaria o país até 2011, após uma longa viagem pela África. Esse é um dos raros registros em que Gaddafi ainda aparece com roupas militares normais e um visual menos “descabelado”, quando seu regime parecia caminhar mais pra uma ditadura socialista pró-soviética e antes dele começar suas loucuras excêntricas de tenda, bandeira verde, roupas coloridas e “jamahiriya”. Gaddafi, inclusive, se dizia sucessor do movimento pan-arabista do egípcio Nasser, e era esse tipo de governos que Tito mais visava pra se contrapor com o “Movimento Não Alinhado” tanto aos EUA quanto à URSS.

O vídeo é falado em servo-croata, mas como não tive tempo de transcrever, eu traduzi as legendas em inglês já prontas mesmo, que parecem estar bem fiéis. Este vídeo mostra a mesma cobertura do evento, mas com menos variação de cores e vários selos chatos. Eu apenas cortei o quadro da publicação original (na verdade, os espaços pretos que ficavam do lado), e segue abaixo a tradução pra quem não sabe inglês:


O presidente Tito viajou de Assuã [cidade no Egito] para a Líbia com sua esposa e seus colegas. Os visitantes da Iugoslávia foram recebidos no Aeroporto de Trípoli pelo presidente do Conselho Revolucionário, o coronel Gaddafi. O presidente Gaddafi e o presidente Tito tiveram um encontro muito caloroso. Um grande número de cidadãos iugoslavos que vivem e trabalham nesse país também estavam presentes. Os cidadãos de Trípoli receberam o presidente Tito como um visitante querido e um amigo leal do povo árabe. O presidente Tito é conhecido na Líbia como um homem que está pronto pra usar sua inestimável experiência ajudando todos em sua luta por paz e progresso. Durante as conversas oficiais ocorridas no Palácio do Povo, foi enfatizada a crise no Oriente Médio. Nesse âmbito, ambos os países partilham das visões idênticas de que é uma hora ideal pros países não alinhados usarem de sua influência na ONU e que todos devem seguir as decisões dessa organização. A visita do presidente Tito ajudou a melhorar a cooperação bilateral, mas sobretudo a cooperação econômica. O novo governo líbio quer intensificar a cooperação nesse campo. As delegações econômicas dos dois países deram passos adiante. O presidente Tito se despediu do continente africano depois de uma visita que durou mais de um mês. Todos os países que ele visitou apoiam fortemente o Movimento dos Países Não Alinhados e expressaram seu anseio por uma Cúpula imediata. Isso, bem como visitas anteriores, confirmou e ampliou a amizade entre nosso país [Iugoslávia] e os países e nações africanos.


terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Aprenda o alfabeto cirílico sérvio


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Eis um vídeo que data do tempo de meu antigo canal no YouTube, Pan-Eslavo Brasil: um manual sobre o alfabeto cirílico usado pela língua sérvia, um idioma eslavo meridional. O alfabeto cirílico sérvio é mais fácil do que seu equivalente russo, mas razoavelmente diferente, por isso ele não deve ser usado diretamente pra decalcar o segundo. Uma das vantagens é que ele é totalmente fonético, e seus sons, absolutamente previsíveis, muito parecidos com os do português e, portanto, facilmente reproduzíveis por (sobretudo) um brasileiro. De fato, as línguas eslavas meridionais são fonética e gramaticalmente mais simples do que as eslavas orientais (russo, belarusso e ucraniano), e soam muito bonito.

Tentei dar uma explicação bem didática, fácil de entender, sem renunciar a conceitos mais complexos que ajudassem a sistematizar melhor o conteúdo. Por exemplo, ao lado de exemplos do português (brasileiro), inglês e outras línguas ocidentais, uso muito o alfabeto fonético internacional (IPA), que padroniza a simbologia fonológica. Cada fonema é indicado entre barras oblíquas ( / ), o que não faço com os exemplos de grafias em outras línguas. Infelizmente, cometi umas poucas imprecisões na hora de gravar o áudio, mas nada que afetasse a qualidade geral do conteúdo.

A chamada “língua servo-croata” foi a padronização de um dialeto do sérvio com a incorporação de traços de outras regiões da antiga Iugoslávia, como a Croácia e a Bósnia e Herzegóvina. Atualmente, com a desintegração do país comunista, cada país considera seu idioma como um próprio: croata, bósnio e sérvio (por vezes ainda, montenegrino), mas ainda integrados dentro de um chamado “diassistema” chamado “servo-croata” ou “BCS” – também chamado “língua policêntrica”, como o português (europeu e brasileiro) e o persa (iraniano, dari/afegão e tajique). Os alfabetos latino (latinica) e cirílico (ćirilica) eram intercambiáveis entre si, e até hoje se usam igualmente na Bósnia e em Montenegro. Mas na Sérvia, por sua tradição cristã ortodoxa, adota-se o cirílico (com o latino ganhando cada vez mais terreno), e na Croácia, dado o catolicismo, exclusivamente o latino.

Não tem aí nenhum som que não seja também encontrado, por exemplo, no croata, mas os dois padrões diferem consideravelmente no vocabulário e na sintaxe, além de terem algumas diferenças de pronúncia, como a ocorrência maior de “iê” (je/ije) na Croácia. Enquanto neste, por exemplo, fala-se svijet (luz), em sérvio se diz svet. Além disso, apesar da semelhança, não há um intercâmbio automático entre letras do cirílico e do latino, este possuindo vários dígrafos (duas letras pra um som). Espero que você aprenda algo com meu vídeo!

Seguem as traduções dos cinco textos/diálogos em cirílico. A fonte é o livro Serbo-Croatian for Foreigners, v. I, de Slavna Babić, reimpressão de 1991 da 2.ª edição de 1981. Não custa lembrar que os substantivos pátrios, assim como em inglês e ao contrário dos adjetivos, se escrevem com inicial maiúscula. Na primeira fase do livro, todos os personagens ainda se tratam por vi (2.ª pess. pl., tratamento formal), independente de suas relações:

1. – Eu sou iugoslavo, e você é inglês. Quem é iugoslavo? – Você é iugoslavo. – Eu sou iugoslava. Você é o quê? – Eu sou inglesa. – Quem é americana? – Rita.

2. – Bom dia, Natasha. Como vai? – Bem, obrigada. E você, como vai? – Bem. Como está seu marido? – Ele também está bem.

3. Este é Đorđe Marković. Ele é irmão de Marko. O irmão dele [de Marko] é mecânico. Quem é o irmão de Đorđe? Marko é o irmão dele.

4. Vera é irmã de Nada. Ela é uma mulher alta e bonita, mas é magra. O marido de Vera é um homem alto e bonito. A: O marido de Vera é gordo ou magro? B: Ele é magro. A: Você é alto e magro?

5. – De quem é este gorro? – Talvez seja de Vera ou de Branka. – Branka, este não é seu gorro? – Qual? – Este aqui. – Não é. – Ele é seu, Vera? – Ah, sim, é meu. Obrigada. – De nada.



quarta-feira, 12 de junho de 2019

Mama Juanita (filme “Un día de vida”)


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Desde o ano passado, quando conheci o cantor Vice Vukov, eu já queria ter legendado esta canção em homenagem ao Dia das Mães, mas não consegui achar a letra. Finalmente, achei por acaso publicada num cancioneiro croata a letra de Draga mama (Mamãe querida), a tradução croata de Mama Juanita (às vezes “Huanita”), música que fez sucesso por causa do filme mexicano Un día de vida (1950, direção de Emilio Fernández, roteiro dele e de Mauricio Magdaleno). Este filme velhíssimo, porém, ficou esquecido por décadas no México, mas fez sucesso na antiga Iugoslávia (sob o nome Jedan dan života), onde seu tema principal recebeu diversas versões em croata e até esloveno, sempre com toada mexicana. No próprio México, a mesma melodia com outra letra é mais conhecida pela canção Las mañanitas, uma tradição dos aniversários.

A história do filme e da música é muito engraçada. Trata-se de dois homens durante a Revolução Mexicana, o general Felipe Gómez e o coronel zapatista Lucio Reyes, condenado à pena de morte em 1919 por se rebelar em armas contra o assassinato do líder revolucionário Emiliano Zapata. Os dois oficiais eram dois amigos de infância, mas depois se tornaram adversários, tendo Gómez sido encarregado de fuzilar Reyes. A mãe do que está preso, única parente com quem tinha contato e que já tinha perdido outros dois filhos durante a revolução, não sabe dessa mudança na relação: “Mamá Juanita” foi interpretada por Rosaura Revueltas (1910-1996), atriz mexicana de teatro e de cinema, e também dançarina, escritora e professora. Como último pedido de Reyes, deixam que ele vá visitar a mãe, acompanhado da jornalista cubana Belén Martí, que tinha vindo acompanhar as últimas mudanças no país. A graça do filme está em que o filho canta várias canções populares pra Juanita (inclusive Las mañanitas, que ele lhe cantava em todos os seus aniversários), que não pode conter as lágrimas, assim como Belén, que se apaixona por ele. Reyes poderia escapar da morte reconhecendo o governo, mas convicto de sua fidelidade a Zapata, deve voltar à prisão, e na manhã seguinte é fuzilado, tendo seu corpo sido retirado por Juanita.

Emilio Fernández, que era conhecido como “El Indio”, dedicou Un día de vida ao escritor cubano José Martí, herói nacional, e o homenageou dando esse sobrenome a Belén e recordando várias frases suas e partes de sua vida na história. Era o enredo perfeito pras necessidades do marechal Josip Broz Tito de legitimar a ruptura de sua Iugoslávia com a União Soviética de Iosif Stalin, mas a importação acabou também gerando gosto duradouro pelo cinema e música mexicanos no país balcânico. Isso só foi possível porque, com a cisão entre os dois países, Belgrado teve de tirar repentinamente de cena a maior parte dos filmes e discos em russo. Exibido em todas as repúblicas federais desde 1952, Un día de vida é bastante emocionante e dramático, levando umas duas gerações de iugoslavos ao choro nos cinemas. Elas possivelmente se identificaram com os personagens e enredo, por terem recentemente perdido parentes e amigos na 2.ª Guerra Mundial, não raro fuzilados pelos nazifascistas.

A partir dos anos 1950, quando foi decaindo a influência soviética, começou a primeira onda musical popular do pós-guerra, que consistiu justamente na música mexicana. Mama Juanita (o “j” espanhol soa idêntico ao “h” em servo-croata), traduzida nas línguas da Iugoslávia, influenciou todo um gênero que se desenvolveu no país nas décadas de 1950 e 1960. Artistas locais inclusive gravavam canções no célebre estilo mexicano mariachi, entre eles Slavko Perović e Nevenka Arsova, e Mama Juanita foi cantada por gente tão diferente quanto Ivo Robić, Nikola Karović, Mišo Kovač e a banda Pro Arte. E pra agravar os laços, o negativo original se perdeu durante o incêndio da Cineteca Nacional no México, em 1982, e a última cópia conhecida desse filme estaria guardada na Cinemateca Iugoslava, ou Arquivos do Filme Iugoslavo (Jugoslovenska kinoteka). A instituição até hoje funciona em Belgrado, hoje capital da Sérvia, mas embora possa ser de alto interesse dos mexicanos, é quase impossível conseguir uma cópia individual.

É sintomático que nas Wikipédias não haja nenhum artigo sobre o filme ou a música, nem em inglês e espanhol, nem mesmo numa das línguas da antiga Iugoslávia. Na Wikipédia, achei o artigo “Serbian pop” em inglês, os artigos sobre os cantores citados em servo-croata e os artigos sobre o mariachi nas duas línguas. Em blogs isolados que tive de caçar pelo Google há postagens em inglês e espanhol sobre Un día de vida e Mama Juanita, como a do “In Dreams”, com várias fotos e cartazes mexicanos e iugoslavos da época, e do “Hemeroteca” (em espanhol), que por sua vez copiou de outra fonte. Nas páginas 154 e 155 de Modern Mexican Culture: Critical Foundations, editado por Stuart A. Day e do qual achei alguns trechos no Google Livros, há também algumas informações sobre o filme.

A primeira montagem abaixo, com áudio de Vice Vukov, é um lindo trabalho com pinturas francesas e europeias, e eu apenas baixei pra pôr as legendas traduzidas. A segunda montagem, que eu mesmo fiz, tem o primeiro áudio da dupla croata Kraljevi ulice (“Os reis da rua”), gravado em 1994, e o segundo áudio do Trio Tividi, que gravou em 1961, bem quando vigorava a moda, e por isso a produção é menos dinâmica. Todos esses cantores são croatas, então posso dizer que traduzi a letra direto do croata, mas o texto-base que achei tem várias diferenças com todas as versões cantadas que encontrei. Segundo pude apurar, a canção mexicana tem autoria de Antonio Díaz Conde, enquanto o tradutor pro servo-croata foi Mario Kinel. Seguem abaixo as duas legendagens, as três letras em croata e suas traduções em português. Vejam o segundo vídeo duas vezes, lendo uma legenda de cada vez:




1. Nek’ putem sad tvoga života
Mnogo sreće za tebe bude,
I srca ti sada naša
Mnoge želje u susret trude.

Pripjev (2x):
Nek’ oči tvoje brižne
Vječno krasi topli sjaj,
Nek’ je tebi, o draga mama,
Sad posvećen pozdrav taj.

2. Zaboravi majčice brige,
Tužne misli dušu što bole,
I ponosno digni čelo,
Jer te srca mnoga još vole.

(Pripjev 2x)


1. Nek’ putem kojim si pošla
Mnogo sreće za tebe niče,
I srce ti sada naše
Svoje želje u susret kliče.

Pripjev:
Nek’ oči tvoje brižne
Vječno krasi topli sjaj,
Nek’ je tebi mama Huanita
Sad posvećen pozdrav taj.

2. Zaboravi majčice brige,
Tužne misli dušu što more,
I ponosno digni čelo,
Jer te mnoga srca još vole.

(Pripjev)

3. Još jednom čestitamo sada
Tebi rođendan o mama,
I želimo tebi od srca
Da još dugo budeš s nama.

(Pripjev)


1. Nek’ putem na koji si pošla
Mnogo sreće za tebe niče,
I srce ti sada naše
Svoje želje u susret kliče.

Pripjev:
Nek’ oči tvoje brižne
Vječno krasi topli sjaj,
Nek’ je tebi mama Huanita
Sad posvećen pozdrav taj.

2. Zaboravi majčice brige,
Tužne misli dušu što bole,
I ponosno digni čelo,
Jer te srca mnoga još vole.

(Pripjev)

3. Još jednom čestitamo sada
Tebi rođendan o mama,
I želimo tebi od srca
Da još dugo budeš s nama.

(Pripjev)

1. Que agora no curso de sua vida
Haja para você muita felicidade,
Que nossos corações lancem agora
Muitos desejos direcionados a você.

Refrão (2x):
Que um forte brilho eterno
Enfeite seus olhos cuidadosos,
Que seja agora, mamãe querida,
Dedicada a você esta saudação.

2. Mãezinha, esqueça as aflições,
As ideias ruins que ferem a alma,
E erga a cabeça orgulhosamente,
Pois muitos corações ainda te amam.

(Refrão 2x)


1. Que no caminho que você andou
Muita felicidade venha para você,
Que nosso coração exclame agora
Seus desejos direcionados a você.

Refrão:
Que um forte brilho eterno
Enfeite seus olhos cuidadosos,
Que seja agora, mamãe Juanita,
Dedicada a você essa saudação.

2. Mãezinha, esqueça as aflições
As ideias ruins que afligem a alma,
E erga a cabeça orgulhosamente
Pois muitos corações ainda te amam.

(Refrão)

3. Agora felicitamos mais uma vez
Você, mamãe, pelo aniversário,
E lhe desejamos de todo coração
Que viva muito tempo ainda conosco.

(Refrão)


1. Que no rumo que você escolheu
Muita felicidade venha para você,
Que nosso coração exclame agora
Seus desejos direcionados a você.

Refrão:
Que um forte brilho eterno
Enfeite seus olhos cuidadosos,
Que seja agora, mamãe Juanita,
Dedicada a você essa saudação.

2. Mãezinha, esqueça as aflições
As ideias ruins que ferem a alma,
E erga a cabeça orgulhosamente
Pois muitos corações ainda te amam.

(Refrão)

3. Agora felicitamos mais uma vez
Você, mamãe, pelo aniversário,
E lhe desejamos de todo coração
Que viva muito tempo ainda conosco.

(Refrão)


Adendo (18/12/2024): Na mesma época em que fiz a pesquisa pra esta publicação e redigi o texto final, também achei uma versão em esloveno da canção Mama Juanita, mas já não sei mais qual foi a fonte (portanto, nem o tradutor também). Porém, guardei o texto até hoje, não traduzi, e só agora tive tempo de conferir com um áudio original que também achei ao acaso, fazer uma tradução básica e finalmente inserir aqui este presente de Natal!

Os artistas que cantam, em claro estilo esloveno influenciado pela Áustria, seguem no vídeo acima, e abaixo segue a letra que não sei se está na língua padrão, mas que joguei primeiro no Google Tradutor e à qual dei depois uma forma final aceitável em português, embora não saiba se a tradução está exata. O sentido não muda muito em relação às principais versões em servo-croata, e se alguém desejar, pode comentar ou me contatar pra fazer qualquer sugestão ou correção:

1. Nek’ putem na kojem si pošla
Mnogo sreče sa tebe biče,
I srce ti sada naše
Svoje želje u sret kliče.

Refren:
Nek’ oči tvoje briže
Večno krasi topli sjaj,
Nek’ je tebi mama Juanita
Sad posveča pozdrav taj.

2. Zaboravi ču majčice brige,
Tužne misli dušo što bole,
I ponosno digni sa čelom,
Jer te srca mnoga još vole.

(Refren)

3. Još jednom čestitamo sada
Tebi rodžendan dan o mama,
I želimo tebi od srca
Da još dugo budeš sa nama.

(Refren)

____________________


1. Que pela estrada que você percorreu
Haja muita sorte pra você,
E agora nosso coração deseja
Que seus desejos se realizem.

Refrão:
Que seus olhos eternamente
Conservem o lindo brilho ardente,
Que pra você, mamãe Juanita
Seja dedicada agora esta saudação.

2. Mãezinha, esqueça as preocupações,
Ideias tristes que machucam a alma,
E levante sua cabeça com orgulho,
Pois muitos corações ainda te amam.

(Refrão)

3. Mais uma vez desejamos agora
Feliz aniversário pra você, mamãe,
E desejamos do fundo do coração
Que ainda viva muito tempo conosco.

(Refrão)



domingo, 7 de abril de 2019

“Bože pravde” (hino do reino da Sérvia)


Endereço curto: fishuk.cc/bozepravde


Eu já tinha traduzido a versão republicana deste hino, mas apresento agora uma segunda versão integral, como hino do Reino da Sérvia, uma monarquia constitucional que existiu na Europa Meridional de 1882 a 1918 e foi governada pelos reis Milan, Aleksandar e Petar. Ele se chama “Боже правде”, em alfabeto latino Bože pravde (Ó, Deus de justiça), e foi composto em 1872 por Davorin Jenko (melodia) e Jovan Đorđević (letra). Foi adotado pela primeira vez no Principado da Sérvia em 1878, e depois pelo sucessor Reino da Sérvia, tendo passado por diversas modificações conforme o monarca que governava e o tipo de regime do país. Em 1918 passou a integrar o hino do recém-formado Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, futuro Reino da Iugoslávia, junto com as canções desses povos, até o fim da monarquia em 1941.

Durante o regime comunista do Marechal Tito, o hino da Iugoslávia foi Hej, slaveni (Ei, eslavos). Em 1992, com a desintegração da Iugoslávia socialista, outras canções foram propostas pra ser adotadas como hino sérvio, mas jamais houve aprovação oficial. Apenas em 8 de novembro de 2006, após se separar de Montenegro, a Sérvia abandonou Hej, slaveni e reconheceu novamente Bože pravde em sua Constituição, e em 11 de maio de 2009 o hino finalmente foi ratificado em lei. Até 2006 ele também servia de hino da República Sérvia (Republika Srpska, não confundir com a República DA Sérvia), uma região de maioria sérvia constituinte da Bósnia e Herzegóvina, mas seu uso foi proibido pra não se discriminarem as outras nacionalidades aí residentes.

O atual hino nacional da República da Sérvia (capital Belgrado) possui as mesmas estrofes antigas, com vários versos mudados em relação à versão inicial, pra tirar as referências à monarquia. O último verso da segunda estrofe era Srpskog Kralja, srpski rod (O Rei sérvio e o povo sérvio) e foi trocado por Srpske zemlje, srpski rod (As terras sérvias e o povo sérvio). O anterior Srpske Krune novi sjaj (Brilha de novo a Coroa sérvia) se tornou Srpske slave novi sjaj (Brilha de novo a glória sérvia), e o antigo Kraljevinu srpsku brani (Proteja o reino dos sérvios) mudou pra Otadžbinu srpsku brani (Proteja a pátria dos sérvios). A versão mais corrente, que já postei aqui, é um encurtamento que usa apenas as duas primeiras estrofes, mas estes vídeos têm o texto integral dos tempos da monarquia.

Eu mesmo traduzi direto do sérvio (às vezes cotejando com a mediana tradução francesa da Wikipédia) e legendei, tendo baixado deste vídeo o primeiro áudio e deste vídeo o segundo áudio. Podem-se ler minhas raras legendas trilíngues, ou seja, uma linha em cirílico, outra em latino e outra em português: por que não ver o vídeo três vezes, lendo uma parte por vez? Alguns versos, diferentes na segunda versão, figuram entre colchetes. Seguem abaixo minhas legendagens, as letras em sérvio e a tradução em português:




Bože pravde, ti što spase
od propasti dosad nas,
čuj i odsad naše glase
i od sad nam budi spas.

Moćnom rukom vodi, brani
budućnosti srpske brod,
Bože spasi, Bože hrani,
srpskog Kralja, srpski rod!

Složi srpsku braću dragu
na svak’ dičan slavan rad,
sloga biće poraz vragu
a najjači srpstvu grad.

Nek’ na srpskoj blista grani
bratske sloge zlatan plod,
Bože spasi, Bože hrani,
srpskog Kralja, srpski rod!

Nek’ na srpsko vedro čelo
tvog ne padne gneva grom,
blagoslovi Srbu selo,
polje, njivu, grad i dom!

Kad nastupe borbe dani
k’ pobedi mu vodi hod,
[v’ pobedi ti zvoni hod,]
Bože spasi, Bože hrani,
srpskog Kralja, srpski rod!

Iz mračnoga sinu groba
srpske Krune novi sjaj,
[srpske sloge novi sjaj,]
nastalo je novo doba,
novu sreću, Bože daj!

Kraljevinu srpsku brani,
pet vekovne borbe plod,
[Otadžbinu srpsku brani,
šest vekovne borbe plod,]
Bože spasi, Bože hrani,
moli ti se srpski rod!

____________________


Боже правде, ти што спасе
од пропасти досад нас,
чуј и одсад наше гласе
и од сад нам буди спас.

Моћном руком води, брани
будућности српске брод,
Боже спаси Боже храни,
српског Краља, српски род!

Сложи српску браћу драгу
на свак’ дичан славан рад,
слога биће пораз врагу
а најјачи српству град.

Нек’ на српској блиста грани
братске слоге златан плод,
Боже спаси, Боже храни,
српског Краља, српски род!

Нек’ на српско ведро чело
твог не падне гнева гром,
благослови Србу село
поље, њиву, град и дом!

Кад наступе борбе дани
к’ победи му води ход,
[в’ победи ти звони ход,]
Боже спаси, Боже храни,
српског Краља, српски род!

Из мрачнога сину гроба
српске Круне нови сјај,
[српске слоге нови сјај,]
настало је ново доба,
нову срећу, Боже дај!

Краљевину српску брани
пет вековне борбе плод,
[Отаџбину српску брани
шест вековне борбе плод,]
Боже спаси, Боже храни,
моли ти се српски род!

____________________


Ó, Deus de justiça, que até hoje
tem nos livrado da desgraça,
continue ouvindo nossas vozes
e desde já seja nossa salvação.

Guie, proteja com mão forte
o barco sérvio do futuro,
Deus salve, Deus proveja
o Rei sérvio e o povo sérvio!

Una os caros irmãos sérvios
nos labores de honra e glória,
a derrota do diabo será a paz
e maior fortaleza dos sérvios.

Que no galho sérvio brilhe
o fruto áureo da paz fraterna,
Deus salve, Deus proveja
o Rei sérvio e o povo sérvio!

Que na limpa testa sérvia
você não lance o raio da ira,
abençoe a aldeia, lavoura,
campo, cidade e lar sérvios!

Quando vierem dias de luta,
guie nossa marcha à vitória,
[convoque a marcha na vitória,]
Deus salve, Deus proveja
o Rei sérvio e o povo sérvio!

Da tumba escura do filho
brilha de novo a Coroa sérvia,
[brilha de novo a paz sérvia,]
começou uma nova época,
Deus nos dê uma nova sorte!

Proteja o reino dos sérvios,
fruto de cinco séculos de luta,
[Proteja a pátria dos sérvios,
fruto de seis séculos de luta,]
Deus salve, Deus proveja,
suplica a você o povo sérvio!



O rei Pedro 1.º da Sérvia, representado num longa-metragem comercial.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Tito e Fidel, comunistas dos anos 1960


Endereço curto: fishuk.cc/comunas60

Estes dois vídeos foram iniciativas de postagem isoladas, por isso não se encaixavam a princípio num tema comum que pudesse ser transformado num texto desta página. Mas sendo filmagens com dois líderes destacados do movimento comunista no início dos anos 1960, achei que valia a pena apresentá-los juntos aqui. Nessa década, o movimento comunista chegaria ao auge de seu prestígio, e as lutas anticoloniais e de libertação nacional, apoiadas ainda pelos chamados “países não alinhados”, constituiriam um novo campo fértil pra experiências políticas vindas de Moscou.

Contudo, a partir do fim da década, sobretudo depois da intervenção contra as reformas na Checoslováquia em 1968, a popularidade do comunismo soviético caiu gradualmente. Desde o mesmo ano, com as explosões de revolta juvenil em Paris e outras capitais ocidentais, o maoismo chinês parecia ser uma nova alternativa, mas ele também logo se revelaria autoritário e dogmático. Tito, da antiga Iugoslávia, tinha ganhado prestígio como chefe da resistência antifascista nos Bálcãs, mas sua experiência já estava fortemente institucional. Fidel Castro, de Cuba, gozava da aura jovem que passava a maioria dos líderes de sua revolução, e ainda hoje exerce razoável fascínio nas esquerdas latino-americanas. Mas o experimento real do socialismo cubano perdeu grande parte da atratividade, pois as lideranças não se renovaram, Fidel morreu em 2016 e as presentes reformas convivem com estagnação e pobreza.


O primeiro vídeo é um trecho de documentário soviético que eu mesmo já traduzi e legendei, contando a visita de Fidel Castro Ruz, líder de Cuba, a Moscou e outras localidades da URSS em 1963. Comandante da Revolução Cubana de 1959, ele está fazendo o encerramento do discurso aberto ao público em 28 de abril, na tribuna do mausoléu de Lenin na Praça Vermelha. Parece que só existe uma cópia sem legendas da cinecrônica inteira no YouTube, postada por alguém que fala espanhol e ainda com poucas visualizações.

Na montagem que eu fiz, vocês podem escutar o discurso três vezes, com legendas em português, espanhol (língua original) e russo. Nesta edição em PDF do jornal soviético Krasnoe znamia podem-se ler os discursos completos de Nikita Khruschov e Fidel Castro em russo. Como o que foi dito durante a interpretação consecutiva não é idêntico ao que foi transcrito no jornal, segue o texto em russo, com algumas divergências entre colchetes:

“Позвольте мне от полноты чувств [как самое справедливое выражение моих чувств] [в честь того, кто больше был достоин] воскликнуть – слава Ленину! Да здравствует пролетарский интернационализм! Да здравствует дружба между кубинским и советским народами! Да здравствует Советский Союз! Родина или смерть! Мы победим!”

(Permitam-me, como a mais justa homenagem a quem teve o mérito maior, exclamar: Viva Lenin! Viva o internacionalismo proletário! Viva a amizade entre o povo soviético e o povo cubano! Viva a União Soviética! Pátria ou morte! Venceremos!)


O segundo vídeo são breves frases de um famoso discurso público de Josip Broz, o Marechal Tito, presidente da Iugoslávia socialista, feito na cidade croata de Split, em 7 de maio de 1962. Um vídeo com os principais trechos do discurso está há mais de 10 anos no YouTube, mas nunca achei a transcrição da fala. Mesmo tendo estudado um pouco de servo-croata por algum tempo, ainda não me sinto capaz de transcrever só de ouvido, até porque às vezes o líder fala meio rápido.

Só sei que na Biblioteca de Belgrado há um exemplar, não disponível online, desse discurso completo em Split, e certamente sem grandes alterações. Após algum esforço, consegui achar apenas a transcrição da segunda parte deste vídeo, cujo editor felizmente lhe melhorou a qualidade. São dois trechos isolados, usuais em sites de citações. O grande problema foi que, assim como outros trechos do discurso, não consegui achar nem mesmo o que Tito fala na primeira parte.

Comparando com várias fontes e com o áudio de Tito, eu mesmo fiz uma transcrição fixa, traduzi, legendei e cortei o quadro e alguns trechos do upload citado, cujo canal recomendo que vocês visitem com mais atenção. Ao final, Druže Tito, mi ti se kunemo (Camarada Tito, somos fiéis/leais a você) era uma espécie de refrão popular cantado na época da ditadura, sob diferentes versões. Seguem o texto em servo-croata (alfabetos latino e cirílico) e as traduções em português e francês (esta feita pra um grupo de debates):

“Mi smo more krvi prolili za bratstvo i jedinstvo naših naroda. E nećemo nikome¹ dozvol’ti da nam dira ili da nam ruje iznutra, da se ruši to bratstvo i jedinstvo. [...] Ni jedna naša republika ne bi bila niko i ništa, da nismo svi zajedno! A mi moramo stvarati... a mi moramo stvarati svoju istoriju, svoju jugoslavensku² socijalističku istoriju i jedinstvenu ubuduće.”

¹ Forma mais comum: “nikomu”.
² Forma mais comum: “jugoslovensku”.

“Ми смо море крви пролили за братство и јединство наших народа. Е нећемо никоме дозвол’ти да нам дира или да нам рује изнутра, да се руши то братство и јединство. [...] Ни једна наша република не би била нико и ништа, да нисмо сви заједно! А ми морамо стварати... а ми морамо стварати своју историју, своју југославенску социјалистичку историју и јединствену убудуће.”

(Derramamos um mar de sangue pela fraternidade e unidade de nossos povos. E não permitiremos que ninguém nos ataque, nem conspire de dentro, nem destrua essa fraternidade e unidade. [...] Nenhuma república nossa seria algo ou alguém se não estivéssemos todos juntos. E devemos escrever... e devemos escrever nossa própria história, nossa própria história socialista iugoslava e unida para o futuro.)

(Nous avons versé une mer de sang pour la fraternité et l’unité de nos peuples. Nous ne permettrons pas que personne ne nous attaque, conspire de dedans, détruise notre fraternité et unité. Aucune république à nous ne serait rien si nous n’étions pas tous ensemble. Nous devons créer notre propre histoire socialiste yougoslave et unie pour l’avenir.)



domingo, 10 de março de 2019

Lepa Brena: “Živela Jugoslavija” (1985)


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Há muitos anos escuto esta canção, mas só agora tive coragem de traduzi-la. Ela se chama Živela Jugoslavija (Viva a Iugoslávia, “Живела Југославија” em alfabeto cirílico), e foi gravada pela artista bósnia Lepa Brena em 1985, num disco conjunto com Miroslav Ilić intitulado Jedan dan života (Um dia da vida). É um hit patriótico elogiando a antiga Iugoslávia, que na época ainda não tinha se desmembrado, mas que já estava sem o fundador da república socialista, o marechal Josip Broz Tito, morto em 1980 e também elogiado na música.

Jedan dan života e Živela Jugoslavija chegaram rapidamente ao topo das paradas, mas as outras faixas também se tornaram sucessos. O produtor Raka Đokić foi o responsável por essa parceria artística entre Lepa Brena e Miroslav, inspirando uma turnê iniciada no verão de 1985 que proporcionou a venda de 800 mil cópias do álbum. A canção aqui legendada é de autoria de Milutin Popović-Zahar (n. 1938), e Lepa Brena já tinha gravado quatro álbuns em 1982 e 1984, com hits até hoje lembrados, sobretudo, na Sérvia. Na verdade, nem sei de onde veio o áudio do vídeo, mas o original gravado no disco é diferente.

Nome artístico de Fahreta Živojinović (sobrenome de solteira, Jahić), Lepa Brena nasceu em 1960 na cidade bósnia de Brčko, localizada hoje no extremo nordeste da República Sérvia, parte sérvia da Bósnia e Herzegóvina. De família muçulmana, desde 1980 vive em Belgrado e lá começou sua carreira de cantora pop-folk, produtora de talentos e atriz, tornando-se a mulher a vender mais discos na antiga Iugoslávia. Aos 19 anos, começou como vocalista da banda Lira Show e logo se tornaria um dos símbolos da cultura popular iugoslava e, décadas depois, da chamada “iugonostalgia”. Ela saiu da antiga banda em 1991 e pausou a carreira de 2000 a 2008, voltando depois, sobretudo, como uma das mais poderosas produtoras artísticas dos Bálcãs.

Živela Jugoslavija teve recepção muito variada e expressou a única convicção política aberta de Lepa Brena: o apoio à Iugoslávia unida, num tempo em que os nacionalismos já começavam a florescer. O caso de Tito é engraçado entre outros ex-ditadores da Europa, porque é um dos que mais conserva vasta popularidade até hoje, em especial na Eslovênia, devido à sua mística de líder antifascista e libertador nacional. Ainda podem se encontrar lojas com suvenires contendo o rosto do marechal. Casada desde 1991 com o tenista sérvio Slobodan Živojinović, hoje aposentado e com quem teve dois filhos, Lepa Brena sempre causou polêmica étnica por causa do marido e do fato de cantar no dialeto ekavica da língua servo-croata, que daria no sérvio literário moderno. (Na variante ijekavica, base do croata moderno, seu nome artístico seria “Lijepa”.) Ela nunca externou religião, mas sempre foi rejeitada por croatas e bósnios por sua aproximação com a Sérvia.

No canal oficial da artista, existem também os links pras suas redes sociais. Embora o design gráfico do álbum Jedan dan života esteja em alfabeto latino, os traços da linguagem usada são claramente “sérvios” (idioma que hoje usa quase sempre o alfabeto cirílico), mas inteligíveis em toda a antiga Iugoslávia. A partir da letra original com a acentuação correta, eu mesmo traduzi direto do servo-croata (sérvio) e legendei este vídeo, cortando algo do quadro. Seguem abaixo a legendagem que postei na TV Eslavo (YouTube), a letra nos dois alfabetos, latino e cirílico, e a tradução em português:




Kad pogledam naše more
Naše reke, naše gore
Svu lepotu gde sam rođena
I sve što bi reći znala
U srcu sam zapisala
Živela Jugoslavija
I sve što bi reći znala
U srcu sam zapisala
Živela Jugoslavija

Zemljo mira, zemljo Tita
Zemljo hrabra, ponosita
Širom sveta o tebi se zna
Volimo te naša mati
Nećemo te nikom dati
Živela Jugoslavija
Volimo te naša mati
Nećemo te nikom dati
Živela Jugoslavija

Tu je rođen maršal Tito
Naše ime ponosito
K’o heroja ceo svet ga zna
Blago zemlji što ga ima
Pamtiće se vekovima
Živela Jugoslavija
Blago zemlji što ga ima
Pamtiće se vekovima
Živela Jugoslavija

____________________


Кад погледам наше море
Наше реке, наше горе
Сву лепоту где сам рођена
И све што би рећи знала
У срцу сам записала
Живела Југославија
И све што би рећи знала
У срцу сам записала
Живела Југославија

Земљо мира, земљо Тита
Земљо храбра, поносита
Широм света о теби се зна
Волимо те наша мати
Нећемо те ником дати
Живела Југославија
Волимо те наша мати
Нећемо те ником дати
Живела Југославија

Ту је рођен маршал Тито
Наше име поносито
К’о хероја цео свет га зна
Благо земљи што га има
Памтиће се вековима
Живела Југославија
Благо земљи што га има
Памтиће се вековима
Живела Југославија

____________________


Quando olhei para nosso mar,
Nossos rios, nossas montanhas,
Toda a beleza de onde nasci
E tudo o que ela poderia dizer,
Registrei em meu coração:
Viva a Iugoslávia!
E tudo o que ela poderia dizer,
Registrei em meu coração:
Viva a Iugoslávia!

Ó, terra da paz, terra de Tito,
Ó, terra corajosa e orgulhosa,
O mundo inteiro conhece você.
Amamos você, nossa mãe,
Não vamos cedê-la a ninguém,
Viva a Iugoslávia!
Amamos você, nossa mãe,
Não vamos cedê-la a ninguém,
Viva a Iugoslávia!

Aqui nasceu o marechal Tito,
Nosso nome orgulhoso,
O mundo todo o vê como herói.
Feliz é a terra que o possui,
Ela vai se lembrar para sempre,
Viva a Iugoslávia!
Feliz é a terra que o possui,
Ela vai se lembrar para sempre,
Viva a Iugoslávia!




segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Memes da Iugoslávia e Marechal Tito


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Às vezes gosto de trazer imagens engraçadas do mundo eslavo, ou montagens que eu mesmo faço com teor humorístico, que chamo genericamente de “memes”, mas nem todos os inscritos gostam. Em geral priorizo o mundo eslavo, porque muita coisa é digna de ser conhecida, mas quem fala português quase sempre tem essa barreira da língua. Nem sempre minha tentativa de ser um “South America Memes” dá certo, mas eu continuo tentando!

Nesta e em outras postagens, farei coleções com os melhores memes que tentei criar. Nem todos vêm de países eslavos, e muitos constituem verdadeiras montagens cômicas. Hoje, trago três vídeos interessantes que fiz sobre a antiga Iugoslávia e seu ditador, Josip Broz, ou Marechal Tito. Infelizmente, não domino a língua servo-croata e suas variantes nacionais, mas algumas coisas consegui achar por acaso e, independente do idioma, pude trazer ao meu público.


Não é nada engraçado, mesmo com um ditador, mas postei por mera curiosidade histórica. Por um lado, Tito, que governou a Iugoslávia de 1945 a 1980, teve uma política bastante aberta para com o Ocidente, ao contrário de outros países comunistas da Europa. Por outro lado, os primeiros-ministros social-democratas, trabalhistas ou esquerdistas, em países democráticos, buscaram fortalecer laços e ouvir mais as nações do antigo Leste europeu.

Foi o caso do social-democrata Olof Palme, que governou a Suécia de 1969 a 1976 e de 1982 a 1986, ano em que foi assassinado ao sair de um cinema. Em 1976, ele e outros dignatários locais receberam Tito em Estocolmo, capital da Suécia, e na hora em que o marechal saiu da limusine, teve seus dedos prensados pela porta da frente (passageiro) ao sair um oficial que não identifiquei. Isso se deu porque Tito resolveu se apoiar na lateral direita ao sair, e colocou os dedos bem no vão da porta dianteira. O oficial não viu essa cena, e fechou a porta com tudo.

Obviamente, como se nota em algumas das versões que uni no vídeo, o marechal berrou de dor, repreendeu o colega e saiu corajosamente em direção a Olof Palme, que ou era um bobo-alegre, ou fez carinha de que se divertiu com o incidente. Mais pra frente, outra tomada mostra Tito com Palme e os companheiros, fazendo gestos como se estivesse explicando a fechada de porta. Notam-se também alguns dedos com o que parece ser um curativo.

É bizarro como em alguns programas suecos, o caso foi tratado como uma videocassetada do Faustão, gerando risos histéricos e nenhuma empatia, como era o caso no que pareciam ser os anos 90. A atitude foi bem besta, e vários simpatizantes de Tito no território moderno da antiga Iugoslávia xingaram os suecos no YouTube, dizendo que ele não era ditador e que ver alguém se ferindo não era nada hilário. Por outro lado, sérvios que abominam o comunismo adoraram vê-lo sofrer.

Eu mesmo fiz a montagem, tendo recortado os vídeos pra ficarem com o quadro retangular. Originalmente, estão nos respectivos endereços:

http://youtu.be/7hZHgMsDim0
http://youtu.be/D4eaimOSxvk
http://youtu.be/i89A4od3ayU
http://youtu.be/5AJoYzp6ne4


Até pro lindo casal presidencial iugoslavo Josip e Jovanka Broz tem dia, lugar e tem hora! Pra serem felizes numa casa de campo, fazendo artesanato e tomando café. Mas não é em 1977, e sim em 1962. Achei por acaso um curto vídeo documental de Tito e sua mulher passando uma tarde no que parece ser uma propriedade deles, e num dos momentos, o presidente enche uma xícara com uma máquina de café expresso, e vai fumar um charuto e conversar ao lado dela.

Na minha opinião, Dia, lugar e hora, um sucesso do cantor brasileiro Luan Santana, casou direitinho com essa cena! Então, brinquei que ele estaria cantando Pesem o Titu (Canção para Tito), um sertanejo comunista. Mas na verdade, nem sequer fala do Tito: é apenas o referido trecho com seu som original tirado, substituído pela maior parte do refrão da música do Luan (só tirei uma frase pra que as durações coincidissem). Não vou transcrever a letra do hit, mas vocês podem assistir acima, pra julgar se fiz algo interessante!


Apesar da estranha miniatura que montei, este é o pequeno excerto de um episódio do programa infantil iugoslavo “Полетарац” (Poletarac), exibido na primeira metade de 1980 (este episódio é de 19 de março, e eu já legendei o tema de abertura). Gravado com diversos atores, incluindo músicas, piadas e contos, propunha-se apresentar “as coisas básicas da vida e do mundo ao redor”. No vídeo completo, o trecho em questão começa aos 15’55”.

A palavra servo-croata poletarac tem um equivalente em inglês, que é fledgling. Ambas designam um passarinho que está saindo do ninho, aprendendo a voar, e figuradamente um iniciante ou novato em alguma coisa. Como os atuais puritanos no Brasil, poderíamos dizer: “Era o marxismo cultural apresentando essas obscenidades às crianças!” Mas podemos ver também por um lado não erotizado, que é a meta do programa. A maldade está nos olhos de quem vê. Não vou reescrever a tradução, mas segue o texto das falas nos alfabetos latino e cirílico:


– Da li znaš, ko je najmlađi stanovnik Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije? A?
– To je najmlađi stanovnik Socijalističke Federativne Republike Jugoslavije.

– Да ли знаш, ко је најмлађи становник Социјалистичке Федеративне Републике Југославије? А?
– То је најмлађи становник Социјалистичке Федеративне Републике Југославије.



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

As melhores canções de Vice Vukov (3)


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O grande cantor croata Vinko Vukov, mais conhecido como Vice Vukov, considerado o Rei da Música nacional, completou 10 anos de seu falecimento no dia 24 de setembro. Por isso, além das canções que legendei nos últimos meses, adicionei outras na semana passada, em homenagem à sua vida e obra, e já tinha legendado um pequeno trecho. É uma pena que os brasileiros não o conheçam, e que nossa música tenha se deixado influenciar tão pouco pela croata. Vukov (1936-2008) alcançou fama instantânea em 1959 e durante os anos 60 se tornou um dos mais célebres cantores da Iugoslávia. Participou do concurso Eurovision em 1963 e 1965, mas em 1972 teve sua carreira nacional interrompida por ter sido ligado ao movimento nacionalista croata de protesto. Apenas em 1989 circulou um novo álbum seu sem assinatura, e com o fim do comunismo Vukov pôde retornar aos palcos triunfalmente. Foi eleito deputado federal em 2003, mas sofreu em 2005 uma queda que lhe feriu a cabeça e o deixou em longa agonia.

O primeiro vídeo é o curto trecho de um show dado em Perth, cidade da Austrália, em dezembro de 1968 e transmitido pelo famoso canal local GTV-9. Vice Vukov canta a primeira parte de Ribar plete mrižu svoju (O pescador tece sua rede), música popular da Croácia com arranjos feitos pelo músico e compositor Ljubo Stipišić (1938-2011). Eu tirei alguns trechos do vídeo sem legendas e recortei o quadro, que era mais quadrado. A segunda filmagem é a canção Kad raziđe se dim (Quando a fumaça sumir), e foi composta em 1991 por Krsto Juras (letra) e Arsen Dedić (melodia). Vukov a gravou em 1992, tendo sido nesse mesmo ano transmitido pela Televisão Croata. Esta música, considerada uma das mais belas da Croácia, foi criada no clima da queda de Vukovar, durante a guerra de independência, sob o domínio das tropas sérvias e iugoslavas. O vídeo sem legendas está num canal com muito bom material de Vukov, no qual há outra versão com imagem boa, mas áudio pior. E a terceira é I tako teče vreme (E assim flui o tempo), composta em 1967 por Dušan Vidak (melodia) e Olivera Živković, com arranjos de Pero Gotovac. Vukov a gravou no mesmo ano, tendo ganhado com ela um conhecido festival de música em Belgrado. Deste vídeo eu baixei o áudio, cujo chiado reduzi um pouco.

Ribar plete mrižu svoju é uma canção típica da região da Dalmácia, e como se nota, canta sua tradição litorânea no mar Adriático, próximo à Itália, ao falar de um pescador. Vice Vukov, em geral, cantava muitas músicas de teor romântico, no sentido de bucólico, paisagístico e nacionalista, e são características, sobretudo, das primeiras décadas de sua carreira, além de seu retorno nos anos 90. Outro traço regional é a substituição do “je” ou “ije” de certas palavras (na variante literária do croata) por “i”: mrižu, triba, zapivaj, pismu, que se escrevem com “e” no sérvio literário. Também há a preferência, no áudio, em fazer o vocativo de ribar (ó, pescador) como ribare, e não ribaru, e tko no lugar de ko (quem) é outro traço croata. Neste livro de canções tradicionais, que pode ser baixado rapidamente, está a letra original, e há várias partituras em outro livro em PDF, inclusive de Ribar plete mrižu svoju.

Kad raziđe se dim lembra uma insurreição dos sérvios em territórios dentro da Croácia em 1990, que teve reforço das tropas da Iugoslávia (que então reunia os hoje territórios da Sérvia, Montenegro e Kosovo) até começar em 1991 uma guerra aberta contra a Guarda Nacional croata e voluntários civis. Este lado era bem menor e menos armado, mas defendeu com bravura a cidade de Vukovar, encravada bem na fronteira com a Sérvia, como um dos episódios da guerra ocorrido de agosto a novembro de 1991. Os paramilitares sérvios e o exército iugoslavo ao final tomariam Vukovar, mas a Iugoslávia saiu bastante exaurida da batalha, que terminou sendo decisiva no futuro da guerra. Com a retomada, forças sérvias mataram centenas de soldados e civis croatas, e deportaram mais de 31 mil pessoas da cidade e arredores.

Foi o primeiro caso, após a 2.ª Guerra Mundial, em que uma cidade europeia foi totalmente destruída em combate. Considera-se que a Croácia efetivou sua independência em 8 de outubro de 1991, mas Vukovar ficou sob controle iugoslavo até 1998, ao ser devolvida aos croatas. Até 1995, a Croácia manteve-se em guerra com a Iugoslávia, defendendo a independência da Bósnia e Herzegóvina e protegendo as minorias croatas que aí viviam. Cidade antes próspera, Vukovar foi reerguida, mas ainda tem muitos prédios em ruínas e perdeu grande parte de sua população original. Como em outros sites a ortografia da letra da canção não era boa, consegui copiar uma amostra fiel nesta edição de uma revista croata. Pra exibir e trabalhar com ela, apenas mudei a quebra de linhas, e há outra diferença: um dos versos está escrito na revista U zemlji nemirnoj (Na terra turbulenta), mas Vukov canta de fato U zemlji raninoj (Na terra machucada).

Quanto a I tako teče vreme, eu praticamente não “traduzi” a letra, mas decifrei: a redação poética é muito complexa, com inúmeras inversões e metáforas, e a mensagem passada é bastante sutil, falando do breve relacionamento entre um homem maduro e uma jovem inexperiente. No final, ele lamenta que não pudesse mais desfrutar da juventude dela, embora tivesse gostado muito do romance. Há muitas páginas com a letra transcrita, mas sem maiúsculas ou letras acentuadas, de forma que eu as adicionei conforme consulta a dicionários e escuta. Também fiz algumas mudanças textuais pra corresponder ao que Vice Vukov realmente canta.

Eu mesmo traduzi e legendei as três músicas a partir do croata (no caso da primeira, é apenas a parte inicial), tendo usado o dicionário da Porto Editora, o Google Tradutor e o Wiktionary em várias línguas. Seguem os três vídeos legendados, as letras originais e as traduções em português:


Ribar plete mrižu svoju,
Koja njemu triba,
A tko će je sutra plesti,
Baš ga nije briga.

2x:
Zapivaj pismu, ribaru stari,
Jer to je pisma o moru.
Zapivaj pismu, ribaru stari,
Jer to je pisma o moru.

____________________


O pescador tece sua rede
Que lhe é necessária,
E quem vai tecê-la amanhã
Nem sequer o preocupa.

2x:
Entoe uma canção, velho pescador,
Pois é uma canção a respeito do mar.
Entoe uma canção, velho pescador,
Pois é uma canção a respeito do mar.


Kad raziđe se dim,
Kad prođe prva bol
U našoj staroj kući
Sjest ćemo za stol.
Kad raziđe se dim
I stigne prvi brod
Uz kap misnoga vina
Naći će se rod.

Kad raziđe se dim,
Kad ode u Nebesa
Sagradit ćemo Grad
Sa tisuću adresa.
Kad raziđe se dim,
Kad nestane k’o pjena
Sagradit ćemo Grad,
Grad za sva vremena!

(Ponoviti sve)

Kad osvane taj dan
U zemlji nemirnoj
Biser sja na dlanu –
Grad i moj i tvoj!

____________________


Quando a fumaça sumir,
Quando passar a dor inicial,
Vamos nos sentar à mesa
Em nossa velha casa.
Quando a fumaça sumir
E chegar o primeiro navio,
Os parentes vão se rever
Tragando um vinho local.

Quando a fumaça sumir,
Quando sair para os Céus,
Ergueremos uma Cidade
Com milhares de moradas.
Quando a fumaça sumir,
Dissolver-se como espuma,
Ergueremos uma Cidade,
Cidade para a eternidade!

(Repetir tudo)

Quando esse dia raiar
Na terra turbulenta
A pérola brilhará na mão:
Uma cidade minha e sua!


I tako teče, teče vreme,
A ja te hrabro, mirno gledam,
Jer znam da više nema mene
Ni iskre neke nade da ti dam.

Te puste godine su same
Bez mene našle tvoju mladost,
A neka sećanja iz tame
Ruše svaki, svaki most.

Ja nikad, nikad, nikad, nikad
Od tebe nisam krio strah
Od jedne iznenadne želje,
Da živim taj predah.

A ti si jednom, samo jednom
U kakvom to trenutku svom
Tog novembarskog jutra
Za mene bila sutra
Kroz jedan jedini dah.

Oprosti kad zaboli jače
Sa vetrom neka rana stara.
To s moga lica kiša briše
Na oknu neke davne suze kap.

Obećaj, novembar kad plače
Dve iste nam poruči čaše
Za mir i nemir duge naše
Kao nekad, nekad vre.

Sad zbogom, zbogom, zbogom, zbogom,
Jer više ništa nemam ja,
Ni nade, smisla, čak ni prava,
Da budem sa tobom.

Sa tvojom mladošću je sunce,
A ja se bližim ušću svom.
Ja, suza svoga smeha,
Ja, kazna svoga greha,
Al’ suncu zahvalan tvom.
Al’ suncu zahvalan tvom!

____________________


E assim flui, flui o tempo,
Te olho corajoso e calmo,
Pois sei que não estou mais
Nem darei uma só esperança.

Os anos ocos, sós, sem mim
Encontraram você jovem,
E as lembranças das trevas
Derrubam cada, cada ponte.

Eu nunca, nunca, nunca
Te escondi que tinha medo
De desejar subitamente
Viver esse intervalo.

E você somente uma vez
Em algum momento seu
Dessa manhã de novembro
Foi para mim um amanhã
Por meio de suspiro único.

Perdoe se o vento der dor
Maior, como ferida antiga.
A chuva me tira gota do rosto
Como pranto velho na janela.

Se novembro chorar, jure
Que dois copos iguais vão
Nos lembrar da nossa longa
Paz e briga, como outrora.

Agora adeus, adeus, adeus,
Pois não tenho mais nada,
Esperança, sentido, nem até
O direito de estar com você.

Sua juventude tem Sol,
E eu já estou desaguando.
Sou pranto do meu sorriso,
Sou castigo do meu pecado,
Mas te agradeço pelo Sol.
Mas te agradeço pelo Sol!



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Discurso do Marechal Tito: Zagreb 1977


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Pela primeira vez fiz o que sempre foi meu sonho: traduzir um discurso do iugoslavo Josip Broz, que passou à história como o Marechal Tito, líder da Resistência antinazista e antifascista na 2.ª Guerra Mundial e comandante ditatorial da Iugoslávia socialista de 1945 a 1980, quando morreu. Neste caso, só consegui obter um trecho em servo-croata, transcrito com muito boa vontade por Mario Bezbradica, um colega do YouTube. É um pequeno trecho, mas com a transcrição pude traduzir ao português e legendar esta raridade.

Trata-se de um vídeo feito em Zagreb, capital da Croácia (na época, uma república federal iugoslava), em 27 de setembro de 1977. Eram celebrados os 40 anos de fundação do Partido Comunista da Croácia (sigla KPH ao fundo), que era conhecido como União dos Comunistas da Croácia, tal como a União dos Comunistas da Iugoslávia nacional. Na URSS cada república soviética também tinha seu próprio partido, embora fossem correias de transmissão do PC central. O pai de Tito era croata, e como se pode notar, o líder fala no dialeto ijekavica (base do croata literário moderno), ou seja, algumas palavras com “je” ou “ije” no lugar do “e” sérvio: posjetili, ovdje, još uvijek.

É notável como Tito, já com voz reduzida pela idade, fala “embaraços entre repúblicas”, e ironicamente a Iugoslávia se dissolveu a partir de 1991, em grande parte, por meio da guerra civil com feição racista. De fato, era a personalidade do marechal como chefe da Resistência que dava coesão ao país, e seu falecimento em 1980 começou a ameaçar o todo. Tanto que, ao contrário de vários outros países comunistas, boa parte da população ainda é saudosa do “socialismo”, e mesmo no YouTube, onde todos tiram a máscara, há poucos discursos furiosos contra. Mesmo assim, esse “comunismo nacional” não deixou de ser autoritário, perseguindo opositores e criando um culto em torno da imagem de Tito: vejam como no fim do vídeo canta-se o famoso refrão Druže Tito, mi ti se kunemo (Camarada Tito, somos fiéis a você), ao estilo de um hino religioso.

Eu baixei o vídeo deste ótimo canal, que foi criado há pouco tempo e tem muito material sobre a antiga Iugoslávia, embora trazido de modo muito laudatório e pouco crítico. Como eu disse, o Mario transcreveu pra mim, e eu mesmo traduzi ao português com a ajuda do dicionário da Porto Editora, do Google Tradutor e do Wiktionary. Seguem abaixo a legendagem, a tradução (um pouco encurtada nas legendas) e a transcrição servo-croata nos alfabetos latino e cirílico:



Estivemos agora numa viagem longuíssima, cerca de 30 mil quilômetros. Visitamos três países: União Soviética, Coreia e China. Fomos recebidos tal como vocês nos recebem aqui. Igualzinho. As pessoas nos conhecem. Somos uma terra multinacional. O inimigo continua agindo de fora, e em proveito próprio, contra nós, contra nossa unidade. Não vamos permitir que os vários fugitivos vendidos, fascistas, como ustašes, chetniks etc., destruam nossas ordenações internas. Se tivermos certos embaraços, digamos, entre repúblicas, vai ser assim. Mas agora temos um novo sistema. Liquidamos essas coisas conversando, e até agora isso tem se mostrado de enorme importância.

Mi smo sada bili na jednom najvećem putu, oko 30 hiljada kilometara. Posjetili smo tri države. I Sovjetski Savez, Koreju i Kinu. Isto su nas primali kao i ovdje što nas primate. Isto tako. Ljudi znadu o nama. Mi smo mnogonacionalna zemlja. Neprijatelj iz vana još uvijek radi, i to dobro radi za sebe, protiv nas, protiv našega jedinstva. Ne dozvolimo raznim prodanim izbjeglicama, fašistima, ala ustaše i četnici, i tako dalje, da nam razbijaju naše unutrašnje redove. Mi ako imamo izvjesne teškoće, recimo, među republikama, i tako dođe. Ali imamo sad novi sistem. Mi dogovaranjem likvidiramo takve stvari, a do sada se to pokazalo od ogromne važnosti.

Ми смо сада били на једном највећем путу, око 30 хиљада километара. Посјетили смо три државе. И Совјетски Савез, Кореју и Кину. Исто су нас примали као и овдје што нас примате. Исто тако. Људи знаду о нама. Ми смо многонационална земља. Непријатељ из вана још увијек ради, и то добро ради за себе, против нас, против нашега јединства. Не дозволимо разним проданим избјеглицама, фашистима, ала усташе и четници, и тако даље, да нам разбијају наше унутрашње редове. Ми ако имамо извјесне тешкоће, рецимо, међу републикама, и тако дође. Али имамо сад нови систем. Ми договарањем ликвидирамо такве ствари, а до сада се то показало од огромне важности.