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26 de julho de 2021

Morte de Bucetáui, imigrante na Itália


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É isso mesmo que você leu, certamente não vai encontrar algo mais bizarro hoje. Um imigrante marroquino que circulava pelas ruas de Voghera, cidade na região da Lombardia (norte da Itália), tinha o sobrenome Bucetáui e no último 21 de julho foi assassinado por um ex-policial ligado ao partido Lega, de Matteo Salvini: assista à íntegra do jornal TG la 7. Yunes el-Busetawi, grafado na mídia italiana como Youns El Boussettaoui, tinha 39 anos, vivia em situação de rua e aparentemente sofria de transtornos mentais.

Na frente de um restaurante da praça Meardi, começou a incomodar alguns clientes ao ar livre com atitudes desconexas, e o ex-policial e assessor municipal de segurança indicado pela Lega, Massimo Adriatici, aproximou-se dele com uma pistola na mão. Tendo sido empurrado por el-Busetawi, acabou disparando a arma, alegadamente por acidente, ainda que se estejam investigando as circunstâncias. O partido de direita alega que Adriatici exerceu um direito à legítima defesa, mas analistas criticam que o marroquino não tinha nenhum objeto à mão pra defesa pessoal. As tensões aumentam ainda mais em se tratando de imigrantes e de partidos anti-imigração.

Eu mesmo traduzi de ouvido, direto do italiano, mas com um pouco de dificuldade por causa do forte sotaque local, então não sei se está tudo certo. A reportagem não está completa, apenas cortei os trechos em que o nome da vítima é destacado. Leiam também matérias daquele dia (em italiano) sobre o ocorrido: primeira, el-Busetawi morto no tórax por assessor da Lega; segunda, Adriatici tinha deixado a pistola carregada e destravada; e terceira, informações mais detalhadas sobre o caso. Eu sei que parece sacanagem zoar em cima da morte de um imigrante, mas este nome alusivo pros falantes de português não podia passar batido...


24 de julho de 2021

Chinesa e mongol falando em russo


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As últimas edições do meu programa favorito de política mundial, “Международное обозрение” (Mezhdunaródnoie obozrénie; pode ser traduzido como “Panorama Internacional”), têm dado interessantes reportagens sobre como os russos têm se relacionado com os vizinhos do Extremo Oriente, sobretudo com países comunistas ou ex-comunistas. O programa é exibido pelo canal jornalístico Rossia 24, controlado pelo governo, e atualmente apresentado por Fiodor Lukianov, especialista em relações internacionais. Eu sei que contém praticamente a visão política de Putin, mas abstraindo isso, gosto do programa como um contraponto à visão ocidental predominante e uma fonte de informações muito variadas.

Na edição de 9 de julho passou uma reportagem sobre como os chineses estão curtindo cada vez mais a cultura russa, na sequência da reaproximação entre os dois países, e na edição de 16 de julho tratou-se dos 100 anos de relações internacionais da República da Mongólia, um dos primeiros Estados socialistas do mundo, com outros países, incluindo a Rússia soviética.

A moça chinesa entrevistada, identificada como Zhang Ling, frequenta um dos cursos ministrados por uma russa na China e fala algumas palavras no idioma. Há alguns pontos que não correspondem à língua padrão, como o uso de on (ele) pra se referir à avó, o uso de baba quando deveria ser babka ou bábushka (já fiz muito esse erro!) e o uso de em minha memória talvez pra se referir a alguma recordação do passado.

Zhang Ling menciona o conto Kolobók, que na verdade é conhecido entre todos os eslavos orientais e tem equivalentes aproximados em países vizinhos, eslavos ou não. Trata-se de algo parecido com um crepe redondo ou com uma carolina (o doce), dependendo da versão, que toma vida e participa da história (não existe tradução exata da palavra).

Na semana seguinte, o canal exibiu toda uma reportagem sobre a permanência da figura de Gengis Khan como um mito de fundação nacional e a constituição da Mongólia moderna como um Estado separado da China e desde o início auxiliado pelos bolcheviques. Houve uma breve participação de Jügderdemidiin Gürragchaa, nascido em 1947 e primeiro astronauta do país, treinado na antiga URSS e falante do russo, embora um pouco destreinado, como vemos. Ele também foi ministro da Defesa da Mongólia de 2000 a 2004, e lamenta a negligência dada atualmente à língua russa, tão importante outrora na diplomacia nacional.

Na verdade, mesmo mantendo uma independência formal, a Mongólia socialista era na prática tutelada pela URSS, tanto que adotou uma adaptação do alfabeto cirílico pra sua língua peculiar, diferente das de todos os vizinhos. Porém, nunca houve revolta contra o governo comunista, que acabou pacificamente em 1990, e o país permaneceu relativamente pacífico, protegido também pela China comunista e contra os invasores japoneses e do Guomindang.

Eu mesmo transcrevi, traduzi e legendei os trechos concernidos, embora no caso do mongol eu não saiba se está totalmente correto, porque ele praticamente fala pra dentro. Assista aos vídeos e leia as transcrições e as traduções:


Когда я была маленькой, баба часто мне читала русские сказки... [Какие?] «Колобок»! И она часто играла на фортепиано музыку Чайковского. В моей памяти баба всегда говорила, что Россия – это очень красивая и великая страна.

(Quando eu era pequena, vovó sempre lia contos russos pra mim... [Quais?] Kolobok! E sempre tocava no piano músicas de Chaikovski. Me lembro que vovó sempre dizia que a Rússia é um país muito bonito e grandioso.)


Русский язык знали практически все, предавал огромное значение со стороны государства, а теперь этой поддержки нет. Ну, приходится уже это, вот. Молодые люди сами вообще решают, какой язык будет для них главным языком. В этом году мы отмечаем столетие дипломатического установления... дипломатических отношений. Ну, каждое отношение с иностранной организацией, иностранным государством... на языке основа, да? И если ты язык того государства не знаешь, отношение будет не такой, какой... Но вообще я всегда говорю, думаю, что самое хорошее отношение – это отношение между простыми людьми.

(Praticamente todos sabiam a língua russa, ela recebia uma enorme consideração da parte do Estado, mas agora não existe mais esse apoio. É isso que está ocorrendo. Em geral são os próprios jovens que decidem qual será a principal língua para eles. Neste ano celebramos o centenário da constituição diplomática, das relações diplomáticas... Bem, cada relação com uma organização estrangeira, com um Estado estrangeiro... tem a língua por fundamento, não? E se você não sabe a língua desse Estado, bem, a relação não será tão como... Mas em geral eu sempre falo, penso que a mais importante das relações é a relação entre as pessoas comuns.)

18 de julho de 2021

Os 10 países mais violentos do mundo


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O artigo “Conflits : les 10 pays les moins pacifiés au monde” (Conflitos: os 10 países menos pacificados do mundo) foi escrito por Sabine Cessou e publicado hoje, 18 de julho, no site da RFI em francês. Notável é a informação de que os brasileiros são o povo que mais teme a violência, mesmo sem a ter vivido. Tradução de Erick Fishuk.


A edição de 2021 do Índice Global da Paz, um indicador do Institute for Economics and Peace (IEP), think tank sediado em Sydney, revela que cinco países da África estão entre as 10 nações menos pacificadas do mundo.

A África do Sul está em chamas, desde a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Ela corre o risco de somar-se, no ano que vem, à lista dos países menos pacificados do Global Peace Index (Índice Global da Paz) elaborada pelo IEP, um think tank sediado em Sydney. Islândia, Nova Zelândia, Dinamarca, Portugal, Eslovênia, Áustria, Suíça, Irlanda, República Checa e Canadá são os 10 países mais pacificados do mundo.

No outro extremo, a África conta com cinco dos 10 Estados mais conflituosos e inseguros do planeta. Na ordem dos piores figuram Afeganistão, Iêmen, Síria, Sudão do Sul (na 160.ª posição), Iraque, Somália, República Democrática do Congo, Líbia, República Centro-Africana e Rússia.

Limitando o foco à África, somam-se à lista dos 10 países menos pacificados Mali (148.ª posição), Nigéria (146.ª), Camarões (145.ª), Etiópia (139.ª) e Níger (137.ª).

O Índice Global da Paz (PDF em inglês), publicado em 23 de junho pelo IEP, um think tank australiano com escritórios em Bruxelas, Harare, Cidade do México, Haia e Nova York, passa 166 sob o crivo de seus 23 indicadores de medida dos conflitos, da segurança e da “militarização” das sociedades. Globalmente, o recuo foi baixo em 2020 (-0,07%), mas ele prossegue pelo nono ano consecutivo. Enquanto 73 países viram sua situação agravar-se, 87 obtiveram ganhos em paz.

O recuo mais forte do mundo no Burquina Fasso – As manifestações violentas aumentaram fortemente, ligadas à pandemia da covid-19, assim como a instabilidade política, em alta em 45 países. “O Índice registrou 5 mil incidentes violentos no mundo entre janeiro de 2020 e abril de 2021 ligados à crise da covid, enquanto o impacto de longo prazo da pandemia sobre os crimes violentos e os suicídios ainda não está claro”, explica Serge Stroobants, diretor do IEP em Bruxelas.

A Ucrânia e o Iraque foram os que mais progrediram, enquanto o Burquina Fasso conheceu o recuo mais grave do mundo em 2020. Segundo o relatório, “a decisão do governo de financiar e armar grupos auxiliares civis (link em francês) no combate contra os insurgentes aumentou o acesso ao armamento leve e a intensidade do conflito. O Burquina Fasso encontra-se em estado de guerra civil de baixa intensidade, com 1 milhão de pessoas desalojadas no fim de 2020”.

Todos os sinais também piscam em vermelho na Zâmbia por causa de disputas de fronteira com a República Democrática do Congo (RDC) e da alta dos gastos militares. Mesma coisa na Etiópia, devido ao conflito no Tigray com intervenção da Eritreia, mas também aos 291 mortos nas manifestações que se seguiram ao assassinato do cantor Oromo Hachalu Hundessa (link em francês), sem esquecer as tensões com os países vizinhos em torno da barragem da Renascença no rio Nilo.

A violência tem um preço: quase 12% do PIB mundial – O impacto anual da violência é estimado pelo Índice na soma colossal de 15 trilhões de dólares, ou seja, 11,6% do PIB mundial. Os gastos militares representam 43% dessa soma total, a segurança internacional 31% e a segurança privada quase 8%, o restante sendo repartido entre os conflitos (3%), os crimes violentos (3,1%) e os homicídios (7%).

Mais interessante ainda é que a sondagem altamente abrangente em que se apoia o Índice, o World Risk Poll (site em inglês), conduzida pela Lloyd’s Register Foundation junto a 150 mil pessoas maiores de 15 anos em 142 países. Globalmente, os crimes violentos e o terrorismo são temidos por 15% das pessoas entrevistadas, e percebidos como o segundo risco após os acidentes de carro.

A África encabeça a experiência vivida da violência – Os cinco países com a experiência da violência mais fortemente vivida (pelas pessoas entrevistadas ou por conhecidos) nos dois últimos anos encontram-se na África: 63% na Namíbia, 58% na África do Sul, 56% no Lesoto, 55% na Libéria e 54% na Zâmbia. No mundo, a experiência mais fraca da violência situa-se, por outro lado, no Turcomenistão, no Usbequistão, no Japão, em Singapura e na Polônia.

Já o medo da violência é mais forte no Brasil (83%, duas vezes maior do que a experiência vivida da violência), na África do Sul (79%), nas Ilhas Maurício (76%), no Maláui (75%) e no Lesoto (74%). A violência é percebida como um risco principal no dia a dia por mais da metade das pessoas entrevistadas no Afeganistão, no Brasil, na África do Sul, no México e na República Dominicana.

As Ilhas Maurício constituem um caso particular, na medida em que elas aparecem no primeiro lugar dos países mais seguros da África, seguidas por Gana, Botsuana, Serra Leoa, Gâmbia e Senegal (54.ª posição mundial, logo à frente da França), segundo o Índice. O medo aumentou porque as ilhas viram sua taxa de homicídio dobrar (passando de 1,8 a 2,9 a cada 100 mil pessoas) e manifestações violentas ocorrerem devido à controversa gestão de um derramamento de petróleo em 2020 (link em francês).

Notem-se ainda outras exceções: a Mauritânia, único país da África Subsaariana onde menos de 20% das pessoas entrevistadas tiveram a experiência da violência nos dois anos anteriores, e Madagascar, único país onde menos de 20% das pessoas se dizem muito preocupadas com os crimes violentos.


30 de junho de 2021

Político búlgaro se desvia de tiro (2013)


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No dia 19 de janeiro de 2013, durante a 8.ª conferência nacional do partido búlgaro Movimento por Direitos e Liberdades (sigla DPS em búlgaro), o jovem Oktay Enimehmedov tentou atirar no presidente do organismo, Ahmed Dogan, que estava deixando a liderança 23 anos após tê-lo fundado. O DPS é de orientação liberal, mas conhecido por se dizer defensor da minoria étnica turca da Bulgária e, portanto, atacado tanto pela esquerda quanto pela extrema-direita.

Como podemos ver, o aspirante a assassino falhou em seu intento, dado o engripamento da pistola bem na hora do tiro, o que possibilitou a Dogan defender-se numa luta corporal e a Oktay, ser imobilizado e moído na porrada pelos seguranças. O mais bizarro é que se tratava, segundo notícias da época, de uma pistola de pressão, ou seja, o líder poderia até sofrer de danos vitalícios, mas pouco provavelmente morreria. De fato, o jovem alegou que sua intenção era apenas “dar um susto” em Dogan e provocar-lhe algum dano sério, lamentando apenas que “a arma tivesse falhado”.

Nunca ficou clara a motivação exata do atentado fracassado, mas muitos dizem que o DPS, inserido como estava no sistema, também seria responsável pela insatisfação dos búlgaros com a corrupção e os políticos, portanto teria deixado seus próprios “protegidos” turcos na mão. Oktay mesmo era búlgaro de etnia turca, o que pode fazer estranhar um ataque que poderia ter sido motivado por xenofobia. Mas essa era a verdade, e mesmo o povo que o DPS dizia representar não o via como um partido fiável.

Na minha montagem que segue abaixo, tivemos também a gentil colaboração do Rap do Maçaranduba, do antigo programa de humor Casseta & Planeta, pra quem se lembra dele na virada do século, hehehe. Leia também uma curta matéria da Veja a respeito do incidente. P.S. Atenção, crianças, não façam isso em casa!


26 de junho de 2021

“Lula grátis”, ou bizarrices de tradução


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Lula grátis...


Esta postagem foi colocada em 18 de abril numa página do Facebook que já apaguei, e depois a repostei em meu perfil pessoal. Escrevi mais de um mês depois dos fatos, quando observei, muito por acaso, pelo menos quatro aberrações linguísticas deste bannerLula Livre”, de quando o ex-presidente fez um longo discurso após ter recuperado seus direitos políticos em 2021. Compartilhem ao máximo, mesmo em outras redes, pois o negócio é sério e o responsável parece ter meramente posto “free” no Google Tradutor e decalcado os resultados:

0) Não vou comentar a mistura entre palavras que significam “livre” e “liberdade”, porque isso pode ter sido feito de forma proposital.

1) Vamos com o russo primeiro, já que a maioria me segue por causa dele. Bem do lado esquerdo está em cirílico “бесплатно” (besplatno), que significa... “de graça”! Pra piorar, esta forma é curta e neutra, ou seja, usada quase sempre como advérbio (gratuitamente etc.). Em russo deveríamos dizer “свободный” (svobodny), que é a palavra certa, na forma longa masculina. Ou seja, “свободный Лула”, hehehe.

2) Ainda em russo, está muito pequeno pra ler (é difícil achar fotos do púlpito em boa resolução), mas logo abaixo do grande “free” há a palavra “вольность” (volnost). Porém, esse substantivo remete ao adjetivo “вольный” (volny), que por sua vez vem do substantivo “воля” (volya), mais traduzível como “vontade”, “desejo” ou “liberdade de escolha”, implicando opção deliberada, e não ausência de limitações. Daí, referida ao já citado adjetivo “свободный”, temos a palavra correta “свобода” (svoboda).

3) A maior barbárie está no árabe e no persa, que usam um alfabeto da mesma matriz. Logo acima do russo lemos um ی د ا ز ا que equivale ao persa “âzâdi” (liberdade). A pessoa conseguiu uma façanha incompreensível: botou a ordem dos caracteres da esquerda pra direita (a ordem inversa dessa escrita) e não realizou a ligação entre as letras! Ainda que no caso de âzâdi, ela lucra com o fato das letras em questão realmente não fazerem ligação com a posterior, por regra: آزادی (e o primeiro alef deveria ter o sinal especial que parece um til).

4) Em árabe a coisa não é tão simples. Podemos ver a palavra “liberdade” logo à esquerda da expressão “Lula Livre” escrita da seguinte forma: ة ي ر ح (claro que estão bem juntinhas, mas não adquirem a forma de ligação). Lê-se mais ou menos “hurriyya”, mas torna-se algo ininteligível a um árabe comum, pois além da separação, há a inversão da ordem correta. A palavra, ainda mais diferente, deveria ser esta: حرية

5) À direita da cabeça desenhada, lemos “freiheit”. É o substantivo alemão “liberdade”, e como todo substantivo em alemão leva inicial maiúscula (a não ser por razões de estilo, o que não parece ser o caso), deveria ser “Freiheit”. Se fosse “frei” (literalmente “livre”), aí tudo bem, embora pra ser “Lula Livre” devêssemos usar a terminação do qualificativo (e não meramente predicativo), “Freier Lula”.

6) Curiosamente, várias línguas estão repetidas com as palavras “livre” e “liberdade”, mas em meio à salada exótica que inclui iorubá (que deveria ter acentos: “òmìnira”), xhosa/zulu, latim (!) e tailandês, estão ausentes línguas mais conhecidas e com maior potencial de impacto. Exemplos: japonês, hindi, as nórdicas, finlandês, romeno, esperanto (por que não?) e qualquer eslava exceto o russo (sobretudo servo-croata e checo, porque do apoio ucraniano e polonês duvido muito).

Conclusão: apesar das ótimas intenções de quem confeccionou o artefato, traduzir em outras línguas muitas vezes implica não apenas tacar palavras em tradutores automáticos, mas também conhecer as regras que regem o emprego dessas línguas, sobretudo as flexões. Você conseguiu ver mais alguma coisa estranha aí? Escreva-me sobre suas descobertas!

24 de junho de 2021

Como fazer plural de palavras em “-ão”


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Essa dica também vale pra estrangeiros, mas é muito útil a quem tem o português como língua materna e sente dificuldades com a norma culta. A formação do plural dos substantivos terminados em “-ão”, fenômeno fonético e ortográfico único no mundo, pode ser feita em “-ões” (mais comum), “-ãos” ou “-ães”. A escolha parece ilógica, mas na verdade podemos usar alguns macetes, além de certas regras que têm a ver com a etimologia (linguística histórica). Diga-se primeiro que quase nunca o gênero (masculino ou feminino) tem a ver com a opção.

1. Fazem o plural em “-ões” os substantivos abstratos, sobretudo de características e ações, terminados em “-a(n)ção”, “-e(n)ção”, “-i(n)ção”, “-o(n)ção” e “-u(n)ção”, geralmente derivados de uma terminação latina -atio(nis), -itio(nis), -utio(nis) etc.: canção → canções, direção → direções, tradição → tradições, monção → monções, junção → junções.

2. Também fazem o plural em “-ões” os substantivos terminados em “-ão” que indicam aumentativo: casarão → casarões, narigão → narigões, mulherão → mulherões.

3. Os substantivos femininos que não terminam em “-ão”, mas em “-ãe” e “-ã”, apenas adicionam “-s”: mãe → mães, irmã → irmãs, maçã → maçãs, romã → romãs.

4. Além dos citados acima, fazem o plural em “-ões” os substantivos que em latim fazem o genitivo singular em -onis e/ou que em espanhol terminam em -ón no singular: corazón → coração(ões), rationisrazón → razão(ões), leonisleón → leão(ões).

5. Fazem o plural em “-ães” os substantivos que em latim têm o nominativo e o genitivo singulares em -nis e fazem o nominativo plural em -nes, e/ou que em espanhol terminam em -an/-án no singular: panispan → pão(ães), caniscan → cão(ães), alemán → alemão(ães) (a palavra vem do latim tardio Alamannus, e esta mesma vem do alemão antigo Alaman), capitán → capitão(ães) (embora a origem seja o latim tardio capitanus, a forma clássica era capitaneus).

Via de regra, os substantivos latinos terminados em -tio e -nis pertencem à 3.ª declinação.

6. Fazem o plural em “-ãos” os substantivos que em latim têm o nominativo singular em -nus ou -num e/ou que em espanhol terminam em -ano no singular: christianuscristiano → cristão(s), ciudadano → cidadão(s), manusmano → mão(s), granumgrano → grão(s), germanus (“irmão” em latim vulgar, sem relação com “germânico”) → hermano → irmão(s).

Os substantivos latinos terminados em -nus ou -num pertencem à 2.ª e à 4.ª declinações, a 4.ª posteriormente sendo absorvida pela 2.ª devido à sua baixa abrangência.

7. “Anão(ões)” e “bênção(s)” são duas exceções apenas aparentes. De fato, nanusenano → anão(s), forma em português considerada culta, enquanto “anões” é mais comum na língua oral pela assimilação com a maioria dos plurais em “-ãos”. Em “bênção”, pela etimologia benedictio(nis), esperaríamos a forma “bênções” (hoje inexistente), mas houve assimilação com as outras paroxítonas que sempre fazem o plural em “-ãos” (orphanushuérfano → órfão, organumórgano → órgão).

Casos parecidos ao de “anão”: veranumverano → verão, villanusvillano → vilão. Coexistem as formas “verãos/vilãos” (bem menos usadas) e “verões/vilões”, mas suas origens estão no latim tardio ou medieval, e não clássico, por isso foram assimiladas à regra já generalizada. Veja também o artigo “Plural de anão”, por Flávia Neves, que inclui outros macetes.

2 de março de 2021

Idiomas de Lenin e nomes da MGU


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Eu estava com estes textos guardados há alguns meses, mas sem tempo pra traduzir e postar. Agora que a oportunidade chegou, apresento uma espécie de miscelânea criada pra mera satsifação de curiosidades, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra.

A ideia de postar os nomes da Universidade de Moscou veio após eu descobrir, durante a leitura da biografia do historiador Mikhaíl Pokróvski, que ele deu seu nome à instituição por um tempo. Foi uma homenagem após a morte desse marxista e bolchevique russo, considerado o pai dos estudos históricos na antiga URSS e das primeiras análises marxistas da história da Rússia. Após 1940, foram acrescentados oficialmente alguns epítetos e as “condecorações” que a MGU recebeu, porém sem mudar o núcleo original, por isso eu os omiti na lista. O conteúdo está na Wikipédia russa.

Há algum tempo também me pairava a dúvida sobre que línguas falava Vladímir Ilích Uliánov, o Vladímir Lênin da Revolução de Outubro. Eu sabia de seu conhecimento de várias línguas, mas não de quais e quantos. Há muitos textos falando a respeito, mas os melhores que encontrei, mesmo que citem poucas fontes, foram o de um pequeno blog chamado Zeitgeist e o de um site educativo, ambos não muito antigos. As traduções com adaptações são minhas, e concluímos resumidamente que Lenin era fluente em russo, alemão, francês e inglês, lia ou entendia latim, grego antigo e moderno, eslavo eclesiástico, checo, polonês e italiano e podia comunicar-se com o básico de grego moderno, checo, polonês e (talvez) italiano

Nesta página há outro texto em russo que fala dos conhecimentos linguísticos de Lenin, mas não o utilizei porque não acrescentava novidades. Porém, recomendo aos interessados, pois fala também, entre outros, de Lomonósov (filólogo que era praticamente um Google!), a imperatriz Catarina, Stalin, Khruschov e Vladimir Zhirinovski!

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Desde sua fundação, a Universidade de Moscou já mudou várias vezes de nome oficial:

  • 23 de janeiro de 1755 a 8 de março de 1917 (datas no calendário gregoriano): Universidade Imperial de Moscou.
  • Março a novembro de 1917: Universidade de Moscou.
  • A partir do fim de 1917: Universidade Estatal de Moscou (MGU).
  • A partir de 1918: Primeira Universidade de Moscou.
  • A partir de setembro de 1930: Universidade Estatal de Moscou.
  • A partir de 20 de outubro de 1932: Universidade Estatal de Moscou “M. N. Pokróvski”.
  • A partir de 11 de novembro de 1937: Universidade Estatal de Moscou.
  • Desde 7 de maio de 1940: Universidade Estatal de Moscou “M. V. Lomonósov”.

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Quantas línguas estrangeiras Lenin sabia? (Zeitgeist)

Na Rússia pré-revolucionária, qualquer um que saísse do curso ginasial com notas máximas dominava perfeitamente algumas línguas vivas e mortas. Naqueles tempos, a qualidade do Ensino Médio era muitíssimo maior do que a que temos hoje, e as pessoas saíam do curso ginasial realmente instruídas. Já o nível do Ensino Superior russo correspondia totalmente aos melhores padrões europeus, algo com que hoje podemos apenas sonhar.

Por isso, responder à pergunta sobre quantas línguas Vladimir Lenin sabia é bastante simples, sendo suficiente olhar para seu boletim:

(Na ordem em que aparecem: Ensino Religioso, Língua e Literatura Russas, Lógica, Língua Latina, Grego [Antigo], Matemática, História, Geografia, Física e Geografia Matemática, Língua Alemã e Língua Francesa. Ainda hoje a conceituação russa vai até 5 – “piatiórka” –, e não até 10, como a nossa.)

Partindo deste documento, podemos concluir que o jovem Ulianov dominava perfeitamente cinco línguas: eslavo eclesiástico (não indicado à parte, mas incluído nos cursos de Língua Russa e Ensino Religioso), latim, grego antigo, alemão e francês.

O ensino de línguas no ginásio tsarista estava posto num nível superior, do qual não chega nem perto a profanação constituída pelo ensino de línguas estrangeiras em nossa escola moderna. À guisa de exemplo, trazemos um pequeno fragmento de um manual ginasial, cujo nível de estudo linguístico na Rússia atual só é alcançado nas faculdades de Letras, e ainda assim nas melhores instituições de Moscou:

(O texto consiste num parágrafo explicando em russo, ortografia pré-1918, o significado e função dos artigos definidos – nossos “o, a, os, as” – em grego antigo. Como exemplo explicativo, são usados seus equivalentes em alemão e francês, além de frases em grego traduzidas em alemão, francês e, com observações intercaladas, russo.)

Por isso, as notas máximas de Lenin em línguas não são nossas falsas notas máximas depois das quais as pessoas passam anos gastando dinheiro em escolas de idiomas. São notas máximas de verdade, um domínio perfeito.

Contudo, Lenin não se deteve nessas línguas. Durante o exílio, melhorou sua conversação em alemão e francês, já que apesar de tudo um meio linguístico não é uma sala de aula, e também aprendeu inglês. Além disso, ele lia em italiano, polonês e checo, e entendia sueco. Nadézhda Krúpskaia, esposa de Lenin, aprendeu italiano, e observando a esposa, ele adquiriu nessa língua um conhecimento de leitura e de comunicação cotidiana mínima. Não foi algo extremamente difícil, levando-se em conta seus conhecimentos de francês e latim.

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Quais línguas Lenin sabia? (Kratkoe.com)

Vladimir Lenin sabia perfeitamente as línguas francesa e alemã. Ele as aprendeu enquanto estudava no ensino ginasial, no qual também se ensinavam grego antigo e latim. Lenin sabia grego antigo e moderno num nível cotidiano: entendia o que lhe falavam e podia explicar-se. Vale ressaltar que o líder falava alemão perfeitamente, pois viveu por muito tempo na Áustria-Hungria, na Suíça e na Alemanha levando uma vida política bastante ativa que incluía proferir informes, cursos e discursos políticos.

Lenin aprendeu inglês sozinho. Ele conversava fluentemente sem tradutor com o coronel Robins, adido militar americano, e com o cônsul britânico Lockhart.

Lenin procurava ler jornais italianos e aprendeu um punhado de frases prontas graças à ópera italiana. Aliás, sua própria esposa, Nadezhda Krupskaia, estudava italiano, e o marido aprendeu algumas coisas com ela.

Fontes também afirmam que Lenin podia com facilidade ler polonês e entender checo e sueco. Mas seu nível de compreensão de línguas estrangeiras e sua velocidade de leitura nunca foram testados. Podemos crer que quando esteve na Itália, o líder se comunicava com os italianos, mas não sabemos com que fluência e exatidão.

Em suma, tendo estudado suas anotações em publicações estrangeiras, os acadêmicos concluíram que Vladimir Lenin sabia 11 línguas.


28 de fevereiro de 2021

“Determinação do tema de pesquisa”


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/tema-pesquisa


Eu tomei a liberdade de republicar este artigo, com algumas revisões na redação, mas sem grande mutilação do texto original, escrito pela pesquisadora Anna Maria Marques Cintra. Seu título é “Determinação do tema de pesquisa”, foi publicado em 1982 na revista Ciência da Informação (Brasília, volume 11, número 2, páginas 13 a 16) e baixei-o em PDF em 2012 após ver a referência no livro Metodologia do trabalho científico, de Antônio Joaquim Severino, que já ganhou inúmeras edições. Na época, eu estava pensando sobre que tema pesquisar num futuro mestrado, e lia muitos livros sobre metodologia da ciência e da pesquisa. Tanto que decidi fazer um minucioso exercício de fichamento daquele artigo, que aparece no final desta postagem e tem vários detalhes sobre meu procedimento de trabalho. Com as devidas retificações, como na indicação de notas, que ainda não sei se está toda certa, ainda acho o artigo útil e interessante pros jovens de hoje.

Com longa carreira acadêmica, educacional e autoral, Cintra foi professora da ECA/USP e na época do artigo era pesquisadora do IBICT. De 2012 a 2016 foi reitora da PUC-SP, tendo sido escolhida por dom Odilo Scherer mesmo ficando em terceiro lugar na lista tríplice. A greve de professores e estudantes contra sua nomeação, que foi bastante turbulenta, tomou repercussão midiática nacional, mas acabou derrotada na Justiça.



Resumo: A escolha de um tema de pesquisa depende dos valores do pesquisador, de sua relação com o universo. Em qualquer nível, a pesquisa exige independência, criatividade e a integração do tema no dia a dia do pesquisador. Os guias para pesquisas auxiliam na parte formal. Entretanto não existe e é pouco provável que venha a existir um método que permita a reconstrução lógica de novas idéias.
Descritores [palavras-chave]: Pesquisa cientifica; Determinação do tema de pesquisa.

Abstract: The choice of a research topic depends on the researcher’s own values, it depends on the relationship he keeps with his environment. At any level, a research project requires independence, creativity, and integration of the research topic with the researcher’s day-to-day life. Research guides can help only with the development of the formal part of a research project. But one does not find, and probably never will find, a method that leads to the logical rebuilding of new ideas.


“Eu sustento que a única
finalidade da ciência está em aliviar
a miséria da existência humana”. (Brecht)

Decidir sobre um tema de pesquisa é tarefa relativamente fácil para quem está envolvido numa determinada área. Entretanto, aquele que se inicia na vida científica tem de suportar o conflito entre a aquisição de novos conhecimentos e os prazos acadêmicos. Em muitos casos falta tempo e experiência para uma boa opção.

Na tentativa de encontrar coordenadas que nos deem a dimensão do problema, faremos algumas reflexões sobre ciência e pesquisa científica.

O procedimento científico, segundo Nagel, (1) orienta-se simultaneamente por três princípios: o controle prático da Natureza, o conhecimento sistemático e seguro dos fatos e um método próprio.

Sem muito esforço, podemos imaginar que o controle prático da Natureza leva ao avanço tecnológico e a uma melhoria das condições de vida, embora com o risco de ser o cientista tomado como uma espécie de feiticeiro.

Em virtude da complexidade do Universo, cabe ao cientista encontrar formas para organizar o conhecimento, para descobrir os fenômenos. E isto é feito através de raciocínio sistemático.

Os fenômenos a serem estudados para controle devem ser submetidos a uma metodologia bem definida, que corresponde a um caminho delineado para a execução de uma pesquisa.

Paradoxalmente, a ciência que persegue objetivamente um conhecimento sistemático e seguro dos fatos está continuamente por se fazer, e só a existência de um método garante o controle ordenado do Universo, uma vez que os fenômenos são tratados por raciocínios que seguem, aproximadamente, os mesmos princípios de objetividade e testabilidade. É, no entanto, a própria objetividade que impõe o estado sempre provisório de todo o conhecimento.

Mesmo com os riscos de feitiçaria, por razões éticas, não podemos aceitar a ciência pela ciência, (2) pois se o homem busca através do raciocínio organizar de alguma forma os fenômenos do Universo, há de ser para dominá-los, para conhecer-lhes as regras e assim orientar sua relação com e no Universo.

Identificar algo como objetivo de pesquisa não é das coisas mais difíceis. A dificuldade maior reside em manter coerentemente um tratamento metodológico rigoroso. Daí que frequentemente o comportamento científico acaba sendo confundido com o rigor metodológico, em detrimento da importância do objeto, do tema e do próprio conhecimento produzido a partir da pesquisa. (3)

Longe de nós tentar colocar em dúvida a importância do método. O que julgamos indispensável, no entanto, é aliar o rigor metodológico a uma avaliação da relevância da pesquisa, pois questões de total irrelevância, como conhecer a cor da camisa dos universitários brasileiros em dia de prova, pode receber tratamento rigoroso.

“[...] o ponto inicial de uma pesquisa não pode e não deve ser a metodologia, mas antes a relevância do problema”. (4)

Assim, antes de qualquer coisa, torna-se necessário decidir sobre os problemas que devem ser pesquisados e é preciso observar que essa capacidade de discriminar entre o relevante e o irrelevante não nos vem da ciência. Esta “só nos pode oferecer métodos para explorar, organizar, explicar e testar problemas previamente escolhidos”. (5)

A escolha prévia do problema depende do pesquisador. É em função de seus valores, de sua relação com o universo que nascem seus temas de pesquisa. Isso é que faz do ato de pesquisa um ato político.

E no caso específico da pesquisa acadêmica, como se passam as coisas?

Uma tese de doutorado assim se define por ser volumosa, ou por ter algumas qualidades inerentes à pesquisa científica?

Temos visto com frequência que um mesmo tipo de pesquisa serve a mestrado ou doutorado. E a diferença está, muitas vezes, no volume de dados analisados.

Não podemos concordar com critérios apenas de volume. Na prática, o que ocorre é que há dissertações de mestrado com traços nítidos de uma tese e vice-versa, acorrentadas apenas por razões meramente formais da vida acadêmica.

Na verdade a tese de doutorado deve marcar o grande salto do principiante para a vida de pesquisador independente e, desta maneira o mestrado tem de ser tomado como um exercício que abarca desde a opção temática e o rigor metodológico, até o envolvimento pessoal com relação ao tema.

Trata-se, pois, de uma fase de iniciação à pesquisa, portanto à vida científica. E partindo da definição mesma de mestrado, observamos, em linhas gerais, que os orientadores assumem posições diversas.

Para alguns, a dissertação de mestrado deve versar sobre assunto de interesse do orientador. Normalmente ele responde por uma ou mais pesquisas, sendo possível escolher um aspecto sobre o qual se dedicará o mestrando.

Para outros, o mestrado, como fase de aprendizado, deve demonstrar segurança metodológica, sendo secundário o próprio tema. Desta forma, o aspecto básico a ser considerado é o cumprimento de determinadas etapas, supostamente indispensáveis ao trabalho científico.

Outros ainda, entendem que a dissertação já deve conter em germe a disposição do novo pesquisador para associar firmeza metodológica a uma ação criativa.

Evidentemente, é em decorrência da concepção do orientador que acontecem os temas e mesmo a forma do trabalho acadêmico, que vai desde os formatos calcados em modelos prévios, em que tudo é pré-determinado, até a uma liberdade total, marcada pela inserção dos componentes tidos como básicos – objetivos, metodologia, hipóteses – em situações fora dos modelos.

Vale lembrar que para decisões relativas à parte formal, o principiante dispõe de vários guias, de sorte a poder escolher aquela forma mais adequada a seu trabalho e a seu gosto pessoal. (6)

Mas para decidir sobre o tema de pesquisa, a menos que o orientador forneça um assunto, o principiante não encontra nenhuma orientação específica.

Mas seria possível elaborar com certa precisão um roteiro que levasse à descoberta do tema?

Embora haja bons exemplos de trabalhos oriundos do desenvolvimento de parte de pesquisas do orientador, julgamos que a dissertação de mestrado deve propiciar algumas condições que posteriormente serão exigidas do pesquisador independente. Por isso vemos como salutar ao desenvolvimento da vida científica, que o mestrado sirva de exercício, de sorte a permitir experiência tanto no nível metodológico quanto no nível de definição do tema, ou mesmo de validade de pesquisa.

Nossa concepção tem um pressuposto básico: qualquer pesquisa, em qualquer nível, exige do pesquisador um envolvimento tal, que seu objeto de investigação passa a fazer parte de sua vida. Ou o pesquisador assume o problema que se dispõe a aclarar como seu, integrando seu dia a dia, ou apenas cumprirá preceitos acadêmicos.

Mas aqui entram dois novos conceitos de difícil exploração: independência e criatividade.

Acreditamos que só é possível independência de pesquisa na medida em que o pesquisador assume com liberdade seu objeto de análise e submete-o, por ensaio e erro, a uma verificação.

A criatividade, por seu turno, manifesta-se na escolha do tema (originalidade) ou na tradução do resultado da análise em linguagem verbal.

Mas tudo isso pouco nos ajuda a perceber como se chega ao tema de pesquisa.

Concordamos com Popper quando diz que “o conhecimento só começa a partir da tensão entre conhecimento e ignorância”. (7) De fato, só este tipo de tensão permite a percepção de algo obscuro e justifica nossa iniciativa em tentar clarear.

Evidentemente aquilo que já se sabe, que já se conhece, não precisa ser pesquisado. Em contrapartida, nem tudo o que não se sabe deve ser pesquisado.

Em A Prática da Pesquisa, (8) C. de Moura Castro indica três fatores que devem se associar para que aconteça um trabalho de pesquisa: originalidade, importância (a que chamamos relevância) e viabilidade do tema.

Na verdade os três fatores estão de tal forma associados, que o prejuízo de um [deles] põe em risco a própria pesquisa.

Originalidade não se confunde com novidade, não decorre do fato acidental de ser nova ou inédita a pesquisa. Original é o que vai às origens, à essência das coisas. (9)

Importância liga-se à necessidade da pesquisa dar ou encaminhar uma resposta para determinada questão prática ou teórica do homem, da sociedade, da natureza. A importância como fator associado à pesquisa científica, ressalta claramente o caráter político da ciência. Não parece justo o pesquisador dedicar-se a um mero exercício inconsequente.

Viabilidade refere-se ao tempo, aos custos, ao preparo específico do pesquisador, à obtenção de dados e bibliografia. A pesquisa inviável corresponde a enorme perda de tempo, tanto para o pesquisador quanto para a sociedade.

Mas ainda estamos contornando o problema sem chegar à questão básica: como nasce o tema de pesquisa?

Quando dissemos que tomávamos como pressuposto o envolvimento pessoal do pesquisador com sua pesquisa, tínhamos claro que acima de tudo é preciso gostar do que pesquisamos, já que durante longo tempo será nosso ser inteiro que irá se voltar para aquele objeto.

“É melhor começar, creio, lembrando aos principiantes que os pensadores mais admiráveis dentro da comunidade intelectual que escolheram não separam seu trabalho de suas vidas. Encaram a ambos demasiado a sério para permitir tal dissociação e desejam usar cada uma dessas coisas para o enriquecimento da outra [...] A erudição é uma escolha de como viver e ao mesmo tempo uma escolha de carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual forma seu próprio eu à medida que se aproxima da perfeição de seu ofício”. (10)

Com certeza poderíamos prosseguir com novas reflexões. No entanto, a questão básica está em que não haverá receitas ou modelos para a criação humana, sob pena de ser decretada a sua morte.

Não existe ainda, e é pouco provável que venha a existir, um método que permita a reconstrução lógica do nascimento de novas ideias. Desta forma, o nascimento do tema de pesquisa é um trabalho artesanal de criação que exige do pesquisador a descoberta de seus valores pessoais, um posicionamento crítico e inquieto diante do Universo e uma disciplina de trabalho que permita equacionar valores pessoais com o objeto e o ato da pesquisa.


Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) NAGEL, E. Ciência: natureza e objetivo. In: MORGENBESSER, S. Filosofia da Ciência. São Paulo: Cultrix, 1971.

(2) ALVES, R. Conversas com quem gosta de ensinar. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1981, p. 69.

(3) “O ‘método’ procura explicar o seu objeto, quer ser o ‘caminho’ de descoberta do seu ‘objeto’, mas [...] já é hora de pensar num ‘método’ que leve em conta o seu ‘fracasso metodológico’ como momento necessário ao seu próprio êxito”. Cf. KOTHE, Flávio R. Caminhos e descaminhos da crítica; encontro marcado com Heidegger. Reflexão, Campinas, v. 4, n. 15, p. 67-71, set.-dez. 1979.

(4) Ibidem.

(5) ALVES, R. Conversas com quem gosta de ensinar. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1981, p. 69.

(6) Destacamos, dentre vários trabalhos, os de: ACOSTA HOYOS, Luís E. Guía práctica para la investigación y redacción de informes. 2. ed. Buenos Aires: Paidós, 1972; ASTI VERA, Armando. Metodologia da pesquisa cientifica. Porto Alegre: Globo, 1973; CASTRO, Cláudio de Moura. Estrutura e apresentação de publicações cientificas. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1976; Idem, A prática da pesquisa. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1977; MANZO, Abelardo J. Manual para la preparación de monografias. Buenos Aires: Humanitas, 1973; SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 3. ed. São Paulo: Cortez e Moraes, 1978; SPINA, Segismundo. Normas gerais para os trabalhos de grau: breviário para o estudante de pós-graduação. São Paulo: Fernando Pessoa, 1974.

(7) POPPER, K. A lógica das Ciências Sociais. Rio: Tempo Brasileiro, 1978, p. 14.

(8) CASTRO, Cláudio de Moura. A prática da pesquisa. São Paulo: Mc Graw-Hill, 1977, p. 5.

(9) GOMES, R. Crítica da razão tupiniquim. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1980, p. 24.

(10) MILLS, W. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 211.

__________________

CINTRA, Ana Maria Marques. “Determinação do tema de pesquisa”. Ciência da Informação, Brasília, 11 (2), pp. 13-16, 1982.

(Artigo citado por Antônio Joaquim SEVERINO, Metodologia do trabalho científico, 22. ed. rev. e ampl., São Paulo, Cortez, 2002, p. 145.)

Lido, grifado e dividido em itens e subitens a 21 de setembro de 2012.
Fichado entre 25 e 26 de setembro de 2012.


P. 13

Introdução geral

Escolher um tema de pesquisa é relativamente fácil a quem tem inserção numa certa área, mas o iniciante à vida científica geralmente sofre o conflito entre a assimilação de conhecimentos e os prazos acadêmicos, faltando tempo e experiência para uma boa escolha. Refletir sobre ciência e pesquisa científica ajuda a achar coordenadas para dimensionar o problema.


I. Papel e diretrizes do fazer científico

Introdução – Ernest Nagel (1901‒1985) define como princípios do fazer científico:

  1. O controle prático da Natureza;
  2. O conhecimento sistemático e seguro dos fatos;
  3. O método próprio.

Desenvolvimento

  1. O controle prático da Natureza faz a tecnologia avançar e melhora as condições de vida, o que, porém, arrisca o cientista a ser visto como um tipo de feiticeiro.
  2. O Universo é complexo, por isso o cientista se vale do raciocínio sistemático para organizar o conhecimento e descobrir os fenômenos.
  3. Os fenômenos a controlar devem enquadrar-se numa metodologia bem delineada, como parte do caminho para a elaboração de uma pesquisa. Porém, ao mesmo tempo, a ciência que busca conhecer segura e sistematicamente os fatos está sempre se fazendo, e só um método que garanta o controle organizado do Universo pode tratar os fenômenos com a mesma testabilidade e objetividade, a qual, no entanto, impõe a própria provisoriedade de qualquer conhecimento.

Conclusão ‒ Apesar do risco de mistificação do cientista, a “ciência pela ciência” é inaceitável, pois sua função real é conhecer as regras dos fenômenos do Universo para que o ser humano possa coordenar sua relação com ele.


II. Relação entre rigor metodológico e relevância do objeto de pesquisa

Introdução ‒ Mais difícil do que determinar um objeto de pesquisa é manter uma postura metodológica rigorosa e coerente, o que geralmente faz confundir-se comportamento científico com rigor metodológico, e não com o objeto em si.

Nota com citação do artigo de Flávio R. KOTHE, “Caminhos e descaminhos da crítica: encontro marcado com Heidegger”: Um “método” busca explicar seu objeto, mas deve-se hoje pensar num “método” que considere seu “fracasso metodológico” como importante para seu próprio êxito.

P. 13-14

Desenvolvimento ‒ Aqui não se julga que o método não seja importante, mas que é indispensável aliar rigor metodológico e verificação da relevância da pesquisa, já que questões irrelevantes também podem ser rigorosamente abordadas. Em todo caso, é antes pela relevância do problema do que pela metodologia que se deve começar.

P. 14

Conclusão ‒ Por isso, o ponto inicial é a decisão sobre os problemas a serem pesquisados, cuja relevância não é discernida pela própria ciência, a qual só oferece os métodos de exploração, organização, explicação e teste dos problemas. [Ligação com a introdução seguinte.]


III. Responsabilidade pela escolha do tema

Introdução – Na verdade, são os valores e a relação do pesquisador com o Universo que ajudam a escolher previamente o problema, o que torna a pesquisa um ato político.

Desenvolvimento

1. Diferença entre mestrado e doutorado

Introdução ‒ No caso da pesquisa acadêmica em si, surgem questões como: a tese de doutorado é definida por seu volume extenso ou por certas qualidades científicas? De fato, uma mesma pesquisa serve tanto a mestrado quanto a doutorado, diferindo apenas o volume de dados analisados.

Desenvolvimento – O critério de volume não define nada, pois há dissertações com claros traços de tese, e vice-versa, as quais são atadas por mera formalidade acadêmica. O doutorado, na verdade, marca um salto da iniciação para a pesquisa independente, sendo o mestrado um exercício de rigor metodológico, escolha do tema e envolvimento pessoal com ele.

Conclusão e Introdução do próximo item – Assim, o mestrando está se introduzindo na pesquisa e na vida científica, fase em que os orientadores tomam posturas diferentes.

2. Postura do orientador perante o mestrando

Desenvolvimento

  1. Alguns pensam que o assunto do mestrado deve ser de interesse do orientador, que coordena uma ou mais pesquisas e escolhe um aspecto a que a dissertação deve se ater.
  2. Outros julgam mais importante a segurança metodológica, secundarizando o tema e transformando o trabalho científico num mero cumprimento de etapas definidas.
  3. outros ainda consideram a dissertação como o germe de um novo pesquisador que associe corretamente firmeza metodológica e ação criativa.

Conclusão do item III e do subitem 2 – Obviamente os pressupostos do orientador definem os temas e mesmo a forma do trabalho, que obedece desde modelos prévios até a inserção livre de objetivos, metodologia, hipóteses etc. fora de predefinições, enquanto os vários guias, com formatos a escolher, podem muito bem orientar o principiante na parte formal.


IV. Condições subjetivas para o amadurecimento do tema

Introdução – A não ser que o orientador ofereça um tema, o principiante não tem orientações específicas para decidir sobre ele. Mas poderia existir um roteiro preciso para auxiliá-lo?

P. 14-15

Desenvolvimento

1. O mestrado como um aprendizado da autonomia

Mesmo havendo bons mestrados que integram pesquisas do próprio orientador, o ideal é que se cultivem desde já propriedades exigidas depois pela pesquisa independente. Assim, a dissertação deve ser um exercício de experiência na metodologia, na escolha do tema e na consecução de uma pesquisa válida.

P. 15

2. O objeto de pesquisa como parte da vida pessoal

Grandes resultados são obtidos se a pesquisa fizer o objeto integrar o cotidiano, a própria vida do pesquisador, se ele for algo considerado seu, caso contrário, haverá a prisão a meras formalidades acadêmicas.

3. Conceitos de independência e criatividade

Nesse tipo de pesquisa entram dos conceitos novos:

  1. Independência: o pesquisador adota livremente seu objeto e o submete a uma verificação por tentativa e erro.
  2. Criatividade: o pesquisador escolhe um tema original e/ou traduz os resultados numa linguagem verbal adequada.

Conclusão do item IV ‒ Apesar dessas orientações, permanece um mistério o caminho ao tema de pesquisa.


V. Condições objetivas para o amadurecimento do tema

Introdução – Karl Popper está certo ao escrever que o conhecimento surge apenas quando entram em tensão o que se sabe e o que não se sabe, ocorrendo a vontade de clarear o que estava obscuro. Por isso, não se precisa pesquisar o que já se sabe, todavia, nem tudo o que se desconhece merece ser objeto de pesquisa.

Desenvolvimento – Cláudio de Moura Castro, no livro A prática da pesquisa, aponta três vetores a convergirem na execução de um trabalho de pesquisa, os quais se associam de forma que todos sejam imprescindíveis:

  1. Originalidade: não consiste na novidade, mas na propriedade de perscrutar as origens, a essência do objeto.
  2. Importância: a pesquisa é importante se responde a alguma questão prática ou teórica de caráter humano, social ou natural, o que lhe confere um caráter político e a interdição de consistir num simples exercício inconsequente.
  3. Viabilidade: concerne a tempo, custos, preparo do pesquisador, bibliografia e obtenção de dados, que devem ser bem equacionados para não apenas se perder tempo.

Conclusão – Mesmo assim, ainda não se esclareceu sobre o nascimento do tema de pesquisa.


VI. O tema como uma escolha pessoal não quantificável

Introdução – O envolvimento pessoal com a pesquisa exige, antes de tudo, o gosto por ela, pois ocupará grande parte do tempo e das energias do estudioso. De fato, como Wright Mills, concorda-se que os melhores pensadores não separam o trabalho da vida geral, os quais se enriquecem mutuamente e colaboram para a correlação entre formação do eu e perfeição do ofício.

Desenvolvimento ‒ Em todo o caso, a criação humana jamais se submete ou se submeterá a receitas e modelos, pois, do contrário, poderá morrer.

Conclusão do item VI e do texto inteiro – Da mesma forma, reconstruir logicamente o nascimento de novas ideias prossegue imune a métodos, sendo o nascimento do tema de pesquisa, assim, uma espécie de criação artesanal que exige a descoberta dos valores pessoais do pesquisador, uma atitude crítica e inquieta perante o Universo e um trabalho disciplinado que equacione valores pessoais com o objeto e a execução da pesquisa.



26 de fevereiro de 2021

Hilde van Ooijen, cantora de Holambra


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/ooijen




Em mais uma iniciativa inovadora de disponibilizar músicas e álbuns raros, esta é a holandesa Hilde van Ooijen, cuja profissão é enfermeira, mas também canta nas horas vagas. Moradora da cidade de Holambra, SP, conhecida internacionalmente pelo riquíssimo mercado de flores e plantas e pela comunidade de imigrantes holandeses que chegou ao Brasil no fim da década de 1940. Ela é esposa do proprietário do Parque e Fazenda Lindenhof, que se não me engano já encerrou suas atividades.

Certo dia, em princípios do ano 2000, minha família e eu fizemos uma rápida visita ao local, sem ficar muito tempo, e compramos este CD que por acaso estavam vendendo no local. Os funcionários disseram que Hilde, ausente na ocasião, fazia shows nos fins de semana, quando o parque estava com mais gente passeando e fazendo suas refeições. Desde então, nunca mais tivemos notícias do Lindenhof nem da popstar vetusta, cuja memória só parece ter sido eternizada nesta relíquia da fonografia holambrense.

Só há alguns meses tive a ideia de escanear o material da capa do CD pra fazer uma playlist com vídeos no meu canal, tendo eu já há alguns anos passado as faixas pra arquivos MP3. As músicas em geral já são conhecidas na Holanda (Países Baixos) e na parte da Bélgica em que se fala holandês (lá chamado “flamengo”). Mas só aqui você conhece com exclusividade as peculiares interpretações e as fotos pitorescas de flores, roupas típicas e animais!

Coloquei abaixo todas as letras em holandês que consegui encontrar, embora eu não tenha podido traduzi-las. Os títulos que figuram na internet nem sempre coincidem com os que são dados no CD, portanto os primeiros vão entre parênteses após os segundos. As informações técnicas (fichas) estão nas imagens dos vídeos. Bom divertimento!



Risico’s

1. Wie huilt noemt men zielig
Of sentimenteel
En wie z’n gevoelens uit
Zegt soms teveel
Wie lacht wordt niet zelden
Versleten voor gek
En wie iets probeert
Gaat misschien op z’n bek

Refrão:
Wil je leven
Of blijf je beven
Om toe te geven
Aan je schrik of zo
Wil je leven
Neem het risico
Want aan het eind van de reis
Betaal je altijd de prijs

2. Wie liefde geeft
Krijgt niet altijd iets terug
En wie vertrouwt
Krijgt soms het mes in de rug
Wie hoopt, krijgt de wanhoop
Vaak op de koop toe
En wie de eerste stap zet
Moet zelf zoeken hoe

(Refrão)

3. Wie eerlijk is
Geraakt niet altijd hogerop
En wie iets begint
Loopt de kans op een flop
Wie zegt wat hij denkt
Geeft zich vaak teveel te bloot
Maar ook wie niet durfde
Te leven gaat dood

(Refrão 2x)



Vrijdag

1. Op een avond in de winter
Leek de hele wereld kil
En ik dacht: “Wat ben ik eenzaam
Het lijkt wel of ’r niemand met me praten wil”
Maar dan opeens ging zoet en zacht de telefoon
’t Was m’n liefste in persoon
Hij zei: “Ik vlieg vanavond weg uit Katmandoe
En vrijdag kom ik ijlings naar je toe”

Refrão:
Vrijdag
Ik-en-jij-dag
Wanneer we weer zo helemaal tesamen zijn
Vrijdag
Ik-ben-blij-dag
Van morgenzon en vogelzang tot maneschijn
Vrijdag
Ik-en-jij-dag
Het rikketikt en tintelt door m’n hele lijf
Vrijdag
Vrij-met-mij-dag
En ’k heb bedacht dat ik vannacht maar bij je blijf

2. O, op vrijdag is het leven
’s Morgens vroeg al triomfant
Want op vrijdag komt mijn vriendje
Het geeft niet waarvandaan, New York of Griekenland
Die warmte als ik weerom in z’n armen val
Die diepe liefde bovenal
Op vrijdag stromen hete tranen in de wijn
Van vreugde dat we weerom samen zijn

(Refrão)



Illusie

1. Ach wat ben je nu stil
’k Weet niet goed wat je wil
’t Is eenmaal gebeurd
Was gewoon zo’n onozele ruzie
Er is niets aan te doen,
Geef me gauw weer een zoen
Het leven gaat soms over rozen
En soms ook weer eventjes niet
Paradijs is misschien een illusie

Refrão:
Alle dagen zouden zoet moeten zijn
Alle zomers langer
Wat je wenst en verwacht
Alles lukt alles lacht
Idealen zo heerlijk bedacht
Alle nachten zouden zwoel moeten zijn
Alle liefde liever
Ieder woord een gebaar
Niet te licht niet te zwaar
Het is alleen illusie

2. Na een jaar bij elkaar
Is het heus niet zo raar
Wanneer je van meing verschild
En zoals ik het nu zie
Ben je toch wie ik wou
Hou ik zielsveel van jou
Gelukkig je lacht weer,
Je bent het ineens
Met me eens zo te zien
Paradijs is misschien een illusie

(Refrão)



Zie jou dansen (Als ik jou zie wil ik dansen)

1. Ik heb heel de dag de tijd
Toch raak ik jou niet kwijt uit mij gedachten
Want ik denk overdag
Hoe je naast me lag en lief lachte
Het was toch weer zo fijn
Om met jou te zijn is een heerlijk gevoel
Ik krijg nooit genoeg van jou
Want bij jou voel ik dat ik weer tot leven kom

Refrão:
Ja, als ik jou zie wil ik dansen
Wil ik jouw armen om me heen
Dan wil ik samen met je zweven
Zo heerlijk, dat kan jij alleen
Ja, als ik jou zie wil ik dansen
Niemand die jou toch evenaart
Ik voel me zo gelukkig samen met jou
Oh, dat is mij toch alles waard

2. En ’s morgens ga je weg
Maar niet voordat je zegt dat je houdt van mij
Ik bel zo gauw het kan
Jou op je werk en dan voel ik me blij
Je zegt die woorden weer
Waar ik zo graag op teer
Dat je geeft om mij
Ik krijg nooit genoeg van jou
Want jij zorgt dat ik verlangend naar jou uit blijf zien

(Refrão)

Oh, ik wil samen met je zweven
Zo heerlijk, dat kan jij alleen

(Refrão)


In de zon



Suikerspinnen (Dat ben jij)

1. Suikerspinnen van een kind
En luchtkastelen in de wind
De witte wolken in het blauw
Dat is waar ik van hou
Maar wolken schuiven voor de zon
Soms regent het op mijn balkon
Dan kleurt de hele hemel grijs
En raak ik van de wijs

Refrão:
Ik heb de wolken innig lief
Al ken ik heus de wolken niet
Zo vele keren toonde zij
Een ongekende kant aan mij

2. Fluister woorden in mijn oor
Een zoete kus, een jubelkoor
En hand in hand bij de fontein
Zo mag het altijd zijn
Maar soms ga jij bij mij vandaan
Dan trek ik jouw pyjama aan
En staar weemoedig in het vuur
Dan tel ik ieder uur

(Refrão)

3. Telkens weer een nieuwe dag
Een vogel zingt, er waait een vlag
Het leven heeft een blij gezicht
En alles danst in het licht
Maar leven kent ook tegenslag
Soms moet ik vechten voor een lach
Toch hou ik vast aan mijn gevoel
Mijn leven heeft een doel

Ik heb het leven innig lief
Al ken ik heus het leven niet
Oh alle dagen toont het mij
De mooiste kant en dat ben jij



Als de zon ondergaat (Zomernachtsdromen)

Refrão:
Als de zon ondergaat
’n Gouden glans achterlaat
Droom ik weer van die uren met jou
Wij tweetjes wandelen fijn
In de heldere maneschijn
In mijn zomernachtsdromen van jou

1. Wij liepen langs het witte strand
Enkel sterren om ons heen
Bij het licht van de maan
Waren wij daar heel alleen
Deze droom van die nacht
Heeft ons geluk gebracht
Die zomeravond vol liefde voor ons twee

(Refrão)

2. Wij gingen daar hand in hand
Ik zong ’n liedje voor jou
In dat verre vreemde land
Zei ik dat ik van je hou
Ik droom nog vaak van die nacht
Die ons samenbracht
Die zomeravond vol liefde voor ons twee

(Refrão)


Hoe zal ik naar je kijken



Dansende vleugels (Vleugels)

Alles wat ik jou ooit wilde zeggen
Hoef ik niet uit te leggen
Want jij en ik we horen bij elkaar
Maar jij moet nu ook beseffen

’t Is dat verliefde gevoel
Wat bijna is bevroren
Ik wil weer door dat vuur met jou
Omdat ik zoveel van je hou

Ik wil weer dansen met jou
Op die vleugels van toen
Ook al duurt dat maar
Heel even dat gevoel
Dan wil ik jou beminnen
Met warmte diep van binnen
Het is zolang geleden,
Maar dit is wat ik jou zeggen wou

Met heel m’n hart en ziel hou ik van jou
’k Zou jou nooit willen ruilen
Maar af en toe dan voel ik weer die sleur
Waarvoor ik me wil verschuilen

Oh, dat verliefde gevoel
Het zit zo diep van binnen
Ik ga weer door die muur voor jou

Ik wil weer dansen met jou
Op die vleugels van toen
Ook al duurt dat maar
Heel even dat gevoel
Dan wil ik jou beminnen
Met warmte diep van binnen
Omdat ik zoveel van je hou

Ik wil weer dansen met jou
Op die vleugels van toen
Ook al duurt dat maar
Heel even dat gevoel
Dan wil ik voor jou zingen
Over warme dingen
Dit is wat ik jou zeggen wou

Hou me vast, heel even maar
Voel je nu wat ik bedoel
Oh, deze warmte heb ik lang niet meer gekend



Zomernachten

1. Op het gloeiende zand
Liggen wij zij aan zij
Op het gloeiende zand
Bij de ruisende zee

Met je hand in mijn hand
Dromen wij urenlang
Van de komende nacht
Die op ons wacht

Refrão:
Zomernachten, zomernachten
Zijn zo mooi voor verliefden als wij
Maar als je gelukkig bent
Gaat de tijd zo snel voorbij
Zomernachten, zomernachten
Er is niets waar ik zoveel van hou
En ik wens me duizend en één
Zomernachten met jou

2. De zon heeft niet gestaakt
Want ze heeft heel de maand overuren gemaakt
En langs duinen en strand
Heel wat ruggen verbrand
En we liggen languit
In een piepkleine schuit
Tot de zon ondergaat
En de eerste ster aan de hemel staat

(Refrão)

3. Als zo’n magische nacht
Ons wonderzacht
In z’n blauwe mantel hult
Weten wij dat onze liefdesdroom zich gauw vervult

(Refrão)


Ballalaika



Er is muziek

1. De weg is lang, het zuiden lokt en lonkt,
De warme zomer gloeit
We zijn verlangend naar de horizon,
Maar eindeloos vermoeid
Nu word het nacht, we zijn verdwaald misschien
Er is geen stad en geen hotel te zien.
Maar ergens rinkelt de ritmiek
Daar in de verte is muziek

Refrão:
Daar is muziek
Bij maneschijn
De menden dansen
Op het plein
Het pakt je beet
Van lieverlee
En voor jet het weet
Dan dans je mee

2. De muzikanten spelen zuidelijk
En duidelijk vol vuur
De noten tuimelen naar buiten
Toe op zoek naar avontuur
Het is al nacht maar alles deint en doet
Waardoor je voelt dat je wel dansen moet
Met zoveel vreugde in de lucht
Gaat alle weemoed op de vlucht

(Refrão)

3. Dikwijls heb ik terug gedacht
Aan die vakantie en dat dorp, die nacht
En was die liefde met elkaar
Nu maar voor de heel de wereld waar

(Refrão)


In ale dingen



Dak van de wereld (Op het dak van de wereld)

1. Ik heb vandaag zo’n wonderlijk gevoel
Slechts verliefden weten echt wat ik bedoel
Helder blauw is de lucht en ik straal van geluk
Want mijn leven heeft nu eindelijk een doel
Al m’n lege dagen zijn voorbij
En de zon schijnt dag en nacht alleen voor mij
Tot in ’t diepst van mijn hart
Dat op jou heeft gewacht
En nu dat je hier bent, voel ik me zo blij

Refrão:
’k Zit op het dak van de wereld
En ik kijk naar beneden
Waar er niets of niemand mij nog raken kan
’k Zit nooit meer aan de grond
Sinds de dag dat ik je vond
Zit ik heerlijk op het dak van de wereld

2. Alles wat ik droomde is gebeurd
En ’t is net of alles zich daarom verheugd
Elke bloem, ieder blad lijkt zo glanzend en glad
En de toekomst heeft ee nieuwe roze kleur
Er is nog een ding dat ik vraag
Dat je morgen van me houdt zoals vandaag
Als je voor eeuweig lang
Dicht bij mij blijven kan
Is er echt niets anders meer dat ik verlang

(Refrão 2x)



Kleine paradijs

Als de regen onze liefde blust
En de hemel op mijn schouders rust
Wil ik naar een land
Aan de andere kant
Naar een land hier ver vandaan
Naar een ander land
Aan de overkant
Waar de wolken niet bestaan.

Als een vogel wil ik vliegen dan
Veel verder dan ik dromen kan
Als het even kan wil ik naar de zon
Wil ik heel ver weg op reis
Op een klein balkon
In de avondzon
In een heerlijk paradijs

Maar dan weet ik dat mijn hart verlangt
Naar de regen van dit kleine land
Waar ook jij mijn hart verwarmen kan
Ja, mijn hele leven lang
Want al is de hemel soms heel grauw

Als je houdt van mij en ik van jou
Ben je rijker dan
Ik ooit wensen kan
In dit kleine paradijs
Ook al is het koud
Als je van me houdt
Is het hier het paradijs

Van een hele kleine luchtballon
Maken wij een reuze grote zon
Als de liefde brandt
In dit kleine land
Is het hier het paradijs
Als de liefde brandt
In dit kleine land
Is het hier het paradijs

Nu de sterren aan de hemel staan
En ons hart verwarmd wordt door de maan
Nu we samen zijn
Niemand krijgt ons klein
In dit kleine paradijs

Kom we zingen tot de ochtend komt
En we dansen samen in het rond
Als de liefde brandt
In dit kleine land
Is het hier het paradijs
Als de liefde brandt
In dit kleine land
Is het hier het paradijs



Regen van geluk

1. ’k Was ooit verliefd, verstrooit en verdwaald
Als een kind dat geen gevaren kent
Oneindig ver op zoek naar jou
Steeds weer opnieuw met maar die ene wens

Zomaar opeens kwam jij in mijn leven
Zomaar een mens waar ik van hou
Jij bent voor mij
Alles wat ik ooit wou

Refrão:
Want iedere keer als jij me aankijkt
Voel ik een regen van geluk
Iedere keer als jij zomaar naar me lacht
Weet ik dat ik jouw nooit laat gaan
Dat ik jouw nooit laat gaan

2. ’t Is de kracht die jij me nu geeft
Jij voelt precies dat geen waar ik voor leef
Diep in de nacht ben ik soms even bang
Heel even bang hoe ik naar jou verlang
Zomaar opeens liet jij me weer zweven
Van dat geluk was ik vervreemd
Jij sprak die taal, de taal die mijn hart
Weer deed leven

(Refrão)

Jij bent het beste wat mij ooit overkwam
Hou me vast en laat me nooit meer los

(Refrão)



Voel me goed vandaag

1. ’k Voel me goed vandaag
En alles valt mee, vandaag
De zon en de zee
Alles lui en traag,
Ik ga maar te voet
Misschien ga je mee?

2. Niks dat moet vandaag,
Alleen of met twee, vandaag
Dat is ook ok
Wil je niet zo graag,
Je ziet wat je doet.

3. Ik heb vandaag geen ander doel
Dan te voelen wat ik voel, binnenin
En ik doe mijn zin
Ik voel me goed als jij eens wist
Als jij kon weten wat het is, dat je mist
Dan kwam je gelopen

4. ’k Voel me goed vandaag
En alles valt mee, vandaag
Als jet het heel mooi vraagt
Dan mag je nog mee

(Repete o 3)

5 (2x). ’k Voel me goed vandaag
En alles valt mee, vandaag
De zon en de zee
Als je ’t heel mooi vraagt
Dan mag je nog mee
Dan mag je nog mee
Dan mag je nog mee



Adios

1. Zoals een onweer in de tropen
Zoals een plotse gave bui
Is onze liefde uitgebroken
En iedereen stond er bij
Ja, iedereen heeft kunnen merken
Hoe alles tussen ons begon
We konden het ook niet verbergen
We straalden beide als de zon

Refrão:
Tranen verdriet en spijt, adios adios
Uren van somberheid adios
Dagen van eenzaamheid, adios adios
Tranen verdriet en spijt, adios
Adios adios, adios adios

2. Met jou te leven vind ik heerlijk
Met jou lijkt alles zo uniek
Ik ben gelukkig ik weet het
Mijn hart is open voor muziek
Het leeg gevoel dat ik eeens kende
Is dankzij jou voor goed voorbij
De tijd van twijfels en ellende
Ligt nu als eeuwen achter mij

(Refrão)

22 de fevereiro de 2021

Anthem of Covid-19 in GR PT EN FR RU


Short link to this post: fishuk.cc/covid-gr




Um dia encontrei por acaso esta animada canção em grego, de pouco menos de 1 minuto. O nome informado é “Ο Ύμνος Του Κορονοϊού” (O Ýmnos Tou Koronoioú), Hino do Coronavírus, o que à primeira vista pode parecer um pouco mórbido. Na verdade, é apenas uma da série de músicas e paródias humorísticas que surgiu no mundo todo quando a pandemia da covid ainda estava começando. Tanto que o compositor alerta tratar-se de uma “canção meramente humorística” (como se precisasse explicar), embora hoje ninguém mais ache graça nenhuma.

A letra é do jovem músico grego Dimítris Klotsotýris, mais conhecido nas redes e em seu próprio canal como Treloikariotis, e a melodia foi composta por ele, junto com um tal de “Petrit”. Petrit também fez os arranjos, e temos a pérola que você está vendo agora mesmo. Embora o compositor diga que “é proibido postar o vídeo em outros canais”, taquei o dane-se, traduzi com a ajuda do Google Tradutor e legendei nas duas línguas (com transliteração). Usei o Google pra traduzir e até comparei com o resultado em outras línguas, mas a palavra final foi minha, sobretudo em “terror nos canais”, que podia parecer estranho ou ambíguo em português.



1. Προσοχή στον κορονοΐο
Πάρε το αυτοκίνητο και ξέχνα το Μετρό
Φορά και τη μάσκα να μοιάζεις με γιατρό
Και βράδυ κανε μπάνιο με το αντισηπτικό
(Prosochí ston koronoío
Páre to aftokínito kai xéchna to Metró
Forá kai ti máska na moiázeis me giatró
Kai vrády kave bánio me to antisiptikó)

2. Ήρθε ο Ιός κατευθείαν από την Κίνα
Και όλο τον πλανήτη έβαλε σε καραντίνα
Άδειασανε τα ράφια, τρόμος στα κανάλια
Και σ’ όλη την Ελλάδα ακύρωσαν καρναβάλια
(Írthe o Iós kateftheían apó tin Kína
Kai ólo ton planíti évale se karantína
Ádeiasane ta ráfia, trómos sta kanália
Kai s’ óli tin Elláda akýrosan karnavália)

1. Cuidado com o coronavírus
Ande de carro e esqueça o metrô
Use a máscara pra parecer um médico
E à noite tome banho com antisséptico

2. O vírus veio diretamente da China
E pôs todo o planeta em quarentena
Prateleiras esvaziadas, terror na TV
E carnavais cancelados por toda a Grécia

____________________

One day I found by chance this joyful song in Greek, with just over one minute. Its title was “Ο Ύμνος Του Κορονοϊού” (O Ýmnos Tou Koronoioú), The Anthem of Coronavirus, that at first glance may seem quite morbid. Actually, it’s only one of the several humorous songs and parodies that appeared around the world when the covid pandemic was still beginning. In fact, the composer even advises that it’s a “merely humorous song” (as if this had to be pointed out), though today no one else finds it funny.

The lyrics were written by the young Greek musician Dimítris Klotsotýris, known on the medias and on his own channel as Treloikariotis, and the melody was composed by him together with a guy called “Petrit”. Petrit also made the arrangement. Although the composer wrote that “posting the video on other channels is forbidden”, I didn’t care about it, translated the text using Google Translator, brought some personal corrections and made the subtitles in two languages (with transliteration).



1. Προσοχή στον κορονοΐο
Πάρε το αυτοκίνητο και ξέχνα το Μετρό
Φορά και τη μάσκα να μοιάζεις με γιατρό
Και βράδυ κανε μπάνιο με το αντισηπτικό
(Prosochí ston koronoío
Páre to aftokínito kai xéchna to Metró
Forá kai ti máska na moiázeis me giatró
Kai vrády kave bánio me to antisiptikó)

2. Ήρθε ο Ιός κατευθείαν από την Κίνα
Και όλο τον πλανήτη έβαλε σε καραντίνα
Άδειασανε τα ράφια, τρόμος στα κανάλια
Και σ’ όλη την Ελλάδα ακύρωσαν καρναβάλια
(Írthe o Iós kateftheían apó tin Kína
Kai ólo ton planíti évale se karantína
Ádeiasane ta ráfia, trómos sta kanália
Kai s’ óli tin Elláda akýrosan karnavália)

1. Beware of the coronavirus
Use your car and forget the subway
Wear the mask to look like a doctor
In the evening take an antiseptic bath

2. The virus came directly from China
And quarantined the whole planet
Store shelves emptied, terror on TV
And carnivals canceled all over Greece

____________________

Un jour j’ai trouvé par hasard cette chanson animée en grec, d’un peu plus d’une minute. Le titre présenté est “Ο Ύμνος Του Κορονοϊού” (O Ýmnos Tou Koronoioú), L’Hymne du coronavirus, ce qui au premier regard peut paraitre un peu morbide. En vérité, ce n’est qu’une des plusieurs chansons et parodies humoristiques apparues partout dans le monde quand la pandémie de la covid était encore au début. D’autant plus que le compositeur souligne qu’il s’agit d’une “chanson simplement humoristique” (comme s’il fallait l’expliquer), bien qu’aujourd’hui plus personne n’y trouve aucun amusement.

Les paroles sont du musicien grec Dimítris Klotsotýris, plus connu sur les réseaux et sur sa propre chaine comme Treloikariotis, et la mélodie a été composée par lui, ensemble avec un certain “Petrit”. Petrit a aussi fait les arrangements, et vouz avez ce génial chef-d’œuvre. Bien que le compositeur dise qu’il est “interdit de publier la vidéo dans d’autres chaines”, je m’en ai fiché, je l’ai traduite avec l’aide du Google Traducteur et sous-titrée dans les deux langues (avec translitération). J’ai utilisé le Google pour traduire et même comparé le résultat vers d’autres langues, mais moi-même ai pris la décision finale.



1. Προσοχή στον κορονοΐο
Πάρε το αυτοκίνητο και ξέχνα το Μετρό
Φορά και τη μάσκα να μοιάζεις με γιατρό
Και βράδυ κανε μπάνιο με το αντισηπτικό
(Prosochí ston koronoío
Páre to aftokínito kai xéchna to Metró
Forá kai ti máska na moiázeis me giatró
Kai vrády kave bánio me to antisiptikó)

2. Ήρθε ο Ιός κατευθείαν από την Κίνα
Και όλο τον πλανήτη έβαλε σε καραντίνα
Άδειασανε τα ράφια, τρόμος στα κανάλια
Και σ’ όλη την Ελλάδα ακύρωσαν καρναβάλια
(Írthe o Iós kateftheían apó tin Kína
Kai ólo ton planíti évale se karantína
Ádeiasane ta ráfia, trómos sta kanália
Kai s’ óli tin Elláda akýrosan karnavália)

1. Attention au coronavirus
Prenez la voiture et oubliez le métro
Portez le masque pour ressembler à un médecin
Et le soir prenez un bain avec antiseptique

2. Le virus est venu directement de Chine
Et a mis toute la planète en quarantaine
Des étagères vidées, du terreur à la télé
Et des carnavals annulés partout en Grèce

____________________

Один день я нашел случайно эту радостную песню на греческом языке, чуть меньше за 1 минуту. Его данное имя – “Ο Ύμνος Του Κορονοϊού” (O Ýmnos Tou Koronoioú), “Гимн коронавируса”, что первоначально может казаться немного болезненным. На самом деле, это только одна из ряд песен и пародий, которые появились в мире, когда пандемия covid19 только что начиналась. Оказалось, что сам композитор посчитал необходимым подчеркнуть, что его сочинение было “просто юмористической песней” (как будто ему должно было это объяснить), хотя сегодня больше ничего не считает это смешным.

Слова написал молодой греческий музыкант Димитрис Клоцотириц, который чаще представляется в соцсетях и на своем канале как “Treloikariotis”, а музыку сложил он, вместе с каким-то “Petrit”. Петрит тоже создал аранжировку, а вот чудо, которое вы сейчас смотрите. Несмотря на то, что композитор говорит, что “загрузка на другие каналы запрещена”, я не заботился об этом, перевел с помощю Google Translate и сделал субтитры на двух языках (с транслитерацией на латинице). Я использовал Google, чтобы перевести, и даже сравнил с результатом на других языках, но я сам принял окончательное решение.



1. Προσοχή στον κορονοΐο
Πάρε το αυτοκίνητο και ξέχνα το Μετρό
Φορά και τη μάσκα να μοιάζεις με γιατρό
Και βράδυ κανε μπάνιο με το αντισηπτικό
(Prosochí ston koronoío
Páre to aftokínito kai xéchna to Metró
Forá kai ti máska na moiázeis me giatró
Kai vrády kave bánio me to antisiptikó)

2. Ήρθε ο Ιός κατευθείαν από την Κίνα
Και όλο τον πλανήτη έβαλε σε καραντίνα
Άδειασανε τα ράφια, τρόμος στα κανάλια
Και σ’ όλη την Ελλάδα ακύρωσαν καρναβάλια
(Írthe o Iós kateftheían apó tin Kína
Kai ólo ton planíti évale se karantína
Ádeiasane ta ráfia, trómos sta kanália
Kai s’ óli tin Elláda akýrosan karnavália)

1. Остерегайтесь коронавируса
Возьмите машину и забудьте про метро
Наденьте маску, чтобы выглядеть как врач
А вечером примите ванну с антисептиком

2. Вирус пришёл прямо из Китая
И поместил в карантин всю планету
Полки опустошены, ужас по телевизору
И по всей Греции карнавалы отменены

20 de fevereiro de 2021

Marche des Volontaires: hymne chinois


Lien raccourci vers ce billet : fishuk.cc/volontaires




Je vous présente aujourd’hui l’hymne national du pays le plus peuplé du monde, qui a actuellement la deuxième économie la plus grande de la planète. Le titre originel de la chanson est La Marche des Volontaires (Yìyǒngjūn Jìnxíngqǔ, 义勇军进行曲), dont les paroles ont été écrites en 1934 par Tian Han et la musique a été composée en 1935 par Nie Er. L’hymne avait déjà été adopté peu avant la victoire finale de la révolution communiste, mais il a subi un long processus légal avant de devenir finalement officiel.

Au 20e siècle, la Chine a changé trop souvent d’hymne national : depuis 1911, encore sous la monarchie, quand la dynastie Qing a adopté le premier hymne national, la Chine continentale a eu sept hymnes nationaux, officiels ou pas, originels ou peu modifiés ! La république a été proclamée le 1er janvier 1912, et depuis lors le pays n’a pas connu de gouvernement uni et fort, car la plupart du territoire était contrôlée par les soi-disant “seigneurs de la guerre”. L’un d’eux était Jiang Jieshi, plus connu comme Chiang Kai-shek, qui commandait le mouvement nationaliste Guomindang, ou Parti national populaire, depuis la seconde moitié des années 1920, et a alors commencé à commander de facto la Chine et entamé la guerre civile contre les communistes. En 1928 le Guomindang a adopté Trois principes du peuple comme l’hymne national, jusqu’à présent utilisé à Taïwan, officiellement la “République de Chine” non reconnue par les communistes de Pékin.

Le poète et dramaturge Tian Han (1898-1968) a écrit les paroles en 1934, d’abord comme un poème dramatique, mais en 1935 le musicien Nie Er (né Nie Shouxin, 1912-1935) leur a composé une mélodie pour que la chanson soit jouée dans le film patriotique Children of Troubled Times. Le gouvernement communiste provisoire de Chine a adopté la chanson déjà le 27 septembre 1949 de façon transitoire, jusqu’au jour où l’hymne a enfin été enfin ratifié le 4 décembre 1982. Il n’a entré dans la Constitution que lors de la révision que ce texte légal a subie le 14 mars 2004, et enfin son usage a été reglé le 1er octobre 2017. Bien que l’hymne soit plus connu en Occident comme La Marche des Volontaires, la traduction littérale de son titre en chinois est Armée vertueuse et courageuse en allusion à la guerre civile des communistes contre le Guomindang et l’invasion et occupation japonaises dans les années 1930 et 1940. Les armées de Mao et Jiang ont combattu ensemble le Japon, mais la chanson n’a jamais été populaire chez les nationalistes.

Curieusement, Tian Han a été arrêté en 1966, quand débutait la “Révolution” culturelle en Chine, à cause d’une pièce (de 1961 !) réputée “venimeuse” par le gouvernement, et a fini par mourir en prison en 1968. De 1966 à 1970, la chanson communiste Dōngfāng Hóng (东方红, L’Orient est rouge) a été utilisée comme hymne national non officiel, jusqu’au moment où La Marche des Volontaires est revenue à être utilisée, mais sans paroles. En 1978, de nouvelles paroles ont été adoptées, avec mentions à Mao, au Parti communiste et à la Longue marche, mais en 1982 les paroles originelles, que vous lisez sur la vidéo, ont été reprises lors de l’adoption de politiques libéralisantes par Deng Xiaoping. La Marche des Volontaires diffère des hymnes précédents en ce qu’ils ont été écrits en chinois populaire, et non pas dans la langue classique ancienne.

J’ai téléchargé de cette page la vidéo qui semble être l’ouverture du programme TV. Moi-même ai fait les sous-titres, mais j’ai copié la traduction de la Wikipédia. Paroles en chinois dans les caractères traditionnels et simplifiés et dans la translitération pinyin, et traduction :



Chinois simplifié :
起来!不愿做奴隶的人们!
把我们的血肉,
筑成我们新的长城!
中华民族到了最危险的时候,
每个人被迫着发出最后的吼声。
起来!起来!起来!
我们万众一心,
冒着敌人的炮火,前进!
冒着敌人的炮火,前进!
前进!前进!进!

Chinois traditionnel :
起來!不願做奴隸的人們!
把我們的血肉,
築成我們新的長城!
中華民族到了最危險的時候,
每個人被迫著發出最後的吼聲。
起來!起來!起來!
我們萬衆一心,
冒著敵人的炮火,前進!
冒著敵人的炮火,前進!
前進!前進!進!

Translitération pinyin :
Qǐlai! Bùyuàn zuò núlì de rénmen!
Bǎ wǒmen de xuèròu,
Zhúchéng wǒmen xīn de chángchéng!
Zhōnghuá mínzú dàole zuì wēixiǎn de shíhou.
Měi ge rén bèi pòzhe fāchū zuìhòu de hǒushēng.
Qǐlai! Qǐlai! Qǐlai!
Wǒmen wànzhòngyīxīn,
Màozhe dírén de pàohuǒ, qiánjìn!
Màozhe dírén de pàohuǒ, qiánjìn!
Qiánjìn! Qiánjìn! Jìn!

Traduction française :
Debout ! Les gens qui ne veulent plus être des esclaves !
C’est avec notre chair que nous bâtirons
[notre nouvelle Grande Muraille !
La Nation connaît son plus grand danger,
Chacun doit pousser un dernier cri.
Debout ! Debout ! Debout !
Nous, qui ne faisons plus qu’un,
Bravons les tirs ennemis, marchons !
Bravons les tirs ennemis, marchons !
Marchons ! Marchons ! Marchons !