segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Os limites da “desestalinização” (parte 1)

Em 2011, quando escrevi minha monografia de graduação (ou TCC, trabalho de conclusão de curso) sobre o impacto da “desestalinização” e do “relatório Khruschov” sobre os comunistas brasileiros (PCB) de 1956 a 1961, que conta com cinco capítulos além da introdução e da conclusão, planejava inserir ainda um sexto capítulo. Originalmente ele devia ter por título “Os limites das mudanças no PCUS e no PCB por seus sistemas” (“PCUS” era o partido comunista soviético) e fazia um balanço geral dos movimentos de abertura controlada nos países comunistas da Europa e na própria URSS, bem como das transformações ideológicas e organizativas por que passou o PC brasileiro. Até 1961, o PCB se chamava “Partido Comunista do Brasil”, e numa manobra, contestada do ponto de vista estatutário, pra tentar a legalização na Justiça, mudou seu nome pra “Partido Comunista Brasileiro”, mantendo a mesma sigla. Liderado por Luiz Carlos Prestes, sofreu em 1962 uma cisão do que viria a ser o núcleo do PC do B (sigla sugerida por Moniz Bandeira, diz-se) e, caso peculiar no movimento internacional, retomaria o nome original “Partido Comunista do Brasil”.

Contudo, o PC do B não foi objeto de minha monografia, na qual apenas “roço” suas origens, nem seria de meu mestrado e de meu doutorado, voltados pro período da Comintern (ou 3.ª Internacional, 1919-1943). O referido “capítulo 6” inédito travou por opção minha, e não por sugestão do orientador, pois a estrutura estava mais ou menos pronta e incluía até mesmo as citações dos autores, mas deixaria o texto demasiado longo e em nada acrescentaria ao argumento. Tendo o arquivado em formato Word, acalentei o objetivo de transformar num artigo publicável, mas por não passar de um fichamento bibliográfico recheado de notas pessoais, além de ter sido ultrapassado por meus focos e obrigações posteriores e ficado com a literatura desatualizada, seguiu intocado. Este mês, junto com a publicação de antigos trabalhos meus de graduação, decidi encarar o “desafio” e, pelo menos, lançá-lo aqui com poucas modificações, esperando que ao menos sirva de instigação pros iniciantes e referência pros curiosos.

Pensei em publicá-lo integralmente numa tacada só, mas seu tamanho me fez refletir melhor sobre a comodidade pra quem segue minha página, e decidi trazer hoje apenas uma “primeira parte”, dedicada apenas ao contexto soviético, aos países vizinhos e à conjuntura internacional. Por se tratar de simples anotações, não fiz algo do tipo “introdução”, “conclusão” e “subcapítulos” nem reestruturei o conteúdo, mas apenas revisei um pouco a redação e acrescentei as notas de rodapé conforme as normas atuais da ABNT, portanto, o “todo” pode parecer não fazer muito sentido. Mesmo assim, é um contato valioso com o que li no final da década de 2000 e com parte de minha educação científica, e enquanto algumas conclusões podem estar desatualizadas, não recuei um milímetro em minha opinião sobre o tema.


O contexto internacional

Até o 20.º Congresso, todos os soviéticos achavam que Lenin e Stalin eram inseparáveis em sua “unidade bolchevique”, mas depois, não. Dmitri Antonovich Volkogonov levanta a polêmica de que a ideia antiga era “correta” (mas para o mal), mas é uma tese muito problemática. (1) Stalin foi um considerável condensador das ideias e da história de Lenin, embora ele não tivesse feito isso para torná-las mais acessíveis, mas porque sua mentalidade era “esquemática” e “binária”. (2) Para ele, Lenin e Stalin foram os configuradores de um sistema “desumano” e “incorrigível” que deificou os líderes e o Partido e transformou os seres humanos em mero meio para fins maiores. (3) Resumindo, o sistema de Stalin se centrava na “ideologia infalível”, no excessivo burocratismo, no líder único endeusado, no incremento da máquina militar e na “vigilância política total”, em que as pessoas eram simplesmente “pequenas engrenagens da máquina que executava a vontade do ditador”. (4)

Não cabe nos limites deste trabalho especular demoradamente a respeito da suposta continuidade entre Lenin e Stalin, mas seria interessante mencionar rapidamente o artigo de Valentino Gerratana, “Stalin, Lenin e o marxismo-leninismo”. (5) Para o autor, as relações teóricas e políticas entre os dois líderes, principalmente nos primeiros 17 anos do século 20, não foram unívocas nem coerentes, mas repletas de oscilações e pactos condicionados pela profundidade das discussões, pelo desenrolar dos fatos, pelas dificuldades enfrentadas e, acima de tudo, pela compreensão que cada um tinha das possibilidades de se adequar qualquer forma de marxismo à realidade russa. De qualquer forma, essa história de encontros e desencontros ajuda a não se aceitar passivamente nem a tese staliniana de que a continuação era explícita, nem o discurso khruschoviano, de fundo igualmente propagandístico, de que Stalin representara um “desvio” com relação à “originalidade” leniniana.

O “fenômeno staliniano” não teria surgido com Stalin nem desaparecido com ele, teria a ver com todos os Estados socialistas surgidos no pós-guerra, mas tendo a URSS como centro, e teria nascido logo após a morte de Lenin, se enfraquecendo após 1953 e o 20.º Congresso. (6) A escolha do termo “fenômeno staliniano” não seria de todo adequada, mas seria a menos problemática, já que “período staliniano” restringiria a duração do fenômeno; que o próprio termo “staliniano” também seria problemático, por não se concentrar o fenômeno na personalidade de Stalin; e que “culto da personalidade” seria bem pior, porque o que Jean Elleinstein chama de “culto do chefe” seria apenas uma das manifestações do fenômeno. (7)

Até a morte de Stalin se podia dizer que o movimento comunista internacional era relativamente monolítico, mas, depois, o fato de os PCs serem simples correias de transmissão do PCUS foi ficando cada vez menos verdadeiro, e o monolitismo se quebrava com a ausência de sua liderança pessoal e a pouca confiança passada pelos novos líderes, ainda muito enfrentados por quem defendia a antiga linha. Daí os fatos na Polônia e na Hungria terem agravado uma crise que já estava em andamento. Também chocou a massa dos membros o fato de as denúncias não virem da “imprensa burguesa”, mas da própria Moscou, e a gravidade e extensão dos crimes de Stalin, que, porém, levava toda a culpa, sem citação de seus cúmplices. (8)

O sucesso do tipo staliniano de partido e a alienação que ele causou a várias gerações de comunistas só podem ser explicados pela apropriação que Stalin fez do mito e do encantamento da Revolução de Outubro, passando a imagem de que seu regime era a encarnação do modelo ideal de sociedade socialista que todo o mundo deveria reproduzir. Portanto, derrubado o mito de Stalin no 20.º Congresso, abriu-se “a etapa da crise geral do movimento comunista”, apesar de os problemas já há muito estarem presentes, mas sem revelação explícita. (9) O reflexo da brutalidade e do autoritarismo do sistema político “soviético” (Fernando Claudín coloca entre aspas por afirmar não ter nada a ver com os sovietes de 1917) refletiu-se também em sua política externa, por meio da qual, em oposição ao “imperialismo” capitalista, ele teria imposto aos vizinhos e à sua esfera de influência um “imperialismo” “com sede em Moscou” (Claudín não chama de “socialista” ou “comunista”), desrespeitando os direitos humanos e exercendo dominação militar além de suas fronteiras originais. (10)

Quando a Comintern foi extinta, já estava patente que ela havia se tornado um mero instrumento da política externa soviética, mas o baque principal se dera no curso da própria 2.ª Guerra Mundial, quando já se haviam agravado os problemas de administração de todo o movimento comunista internacional a partir de um único centro e quando os comunistas de vários países, como os iugoslavos e chineses, participando da resistência sem a ajuda bélica direta dos soviéticos, estavam potencialmente mais independentes para dirigirem sozinhos a revolução em seus países. (11) É provável, segundo Aldo Agosti, que Stalin e seu círculo tivessem concluído que não era mais necessária uma ligação institucional entre o PCUS e os outros confrades. E de fato, não só o fim da Comintern não significou o fim das relações entre a URSS e os PCs, mas também significou um maior estreitamento entre eles. Porém, na nova conjuntura de bipolaridade internacional, essa relação se tornou mais complexa e multifacetada, permitindo um espaço maior ao tratamento de questões nacionais pelos PCs de um modo que a URSS não favorecia antes. (12)

Enquanto o regime soviético fora resultado de uma dinâmica interna de lutas e resistências, os governos socialistas satélites implantados na vizinhança foram impostos pela URSS, ou seja, junto com o fato de eles serem igualmente antidemocráticos, esse decalque gerava, segundo Claudín, uma “dupla opressão”, o que tornava esses governos extremamente frágeis. (13) Na Checoslováquia, havia fortes partidos operários e um avançado desenvolvimento industrial que poderiam ter proporcionado o avanço de um socialismo sólido e democrático, mas, nos outros países europeus ocupados por Stalin, os comunistas eram forças ínfimas e sem influência, enquanto a situação geral era de economias atrasadas e com regimes autoritários recém-derrubados. Também por isso, os governos de coalizão impostos logo depois da guerra não passavam de uma fachada para um domínio monopartidário que em breve se escancararia. No início, influenciados pelo prestígio da URSS, setores populares, a esquerda não comunista e grupos mais liberais dos PCs desses países não contestaram a infiltração soviética e aceitaram a condição de fantoches, mas o inicio da “guerra fria” em 1947 acelerou o processo de depuração das liberdades e de suspensão dos outros partidos, iniciando-se um período de duro e profundo expurgo político. A cisão titoísta complicou o cenário e gerou mais receio em Moscou, transformando essa “heresia” em motivo para os processos dos anos 1948-52, mas criando o germe das futuras explosões oposicionistas. (14)

Desde 1947, a euforia do imediato pós-guerra, tanto na URSS quanto, com raras exceções, nos outros PCs do mundo, deu lugar a um declínio, um regresso e uma apatia encobertos pelos sucessos da industrialização e da reconstrução econômica soviéticas, mas logo levados à tona pelo 20.º Congresso. Para Claudín, não se trataria de um problema conjuntural, mas da crise definitiva e irremediável do tipo de partido staliniano. O período do Kominform teria sido uma segunda “bolchevização”, autoritária e dogmática, contra os sopros de liberdade do imediato pós-guerra, gerando novos expurgos e desfigurações em vários PCs, embora o monolitismo fosse sempre ameaçado pelos movimentos nacionais e nacionalistas emersos após o fim da Comintern e durante a guerra. Também se criticaram oficialmente, ainda que em termos eufêmicos, a falta de debates, o caráter extremamente rotineiro das atividades e o mero decalque de ideias do “centro”, emperrando o “marxismo criador”, embora para Claudín tenha-se tratado de um problema mais grave de “ressurreição das velhas ideias reformistas e pacifistas”, enquanto o mundo mudava a uma velocidade que as antigas teorias, novamente reproduzidas, não conseguiam acompanhar. E, de fato, as críticas ocultaram a troca do “culto” de Stalin pelo de Khruschov. Essa tendência já se teria mostrado no 19.º Congresso do PCUS (outubro de 1952), quando Stalin, não fazendo alusões a objetivos socialistas, conclamou os PCs a empunhar “a bandeira da independência e da soberania nacional, das liberdades democráticas burguesas e da paz”, “jogada fora” pela própria burguesia. (15)

Resumindo a política do PCUS e do Kominform no período em que este existiu, pode-se dizer que sua linha geral para o movimento comunista internacional era a de um reformismo cada vez maior e mais explícito à medida que a URSS ia se adequando e adquirindo forte posição no novo status quo internacional, incentivando o abandono da palavra de ordem revolucionária em prol de uma cômoda conciliação com o “imperialismo” norte-americano. Onde essas revoluções eclodiram (ou eclodissem) sem o aval soviético, as consequências foram (ou seriam) devastadoras para o monolitismo do movimento comunista internacional e para o domínio absoluto de Moscou sobre este. Porém, havia diferenças básicas entre o reformismo dessa época e o de períodos anteriores do movimento socialista: a subordinação do movimento internacional à política externa soviética (já consolidada com a Comintern, mas minada com as exigências próprias de cada país); a manutenção da perspectiva de queda iminente do capitalismo (logo desmentida, nos anos Khruschov, pelo crescimento de vários países desse bloco); a aspiração ao modelo staliniano de sociedade (denunciado, porém, no 20.º Congresso); e o tipo leninista-stalinista “bolchevizante” e centralista de partido (também em choque com as necessidades de aliança com o Ocidente). Nota-se, assim, que esse reformismo, iniciado com Stalin, dados o contexto mundial e o interno aos países comunistas, entrou em crise devido às novas necessidades históricas. (16)

Mais um paradoxo do stalinismo, segundo João Machado, (17) é o de que a expansão do socialismo no pós-guerra gerou justamente a causa de seu esfacelamento, primeiro porque o modelo particular do “socialismo num só país” não resistiria aos pedidos das outras nações de fazer o “caminho próprio, nacional”; e segundo porque duas grandes revoluções, a iugoslava e a chinesa, se deram à revelia do combinado entre a URSS e as potências capitalistas, por isso esses países conseguiram maior margem de autonomia entre os dois blocos. Com a crise de 1948 e, mais ainda, com o cisma sino-soviético de 1960-61, o modelo burocrático moscovita sofreria fortes abalos, até atingir seu descrédito final com as crises de 1956 (Hungria e Polônia), 1968 (Checoslováquia), 1970 e 1976 (Polônia), nestes casos, países que não fizeram suas “revoluções” de modo independente, mas que ainda assim foram motivo de choque. Outro fator paradoxal que causou a crise do stalinismo foi o crescimento da classe operária na URSS, que, enquanto estava fraca, estava mais sujeita à dominação burocrática, e cujas reivindicações foram em parte atendidas (ou ao menos acomodadas) com o 20.º Congresso, que também eliminou os aspectos mais brutais da ditadura de Stalin.

O reformismo soviético em geral, por ser ligado a uma estrutura de poder avessa à modernização global da sociedade, paradoxalmente reproduzia um Estado ao mesmo tempo centralizador (despotismo) e fraco (pouca independência perante os órgãos policiais). Na URSS, os “resquícios” stalinistas teriam sobrevivido porque, sem grupos opositores, a “desestalinização” só podia paradoxalmente ser conduzida por stalinistas. (18)

Maurice Crouzet reconhece que a “desestalinização” gerou um clima de distensão interna e externa, sem, porém, alterar os princípios do regime em vigor na URSS. No plano exterior, como impulsores da crescente influência soviética no mundo, destacam-se o reconhecimento das “vias nacionais para o socialismo” (inclusive a via parlamentar e alianças mais amplas com outros progressistas), das políticas não alinhadas de países de vários continentes e da liberdade de contato direto entre os diversos PCs nacionais, cujo limite é a intervenção na Hungria e, em consequência, uma nova ruptura ruidosa com Tito. (19)

1956 foi o começo da “desbolchevização” do movimento comunista internacional, pois o papel central do PC na revolução e na teoria marxista foi questionado, o monolitismo interno (dentro dos PCs) e externo (no movimento comunista internacional) ruiu e o “centralismo democrático” foi progressivamente abandonado por vários PCs, sobretudo os do Ocidente. (20) O “dogma da infalibilidade” também caiu, pois, se o chefe carismático (em última instância, Stalin) encarnava o Partido, o que aconteceria a este com a dessacralização do líder? O fim do Kominform também sinalizou a crise do velho formato do movimento comunista internacional, mas não implicou o fim dos laços com Moscou, (21) como provaram a conferência internacional dos PCs em Moscou (novembro de 1957) e a edição de Problemas da paz e do socialismo em Praga, com boa parte da direção composta de soviéticos. (22)

O 20.º Congresso não representaria uma liberalização definitiva, nem poderia, porque, apesar da necessidade de mudanças, o regime não estava totalmente apto a realizá-las. (23) A extirpação do “culto” (ou ao menos a tentativa), acreditando que poderia retornar o regime ao trilho da “legalidade socialista”, não tocou nos fundamentos stalinistas deste, ainda que o ato de Khruschov fosse de inegável coragem e de longas consequências. Seu apoio diplomático e material a Nasser, fosse com armas (sobretudo após a crise de Suez), fosse com assessores e especialistas, com o aval dos russos, aumentou seu prestígio entre os povos árabes. (24) Porém, a sombra de Stalin ainda pairava sobre Khruschov, pois, sabendo muita coisa e tendo participado diretamente dos excessos, e continuando intactas as instituições do sistema, ele só tinha as opções de dizer a verdade ou manter o status quo. (25)

Na URSS (embora se possa dizer o mesmo do Brasil), usou-se o “culto à personalidade” como “fórmula mágica” para explicar todos os males e escamotear a origem no próprio sistema stalinista de Estado e do movimento comunista internacional, o que ajudou a perpetuar, com pouca renovação, os métodos e a política passados. Era o desvio da essência da questão, por medo ou conveniência, que criava “bodes expiatórios” para a questão, como já se dera no fuzilamento de Lavrenti Beria, chefe da polícia staliniana, em 1953. (26) No plano externo, mais precisamente no movimento comunista internacional governante e não governante, o impacto da “desestalinização” não foi menos significativo, nem menos atordoante, de certa forma. Para a China, indicou mais um motivo para esfriar suas relações com a URSS, ainda que a crítica do “culto” não tenha sido o motivo da ruptura posterior. Nos satélites, as revoltas geraram uma turbulência que, para Elleinstein, teria sido muito bem aproveitada pelos países capitalistas por um bom tempo. Já nos PCs ocidentais, o choque foi grande porque, criados na fidelidade a Stalin, à URSS e ao marxismo staliniano, sofreram uma alta pressão ideológica, já que não era tão fácil assim abandonar um passado tão arraigado e digerido. (27)

“Depois de Stalin”, foi revertido o fim do diálogo dos PCs com outras correntes internas e externas ou com não marxistas, a combatividade dogmática para com posições diferentes e a exclusão do que não era Marx, Engels, Lenin ou Stalin ou do que não era aprovado pela URSS, pois estava claro que os comunistas estavam se privando de bons instrumentos de pesquisa e porque o marxismo deixou de ser usado como meio de propaganda. (28) Mesmo assim, isso não quer dizer, para Eric Hobsbawm, que na época de Stalin ou da Comintern o marxismo também não tivesse sido enriquecido ocasionalmente. E também, depois de 1956, a teoria se revitalizou dentro dos PCs, embora ela não fosse mais longe do que permitiram os velhos líderes stalinistas, o que se pode notar pela ausência de histórias “cientificamente aceitáveis” feitas pelos partidos, com exceção do italiano, que fora internamente mais fundo na crítica histórica e política. (29) Porém, após 1956, junto com a atividade teórica, havia ainda o que Hobsbawm chama de “tática do remendo”, em que a linha oficial aceita certos postulados não marxistas por meros motivos instrumentais e os encobre com uma roupagem marxista. (30)

Dentro do mundo comunista, sobretudo na URSS, as forças contrárias a reformas políticas e econômicas sempre deram provas de ser mais fortes, resistentes e vigorosas do que as forças pró-reformas, como teria ficado claro no início da era Khruschov e na invasão da Checoslováquia em 1968. Por isso, poderia se dizer que, no combate entre capitalismo e socialismo, o primeiro teria “vencido”, ou ao menos levado mais vantagem por um tempo maior, por causa da capacidade de renovação constante do primeiro, enquanto o segundo era muito avesso a qualquer mudança interna de grande monta. (31) Para Hobsbawm, por muito tempo a tendência foi que os principais transformadores de linhas políticas dos PCs, governantes ou não, tinham sido antes stalinistas fiéis – Tito, Gomułka e Togliatti foram alguns deles –, certamente não só porque o stalinismo era realmente enxergado como preferível e porque a dissidência na URSS podia gerar risco de vida, mas também, e sobretudo, porque a fidelidade e o pertencimento aos PCs era condição de visibilidade e atuação ao menos no movimento esquerdista revolucionário, que era identificado com o comunismo soviético. Quem era expulso ou deixava o PC costumava tornar-se anticomunista ou sumir politicamente. (32)

Da mesma forma que o regime, a URSS exportou às “democracias populares” o exorcismo e a crise da “desestalinização”, incentivando a deposição dos “pequenos Stalin”, ou seja, os líderes comprometidos com o regime anterior. Assim, impõe-se aos PCs a necessidade de críticas ao “culto”, do fim do terror e da brutalidade, da perseguição a antigos “carrascos” e de várias reabilitações. Porém, isso não se dá sem divisões e resistências, agravadas pelas notícias das encenações intempestivas feitas por Khruschov, e a luta que era “secreta” vaza para o resto da população. Daí se acende a rebelião de operários, camponeses, intelectuais e estudantes contra as opressões e as más condições de vida, e se tentam fazer retoques de urgência na direção dos partidos. (33)

Após o 20.º Congresso, o governo Khruschov passou a dar mais atenção às questões externas do que às internas, e isso lhe foi lembrado na hora da deposição. O insucesso com a China foi pior, pois, tendo sido a relação mal cimentada, e continuando a URSS a se ver como centro de coordenação de todo o movimento comunista internacional, o choque foi maior quando os chineses se voltaram para seus interesses nacionais e se recusaram a continuar reconhecendo a liderança soviética após a morte de Stalin. (34) Volkogonov atribui ao “radicalismo bolchevique” e à personalidade contraditória de Khruschov sua diplomacia intervencionista e acostumada ao uso da força, como ocorreu na Hungria e na Polônia, querendo ditar o que era bom a países soberanos, ainda que encobrisse esse pensamento com a “luta pela paz”. (35)

O slogan de “coexistência pacífica” ensejou uma política externa altamente personalista de Khruschov, culminando com a visita aos EUA (setembro de 1959) e levando a uma política de contato com os países não alinhados, já delineada na Conferência de Bandung (abril de 1955) e no 20.º Congresso. Porém, não raro a cegueira ideológica e o aventureirismo legitimaram uma postura de hostilidade e antagonismo para com o mundo capitalista, como foi o caso da construção do muro de Berlim (19 de agosto de 1961), símbolo do isolamento do bloco socialista. (36) Khruschov, apesar do discurso, muitas vezes pendeu para atitudes antidemocráticas, o que fez muitos pensarem que talvez as reformas ficassem mais adiantadas sem ele. (37)

Khruschov, apesar de sua energia, por ser fruto do sistema, manteve a arbitrariedade, o autoritarismo, o personalismo, o não questionamento das lideranças, a solução burocrática das reformas e o desprezo pelos direitos humanos e maquiou o sistema com mudanças administrativas e gerenciais ao invés de mexer em suas raízes e fundamentos. (38) Como se fazia antes, também demonstrou vontade constante de controlar a intelligentsia cultural e uma crença de que deveria ser o juiz de toda a criação de artistas e escritores, ainda que fosse ignorante em seus assuntos. (39) A teima em pregar a vitória “inevitável” do socialismo, derivada da visão de mundo limitada de Khruschov e da política já morta da Comintern, teve como consequências o acirramento das suspeitas contra a URSS no Ocidente, sobretudo, por causa da língua incontrolável e grosseira do líder, e gastos vultosos e inócuos com países socialistas ou potencialmente revolucionários. Segundo Volkogonov, a “coexistência pacífica” seria vista como “um instrumento tático para se ganhar tempo”. (40)

As crises polonesa e húngara revelaram os limites da “desestalinização”, mero abandono do terror (que já não podia mais ser empregado) com conservação das estruturas políticas, quando a tentativa de pôr na prática, dentro do bloco, a renúncia teórica do PCUS como o “partido-guia” deu no que deu. A partir daí, a oposição a Khruschov e seus improvisos só aumenta, tanto dos que querem mais liberdade quanto dos conservadores, que tentam derrubá-lo em 1957, mas são tirados da direção como “antipartidários”. Tentando criar um “culto” em torno de si mesmo, mas sem o terror policial nem o carisma de Stalin, Khruschov perde ainda mais crédito com a crise com os EUA e com a China, com a desestabilização dos vizinhos do bloco e, mais ainda, com suas reformas no PCUS, como a difusão da rotatividade de cargos e a divisão entre setor agrário e industrial, com consequente redução de poder do Presidium. (41) Para Volkogonov, mesmo que Khruschov não percebesse que o monolito comunista não era passível de reformas, sua maior proeza foi ter sido criado pelo stalinismo e, ainda assim, ter realizado “sensível mudança em si mesmo” e na sociedade, de modo que Brezhnev, o sucessor, mesmo que quisesse, não pôde restaurar certos aspectos que ele admirava no velho regime. (42)

Em sua célebre “Carta sobre o stalinismo” publicada em 1962, György Lukács avança como principal argumento o de que o stalinismo, longe de ser a expressão de uma aberração personalista de um líder carismático, é todo um sistema piramidal que tinha esse líder em seu vértice e que fora fruto de condições históricas muito complexas, as quais, tendo sido esgotadas, levaram junto a necessidade das políticas extremadas criticadas em 1956 e em 1961 por Khruschov. Na verdade, Lukács faz uma defesa argumentativa da própria linha de Khruschov, com ênfase no que foi dito no recente 22.º Congresso do PCUS e, em algum grau, no 20.º: a justificação histórica dos excessos de Stalin, o reconhecimento dos “bons” e “grandes” feitos desse chefe para a edificação do socialismo, o desligamento de Stalin a Lenin – tanto na prática quanto, mais ainda, na teoria – e a manutenção da demonização daqueles que Stalin combateu a fim de não cair nos extremos nem do “aventureirismo” nem da “capitulação”. Porém, o próprio reconhecimento que Lukács faz do stalinismo como um sistema (ao contrário de Khruschov, que o considera um desvio pessoal temporário da linha geral “correta”) pontua onde vai mais além: na crítica da mistificação e manipulação da teoria como um instrumento de legitimação política (o que considera que Khruschov também fez, ainda que tenha chegado a conclusões corretas) e na consideração da situação atual soviética, em todos os domínios da sociedade, como um fruto do próprio stalinismo, o que implicaria mudanças mais profundas no que as autoridades estavam fazendo ou se propunham a fazer. De fato, o texto de Lukács é uma justificação da linha khruschoviana geral, mas vai mais além na consideração da herança stalinista porque, ainda que os burocratas soviéticos também reconhecessem seu peso, mas devessem o ocultar para legitimar a luta política que se manifestava nas aberturas bruscas, porém breves, o filósofo ao menos não estava preso institucionalmente aos ditames da URSS e podia muito bem criticar de fora seus limites e incoerências. Mesmo assim, é de se notar que não faça qualquer menção à culpa dos então dirigentes de Moscou nos expurgos de Stalin, não se sabe se por desconhecimento real ou por algum tipo de omissão voluntária, fosse por coerção, fosse por partidarismo. (43)

Os resquícios dos tempos passados, que Elleinstein chama de “arqueostalinismo”, consistem, entre muitas outras coisas, na resolução administrativa ou até repressiva de debates políticos ou ideológicos e numa censura às artes, literatura e ciência que podia resultar, se não mais necessariamente em morte, muitas vezes em prisão, deportação ou internação psiquiátrica. O 22.º Congresso, ainda que retome a discussão sobre o “fenômeno staliniano”, não faz mais do que retirar o corpo de Stalin do mausoléu de Lenin, mudar o nome da cidade de Stalingrado para Volgogrado e, sem efeito algum, propor a investigação de um ou outro abuso a dirigentes na época do “grande terror”. (44)


Notas (Clique pra voltar ao texto)

(1) Os sete chefes do império soviético: Lênin, Stalin, Khruschev, Brejnev, Andropov, Chernenko, Gorbachev. Tradução para o inglês Harold Shukman. Tradução para o português Joubert de Oliveira Brízida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 87.

(2) Ibid., p. 88. Mas nas p. 88-89, o autor não problematiza em profundidade a deturpação staliniana do legado teórico de Lenin.

(3) Ibid., p. 92-93.

(4) Ibid., p. 94

(5) In: HOBSBAWM, E. História do Marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 221-255. (V. 9. “O marxismo na época da Terceira Internacional: problemas da cultura e da ideologia”.)

(6) ELLEINSTEIN, Jean. O estalinismo: história do fenómeno estaliniano. Tradução Pedro Baptista. [Mem Martins]: Publicações Europa-América, 1976, p. 5.

(7) Ibid., p. 5-6.

(8) HOBSBAWM, Eric J. Revolucionários: Ensaios Contemporâneos. Tradução João Carlos Victor Garcia e Adelângela Saggioro Garcia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 229.

(9) CLAUDÍN, Fernando. A crise do movimento comunista. Tradução e introdução José Paulo Netto. São Paulo: Global, 1986, p. 682-683. (V. 2. “O apogeu do stalinismo”.)

(10) Ibid., p. X-XI. É interessante essa conscientização sobre a palavra “imperialismo” (que Claudín, apesar da simetria com a URSS, não problematiza no caso do capitalismo), pois constantemente os comunistas (inclusive os do PCB) vão se referir ao “imperialismo” dos EUA sem criticar a política de dominação das grandes potências comunistas, seja a URSS, seja a China (Tibete, Uiguristão etc.).

(11) AGOSTI, Aldo. “Terza Internazionale (Comintern)”. In: AGOSTI, Aldo (dir.). Enciclopedia della sinistra europea nel XX secolo. Roma: Riuniti, 2000, p. 613.

(12) Ibid., p. 613-614.

(13) A oposição no “socialismo real”: União Soviética, Hungria, Tcheco-Eslováquia, Polônia: 1953-1980. Tradução Felipe José Lindoso. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983, p. 147.

(14) Ibid., p. 148-150. Infelizmente, aquele socialismo checoslovaco alternativo sugerido por Claudín pode permanecer apenas no campo da especulação.

(15) A crise do movimento comunista..., Op. Cit., p. 631-637.

(16) Ibid., p. 661-665.

(17) O stalinismo em crise. Em Tempo, n. 95, 20/12/79-10/1/80, p. 22.

(18) ADLER, Alexander. Política e ideologia na experiência soviética. In: HOBSBAWM, E. (org.). História do marxismo. Tradução Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio N. Henriques. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, p. 159-160 (V. 11. “O marxismo hoje” (Primeira Parte)); DEUTSCHER, Isaac. O significado da desestalinização. In: Ironias da História: Ensaios sobre o comunismo contemporâneo. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p. 30-31.

(19) História Geral das Civilizações: tomo VII – A época contemporânea. Tradução Paulo Zingg e J. Guinsberg. 3. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1973, p. 196. (V. 2. “O mundo dividido”.)

(20) LAZITCH, Branko. Le “Rapport secret” de Khrouchtchev entre la petite et la grande histoire. Communisme, Paris, n. 9, 1er trimestre 1986, p. 56.

(21) Ao menos de grande parte dos PCs, como o PCB, ao contrário do PC do B, que, mais tarde, cedeu a sua própria fração pró-China.

(22) LAZITCH, Branko. Le “Rapport secret” de Khrouchtchev..., Op. Cit., p. 57.

(23) KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das ideias. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 177.

(24) Ibid., p. 206.

(25) Ibid., p. 182.

(26) CLAUDÍN, Fernando. A crise do movimento comunista..., Op. Cit., p. 631, nota 5; PERALVA, Osvaldo. O retrato. Belo Horizonte: Itatiaia, 1960, p. 294-295.

(27) O estalinismo..., Op. Cit., p. 205-207

(28) HOBSBAWM, E. J. O diálogo sobre o marxismo. In: Revolucionários: Ensaios Contemporâneos. Tradução João Carlos Victor Garcia e Adelângela Saggioro Garcia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 117-118.

(29) Ibid., p. 120.

(30) Ibid., p. 121. Isso teria em parte a ver com as mudanças pelo topo no PCB, com a absorção parcial das teses “renovadoras”?

(31) AGOSTI, Aldo. Balanço dos comunismos europeus. In: MAZZEO, Antonio Carlos; LAGOA, Maria Izabel (org.). Corações vermelhos: os comunistas brasileiros no século XX. São Paulo: Cortez, 2003, p. 14.

(32) Intelectuais e comunismo. In: Revolucionários..., Op. Cit., p. 40. E o Brasil não foi exceção: podemos listar Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias, Jacob Gorender, Mário Alves etc. entre os “sobreviventes”, e Agildo Barata, Osvaldo Peralva e os colabores de Novos Tempos entre os “desaparecidos”.

(33) CLAUDÍN, Fernando. A oposição no “socialismo real”..., Op. Cit., p. 150-151.

(34) VOLKOGONOV, Dmitri Antonovich. Os sete chefes do império soviético..., Op. Cit., p. 207-208. Isso não prova que, desde o começo, a ideia dos “comunismos nacionais” era contraditória e destruiria o movimento comunista internacional?

(35) Ibid., p. 211-212.

(36) PONS, Silvio. Chruščëv Nikita Sergeevič. In: AGOSTI, Aldo (dir.). Enciclopedia della sinistra europea..., Op. Cit., p. 67-68.

(37) DEUTSCHER, Isaac. O Fracasso do Kruschevismo. In: Ironias da História..., Op. Cit., p. 150-151.

(38) VOLKOGONOV, Dmitri Antonovich. Os sete chefes do império soviético..., Op. Cit., p. 195 e 197.

(39) Ibid., p. 200.

(40) Ibid., p. 203-204. Essa tensão, que parecia ser mais um conflito de palavras, revela uma das contradições da “guerra fria”: não havia confronto direto, mas dissuasão constante.

(41) CLAUDÍN, Fernando. A oposição no “socialismo real”..., Op. Cit., p. 8-9.

(42) VOLKOGONOV, Dmitri Antonovich. Os sete chefes do império soviético..., Op. Cit., p. 228. É de se duvidar sobre a existência dessa “mudança em si mesmo” feita por Khruschov, assim como sobre a profundidade das mudanças na sociedade.

(43) LUKÁCS, Georg. Carta Sobre o Stalinismo. Temas de Ciências Humanas, São Paulo, v. 1, pp. 1-17, 1977 (tradução Leandro Konder).

(44) O estalinismo..., Op. Cit., p. 204-205.



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