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29 de abril de 2019

Irena Santor: “Tobie nic do tego” (1970)


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Enfim uma canção inteira traduzida diretamente do polonês: esse é um déficit que pretendo sanar gradualmente, pois sei que devo muito aos admiradores da Polônia e descendentes de poloneses no Brasil. Hoje temos a cantora polonesa Irena Santor, considerada a “rainha da canção polonesa”, com uma música gravada em 1970, Tobie nic do tego (Não é da sua conta), com letra de Zbigniew Stawecki e melodia de Ryszard Sielicki. Eu mesmo traduzi direto do polonês, montei o vídeo e legendei, tendo tirado o áudio desta página.

Esta canção apareceu duas vezes em álbuns de Santor: no disco LP Dla ciebie śpiewa Irena Santor (Irena Santor canta pra você), daquele mesmo ano, e no CD Moje piosenki vol. 10 (Minhas canções vol. 10), lançado em 1999. Percebam que a letra é um verdadeiro trava-língua, num idioma que por si mesmo já é um trava-língua pra maioria dos estrangeiros! Há muitas repetições de palavras e encavalamento de consoantes, sobretudo palatais, somados ainda a um ritmo dançante. Tudo isso junto dá o sabor da música, que por isso decidi traduzir.

Os anos 70 seriam considerados na Polônia comunista como uma espécie de “era de ouro”, quando após pequenas reformas sob o governo de Edward Gierek, a vida do povo melhorou razoavelmente. Temas como o dessa canção (a futilidade dos amores e a brevidade dos relacionamentos) desafiavam tanto o senso comum católico quanto o puritanismo pró-soviético, e Irena Santor soube muito bem quebrar todos esses padrões, virando uma “diva” em seu país. Nessa década, apesar da constante censura, a cultura polonesa, em especial a música, não deixou de prosperar e viveu momentos marcantes.

Irena Wiśniewska-Santor nasceu em 1934 e é uma cantora, atriz e estrela de musicais em atividade desde 1949. Conhecida por sua límpida voz de mezzo-soprano, sendo por isso uma referência aos mais jovens, começou sua carreira como solista do famoso grupo folclórico Mazowsze, e assim começou a viajar pelo mundo e ganhar prêmios. Estreou como atriz em 1968, apareceu em muitos shows de rádio e TV, foi jurada de programas de talentos e gravou trilhas até pra filmes soviéticos. Em 2017, por seu pioneirismo no país, recebeu um doutorado honoris causa pela Academia de Música de Łódź. Foi casada duas vezes, mas não teve filhos.

Assistam ao vídeo duas vezes, lendo uma legenda de cada vez, mesmo a polonesa, se puderem! Seguem abaixo minha legendagem, que postei na TV Eslavo (YouTube), a letra em polonês, que copiei deste ótimo site de canções da Polônia, e a tradução em português:



Taki zły – no i co, no i co?
Na próżno tracisz czas.
Lubię cię – no i to, tylko to
Co łączy dwoje nas.
Tobie nic, tobie nic, tobie nic do tego,
Bo czy ja mam, czy ja mam innego
To już moja sprawa.

Widzisz sam, że to tak w życiu jest
Nie zawsze, jak się chce.
Niby już, niby tak, niby chcesz,
A serce mówi “nie”.
No i już, no i już, no i już po tobie
Że trochę żal? No to nic – więc odejdź,
Nie myśl o mnie źle.

Lecz bez reszty nie wierz w to,
Czasem mówię byle co,
A znaczy to, znaczy to na opak,
I nie bądź zły, nie bądź zły, bo chłopak
Musi klasę mieć.

Może trochę zwodzę cię,
Bardzo lubię taką grę.
A tobie nic, tobie nic do tego,
Bo jeśli w tym, jeśli w tym coś złego
Nic już nie mów mi.

Przyjdzie ktoś – no to co, no to co?
Niewiele każdy wart.
W kilka dni pryśnie czar niby szkło
Lub kruchy domek z kart.
No i znów, no i znów, no i znów od nowa,
Znów uczyć się nowych słów, całować
I przysięgi łamać.

Ja to znam, ja to znam, ja to znam,
Widziałam już nie raz,
Po co nam, po co nam, po co nam
Marnować cenny czas?
Lepiej idź, lepiej idź, lepiej idź do innej,
Tak różne są, różne są dziewczyny,
Któraś weźmie cię.

Lecz bez reszty nie wierz w to,
Czasem mówię byle co,
A znaczy to, znaczy to na opak,
I nie bądź zły, nie bądź zły, bo chłopak
Musi klasę mieć.

Może trochę zwodzę cię,
Bardzo lubię taką grę.
A tobie nic, tobie nic do tego,
Bo jeśli w tym, jeśli w tym coś złego
Nic już nie mów mi.

Czy ja mam, kogoś mam, kogoś mam
Koniecznie wiedzieć chcesz,
Powiem ci: wielu znam, wielu znam,
Sam zresztą o tym wiesz.
Tobie nic, tobie nic, tobie nic do tego:
Jak można mieć, można mieć jednego,
Kiedy tylu wokół?

Takiś ty – słyszysz mnie jeden raz
I zaraz burzysz most.
Zdradzę ci, zdradzę ci: żadna z nas
Nie lubi mówić wprost.
Powiem ci, powiem ci, powiem ci do tego,
Że ciebie chcę, ciebie chcę jednego,
Tylko ciebie chcę
Tylko ciebie chcę...

____________________


Tão mau, mas e daí, e daí?
Está perdendo tempo à toa.
Eu te amo, mas é só isso
Que ainda une nós dois.
Isso não é, não é, não é da sua conta,
Pois se eu tenho, se eu tenho outro
Já é um assunto meu.

Você vê que na vida nem sempre
Isso corre como se quer.
Parece que você ainda quer, sim,
Mas seu coração diz não.
Mas ainda, ainda, ainda um pouco
Sofro por você? Nada disso, então vá,
Não pense mal de mim.

Mas nem sempre acredite no que
Eu falo às vezes e que
Quer dizer, quer dizer o contrário,
E não seja mau, seja mau, pois um cara
Deve manter a pose.

Talvez eu te iluda um pouco,
Gosto muito de jogar assim.
E isso não é, não é da sua conta,
Pois se nisso, se nisso há algo ruim
Nem fale nada para mim.

Alguém vai chegar, e daí, e daí?
Todos merecem um pouco.
Em dias o encanto quebra como copo
Ou frágil casinha de papel.
Mas de novo, de novo, de novo do zero
De novo aprender novas palavras, beijar
E quebrar juras de amor.

Eu sei disso, sei disso, sei disso,
Já percebi várias vezes,
Para que perder, perder, perder
Nosso precioso tempo?
Melhor você, você, você procurar outra,
Há tantas, há tantas garotas diferentes,
Uma delas vai escolher você.

Mas nem sempre acredite no que
Eu falo às vezes e que
Quer dizer, quer dizer o contrário,
E não seja, não seja mau, pois um cara
Deve manter a pose.

Talvez eu te iluda um pouco,
Gosto muito de jogar assim.
E isso não é, não é da sua conta,
Pois se nisso, se nisso há algo ruim
Nem fale nada para mim.

Se eu tenho, tenho, tenho alguém
Você quer realmente saber?
Vou dizer: conheço, conheço muitos,
De todo jeito você sabe disso.
Isso não é, não é, não é da sua conta:
Como se pode ter, pode ter alguém
Com tantos em volta?

Você é assim: me escuta uma vez
E logo quebra a ponte.
Vou te decepcionar: nenhuma de nós
Gosta de falar claramente,
Mas vou te falar, te falar, te falar na cara
Que é só você, só você que quero,
Só você que quero,
Só você que quero...




27 de abril de 2019

Chegada da TV a cores na França, 1967


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Como curiosidade histórica, estou trazendo o momento exato em que começou a ser emitido o sinal da televisão a cores na França, no dia 1.º de outubro de 1967. Era então o governo do general Charles de Gaulle, que como todo bom nacionalista, fez com que fosse adotado o sistema SECAM (séquentiel couleur à mémoire), criado no próprio país. Este vídeo, com 9 minutos no total, compõe os arquivos da INA.

O gaullista Georges Gorce, ministro da Informação (cargo suprimido em 1968 e novamente em 1974), fala ao público junto com Jacques Bernard Dupont, diretor-geral da ORTF (Escritório de Radiodifusão e Televisão Francesa), Claude Mercier, diretor de equipamentos, e Émile Biasini, diretor da televisão. “Et voici la couleur !” (E aqui está a cor!), ele começa, com a frase que se tornaria famosa na cultura popular. E como ele diz, logo a imagem a cores deixaria de ser fascinante, mas pede que todos se deem conta do enorme passo dado.

Mas a transição demorou. Enquanto os EUA já tinham começado a transmitir em cores em 1954, a França tinha então apenas um canal de TV que transmitia desde 1935 no formato preto e branco de 819 linhas, tamanho aí predominante dos aparelhos. O sistema americano de coloração era o NTSC, e na Europa se expandia o sistema alemão PAL, ambos em 625 linhas, que não podiam ser lidos pelos televisores de 819. Pra piorar, a França adotou sozinha o sistema SECAM, considerado mais nítido, pra emissão a cores, concebido por Henri de France em 819 linhas.

Pra favorecer o intercâmbio com a Europa e tendo em vista a transição pra TV a cores, foi lançado em 1964 o Canal 2 na França, transmitindo em 625 linhas sem cores. Em seguida, começou dentro da ORTF uma queda de braço, enquanto os fabricantes de televisores resistiam a abandonar o preto e branco, cujo mercado ainda estava longe da saturação. Finalmente, foi marcada pra 1.º de outubro de 1967, às 14h15min (hora de Paris), a primeira transmissão colorida a partir do estúdio 13 de Buttes-Chaumont do Canal 2. Como se pode notar, ante o bizarro cenário montado, a inauguração nada teve de festiva, numa gravidade que dispensou até jornalistas.

Apenas 1500 lares tinham então uma TV a cores, ainda considerada uma aquisição de elite, e por isso o Canal 1 continuou transmitindo em preto e branco de 819 linhas, enquanto o Canal 2 apenas a cores. Em 1972 a França inaugurou seu novo canal a cores C3, enquanto o Canal 1 (TF1 desde 1975) só começará a se colorir e a modernizar aos poucos sua rede emissora em 1976, com a transição completada e o fim definitivo das 819 linhas em 1983. Com o advento da TV digital, também o sistema SECAM de cores se tornou obsoleto.

Eu tirei essas informações de um blog francês, um pouco abandonado, sobre a história da TV no país, e de uma matéria do jornal La Croix sobre os 50 anos dessa primeira transmissão a cores. Eu mesmo traduzi, legendei e fiz os cortes no vídeo, e seguem abaixo o resultado que postei na TV Eslavo (YouTube), o texto do ministro Gorce em francês e a tradução em português:



Et voici la couleur, au jour fixé et à l’heure dite. Mesdames, Mesdemoiselles, Messieurs, vous qui maintenant nous voyez tels que nous sommes, vous cesserez très vite, je le sais bien, d’être sensibles à la magie de la chose. Et vous trouverez bientôt tout à fait naturel de voir la vie avec ses couleurs envahir vos écrans. Je voudrais tout de même vous demander au moins en ce premier jour de considérer qu’il s’agit là d’un tour de force technique et d’une petite révolution.

E aqui está a cor, no dia fixado e na hora dita. Senhoras e senhores, vocês que estão nos vendo agora tal como somos, muito em breve vão deixar, eu bem sei, de se encantar com a magia desse recurso. E logo vão achar totalmente natural ver a vida e suas cores invadirem suas telas. Mesmo assim, eu gostaria de pedir que vocês, ao menos neste primeiro dia, se dessem conta de que estamos diante de uma proeza técnica e de uma pequena revolução.


25 de abril de 2019

Carta a um jovem admirador da Rússia


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NOTA: No último dia 22 de abril recebi uma mensagem pessoal de um jovem morador da cidade de São Paulo. Ele me contou que tinha ascendência alemã e do “Leste europeu” e que desde a adolescência sempre sofreu preconceito por admirar essa região do mundo, em particular a Rússia e a extinta URSS. Em nossa “sociedade bem doente”, segundo ele, “há um ódio generalizado a qualquer relação ou apologia a isso, sempre com violência”. Com algumas adaptações e correções, segue abaixo a resposta que escrevi ontem e que perscruta também vários problemas da atualidade.



Entendo sua preocupação, de fato os brasileiros conhecem muito pouco sobre a Rússia e acabam aceitando passivamente a imagem estereotipada pelo filtro dos países ocidentais. Isso não é novidade em nenhuma época ou cultura, mas no caso da Rússia tem uma razão particular: é um país muito grande que sempre bateu de frente com os interesses dos EUA e da UE, por isso era útil que aqui todos fossem privados do contato direto com os “Orientes” e se curvassem acriticamente à visão liberal do mundo.

Acredito que no caso específico do Brasil ainda houve outra razão histórica: nunca recebemos ondas massivas de imigração russa ou mesmo eslava em geral, ao contrário do que aconteceu com italianos, alemães, japoneses e sírio-libaneses. Claro que também tivemos espanhóis e judeus, mas em escala menor, e portugueses, mas estes faziam parte de nossa própria constituição nacional. Por isso, elementos de culturas como a italiana, japonesa e, em algum grau, alemã, como sobrenomes, música e culinária, meio que foram incorporados ao cotidiano urbano do Centro-Sul. Digo isso porque tenho uma ascendência italiana bem mais remota do que a ucraniana, mas que conta muito mais forte no cotidiano de minha família, talvez por estes motivos: ramo familiar com mais membros, alusões onipresentes à cultura italiana (mas em geral mitigando os traços regionais) que despertam o que já está latente em nós, uma comunidade ao redor muito maior com que meus antepassados podiam contar etc.

Dos tempos do século 19 ou começo do 20, só tivemos duas ondas consideráveis de imigração eslava: os ucranianos e poloneses, que se concentraram, contudo, no Paraná. Houve exemplos isolados, como o de meus bisavós, mas fora de um movimento maior, sem contar as exceções modernas de gente que vem fugir das más condições econômicas da Europa Oriental. Nunca tivemos um afluxo significativo de russos que levasse a uma “massa crítica” pra formar colônias, ao contrário do que ocorreu na Argentina e nos EUA; e mesmo nesses países, como no Brasil, os italianos acabaram por predominar. Então, é compreensível que não apenas essas comunidades sejam dispersas ou isoladas, como também a população comum do Brasil não consiga lidar razoavelmente com elas.

O preconceito é fruto do desconhecimento, e consiste numa blindagem artificial que erguemos contra influências externas que em geral consideramos danosas ou desestabilizadoras. Felizmente, você é uma das pouquíssimas pessoas que conheço que conseguiu quebrar essa blindagem, procurando conhecer mais e ser receptivo a novas maneiras de ver o mundo. Parece um pouco do meu caso, justamente desde a adolescência também, não porque eu seja um mestre na empatia, mas porque mesmo na escola, quando eu levantava a questão de conhecer outros povos além do inglês e do americano, simplesmente riam da minha cara e faziam piadas... E saiba que como doutorando em História, posso dizer que isso também ocorre no meio acadêmico: se nas áreas não ligadas diretamente a estudos sociais o preconceito é mais forte, não deixa de estar ausente mesmo em historiadores, filósofos, antropólogos e cientistas políticos. Isso porque mesmo que a palavra de ordem aí seja a “alteridade” e a “diversidade”, tudo é feito sob a ótica da intelectualidade euro-ocidental, anglo-americana ou de suas antigas colônias. O “resto do mundo” que tenha alguma independência é bonito de longe, desde que não conheçamos sua língua, não adotemos seus costumes, não conversemos com seus habitantes e muito menos simpatizemos com sua religião!

E infelizmente, não há o que fazer: as mentalidades comuns adotam o caminho mais fácil, e mais fácil é erigirmos nossa ignorância em conhecimento absoluto e repelirmos aquilo que a instabilize. É muito árduo conseguirmos remanejar nossa estrutura mental e, no mínimo, entender como funciona aquilo que está fora de nossos hábitos (mesmo que sequer sejam hábitos físicos, como a imagem idealizada que parte de nossas elites tem dos EUA). Por isso, se as pessoas não reagem com violência quando você fala com elas, pelo menos vão dar risada ou esboçar aquele sorrisinho amarelo de pretensa superioridade. Assim, a muralha midiática e cultural é absurdamente espessa em países como o Brasil (e mesmo diante do que acontece junto a nossos vizinhos de língua espanhola!), e quase ninguém chega a ver ou sentir pra além do que ordenam os condutores das massas. No caso dos antigos países comunistas, à diferença linguístico-cultural se somava a oposição política: dado que tinham um regime rival ao que vigorava entre nós, deveriam saber aqui apenas de seus pontos fracos, que encobriam inclusive as cruéis deficiências do capitalismo! E, claro, o fato de terem uma cultura diferente foi um brinde adicional à patrulha anticomunista...

Quando criei a TV Eslavo (então com o nome Pan-Eslavo Brasil) no fim de 2010, eu levava comigo o sonho sempre presente de fazer as pessoas conhecerem algo diferente, além daquilo que era oferecido na mídia mainstream. Estávamos no ápice da hegemonia cultural de esquerda, então nutrida pelo evidente sucesso econômico do governo Lula, mas parecia que a estrutura mental das pessoas não tinha mudado, e mesmo entre os profetas da esquerda essa “alteridade”, como eu disse acima, era seletivamente direcionada. O que aconteceu desde então, culminando com a vitória do Bolsonaro? Nunca tivemos tanta informação chegando de forma tão fácil e rápida, mas parece que ao invés de nos enriquecer, ela mais assustou a todos e não foi assimilada no grau e velocidade devidos. Ou seja, passamos a ter muito mais alvos de ódio do que alternativas pro pensamento. Eu nunca desisti de trazer coisas novas, nem de propor leituras diferentes do próprio cotidiano imediato, mesmo que em muitos momentos tenha me desviado da rota original. Mas fico triste como o sentimento de ódio está tão generalizado, que as pessoas não precisam mais receber argumentos diferentes pra se sentir lesadas, mas simplesmente externam sua insatisfação quando veem a publicidade de um conteúdo que, mesmo irracionalmente, abominam e não diz respeito diretamente a elas!

Mas um povo que não enriquece nem amadurece culturalmente não pode fazer nada com o dinheiro ou os recursos naturais que tem, mesmo que esteja sentado sobre quantidades infinitas. E só podemos amadurecer e enriquecer uma cultura quando ela se abre a outros influxos e rejeita a noção de “pureza”, achando antes caminhos alternativos pra resolver os próprios problemas ou simplesmente vendo a própria realidade com novas lentes pra gerar assim todo tipo de possibilidade em qualquer esfera da vida. A nova onda difamatória contra a Rússia, a China e, em parte, o Irã (que é muçulmano, mas, lembremos bem, não é o árabe festivamente tolerado no mainstream) é apenas mais um recrudescimento desse ciclo atávico que já tem, aqui e nas metrópoles, seus intelectuais orgânicos munidos de categorias-chave. Aproveite cada oportunidade pra redobrar sua atenção e decifrar esses elementos.



23 de abril de 2019

Bolsonaro na Hungria critica esquerdas


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No dia 17 de abril eu estava procurando canais de TV húngaros no YouTube pra escutar a língua, e por coincidência uma das emissoras que encontrei tinha acabado de lançar um vídeo do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, encontrando-se com o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó. Não sei exatamente como ele foi parar lá, mas sabemos que as direitas brasileiras têm uma simpatia pelo regime do primeiro-ministro Viktor Orbán, dito de “extrema-direita” no Ocidente, contrário à imigração e ao comunismo e realizador de reformas profundas no Estado.

Mesmo assim, é interessante como vemos, nos fatos e comparando diversas fontes, que apesar dos problemas internos e de articulação com o Congresso Nacional, o governo Bolsonaro está atuando ativamente em várias frentes pra atingir seus fins, e não meramente parado “vendo a banda passar”, como a mídia tenta vender. Isso, claro, independente da opinião política ou ideológica que adotamos, pois também não concordo com muitas das ideias e decisões de Bolsonaro, nem gosto de muitos ministros que ele empossou. A Folha do Brasil, por exemplo, um canal recente do YouTube, está sempre postando notícias e informações do Planalto, apesar de seu caráter governista e laudatório.

Eduardo Bolsonaro foi eleito presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados em março, tendo como primeiro vice-presidente Luiz Philippe de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira. Ele é chamado de “chanceler informal” pelo site de esquerda Brasil 247, e de fato esteve recentemente fazendo um périplo pela Europa ao encontro de lideranças de direita: logo depois ele foi ver Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro e ministro do Interior italiano pelo partido Lega Nord. Bolsonaro se vangloria da extradição que o Brasil “promoveu” de Cesare Battisti ao país, o que na verdade foi feito pela Bolívia. Ele também é autor do Projeto de Lei 5358/16, que criminaliza a apologia ao comunismo, e disse certa vez num cursinho que pra derrubar o STF bastavam “um soldado e um cabo”.

Embora Eduardo tenha uma obsessão contra o comunismo, a Venezuela e teorias conspiratórias, em tese seu objetivo na Hungria é ampliar laços nas áreas de economia, pesquisa e ensino superior, o que seria ótimo diante de um país com tantas tradições, um alto nível de vida e uma língua pouco conhecida no Ocidente. Por causa desse mistério linguístico, resolvi postar aqui a breve notícia com legendas, traduzida direto do húngaro, algo inédito na TV Eslavo (YouTube). Mas como fiz isso, se não conheço o idioma a fundo e só estudei seus fundamentos há muitos anos? Cotejando várias páginas de notícias com o áudio, além do texto oferecido pela própria emissora, consegui chegar a uma versão prévia da transcrição, que foi corrigida pela tradutora Zsuzsanna (se lê “jújana”). Joguei o texto completo no Google Tradutor, comparei as versões em inglês, francês, alemão e russo e cheguei ao que vocês veem nas legendas.

Como é tradição na Hungria, assim como na cultura japonesa, o ministro Péter Szijjártó é chamado “Szijjártó Péter” no original, ou seja, o sobrenome antes do prenome. Infelizmente não achei a fala do ministro transcrita, nem pedi pra que minha colega transcrevesse, uma lacuna que deixei voluntariamente no vídeo. Seguem abaixo minha legendagem, a transcrição do áudio, a primeira versão a que cheguei com o Google e a tradução corrigida pela Zsuzsanna:



Új alapokra helyezik a magyar-brazil kapcsolatokat: Szijjártó Péter, magyar külügyminiszter találkozot Budapesten Eduardo Bolsonaro, a brazil törvényhozás külügyi bizottságának vezetője. A közelmultban megválasztott elnök Jair Bolsonaro fia. Bolsonaro a kommunizmussal és Soros Györggyel szembeni közös ellenszenvet hangsúlyozta. “Én sem szeretem Soros Györgyöt, szeretném egészen világossá tenni, hogy a politikai korrektséget se nagyon követjük. Ezt is szeretném itt megtanulni, hogyan állítja meg az önök kormánya az ilyen rossz embereket”. A két vezető közös stratégiát fogadott el, amelyben kitértek a gazdasági kapcsolatokra, a kutatási együttműködésre és a felsőoktatási kapcsolatok erősítésére.

Versão 1: As relações húngaro-brasileiras estão ganhando novos fundamentos: Péter Szijjártó, ministro das Relações Exteriores da Hungria, encontrou-se em Budapeste com Eduardo Bolsonaro, chefe da Comissão de Relações Exteriores do Congresso Nacional brasileiro e filho de Jair Bolsonaro, presidente recém-eleito. Bolsonaro ressaltou a oposição em comum ao comunismo e a George Soros: “Também não gosto de George Soros, e gostaria de esclarecer que também rejeitamos o politicamente correto. Também desejo aprender aqui como seu governo controla pessoas assim”. Os dois líderes adotaram uma estratégia conjunta para melhorar as relações econômicas, a colaboração no campo da pesquisa e o fortalecimento das relações no âmbito do ensino superior.

Versão 2: As relações húngaro-brasileiras estão ganhando novos fundamentos: Péter Szijjártó, ministro das Relações Exteriores da Hungria, encontrou-se em Budapeste com Eduardo Bolsonaro, chefe da Comissão de Relações Exteriores brasileiro e filho de Jair Bolsonaro, presidente recém-eleito. Bolsonaro ressaltou a oposição em comum ao comunismo e a George Soros: “Também não gosto de George Soros, e gostaria de deixar bem claro que também não seguimos muito o politicamente correto. Também desejo aprender aqui como seu governo controla pessoas tão ruins assim”. Os dois líderes adotaram questões de estratégia conjunta em que abordaram as relações econômicas, a colaboração no campo da pesquisa e o fortalecimento das relações no âmbito do ensino superior.


21 de abril de 2019

Cresce o prestígio de Stalin na Rússia


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NOTA: Muito por acaso achei este instigante artigo no site do serviço em língua russa da Rádio França Internacional (RFI). Seu título é: “Invocam Stalin para ele defender os pobres”: a restauração do stalinismo na Rússia. A autoria é do jornalista Aleksandr Valiev, que discorre sobre o aumento da popularidade de uma imagem mitificada do ex-dirigente soviético Iosif Stalin, num contexto de dificuldades econômicas e desilusão com os políticos. Longe de concluirmos que a maioria dos russos, mesmo jovens, tem uma visão positiva sobre o ditador, podemos pensar que as impressões variam muito de região pra região e de idade pra idade, não sendo a aprovação, portanto, uma unanimidade nacional, como sugerem alguns militantes. As opiniões de alguns entrevistados parecem bem pessoais, mas acho que a importância maior deste artigo é refletirmos sobre a construção de mitos e o modelamento da consciência de massa nas redes sociais, no Brasil e no resto do Ocidente. Mesmo sem comparar os regimes, me arrisco a pensar que esse tipo de seletividade atinge tanto os jovens que elogiam Stalin quanto os que justificam as ditaduras militares na América: por que um ou outro não teria sido “ditador” ou teria feito chacinas “necessárias”? Um risco à nossa cultura democrática.



70% dos russos consideram que Stalin teve um papel positivo e “mais para positivo” na vida da URSS. Resultado de uma pesquisa regular de opinião feita pelo Centro Levada, é o maior percentual dos últimos 16 anos.

Nos últimos três anos, o número de pessoas que avaliam positivamente o papel de Stalin na vida do país aumentou 16%. 41% dos entrevistados se referem a ele com admiração, um pico em 19 anos. A RFI questionou diversos especialistas sobre as possíveis razões desse comportamento na sociedade.

Na opinião do diretor da seção de Krasnoiarsk da sociedade “Memorial”, Aleksei Babi, essas tendências se explicam pela ignorância das pessoas e por sua insatisfação com o que acontece no país.

RFI: Aleksei, vou ler em voz alta um comentário sobre Stalin numa das páginas da rede social “VKontakte”: “Tenho estima pelo fato que ele pôde em curtos prazos (duas vezes) reconstruir o país; que não roubou nada do povo; que para ele o bem-estar das pessoas vinha em primeiro lugar. Sim, ele pode ter sido um tirano, e tal, mas fez muito pelo país”. São palavras de uma moça em cuja família havia um “inimigo do povo”.

Aleksei Babi: Isso é, em primeiro lugar, resultado da ignorância. As pessoas não só não sabem disso, mas também quase sempre não querem em particular saber. Em segundo lugar, pode-se dizer que é uma aberração moral essa ideia de “país reconstruído duas vezes”. A questão está relacionada ao preço que se pagou por tal resultado. Os dirigentes soviéticos, e inclusive Stalin, eram extremamente ineficazes nesse sentido: obtinham um resultado igual ou menor do que o dos países capitalistas a um custo imensamente maior. Além do mais, o pior de tudo é que nesse país a mão-de-obra era muito barata, sendo empregada num espectro que ia dos pagamentos ruins aos que, se estavam no Gulag, trabalhavam de graça. Se as pessoas estavam morrendo, em que condições estavam vivendo, isso não interessava a ninguém em particular. As vidas humanas eram desperdiçadas. O preço de todas essas conquistas, que podemos discutir quais foram reais e quais foram imaginárias, foi extremamente abusivo. Já nem falo mais que isso foi desumano, pois as pessoas não entendem palavras como essa.

Além disso, as pessoas sempre acham que ao chegar Stalin e apontar qualquer pessoa como alguém ruim, seja um chefe ou um vizinho, isso não vai afetar a elas próprias. E nesse sentido olho para pessoas que, na realidade, trocam os pés pelas mãos, porque as repressões eram como um iceberg: havia uma parte visível na qual ocorriam os processos-espetáculo, quando prendiam e fuzilavam alguns comandantes, ação que não se limitava à cúpula distante. Havia a ordem de promover dois ou três processos exemplares na zona rural de cada região. É claro que o povo assistia satisfeito à prisão e fuzilamento de líderes odiados.

Mas havia uma parte submersa, imensamente maior: as pessoas eram capturadas à noite, sumiam e por décadas não se sabia o que houve com elas. Aqueles processos exemplares de fato ficaram marcados na mente, mas a parte submersa também permaneceu como parte submersa na consciência. E isso faz com que Stalin, na cabeça das pessoas, seja um homem que punia lideranças negligentes, e por aí vai. Contudo, pelas nossas estatísticas, por exemplo, mais de 80% dos perseguidos eram camponeses. Os membros do partido, mesmo fora da chefia, como simples filiados ao PC soviético, constituíam em torno de 5%.

Qual está sendo o papel do Estado na formação dessa opinião?

O Estado se coloca numa posição segundo a qual ele sempre faria tudo certo, mas enfrentando alguns inimigos. E isso se aproxima cada vez mais da atitude que existia sob Stalin. Naturalmente, a própria figura de Stalin se revaloriza por esse ângulo. E por toda parte, nos livros, sobretudo na televisão, a imagem de Stalin se apresenta como no mínimo neutra, ou talvez até positiva.

Se as pessoas criam uma nostalgia pelas prisões e fuzilamentos, não significa que elas estão muito insatisfeitas com o que acontece no país?

Bem, primeiramente insatisfeitas, e os cientistas políticos percebem isso muito bem. E segundamente, elas não estão prontas para se responsabilizar pela correção dessa situação. Elas esperam que alguém chegue e corrija tudo. E é exatamente aí que aparece a figura mitificada de Stalin, que fuzilava, prendia os maus gestores, e assim vai. É aí que ele emerge como uma figura conveniente.

*

Em 9 de maio será solenemente inaugurado em Novosibirsk um monumento a Stalin. Esse tema foi debatido furiosamente na cidade por alguns anos, e ao final os autores da iniciativa, entre os quais estava Aleksei Denisiuk, atingiram seu objetivo. Em sua opinião, não faz sentido se espantar com o aumento da popularidade de Stalin.

Aleksei Denisiuk: Penso que não há nada de espantoso nisso. A tendência de aumento do prestígio de Stalin na consciência de nosso povo cresce ano após ano. Sim, realmente neste ano houve um recorde de 70%, mas já foi de 50 a 60%. As pessoas têm um critério de comparação: o período pós-guerra, quando reconstruímos o país muito rapidamente. E depois, o desenvolvimento da economia soviética, que garantia educação gratuita, saúde gratuita, emprego garantido e tudo o mais: esse período de crescimento também recai na conta do potencial de Stalin, da industrialização etc.

Por que exatamente neste ano? Penso que isso está ligado com alguns agravamentos da situação socioeconômica no país. Ou seja, apesar da mudança na política externa de nossos dirigentes, a política interna permanece a mesma: privatização das empresas estatais, aumento dos preços, inflação e por aí vai. A vida não melhora, pelo contrário, as pessoas mal conseguem viver, não confiam no dia de amanhã. A própria reforma da previdência vai atingir e já atingiu muito fortemente uma porção significativa da população.

Sabemos, por exemplo, que na Europa Ocidental milhões saem às ruas quando se promovem reformas semelhantes que atacam seus direitos. Infelizmente, aqui por enquanto não ocorre algo parecido, mas evidentemente existe uma insatisfação surda. Pegue Arkhangelsk, por exemplo. Bastou apenas tomarem a decisão de transportar o lixo de Moscou e despejar na província de Arkhangelsk que de fato ocorreu aí literalmente uma insurreição.* Toda a polícia, batalhão de choque e guarda nacional foram mobilizados para acabar com tudo isso.

* Esta notícia foi a única que achei em português sobre o assunto.


No tocante às repressões sob Stalin, segundo uma pesquisa, realmente metade dos russos até aprova em algum grau as chamadas “repressões stalinistas”. Mas penso que aqui também não há com o que se espantar. Se com Stalin no comando alguém roubasse determinada quantia, você entende onde a pessoa iria parar. Mas agora na Rússia ocorre simplesmente uma corrupção total. Os oligarcas conseguiram decepar todo o nosso país, pilhar a propriedade pública. Hoje eles vivem num luxo fabuloso, e isso é bem visível. Todos entendem perfeitamente isso, e não há nenhum combate por parte dos governantes da Rússia. E por isso é compreensível que o povo invoque para que um líder finalmente chegue e detenha o apetite dos novos oligarcas e corruptos. Por isso ocorre aqui uma justificação quanto ao grau em que isso é plenamente aceitável, embora digam que haja muitas vítimas inocentes. Sim, houve muitas vítimas inocentes. Mas por outro lado, também não se deve sem fundamentos falar em vítimas inocentes. Houve, sim, os que conduziam uma atividade antissoviética, que roubavam e coisas do tipo. Elas se encontravam em lugares não tão distantes assim.

*

Konstantin Golodiaiev, historiador e etnógrafo regional de Novosibirsk, diz que sente vergonha por haver futuramente um monumento a Stalin em sua cidade.

Konstantin Golodiaiev: O poder público, enquanto pôde, se esquivou dessa responsabilidade. O prefeito declarou imediatamente que iria fazer a vontade dos moradores após eles votarem. O resultado foi praticamente meio a meio. Quando a situação da política interna e externa piora, uma sociedade sempre se inclina a buscar um gerente eficaz, uma mão forte que promova a ordem e combata os inimigos do país como se fossem bandidos. E por toda parte as pessoas dizem que a vida ficou pior, por isso invocam Stalin para que ele defenda os pobres.

Metade de nossos moradores considera Stalin como o construtor do Estado, o vencedor da grande guerra, não contando sequer as perdas sofridas. E a outra metade o considera responsável pelas repressões massivas contra cidadãos soviéticos pacíficos, as quais na realidade afetaram quase todas as famílias na URSS. Pois só através de nossa Sibéria, do vilarejo de Narym, passaram centenas de milhares de detentos e deportados que foram transferidos de outras terras. Em Novosibirsk ainda estão vivas dezenas de milhares de pessoas que conhecem essas repressões por sua experiência pessoal, e não por ouvir dizer.

Eu dividiria os simpatizantes de Stalin em duas faixas etárias. As pessoas que agora são idosas eram jovens nos anos 50. Elas ainda se lembram de sua juventude, quando houve a década dourada de 50 após a guerra, quando após os difíceis anos de fome o país começou a se levantar. A vida melhorou notavelmente, apareceram mercadorias, roupas. Mas os anos 50 já não eram os anos 30. Os anos 30 foram totalmente diferentes. Havia fome, o mínimo para se viver, a ausência de qualquer mercadoria, a desconfiança de uns pelos outros, um temor constante e alguns sussurros. O povo vivia com medo. As pessoas que se lembram daquele tempo já faleceram. A geração atual já se esqueceu do que aconteceu com o país.

E a outra metade dos simpatizantes de Stalin são a juventude moderna. Essa juventude em geral não sabe nada ou sabe muito pouco daquele tempo. Mas o pior de tudo é que ela nem procura conhecer aquela época: muitos deles não são apenas apolíticos, mas antissociais. A imagem de um punho de ferro, de um homem forte representa para eles uma espécie de exemplo inspirador. Mesmo sem entenderem, é nisso que eles votam, em linhas gerais. Penso que a imagem atual de Stalin não é fidedigna, não tem respaldo na história, é mitológica e inventada.

E como então, apesar de tudo, ocorreu de planejarem um monumento a ele em Novosibirsk?

Eu considero, obviamente, profundamente errônea a colocação de um busto de Stalin em Novosibirsk. Pessoalmente, como habitante da cidade, fico muito envergonhado por ela. A inauguração já está marcada para 9 de maio, e é lamentável que o dia realmente grande da Vitória fique obscurecido por esse evento. É possível que a imprensa fale mais sobre a inauguração do monumento a Stalin do que sobre essa grande data. Ora, e a princípio as consequências de tal iniciativa já são bem visíveis pelo exemplo de outras cidades, como Lipetsk, Simferopol e Surgut, onde tais monumentos foram manchados com tinta vermelha quase imediatamente ou pouco depois da abertura.

A despeito dessa instalação, existe e sempre existirá na cidade uma guerra de opiniões e de posições. Já conheço muitos exemplos de pessoas que se ofendem abertamente, embora pudessem ser amigas. Isso ocorre até mesmo dentro das famílias. Mas o pior de tudo não é o monumento em si, e sim que novamente vão rebaixar metade da cidade e cuspir em suas almas. E viver numa cidade onde se encontra um monumento aos carrascos dos seus pais, para dizer o mínimo, é vergonhoso.



19 de abril de 2019

Stalin, o tirano vermelho: documentário


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Por um acaso, descobri este vídeo que, na verdade, é apenas a abertura de um longo documentário, Staline, le tyran rouge (Stalin, o tirano vermelho), produzido e lançado em 2007 pelo canal de TV francês M6. A autoria é de Mathieu Schwartz, Serge de Sampigny e Yvan Demeulandre, que tiveram a consultoria de Nicolas Werth, famoso historiador francês de ascendência russa, especialista na história da URSS e cuja língua materna é o russo. O filme conta a trajetória pessoal e política de Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, que passou à história sob o codinome Stalin e comandou a União Soviética de 1924 a 1953 (mas de fato já detendo grande poder desde 1922, quando Lenin saiu de cena). O documentário completo pode ser assistido em francês.

Tendo sido lançado em 2007, Stalin, o tirano vermelho ainda desfruta da onda anticomunista que estava em voga desde a dissolução da URSS, em 1991. Hoje podemos ver algum exagero no foco em questões psicológicas e na associação automática de certas falas suas a episódios pessoais (como as tragédias familiares e o “bolchevique sem família”). Mas em se tratando de um historiador renomado na consultoria, podemos esperar um material muito bom e informativo, já baseado nos tão falados arquivos de Moscou, longamente fechados. Eu preciso de fato ver o documentário inteiro, mas espero que esta abertura já atice vontades e curiosidades.

O canal privado Métropole Télévision (abreviado como M6) foi fundado em 1987 e em 2018 era o quarto mais assistido de toda a França (chegou a terceiro de 2011 a 2017). É o principal canal do Grupo M6, que tem vários outros canais e também atua nos ramos da telefonia móvel, compras a domicílio, internet, futebol, cinema e imprensa. Seu acionista majoritário é o RTL Group, que tem esse nome desde 2000 e está baseado em Luxemburgo. Nicolas Werth (n. 1950) é diretor de pesquisa no Instituto de História do Tempo Presente, filiado ao CNRS, e também tem experiência no ensino secundário. Sua especialidade é a história social da Rússia e da União Soviética nas décadas de 20 e 30, sobretudo as relações entre o poder e a sociedade. Contestando a ideia de “totalitarismo”, Werth participou do Livro negro do comunismo, mas rejeitou o prefácio “policialesco” escrito por Stéphane Courtois e denunciou o emprego de contagens falsas.

Pelo que pude apurar, o poema citado faz parte de uma “Canção sobre Stalin”, supostamente escrita em novembro de 1935 no interior do Daguestão, na língua local. Cantada por montanhesas, foi reelaborada e traduzida por Effenbi Kapiev, com o seguinte texto original (do vídeo): “Но, Сталин, ты выше/Высоких небес,/И выше тебя/Только мысли твои [...] Но, Сталин, твой разум/И солнца светлей”. Com referência à França, também vemos o grande letreiro Unissons-nous pour une vie meilleure (Unamo-nos por uma vida melhor) e o discurso feito por Maurice Thorez (1900-1964), célebre líder stalinista que comandou o PCF de 1930 até a morte. A transcrição imperfeita desta página me ajudou a compor o texto completo, e eu mesmo transcrevi o vídeo, traduzi o texto e legendei o arquivo. Para que nenhum recurso visual fosse prejudicado, não cortei o quadro original, e seguem abaixo a legendagem na TV Eslavo (YouTube), a tradução em português e o original francês, com os números por extenso entre colchetes:



Boa noite! Stalin, o tirano vermelho. O filme que vocês vão ver em instantes conta a história de um dos maiores criminosos do século 20. No início, não era motivado nem pelo dinheiro, nem pela glória: Stalin acreditava na igualdade entre os homens. Sua ideologia era o comunismo, que ele tentou aplicar na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. No mundo inteiro, ele suscitou uma incrível esperança, e lhe foi dedicado um culto sem precedentes, sobretudo na França.

Mas na verdade, Stalin martirizou seu povo. Estima-se hoje que ele foi responsável pela morte de 20 milhões de pessoas. Stalin, o “paizinho dos povos”, era alguém sanguinário, paranoico, fanático. Durante quase 30 anos, ninguém pôde o deter. Stalin morreu há meio século, mas hoje o mundo não está mais protegido do que ontem da alucinação coletiva de regimes tirânicos e de crimes de massa.

Contando-lhes a vida e os crimes de Stalin, a M6 quis, como durante nossa noite consagrada a Hitler, tornar-lhes essa história muito atual e inteligível. Este filme é fruto de um trabalho de investigações e pesquisas em arquivos até então inexplorados, sobretudo os arquivos provenientes de fundos russos. Por muito tempo eles foram censurados, depois ignorados, por evocarem um passado incômodo. Igualmente, privilegiamos testemunhos de época, discursos, diários pessoais e cartas, por vezes inéditos.

Enfim, pela primeira vez vocês vão ver um filme sobre Stalin totalmente em cores. Optamos por colorir as imagens gravadas em preto e branco para tornar esse filme mais atual. Este documentário recebeu o aval do Ministério da Educação Nacional: os professores podem o usar em classe. Stalin, o tirano vermelho é um filme de Mathieu Schwartz, Serge de Sampigny e Yvan Demeulandre.

Verão de 1945. A festa da Vitória na Praça Vermelha, em Moscou. Diante do Palácio do Kremlin e dos dirigentes soviéticos, o Exército Russo celebra a vitória sobre a Alemanha nazista. Como no Império Romano, soldados jogam as bandeiras dos vencidos aos pés do vencedor, o homem que derrotou Adolf Hitler: o generalíssimo Iosif Stalin. Após 20 anos de poder pessoal, o chefe da URSS está no ápice de sua glória. Um poeta escreve: “Stalin, tu és mais alto do que os altos espaços celestes, e só teus pensamentos são mais altos do que tu! Teu espírito, Stalin, é mais luminoso do que o Sol”. Ele é chamado de “paizinho dos povos”. No mundo inteiro ele encarna a esperança de uma sociedade mais justa. Ele é o ídolo de centenas de milhões de pessoas. Também na França lhe cantam louvores: “Sim, proclamamos de todo coração nosso amor ardoroso por Stalin e lhe garantimos nossa confiança inabalável!” (Stalin, Stalin, Stalin!)

Todavia, esse homem é um dos maiores criminosos da história. Ele massacrou seu próprio povo com uma brutalidade sem limites: “Vamos aniquilar sem piedade quem quer que ameace em ações, ou mesmo em pensamentos, a unidade do Estado”. Ele criou o Gulag e reduziu à escravidão 18 milhões de pessoas: “Devemos eliminar os membros nocivos ao Partido para o preservar da doença e da infecção”. Com cinismo, ele provocou fomes que fizeram 7 milhões de mortos: “A morte resolve todos os problemas. Quanto mais homens, mais problemas”. Ele sacrificou a família ao seu próprio poder: “Um verdadeiro bolchevique não deveria ter família”.

Vamos lhes contar a incrível história desse filho de um humilde artesão que se tornou um dos personagens mais poderosos do planeta. Vamos lhes contar como esse homem, que declarava fazer seu povo feliz, tornou-se, graças à megalomania e ao fanatismo, um dos ditadores mais sanguinários que a humanidade já conheceu.


Bonsoir ! Staline, le tyran rouge. Le film que vous allez voir dans un instant raconte l’histoire d’un des plus grands criminels du 20e [vingtième] siècle. Au départ, sa motivation n’était ni l’argent, ni la gloire : Staline croyait à l’égalité entre les hommes. Son idéologie était le communisme, qu’il a tenté d’appliquer en Union des républiques socialistes soviétiques. Dans le monde entier, il a suscité un incroyable espoir, on lui a avoué un culte sans précédent, notamment en France.

Mais dans les faits, Staline a martyrisé son peuple. On estime aujourd’hui qu’il est responsable de la mort de 20 [vingt] millions de personnes. Staline, le « petit père des peuples », était un être sanguinaire, paranoïaque, fanatique. Pendant près de 30 [trente] ans, personne n’a su l’arrêter. Staline est mort il y a un demi-siècle, mais le monde aujourd’hui n’est pas plus qu’hier à l’abri de l’hallucination collective de régimes tyraniques et de crimes de masse.

En vous racontant la vie et les crimes de Staline, M6 a voulu, comme lors de notre soirée consacrée à Hitler, vous rendre cette histoire très actuelle et compréhensible. Ce film est le fruit d’un travail d’enquête et de recherche d’archives jusque-là inexploitées, notamment les archives provenant de fonds russes. Elles ont été longtemps censurées, puis ignorées, car rappelant à un passé gênant. Nous avons également privilégié les témoignages d’époque, discours, cahiers intimes, lettres, parfois inédites.

Enfin, pour la première fois vous allez voir un film sur Staline entièrement en couleur. Nous avons choisi de coloriser les images tournées en noir et blanc pour rendre ce film plus actuel. Ce documentaire a reçu l’aval du Ministère de l’éducation nationale : les professeurs peuvent l’utiliser en classe. Staline, le tyran rouge, c’est un film de Mathieu Schwartz, Serge de Sampigny et Yvan Demeulandre.

Été 1945. La fête de la Victoire sur la Place Rouge, à Moscou. Devant le Palais du Kremlin et les dirigeants soviétiques, l’Armée russe célèbre la victoire sur l’Allemagne nazi. Comme sous l’Empire roman, des soldats jettent les drapeaux des vaincus aux pieds du vainqueur, l’homme qui a battu Adolf Hitler : le généralissime Joseph Staline. Après 20 [vingt] ans de pouvoir personnel, le maitre de l’URSS est au sommet de sa gloire. Un poète écrit: « Staline, tu es plus haut que les hauts espaces celestes, et seules tes pensées sont plus hautes que toi ! Ton esprit, Staline, est plus lumineux que le soleil ». On l’appelle « le petit père des peuples ». Dans le monde entier, il incarne l’espoir d’une société plus juste. Il est l’idole de centaines de millions de personnes. En France aussi, on chante ses louanges : « Oui, de tout notre cœur nous proclamons notre amour ardent pour Staline et nous l’assurons de notre confiance inébranlable ! » (Staline, Staline, Staline !)

Pourtant, cet homme est l’un des plus grands criminels de l’histoire. Il a massacré son propre peuple avec une brutalité sans limites : « Nous anéantirons sans pitié quiconque menace par les faits, ou même par la pensée, l’unité de l’État ». Il a créé le Goulag et réduit en esclavage 18 [dix-huit] millions de personnes : « Il faut trancher les membres nuisibles du Parti pour le préserver de la maladie et de l’infection ». Il a provoqué avec cynisme des famines qui ont fait 7 [sept] millions de morts : « La mort résout tous les problèmes. Plus d’hommes, plus de problèmes ». Il a sacrifié sa famille à son propre pouvoir : « Un vrai bolchévik ne devrait pas avoir de famille ».

Nous allons vous raconter l’histoire incroyable de ce fils d’un petit artisan devenu l’un des personnages les plus puissants de la planète. Nous allons vous raconter comment cet homme, qui déclarait faire le bonheur de son peuple, est devenu, à force de mégalomanie et de fanatisme, l’un des dictateurs les plus sanglants que l’humanité ait connu.




17 de abril de 2019

O universo comunista em vídeos


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O comunismo soviético, que pra encurtar também podemos chamar de “bolchevismo”, influenciou profundamente o mundo contemporâneo, tanto naquilo que somos quanto naquilo que listamos como valores ou atitudes a repudiar. O isolamento geográfico da Rússia e países próximos com relação ao Ocidente contribuiu pra que predominassem mais as visões míticas ou imaginadas sobre aquela realidade do que propriamente o conhecimento profundo ou descrições realistas. Nunca algo de que sabíamos tão pouco pôde influenciar tanto nossas paixões políticas, embora às vezes o que já imaginávamos ruim se revelava ainda pior, após um contato pessoal ou a descoberta dos arquivos.

Nem sempre elas são voltadas pra esse fim, mas as atuais tecnologias midiáticas e comunicativas podem ser usadas pra uma difusão maior dos saberes sobre a antiga URSS e seus opositores, domínio ainda superado pelos memes e propagandas histéricas. Quando criei a TV Eslavo no YouTube, eu já tinha o objetivo de juntar material histórico pra que as pessoas pudessem formar suas próprias opiniões, sem depender de apreciações alheias. Mas tal conteúdo raramente faz sucesso por conta própria na internet, e acabam predominando os velhos preconceitos favoráveis ou contrários, imunes a revisões.

Estou juntando nesta postagem vários vídeos recentes que montei e/ou postei no meu canal, relacionados à história, política e cultura do comunismo em várias regiões do mundo. Muitos desses assuntos puderam ser tratados com humor, então muitas vezes selecionei parte de um material maior e atribuí esse enfoque. Em qualquer um dos casos, procurei passar informação não truncada, embora às vezes de modo crítico, mas não destrutivo, com relação ao bolchevismo. Pela ordem, nós temos a URSS, o Brasil a Europa e a América Latina:



O comunismo soviético perseguiu ou não as religiões, sobretudo a Igreja Ortodoxa Russa? A resposta não é simples. Lenin dizia idealmente que os religiosos favoráveis à nova ordem deviam ser poupados, mas na prática, como o clero ortodoxo era um braço do antigo regime tsarista, a resistência dele contra os bolcheviques era inevitável. Porém, como a igreja na Rússia era uma instituição milenar, e como as pessoas não iam se desconverter de uma hora pra outra, a dialética foi mais complicada.

Lenin acabou perseguindo a Igreja Ortodoxa que ficou a favor do Exército Branco na guerra civil (1918-1921), mas à medida que o regime ia se estabilizando, alguma calma era possível. Trotsky estava, assim como Lenin, convencido de que a disseminação de uma “educação materialista” poderia aumentar os índices de ateísmo, mas ele não percebia que todo tipo de resistência seria usado, e ele mesmo acabou expulso do país em 1929. Na década de 1920 floresceu inclusive uma revista popular, destinada sobretudo aos jovens, chamada Bezbózhnik, um nome russo pra “ateu” ou “ímpio”, “descrente”, que vem de bez (sem) + Bog (Deus). Hoje, a palavra mais corrente pra ideia sem valor pejorativo é ateízm e ateíst mesmo.

Ao ultradogmatismo teórico, Stalin acrescentou a xenofobia pró-russa, e no início dos anos 30, quando lançou sua campanha de coletivização agrária e industrialização aceleradas, passou por cima de todo tipo de oposição que podia haver. A Igreja Ortodoxa foi a primeira vítima, e logo começou uma campanha de destruição de catedrais e templos menores. Boa parte da população, seja por raiva autêntica, pressão de cima ou espírito de gado, participou dos atos, como vemos nas filmagens. Gradualmente foi se perdendo um rico patrimônio artístico, cultural e financeiro (e, por que não, espiritual?). O exemplo mais dramático foi o da Catedral do Cristo Salvador, uma das maiores de Moscou, cuja demolição foi ordenada diretamente pelo ministro Lazar Kaganovich em 1931, a fim de dar lugar a um monumental projeto arquitetônico, jamais saído do papel, chamado Palácio dos Sovietes. Por falta de fundos, acabou-se finalmente inaugurando no lugar um grande piscinão público em 1958. A catedral seria reconstruída nos anos 90, igualzinha como era.

Outras igrejas que não as ortodoxas jamais tiveram vida fácil na URSS: os protestantes sempre foram perseguidos, vistos como “agentes estrangeiros”, e até hoje continua um pouco assim, na era Putin. Com os católicos os problemas eram poucos, por serem bem minoritários, mas sobretudo no oeste da Ucrânia, onde sempre foram muito nacionalistas, eram alvo fácil. Com a ortodoxia russa, foi mais complexo: houve uma grande onda persecutória nos anos 30, mas durante a invasão nazista o governo lhe cedeu espaço na propaganda nacionalista. No começo dos anos 60, Khruschov renovou a perseguição, em escala bem menor, e os atritos eram constantes com Brezhnev, e menores com Gorbachov. Só nos anos 90 ela recuperaria seu papel, e no regime de Putin ela é praticamente um braço espiritual do Estado nacionalista. Contudo, os russos hoje praticam bem menos a religião, e ainda há considerável taxa de ateísmo.

Estas imagens foram tiradas de várias fontes no YouTube, mas como eu tive pouco tempo pra editar, me perdoem pelas partes repetidas entre as fontes, mas é legal pra fixarmos na memória essa lamentável demolição do Cristo Salvador. Tirei a música de algumas, que parecia nada ter a ver com o assunto, na expectativa de que não implicassem com direitos autorais, mas houve melodias que acabaram detectadas. Não exatamente na ordem em que aparecem:

http://youtu.be/A37Zqsbblk8
http://youtu.be/dJZG7YP3o8o
http://youtu.be/gEpMNBPv83s
http://youtu.be/IdqcjzxlKqo
http://youtu.be/mE3mAhnfdcw
http://youtu.be/p8A4JxCuX7c
http://youtu.be/wlGRpb-koIk
http://youtu.be/YFlx55OANg8



União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, pátria dos trabalhadores de todo o mundo: esporte, trabalho, indústria, astronáutica, política, Olimpíadas, educação, entretenimento, cultura, infância... O melhor país do mundo pra se viver! Ou não.

Agradeço a um amigo do WhatsApp por ter encaminhado este vídeo. Não sei qual é a fonte e qual é a autoria, mas mesmo assim decidi postar, porque achei interessante. Apenas a música é mais moderna, colocada agora, mas não tira o mérito e valor do vídeo. Óbvio que é só propaganda, e que muita gente hoje queria acreditar que era tudo assim. Mas após muitas pesquisas, já sabemos que a realidade da URSS tinha várias facetas.



Ano passado, eu podia parecer fanático ao evocar pela enésima vez o meme “Mr. Trololo”, criado com o cantor russo-soviético Eduard Khil em 2010. Porém, este vídeo ficou represado por anos entre meus projetos, mas só então tive inspiração final pra lançar. São cantores de vários países e culturas, cujo jeito de atuar e cantar em clipes antigos ou mais ou menos recentes lembram algo do “Silvio Santos soviético”.

Muitos jovens de hoje talvez nem saibam quem é este meme, mas seria legal conhecerem. E, o melhor de tudo, curtir agora mesmo música boa de diversas nações, algumas cujas línguas talvez vocês nem soubessem que existissem! Realmente, a cultura e a zoeira são coisas universais, e assim podemos ver como certos modelos artísticos passaram sem perceber pra diversos cantos do globo.

Um trabalho multicultural pra unir as pessoas e diminuir fronteiras. Aqui nós temos a participação dos cantores Julio Iglesias (Espanha), Nelson Gonçalves (Brasil), Edoardo Vianello, Sergio Endrigo (Itália), Karel Gott (antiga Tchecoslováquia), Chubby Checker, Neil Sekada (Estados Unidos), Vice Vukov (antiga Iugoslávia), Jacques Brel (França), Wolfgang Lippert (antiga Alemanha Oriental), Abdel Halim Hafez (Egito), Iosif Kobzon (Rússia), Tagir Yakupov (Tartaristão na época da URSS), e Itsuki Hiroshi (Japão). Não identifiquei o rapaz da Somália nem, por razões óbvias, os do Iraque sob Saddam Hussein!

Links pros vídeos originais e nomes das canções:

Julio Iglesias, Mis recuerdos
Nelson Gonçalves, Atiraste uma pedra
Edoardo Vianello, O mio signore
Sergio Endrigo, Lontano dagli occhi
Karel Gott, Tam, kam chodí vítr spát
Chubby Checker, Let’s Twist Again
Neil Sekada, Oh, Carol
Vice Vukov, Darovi za svu djecu
Jacques Brel, Ces gens-là
Wolfgang Lippert, Meine erste Show (aos 10 min 21 seg)
Abdel Halim Hafez, Ya Gamal Ya Habib El Malayeen
Iosif Kobzon, Den Pobedy
Tagir Yakupov, Awıl köye
Itsuki Hiroshi, Kasan naka
O figurinha somali, o gordinho iraquiano, os outros iraquianos



Com este vídeo didático, resolvi tentar explicar uma dúvida que incomoda muitos dos que se interessam por história do comunismo: qual é a diferença entre o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Comunista do Brasil (PC do B), que ainda existem juntos no Brasil moderno? Por que essa distinção tão sutil entre os nomes? Eles têm divergências quanto à ideologia e à prática?

Eu queria ser breve, mas o vídeo acabou durando meia hora. Acabei introduzindo muita coisa da própria história do PCB, que seria melhor ter deixado pra outro vídeo, mas acho que isso ajuda a explicar as distinções, porque também faz parte da história do PC do B. No essencial, eu reitero que o PC do B foi uma cisão do PCB ocorrida em 1962, não exatamente por obra de uma ala “stalinista”, mas por membros que discordavam do modo como estavam sendo feitas certas mudanças a partir de cima no PCB e do afobamento com que Nikita Khruschov fazia então as mudanças na URSS e criticava Stalin. Segundo a mitologia do próprio PC do B, o PCB tinha “deixado de existir” como partido comunista em 1961 e os dissidentes agora estariam “reconstruindo-o”.

O mais importante de frisar é o seguinte: o PCB também chamava “Partido Comunista do Brasil”, até que em 1961, numa decisão burocrática e visando, sobretudo, obter o registro legal, mudou o nome, mas não a sigla, pra “Partido Comunista Brasileiro”. Os dissidentes de 1962 recuperaram o nome “do Brasil” e mais tarde criaram a sigla “PC do B” pra evitar confusões. Até o fim da URSS, o PCB se manteve fiel a todas as linhas soviéticas, enquanto o PC do B, tendo inicialmente tentado obter o apoio de Moscou, passou depois a apoiar a China e a Albânia (então adversárias da URSS), e quando albaneses romperam com chineses (1976), aliou-se a Enver Hoxha. Os dois partidos só obtiveram o registro legal em 1985, mas enquanto o PC do B manteve uma trajetória retilínea, em 1992 o PCB passaria a se chamar Partido Popular Socialista (PPS), mas os discordantes obtiveram na Justiça em 1995 o direito de usar o nome, a sigla e os símbolos do PCB.

Cumpre lembrar também que o PCB terminou se aliando ao governo Sarney a partir de 1985 e inclusive apoiou o Plano Cruzado e o congelamento de preços, enquanto o PC do B sempre se manteve na oposição. Além disso, a partir dos anos 90, o PC do B iniciou a aliança histórica com o PT firme até hoje, enquanto o PCB lançou seus próprios candidatos à Presidência da República e chapas legislativas puras (exceto em 2006 e 2018, quando apoiou o PSOL), apoiou Lula e o PT em 2002, mas saiu do governo quando percebeu o novo curso reformista. Atualmente, embora os dois partidos ainda reivindiquem Lenin, a Revolução de Outubro e o bolchevismo, há uma cautela quanto à defesa incondicional da URSS (menor no PC do B), e enquanto o PC do B é mais propenso a apoiar a ortodoxia, o PCB é mais aberto a correntes heterodoxas, como trotskismo e gramscismo.

Infelizmente, me esqueci de esclarecer quanto ao nome adotado pelo PCB em 1961. A justificativa oficial era a de que o partido estava tentando se “nacionalizar”, e que trocar “do Brasil” por “Brasileiro” ressaltaria as raízes locais dos comunistas, e não sua filiação a uma potência estrangeira. Apresentado à Justiça Federal o pedido de legalização do partido, junto a um programa que omitia os rótulos “marxismo” e “comunismo”, num contexto de maior distensão política, ele terminou sendo negado, o que só deu mais lenha à fogueira dos dissidentes. O PCB continuou sendo ilegal, embora tendo atuação mais aberta (até a repressão a partir de 1964), e segundo Luiz Carlos Prestes, apesar da maior tolerância dos governos JK e Jango, o velho establishment oficial, dado o acirramento da “guerra fria”, sempre seria contrário à legalidade dos comunistas.



Este material é raro, com relativamente poucas visitas no tempo em que está postado, inclusive, no canal original. São trechos selecionados da última grande parada militar ao estilo soviético, feita na Hungria socialista em 4 de abril de 1985, nos 40 anos da expulsão dos nazistas do país pelo Exército Vermelho. Até 2010, data em que o vídeo original foi postado, não tinha sido realizada nenhuma outra parada dessa envergadura, mesmo sob a democracia.

A Hungria tinha sido aliada do Eixo na 2.ª Guerra Mundial, e a “punição” pela União Soviética foi particularmente dura. O país tinha sido criado justamente logo após a 1.ª Guerra Mundial, na sequência da partição do antigo Império Austro-Húngaro, derrotado no conflito. Após anos de ditadura e ausência de liberdades, o governo local se aliou aos nazistas, mas terminou deposto pelos soviéticos ao final da guerra mundial. Começaria outro período autoritário, num país cuja mentalidade nunca se adequou ao modelo comunista, nem à intromissão da URSS. Em 1956, um protesto popular exigindo reformas foi reprimido por Moscou e se transformou em rebelião social, duramente sufocada durante meses. Mesmo assim, Nikita Khruschov entendeu a lição e não se intrometeu no modelo mais nacional formulado pelo líder do partido único, János Kádár.

Essa tomada de 14 minutos e meio teve vários trechos separados, de acordo com o interesse apresentado por cada trecho. Ao 1 min 54 seg, por exemplo, toca a chamada Klapka induló (Marcha de Klapka), uma canção tradicional muito famosa e, ao que parece, não prejudicada pelo domínio soviético. Porém, eu tirei alguns trechos que continham uma abertura mais lenta e alguns discursos dos oficiais, então recomendo verem também a postagem original. Eu também cortei algumas bordas pretas que estavam no vídeo, mas não pus no enquadramento moderno. Atualmente, quem domina a Hungria é o primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán, o qual, segundo alguns húngaros que protestaram em dezembro de 2018, seria “pior do que o comunismo”. Além de propor uma polêmica reforma trabalhista, ele seria corrupto e autoritário.



Uma das passagens historicamente marcadas mais legais do seriado mexicano Chaves, que o pessoal nascido nos anos 80 e começo-meio dos 90 cresceu assistindo e se tornou sua referência humorística e memética. Depois das referências aos “energéticos” e aos “cruzeiros” e “cruzados”, moedas brasileiras anteriores ao Plano Real (1994), esta é uma de minhas preferidas: a dúvida sobre se “a Seleção” (Brasil? México?) vai jogar com a Alemanha Ocidental ou Alemanha Oriental, divisão da atual Alemanha que existiu de 1949 a 1990.

Seu Madruga (nossa tradução de Don Ramón, interpretado por Ramón Valdés) era o mais mítico e icônico do Chaves, dono de bordões eternizados! Junto com o Quico (Carlos Villagrán), eles eram até mais zoados do que o próprio Chaves (no original, Chavo), cujo ator, Roberto Gómez Bolaños, foi também o criador e diretor da série. Embora o SBT ainda passe alguns episódios na TV aberta, o modo mais fácil da geração dos 2000 conhecer Chaves é, obviamente, a internet, e o canal oficial possui a maioria dos episódios em português, remasterizados. A série foi gravada essencialmente nos anos 70, uma parte nos anos 80, e por isso existem todas essas referências históricas, mesmo na dublagem.

Após a 2.ª Guerra Mundial e a derrubada do nazismo e ocupação da Alemanha por ingleses, franceses, americanos e soviéticos, o país perdeu boa parte de seu território. Do que restou, as zonas controladas por essas potências (a leste pela URSS, a oeste pelos outros, com a capital Berlim dividida ao meio) passaram a constituir dois novos países em 1949: a República Federal da Alemanha, ou Alemanha Ocidental, de regime capitalista, e a República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental, de regime socialista. Com a crise do comunismo na Europa em 1989, a proibição dos alemães orientais passarem pro oeste foi revogada e o processo de reunificação das duas partes (nos fatos, uma anexação da RDA pela RFA) se consumou em outubro de 1990. A Alemanha Oriental era uma ditadura brutal e tinha um nível de vida muito inferior à vizinha ocidental, mas muitos antigos ossies se lembram com nostalgia da vida tranquila e com direitos garantidos, em contrapartida ao materialismo e futilidade dos wessies, além de serem o país socialista mais desenvolvido.

Apesar de estar com outro nome, enquanto um outro canal chama o episódio de “Seu Madruga e o jogo de futebol”, vocês podem assistir à íntegra aqui com melhor qualidade. Eu apenas cortei o quadro e o resto dos trechos, mas deixei algumas passagens mais hilárias.



E o comunismo chega ao Caribe: uma montagenzinha que há muitos anos eu tinha em mente. A “dança do siri” foi uma modinha inventada pelo humorista Ceará no antigo Pânico na TV em 2006, enquanto ele fazia uma de suas entrevistas acompanhado do Repórter Vesgo (Rodrigo Scarpa). O tema que foi usado pra ilustrar a coreografia foi uma versão latina do início da música Í dansi með þér (Na dança com você), da cantora islandesa Björk. Esta, por sua vez, é uma versão do bolero-mambo ¿Quién será?, escrita pelo compositor mexicano Luis Demetrio, que vendeu os direitos ao letrista Pablo Beltrán Ruiz, o qual gravou a canção pela primeira vez com sua orquestra em 1953.

Há um único vídeo brasileiro que tem a versão “completa” do tema da “dança do siri”, e desta página eu tirei as imagens de Fidel Castro entrando em Havana, em 1.º de janeiro de 1959 (coloridas), tendo apenas feito o recorte no tempo e no quadro.



Num dos pontos da andança pela América do Sul que Ernesto “Che” Guevara faz no filme romanceado Diários de motocicleta (2004), que contou com um brasileiro na produção, o médico argentino, futuro destaque da Reovlução Cubana, flerta com uma mulher desconhecida do local. Os dois até começam a dançar, mas quando ela percebe que um amigo de seu marido está olhando, tentar deixar Che. Ele, bêbado, a segura insistindo e acaba a derrubando no chão, o que desperta a raiva do traído. Quase ao começar uma briga feia, o amigo do argentino o arrasta pra fora e os dois fogem loucos com a moto.

Destaque pro velhinho banguelo rindo ao som da música, que foi o que me fez lembrar dessa rara cena de Diários de motocicleta. Pra vocês, o tradicional privilégio de ver a figura engraçada repetida várias vezes! A partir do filme completo disponível no YouTube, eu tirei a referida cena, que começa aos 38 minutos.


15 de abril de 2019

Memes iniciais da Nova Era Bolsonaro


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/bolso-memes



PÁTRIA ARMADA, BRASIL!


Assim como eu fiz com a era petista uns meses atrás, estou agora divulgando alguns memes que fiz logo no começo dessa chamada “Nova Era” iniciada com o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), e postei na TV Eslavo (YouTube). Já temos pouco mais de três meses de mandato, além dos encargos dos novos governadores e parlamentares estaduais e federais, além do chamado “período de transição”, o que nos possibilita fazer um balanço mais ou menos honesto. Antes de tudo, sabemos que as redes sociais, sobretudo o aplicativo WhatsApp, foram essenciais pra que Bolsonaro e os seus chegassem ao poder, mesmo que esse emprego nem sempre tenha ocorrido de forma honesta. Mas, é claro, a contestação a eles também só podia partir do mesmo ambiente, e os instrumentos estão cada vez mais agudos e velozes!

Os chamados “cem dias” da presidência Bolsonaro foram marcados por polêmicas, desarticulação, desencontros e pouco impulso das alardeadas reformas, de modo que o povo já começa a manifestar sua impaciência. Também nos pareceu que, apesar dos infortúnios ocorridos com o candidato do PSL, sua postura após a posse pouco mudou, e ele continua usando uma linguagem rude e acusando os outros pelos seus problemas. (Algo, claro, nada diferente de Donald Trump, seu exemplo político.) Os chamados “bolsonaristas” agora se encontram na defensiva, e seus adversários de direita e de esquerda usam-se da mesma ferramente política que predominou nos últimos anos: memes, textões, montagens constrangedoras, disparos em grupos de mensagens, avatares fofinhos e frases de efeito. Ainda parece cedo pra dizer quem é que tem razão, mas a superexposição a que se prestou Bolsonaro já o equipara a Dilma Rousseff na inspiração de tanto humor!

É claro que os memes, pra ficar só num tipo, variam muito em qualidade, partidarismo, engajamento ou decoro. Mas eu mesmo nunca deixei de desejar capturar certos momentos engraçados e eternizá-los no meu canal, independente de opção política, mas sempre buscando uma crítica social instigante. No caso em questão, podemos incluir o “período de transição” dentro do governo Bolsonaro, pois ele já tinha muitas de suas características essenciais e Temer carecia de qualquer moral ou influência política. A suposta vinculação com a ditadura militar de 1964-85 e o persistente corporativismo do Congresso Nacional, não raro associado à corrupção e ao fisiologismo e tentando emperrar a maioria das iniciativas do Executivo, são apenas alguns dos traços mais caricatos da dita “Nova Era”, cuja novidade ainda não vimos com toda clareza.

Aproveitem esses curtos vídeos, além das montagens nem sempre geniais que fiz, e divulguem pra seus amigos e conhecidos! Espero que eles sirvam pra vocês pensarem o que existe além da superfície das instituições políticas e das legendas partidárias ou ideológicas. Nem sempre a ordem é cronológica, mas eu quis montar uma narrativa mais ou menos lógica com a trajetória de nossa evolução institucional:



As raízes de nossa atual democracia imperfeita remontam a 1979, quando foi oficialmente inaugurada a abertura política após 15 anos de férrea ditadura militar anticomunista. Por muito tempo eu procurei esse vídeo, e lembro que capturei apenas o trecho em áudio do site do Jornal Nacional, talvez quando a lei da anistia fez 30 anos (2009), mas na época eu não sabia capturar vídeo. Esse ano procurei como um louco essa reportagem de novo, e não encontrei. Porém, fazendo uma garimpagem pelo YouTube, achei no lugar mais improvável: o começo de um dos intervalos da entrevista do ex-presidente da República João Figueiredo a Alexandre Garcia em 1985, pra extinta TV Manchete.

Questionado pelos repórteres se estava firme em seu propósito de levar adiante a Lei da Anistia, que simbolizava a abertura política e o gradual ocaso da ditadura militar instaurada em 1964, Figueiredo disse que não poderia estar mentindo pro povo. Algo anunciado com tanto alarde, há tanto tempo, mesmo que contrariando os interesses de setores militares mais conservadores, não podia ser de repente dado como suspenso. E ao reafirmar seu intento, Figueiredo solta a célebre frase irônica, sem esconder o método com que sempre tratou as coisas: “É pra abrir mesmo, e quem quiser que não abra, eu prendo, arrebento... Não tenha dúvida!”

Infelizmente, não havia vídeo separado com esta famosa passagem. Acabei capturando o trecho no upload feito pelo documentarista Pedro Janov, o primeiro a divulgar a entrevista. Eu cortei a duração e o quadro, mas tinha outro problema: na matéria, a fala é cortada bruscamente, antes de Figueiredo pronunciar “não tenha dúvida”. Por coincidência, um outro canal carregou uma montagem com parte do áudio da entrevista coletiva, baixado do acervo digital Vozes Brasileiras. Pra esse trechinho final poder aparecer, coloquei ainda no Movie Maker um print da última tela do vídeo da Manchete.



A tal “renovação política” sempre foi uma bandeira de nossos candidatos estreantes ou outsiders, mas o material antigo e podre parece mostrar uma teimosa capacidade de resistência. Pra piorar, nossos políticos raramente primam pela inteligência ou vasta cultura geral, e se falamos do Rio de Janeiro, com seus caos em diversos domínios nesse fim de 2018 e começo de 2019, a coisa toma tons trágicos e amargos. Devido à gravíssima crise política e humanitária na Venezuela atual, voltou a circular em redes sociais parte de um vídeo da então vereadora da cidade do Rio, Leila do Flamengo (PMDB), explicando em fevereiro de 2014 por que votou contra a concessão de uma homenagem ao presidente daquele país, Nicolás Maduro. Criticando a iniciativa da Câmara Municipal do ano anterior, a legisladora falava da recente morte de um jornalista da TV Bandeirantes durante um protesto, no Rio, contra a Copa do Mundo no Brasil e argumentou que a honraria não era merecida pelo “ditador criminoso que é o Madruga”.

Sim, isso mesmo: Madruga. Por razão desconhecida, ela confundiu “Maduro” com “Madruga”, neste caso certamente uma alusão ao personagem do seriado mexicano Chaves, que faz sucesso no Brasil desde os anos 80. Muitos internautas brincaram que se na Venezuela tinha o Hugo “Chávez”, deveria ter também o Nicolás “Madruga”, embora de fato “Chávez” em espanhol se pronuncie “tchábess”. Por outro lado, “Chaves” (um sobrenome comum no Brasil) foi a alcunha atribuída ao personagem chamado originalmente “Chavo” (tchábo), que na gíria mexicana significa “garoto, guri, moleque”. A grande jogada era que o menino adotado pelos moradores da vila sequer tinha nome, e era simplesmente chamado chavo, ou... “menino”.

Esse não foi um caso isolado envolvendo o caquético e fisiologista MDB (“novo” nome do antigo partido de Temer, Geddel, Sarney, Cunha, Renan, Cabral etc...). Em novembro de 2017, o então deputado estadual André Lazaroni, também do Rio de Janeiro, respondeu virulentamente numa sessão extraordinária a acusações que também lhe estavam sendo feitas. Ao fim do discurso de uns 15 minutos, já começando a trocar alhos por bugalhos, ele citou a frase “Ai do povo que precisa de heróis”, do dramaturgo comunista alemão Bertolt Brecht... que ele chamou de “Bertoldo Brecha”. Este nome era o de um personagem do antigo programa humorístico Escolinha do Professor Raimundo, liderado por Chico Anysio na Rede Globo, que falava, porém, com sotaque baiano. A imediata correção dos colegas o deixou ainda mais confuso, pois provavelmente tendo lido a frase numa fonte indireta, sem conhecer a fundo o verdadeiro autor, não conseguiu chegar à pronúncia exata ou aproximada de seu nome.

A fúria e o atropelamento verbal de Lazaroni só servem pra tentar ocultar, obviamente sem sucesso, sua evidente culpa. A desfaçatez de ter usado a história de Jesus e da igreja cristã pra se justificar é tão descarada e chocante, que decidi deixar todo o trecho que vai do “Brecha” até o final do discurso, quando ele faz sua “modesta” comparação com Cristo. Claro que não sou religioso, mas penso ser um desrespeito com quem realmente crê manipular a fé como blindagem pros seus crimes, algo comum, porém, entre certos políticos pentecostais e neopentecostais cuja fortaleza está na cidade e no estado do Rio. Notavelmente, essa sessão extraordinária da ALERJ era presidida pelo célebre e mítico comunicador Wagner Montes, com o qual tanto nos encontramos no velho Show de Calouros.

Isso só mostra como pra ser político no Braziu-ziu-ziu, você não precisa ter cultura, muito estudo, vergonha na cara, autocrítica e sensibilidade com os outros. Eles sempre tentam nos ocultar, mas vez ou outra acabam escancarando seu despreparo pra lidar com pessoas e com a coisa pública! Os cariocas e fluminenses, infelizmente, estão muito mal servidos com seus políticos em todos os níveis (e as eleições de 2016 e 2018 foram só um petisco disso), mas tenho certeza que isso é um problema que atinge toda a nossa querida e rica nação. Pra fazer esse vídeo, usei uma montagem com a vereadora Leila (só tirei a parte do episódio Chaves) e a filmagem da sessão extraordinária da ALERJ (pus apenas o fim).



Por falar em incultura e falta de articulação, temos um exemplo transparente com o deputado federal e político mais que profissional Fábio Ramalho (MDB-MG). Tudo bem que o Brasil é rico em sotaques e expressões regionais, mas o que vemos aí não é exatamente uma amostra de regionalismo. Alguém que presumidamente ocupa o cargo de tribuno do povo e advogado dos eleitores devia ao menos fazer-se entender de modo menos atabalhoado! Ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados e reeleito em 2018, concorreu como independente à presidência da casa no início deste ano, mas perdeu pra Rodrigo Maia (DEM-RJ). Sua liderança não seria nada insincera nesse antro de podridão, pois a causa que defende arduamente neste vídeo, também tirado do Jornal Nacional (12 de dezembro de 2018), é... o aumento do próprio salário!

Parece até clichê dizer que se trata de preocupação extremamente bizantina diante de tantos problemas que o Brasil vive, sobretudo Minas Gerais, mas isso só mostra que o mantra da “nova política” contra a “velha política” é apenas uma jogada eleitoral. Marina Silva, em 2014, repetiu isso tal como um disco riscado, e talvez por inércia Bolsonaro carregou a mesma bandeira na campanha e mesmo em seu início de governo. Pros avisados, está óbvio que a tendência de nosso sistema é se autoperpetuar, impedindo qualquer renovação profunda, mesmo com várias mudanças que tivemos em Brasília e pelo Brasil. O próprio Ramalho com seu desalinho e improviso é a prova viva do triunfo da “velhíssima política”, mas vender-se como “novo” alguém que passou quase 30 anos votando contra projetos reformistas e não raro apoiando políticas estruturais montadas pelo PT, e depois se erguer em paladino do antipetismo, aí já é difícil de engolir! (Lembrando que o PP, partido a que pertenceu de 2005 a 2016, foi mais ou menos base aliada tanto de Lula quanto de Dilma.)





Os hits do verão que bombam no começo de cada ano no Brasil são mais ou menos um termômetro de como anda nossa vida cultural, intelectual e temperamental. Eu pessoalmente acho que em 2018, Pabllo Vittar e MC Loma e as Gêmeas Lacração foram o ápice de nossa degradação, quando ainda desatolávamos devagar da crise econômica, esperávamos um ano cheio de brigas e baixarias eleitorais (e portanto, somado à Copa do Mundo, parado na economia) e tínhamos de amargar outro ano da decomposição do desmoralizado governo Michel Temer. O primeiro hit da chamada “Nova Era” foi Jenifer (ou O nome dela é Jenifer), gravado por Gabriel Diniz, geralmente rotulado como sertanejo, mas com uma mistura musical muito mais complexa.

Todo ano as pessoas aguardam esse “chiclete” com a seguinte expectativa: “O que será que o Diabo reservou desta vez para nós?...” Embora não seja meu estilo preferido, eu mesmo curti a música, porque ela tem alguma “letra”, alguma “melodia”, não é extremamente barulhenta, é até animadinha e conta uma história engraçada (quem nunca se afundou no Tinder? hahaha), sem palavrões, baixarias ou gritos. Mas sempre há os que se lamentam e esperneiam, maldizendo o coitado intérprete da canção e sua manada de “autores”, e isso geralmente em todos os anos, segundo eles, “cada vez pior”. Montagens não faltam pra zoar os destaques da mídia, e eu mesmo não fiz diferente.

Ano passado fiz a mesma coisa com Que tiro foi esse, outra porcaria tirada da lata do lixo, mas parece que os memes com as mocinhas jamais viralizam. A montagem mais famosa é da personagem Mary Hatch, interpretada pela atriz americana Donna Reed no filme A felicidade não se compra (It’s a Wonderful Life, 1946), mas criei também com a personagem Lucinda, interpretada pela atriz brasileira Andreia Horta na novela das 6 Tempo de amar da Rede Globo, exibida entre 2017 e 2018. Elas simbolizam uma música que certamente ficará lembrada por seu lançamento no início do primeiro governo brasileiro claramente de direita desde Fernando Collor. Mas a comparação de qualidades entre o musical e o político é algo cuja apreciação, de fato, varia bastante!



Quando eu falo em “perpetuação dos políticos”, infelizmente não quero dizer apenas aqueles velhos coronéis bonachões que são reeleitos da forma mais “natural” possível. Não raro, formam-se famílias ou “clãs” inteiros só de políticos, muitas vezes tendo uma cidade, região ou estado como curral eleitoral. Essa herança política, ou mesmo do capital político das gerações anteriores, acontece nos países mais desenvolvidos e democráticos, mas no Brasil toma a forma de uma herança privada passada de pai pra filho, cuja substância material, porém, é a coisa pública. Por isso mesmo, a atividade parlamentar é vista por muitos não como uma forma de ajudar o povo ou defender um certo grupo de interesse, mas garantir o próprio sustento e uma renda fixa sem muito esforço.

Não sei quem era o deputado em questão, mas a posse do novo Congresso Nacional em fevereiro de 2019 trouxe a Brasília famílias inteiras que foram prestigiar as “conquistas”, à moda de trupes caipiras que se esbaldam em festas de formatura escolar ou universitária. As crianças imitam perfeita e sinceramente o meio que absorvem, e o menininho do vídeo, filmado pelo Jornal Nacional em 1.º de fevereiro, parece ter entendido bem a chance. Seguindo o exemplo do pai, adivinhem o que ele quer ser quando crescer?



É claro que secretamente, o pensamento dos brasileiros com relação a seus parlamentares é totalmente outro. São comuns as metáforas com guilhotinas, assassinatos, punições, explosões e outras coisas que mais parecem vinganças revolucionárias de populações oprimidas. Logo, descontadas as inevitáveis vítimas comuns e inocentes, uma hecatombe natural ou até atômica em Brasília sempre povoou alguns sonhos mais acerbos e raivosos. Por isso, acredito que esta é a melhor cena da longa novela bíblica Apocalipse, da Record TV, que começou em 2017 e terminou no ano passado.

Durante a queda do meteoro Absinto, descrita numa das passagens apocalípticas da Bíblia Sagrada, a Praça dos Três Poderes é toda destruída. Tudo bem se fosse só isso, mas a família Ma$$edo esteve sempre interferindo na trama e alfinetando a Globo, com esse noticiário que é evidente imitação do Jornal Nacional. O Juno Meneghel, claramente imitando o célebre William Bonner, até parece que está descrevendo a tragédia de Brumadinho na sua fala, por isso fica até horripilante! Sei que tem gente que não gosta, mas além de cortar o quadro, pus algumas repetições pros internautas terem o prazer aumentado.



O começo da “Nova Era” está se caracterizando pela efetivação do improvável, em especial a tomada a sério de ideias ou pessoas que, como o próprio Bolsonaro, antes pareciam meras caricaturas frustradas na internet. Uma dessas figuras é o filósofo, escritor e astrólogo Olavo de Carvalho, “autodidata” segundo sua própria definição, quase sem nenhuma instrução formal ou certificada por diploma. Se não fosse a degradação moral e educativa por que passamos, ele não passaria de um velho reacionário e boca-suja, chamando a atenção com as afirmações mais estapafúrdias sobre ramos tão diversos quanto física e história, e morando nos EUA pra fugir da reação física que certamente provocaria com seus constantes ataques pessoais a figuras de renome. E tudo isso, claro, não atraindo multidões de jovens em salas de aula ou auditórios de palestras, mas sentado folgadamente em sua mesa de trabalho, tomando sua xícara de açúcar com um pouco de café e falando com seus “alunos” por videoconferência.

Pois bem, ele se tornou a fonte de inspiração a todos aqueles que queriam votar em Jair Bolsonaro, este mesmo sem um programa claro, passando-se por “produtor de cultura”, atraindo a admiração do próprio candidato e de seus filhos que o tratam como um “professor”, e foi alçado à condição de “guru intelectual do bolsonarismo”. É o mesmo senhor que afirma que a lei da gravidade é uma farsa, que combustíveis fósseis não existem e que o nazismo é de esquerda... Mas, sagaz ele parece ser o suficiente pra gradualmente tomar distância do Planalto, enquanto Jair Messias começa a acumular seus primeiros fracassos e polêmicas nojentas. Estamos carentes de ídolos!

Muitos me criticaram por tirar este trecho do contexto maior do vídeo completo, cujo conteúdo, porém, afirmando que “Stalin criou o nazismo”, mal tem qualquer valor intelectual ou didático. Mas a intenção foi mesmo provocar, chocar ou fazer rir, pois todo mundo sabe a real posição ideológica de Olavo de Carvalho e não poderia tirar qualquer conclusão positiva dessa fala. O que soa engraçado, no vídeo de janeiro de 2017, é fazer parecer que ao chamar Iosif Stalin, mandante da URSS comunista de 1924 a 1953, de “o maior estrategista da história humana”, ele ainda vê algum mérito em sua figura. Segundo o pensador, “tudo aconteceu do jeito que ele disse, e ele obteve tudo o que ele queria”, ficando de fato ao internauta informado a missão de saber que isso não implica nenhuma adesão ao comunismo. O áudio original estava baixo demais, então ao editar, além de cortar o quadro, aumentei consideravelmente o volume.



Todos os presidentes do pós-ditadura ficaram conhecidos por algum bordão que entrecortava suas falas públicas. Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma tinham alguma palavra ou expressão que repetiam demais por força do hábito, mesmo em discursos planejados, e isso não escapou a seus críticos ou imitadores. Em 8 de março eu estava vendo o Jornal Nacional e de repente apareceu este fim de reportagem sobre as candidaturas laranjas de mulheres pra deputada estadual e federal, supostamente alavancadas em Minas Gerais pelo atual ministro do Turismo, do PSL, partido de Jair Bolsonaro. Saindo de um evento, o presidente foi questionado pela repórter global Zileide Silva se essas denúncias constrangiam o governo, mas ele respondeu secamente que preferia esperar as investigações, e logo em seguida deu as costas e foi embora.

Me chamou a atenção que ele disse isto: “Deixa as investigações continuarem, tá OK?”. Depois de todos esses meses de campanha eleitoral e começo do mandato, só então vi o próprio Bolsonaro pronunciando a expressão que lhe deixou famoso: “Tá OK?”, repetida até por apoiadores adolescentes quando queriam “lacrar” em debates nas redes sociais. Por causa de sua constância e da rapidez com que era pronunciada, tomou várias ortografias cômicas e alternativas na pena dos opositores: “talquei”, “talkey”, “taoquei” etc.

Eu mesmo entendia que essa expressão queria dizer uma fusão do verbo inglês (to) talk (falar) com a terminação “-ei” do passado regular dos verbos em “-ar”. Ou seja, algo como “talkei?” no sentido de “falei?”, “tá falado?”. Mas só lá pro fim do ano passado acabei deduzindo que era “Tá OK?”. Então, mesmo sendo algo bem banal ou babaca, deixei aqui este vídeo como registro histórico, não só do famoso bordão usado já na etapa do mandato, como também de sua relação áspera com a Rede Globo. Esta, pra variar, lhe faz oposição aberta, como a todo governo que ouse assumir.

No Dia Internacional de Luta das Mulheres Trabalhadoras, além da fala da ministra Damares Alves com achismos e lugares-comuns sobre a delicadeza feminina contrastando com a força masculina, Bolsonaro também soltou uma pérola num evento oficial com a esposa. Disse que seu ministério tinha equilíbrio de sexos por ter 2 mulheres e 20 homens, já que “cada mulher ali valia por 10 homens”. Valeu a brincadeira, mas só deixa explícita a falta de representatividade de vários setores dentro de seu governo e outras estruturas do Estado (não discuto aqui essa questão, mas deixo pra reflexão, tá OK? rs).



Dois anos atrás conhecido pelos arroubos golpistas, o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, com sua fisionomia meio indígena, tem confundido o público por declarações aparentemente contraditórias ao que defende o titular do cargo. Muitos iludidos estão dizendo que ele seria uma espécie de “cavalo de Troia” dentro de um governo ultraconservador, esperando apenas a oportunidade pra lançar a própria candidatura em 2022. Outros veem esse intento pelo lado da desonestidade, soltando apenas umas pérolas progressistas pra dar a impressão de ser mais culto e aberto do que Bolsonaro. O fato é que Mourão, já tendo várias chances de exercer brevemente a presidência, virou uma espécie de “queridinho da imprensa”, mais afável e brincalhão e menos brutamontes do que o “Mito”.

Como informou o Jornal Nacional no dia 19 de fevereiro de 2019, a Câmara dos Deputados derrubou o decreto assinado por Mourão, que ampliava o círculo de funcionários públicos que poderiam classificar documentos de Estado como ultrassecretos. A derrota foi vista como uma retaliação e sinal de força demonstrados ao governo Bolsonaro, cuja equipe, porém, minimizou e afirmou que os reveses “fazem parte da democracia”. Mas o vice não sabia ou não admitia que o Congresso Nacional, não como aglomerado ideológico, mas como associação corporativista, tentaria é sabotar ao máximo a “Nova Era”. Ao comentar o resultado, ele se referiu ainda à famosa frase associada a assaltos a mão armada no Brasil, geralmente por bandidos vindos de classes pobres: “Perdeu, playboy!”.



Parece que o vice-presidente Hamilton Mourão estava virando presença cativa na TV Eslavo: primeiro a frase “Perdeu, playboy!”, e agora paga de falante do castelhano. Quem sabe com essa pinta toda, ele realmente não esteja preparando sua futura candidatura à presidência em 2022? Em 25 de fevereiro ele leu um texto escrito em espanhol numa reunião do Grupo de Lima, enquanto governantes da região discutiam soluções diplomáticas pra crise política e humanitária na Venezuela. O general surpreendeu pronunciando um espanhol com forte sotaque, mas razoavelmente compreensível: era a primeira vez que eu via um membro do alto escalão do novo governo dizendo qualquer coisa numa língua estrangeira. As cenas têm produção da Globo News.

Já que o colombiano Ricardo Vélez-Rodríguez, enquanto foi ministro da Educação, não ensinou nada de útil além de medidas patrioteiras, bem que ele podia dar umas aulas de reforço pro Mourão. E quem sabe mais: fazer um pacote incluindo a Dilma Rousseff, que em várias ocasiões tentou falar da própria cabeça algo remotamente parecido com o espanhol, mas se deu mal! Essa “crestomatia” do ibero-dilmês pode ser apreciada aqui mesmo na página.



Este último vídeo meu não tem a ver diretamente com política, mas decidi incluir aqui, porque dizem que Jair Bolsonaro foi eleito pelo WhatsApp. Então, nada melhor do que pensar na sua segurança num meio hoje tão anárquico! Ele é bem simplezinho e mostra como criar um código PIN e adicionar um e-mail de contato pra evitar invasões indesejadas no seu aplicativo.

Dica importante: pra todos os smartphones modernos com o sistema Android, existe um jeito simplíssimo de tirar prints da tela. Pressione ao mesmo tempo (e não um após o outro) a tecla liga/desliga e o lado do botão do volume que reduz a altura. Espere uns dois segundos, e vai dar o barulho de clique da imagem. Alguns modelos modernos, pelo que notei depois do upload, já têm um comando próprio pra captura de tela.