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21 de abril de 2019

Cresce o prestígio de Stalin na Rússia


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stalin-rfi


NOTA: Muito por acaso achei este instigante artigo no site do serviço em língua russa da Rádio França Internacional (RFI). Seu título é: “Invocam Stalin para ele defender os pobres”: a restauração do stalinismo na Rússia. A autoria é do jornalista Aleksandr Valiev, que discorre sobre o aumento da popularidade de uma imagem mitificada do ex-dirigente soviético Iosif Stalin, num contexto de dificuldades econômicas e desilusão com os políticos. Longe de concluirmos que a maioria dos russos, mesmo jovens, tem uma visão positiva sobre o ditador, podemos pensar que as impressões variam muito de região pra região e de idade pra idade, não sendo a aprovação, portanto, uma unanimidade nacional, como sugerem alguns militantes. As opiniões de alguns entrevistados parecem bem pessoais, mas acho que a importância maior deste artigo é refletirmos sobre a construção de mitos e o modelamento da consciência de massa nas redes sociais, no Brasil e no resto do Ocidente. Mesmo sem comparar os regimes, me arrisco a pensar que esse tipo de seletividade atinge tanto os jovens que elogiam Stalin quanto os que justificam as ditaduras militares na América: por que um ou outro não teria sido “ditador” ou teria feito chacinas “necessárias”? Um risco à nossa cultura democrática.



70% dos russos consideram que Stalin teve um papel positivo e “mais para positivo” na vida da URSS. Resultado de uma pesquisa regular de opinião feita pelo Centro Levada, é o maior percentual dos últimos 16 anos.

Nos últimos três anos, o número de pessoas que avaliam positivamente o papel de Stalin na vida do país aumentou 16%. 41% dos entrevistados se referem a ele com admiração, um pico em 19 anos. A RFI questionou diversos especialistas sobre as possíveis razões desse comportamento na sociedade.

Na opinião do diretor da seção de Krasnoiarsk da sociedade “Memorial”, Aleksei Babi, essas tendências se explicam pela ignorância das pessoas e por sua insatisfação com o que acontece no país.

RFI: Aleksei, vou ler em voz alta um comentário sobre Stalin numa das páginas da rede social “VKontakte”: “Tenho estima pelo fato que ele pôde em curtos prazos (duas vezes) reconstruir o país; que não roubou nada do povo; que para ele o bem-estar das pessoas vinha em primeiro lugar. Sim, ele pode ter sido um tirano, e tal, mas fez muito pelo país”. São palavras de uma moça em cuja família havia um “inimigo do povo”.

Aleksei Babi: Isso é, em primeiro lugar, resultado da ignorância. As pessoas não só não sabem disso, mas também quase sempre não querem em particular saber. Em segundo lugar, pode-se dizer que é uma aberração moral essa ideia de “país reconstruído duas vezes”. A questão está relacionada ao preço que se pagou por tal resultado. Os dirigentes soviéticos, e inclusive Stalin, eram extremamente ineficazes nesse sentido: obtinham um resultado igual ou menor do que o dos países capitalistas a um custo imensamente maior. Além do mais, o pior de tudo é que nesse país a mão-de-obra era muito barata, sendo empregada num espectro que ia dos pagamentos ruins aos que, se estavam no Gulag, trabalhavam de graça. Se as pessoas estavam morrendo, em que condições estavam vivendo, isso não interessava a ninguém em particular. As vidas humanas eram desperdiçadas. O preço de todas essas conquistas, que podemos discutir quais foram reais e quais foram imaginárias, foi extremamente abusivo. Já nem falo mais que isso foi desumano, pois as pessoas não entendem palavras como essa.

Além disso, as pessoas sempre acham que ao chegar Stalin e apontar qualquer pessoa como alguém ruim, seja um chefe ou um vizinho, isso não vai afetar a elas próprias. E nesse sentido olho para pessoas que, na realidade, trocam os pés pelas mãos, porque as repressões eram como um iceberg: havia uma parte visível na qual ocorriam os processos-espetáculo, quando prendiam e fuzilavam alguns comandantes, ação que não se limitava à cúpula distante. Havia a ordem de promover dois ou três processos exemplares na zona rural de cada região. É claro que o povo assistia satisfeito à prisão e fuzilamento de líderes odiados.

Mas havia uma parte submersa, imensamente maior: as pessoas eram capturadas à noite, sumiam e por décadas não se sabia o que houve com elas. Aqueles processos exemplares de fato ficaram marcados na mente, mas a parte submersa também permaneceu como parte submersa na consciência. E isso faz com que Stalin, na cabeça das pessoas, seja um homem que punia lideranças negligentes, e por aí vai. Contudo, pelas nossas estatísticas, por exemplo, mais de 80% dos perseguidos eram camponeses. Os membros do partido, mesmo fora da chefia, como simples filiados ao PC soviético, constituíam em torno de 5%.

Qual está sendo o papel do Estado na formação dessa opinião?

O Estado se coloca numa posição segundo a qual ele sempre faria tudo certo, mas enfrentando alguns inimigos. E isso se aproxima cada vez mais da atitude que existia sob Stalin. Naturalmente, a própria figura de Stalin se revaloriza por esse ângulo. E por toda parte, nos livros, sobretudo na televisão, a imagem de Stalin se apresenta como no mínimo neutra, ou talvez até positiva.

Se as pessoas criam uma nostalgia pelas prisões e fuzilamentos, não significa que elas estão muito insatisfeitas com o que acontece no país?

Bem, primeiramente insatisfeitas, e os cientistas políticos percebem isso muito bem. E segundamente, elas não estão prontas para se responsabilizar pela correção dessa situação. Elas esperam que alguém chegue e corrija tudo. E é exatamente aí que aparece a figura mitificada de Stalin, que fuzilava, prendia os maus gestores, e assim vai. É aí que ele emerge como uma figura conveniente.

*

Em 9 de maio será solenemente inaugurado em Novosibirsk um monumento a Stalin. Esse tema foi debatido furiosamente na cidade por alguns anos, e ao final os autores da iniciativa, entre os quais estava Aleksei Denisiuk, atingiram seu objetivo. Em sua opinião, não faz sentido se espantar com o aumento da popularidade de Stalin.

Aleksei Denisiuk: Penso que não há nada de espantoso nisso. A tendência de aumento do prestígio de Stalin na consciência de nosso povo cresce ano após ano. Sim, realmente neste ano houve um recorde de 70%, mas já foi de 50 a 60%. As pessoas têm um critério de comparação: o período pós-guerra, quando reconstruímos o país muito rapidamente. E depois, o desenvolvimento da economia soviética, que garantia educação gratuita, saúde gratuita, emprego garantido e tudo o mais: esse período de crescimento também recai na conta do potencial de Stalin, da industrialização etc.

Por que exatamente neste ano? Penso que isso está ligado com alguns agravamentos da situação socioeconômica no país. Ou seja, apesar da mudança na política externa de nossos dirigentes, a política interna permanece a mesma: privatização das empresas estatais, aumento dos preços, inflação e por aí vai. A vida não melhora, pelo contrário, as pessoas mal conseguem viver, não confiam no dia de amanhã. A própria reforma da previdência vai atingir e já atingiu muito fortemente uma porção significativa da população.

Sabemos, por exemplo, que na Europa Ocidental milhões saem às ruas quando se promovem reformas semelhantes que atacam seus direitos. Infelizmente, aqui por enquanto não ocorre algo parecido, mas evidentemente existe uma insatisfação surda. Pegue Arkhangelsk, por exemplo. Bastou apenas tomarem a decisão de transportar o lixo de Moscou e despejar na província de Arkhangelsk que de fato ocorreu aí literalmente uma insurreição.* Toda a polícia, batalhão de choque e guarda nacional foram mobilizados para acabar com tudo isso.

* Esta notícia foi a única que achei em português sobre o assunto.


No tocante às repressões sob Stalin, segundo uma pesquisa, realmente metade dos russos até aprova em algum grau as chamadas “repressões stalinistas”. Mas penso que aqui também não há com o que se espantar. Se com Stalin no comando alguém roubasse determinada quantia, você entende onde a pessoa iria parar. Mas agora na Rússia ocorre simplesmente uma corrupção total. Os oligarcas conseguiram decepar todo o nosso país, pilhar a propriedade pública. Hoje eles vivem num luxo fabuloso, e isso é bem visível. Todos entendem perfeitamente isso, e não há nenhum combate por parte dos governantes da Rússia. E por isso é compreensível que o povo invoque para que um líder finalmente chegue e detenha o apetite dos novos oligarcas e corruptos. Por isso ocorre aqui uma justificação quanto ao grau em que isso é plenamente aceitável, embora digam que haja muitas vítimas inocentes. Sim, houve muitas vítimas inocentes. Mas por outro lado, também não se deve sem fundamentos falar em vítimas inocentes. Houve, sim, os que conduziam uma atividade antissoviética, que roubavam e coisas do tipo. Elas se encontravam em lugares não tão distantes assim.

*

Konstantin Golodiaiev, historiador e etnógrafo regional de Novosibirsk, diz que sente vergonha por haver futuramente um monumento a Stalin em sua cidade.

Konstantin Golodiaiev: O poder público, enquanto pôde, se esquivou dessa responsabilidade. O prefeito declarou imediatamente que iria fazer a vontade dos moradores após eles votarem. O resultado foi praticamente meio a meio. Quando a situação da política interna e externa piora, uma sociedade sempre se inclina a buscar um gerente eficaz, uma mão forte que promova a ordem e combata os inimigos do país como se fossem bandidos. E por toda parte as pessoas dizem que a vida ficou pior, por isso invocam Stalin para que ele defenda os pobres.

Metade de nossos moradores considera Stalin como o construtor do Estado, o vencedor da grande guerra, não contando sequer as perdas sofridas. E a outra metade o considera responsável pelas repressões massivas contra cidadãos soviéticos pacíficos, as quais na realidade afetaram quase todas as famílias na URSS. Pois só através de nossa Sibéria, do vilarejo de Narym, passaram centenas de milhares de detentos e deportados que foram transferidos de outras terras. Em Novosibirsk ainda estão vivas dezenas de milhares de pessoas que conhecem essas repressões por sua experiência pessoal, e não por ouvir dizer.

Eu dividiria os simpatizantes de Stalin em duas faixas etárias. As pessoas que agora são idosas eram jovens nos anos 50. Elas ainda se lembram de sua juventude, quando houve a década dourada de 50 após a guerra, quando após os difíceis anos de fome o país começou a se levantar. A vida melhorou notavelmente, apareceram mercadorias, roupas. Mas os anos 50 já não eram os anos 30. Os anos 30 foram totalmente diferentes. Havia fome, o mínimo para se viver, a ausência de qualquer mercadoria, a desconfiança de uns pelos outros, um temor constante e alguns sussurros. O povo vivia com medo. As pessoas que se lembram daquele tempo já faleceram. A geração atual já se esqueceu do que aconteceu com o país.

E a outra metade dos simpatizantes de Stalin são a juventude moderna. Essa juventude em geral não sabe nada ou sabe muito pouco daquele tempo. Mas o pior de tudo é que ela nem procura conhecer aquela época: muitos deles não são apenas apolíticos, mas antissociais. A imagem de um punho de ferro, de um homem forte representa para eles uma espécie de exemplo inspirador. Mesmo sem entenderem, é nisso que eles votam, em linhas gerais. Penso que a imagem atual de Stalin não é fidedigna, não tem respaldo na história, é mitológica e inventada.

E como então, apesar de tudo, ocorreu de planejarem um monumento a ele em Novosibirsk?

Eu considero, obviamente, profundamente errônea a colocação de um busto de Stalin em Novosibirsk. Pessoalmente, como habitante da cidade, fico muito envergonhado por ela. A inauguração já está marcada para 9 de maio, e é lamentável que o dia realmente grande da Vitória fique obscurecido por esse evento. É possível que a imprensa fale mais sobre a inauguração do monumento a Stalin do que sobre essa grande data. Ora, e a princípio as consequências de tal iniciativa já são bem visíveis pelo exemplo de outras cidades, como Lipetsk, Simferopol e Surgut, onde tais monumentos foram manchados com tinta vermelha quase imediatamente ou pouco depois da abertura.

A despeito dessa instalação, existe e sempre existirá na cidade uma guerra de opiniões e de posições. Já conheço muitos exemplos de pessoas que se ofendem abertamente, embora pudessem ser amigas. Isso ocorre até mesmo dentro das famílias. Mas o pior de tudo não é o monumento em si, e sim que novamente vão rebaixar metade da cidade e cuspir em suas almas. E viver numa cidade onde se encontra um monumento aos carrascos dos seus pais, para dizer o mínimo, é vergonhoso.