quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Bom dia, Ucrânia (Pavló Tychyna, poema)

    O José, um colega do módulo 5 do curso online de ucraniano oferecido nas manhãs de sábado pela Unicentro de Irati, PR, publicou outro dia em nosso grupo de WhatsApp o vídeo que segue mais abaixo. Trata-se de sua recitação de um pequeno poema do ucraniano Pavló Hryhórovych Tychýna (1891-1967), datado de 1907 e cujo título varia de acordo com a fonte. Pra meus propósitos, vou o chamar aqui de “Добридень, Україно” (Dobrýden, Ukraíno), “Bom dia, Ucrânia”, lembrando que “dobrýden” não é somente uma forma curta de “добрий день” (dóbry den), literalmente “bom dia”, mas geralmente usado entre 10 da manhã e 4 ou 5 da tarde. É também o cumprimento genérico mais ou menos formal pra qualquer instante do dia claro.

Nossa turma tem pessoas muito inteligentes e criativas tipo eu, rs que elaboram diversos recursos pra ajudar a si e a outros a aprenderem ucraniano de forma divertida e didática. O José gravou um vídeo curto em que criou seu próprio texto introdutório falando sobre a relação entre as belezas da Ucrânia e a riqueza da poesia nacional e fez uma montagem com desenhos, legendas bilíngues e sua recitação ao fundo, ainda que apenas da segunda parte. Realmente fazia muito tempo que eu não traduzia poesia a partir de outras línguas, sobretudo eslavas (se não contarmos as já célebres canções brasileiras em esperanto), e a bela iniciativa do colega me inspirou a verter ao português o poema de Tychyna, que no final das contas constava apenas de oito versos divididos em duas estrofes.

O processo demorou menos de uma hora, e procurei ao máximo manter a métrica das sílabas tônicas, embora no original ela me parecesse essencialmente irregular. De qualquer forma, creio que os efeitos sonoros e rítmicos ficaram bons, mesmo em um dos trechos recorrendo a uma rima imperfeita (fit-i-nha e í-gnea). Esses versos de Tychyna ficaram famosos por servirem de exemplo a palavras raramente empregadas na linguagem corrente, mesmo escrita, e eu usei o texto ucraniano encontrado neste portal de literatura.

Pavló Tychyna nasceu no vilarejo de Písky, hoje pertencente à região de Chernihiv, numa família de dez filhos, e seu pai era o diácono local. Começou a publicar seus trabalhos em 1912, quando estudava no Seminário Teológico de Chernihiv, e estudou no Departamento de Economia do Instituto Comercial de Kyiv de 1913 a 1917, sem ter se graduado, porém. Nesse período, além de trabalhar no corpo editorial de periódicos, também atuou no instituto de estatística de Chernihiv e como regente assistente no coral do teatro de Mykola Sadovsky. Tendo feito amizade com outros poetas ucranianos que o ajudaram nos momentos mais difíceis da vida, alcançou a fama durante o renascimento literário e cultural da Ucrânia na década de 1920, antes de começar a sofrer as primeiras pressões ideológicas típicas do stalinismo.

De fato, sem abandonar sua língua materna, Tychyna se submeteu aos cânones do “realismo socialista”, escreveu poemas patrióticos durante a invasão nazista e cantou loas a Iosif Stalin, o que não só o livrou de futuros expurgos, mas também lhe propiciou cargos na política e nas instituições literárias e científicas. Escreveu a letra do hino da RSS da Ucrânia, da qual foi ministro da Educação (1943-1948) e de cujo Soviete Supremo foi membro (1938-1967) e presidente (1953-1959); também integrou o Soviete Supremo da URSS de 1946 a 1962. Não integrou o renascimento cultural ucraniano do pós-guerra e chegou a criticar os “sessentistas”, grupo de intelectuais mais jovens que procurou retomar o nacionalismo e os laços com o Ocidente, sem renegar os dogmas leninistas. Ativos durante o “degelo” de Khruschov, sobretudo entre 1959 e 1965, foram perseguidos sob Brezhnev.

Entre os ucranianos exilados no período soviético, assim como entre atuais ativistas da proteção e renascimento linguísticos, Tychyna é mal visto por ter se submetido à ditadura stalinista e sacrificado a qualidade de sua obra no altar da glorificação do regime e do enquadramento às típicas temáticas “proletaristas”. Porém, analistas mais finos não enxergam uma queda qualitativa mesmo depois da década de 1920 e encontram inclusive um desvio dos excessos laudatórios então vigentes e até mesmo uma crítica sutil a eles. Seja como for, seguem o vídeo do José, minha tradução poética e o original ucraniano. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas, inclusive sobre possíveis mudanças que eu poderia fazer em meu texto:


O azul recobriu toda minh’alma,
O Sol devolveu-lhe toda a calma,
A relva no espírito fez mansidão:
Bom dia! eu disse a meu chão.

Riacho pelo bosque, qual fitinha.
Florada e borboletas: vela ígnea.
Pintura, mosaico, campal frenesi:
Bom dia desejo, Ucrânia, a ti!

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Блакить мою душу обвіяла,
Душа моя сонця намріяла,
Душа причастилася кротості трав –
Добридень я світу сказав!

Струмко серед гаю, як стрічечка.
На квітці метелик, мов свічечка.
Хвилюють, маюють, квітують поля –
Добридень тобі, Україно моя!


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