Cuméquié???

Maldita tradução automática, rs!!!

Leia também: Turquia só quer ser chamada “Türkiye” (2022)
Cuméquié???

Maldita tradução automática, rs!!!

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Como diria aquele meme do bandido do Pica-Pau: “A gente se sente tão querido!” Mesmo não sendo de sua própria autoria, é muito gratificante ver o Véi Gagá se lembrando do público de língua portuguesa (brasileiros em específicos, acredito, porque português só migra pra França e Luxemburgo, e é muito difícil pros lusófonos africanos remarem até o outro lado do Atlântico). O problema é quando não sabemos se quem escreve essas coisas é alguém que tem o idioma de Camões como materno ou alguém que na verdade o aprendeu tardiamente, mas traduz as coisas conforme estruturas anglo-saxãs... Sim, é entendível, mas é robótico, ou, como dizem os tradutores, “não soa como português falado de verdade”!
Vou abstrair a neura xenofóbica e anti-imigração e me focar no ridículo comunicativo e linguístico, derivado justamente da raiva patológica. Primeiro, quem em sã consciência usaria ênclise (envia-OS) na linguagem coloquial? E mesmo que fosse proclítico (OS envia), o uso do pronome no “caso reto” (eles, vocês) seria muito mais comum. Se pegarmos a frase literal (“send them back”), a mesma forma é aceitável em muito mais contextos, pois ao contrário das tão flexionáveis e sintéticas línguas românicas e banto, o supremo e dominante inglês tem uma gramática que por vezes parece a de idiomas mais ou menos “isolantes”, como o chinês, o uolofe e o haitiano. Isso, claro, pode dar margem a muitas ambiguidades, e provavelmente foi a ambiguidade tradutória que pirou o cabeção do tradutor, quase certamente não nativo.
Outra possibilidade é que o ser tenha simplesmente jogado no Google e obtido essa nheca. De qualquer maneira, cabe reiterar mais um postulado da arte tradutória: não traduzimos apenas palavras, mas também estilos, e esse “estilo” (se é que dá pra chamar assim) nada tem a ver com nenhuma variante do português praticada no mundo. Ou melhor, em inglês soa normal na maioria das ocasiões; vertido literalmente fica parecendo a linguagem infantil do próprio Véi Gagá, cujo vocabulário é de uma criança entre 5 e 11 anos (“O limite de meu poder é minha própria moralidade”: valha-me Trotsky!). Ou seja, se trocarmos lugares, situações, verbos etc. por, digamos, um programa da Super Nanny ou um dia qualquer na pré-escola, está perfeito.
Se você já viu programas de humor antigos zoando com “gringos” e suas invasões de outros países ou falta de jeito no contato com outras culturas, parece mesmo seu jeito de falar. Agora, pra ficar perfeito, mentalize pra si ou imite você mesmo o texto abaixo com a voz do putinista Glenn “Verdevaldo” Greenwald: tente não explodir de rir após ver o resultado! Contudo, voltando à questão de estilo, não temos apenas a questão de como alguém expressaria a mesma ideia em português, mas temos também a imagem que o falante tem do mundo, neste caso, que o Véi Gagá tem de imigrantes, pobres, latinos, negros, não cristãos etc. em geral. Portanto, pra soar mais “brasileiro” ou de acordo com o fantasma que os WASP nutrem sobre seu público-alvo, eu recomendaria imitar o que chamamos de linguagem ou jargão “de mano” ou “de traficante”.
Mas no final das contas, como diria o sábio Dollynho, o mais brasileiro dos refrigerantes: “Ninguém quer ir mesmo pra sua droga de país, seu mongolão!”

Sigo sendo um leitor assíduo do portal Jeum, porque é minha fonte de informação imediata mais objetiva e, além de tudo, gratuita, sem os bloqueios da Foia e do Estabão. Porém, justamente por isso me sinto no direito de reclamar dos erros de digitação e, vez ou outra, zoar com eles. Este, por exemplo, até que fez sentido, pois depois de ser sequestrado pelo Véi Gagá e enfiado numa jaula e levando em conta sua alta estatura, o Saddam Tropical agora se tornou um “presão dos EUA” e um tesão do Véi, rs:

E finalmente, este trecho de uma reportagem sobre a política externa do Brasil, que traz entrevistas com duas especialistas em relações internacionais, aparentemente com inclinação lulista e, por isso, ambas concordando quanto a um possível papel do Itamaraty enquanto “mediador de conflitos” (a meu ver, muito mais ao modo do meme dos sírios pró e contra Al-Asad na TV jordaniana...). Fiquei impressionado ao saber que o presidente da Alemanha, cujo sistema infelizmente não lhe angaria quase nenhum poder, realmente disse isso sobre nosso país: que diferença abissal do chanceler Rambozambo, que chupa o saco do Véi Gagá e disse na COP30 que não via a hora de ir embora daqui (e espero que nunca volte)!

Achou que não ia ter publicação sobre política bem perto do Natal?
Rs... Mas aqui, não posso deixar de dar também uma pequena aula de idiomas, e pra piorar, sobre palavrões. Sim, pois Volodymyr Zelensky (sim, aquele mesmo do seriado Servo do povo) parecia estar assistindo ao monólogo coletivo de Vladimir “Khuiló” Putin no dia 19 de dezembro, durante todas as suas longas 4,5 horas de duração. E ele não deixou escapar justamente uma parte em que o ditador, de forma jocosa, sugere que a OTAN e a Rússia poderiam “fazer um duelo tecnológico militar” na Ucrânia, pra ver quem se saía melhor. Esse foi exatamente o trecho congelado abaixo, mas na cara de um dos “repórteres” que apresentou o suplício televisivo:

Tal foi a indignação do humorista de cáqui ante tamanha desfaçatez e crueldade, que não pôde deixar de a externar lá mesmo onde esse tipo de ódio deve ser despejado: People are dying, and he thinks it’s “interesting”... Dumbass. Deixo a tradução pra você, mas não, ele não está se referindo à região do “Donbás”, embora eu suspeite se não tenha sido um (infame) trocadilho voluntário, rs. O xingamento em inglês pode ter várias interpretações ao gosto e criatividade do freguês, mas acho que Zelensky pensou primeiro um original em ucraniano: Люди гинуть, а йому «цікаво»... Довбойоб. [Liúdy hýnut, a iomú «tsikávo»... Dovboiób.]
A palavra ucraniana, que inclusive tem a cognata russa долбоёб [dolboiób], além dessa tradução, tem várias outras em inglês, segundo o Wikcionário. E me desculpem, mas vou ter que “baixar o nível” nessa língua: uma delas é motherfucker, que na minha adolescência, pelo menos, era muito popular entre os colegas que queriam se fazer de americanizados (pronunciando bizarramente “madafâca”!). Tudo resumido, simplesmente se designa um idiota, um canalha, com os diversos temperos digestório-genitais disponíveis em cada idioma.
Alusões à prostituição materna não pareciam muito adequadas, pois existem termos muito específicos e codificados em diversas culturas. No meio desses vários cruzamentos lengoísticos, o querido Wikcionário me veio brasileiramente com um “c*zão”, e eu mesmo pensei anteriormente em “pau no c*”. Mas pra conservar o calão sem economizar na baixaria, eu diria que Zelensky chamou Putin exatamente como se deve rotular qualquer um que começa e continua uma guerra que sabe não poder ganhar, destrói o país vizinho e ainda mói o próprio povo escravizado: um arrombado.


Imagine-se na década de 1990, mesmo que você ainda não fosse nascido. Toda a família está reunida pra assistir a um especial de Natal ou outro programa parecido na TV dos Marinho, no meio da tarde ou na primeira parte da noite. De repente, crianças e idosos quase infartam com uma voz que parece vinda do Além e, em despertar de diarreia, só perde pra vinheta do “Plantão”, jogando na cara pênis, vagina, ânus, esperma, secreção e já arrematando no começo com um vírus (crédito do resgate ao canal Nerd Show):
Fontes diplomáticas acabam de vazar um diálogo entre os chefes de Estado da França e da Turquia sobre uma possível colaboração no socorro à população da ilha africana de Mayotte. Veja um trecho da conversação:

Estou lançando aqui algo que já era esperado desde os tempos do Pan-Eslavo Brasil, meu antigo canal no YouTube: a coleção de todos os hinos nacionais das repúblicas que compunham a antiga União Soviética, chamadas RSS (repúblicas socialistas soviéticas). Excluindo a Rússia, ela própria constituindo a RSFSR (República Socialista Federativa Soviética da Rússia), elas eram em número de 14, e consistiam na organização nacional-estatal (conceito pro qual se usa em russo a palavra gosudárstvennost) de povos dentro do antigo império tsarista que, segundo a Constituição bolchevique, tinham atingido determinado grau de maturidade cultural e de consciência nacional. Em 1991, com a dissolução da URSS, todas essas repúblicas se tornariam países independentes. Quase todos os áudios vêm desta página, que tem também músicas populares soviéticas.
Em 20 de novembro de 2010, meu antigo canal foi inaugurado com a publicação de minha primeira tradução do Hino Nacional da URSS (letra de 1977), na verdade traduzido coletivamente por minha turma de russo na Unicamp alguns anos antes. O segundo e último vídeo de 2010, lançado em 20 de dezembro, foi minha primeira tradução da letra de 1944 do mesmo hino, igualmente um trabalho coletivo dos colegas de russo. Apenas no início de 2012 eu começaria a carregar minhas primeiras legendas autônomas: os hinos da Rússia moderna, os da Ucrânia e de Belarus soviéticas e, claro, das independentes. Eu não conhecia muitos recursos online pra traduzir do ucraniano e sabia pouco da gramática, então usei o famoso dicionário das irmãs paranaenses Voloschen, o que pra mim foi um pouco penoso. Não lembro quanto ao belarusso, mas devo ter cotejado as traduções russa e ucraniana da Wikipédia.
Anos depois, com mais conhecimento linguístico e material disponível, eu lançaria legendas revisadas dos hinos da Ucrânia e de Belarus soviéticas e independentes (e da Rússia moderna), mas só em 2015 eu tinha decidido começar a série completa no formato definitivo, a partir do hino da RSS do Azerbaijão. Dada minha inexperiência linguística, minha péssima conexão à internet e meu escasso tempo deixado pelo mestrado, os vídeos foram saindo a conta-gotas, e quando o Pan-Eslavo Brasil foi derrubado, em agosto de 2021, ainda faltava o hino da RSS do Turcomenistão. Durante todos esses anos, não tinha feito na página uma coleção desses hinos ao estilo dos países eslavos porque queria ter todos os vídeos legendados. A partir da reorganização pessoal em 2022, já no penúltimo ano do doutorado, com mais tempo e estrutura melhor, legendei o hino faltante e comecei a planejar esta coleção, usando as descrições dos antigos vídeos do canal.
As letras dos hinos da União Soviética são bastante simplórias e elas não mudam muito entre si, nem na estrutura e nem na temática: começam puxando o saco do país, depois puxam o saco de Lenin e dos russos e depois afirmam a fé no triunfo do comunismo. Além disso, sua existência, assim como a existência de bandeiras e brasões locais, eram meramente simbólicas, já que em eventos internacionais valiam apenas os símbolos pan-soviéticos, e que essas composições nunca tiveram aceitação popular, sobretudo entre os povos mais avessos à dominação russa.
Mesmo previsto na Constituição, o “direito à autodeterminação” era pura formalidade, pois qualquer veleidade nacionalista era reprimida como “desvio burguês”, e mesmo na década de 1980 e nos anos de 1990 e 1991, com a URSS à beira da desintegração, as manifestações nacionalistas eram reprimidas à bala, como no Cazaquistão, nos Bálticos e na Geórgia. E muitas vezes com o Mikhail Gorbachov já na liderança, curiosamente odiado pelas esquerdas e adorado pelas direitas por sua suposta “culpa” no que Vladimir Putin chamou, com exagero, de “a maior catástrofe geopolítica do século 20”. Mesmo assim, acredito que essas peças mereceriam maior divulgação entre estudiosos e interessados de hoje, tanto mais que algumas antigas repúblicas, como Belarus e Tajiquistão, ainda mantêm as melodias, e a Rússia readotou a música soviética em 2000.
Em alguns casos, eu traduzi diretamente das línguas em questão, com a ajuda de dicionários, e em outros usei o Google Tradutor ou parti do máximo possível de versões na Wikipédia de línguas que eu conhecia, confrontando-as entre si e criando o texto mais verossímil possível. O que mais detestei na Wikipédia em russo é que, ao invés das traduções literais (que poderiam ser mais fiéis por estarem na língua dominante da URSS), muitas vezes o que havia eram traduções poéticas, que sempre evito o máximo possível, pois em algum grau o significado é sacrificado em prol da rima e da métrica. E como você pode notar, minha prioridade aqui foi o significado. Criei os vídeos a partir das montagens com as bandeiras e os brasões postadas nesta conta do site Deviant Art (e também nesta outra), e fiz as legendas em português e com as transliterações latinas mais conhecidas de cada língua. No caso dos cirílicos eslavos, usei meu próprio sistema de transliteração, que aplico regularmente em outros domínios.
Como este é um importante material de pesquisa, também digitei de novo as traduções em português, porque nem sempre as guardei depois de as ter inserido no vídeo. Apesar dos intentos frustrados de escolher um hino pra RSFS da Rússia, acabou-se adotando o próprio hino da URSS pra tal função, e ele só figura abaixo pros curiosos da bandeira da RSFSR. Algumas RSSA (repúblicas socialistas soviéticas autônomas), que eram unidades localizadas dentro das RSS e muitas das quais hoje são oblasts da Rússia, tinham hinos próprios, outras não, e não coloquei aqui os existentes. Certas formações efêmeras, como a Transcaucásia, não chegaram a ter hino, mas a RSS Carelo-Finandesa, cuja existência de 1940 a 1956 (depois virou uma RSSA da Rússia), teve, e também está traduzido e legendado.
| Государственный гимн Союза Советских Социалистических Республик União das Repúblicas Socialistas Soviéticas também hino da República Socialista Federativa Soviética da Rússia (Российская Советская Федеративная Социалистическая Республика) | |
| Հայկական Խորհրդային Սոցիալիստական Հանրապետության Պետական Օրհներգ Hino Nacional da RSS da Armênia | |
| Азәрбајҹан Совет Сосиалист Республикасынын Дөвләт Һимни Hino Nacional da RSS do Azerbaijão | |
| Дзяржаўны гімн Беларускай Савецкай Сацыялістычнай Рэспублікі Hino Nacional da RSS da Bielorrússia | |
| Қазақ Кеңес Социалистік Республикасының мемлекеттік гимні Hino Nacional da RSS do Cazaquistão | |
| Eesti Nõukogude Sotsialistliku Vabariigi hümn Hino Nacional da RSS da Estônia | |
| საქართველოს საბჭოთა სოციალისტური რესპუბლიკის სახელმწიფო ჰიმნი Hino Nacional da RSS da Geórgia | |
| Latvijas Padomju Sociālistiskās Republikas himna Hino Nacional da RSS da Letônia | |
| Lietuvos Tarybų Socialistinės Respublikos himnas Hino Nacional da RSS da Lituânia | |
| Imnul Republicii Sovietice Socialiste Moldovenești (“Moldova Sovietică”) Hino Nacional da RSS da Moldávia (leia também a letra de 1945 a 1980) | |
| Кыргыз Советтик Социалисттик Республикасынын Мамлекеттик Гимни Hino Nacional da RSS do Quirguistão | |
| Суруди миллии Ҷумҳурии Шӯравии Сотсиалистии Тоҷикистон Hino Nacional da RSS do Tajiquistão | |
| Түркменистан Совет Социалистик Республикасы Дөвлет Гимни Hino Nacional da RSS do Turcomenistão | |
| Державний гімн Української Радянської Соціалістичної Республіки Hino Nacional da RSS da Ucrânia | |
| Ўзбекистон Совет Социалистик Республикасининг давлат мадҳияси Hino Nacional da RSS do Usbequistão | |
| Karjalais-suomalaisen sosialistisen neuvostotasavallan hymni (“Oma Karjalais-suomalaiskansamme maa”) Hino Nacional da RSS Carelo-Finlandesa (1940-1956) |
Não pertenceu à URSS, mas foi por ela anexada:
| República Popular de Tuva (Tıva Arat Respublik), 1921-1944 “Tıva İnternatsional” (“A Internacional Tuvana”, 1921-1944) “Tooruktuğ dolgay tañdım” (“A floresta cheia de pinhões”, 1944) |
Pra encerrar, gostaria de fazer apenas três observações sobre o material. Primeira, as versões dos vídeos aqui incorporadas estão sem as descrições do início e sem os “créditos” do fim (que não passavam da indicação de minha autoria e do nome do antigo canal, que foi rebatizado várias vezes). Isso torna o consumo mais agradável, cria uma “miniatura” automática já com os símbolos das RSS e evita a transmissão de informações obsoletas.
Segunda, nas URLs curtas e na introdução acima, não usei os nomes antigos “Bielorrússia”, “Moldávia” e “Quirguízia”, originários do russo, e sim os atuais e nativos “Belarus”, “Moldova” e “Quirguistão” (preferível a “Quirguizistão”). Naturalmente, nas legendas e nas descrições dos nomes, constam as formas “soviéticas”, e a mudança está explicada em cada publicação, mas modernizei nos endereços pra padronizar e evitar confusão.
E terceira, todas as 15 letras passaram por alterações após Stalin ter morrido e Khruschov ter procurado apagar todos os vestígios do “culto à personalidade” de seu antecessor. É que elas faziam alusões ao antigo ditador, e às vezes a fatos históricos passados, como a 2.ª Guerra Mundial, citada indiretamente no hino da URSS. Daria muito trabalho fazer mais 14 traduções (já que traduzi as duas versões do pan-soviético) de letras nem sempre disponíveis e de gravações em áudio raríssimas e praticamente inexistentes. Portanto, o que você vai ler são as versões “finais” das letras, que vigoraram até 1991.

Esta postagem foi colocada em 18 de abril numa página do Facebook que já apaguei, e depois a repostei em meu perfil pessoal. Escrevi mais de um mês depois dos fatos, quando observei, muito por acaso, pelo menos quatro aberrações linguísticas deste banner “Lula Livre”, de quando o ex-presidente fez um longo discurso após ter recuperado seus direitos políticos em 2021. Compartilhem ao máximo, mesmo em outras redes, pois o negócio é sério e o responsável parece ter meramente posto “free” no Google Tradutor e decalcado os resultados:
0) Não vou comentar a mistura entre palavras que significam “livre” e “liberdade”, porque isso pode ter sido feito de forma proposital.
1) Vamos com o russo primeiro, já que a maioria me segue por causa dele. Bem do lado esquerdo está em cirílico “бесплатно” (besplatno), que significa... “de graça”! Pra piorar, esta forma é curta e neutra, ou seja, usada quase sempre como advérbio (gratuitamente etc.). Em russo deveríamos dizer “свободный” (svobodny), que é a palavra certa, na forma longa masculina. Ou seja, “свободный Лула”, hehehe.
2) Ainda em russo, está muito pequeno pra ler (é difícil achar fotos do púlpito em boa resolução), mas logo abaixo do grande “free” há a palavra “вольность” (volnost). Porém, esse substantivo remete ao adjetivo “вольный” (volny), que por sua vez vem do substantivo “воля” (volya), mais traduzível como “vontade”, “desejo” ou “liberdade de escolha”, implicando opção deliberada, e não ausência de limitações. Daí, referida ao já citado adjetivo “свободный”, temos a palavra correta “свобода” (svoboda).
3) A maior barbárie está no árabe e no persa, que usam um alfabeto da mesma matriz. Logo acima do russo lemos um ی د ا ز ا que equivale ao persa “âzâdi” (liberdade). A pessoa conseguiu uma façanha incompreensível: botou a ordem dos caracteres da esquerda pra direita (a ordem inversa dessa escrita) e não realizou a ligação entre as letras! Ainda que no caso de âzâdi, ela lucra com o fato das letras em questão realmente não fazerem ligação com a posterior, por regra: آزادی (e o primeiro alef deveria ter o sinal especial que parece um til).
4) Em árabe a coisa não é tão simples. Podemos ver a palavra “liberdade” logo à esquerda da expressão “Lula Livre” escrita da seguinte forma: ة ي ر ح (claro que estão bem juntinhas, mas não adquirem a forma de ligação). Lê-se mais ou menos “hurriyya”, mas torna-se algo ininteligível a um árabe comum, pois além da separação, há a inversão da ordem correta. A palavra, ainda mais diferente, deveria ser esta: حرية
5) À direita da cabeça desenhada, lemos “freiheit”. É o substantivo alemão “liberdade”, e como todo substantivo em alemão leva inicial maiúscula (a não ser por razões de estilo, o que não parece ser o caso), deveria ser “Freiheit”. Se fosse “frei” (literalmente “livre”), aí tudo bem, embora pra ser “Lula Livre” devêssemos usar a terminação do qualificativo (e não meramente predicativo), “Freier Lula”.
6) Curiosamente, várias línguas estão repetidas com as palavras “livre” e “liberdade”, mas em meio à salada exótica que inclui iorubá (que deveria ter acentos: “òmìnira”), xhosa/zulu, latim (!) e tailandês, estão ausentes línguas mais conhecidas e com maior potencial de impacto. Exemplos: japonês, hindi, as nórdicas, finlandês, romeno, esperanto (por que não?) e qualquer eslava exceto o russo (sobretudo servo-croata e checo, porque do apoio ucraniano e polonês duvido muito).
Conclusão: apesar das ótimas intenções de quem confeccionou o artefato, traduzir em outras línguas muitas vezes implica não apenas tacar palavras em tradutores automáticos, mas também conhecer as regras que regem o emprego dessas línguas, sobretudo as flexões. Você conseguiu ver mais alguma coisa estranha aí? Escreva-me sobre suas descobertas!
O vídeo sem legendas está no canal YouTube do usuário Anatoli Ushakov, e infelizmente não consegui identificar a data exata, nem havia menção a ela no vídeo. Tempos depois encontrei o mesmo trecho num breve registro documental a respeito dos 70 anos de vida de Stalin (1949), com trechos esparsos de várias homenagens em russo à época, mas talvez ele possa também estar falando em 1936 ou 1937, não só pela qualidade da imagem, mas também porque ele fala da Constituição Soviética de 1936, chamada “Stalinskaia” (Сталинская), ou “de Stalin”, a qual consolidou o poder do georgiano na URSS. Além disso, há um trecho de discurso (áudio) de 1937, em que ele faz vastos elogios a Stalin e é febrilmente ovacionado. Não tenho certeza se se trata da mesma ocasião.
Na época não consegui transcrever o texto de ouvido porque o áudio é muito ruim, mas por sorte alguém postou em comentário o texto do que Khruschov falou, que consistia no seguinte, em alfabeto cirílico e em alfabeto latino no meu sistema de transliteração (a tradução se encontra apenas no vídeo):
“Главное, что нас привело к нашей сталинской конституции, – это наша большевистская ленинская-сталинская партия, это руководство нашего великого товарища Сталина!”
“Glavnoie, chto nas privelo k nashei stalinskoi konstitutsii, – eto nasha bolshevistskaia leninskaia-stalinskaia partia, eto rukovodstvo nashego velikogo tovarischa Stalina!”
Temos aqui um belo exemplo da plasticidade da morfologia russa. Ele usa o adjetivo “stalinski” (сталинский) (aqui na forma feminina “stalinskaia” (сталинская), porque é “a” constituição), que é a adição ao apelido Stalin do sufixo -ski (-ский), prolífico formador de adjetivos. Pode ser traduzido de várias formas, dependendo do contexto: “staliniano” ou apenas “de Stalin”. Acho que “stalinista” fica muito forçado, porque em geral é referência negativa feita por opositores.
Ele faz a mesma coisa com “Lenin” (Ленин) – “leninski” (ленинский), que pode ser traduzido como “leniniano”, “leninista” (neste caso não é forçado, porque naquela época tal forma já era corrente) ou “de Lenin”, como no caso de uma região de Moscou chamada “Leninskie gory” (Ленинские горы), “Colinas de Lenin” (ou mesmo apenas “Colinas Lenin”). Mas na fala de Khruschov há notável junção dos adjetivos em “leninskaia-stalinskaia partia” (ленинская-сталинская партия) como se fossem uma coisa só. Era comum essa referência a Lenin e Stalin como uma só entidade, como se usava em “partia Lenina-Stalina” (партия Ленина-Сталина), literalmente “partido de Lenin-Stalin”. Mas no geral traduzo separado: “partido de Lenin e Stalin”, como no vídeo, com “leninskaia-stalinskaia partia” (ленинская-сталинская партия).
É interessante lembrar que os próprios apelidos de Lenin e Stalin provêm de um sufixo que indica posse e forma adjetivos de pertencimento, também muito empregados como sobrenomes, tais como os nossos sobrenomes antecedidos de “do(s)”, “da(s)” ou “de”. Na língua russa literária são usados os sufixos -ов (-ov), -ев (-ev), -ин (-in) e -ын (-yn) como uma espécie de possessivo junto a qualquer substantivo, tal como o ’s inglês ou o caso genitivo do próprio russo (mas o adjetivo de posse vem antes do substantivo, e o atributo no genitivo, depois). -Ов e -ев se usam com nomes masculinos, -ин e -ын com nomes femininos ou com masculinos de final feminino (-a, -ia); -ев se usa após as chamadas “terminações brandas”, e -ын é mais raro, geralmente empregado apenas após Ц (TS).
O uso desses sufixos é mais comum nas línguas eslavas meridionais, como o sérvio: Titov govor (o discurso de Tito), Lukin album (o álbum do Luka). Em tcheco também se usa para formar sobrenomes de mulheres casadas a partir do sobrenome do marido, em procedimento semelhante ao costume argentino da mulher receber o sobrenome do marido precedido de “de”: Jan Blahuš > Jana Blahušová.
Em russo há mais em sobrenomes ou topônimos consagrados: Иванов (Ivanov, “Ivan”, “de Ivan” ou “dos Ivans”, a partir de Иван/Ivan), Гусев (Gusev, “Ganso” ou “do Ganso”, a partir de гусь/gus), Медведев (Medvedev, “Urso” ou “do Urso”, a partir de медведь/medved), Ленин (Lenin, a partir do rio siberiano Лена/Lena, onde o líder foi desterrado por anos), Сталин (Stalin, “de aço”, a partir de сталь/stal), Царицын (Tsaritsyn, antigo nome de Stalingrado/Volgogrado, relativo ao rio Царица/Tsaritsa, afluente do Volga e cujo nome teria origem túrquica, embora também signifique “tsarina”).
É mais raro com substantivos comuns: папин дом (papin dom, “a casa do pai”, a partir de папа/papa), дядин труд (diadin trud, “o esforço do tio”, a partir de дядя/diadia), дедов портрет (dedov portret, “o retrato do avô”, a partir de дед/ded), отцов характер (ottsov kharakter, “o caráter do pai”, a partir de отец/otets). É mais corrente em expressões consagradas: Христов день (Khristov den, “o dia de Cristo”, isto é, a Páscoa, a partir de Христос/Khristos, sem o -os), сукин сын (sukin syn, “filho da mãe”, a partir de сука/suka – cadela, vagabunda, vadia).
Para se referir a mulheres (com o sobrenome vindo do pai ou do marido) ou ao gênero feminino, basta acrescentar o -a: Иванова (Ivanova), Гусева (Guseva), Медведева (Medvedeva), папина жизнь (papina zhizn, “a vida do pai”), дедова жена (dedova zhena, “a esposa do avô”), Христова невеста (Khristova nevesta, “noiva de Cristo”, isto é, “freira” ou “solteirona”). Cumpre destacar que o gênero dos sufixos se refere ao substantivo originário, e não ao portador da palavra: “Guseva” é uma mulher, embora a palavra “gus” seja masculina e, por isso, receba -ev; “Stalin” é um homem, embora a palavra “stal” seja feminina e, assim, demande -in. Não vou abordar a declinação desses substantivos, que segue um paradigma especial, pois é um tema complexo que não cabe no escopo deste blog.

As traduções de clássicos do pensamento sistemático mundial a partir de línguas bem diferentes em estrutura das euro-ocidentais (inglês, francês, espanhol, italiano, português) sempre levantaram muitas dificuldades e deram origem a mal-entendidos, especialmente no tocante ao vocabulário. Freud a partir do alemão deve ser o desafio mais conhecido, e também o mais rico em casos, dentre os quais cito apenas a polêmica distinção entre “cultura” e “civilização”. Até dizem por aí, também, que a virgindade de Maria teria se baseado em problemas de tradução dos textos sagrados do hebraico para o grego...
O russo não causa menos problemas, principalmente porque em vários domínios seu vocabulário é bem mais rico do que os das línguas euro-ocidentais, e só para “trabalho”, “trabalhador”, “escravo”, “batalha” e “lutador”, por exemplo, existem diversos sinônimos que ainda por cima, às vezes, fazem o favor de aparecer juntos em trechos bem curtos de texto! Na semana passada mesmo troquei alguns e-mails com Alvaro Bianchi, professor de ciência política da Unicamp, militante do PSTU, especialista e teórico da ideologia e prática trotskistas, a respeito de uma expressão que aparece em algumas traduções inglesas de textos de Leon Trotsky, e que Alvaro julgava ser a tradução errada de alguma expressão do alemão ou do russo.
Segue abaixo o essencial de sua primeira mensagem do dia 19 de fevereiro, com algumas adaptações, mas que nos ensina muita coisa interessante: “Trotsky escrevia em russo, obviamente, mas também era fluente em alemão e ocasionalmente escrevia em francês. O problema está com os textos do exílio mexicano, os quais eram vertidos para o inglês imediatamente e publicados nessa língua em revistas como New International, ou no jornal The Militant. Minha dúvida está com uma expressão que geralmente é traduzida por ‘nova classe média’. Ela aparece em dois textos publicados em inglês em 1938 e 1939 como ‘new middle classes’. Minha dúvida é se essa foi uma tradução exata. Em Marx é comum a expressão ‘Mittelstand’, que literalmente é camadas ou estratos médios. Com Marx as traduções em inglês cometem a impropriedade de traduzir ‘Mittelstand’ por ‘middle class’.”
“O erro pode ter se reproduzido com Trotsky. Na literatura alemã, particularmente nos textos de Kautsky, nos quais aparece pela primeira vez essa noção, a expressão utilizada é ‘neuen Mittelstand’. Em alguns textos de Trotsky que eu tenho certeza que foram imediatamente publicados em alemão (particularmente aqueles sobre o nazismo), a palavra usada é ‘neuen Mittelstand’ (ler o texto “Was Nun?”). Ele pode ter escrito esses textos em alemão ou revisado as traduções. Em outros, aparentemente traduzidos do inglês, a expressão utilizada é ‘neuen Mittelklassen’ (ler o texto “Neunzig Jahre Kommunistisches Manifest”). A resposta para a questão pode estar nas edições russas de Nossas tarefas políticas (ler a parte 3 em inglês) e de 1905 (ler o capítulo 4 em inglês), ambas existentes nas Sochinenia, as obras completas de Trotsky. Nas edições em inglês aparece a expressão ‘new middle classes’. Você faz ideia de qual é a palavra utilizada por Trotsky em russo nesses dois textos? Tem como descobrir isso?”
Na sequência, as ideias principais de minha resposta. Entre os dias 19 e 20, fiz uma pesquisa no Google e em páginas com obras de Trotsky em russo digitalizadas, e a primeira coisa que notei foi a citação, no prefácio em inglês de Nossas tarefas políticas que o Alvaro me indicou, de quão raro é achar essa obra em qualquer língua, por causa da contradição entre seu conteúdo político e a adesão posterior de Trotsky às fileiras bolcheviques. E de fato, mesmo procurando muito, não achei em russo nem essa obra, que de fato existe como uma brochura chamada Наши политические задачи [Nashi politicheskie zadachi], nem 1905.
Porém, combinei algumas palavras em russo também no Google com o que seria “nova classe média” em russo (“новый средний класс” [novy sredni klass]), e acabei chegando a obras de Trotsky que usavam o termo “новое среднее сословие” [novoye sredneie soslovie], sendo “сословие” [soslovie], pois, o termo em torno do qual gira a questão.
Segundo minhas consultas a dicionário e enciclopédia, “сословие” [soslovie] tem várias traduções, dentre as quais “classe” mesmo, “estamento”, “estado” (como em “terceiro estado”), “casta”, “grêmio”, “ofício”, “grupo” (por exemplo, na expressão “женское сословие” [zhenskoie soslovie], “o mulherio”), e acredito que se refira a um grupo mais fechado, que exige algum tipo de iniciação ou a posse de uma característica inata ou herdada, sendo que na Wikipédia o artigo em russo “Soslovie” remete ao português “Estamento”. Não conheço alemão para confirmar a equivalência com os termos que o Alvaro me indicou nessa língua, e lhe sugeri polidamente que talvez ele compreendesse melhor do que eu essa sociologia das “camadas” e “classes” ao longo da história.
Em todo caso, apontei-lhe ainda que nessa busca acabei caindo em outros escritos de Trotsky, e um deles que me chamou mais a atenção está no tomo 4 das Sochinenia, tomo que se chama “Ante um limiar histórico. Crônica política” e tem artigos dele relacionados a acontecimentos políticos entre 1900 e 1914. Como o Alvaro disse, vários desses artigos foram publicados em jornais estrangeiros e tiveram de ser traduzidos para o russo. Nesse tomo, há uma subdivisão chamada “Às vésperas da revolução” (referência à Revolução Russa de 1905), em que se encontram vários artigos publicados no Iskra (periódico de socialistas russos exilados do início do século 20) entre 1903 e 1905, e sete deles estão agrupados sob o título geral de “Cartas políticas”, embora eu não saiba o contexto geral de sua redação, nem por que receberam juntas esse título.
O referido artigo saiu no número 59 do Iskra de 10 de fevereiro de 1904 e tem o longo título “Новое ‘среднее сословие’. Выборы в Петербургскую думу. ‘Более или менее социалистическая’ демократия. ‘Оседло-образовательный’ ценз. Кто скажет последнее слово?”, traduzindo aproximadamente, “A nova ‘classe [soslovie] média’. Eleições para a Duma de São Petersburgo. Uma democracia ‘mais ou menos socialista’. Grau de ‘instrução-sedentarismo’. Quem dirá a última palavra?”. A tradução dos escritos dessa época é um tanto difícil, porque Trotsky se vale de um estilo muito peculiar, com ironias e repetições só compreensíveis naquele contexto. Porém, as primeiras palavras do artigo são as seguintes, muito sugestivas:
Русская “интеллигенция” дописывает последние страницы своей истории. Ее рост, развитие, упрочение ее позиций вызывают полное ее перерождение. Из своеобразного “ордена” с привлекательной романтической окраской она превращается в прозаическое “среднее сословие” буржуазного общества. В среднее сословие, ибо она стоит между крайними социальными классами, буржуазией и пролетариатом.Tradução aproximada:
A “intelligentsia” russa está concluindo a escrita da última página de sua história. Seu crescimento, desenvolvimento e o fortalecimento de suas posições estão provocando seu pleno renascimento. De algo semelhante a uma “ordem” com uma atraente coloração romântica, ela está se transformando numa prosaica “classe [soslovie] média” da sociedade burguesa. É uma classe [soslovie] média, pois se localiza entre as classes [klassami, instrumental plural de klass] sociais extremas, a burguesia e o proletariado.Como o paciente leitor deste blog deve ter notado, falei, falei, joguei inúmeras informações e no fim não dei nenhuma resposta pronta sobre a tradução da palavra russa “soslovie”. De fato, só notei isso ao terminar de transformar esta conversa em postagem, mas acredito que a resposta agradecida do Prof. Alvaro Bianchi já no fim da tarde do dia 20 deu o fecho que supre minha omissão involuntária: “Fiz outras consultas e cheguei à conclusão de que no início do século 20 a palavra ‘soslovie’ era utilizada na literatura marxista com o sentido de ‘estamento’ ou ‘casta’. Assim, parece-me que a melhor tradução para ‘новое среднее сословие’ [novoie sredneie soslovie] é ‘nova camada média’ ou ‘novos estamentos médios’. Quando se fala de classe burguesa ou classe operária, em russo o termo é sempre ‘класс’ [klass], e nunca ‘soslovie’.”
Coisas da vida, hehehe. Minha alegria só aumentou quando ele comunicou, por fim, que “Quando terminar de redigir a pequena nota na qual estou trabalhando te envio para dar uma olhada.” Vamos aguardar, quem sabe até eu não comunique algo a vocês quando sair!
Nota (29/5/2015): Um acadêmico, após ler esta postagem, enviou em meu e-mail pessoal alguns excertos de textos de Gregory L. Freeze, historiador da Rússia e professor da Universidade Brandeis, localizada em Waltham, perto de Boston, nos EUA. Um deles é o curto verbete “Soslovie”, da Encyclopedia of Russian History, publicado no site Encyclopedia.com. Outro é o artigo “The Soslovie (Estate) Paradigm and Russian Social History”, publicado na American Historical Review, vol. 91, n. 1 (Feb., 1986), pp. 11-36, e que pode ser visualizado e baixado na base de dados JSTOR, mas apenas em computadores de faculdades ou outras entidades cadastradas. Eu não tive tempo de ler a fundo os textos, mas quem quiser se aventurar, fique à vontade! Também agradeço ao amigo correspondente pelas dicas.

Tendo conhecido meu trabalho de tradução e legendagens, um rapaz me contatou pelo Facebook para falar de um poema do russo Viktor Vladimirovich Khlebnikov, mais conhecido sob o nome artístico de Velimir Khlebnikov (Велимир Хлебников), nascido em 1885 e falecido em 1922. Também dramaturgo, foi cronologicamente o primeiro vanguardista na poesia russa e uma figura central no movimento futurista nacional, embora sua influência tenha ultrapassado essas fronteiras. O referido poema, denominado “Заклятие смехом” (Zakliatie smekhom) e escrito em 1908 ou 1909, foi traduzido no Brasil pelos irmãos Campos nos anos 1950, e era uma versão de que aquele jovem gostava muito, com o título “A encantação pelo riso”. Ele também havia encontrado, após alguma pesquisa, uma versão em inglês, cuja fonte, título e tradutor ele não soube me dizer, e que em sua opinião “é muito fechada e peremptória, me remete quase que a Joyce”, enquanto a brasileira “é muito mais lúdica, apesar dos termos”.
Seu desejo que o motivou a me escrever era o de sempre querer “saber em russo como é, se o poema está mais bem traduzido em português ou inglês, qual o verdadeiro sentido que Khlebnikov quis lhe dar”; enfim, “saber qual que se aproxima mais do original”, “tentar alcançar o que o Khlebnikov realmente quis dizer”. Por isso, quebrando um pouco a ordem cronológica de nossa conversa, vou postar primeiro a versão em russo, que achei na Wikipédia, depois em português e finalmente em inglês:
«Заклятие смехом»
О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!
Что смеются смехами, что смеянствуют смеяльно,
О, засмейтесь усмеяльно!
О, рассмешищ надсмеяльных — смех усмейных смехачей!
О, иссмейся рассмеяльно, смех надсмейных смеячей!
Смейево, смейево,
Усмей, осмей, смешики, смешики,
Смеюнчики, смеюнчики.
О, рассмейтесь, смехачи!
О, засмейтесь, смехачи!
“A encantação pelo riso”
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos - risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
O, laugh, laughers!
O, laugh out, laughers!
You who laugh with laughs, you who laugh it up laughishly
O, laugh out laugheringly
O, belaughable laughterhood - the laughter of laughering laughers!
O, unlaugh it outlaughingly, belaughering laughists!
Laughily, laughily,
Uplaugh, enlaugh, laughlings, laughlings
Laughlets, laughlets.
O, laugh, laughers!
O, laugh out, laughers!
Como eu havia dito, embora eu tenha traduzido alguma poesia para o esperanto e para a interlíngua, nunca fui um especialista no assunto, e o que respondi ao rapaz foi uma percepção baseada naqueles dois livros que citei inicialmente. A primeira coisa que notei de cara é que não há preocupação com métrica: essa despreocupação também passou às traduções. Segundo minha pesquisa na Wikipédia em russo, o poema original nasceu de uma técnica do Khlebnikov que consistia em formar famílias de neologismos a partir de um mesmo radical, o que achei semelhante a um famoso hábito de Guimarães Rosa. Por isso abundam prefixos, sufixos, mutações consonânticas e flexões... O russo é uma língua muito rica e frutífera nessas derivações, então ele pôde jogar inclusive com terminações de adjetivos, verbos etc., em suas várias pessoas e casos. Além de tudo as palavras são bem compridas, o que dá dinamismo à fala. A sacada principal do poema foi jogar com três formas de um radical do russo que passa a ideia de “riso”, “graça”, e que se encontram nestas palavras: “смех” (smekh – riso), “смеяться” (smeiatsia – rir) е “смешно” (smeshno – engraçado). Assim, esses três radicais (smey-, smekh-, smesh-) se combinam com uma infinidade de prefixos e sufixos que dão os mais finos matizes de significado. Por exemplo, “рассмейтесь”, “смехачи”, “засмейтесь”, “смеянствуют”, “усмеяльно”, “рассмешищ”, “смейево”, “смеюнчики” etc.
Esses radicais e afixos promovem uma riqueza sonora que passa a ideia do riso, da zombaria, do fuxico, do sussurro, e que se dá essencialmente em torno das consoantes С (som de SS, especialmente em sua versão branda, palatizada; escute a palavra russa “семь”, com essa palatal), Х (que soa como o J espanhol) e Ш (versão dura do nosso CH). Acresçam-se também vários sufixos diminutivos em que aparecem as consoantes Ч (TCH) e Щ (versão branda do nosso CH; escute a palavra russa “щи”, com essa consoante), também chiantes. Acredito que a repetição das vogais Я (YA), Е (YE) e Ю (YU), além da semivogal Й (Y, como no inglês “yard” ou “say”), também ajuda no efeito.
Flexões ricas e palavras compridas são propriedades muito presentes no russo, um pouco menos no português e quase ausentes no inglês, e isso justifica a impressão do rapaz, para quem a versão nesta língua seria repetitiva e breve. Acredito que os três poemas também trabalham com os sons que cada língua considera característicos do riso: a concepção de russo e do português é mais consonântica, e a dos ingleses, mais vocálica, e acredito que com um toque de glotalismo. Por isso a versão em inglês fica limitada à combinação dos sons “ló”, “lóf”, derivada do único radical repetido (“laugh”), enquanto a versão em português nos oferece no máximo duas consoantes associadas ao riso e à zombaria (RR e Z), a partir de derivados de “rir” e “riso”. Como falei acima, o russo tem uma repetição de chiantes, sibilantes, fricativas e palatais inimitável em qualquer tradução.
Além da parte formal, ainda não falei do conteúdo. Afinal, como disse nosso amigo do Facebook, “Eu queria saber qual que se aproxima mais do original. Queria tentar alcançar o que o Khlebnikov realmente quis dizer”. De fato, logo após começar a consultar dicionários, eu desisti, pois quase todas as palavras estão ausentes de dicionários russos, e a saída dos tradutores deve ter sido, portanto, “inventar” eles também palavras novas em suas línguas para manter a graça do poema. A qualquer um que leia o poema em russo resta a alternativa de captar nos prefixos e sufixos as ideias de “início”, “dispersão”, “excesso”, “agentes”, “maneiras”, “propriedades”, enfim, combiná-las com a ideia mais geral de “riso” ou “graça” e ao menos entender o sentido global de cada palavra, e não tentar achar outras palavras que traduzam literalmente esses neologismos.
Portanto, de forma geral, as duas traduções estão “próximas” na semântica, mas o português consegue recriar um pouco mais que o inglês o efeito sonoro. Mesmo assim, na verdade os dois estão muito longe de recriar o efeito primário, e se o objetivo do leitor é buscar o que Khlebnikov quis dizer, que ele “largue mão”, como dizemos no interior de São Paulo: tradução não é transposição de palavras, mas interpretação (quase sempre subjetiva) do conteúdo da língua de chegada e recriação da forma na língua de partida. E ainda mais em poesia, geralmente o conteúdo é sacrificado em favor da forma. Por isso falei que na busca de tentar recriar as invenções neologísticas do russo, os dois autores acertaram, mas a língua russa tem vários aspectos formais que se mostraram irreproduzíveis: a riqueza de consoantes sibilantes, chiantes e palatais; a riqueza de prefixos e sufixos formadores de todas as classes de palavras e que dão vários matizes precisos de significado; a riqueza das terminações de caso, que permitem ampliar ainda mais os efeitos sonoros.

Esta é mais uma nota de Facebook que estou transformando em postagem do blog, mais para encher linguiça mesmo, sendo sincero. Mesmo assim, espero que como meio de compartilhar experiências, ela seja útil também a outras pessoas. São algumas anotações sobre as soluções a que cheguei ao traduzir do francês um artigo sobre o famoso “relatório secreto”, lido por Nikita Khruschov no 20.º Congresso do Partido soviético em 1956, e sobre sua difusão entre a população local e outros países comunistas. A referência bibliográfica do artigo é esta: Branko LAZITCH, “Le «Rapport secret» de Khrouchtchev entre la petite et la grande histoire” [O “Relatório Secreto” de Khrushchov entre a pequena e a grande história], Communisme, n. 9, 1.º trimestre/1986, pp. 52-58. Minha tradução pode ser lida aqui.
Para mais informações sobre pressupostos tradutórios e outros livros teóricos, acesse e leia também minhas outras três postagens sobre problemas de tradução do russo. Recomenda-se que o leitor da presente postagem tenha algum conhecimento de francês para acompanhar melhor meu raciocínio.

Um tradutor não é um mero transpositor de palavras, mas um leitor e entendedor aguçado e um escritor ainda mais apurado. Em resumo: deve praticamente reconstruir o texto em português com base no entendimento exato da ideia do texto de partida. Em grande parte dos casos, isso mina a ideia de “tradução literal” ou “palavra por palavra” como o modelo ideal de tradução que os leigos têm na cabeça.
Vejam este trecho, por exemplo:
“La Pologne devint la filière par laquelle le Rapport secret se transforma en Rapport public. Edward Ochab fut le témoin décisif à cet égard, et ce par deux fois !”
Eu cheguei a isto (posso ter cometido equívocos):
“A Polônia foi a fresta pela qual o Relatório Secreto escapou para se tornar um Relatório Público. Edward Ochab confirmou decisivamente esse fato, e por duas vezes!”
É praticamente uma atividade de decifração, porque literalmente ficaria horrível...
Segundo a classificação feita por Heloísa Gonçalves Barbosa (Procedimentos técnicos da tradução: uma proposta, 2.ª edição, Campinas, SP, Pontes, 2004), teríamos abaixo um exemplo de “explicitação” em tradução, isto é, a adição de elementos que tornam claro ao leitor estrangeiro algo que talvez fosse mais evidente ao leitor nativo.
Exemplo (do francês): Num texto sobre a URSS de 1956, “Institut de la littérature mondiale” pode ser desdobrado em “Instituto Gorki de Literatura Mundial, em Moscou”, acrescentando o nome da cidade e a homenagem onomástica que é sempre feita em russo.
Segundo o mesmo sistema, neste caso teríamos uma “transposição”, ou seja, a mudança de categoria gramatical para passar a mesma ideia semântica:
“Au départ des événements on trouve tout simplement un document confidentiel.” (Francês)
“Na origem dos eventos encontra-se um simples documento confidencial.”
tout simplement (advérbio) > simples (adjetivo).
“Compensação” é o procedimento que desloca para outro ponto do texto de chegada o efeito dado por um elemento em determinado ponto do texto de partida. Assim, por exemplo, se uma palavra não fica adequada, na tradução, em determinado ponto, pode ser colocada em outro:
“Au temps de Khrouchtchev encore, le fameux monolithisme était un joyau précieux dans la couronne du parti” (Francês).
“Nos tempos de Khruschov, o célebre monolitismo ainda era uma joia preciosa da coroa do Partido” (Português: notar deslocamento da palavra “encore”/“ainda”).

Termino com este texto uma breve série em que espero ter bem abordado várias questões que me fizeram pensar durante a tradução de textos da língua russa para a portuguesa, especialmente canções e discursos da era soviética. Eu havia escrito e salvado esses apontamentos como notas no Facebook e, após algumas revisões, publiquei nessas últimas três semanas. Não deixem de ler também o primeiro texto e o segundo texto da série, para conhecer a ideia por trás das publicações, meus pressupostos em teoria tradutória e algumas informações sobre os autores de livros que cito aqui.
Nesta terceira postagem, um pouco mais longa e também mais minuciosa (o que pode tê-la tornado mais árida), dou exemplos de como lidar com as repetições de palavras e expressões no texto de partida, especialmente se elas tiverem função estilística, e como por vezes a condensação do tamanho do texto na versão de chegada é possível prejudicando ao mínimo a passagem de significados. Para tanto, serão mencionados vários procedimentos técnicos que os teóricos da tradução mais consagrados descrevem em suas obras e cujo esclarecimento pode exigir pesquisa adicional. Também é recomendável que os leitores tenham algum conhecimento de russo, mesmo apenas do alfabeto cirílico, porque nem sempre vou traduzir ou transliterar as palavras e frases dos textos de partida.
REPETIÇÃO E CONDENSAÇÃO
Concluí mais uma tradução de um pequeno discurso de Lenin, e me deparei com alguns problemas tradutórios que gostaria de compartilhar. São relativos à manutenção de repetições estilísticas e à condensação de duas expressões numa só, mas carregando o sentido de ambas.
A primeira questão se refere ao seguinte trecho:
“Почему мы победили Юденича, Колчака и Деникина, хотя им помогали капиталисты всего мира? Почему мы уверены, что победим теперь разруху, восстановим промышленность и земледелие?”
Para tornar a exposição mais fácil, vou mostrar a solução à qual cheguei:
“Por que vencemos Iudenich, Kolchak e Denikin, embora eles tenham sido auxiliados pelos capitalistas do mundo inteiro? Por que estamos certos de que agora venceremos o caos e restauraremos a indústria e a agricultura?”
Inicialmente, levando em conta o fato descrito, fiquei tentado a traduzir o início da frase assim: “Como foi que vencemos...” ou “Como foi que conseguimos vencer...”, e queria manter o “Por que estamos certos...” posterior. Contudo, julguei que essa repetição de “Почему мы...” dava um efeito de complementação por meio da repetição, então mantive intacto o “Por que...”, e retirei o “nós/мы” para dar mais dinamismo à frase. Eu também quis traduzir o “победили” inicial (pretérito do verbo “победить”, que pode significar “vencer”, “derrotar” ou “superar”, conforme o contexto) como “derrotamos”, pois se tratava de uma derrota militar imposta aos líderes do Exército Branco. Mas daí ia quebrar a repetição com o “победим” (“venceremos”, futuro do mesmo verbo “победить”), que até poderia ser traduzido como “superaremos”, “ultrapassaremos” etc., mas que cabia muito bem como “venceremos”. Então, o efeito ficaria algo parecido como: “Por que vencemos...? E por que venceremos...?”
Notável é que a tradução inglesa disponível no portal Marxists.org, entre outras perdas de sutileza, apresenta o trecho da seguinte forma: “How was it that we conquered Yudenich, Kolchak and Denikin, although they had help from capitalists of the whole world? Why are we sure that we will now overcome the ruin and rebuild our industry and agriculture?” Ou seja, as duas repetições são perdidas para “How was it that we...”/“Why are we...” e “conquered”/“overcome”. O tradutor para o inglês também deixou escapar uma falta de constância ao traduzir, mesmo em ocorrências distantes, a expressão “мы уверены, что...”, que fixei como “estamos certos de que...” (mas que poderia tomar outras formas), numa vez como “we are sure that...” (na verdade, “... are we sure that...”) e na outra, “we are convinced that...”. Não sei, claro, com meu pouco conhecimento técnico de inglês, se as contingências exigiriam essas formas diferentes, mas no russo parecia não haver distinção.
Não estou considerando aqui diversos tipos de repetição que Lenin faz, mais retóricos do que estilísticos, por conta da situação oral em que se encontra, e que geralmente omito, porque minhas traduções, a princípio, se destinam apenas a serem assimiladas na forma escrita (um filme de época com um ator interpretando Lenin, por exemplo, exigiria a reprodução dessas mesmas repetições retóricas). Para ficarmos no mesmo texto: “так же сознательно, с такой же твердостью, с таким же героизмом”, literalmente “tão conscientemente (quanto antes), com a mesma firmeza, com o mesmo heroísmo”, e que reduzi para “com a mesma consciência, firmeza e heroísmo”, incluindo ainda a transposição de um advérbio em substantivo (falarei desse procedimento técnico adiante).
Também achei interessante, sem arrogância, uma solução à qual cheguei traduzindo o seguinte parágrafo:
“Долой шкурников, долой тех, кто думает о своей выгоде, спекуляции, об отлынивании от работы, кто боится необходимых для победы жертв!”
A primeira solução à qual eu havia chegado era esta:
“Abaixo os arrivistas, abaixo os que só pensam em lucrar, especular, esquivar-se ao trabalho e que temem os sacrifícios indispensáveis à vitória!”
Quero concentrar a atenção no seguinte trecho: “кто думает о своей выгоде, спекуляции, об отлынивании от работы”. Literalmente, temos a seguinte interpretação: “que pensam em seu (próprio) proveito (ou “lucro”, dependendo do contexto), em especulação, no esquivo do trabalho”. Claro que no caso de “esquivo do trabalho” já ficaria muito melhor de cara “em esquivar-se do trabalho”, levando-se em conta que em russo usam-se substantivos em muitos casos em que usamos verbos. Essa é a primeira ocorrência do procedimento técnico de tradução que Vinay e Darbelnet, além de outros autores que os continuaram, chamaram de “transposição”, ou seja, a mudança do material léxico para expressar a mesma ideia (no caso, a transposição de um substantivo em verbo reflexivo). Porém, como vimos, a dinâmica da frase exigiu também a transposição dos substantivos “выгода” e “спекуляция” (ambos, no texto, na forma do caso prepositivo singular) para os verbos “lucrar” e “especular”, havendo ainda o acréscimo da palavra “só” por questão de ênfase e a omissão (que também seria um procedimento técnico, segundo Vázquez-Ayora) do pronome possessivo “своя” (“sua”, “sua própria”, sempre se referindo ao sujeito da frase, no texto também na forma do prepositivo singular “своей”).
Contudo, dois dias após fazer a primeira tradução desse parágrafo, numa das várias revisões do texto, dei-me conta de que Lenin, ao falar em “lucro/proveito” e “especulação”, não estava falando dos capitalistas que imperavam antes na Rússia, e sim dos arrivistas e aproveitadores que grassavam no Exército Vermelho. Portanto, as alusões a termos de economia e mercado não eram aí plenamente cabíveis, nem mesmo como metáfora, pois prejudicavam a compreensão. No caso de “выгода/lucrar”, pensei primeiramente em substituir por “aproveitar-se” (poderia ser também “dar-se bem”) ou “aproveitar”, este, porém, sendo muito incompleto. Contudo, ainda restava decidir o que fazer com “спекуляция/especular”. Claro que o Aurélio oferecia vários significados para “especular” e “especulação”, como “Investigação teórica, esp. de natureza exploratória, sem apoio de evidência sólida”, “Compra e venda de mercadorias ou títulos, esp. de forma arriscada e visando lucros altos e rápidos”, “Negócio em que uma das partes abusa da boa-fé da outra”, “Examinar com atenção; averiguar minuciosamente; observar; indagar; pesquisar”, “Transacionar, esp. de forma arriscada”, “Valer-se de certa posição, de circunstância, de qualquer coisa, para auferir vantagens; explorar”, “Comprar e vender (mercadorias, títulos, etc.) buscando ganhos a partir da oscilação dos preços, e correndo o risco de perdas”, entre outros. Da mesma forma, os dicionários russos online transitavam entre os significados desde “operação financeira” até “busca de lucros ou vantagens fáceis”, passando por “pensamento ou raciocínio vão, sem apoio na prática”. Mas eu achava que “especular” ainda era muito ligado, para os brasileiros, às práticas do mercado financeiro.
Como se pode notar, até mesmo pela não repetição da preposição “о” (sobre, em, a respeito de) em “о своей выгоде, спекуляции” e pela sua retomada em “об отлынивании от работы” (об = forma usada antes de som vocálico), tem-se a impressão de que “выгода” e “спекуляция” são usadas como sinônimos ou palavras complementares para uma mesma ideia, e que de alguma forma a ideia de “lucrar” já está em “especular”, consistindo, portanto, numa espécie de repetição ou ênfase. A diferença é que “especular” continha ainda a ideia de “jogar com a ocasião”, “fazer apostas arriscadas”. Assim, decidi trocar as palavras “lucrar, especular” por “tirar proveito das situações”, pois a ideia de “lucrar” estaria contida em “tirar proveito”, e a de “especular”, em “das situações”. Diga-se “das situações”, e não “da situação”, pois se faz uma generalização, e não a especificação de um caso. Assim, mais uma tentativa:
“Abaixo os arrivistas, abaixo os que só pensam em tirar proveito das situações, esquivar-se ao trabalho e que temem os sacrifícios indispensáveis à vitória!”
Alguns dias depois de deixar a tradução “descansando”, reli-a novamente e pensei melhor na conveniência da inserção do advérbio “só”, pensando se Lenin queria dizer mesmo “só pensam” apenas com o verbo “думает” (pensam). Olhei melhor o verbete “думать” (forma infinitiva) no meu dicionário e vi que, além da possibilidade de deixar simplesmente como “pensar em”, poderia usar outros sinônimos da ideia, como “tencionar”, “cuidar de”, “preocupar-se com”, entre outros. Mas julguei que “pensar em” ficaria muito localizado, válido apenas para aquele momento, sem refletir possíveis características interesseiras intrínsecas a esses arrivistas. Então, procurando sinônimos, achei mais adequado e sonoro o verbo “buscar”, além do que decidi fazer novas modificações gramaticais para tornar a frase mais natural. A versão definitiva foi, afinal, esta:
“Abaixo os arrivistas, abaixo os que buscam tirar proveito das situações e esquivar-se ao trabalho, temendo os sacrifícios indispensáveis à vitória!”
E, para terminar, mais uma piadinha relacionada à minha tradução. O adjetivo “вечная”, feminino de “вечный”, presta-se a inúmeras traduções: “perpétua”, “eterna”, “incessante”, “imortal”... Pois bem, eu deveria traduzir a expressão “Вечная слава...”, que instintivamente transformei em “Glória eterna (a)...”. Para tirar a dúvida, inseri “вечная слава” no tradutor do Google, e ele me deu “glória imortal”. Contudo, vejam só: ao inserir o ponto de exclamação em “вечная слава!”, a tradução se transformou em “glória eterna!”. Vai entender...
P.S.: Link para o texto em russo e em inglês: clique aqui. Reparei que nesta versão, na frase “о своей выгоде, о спекуляции”, a preposição “о” é, sim, repetida.

Este é o segundo de uma série de textos em que pretendo abordar várias questões com que me deparei ao traduzir textos da língua russa para a portuguesa, em especial discursos e canções dos tempos soviéticos. São apontamentos que salvei como notas no Facebook e, após algumas revisões, estou publicando agora. Para mais informações sobre minhas leituras a respeito de teoria da tradução que me inspiraram a escrever, consulte o primeiro texto da coletânea.
Esta segunda postagem, como prometido na primeira, trata de questões mais específicas, e é a fusão (ou quase) de duas notas do Facebook: uma a respeito da manutenção de estrangeirismos no texto de chegada e outra sobre as diferentes traduções para o português de um mesmo substantivo, a depender se ele está no singular ou no plural. Também é recomendável que as leitoras e leitores tenham algum conhecimento de russo, mesmo apenas do alfabeto cirílico, porque nem sempre vou traduzir ou transliterar as palavras e frases dos textos de partida.

Teoria da tradução faz bem, mas é mesmo traduzindo que se aprende a traduzir. Em algumas traduções de Lenin que fiz, surgiu o pouco explorado problema da flexão de substantivos não assimilados à língua portuguesa, ou seja, os famosos “estrangeirismos”.
Deparei-me com o problema de como traduzir os plurais de “кулак” (“kulak”, o camponês médio da Rússia e da URSS) e “погром” (“pogrom”, onda de perseguição em massa aos judeus na Europa Oriental), que no nominativo são respectivamente “кулаки” (transl. “kulaki”) e “погромы” (transl. “pogromy”). Esses plurais em russo são pouco conhecidos nossos e convivem com alternativas aclimatadas às línguas euro-ocidentais, como “kulaks” e “pogroms”. Quais delas escolher? Após realizar, em alguns casos, traduções que agora eu não realizaria, acabei estabelecendo quatro níveis em que as traduções poderiam ser diferentes.
No primeiro nível, os iniciados em língua russa (ao menos em nível incipiente) e história da URSS. Obviamente, em se tratando de um texto em português, eu faria a transliteração, mas da forma no nominativo plural em russo: “kulaki” e “pogromy”. Claro que a coisa ficaria mais fácil se as palavras fossem acompanhadas por elementos plurais, como “os”, “alguns”, “certos”, “aqueles” etc.
No segundo nível, os livros de divulgação, mas ainda com um caráter científico e acadêmico. Eu escreveria os plurais originais “kulaki” e “pogromy” no texto, mas colocaria as respectivas notas de rodapé:
* Nominativo plural de “kulak” em russo
e
* Nominativo plural de “pogrom” em russo.
É de se lembrar, claro, que se no texto russo essas palavras estão em outros casos (genitivo, dativo, instrumental etc.), mesmo assim translitero como no nominativo em português.
No terceiro nível, os textos de divulgação política, geralmente os discursos e textos dos grandes líderes, mas criados especialmente para um suporte escrito fixo ou de consulta culta (mesmo que originalmente tenham sido, por exemplo, discursos orais ou panfletos), como por exemplo sites marxistas e coletâneas de documentos. É uma inversão da solução anterior: escreve-se “kulaks” e “pogroms” no texto, e, apenas para fins de informação, colocam-se as respectivas notas de rodapé:
* Nominativo plural em russo: “kulaki”
e
* Nominativo plural em russo: “pogromy”.
Essa inversão se justifica por uma questão de economia de energia mental: no caso anterior, a lentidão da leitura e o nível intelectual dos leitores justificam a espera em se saber do que se tratam “kulaki” e “pogromy”, até que se leia a nota. No presente caso, capta-se imediatamente o que são “kulaks” e “pogroms”, sendo dispendida aí toda a energia mental e não se gastando praticamente nada na consulta às notas, que ficam como uma informação secundária.
E no quarto nível, enfim, os panfletos, os textos militantes mais circulantes e fluidos, as legendas de vídeo e, possivelmente, a reinterpretação de discursos ou falas em filmes e outras ocasiões de encenação. É melhor usar aí as formas “kulaks” e “pogroms”, imediatamente compreensíveis aos receptores ocidentais.
Poderia ainda estabelecer um quinto nível de tradução, no âmbito explicativo, em que, em certos casos, ou eu trocaria “kulaks” e “pogroms” por “camponeses médios” e “massacres/perseguições antissemitas/contra os judeus”, respectivamente, ou expressões ou circunlóquios equivalentes, ou ainda poderia me valer do procedimento técnico da “explicitação” citado por Vázquez-Ayora, escrevendo “os kulaks, camponeses médios” ou “os pogroms, perseguições...” etc. Mas estou focado nos leitores que já têm algum conhecimento sobre história da Rússia e da URSS, especialmente historiadores e militantes políticos, e por isso me centro no uso de “kulak” e “pogrom”.
Em todo caso, o que eu jamais faria era utilizar formas pouco usuais e não consagradas como “cúlaque” e “pogron” (esta, incrivelmente, dada como vinda do iídiche!), listadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), havendo na primeira a marcação errada da sílaba tônica e apenas a segunda (escrita erroneamente com N) sendo listada na seção de estrangeirismos.
Existem casos na tradução em que nos deparamos com “falsos amigos”, ou seja, palavras parecidas nas duas línguas, mas de significado absolutamente diferente. Estes dias, ao traduzir Lenin, descobri, digamos, um tipo intermediário dessa confusão: palavras transparentes, ou muito comuns, que no singular sabemos muito bem o que significa, mas que no plural, por vezes, podem assumir acepções levemente diferentes.
“Продукт” (produkt), por exemplo, é fácil: significa “produto” de uma forma geral. Porém, o plural “продукты” (produkty) pode nomear também “gêneros alimentícios”, “víveres”. Aliás, foi consultando o verbete “gêneros” no Aurélio que fiz uma acrobacia na tradução: a expressão “необходимые для них продукты” (neobkhodimye dlia nikh produtky), dentre outras possibilidades, pode ser traduzida por “produtos/víveres/gêneros que lhes são indispensáveis”, se formos seguir ao pé da letra. Mas como vi no dicionário brasileiro a expressão “gêneros de primeira necessidade”, e ainda significando “Mercadorias, esp[ecialmente]. alimentos, indispensáveis às necessidades básicas do homem”, decidi traduzir “необходимые для них продукты” por “gêneros de primeira necessidade”, deixando subentendidos os destinatários já mencionados.
Outra palavra enganadora é “работа” (rabota), que, em geral, significa “trabalho”, mas que no plural, “работы” (raboty), pode designar também “obras” (em geral de engenharia). No trecho “Все работы, необходимые для восстановления транспорта” (Vse raboty, neobkhodimye dlia vosstanovlenia transporta), “работы” também poderia ser traduzido por “trabalhos”, mas veja como ficaria melhor, ainda mais em se levando em conta o que o contexto oferece: “Todas as obras necessárias à restauração dos transportes”.
Lembrando ainda que no texto inteiro não traduzi “транспорт” (transport) pelo singular, mas pelo plural “transportes”, já que aí havia a acepção de “sistema de transportes”! Ou seja, como dizia o sábio Geir Campos, que o tradutor consciencioso procure no dicionário todas as palavras, especialmente as que julga conhecer melhor...

Estou começando aqui uma série de textos em que pretendo abordar várias questões com que me deparei ao traduzir textos da língua russa para a portuguesa, especialmente discursos e canções dos tempos soviéticos. São apontamentos que escrevi, salvei como notas no Facebook e, após algumas revisões, estou publicando agora. Embora a bibliografia sobre teoria e técnicas de tradução já seja considerável em português (e muitíssimo maior em inglês, francês, espanhol e alemão), nenhuma obra trata diretamente da tradução a partir do russo (ou mesmo da versão do português para o russo, na qual literalmente não sou “versado”...), se limitando apenas ao intercâmbio entre línguas euro-ocidentais. Quanto às obras propriamente russas sobre tradutologia, meu contato com elas ainda está apenas começando.
Porém, as sugestões que os livros brasileiros fazem são igualmente aplicáveis a qualquer tipo de tradução ou a qualquer par de línguas, e podemos encontrar inspiração até mesmo em livros mais focados em tradução de poesia (como no ótimo Tradução: teoria e prática, de John Milton ‒ São Paulo, Martins Martins Fontes, 2010). Por isso, baseado em minhas leituras, e na minha incipiente experiência tradutória, publico essas anotações, as quais, repito, se aplicam em especial à tradução de textos soviéticos com vocabulário do movimento comunista. Assim, nem todo tradutor do russo pode achar aqui algo proveitoso, contudo podem se interessar pelos meus textos os curiosos em história da União Soviética e dos Partidos Comunistas ou aqueles a quem atraem os problemas de tradução de um modo geral.
Esta primeira postagem mais longa trata de alguns problemas genéricos divididos em casos pontuais, e nas próximas postagens, que por enquanto são em número de duas, vou abordar outras questões mais específicas. Também é recomendável que as leitoras e leitores tenham algum conhecimento de russo, mesmo apenas do alfabeto cirílico, porque nem sempre vou traduzir ou transliterar as palavras e frases dos textos de partida.

De 1919 a 1952, o órgão dirigente do Partido Comunista soviético entre cada congresso se chamava “Politburo do Comitê Central” (“Политбюро ЦК”, ou “Политбюро Центрального комитета”). De 1952 a 1966, ele foi chamado de “Presidium do CC” (“Президиум ЦК”), e a partir de 1966 ele retomou o nome antigo.
Embora no meu sistema de transliteração se devesse em tese escrever “Politbiuro” e “Prezidium”, prefiro manter aquelas grafias tradicionais (exceto em textos russos); aliás, “politburo” também está registrado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
- Пролетарий = é a mais transparente. Eu traduzo como “proletário”. O mesmo para o adjetivo “пролетарский”. Пролетарии всех стран, соединяйтесь! = Proletários de todos os países, uni-vos!
- Рабочий/Рабочая = tem forma de adjetivo, mas também pode atuar como substantivo. Eu traduzo como “operário/operária”. Российская социал-демократическая рабочая партия = Partido Operário Social-Democrata da Rússia.
- Трудящийся/Трудящаяся = outro adjetivo usado como substantivo ou adjetivo. Eu traduzo como “trabalhador/trabalhadora”.
- Работник/Работница = esse é mais polivalente, mas geralmente pode servir, em boa parte das situações, como “funcionário(a)” ou “empregado(a)”. Mas também toma uma das traduções acima em várias situações e expressões prontas. Existem também as expressões “работник партии” е “работник Советов”, que podem ser respectivamente traduzidas como “funcionário do Partido” e “funcionário dos sovietes”, ou ainda, especialmente se estiverem no plural, como “quadro(s) do Partido” e “quadro(s) dos sovietes”
Enfim, ocorre que esses termos, especialmente os dois primeiros, podem ter as traduções intercambiadas. Tudo depende do bom-senso, da criatividade e da análise correta da situação que devem fazer parte das competências do tradutor! ;-D
Segundo Heloísa Gonçalves Barbosa (Procedimentos técnicos da tradução: uma proposta, 2.ª edição, Campinas, SP, Pontes, 2004), a MODULAÇÃO é um procedimento tradutório que consiste na inversão da perspectiva quando se passa de uma língua para outra, resultado de modos diversos de apreender e circunscrever a realidade.
No russo, temos um exemplo claro disso na tradução de datas incertas de certos documentos, em que se lê, por exemplo:
“Не ранее 30 ноября 1925 г.” = lit. “Não antes de (ou “Não mais cedo que”) 30 de novembro de 1925”
“Не позднее 25 апреля 1930 г.” = lit. “Não depois de 25 de abril de 1930”
A primeira ainda passa, mas a segunda, não. Sem contar que não posso usar simplesmente “depois de” ou “antes de”, porque neste caso as datas mencionadas não estariam incluídas como a de composição do documento. Então, para padronizar, eu inverto a perspectiva e escrevo respectivamente: “30 de novembro de 1925 ou depois” e “25 de abril de 1930 ou antes”.
Literalmente, ficaria “um símbolo de devoção de um revolucionário a sua causa”. Além do atropelamento de dois “de”, em português soa feio e sem muito sentido.
Então, lancei mão do procedimento e transformei o substantivo “devoção” no adjetivo “devotado”. Deu nisto: “um símbolo do revolucionário devotado a sua causa”.
“И вот, на другой день после первого сообщения о венгерской революции, я послал радиотелеграмму в Будапешт, прося Бела Кун прийти к аппарату [...]”
Literalmente, isso ficaria mais ou menos assim, já com algumas modificações:
“E então, no dia seguinte ao primeiro comunicado sobre a revolução húngara, enviei um radiotelegrama a Budapeste pedindo a Béla Kun que se aproximasse do aparelho [...]”
Eu apliquei dois procedimentos: a EXPLICITAÇÃO, colocando “recebimento” após “dia seguinte”, pra deixar a frase mais “brasileira”; e a COMPENSAÇÃO, em que jogo um significado pra outra parte do texto, a fim de adequar à redação mais comum, tirando, assim, a ideia de “radiotelegrafia” da “mensagem” (“radiotelegrama”) e jogando-a ao “aparelho”, já que em português “radiotelegrafia” é mais comum de aparecer e soa mais natural do que “radiotelegrama” (que aparece no VOLP, mas não na minha versão do Aurélio, ao menos).
Assim, deu nisto:
“E então, no dia seguinte ao recebimento do primeiro comunicado sobre a revolução húngara, enviei uma mensagem a Budapeste pedindo a Béla Kun que se aproximasse do aparelho de radiotelegrafia [...]”
“Враг не так силен, как изображают его некоторые перепуганные интеллигентики.”
Literalmente, ficaria algo assim: “O inimigo não é tão forte como o retratam/pintam/figuram/representam alguns intelectuaizinhos atemorizados.” Contudo, a frase não está natural. Por duas vezes, lancei mão do procedimento da TRANSPOSIÇÃO, que é dizer a mesma coisa com partes diferentes do discurso. Então, substituí “forte” por “poderoso”, que tem mais a ver com a ideia de potência militar, e “retratar (alguém)” por “pretender”, se bem que talvez aí já seja mais parecido com a MODULAÇÃO.
Porém, meu maior “orgulho”, por assim dizer, foi o tratamento de “intelectuaizinhos”. Na verdade, “intelligentik”, nos dicionários especializados, é dado como mero sinônimo de “intelligent” (intelectual, ou o famoso intelligent), mas tem o sufixo diminutivo “-ik”, que por vezes passa uma ideia pejorativa. A tradução “intelectuaizinhos”, ou “intelectualecos”, ou “intelectualoides”, não ficaria boa nesse discurso, e “pseudointelectuais”, uma opção que vi em outras línguas, não quer dizer a mesma coisa. Assim, usei a COMPENSAÇÃO, jogando a ideia pejorativa no “atemorizados” ou “apavorados”, trocando por um sinônimo que fosse mesmo pejorativo, e cheguei a “acovardados” (com a ideia de “covarde”), porque os primeiros não têm uma ideia pejorativa explícita ou necessária. Assim, conseguindo manter a marca de pejoratividade, cheguei a esta tradução:
“O inimigo não é tão poderoso como pretendem alguns intelectuais acovardados [...]” (as reticências são porque emendei uma frase posterior).
“Если судить не по хвастливым заявлениям немецких пропагандистов, а по действительному положению Германии [...]”
Literalmente, teríamos: “Se julgarmos/A julgar não pelas afirmações vaidosas/jactanciosas/gabosas dos propagandistas alemães, mas pela real situação da Alemanha [...]”. Mas com uma TRANSPOSIÇÃO logo no começo e uma MODULAÇÃO logo após (especialmente trocando a ideia de “afirmar” pela de “difundir”), deixei a frase mais leve, principalmente após ter tirado três coisas “pesadas”: a preposição “por”, os plurais em sucessão e a repetição da ideia de “alemão” (“alemães” e “Alemanha”):
“Considerando não a propaganda vaidosa difundida pela Alemanha, mas a real situação do país [...]”.
Também achei interessante a mexida nesta frase:
“Украина, Кавказ, Средняя Азия, Урал, Сибирь, Дальний Восток были временно потеряны нами.”
Literalmente, tratando de regiões geográficas, a expressão “были временно потеряны нами” significa “foram temporariamente perdidas por nós”. Mas sabemos que voz passiva com pronome pessoal como agente não fica muito bonito em português, e também transformar em voz ativa (“Perdemos temporariamente...”) ia mexer muito na forma da frase, jogando o “foram temporariamente perdidas por nós” muito pra longe do lugar original, e atrapalhando também na hora de legendar, já que eu também tinha a versão em vídeo do discurso. Assim, cometi uma MODULAÇÃO, invertendo a ideia de “perder” para a ideia de “tomar”. Vejam:
“A Ucrânia, o Cáucaso, a Ásia Central, os Urais, a Sibéria e o Extremo Oriente foram temporariamente tomados de nós.”
