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30 de setembro de 2019

Comunismo tchecoslovaco (SBT 2008)


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Não é só a Revolução Chinesa comunista que está fazendo 70 anos agora no fim de 2019. Há 30 anos, na sequência de eventos reformadores que varreram os países comunistas europeus, o Muro de Berlim era derrubado como sinal da decadência e fim daquele regime no continente. Não foi diferente na Tchecoslováquia, república binacional localizada no coração da Europa e alocada no “bloco comunista” desde 1948. Liberado da ocupação alemã nazista pelas tropas soviéticas e pela Resistência local em 1945, era um dos países europeus mais democráticos e industrializados após sua criação em 1918. Por ter sua origem no antigo Império Austro-Húngaro, o país comportava falantes de várias línguas e etnias, sobretudo tchecos e eslovacos (eslavos), húngaros e alemães. Até 1989, sofreu a ditadura do Partido Comunista, patrocinada por Moscou e inclusive defendida pelas tropas do Pacto de Varsóvia (a OTAN comunista) em 1968, após uma rebelião popular.

Os eventos no outrora chamado Leste europeu, impulsionados pela abertura política (glasnost) e econômica (perestroika) na antiga URSS, levaram a novas manifestações pacíficas em 1989, tendo à frente o escritor e dramaturgo Václav Havel, também ativista político e primeiro presidente da Tchecoslováquia pós-comunista. Na sequência de acordos internos, o país acabou se dividindo em República Tcheca (hoje também chamada Tchéquia, capita Praga) e Eslováquia (capital Bratislava), com seus idiomas levemente diferentes. Porém, o comunismo permanece vivo na memória da população mais velha, e pros jovens aprenderem o passado foi criado inclusive um Museu do Comunismo, algo comum também em outros antigos vizinhos comunistas. A população se divide entre os que sentem falta da proteção social e os que repudiam a repressão e a ditadura.

Em 14 e 21 de maio de 2008, o programa SBT Realidade um dos herdeiros do Documento Verdade da extinta TV Manchete (do qual eu falei aqui em textos anteriores), exibiu dois especiais sobre a República Tcheca moderna, após o comunismo e integrada na União Europeia. Apresentado por Ana Paula Padrão, tem de fato uma abordagem bem primária, cheia de chavões, uma linguagem repetitiva e pouco preparada no assunto (a começar pelos “Václav”, pronunciados “vakláv” ao invés de “váátslaf”). Mesmo assim, é razoavelmente informativo sobre o tema e nos estimula a pesquisar mais. O upload original, infelizmente ainda pouco visto e do qual só cortei a introdução, foi feito por René Menezes, cuja empresa Renétour ele diz ter sido a guia dos repórteres.

Nesta página do site dele, podem ser baixados os vídeos dos episódios, embora eu não saiba se em formato ainda legível. Segue abaixo a reportagem que repostei na TV Eslavo (YouTube), sem ter feito nenhum recorte no quadro, pra que toda a rica parte visual da matéria pudesse ser plenamente desfrutada:




28 de setembro de 2019

Marcha dos Voluntários (hino da China)


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Como estamos nos aproximando dos 70 anos da Revolução Chinesa que trouxe Mao Zedong (antes escrito Mao Tsé-Tung) ao poder na China, vamos com o hino nacional do país mais populoso do mundo, e atualmente a segunda maior economia do planeta, cada vez mais se encostando nos EUA. O nome original da canção é Marcha dos Voluntários (na transliteração pinyin, Yìyǒngjūn Jìnxíngqǔ; 义勇军进行曲), e teve a letra escrita em 1934 por Tian Han e a melodia composta em 1935 por Nie Er. O hino já foi adotado pouco antes da vitória final da revolução comunista, mas passou por várias afirmações legais.

Ressalto que como historiador, estou fazendo uma “lembrança”, e não uma “celebração” dos 70 anos da Revolução Chinesa comunista, pois o blog é apartidário, e pro bem e pro mal, o evento foi determinante pros rumos do século 20. Apesar das políticas econômicas de Mao Zedong, a China hoje é uma economia pujante, dona do segundo maior PIB do mundo, nos quadros de um capitalismo estatizado que vem tirando cada vez mais massas humanas da pobreza e da extrema pobreza. Claro que eles têm problemas com democracia, controle de informações, liberdade de expressão e direitos humanos, mas acredito que gradualmente as sociedades em progresso desatam naturalmente esses nós. Além disso, muitos países ocidentais podem se considerar totalmente “livres”, mas sofrer com gargalos morais, comunitários, existenciais e de distribuição de renda. Portanto, querendo ou não, conheçam a China: ela pode ser os próximos EUA!

No século 20, a China trocou mais de hino do que o Brasil trocou de constituição: desde 1911, ainda na monarquia, quando a dinastia Qing adotou o primeiro hino nacional, a porção continental teve sete hinos nacionais, oficiais ou não, um deles readotado em versão modificada. Só lembrando: a república foi proclamada em 1.º de janeiro de 1912, e desde então o país não teve um governo único sólido, pois a maioria do território estava dividida entre os chamados “senhores da guerra”. Um deles era Jiang Jieshi, mais conhecido nos livros como Chiang Kai-shek, que liderava o movimento nacionalista Guomindang, ou Partido Nacional Popular, desde a segunda metade dos anos 20 e passou então a mandar efetivamente na China, começando a guerra civil contra Mao. Em 1928, o Guomindang adotou Três Princípios do Povo como hino nacional, ainda hoje usado em Taiwan, oficialmente a República da China não reconhecida pelos comunistas de Pequim.

O poeta e dramaturgo Tian Han (1898-1968) escreveu a letra em 1934 inicialmente como um poema dramático, mas em 1935 o músico Nie Er (nascido Nie Shouxin, 1912-1935) lhe compôs uma melodia pra que a canção fosse tocada no filme patriótico Children of Troubled Times. O governo comunista provisório da China adotou a música ainda em 27 de setembro de 1949 em caráter transitório, até o hino ser finalmente oficializado em 4 de dezembro de 1982. Ele só entrou como tema da Constituição após a revisão que ela sofreu em 14 de março de 2004 e enfim teve o uso regulado em 1.º de outubro de 2017. Embora seja mais conhecida no Ocidente como Marcha dos Voluntários, a tradução literal do título do hino em chinês é Exército Virtuoso e Corajoso, aludindo à guerra civil dos comunistas contra o Guomindang e à invasão e ocupação japonesas nas décadas de 30 e 40. Os exércitos de Mao e Jiang lutaram juntos contra o Japão, mas a canção nunca foi popular entre os nacionalistas.

Ironicamente, Tian Han foi preso em 1966, ao começar a “Revolução” Cultural na China, por causa de uma peça (de 1961!) considerada “venenosa” pelo governo, e acabou morrendo encarcerado em 1968. De 1966 a 1970, a canção comunista O Oriente é Vermelho (Dōngfāng Hóng; 东方红) serviu como hino nacional não oficial, até a Marcha dos Voluntários voltar a ser usada, mas sem a letra. Em 1978, foi adotada uma nova letra, com referências a Mao, ao Partido Comunista e à Longa Marcha, mas em 1982 a letra original, que vocês leem no vídeo, foi restaurada na sequência das políticas liberalizantes de Deng Xiaoping. Também usado oficialmente em Macau (desde 1999) e Hong Kong (desde 1997), a Marcha dos Voluntários difere dos hinos anteriores por ter sido escrita em chinês popular, e não na língua clássica antiga. Pelo que me consta, não há traduções em outras variantes do mandarim nem em outras línguas da China.

Duas curiosidades. Primeira: a canção O Oriente é Vermelho passou por um bom tempo pouco tocada pelos órgãos oficiais, por causa da lembrança dos excessos violentos em 1966-76, mas recentemente tem sido reabilitada, talvez pra associar a imagem do atual presidente, Xi Jinping, à de um “novo Mao Zedong”. Por isso mesmo, aparece não raro com o título O Oriente é Vermelho de Novo. Segunda: por falar em Mao, vocês devem estar se perguntando sobre as diferenças na ortografia de seu nome. Até a revolução comunista, era comum no Ocidente o uso de transliterações do chinês pro alfabeto latino mais ou menos fiéis aos sons, e muito variadas entre os autores europeus. Com a padronização nacional do mandarim, adotou-se a transliteração pinyin regulamentar, que embora lembre outros sons a um leitor brasileiro, deve ser lida com o som chinês original. “Mao Tsé-tung” lembra muito mais a pronúncia correta, enquanto “Mao Zedong” soa quase do mesmo jeito, mas apenas segue o padrão imposto.

Eu baixei o vídeo original desta página, que parece ser uma abertura da programação de TV, e eu mesmo legendei. Como não sei quase nada de chinês, o processo de tradução foi bem interessante: primeiro, usei as traduções em inglês e francês da Wikipédia pra fazer o texto-base, pra nada infelizmente me servindo as traduções em russo (que era poética) e português. Depois, joguei o texto chinês no Google Tradutor, e com o resultado em várias línguas (que comparei entre elas, muito semelhantes entre si) revisei um pouco o texto-base. Porém, achei interessante que embora o Google Tradutor desse algo bem mais literal, o sentido não era de todo errado. Por isso, resolvi guardar também os resultados em inglês, russo e esperanto, que vocês veem abaixo, obviamente com alguns reparos! Seguem abaixo a legendagem que postei na TV Eslavo (YouTube), a letra original chinesa em caracteres tradicionais, simplificados e em latim pinyin, a tradução-base em português e os resultados do Google Tradutor:



Chinês simplificado:
起来!不愿做奴隶的人们!
把我们的血肉,
筑成我们新的长城!
中华民族到了最危险的时候,
每个人被迫着发出最后的吼声。
起来!起来!起来!
我们万众一心,
冒着敌人的炮火,前进!
冒着敌人的炮火,前进!
前进!前进!进!

Chinês tradicional:
起來!不願做奴隸的人們!
把我們的血肉,
築成我們新的長城!
中華民族到了最危險的時候,
每個人被迫著發出最後的吼聲。
起來!起來!起來!
我們萬衆一心,
冒著敵人的炮火,前進!
冒著敵人的炮火,前進!
前進!前進!進!

Transliteração pinyin:
Qǐlai! Bùyuàn zuò núlì de rénmen!
Bǎ wǒmen de xuèròu,
Zhúchéng wǒmen xīn de chángchéng!
Zhōnghuá mínzú dàole zuì wēixiǎn de shíhou.
Měi ge rén bèi pòzhe fāchū zuìhòu de hǒushēng.
Qǐlai! Qǐlai! Qǐlai!
Wǒmen wànzhòngyīxīn,
Màozhe dírén de pàohuǒ, qiánjìn!
Màozhe dírén de pàohuǒ, qiánjìn!
Qiánjìn! Qiánjìn! Jìn!

Português do texto-base:
De pé os que se recusam a ser escravos!
Com nossa carne e sangue
Ergamos nossa nova Grande Muralha!
A nação chinesa está encarando seu maior perigo,
Que todos deem seus últimos gritos com toda força:
De pé! De pé! De pé!
Somos todos uma pessoa só,
Encarem o fogo inimigo, avante!
Encarem o fogo inimigo, avante!
Avante! Avante! Avante!

Português do Google:
Ergam-se, pessoas que não querem ser escravas!
Façam da nossa carne e sangue
Nossa nova Grande Muralha!
Quando a nação chinesa está na hora mais perigosa,
Todos são forçados a lançar o rugido final:
Ergam-se! Ergam-se! Ergam-se!
Estamos todos unidos,
Detenham os tiros inimigos e avancem!
Detenham os tiros inimigos e avancem!
Avancem! Avancem! Em frente!

Inglês do Google:
Stand up, people who don’t want to be slaves!
Make our flesh and blood
Into our new Great Wall!
When the Chinese nation is at its most dangerous time,
Everyone is forced to make the final snoring.
Stand up! Stand up! Stand up!
We are all united,
Take the enemy’s gunfire and move on!
Take the enemy’s gunfire and move on!
Go ahead! Go ahead! Ahead!

Russo do Google:
Вставайте, люди, которые не хотят быть рабами!
Превратите нашу плоть и кровь
В нашу новую Великую стену!
Когда китайская нация в самое опасное время,
Каждый вынуждён делать окончательный храп.
Вставайте! Вставайте! Вставайте!
Мы все едины,
Возьмите вражеский огонь и идите дальше!
Возьмите вражеский огонь и идите дальше!
Идите вперёд! Идите вперёд! Вперёд!

Esperanto do Google:
Leviĝu, homoj, kiuj ne volas esti sklavoj!
Enigu nian karnon kaj sangon
En nia nova Granda Muro!
Kiam la ĉina nacio estas en sia plej danĝera tempo,
Ĉiuj estas devigitaj fari la finan ronkadon.
Leviĝu! Leviĝu! Leviĝu!
Ni ĉiuj estas kunigitaj,
Prenu la pafilon de la malamiko kaj pluiru!
Prenu la pafilon de la malamiko kaj pluiru!
Antaŭen! Antaŭen! Antaŭen!




26 de setembro de 2019

“O ovo da serpente” (Ingmar Bergman)


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Estou voltando a publicar trabalhos finais de graduação interessantes, pois foram bem avaliados pelos professores e trazem temáticas ainda prementes pra pensarmos nossa atualidade. Quando cursei História Contemporânea II (o estudo do século 20 no mundo) na Unicamp, com a Prof.ª Dr.ª Eliane Moura da Silva, pela qual ainda guardo grande estima, ela dividiu o segundo semestre de 2008 em quatro eixos temáticos. Em geral, ela passava um filme relativo ao tema estudado e indicava textos pra lermos, e após um tempo pedia pra fazermos um trabalho relacionando os dois tipos de materiais. Acho ainda muito importante que os jovens de hoje aprendam a LER e a VER filmes, pois é um treino tremendo pra tirar informações de áudio, vídeo, referências subentendidas etc., coisa difícil hoje no mundo disperso das redes sociais. Este texto, datado de 9 de setembro, fala do filme O ovo da serpente, produzido e dirigido por Ingmar Bergman em 1977, sobre os ataques aos judeus na Alemanha ainda antes da ascensão de Hitler. É ótimo pra refletirmos sobre autoritarismos, revisionismos, protofascismos, semifascismos e insensibilidades que parecem reinar atualmente no planeta. Mantive o conteúdo, mas retoquei a redação:


O cinema ajuda a narrar o passado para um número maior de pessoas, seja pelo alcance mercadológico que possui, seja pelos meios de expressão (música, cores, modo de falar das personagens etc.) que tornam mais fácil a compreensão do tema. Ele é bem adequado, por seu dinamismo, para tratar de uma época de aparente “aceleração da história”, em que rapidamente tantas coisas aconteceram e tantas mudanças se processaram: o que é, por exemplo, o período de 1914 a 1945 perto de milênios de história humana, apesar de sua enorme densidade em fatos e transformações globais? Ou, no caso do filme O ovo da serpente, o decênio de 1923 a 1933, quando se esfacelara o antigo Império Alemão e forças nacionalistas e racistas aglutinadas dispuseram-se a ressuscitá-lo ao custo da perseguição àqueles que fugiam do “padrão” nacional que elas inventaram? Esta obra de Ingmar Bergman, portanto, mostra bem as consequências da recente tendência a guerras tão devastadoras entre países e projetos, resultando em uma exclusão cujo fundo principal é o preconceito cultural, ou seja, o preconceito arraigado nas culturas e contrário a outras culturas.

Abel Rosenberg (David Carradine), personagem principal do filme, é um judeu de origem letã residente nos Estados Unidos, que decide mudar-se para Berlim em novembro de 1923, mas tem como empecilho não falar alemão, o que dificultará sua vida. De fato, uma das condições, segundo Ernest Gellner, para a organização de Estados-nações é a identidade cultural entre governantes e governados, com ênfase na língua nacional ensinada nas escolas públicas. Os nacionalismos que os baseiam são projetos construídos que, com ideia de língua e cultura comuns, ressignificarão outras culturas em uma só unidade e darão origem às futuras nacionalidades e identidades construídas. Outra ideia do autor aplicada à mobilidade espacial de Abel é a da fluidez das identidades, agravada por migrações que tornam irresolúvel o problema dos Estados-nações. (1) Assim, não compartilhando da cultura nem do passado dos alemães, é logo alertado pelo inspetor Bauer (Gert Fröbe) de que o país passa por uma grave onda de desemprego e que os alemães não o sustentarão quando acabar seu dinheiro.

Mark Mazower lembra que a correlação de forças do imperialismo, o sistema de grandes impérios baseados não no princípio da cidadania universal, mas no da lealdade e hierarquia com relação ao soberano, cairá após a 1.ª Guerra Mundial, modificando o mapa da Europa. (2) Hannah Arendt adiciona que com essa desintegração, seguida da criação dos Estados nacionais, a exclusão das minorias intensificou-se e gerou um grande contingente de apátridas e perseguidos que nos anos 1920 já não eram mais recebidos nos tradicionais destinos, como os EUA. Entre essas “pessoas sem pátria” destacavam-se os judeus (3) (que serão abordados mais adiante), cuja nova situação de desabrigo é bem retratada pela montagem das cenas do filme: Manuela (Liv Ullmann) e Abel atuam a maior parte do tempo em cenas internas; se a cena é externa, passa-se à noite, e se ainda é de dia, está chovendo. Na verdade, a família de Abel já havia sido vítima do “Grande Jogo”, citado por Mazower, da criação de Estados-tampões para a detenção do expansionismo das potências imperialistas: (4) a Letônia obteve sua independência da Rússia em 1918 e pôde decidir por si mesma o que fazer com suas minorias. A morte de Max (Hans Eichler) também retrata a pressão tripla da sociedade alemã, com sua nação construída, sobre os judeus, um povo sem Estado: o sofrimento da crise em si como qualquer alemão, a situação de pobreza que tornava a vida ainda mais difícil e o antissemitismo econômico agravado em tempos de crise.

Àqueles que não se encaixavam na homogeneidade linguística e cultural do Estado-nação não se reservou um espaço de representação nem, muitas vezes, de vida, criando-se minorias frequentemente suplantadas pela violência. (5) Frau Holle (Edith Heerdegen), senhoria de Manuela, vê a moça como uma ingênua que não sabe defender-se, mesma descrição que os povos “nacionais” fazem de suas minorias. O racismo foi uma das políticas dos governos totalitários para com as minorias, com o aproveitamento e o ápice, no século 20, do aparato segregador das experiências imperialistas inglesas desenvolvidas no século 19 em suas colônias. Um dos métodos do racismo é tornar as minorias um “perigo” maior do que o próprio nacionalismo que o baseia e que, por ser “justo, natural e bom”, portanto dificilmente contestado, (6) justifica a exclusão e a atitude agressiva para com essas minorias. Assim, elas são passíveis, por exemplo, de criminalização, como quando o inspetor Bauer implicitamente acusa Abel de assassinatos na vizinhança do judeu, claramente cometidos por grupos extremistas. A citação, na mesma cena, dos fatos consequentes da 1.ª Guerra Mundial que “atemorizam os alemães” e a demonstração de rejeição de Frau Holle por Abel e pelos dólares, então ilegais de serem portados, que ele lhe deu são mais dois sinais do chauvinismo exacerbado em tempos de crise. Aí se aplica o esvaziamento, descrito por Arendt, dos espaços públicos de representação, onde as pessoas podem expor suas ideias, resolver seus conflitos e redefinir consensos, (7) o que aconteceu na República de Weimar, com a violência “suprimindo” os problemas e com o “lento envenenamento interno” da Alemanha citado pelo narrador.

Tal situação era de se esperar com o desencantamento da modernidade, que, nas palavras de Mazower, trouxe à Europa do século 20 miséria, pobreza, fome, perseguição política, doenças hoje erradicadas e desarraigamento de populações inteiras que deixavam seus lares sem levar nada e sofrendo enorme violência. (8) O charleston lembra “os loucos anos 20”, quando o nacionalismo racista alemão “chocou” o “ovo da serpente” “botado” pelo Tratado de Versalhes, culminando na ascensão do nacional-socialismo. Gellner recorda que a política moderna dos Estados-nações, culminância da doutrina iluminista, além da desigualdade social trazida pela urbanização e pela industrialização, trouxe a atomização e banalização dos indivíduos, a impessoalidade e o anonimato. (9) Essas mudanças atingiram em cheio os rejeitados da sociedade (deficientes físicos, homossexuais, prostitutas, judeus etc.), aos quais, fora de seu “hábitat” (o cabaré, no caso do filme), é reservada a agressão, como aquelas das quais Abel foge na rua. A muitos, mas com maior força às minorias geralmente pobres, a modernidade reservou coisas como vícios, uma alimentação que por vezes incluía até mesmo a carne de cavalo do filme e os serviços mais insalubres e pior remunerados, quando não situações como a prostituição a que foi impelida Manuela.

A cena em que se toca charleston alterna-se com imagens em preto e branco de uma multidão desanimada, símbolo da apatia obscura dos anos 1930 e da necessidade que as massas têm, após a crise de 1929, de que alguém faça a “revolução” por elas. Às mesmas não foi difícil incutir o sentimento antissemita e a ideia da desigualdade entre fortes e fracos, que faziam parte do programa de eliminação das minorias dos Estados-nações, entre elas os judeus, considerados “inassimiláveis”. (10) Os projetos da modernidade caracterizam-se por uma busca pela racionalização da sociedade, que beneficiou apenas uma minoria que inclui os pioneiros das grandes empresas tecnológicas geralmente voltados para a destruição e a guerra. Tal fusão de empobrecimento, desumanização de minorias e progresso tecnológico também trouxe as experiências com seres humanos, que também vitimarão Abel e Manuela e que atrairão “cobaias” que faziam qualquer coisa em troca de um pouco de dinheiro e comida. Adolf Hitler, lembrado nas referências à revolta em Munique, seria mais tarde o “salvador” daquelas massas por catalisar o sentimento delas e tornar política de Estado a ideia antes privada de “exterminar o inferior e aumentar o útil”, fazendo nascer a “serpente”. Em outras palavras, a indiferença da sociedade para com a violência contra os marginalizados, mostrada na depredação do cabaré pela juventude nazista, já preparava o cenário histórico-cultural para a ascensão do ditador, o que faz Zygmunt Bauman falar em “cooperação por omissão”. (11)

Assim, para Bauman, o Holocausto não é uma anomalia, mas uma consequência da modernidade, e mesmo que a ascensão desse projeto na Europa não fosse inevitável, condições sociais, políticas e econômicas favoreceram-na e tornaram-na um fenômeno único. O antissemitismo alemão, cujas raízes, portanto, não são longínquas, diferencia-se de outros racismos por não se basear em fenótipos, mas no fato de que os judeus são um povo sem pátria e “inassimilável” ao “corpo” nacional. (12) Todavia, o antissemitismo na França e na Inglaterra era mais forte do que na Alemanha, na qual os judeus viviam uma assimilação que data do século 18, mas que os mantêm separados do resto das pessoas. (13) De fato, mesmo não parecendo externamente um judeu, Abel é considerado parte da minoria judaica, o que é bem indicado pela profissão de sua família, que se dedica ao circo e não tem uma nacionalidade fixa. Mesmo assim, criou-se o mito do “judeu conceitual”, do judeu perigoso que não compartilha do sentimento nacionalista e que, por ascender econômica e intelectualmente, é visto como “explorador dos trabalhadores”, “causador das crises econômicas” e “conspirador para a dominação do mundo”. Essa figura, criada na ânsia de se estabelecer novas fronteiras após o nivelamento geral da sociedade no século 18, foi bem recebida no contexto crítico da Alemanha da década de 1920 e ajudou na “colaboração por omissão”. (14) A culpa que Manuela sente pela morte de Max mostra o sucesso da naturalização desse modelo, inculcando fortemente uma responsabilidade que só podia ser dirimida com o perdão “espiritual”. A febre proporciona-lhe o único momento para sonhar acordada, em outras palavras, pensar em um mundo alternativo que a retire da péssima situação em que vive. Já Abel responsabiliza os próprios judeus por se meterem em “encrencas”, mas ele mesmo, em meio à crise, degrada a própria saúde e o próprio comportamento com bebidas, brigas e relações sexuais com prostitutas.

A análise histórico-cultural da modernidade mostra a grande influência da elaboração de conceitos na ação das pessoas na sociedade e a periculosidade que ela pode ter se voltada para fins destrutivos ou não afirmativos. A história do nacionalismo é a história da construção de identidades adaptadas a novos tempos em que a vigente racionalização das relações sociais visava à construção de um mundo perfeito. As relações imperiais de lealdade e hierarquia foram suplantadas pelas identidades baseadas na cidadania universal e na igualdade, que queriam unificar grupos humanos dentro de uma cultura e um passado comuns. Contudo, como projetos de homogeneização humana tendem a ser excludentes, a edificação de Estados-nações criou uma legião de “rejeitados” que sofreram a violência das perseguições e da ausência de um lar. Auxiliando a obscurecer esse quadro, foram ainda criadas teorias que procuravam naturalizar diferenças visivelmente contingentes na totalidade da existência da civilização humana. Assim, ironicamente, a era que procurou extirpar a barbárie da face da Terra apenas a perpetuou, deixando sequelas que ainda restarão entre as pessoas por tempo indefinido.


Bibliografia

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

GELLNER, Ernest. Nações e nacionalismo. Tradução de Inês Vaz Pinto. Lisboa: Gradiva, 1993.

MAZOWER, Mark. Continente sombrio: a Europa no século XX. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

OVO DA SERPENTE, O (Das Schlangenei/The Serpent’s Egg). Produção e direção de Ingmar Bergman. República Federal da Alemanha, EUA: Rialto Film, Dino De Laurentiis Corp., 1977. 1 DVD (119 min.).

__________________

Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) Ernest Gellner, Nações e nacionalismo, Lisboa, Gradiva, 1993, p. 87-88.

(2) Mark Mazower, Continente sombrio: a Europa no século XX, São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 52-59.

(3) Hannah Arendt, Origens do totalitarismo, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 300-302, 315 e 327-328.

(4) Mark Mazower, op. cit., p. 54 e 69-73.

(5) Hannah Arendt, op. cit., p. 305-306.

(6) Ernest Gellner, op. cit., p. 89.

(7) Hannah Arendt, op. cit., p. 149-150.

(8) Mark Mazower, op. cit., p. 68-69.

(9) Ernest Gellner, op. cit., p. 90-91 e 97-98. Hannah Arendt, op. cit., p. 324-325, também afirma a importância da Revolução Francesa na “dissolução do homem como membro do povo”.

(10) Mark Mazower, op. cit., p. 70, 79-80 e 82.

(11) Zygmunt Bauman, Modernidade e Holocausto, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, p. 52.

(12) Ibidem, p. 51-53 e 78-82.

(13) Ibidem, p. 66-67.

(14) Ibidem, p. 73-78.




24 de setembro de 2019

Fishuk pós-moderno: fichamento 2008


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Quando cursei a disciplina Teoria da História III na graduação da Unicamp, no primeiro semestre de 2008, a Prof.ª Dr.ª Margareth Rago nos introduziu aos autores chamados genericamente “pós-modernos” ou “pós-estruturalistas”. Entre as décadas de 1960 e 1980, eles fizeram basicamente uma crítica da razão ocidental e do conceito consagrado sobre ciência que ela sustentava, trazendo novamente à tona os problemas da verdade, da narrativa e das convenções sociais. Esse panteão foi muito atacado pelos historiadores e marxistas tradicionais, pois estariam relativizando toda concepção previamente adotada sobre o fazer científico e aproximando a redação acadêmica da fluida literatura comum. Mesmo assim, gostei muito dos debates desafiadores promovidos em aula e de fazer o fichamento abaixo, datado daquele 27 de março, sobre um dos textos da coletânea que vou citar e da qual a leitura foi muito agradável. O texto não alterado tem apenas algumas atualizações na redação:


BENATTI, Antonio Paulo. História, Ciência, Escritura e Política. In: RAGO, Margareth; GIMENES, Renato Aloizio de Oliveira. Narrar o passado, repensar a história. Campinas: Unicamp, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2000, p. 63-103. (Coleção Idéias, 2.)


1. Ao analisar as teses e dissertações acadêmicas e livros com orientação científica, nota-se a “feiura” das ciências humanas advinda da oposição acadêmica à escrita literária, o que gera exclusões injustas. Na distinção de Barthes entre escritores (linguagem como meio e fim e como palco e alvo de perguntas) e escreventes (linguagem como instrumento e meio de fornecer respostas), os historiadores seriam escreventes, o que é fruto de uma “cultura cientificista” que culminou no século 19, na busca de dar estatuto científico à história. Com a crise dos modelos que sustentavam essa ideia, retornaram questões como o estatuto do discurso histórico, a neutralidade, a natureza do documento e o “retorno da narrativa” na escrita de uma história sem “dogmáticas cientificistas”. Mas como sua “cientificização” afastou-lhe a narrativa? (pp. 63-66).

2. A oposição entre “fábula” e “história” começou com Heródoto e passou por Aristóteles, marcando o “ideal de conhecimento da historiografia ocidental”. Ela continuou com Voltaire, que tentou racionalizar a escrita da história, que por dever narrar o verdadeiro, exige o uso de documentos e arquivos e o afastamento dos elementos da fábula, e inovou com a “ideia de cientificidade para a história”, a ser construída com o mesmo “método universal da razão” usado na natureza. Assim, a “vontade de verdade” iluminista agravou o afastamento da narrativa, mas talvez essa pretensão científica já se encontrava no Renascimento (pp. 66-68).

O Ensaio sobre os Costumes (Voltaire, 1756) reflete a ideia da racionalidade como caminho ao conhecimento e a história como o percurso em direção a ela, não se recusando de imediato a narrativa, mas iniciando-se a separação entre o verdadeiro e o belo, que originou a “consciência histórica moderna”. No século 18, mudam as concepções de “arte”, produtora de efeitos estéticos na qual é posta a literatura, e de “ciências”, baseadas no “exame crítico da documentação” ou na “busca de ‘leis’ do mundo humano” e nas quais é encaixada a história. Recusada a fábula, a narrativa é afastada da historiografia dos séculos 19 e 20 e separam-se o texto histórico e o chamado hoje de “literário” (pp. 68-70).

3. Ranke apaixonou-se pela “beleza” dos fatos sem “invenção e fabulação”, pensando, como outros historiadores do século 19, que a subjetividade tirava a qualidade do relato fadado a ser concorde aos “fatos”, o que passava uma ilusória “relação imediata com o passado”. O historicismo alemão impôs o rigor dos métodos científicos de uma história livre do imaginário e sua extensão às “ciências auxiliares”, o que levou vários discípulos a desprezar a boa escrita e, no caso dos norte-americanos, sofrer críticas de Webb, para quem eles postulavam uma verdade “feita tão feia que ninguém duvide de sua virgindade”. O romantismo do começo do século 19, mesmo longe do racionalismo, contribuiu à crítica histórica que cientificizava a disciplina, o que prova uma continuidade entre os séculos 18 e 19 (pp. 70-73).

4. A Introdução aos Estudos Históricos (1898), de Langlois e Seignobos, modelo que influenciou várias gerações de historiadores, ataca, em prol da “exposição científica” dos fatos, a “bela escrita” e, como retrocessos, o subjetivismo de Michelet e o “renascimento literário” romântico. A história, em meados do século 19, teria passado de gênero literário a ciência, exigindo dos historiadores não visar ser lidos nem “reviver o passado”, mas aumentar o “patrimônio científico da humanidade”. Assim, baseados em uma crítica documental científica, em provas e longe da literatura, os historiadores deveriam descrever os fatos em ordem cronológica tal como aconteceram, por uma linguagem livre de paixão e imaginação para não se afrouxar o rigor científico, visando a “neutralidade” e a “objetividade” (pp. 73-76).

5. No século 20, os historiadores marxistas e os ligados à Escola dos Annales criticaram a “ingenuidade epistemológica da história factual”, mas ainda rejeitavam a escrita literária. Os segundos, por muito tempo, viram a história como uma “semiciência” que deveria rejeitar a “rotina erudita” e o “empirismo”, posição que incentivou uma renovação guiada pela recusa do “dogmatismo científico” e traduzida especialmente no aperfeiçoamento da pesquisa, na nova visão sobre o documento e na interdisciplinaridade. Eles opõem, à “história-narrativa”, a “história-problema”, mais próxima da ciência, sendo aquela ruim pela proximidade com o jornalismo e pela ênfase no “tempo curto”, na “ação de seres excepcionais” e nos fatos “sem humanidade”. A história dos Annales na longa ou longuíssima duração, voltada a “processos anônimos e coletivos” e “mais quantitativa, serial e largamente matematizada”, eclipsou o acontecimento e recusou a ação “meramente descritiva e literária” (pp. 76-79).

Os marxistas criticaram a história narrativa por ligar-se às concepções históricas das classes dominantes e não dar conta das “leis dos processos dialéticos da história” nem da complexidade da luta de classes que a move. A história marxista, a única “científica”, deveria buscar o porquê visando à transformação da realidade ao transpor os limites universitários e escolares. Mas essa historiografia fez-se muito acadêmica e hermética, sendo sectária ao tentar atingir as pessoas comuns (pp. 79-81).

No século 19, para uma história científica, elaboraram-se métodos de crítica, modelos, teorias e leis, e excluiu-se a literatura até a década de 1980 devido a uma “ordem do discurso” excludente. A “inspeção rigorosa das fontes”, a “crítica dos documentos” e a interdisciplinaridade teriam abrigado das fábulas e da literatura a história da modernidade. Mas deixar em segundo plano a “estrutura narrativa” e aplicar métodos científicos semelhantes aos das ciências naturais não afastou a história da ficção, pois mesmo sem se pensar na forma, é impossível nunca se preocupar com ela (pp. 81-82).

6. Notou-se o retorno da narrativa (não linear e factual, mas ligada ao conteúdo e ao método) na história, devido ao ocaso dos grandes modelos explicativos, o aumento do público leitor e a recusa da pura quantificação de dados, mas, aceso o debate entre prós e contras, pode-se dizer que não foi um simples “retorno”, mas um reconhecimento, pois, com a “crise da ideia de ciência”, viu-se que todo saber produz sentido e tem caráter retórico. A modernidade não reconheceu o retórico na argumentação científica, depois descoberto como “presença generalizada de relações de poder em todos os tipos de interações” (pp. 82-84).

A narração escrita é inerente à história e foi camuflada para lhe dar caráter científico, mas o sujeito neutro e objetivo é uma produção histórica, portanto a idéia de história como ciência também o é. Deixou as melhores obras quem escapou da dicotomia “forma versus conteúdo”, que trouxe prejuízos à historiografia, provando que os dois são inseparáveis e insubordináveis entre si. Hoje, a historiografia soma retórica e estilo aos procedimentos científicos e não se preocupa com o subjetivismo (pp. 84-86).

7. Na discussão acadêmica sobre o conteúdo e a forma, o “caráter narrativo, retórico e poiético de todo o discurso”, constaram-se a crise epistemológica, o retorno da literatura e o fim do apego ao objetivismo na história, após um século de cientificismo. Mas a crítica à história-ciência é bem anterior, pois Anatole France qualificou o fato histórico como escolhido pelo historiador, o que exige sua imaginação, sendo a história uma arte ou, para Saramago, uma farsa, pois montada por “leitura baseada na bagagem social e individual” e predominantemente masculina, tendo sido diferente se escrita pelas mulheres e excluídos (pp. 86-89).

A crítica pós-moderna da verdade histórica e da racionalidade ocidental denunciou a história como eurocêntrica, “masculina, branca, adulta e heterossexual” e extintora das diferenças, não se negando que o passado existiu, mas que se pode ter dele um conhecimento exato. Valorizar a ciência sobre a arte como forma de conhecimento é algo cultural e histórico que “não é alheio às relações de poder intra e entre sociedades”. Buscar a objetividade histórica liga-se à literatura realista do século 19, unida à teoria de que o texto reflete a realidade, quando, na verdade, ele mesmo é produtor de significado, e hoje a diferença entre “real” e “imaginário” na história é problemática, pois nada garante que os documentos sejam “elementos pré-textuais, empíricos”. Os “pré-conceitos” do historiador intervêm no documento, que é um “vestígio textualizado do passado” e não, como a linguagem, “a matéria bruta do discurso histórico” (pp. 89-91).

8. Em especial marxistas acusaram de modismo, “irracionalismo” e mantenedora da ordem capitalista a desconstrução dos temas tradicionais feita pela nova historiografia, cujos adeptos se distanciariam do compromisso social e da “totalidade da Grande História”, submissos ao mercado editorial e à mídia. Essa reação autoritária e excludente refere-se à lógica binária da divisão entre marxistas e não-marxistas, esquecendo que se preocupar com a forma é repensar o que são poder e política e politizar a linguagem e a forma que ela assume no discurso acadêmico (pp. 92-93).

Os pós-modernos abalaram a “crença ingênua na ciência”, as “metanarrativas emancipatórias” e a noção comum de política, ao supor que o poder não está em um centro, mas em todos os lugares, difuso, inclusive, na linguagem. As análises de historiadores sobre a linguagem muito se atêm ao seu conteúdo, e não à sua forma, não servindo de “metalinguagem”, pois politizar o discurso é ver o poder na linguagem, poder que não é unitário, monolítico, mas difuso nos “mecanismos de intercâmbio social” (pp. 93-94).

Na produção histórica, reservada a uma “elite cultural”, o poder está no uso de um jargão próprio e nas práticas que constroem o conjunto de textos “verdadeiramente históricos”. A palavra “história” designa, entre outras coisas, a narração feita pelos historiadores, que, poderosos por serem “sacerdotes da memória”, não deixam de ser subjetivos, mas cegados à questão da linguagem e dos poderes (pp. 95-96).

Mesmo com a volta da “bela escrita” à história, o prazer estético não deve ser seu fim, mesmo não sendo dispensável, pois se deve problematizar a linguagem para se criticar a noção de verdade. É preciso notar “o aspecto político de toda escritura” para se debater a “questão da narrativa histórica”, pois a crítica da aliança do discurso da história com os poderes não deve ser feita na busca da “posição político-ideológica do autor” só no conteúdo, mas também na forma, que por vezes é inversa a ele. Chamam-se os “novos narrativistas” de desengajados, mas não são despolitizados, pois “escrever é comprometer-se”. A história, que tem sua razão de ser nas perguntas feitas pelo presente ao passado, refletiu as mudanças na sociedade contemporânea e pode driblar a influência do saber-poder na subjetividade dos historiadores por meio da escritura que cria “acontecimentos na linguagem” (pp. 96-99).

9. Os novos historiadores criticaram, como os literatos, a escrita esotérica e pretendem tornar seu discurso mais aberto, sem tirar-lhe sua capacidade analítica, a um público maior e culto que pode satisfazer-se com ele e acompanhar os progressos da área. A busca pela verdade é uma construção histórica que atende demandas que não são mais as de hoje, quando se deve superar a “separação entre forma e conteúdo”, sem se ver isso como regra devido à particularidade dos textos, que não representam verdades absolutas. A história, pelo prazer e contra o poder, deve deixar as “identidades universais” e centrar-se nas diferenças, sem largar os problemas postos pelo presente, conquistando o público culto, e não a academia (pp. 99-102).

No Brasil, deve-se e quer-se ampliar o público leitor, afastando a idéia de que fora da academia todos são “burros” e assumindo que “para escrever [...] é preciso pelo menos dois”, sem escrever em uma linguagem que se suponha “de todos”, mas lidar com a diversidade dentro do idioma mantendo a qualidade do conteúdo. A literatura e outros experimentos de escrita ajudam a lidar melhor com a descontinuidade e a desconstrução da história atual, garantindo-lhe vitalidade (pp. 102-103).




22 de setembro de 2019

Dicas de redação aos pós-graduandos


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Enquanto estive na graduação em História, fui reunindo algumas dicas de redação dadas pelos professores, partindo de uma lista inicial que anotei conforme as advertências públicas do Prof. Sidney Chalhoub, e que chamei “Dicas para trabalhos”. Somando algumas coisas que vi ainda na graduação e que depois também transcrevi desde 2012 assistindo a defesas públicas de pós e em aulas do meu próprio mestrado e doutorado, formei também um documento chamado “Dicas e observações a serem seguidas conforme assistência a defesas de tese e dissertação”, mais voltadas a pós-graduandos e focadas em aspectos lógicos. Como não atualizo os textos há alguns anos, decidi enfim os unir numa só postagem pra utilidade pública, e mesmo que o foco tenham sido as ciências humanas, também podem inspirar outros pesquisadores. A primeira lista citada está marcada por itens não numerados, e a segunda tem itens numerados.


Como fazer resenhas:

  • Esboço da biografia do autor, enfatizando sua formação acadêmica e produção intelectual; contextualização de quando surgiu o texto, indicando (se possível) as circunstâncias históricas que influíram em sua produção.
  • Resumo da obra e dos capítulos, incluindo o prefácio ou a introdução.
  • Análise que deve se deter nos objetivos, na tese e nos referenciais teóricos, especificando os conceitos, categorias, pressupostos, método e metodologia.
  • Avaliar o alcance e as limitações dos objetivos e tese propostos.
  • Avaliar a influência e a contribuição para a área de conhecimento visada.
  • Evitar prolixidade no primeiro parágrafo: dizer apenas qual o tema e o argumento.
  • Evitar rótulos: “O autor que pertence à micro-história” etc. Usar o que entendeu com a perspectiva teórica usada.


Dicas de redação:

  • Evitar verbos comuns na introdução, como “tratar-se”, “colocar”, ou ainda “onde” sem se referir a lugar, ou “em cima de”.
  • Não fragmentar demais o texto com parágrafos curtos.
  • Não emendar diversas ideias numa só frase longa.
  • Evitar citações literais demais, principalmente se forem pouco comentadas. Deve-se destacar a citação literal que possui mais de três linhas (letra menor e recuo de parágrafo em todas as linhas), mas não deve ser usada pra resumir a ideia do autor. O escritor é quem deve comentar, devendo interpretar em detalhes o que disse o autor.
  • Distinguir “ao encontro de”, que indica aproximação, de “de encontro a”, que indica oposição, choque.
  • Citar no texto os autores trabalhados em ordem cronológica de publicação (por exemplo, não falar que “Bertrand Russell acha que... etc. Neste ponto, Voltaire concorda com Russell, pois diz que... etc.”).
  • Evitar estrangeirismos ou palavras estrangeiras demais e, caso elas sejam inevitáveis, devem estar em itálico.
  • Em documentos antigos, pode-se atualizar a ortografia, desde que se avise no início da obra, mas nunca se deve atualizar a pontuação.
  • Jamais colocar uma citação literal em itálico, a não ser que ela já esteja assim no original.
  • Evitar repetição excessiva de palavras num intervalo pequeno.
  • Ao citar o autor, quando não se usar seu nome inteiro, usar o último sobrenome, nunca apenas o prenome. (Cuidado com sobrenomes espanhóis: eles geralmente são citados, tanto no texto quanto em notas e na bibliografia, em sua totalidade, porque o último geralmente é o sobrenome da mãe; por exemplo, María Cortés Alonso; Cortés Alonso; CORTÉS ALONSO, María.)
  • Cuidado pra não dar a entender que você tem a mesma opinião do autor citado, quando na verdade você não tem.
  • Em notas de rodapé, “Idem” evita repetição de autor, e “Ibidem”, de autor e obra. Não se precisa escrever “Idem, ibidem”, e nunca se deve escrever “Idem, idem” (leia aqui as regras completas de citação pela ABNT).


  1. O título, e especialmente o resumo, não devem ser enganadores quanto à natureza e ao conteúdo do trabalho, e sim reproduzi-los fielmente.
  2. Jogar discussões e ideias importantes pras notas de rodapé, assim como compor o texto num volume excessivamente grande, quando ele poderia ser bem mais sucinto, pode ser sinal de falsa erudição. Discussões importantes e esclarecedoras devem ser mantidas no corpo, e jogá-las nas notas consiste numa fuga em aprofundar ou até enfrentar a problemática, as partes ambíguas e os pontos obscuros.
  3. A introdução também deve ser fiel ao teor e ao assunto do texto, e não deve ser um emaranhado de elucubrações descontextualizadas, assim como o próprio desenvolvimento deve corresponder às expectativas geradas pela introdução, especialmente pela tese central, sem se perder em muitas digressões, extensões desnecessárias e abordagens que fogem do tema e do problema.
  4. Cuidado ao tomar certas categorias e conceitos como pressupostos ao leitor, ou mesmo à banca: às vezes podem se utilizar palavras, termos e fatos que são óbvios (ou mais ou menos óbvios) ao autor, mas que, pro observador neutro, exigem o esclarecimento em outras fontes, quebrando, assim, o caráter orgânico e autossuficiente do texto. Conceitos não devem ser usados de forma solta, devem ser bem definidos e ter apenas um significado ao longo do texto inteiro.
  5. Tomar cuidado com estrangeirismos, devendo-se sempre encontrar um equivalente na língua do texto, mesmo que se tenha trabalhado com esse(s) termo(s) longamente durante a exploração de fontes em outras línguas, e atentar igualmente pra que o contato constante com outras línguas durante a pesquisa não afete a correção da língua do texto.
  6. Sempre ler todo o trabalho mais uma vez, mesmo após o orientador ter corrigido todos os capítulos em sequência.
  7. Na hora da defesa da tese ou dissertação, mesmo que o ambiente (banca, plateia) seja familiar, evitar a linguagem coloquial e expressões que se desviam muito da norma culta, ainda que plenamente aceitáveis em conversas informais. Exemplos: “Duvido de que”, “Por causa (de) que”, “A coisa metodológica”, “A coisa dos dados” (ao invés, por exemplo, de “A questão metodológica/O problema metodológico”, “A questão/O problema dos dados”), “Pensar de como”, “Contente de que” etc.
  8. Se forem usadas entrevistas, é interessante mostrar, mesmo que em anexo, dados detalhados sobre as pessoas entrevistadas, as perguntas feitas, as datas das entrevistas etc.
  9. Os números não dizem tudo: especialmente em pesquisas históricas ou sobre participação política, deve-se dar a eles uma interpretação qualitativa, saber como eles se refletiam na vida real das pessoas.
  10. Em estudos de política, especialmente de política partidária, e principalmente em casos de um ambiente personalista, diferenciar, quando possível e necessário, as pessoas das agremiações, uma grande liderança partidária do próprio partido. Avaliar em cada caso se é possível ou não fazer essa distinção.
  11. Cuidado com os descuidos da correria e da pressa em escrever o texto: repetições de dados ou de argumentos, imprecisão nos números e nas referências, troca de números, legendas, referências ou dados, erros de português etc.
  12. Tomar cuidado com modelos teóricos e metodológicos diferentes: não os misturar muito (quando for possível alguma “mistura” ou diálogo, claro), não os usar juntos por muito tempo no texto e combiná-los com cuidado (especialmente os modelos metodológicos).
  13. Não misturar, em hipótese alguma, preferência político-partidária particular com relato, dados e conclusões do texto, afetando, assim, sua objetividade.
  14. Não ser excessivamente prolixo antes de chegar ao ponto central do texto, ao argumento principal. Ir direto ao ponto, sempre que puder.
  15. Não deixar ou assumir como implícito o que deve estar explícito, especialmente pra quem não conhece o assunto do texto.
  16. Não transferir paradigmas entre áreas de análise ou conhecimento diferentes, quando isso se mostrar problemático. Por exemplo: geopoliticamente, um país pode ser considerado uma potência, mas economicamente, não.
  17. Tomar cuidado pra não adotar a definição de conceitos sobre uma época ou sobre elementos dela feita por um ou outro personagem de então, especialmente se ele se opunha aos defensores do conceito. Por exemplo: adotar como pressupostos do texto definições sobre o protestantismo no século 16 feitas por um jesuíta de então, que se opunha ao protestantismo. Além disso, conceitos e/ou práticas com o mesmo nome em várias épocas podem não significar a mesma coisa: por exemplo, “política” e “liberdade” podem ser coisas diferentes nos séculos 18, 19 e 20, ou em lugares diferentes. Também não dá pra pensar experiências políticas do século 18 no Ocidente com as mesmas categorias do século 20 (Estado provedor de serviços, combate à corrupção, partidos, sindicatos, separação de poderes, “sociedade civil” etc.), mas nem por isso se pode considerar essas experiências como “menos políticas” ou “apolíticas”. Outro exemplo: revoltosos de outras épocas, ao contrário dos de hoje, podem não querer “mudar o mundo”, tomar o poder ou traçar planos pro futuro (ideia de devir).
  18. Cuidado ao “cunhar termos” que não têm uso corrente ou mesmo lastro nas análises empíricas ou na realidade. Verificar se um determinado conceito ou objeto já tem uma denominação adequada à situação de uma dissertação ou tese. Deixar pra “cunhar termos” em ocasiões e discussões específicas ou propícias, e não em defesas de grau.
  19. Ler muito e se informar muito (livros, sites, revistas, documentos primários e até debates nas redes sociais) sobre o tema de sua pesquisa ou temas circundantes, pra não chegar na hora de explicar seu trabalho e não saber nada. Especialmente, ter sempre na cabeça o que se pesquisa, reler constantemente o projeto de pesquisa e as anotações importantes com ideias pra pesquisa etc.
  20. Escrever um trabalho com caráter crítico, sem pretensão de neutralidade, construindo uma historiografia interpretativa, e não descritiva. Contudo, isso não autoriza a tecer julgamentos de valor, especialmente se valendo de binômios, dicotomias, muito menos, acriticamente, das categorias utilizadas pelas próprias personagens, do tipo “é bonito”, “é feio”, “é bom”, “é ruim”, “é vivo”, “é amorfo”, “é arcaico”, “é moderno” etc. Ser objetivo não implica em não ser tendencioso, e se você é tendencioso, não deve disfarçar isso, e sim assumir.
  21. Quando se transcreve uma entrevista, é melhor fazer um copydesk dela, ou seja, polir o texto pra não cansar o leitor, não ficar repetitivo, titubeante, e sim o deixar mais corrido e menos oral.
  22. Atentar a outras disputas que possam estar por trás das principais estudadas. Por exemplo, uma disputa sobre um conceito artístico ou pedagógico pode ocultar outras disputas políticas, econômicas, sociais etc.
  23. Não fazer “colagens” de citações pra montar o texto, não “escrever pela boca do outro”, apenas emendando citações com alguns comentários.
  24. Não lidar com suposições ou sugestões em eventos históricos, pois isso indica falta de rigor lógico: “provável influência de X em Y”, “talvez A pensou em fazer B” etc.
  25. Pesquisar precedentes de um objeto histórico antes de dizer que ele era sem igual. Por exemplo, dizer que algo era “inovador”, “novo”, “inédito” ou “diferente de tudo” sem saber se já não havia antes, se alguém já tinha feito etc.
  26. Sempre levar em conta, na redação de textos acadêmicos (também artigos), a possibilidade de sua leitura por leigos no assunto. Por isso, deve-se sempre explicar as categorias, e não fazer uma “conversa pra entendidos”.
  27. Explicitar a contribuição objetiva de seu texto acadêmico pro avanço do conhecimento, e não justificar a pesquisa apenas como “porque gosto”, “porque tem pouco estudo”, “porque é interessante, instigante ou fascinante” etc.
  28. Precisar os sujeitos focados no trabalho, especialmente em Humanas, e não mudar de repente de portuários pra operários, e daí para camponeses etc.; explicar o contexto geral em que eles se inserem ‒ época, lugar, país, idade, partido, província, contexto internacional etc. ‒ pra não dar a entender que são tratados com algo solto, isolado.
  29. Especialmente em Humanas também, não basta se ater à visão que as instituições tinham sobre os sujeitos, como se fossem coisas dadas; instituições que podem ser o Estado, uma organização internacional, um partido, o voto, o congresso de um organismo etc. Ver ou deduzir sua recepção pelos sujeitos, o impacto nas pessoas, como elas liam ou adaptavam essas coisas.
  30. Embora isso deva ficar pra etapas mais posteriores da pesquisa pra trabalhos de grau (ou mais vagamente, no começo), reforçar o arcabouço teórico e metodológico: ter reforço teórico, dominar a teoria, mas não a petrificar, transigir com ela, não se render a ela, mas dominá-la e utilizá-la a seu favor. Não adiantar, contudo, a ideia, teoria, metodologia ou conceito antes da pesquisa empírica, a qual deve dar a palavra final sobre os conceitos, categorias e explicações. No mínimo, essa relação deve ser dialética (empiria e conceitos se moldam mutuamente), mas o importante é nunca inventar os conceitos do nada, sem ter material de pesquisa. Por vezes, a explicitação teórica pode depender da destinação do texto: algumas agências de fomento (projetos de pesquisa) e revistas especializadas, por exemplo, exigem declaração inequívoca do quadro teórico e metodológico em que ele se insere, ou pelo menos a explicitação de algumas categorias e conceitos; porém, em outros casos de maior liberdade, alguns pressupostos podem estar fundidos no relato e na exposição de resultados, ou em como esses dois elementos se articulam.
  31. Definir bem no texto a perspectiva (categorias) da qual se vê os objetos: classe, cultura, experiência, história política, partido, sofrimento etc.
  32. Aproveitar-se bem dos recursos literários disponíveis na hora de escrever: boas palavras, narrativa fluida, evitar hermetismo ou eruditismo, usar elementos de outras áreas de modo crítico (teatro, literatura etc.), e sobretudo atentar ao público certo ou provável do texto, adaptando com isso a linguagem e as figuras de linguagem usadas. Ou ainda, adotar uma linguagem intermediária, especialmente se é um público culto amplo, e não, por exemplo, crianças, adolescentes, trabalhadores comuns etc.
  33. Especialmente em história, a parte essencial da pesquisa e do texto acadêmico é a crítica à historiografia anterior sobre o assunto tratado. Não precisa ser sempre uma “crítica destrutiva”, mas esse diálogo, seja pra corroborar ou contestar, é fundamental. Deve-se conhecer o que já foi produzido antes.
  34. Não interpretar apenas o que foi dito pelas personagens históricas, mas também o que não foi dito, ou seja, os silêncios. As lacunas nos discursos devem ser buscadas em tudo: documentação, bibliografia, escritos teóricos (falhas e lacunas lógicas), palestras, discursos políticos, leis, entrevistas, memórias etc.
  35. Avaliar o impacto real de seu objeto (ou “sujeitos”) no contexto estudado (Estado, vida de alguém, associações políticas): um partido ou uma ação militante, por exemplo, tiveram efeito na aprovação de leis? Uma manifestação ou um movimento popular tem o potencial de derrubar governos?
  36. Ao ler bibliografia secundária, levar também em conta a origem e a finalidade desses textos: acadêmico, popular, pra um público restrito, vulgarização, teorização/pesquisa empírica, militante, pra um partido, fora da universidade ou contra ela etc.
  37. Em qualquer texto acadêmico, mesmo projeto, o que deve ser tocado e atacado/criticado são os argumentos dos interlocutores, e não as pessoas deles, mesmo que suas visões pessoais (geralmente incidentes sobre os argumentos) sejam racistas, machistas, xenofóbicas etc.
  38. Não generalizar estereótipos consagrados sobre uma classe ou grupo de pessoas, especialmente em história, e especialmente quando uma dada situação permite diversos desdobramentos, variedades: “uma história, um contexto”; “toda história tem um contexto”. Sempre admitir exceções e flexibilidades, ainda que dentro de um leque limitado de possibilidades.
  39. Na hora de escrever, ter consciência dos momentos em que se lida com estruturas ou com superfície, com economia ou com cultura, com teoria ou com empiria. Buscar tomar cuidado pra não ficar apenas em uma ou outra dimensão achando que está sendo abrangente: o ideal é dosar as duas, ir e voltar de uma pra outra dialeticamente e saber, na hora de escrever, quando se está em uma ou outra, embora pro leitor esses dois momentos possam não ser imediatamente distinguíveis, mas que ele pode discernir pela razão (trabalho que o escritor, claro, deve facilitar, mas não dar de bandeja).
  40. Em história social, os sujeitos não devem aparecer tanto ou só como nomes de pessoas, indústrias, ruas, cidades, partidos etc., mas até mais ou também como relações (tráficos, comércio, modo de vida, contrariedades, redes de solidariedade, resistência etc.).
  41. Problematizar recortes nacionais, especialmente quando em épocas antigas eles não são bem definidos. Quando se estuda a história a partir do meio do século 19 em direção ao 20, os limites nacionais são importantes, mas a análise também se enriquece com a criação de outras conexões: várias regiões, vários países, uma zona linguística, um continente, uma trajetória de viagem fixa ou não (itinerários de navios, rotas mercantis etc.) ou até mesmo um oceano (“história atlântica”, tráfico negreiro atlântico etc.).
  42. Problematizar a escolha de sujeitos, ou a centralidade em um ou mais sujeitos, quando se constrói uma narrativa. Por exemplo: quando se pode, deve ou é melhor escolher, ou quando simplesmente se escolhe aleatoriamente, uma pessoa, um sujeito, pra se descrever uma associação, época, classe, país, profissão ou outra teia coletiva? Quando esse sujeito é representativo do grupo (ou grupos) mais amplo? Tal procedimento é possível quando se tem muitas fontes escritas sobre esse sujeito, ou quando não se tem nada e se precisa rastrear resquícios, ou mesmo quando se tem muita coisa sobre vários sujeitos de um grupo, mas é impossível trabalhar todos, devendo-se escolher alguns. Também problematizar a escolha ou escolhas: por que só um sujeito, por que esse sujeito ou esses sujeitos etc.?
  43. Problematizar o destinatário ou a destinação a que foi dirigido um documento (também carta, livro etc.), porque é escrito de forma bem diferente quando não é destinado (ou não se pretende) a ser público e quando se produz algo pra que outras pessoas ou certos grupos também leiam: quando o autor ativa o “filtro” de informações pra tornar o documento público, é esse filtro que o historiador tem que achar e, assim, ler o documento público conforme seus silêncios e omissões. Uma pessoa “biografável” (modernidade, séculos 19-20, que deixou vários registros escritos) tem um controle muito mais consciente daquilo que ela escreve do que uma pessoa “não biografável” (que se supõe não deixar escritos públicos nem se tornar uma figura pública, ou alguém que não deixa documentos, ou não os deixa regularmente).
  44. Não existe “fonte a priori”, ou seja, um documento, um escrito ou outro objeto que por definição seja considerado ou rejeitado como fonte documental histórica. Tudo vai depender da lente e das perguntas que o historiador faz (com intercurso da imaginação), e daí muita coisa que não é vista como fonte pode virar um acervo extremamente rico. Ou às vezes tem coisas que podem não ser mais fontes, dependendo da pergunta. E mesmo a questão dos recortes temporais, espaciais e temáticos, embora possa em parte ser definida pela razão e pelas leituras bibliográficas prévias, às vezes também é um “fazer-se”, é definida durante a lida com a documentação. E mais: não é só isso, mas também o jeito e o tema de trabalho particulares de cada um, que definem se é melhor ler superficialmente muitos documentos (recorte amplo) ou devagar um número mais restrito (recorte estrito, menor); mas às vezes isso depende também da habilidade do historiador, que tem que se autoconhecer, conhecer tanto suas habilidades quanto seus interesses, pra saber se consegue ler mais rápido ou devagar, o que o interessa ou do que mais gosta etc.
  45. Ao se lidar com leis, mas também, por exemplo, com documentos normativos de Partidos Comunistas e organizações semelhantes, lembrar que nem sempre o que está escrito é praticado, ou seja, a lei nem sempre reflete a realidade, e vice-versa. Deve-se sempre comparar a teoria pregada na lei ou na norma com as práticas efetivas e observáveis. O caso clássico é o da proibição do tráfico de escravos no Brasil, que não impediu que ele continuasse, impunemente.




20 de setembro de 2019

Atitude do historiador para com fontes


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Pequena postagem (“textão”, rs) que publiquei na aba Comunidade da minha TV Eslavo (YouTube), seguida de comentários e das minhas respostas, com algumas adaptações na redação.

Pra fazer historiografia precisamos apenas de duas coisas: 1) Fontes primárias; 2) Leitura crítica das fontes. Quando a faculdade de História é boa, ela nos treina assiduamente nesses dois pontos, mas uma cultura geral e uma erudição amplas são pré-requisitos essenciais do bom historiador.

Muitos escritores, jornalistas, filósofos, amadores etc. fazem obras “históricas” que justamente não seguem aqueles dois preceitos. Quase sempre acontece de consultarem fontes de “segunda mão” (como chamamos a historiografia em si, em contraponto às “fontes primárias”, mas sem juízo de valor), fazendo copia-e-cola de várias delas, sem mesmo pensarem em como se chegou a tais conclusões. (Por exemplo, adotam o pressuposto ideológico do historiador, do qual nenhum pode se livrar, mas ignoram o raciocínio lógico que levou ao texto final.)

Outra hipótese, cada vez mais viável, é terem acesso a fontes primárias/documentos, mas simplesmente copiarem o que está escrito, sem levar em conta contexto, autor, omissões, entrelinhas, pertencimentos etc. Ou seja, é o célebre empirismo presente tanto em positivistas quanto em marxistas ortodoxos, no qual o historiador se dissolve na figura do simples “passador” de informações.

Agora, o pior escritor de todos é aquele que faz uma “obra histórica” se amparando em retalhos do segundo tipo de pesquisador, que nem sempre é historiador formado. Nessa categoria, em geral, se encaixa ainda o debatedor de internet a quem não basta ter opiniões ruins, mas também as defender com livros ruins.

Alguns esclarecimentos:

1) Reitero a diferença não valorativa, ao se redigir um texto histórico, entre “fontes primárias” (documentos) e “fontes secundárias” (obras de historiadores). O recurso exclusivo às segundas em geral só é totalmente aceito em ensaios e trabalhos de graduação, pois em teses e trabalhos mais sérios só vão servir de orientação pra ler outras fontes primárias e, a partir delas, aí sim criar um novo trabalho “secundário” original.

2) História “ideológica” (que não se confunde com partidarismo político) não é ruim, desde que haja uma decorrência lógica entre pressupostos, uso das fontes e conclusões. Ninguém se livra da ideologia, mas pode a controlar, porque não somos folhas em branco, e sim produtos de um meio e de escolhas que fazemos. Mesmo que não sigamos uma escola específica, ainda somos ideológicos, porque temos uma noção prévia sobre por que pesquisamos algo, por que privilegiamos certos aspectos (já que é impossível uma história totalizante) e até por que optamos pelas Humanas. Assim, história “neutra” ou conhecimento “sem ideologia” é algo que só existe na cabeça de quem não entende nosso ofício.

3) A historiografia atual ampliou enormemente a noção de “documento” ou “fonte primária”: ela não abrange mais apenas o papel empoeirado no arquivo, mas também música, dança, artes plásticas, entrevistas orais, folclore, mitologia, comida, vestuário, literatura popular (como os cordéis), filmes, novelas, propaganda e até mesmo gibis e revistas. Em suma, tudo o que sirva de “resquício do passado” é passível, dependendo da metodologia, de se tornar documento.


Internauta 1: Eslavo, no caso dos marxistas ortodoxos isso não se aplica. Qualquer marxista que se preze, ao ter acesso a uma fonte primária, irá fazer algumas perguntas: Quem a escreveu? Em que contexto? A qual classe social essa pessoa pertence? Quais seus interesses possíveis? Qual ideologia está embutida nessa classe? Até pegando, por exemplo, obras históricas do próprio Marx, como O 18 Brumário de Luís Bonaparte, fica claro que o marxismo tá muito longe de um positivismo metodológico, em especial pelo método do materialismo histórico, que difere bastante do positivismo. Por isso discordo dessa parte.

Resposta: Quando usei o termo “marxismo ortodoxo”, eu na verdade quis dizer “stalinismo”, nome mais correto pro que chamam de “marxismo-leninismo” (e às vezes misturam com “maoismo”). O que você chama de “marxismo” eu chamaria de “método de Marx”, já que as leituras de suas obras não foram unívocas. Quem inventou um negócio chamado “marxismo” foi exatamente a 2.ª Internacional, quando começou a erigir as obras de Marx numa visão de mundo integral e acabada, coisa que contou com o dedo do próprio Engels. E o “marxismo” social-democrata, sobretudo na Alemanha, era um troço absolutamente empirista, incluindo uma inevitável trilha linear pro fim mítico chamado socialismo. Em grande parte a Comintern herdou essa visão tosca, ainda por cima ligada à necessidade prática de legitimar ideologicamente a URSS, embora Lenin tentasse ir mais além. No século 20, houve muitas outras interpretações não comunistas de Marx e Engels, umas melhores que outras, é claro.


Internauta 2: Como um admirador do positivismo, prefiro um texto histórico imparcial acrítico a um crítico tendencioso. Mas é claro que o ideal é um crítico imparcial.

Resposta: Não há “crítica imparcial”, porque nunca alguém vai se abstrair de suas posições. E um mesmo intelectual pode até mudar de posição e pressupostos ao longo da vida. Existe uma diferença entre “selecionar” e “omitir”, que demarca o limite entre a crítica e a deturpação. Em história selecionamos (tema, cronologia, espaço, esferas da vida) porque é simplesmente impossível abarcar tudo: o conhecimento em constante crescimento, na verdade, implica monografias “parciais” que juntas formem um quadro mais ou menos fidedigno de uma época. Podemos omitir por incapacidade de abarcamento, mas não podemos esconder deliberadamente um elemento apenas pensando em legitimar uma conclusão decidida de antemão.

Seu texto “imparcial acrítico”, ao que parece, é uma mera narrativa de fatos, nomes e datas, mas isso é auxiliar, e não essencial na historiografia, cujo papel é justamente dar um sentido e articulação a esses fatos, nomes e datas. O que determina a importância histórica de um evento ou de uma personalidade política? Eles não têm essa característica de antemão, mas apenas dentro de uma rede na qual eles fazem sentido. E eu repito: toda crítica é tendenciosa, mas existem críticas boas e más, críticas fundadas e infundadas. A ideologia pode ser controlada, mas não extirpada, devendo-se saber quando nossos pressupostos acabam viciando os dados brutos. A história só evoluiu muito no último século porque aprendemos a fazer crítica de qualidade, embora nem sempre seja fácil (e é por não saber fazê-la que muita gente se diz “historiador”, achando que acumular dados já é história).

Adendo: Percebi que passei por alto quando ele disse que o ideal seria um historiador crítico imparcial. Pois bem, como vocês perceberam, isso é um paradoxo, pois pra mim toda crítica é parcial, toda crítica é “tendenciosa”, e o que valida a crítica são justamente critérios lógicos e epistemológicos, e não os pressupostos políticos do historiador.


Internauta 3: Só uma pergunta, Eslavo: como és poliglota, imagino que fales alemão. Percebo que utilizas dialética (ontologia relacional) quando falas do marxismo social-democrata, me parece que fazes um julgamento severo. Pergunto: já leste Franz Mehring, a carta de Engels a este de 14 de julho de 1893? Pois nesta Engels abona a interpretação de Mehring feita em seu O materialismo histórico. Gostaria até de te pedir um vídeo sobre Mehring, caso o conheças.

Resposta: Tenho poucas leituras propriamente teóricas, mas a própria social-democracia alemã da época não era um corpo unificado. Havia interpretações predominantes que faziam uma leitura determinista e empirista de Marx, enquanto outros obviamente destoavam da massa. Quanto ao próprio Engels, lembremos que alguns analistas dizem que essas tendências “positivistas” eram mais fortes nele do que em Marx, o que compromete a atualidade de obras como O Anti-Dühring e Dialética da natureza, por exemplo. E não, não sou fluente em alemão, e estou lutando pra suprir essa lacuna bem antes do meu exame de qualificação, hahaha.




18 de setembro de 2019

Os particípios verbais na língua russa


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Na época em que eu estudava russo na Unicamp, no final dos anos 2000, o professor Nivaldo dos Santos deixava uma pasta de xérox pra que copiássemos o material desejado ou necessário, em grande parte livros raros comprados diretamente da Rússia. Ele deixou que eu lá também depositasse um pequeno resumo sobre os particípios verbais da língua russa, conforme conteúdo que ele mesmo passou em aula. Por alguns anos andei distribuindo cópias em PDF a conhecidos e amigos, e eis que hoje me deparo com o arquivo digital no backup. Após eu mesmo ter postado aqui tanta coisa didática sobre o idioma, por que não enfim publicar esse valioso resumo?... Alerto que devido à concisão, ele pode não parecer didático em alguns pontos, portanto recomendo seu uso preferencial pra intermediários ou avançados. Além de haver escrita cirílica em itálico (que mantive pra deixar fiel ao original), a qual atrapalha um pouco os iniciantes, não coloquei o particípio presente passivo, terminado em “-áiemy” ou similares, pois ele é ainda mais raro na fala e no registro informal, justamente por isso o Nivaldo não nos ensinando naquele momento. (Talvez o tenha passado num módulo Russo VII que houve depois e que não frequentei.) Mesmo assim, segue o texto sem alterações:


PARTICÍPIOS ATIVOS

Uso: textos escritos, sobretudo técnicos e literários ou documentos formais; raríssimo na oralidade, pouco usado mesmo na escrita informal (ex.: cartas pessoais). Geralmente é a forma condensada de um verbo precedido de “который”.

Flexão: declina como adjetivo e concorda com o substantivo ao qual se refere.


1) PARTICÍPIO ATIVO PRESENTE
Particularidade: uso apenas com verbos imperfeitos.

Regra básica de formação: terceira pessoa do plural do presente; retira-se o “-т” final e adiciona-se “-щий”: читать → читают → читающий; говорить → говорят → говорящий; увлекаться → увлекаются → увлекающийся; идти → идут → идущий.

Pode ser usado tanto antes quanto depois do nome:

  • Играющий в футбол мальчик учится в школе.” (O menino que está jogando futebol estuda na escola.)
  • Человек, гуляющий в парке, мой знакомый.” (A pessoa que está passeando no parque é minha conhecida.)
  • Concordância em caso: “Я не знаю мальчика, играющего в парке.” (Não conheço o menino que está brincando no parque.)


2) PARTICÍPIO ATIVO PASSADO
Particularidade: uso com verbos imperfeitos e perfeitos.

Regra básica de formação: tempo passado; retira-se o “-л” e adiciona-se “-вший”: читать → читал → читавший; кончить → кончил → кончивший; находиться → находился → находившийся.

Exceções:

  • Идти → шёл → шедший.
  • Passado sem “-л”: adição de “-ший” = привести → привёс → привёсший; помочь → помог → помогший.

Igualmente pode ser usado tanto antes quanto depois do nome:

  • Купивший сигареты человек Антон.” (A pessoa que comprou cigarros é Anton.)
  • ”Я видел женщину, написавшую мне письма.” (Eu vi a mulher que me escreveu as cartas.)

Particípios ativos que assumiram a forma definitiva de adjetivos: “настоящий”, “следующий”, “будущий”, “бывший” (de “быть”, usa-se para indicar “ex-”), “прошедший” (de “пройти”, “passar”) etc.


PARTICÍPIO PASSADO PASSIVO

Uso: sujeito paciente, e não agente; não se emprega com verbos imperfeitos nem com verbos de estado e outros, como “скучать”, “хотеть”, “жить”, “идти”, “быть”, “танцевать” etc.


Forma curta: mais usada na linguagem oral; possui formas masculina, feminina, neutra e plural; não declina em caso.

Regras básicas de formação:

  • Verbos terminados em “-ать” ou “-ять”: сделать → сделан, сделана, сделано, сделаны.
  • Verbos terminados em “-ить”: построить → построен, построена, построено, построены.
  • Verbos terminados em “-ыть”: забыть → забыт, забыта, забыто, забыты. Alguns verbos terminados em “-ять” conjugam-se assim, entre eles: взять → взят, взята, взято, взяты; принять → принят, принята, принято, приняты.
  • Alguns sofrem influência da primeira pessoa do singular do presente: пригласить → приглашу → приглашён, приглашена, приглашёно, приглашёны; купить → куплю → куплен, куплена, куплено, куплены.

Formação da frase: sujeito paciente + verbo + agente da passiva no instrumental → “Школа построена архитектором.” (A escola foi construída pelo arquiteto.)

Formação da pergunta: ex. “Кем построена школа?” (Por quem a escola foi construída?)

Sujeito indeterminado que pede objeto pode aparecer com voz passiva: “Школа построена два года назад.” (A escola terminou de ser construída há dois anos.) Nesse caso, porém, a construção mais comum é na ativa: “Построили школу два года назад.”


Forma longa: não se usa em linguagem falada nem em textos simples por ser formal; ao contrário da forma curta, não traz subentendido o verbo “быть”.

Regras básicas de formação:

  • Muito semelhante às das formas curtas: “сделать” → “сделанный” e assim também a maior parte dos verbos terminados em “-ять”.
  • Porém, alguns verbos em “-ять”: взять → взятый; принять → принятый.
  • Построить → построенный; купить → куплю → купленный.
  • Открыть → открытый.

Geralmente é a forma condensada de um verbo antecedido de “который”: “Вот институт, построенный (= который построил) Антоном.” (Eis o instituto construído por Anton [= que Anton construiu].)

Flexiona-se e declina-se como um adjetivo, concordando com o nome ao qual se refere: “Я читаю книгу, написанную Антоном.” (Estou lendo um livro escrito por Anton.)




16 de setembro de 2019

N. Poulantzas, poder e classes sociais


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Com esta postagem, estou terminando a publicação de trabalhos de mestrado e doutorado meus, entregues no final de cada matéria cursada. São textos importantes, pois não publiquei nenhum ainda aqui no blog, e consistem nas minhas formas mais elaboradas e avançadas de textos acadêmicos antes que eu defenda minha tese. Eles me levaram a pensar minha própria pesquisa ou matriz teórica, às vezes ligando os autores lidos em cada semestre com meu objeto de investigação. Coroando a primeira matéria que fiz fora do âmbito da História, exceto as de licenciatura na Educação e as de línguas, aqui está o texto pedido pelo Prof. Dr. Alvaro Bianchi, que lecionou a matéria “Teoria Política Contemporânea I”, ministrada à turma de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política. Minha grade do doutorado exigia apenas uma disciplina não ligada à História Social, qualquer que fosse a ciência e o instituto, e consegui ingressar na referida, mesmo sendo voltada a mestrandos. O texto se chamou Nicos Poulantzas, poder político, classes sociais e a busca por uma análise marxista científica da política, entregue em julho de 2018, e analisa os principais conceitos que o acadêmico francês de origem grega incluiu em seu famoso livro Poder político e classes sociais. Foi uma experiência desafiadora lidando com uma obra em dois volumes, essencial e densamente teórica, e diretamente na língua original francesa. Nos próximos dias, voltarei a postar antigos trabalhos inéditos de graduação. Segue abaixo o texto sem alterações:

Desde que o movimento operário europeu aderiu em grande escala às ideias de Karl Marx e Friedrich Engels, no final do século 19, para fundamentar teoricamente a ação política, entrou para o uso corrente o termo “marxismo” não apenas como identidade partidária, mas também como visão de mundo fundamentada numa análise materialista da sociedade burguesa, tendo por objetivo superá-la. (1) Porém, embora os escritores alemães tivessem baseado suas obras em vasta evidência empírica, sólida erudição geral e complexa articulação conceitual, por muito tempo duvidou-se do caráter científico daqueles que buscaram continuar seu projeto. De fato, os primeiros adeptos da corrente “marxista” sentiram a necessidade de simplificar muitos dos conceitos e conclusões dos “pais fundadores”, transformando-os em bordões mobilizadores e manuais facilmente digeríveis pelo operário comum para a luta política diária. Mas erigido em cosmovisão que poderia explicar os mais diferentes fenômenos, das ciências naturais aos fatos sociais, o “marxismo” codificado pela Segunda e Terceira Internacionais sofreu contestações inclusive da esquerda, a qual tentou resgatar as presumidas preocupações de Marx e Engels e alçá-las à verdadeira condição de ciência. (2) Esse debate acirrou-se quando a “ciência marxista” da Comintern e da União Soviética terminou atrelando-se à justificação e apoio aos interesses políticos e ideológicos do Kremlin, fortemente abalados quando seu poder sobre o movimento comunista internacional erodiu a partir da década de 1950.

Uma dessas tentativas de retificar o que se chamava correntemente de “marxismo ortodoxo”, caracterizado pelas afirmações simplistas e pelo empirismo metodológico, ocorreu na França, por meio do contato com a matriz de pensamento dita estruturalista. Representada, entre outros intelectuais, por Claude Lévi-Strauss na antropologia, Jean Piaget na psicologia e Louis Althusser na filosofia, comporta inúmeras perspectivas irredutíveis a uma definição unívoca e abrangente. Elas têm em comum, aproximadamente, a busca por maior unidade de método e epistemologia entre as ciências humanas, com base no emprego de modelos teóricos (“estruturas”) organizando o objeto estudado como um sistema e enfatizando as relações que unem suas unidades elementares em detrimento da decomposição, a sincronia dos elementos em detrimento da evolução ou diacronia. Althusser, por exemplo, entre as realizações de sua diversificada obra, a partir dos anos de 1960 buscou uma abordagem “estruturalista” de Karl Marx e Friedrich Engels, rejeitando as análises “historicistas” predominantes nas décadas de 1920 e 1930 e postulando a existência de uma “ruptura” entre os escritos “juvenis” de Marx (anos de 1840), marcados por maior preocupação humanista e hegeliana, e os da “maturidade” (cujo ápice teria sido O capital), centrados em criar conceitos científicos sobre o domínio da economia na sociedade burguesa. Atacou o que dizia ser o “caráter teleológico” no marxismo de inspiração soviética e a noção de “sujeito” na história (inclusive como a classe operária era considerada na visão tradicional), (3) passos seguidos por Nicos Poulantzas, filósofo, sociólogo e cientista político de origem grega muito influenciado por ele.

Professor universitário na França, politicamente filiado aos comunistas gregos, Poulantzas lançou ainda jovem sua principal obra, Pouvoir politique et classes sociales, (4) em que busca criar uma conceituação científica do tipo de Estado capitalista a partir dos escritos históricos de Marx e Engels, depurá-los do que considera leituras “historicistas” e contestar as correntes teóricas alheias ou avessas à noção de luta de classes. No caminho da interpretação althusseriana dos escritos marxianos, estabelece o conjunto conceitual, o escopo empírico e as precauções metodológicas a quem deseja estudar a natureza, o papel e os limites do Estado no modo de produção capitalista, concentra-se no estudo das estruturas, das quais os sujeitos não seriam mais do que meros suportes, e recusa-se a traçar as “origens” desse Estado. A atenção aos aspectos sincrônicos de seu objeto faz Poulantzas centrar tanto a crítica no “historicismo” dentro do marxismo que ele chega a considerá-lo uma das raízes do reformismo na militância operária europeia, uma influência de ideologias não proletárias. (5)

Os nomes do chamado “austromarxismo” das décadas de 1920 e 1930, sobretudo György Lukács e Karl Korsch, com suas preocupações em resgatar as reflexões filosóficas de Marx quando era jovem (alguns desses textos só então estavam sendo publicados) e já perto de uma crítica humanista às concepções da Comintern, são os primeiros interlocutores de Poulantzas. Em segundo lugar, mas certamente de primeira importância, estão os chamados “escritos históricos” de Marx, raros textos em que ele refletiu sobre acontecimentos políticos de sua época com mais vagar: As lutas de classe na França (1850), O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852) e A Guerra Civil na França (1871), além do Capital, tratado econômico na essência, mas de alcance muito mais amplo. Enfim, o terceiro diálogo conduzido em Pouvoir politique et classes sociales se dá com análises de Max Weber sobre camadas sociais, formas de Estado, burocracia e o exercício do poder, às quais é apontado o devido mérito de levantar importantes questões, mas que se relacionam com problemáticas e conceitos “funcionalistas” e “institucionalistas” criticados por Poulantzas. Em que pese a evolução do politólogo, cuja reflexão poderia ser encontrada mais “madura” e menos “teorética” nos anos de 1970, (6) sua primeira obra de vulto continua sendo uma referência importante na aplicação do pensamento estruturalista à teoria marxista do político (instituições) e da política (práticas).

Entre os textos que Nicos Poulantzas chamará de “clássicos do marxismo”, estão naturalmente, em primeiro lugar, as obras de Karl Marx e Friedrich Engels, que se distinguem entre as que tratam essencialmente de economia – sobretudo O capital – e as que constituem reflexões sobre eventos políticos recentes na França (ver acima) e, por vezes, na Alemanha bismarckiana (principalmente por Engels). Nesses “escritos históricos”, em especial, haverá um tratamento disperso e pouco sistemático, segundo o acadêmico, de conceitos teóricos, algo sanável pelo que ele denomina “trabalho crítico particular”: Poulantzas disseca os livros em busca de articulações passíveis de gerar conceituações, e embora o faça de maneira avessa às ortodoxias, é bem claro quanto à sua matriz inspirada em Althusser. Na “Introdução”, arrola a interpretação que dá a vários conceitos marxianos: “modo de produção” como o conjunto de “estruturas e práticas” repartidas em várias “instâncias”, “níveis” ou “estruturas regionais” (ou seja, o econômico, o político, o ideológico, o teórico etc.) e articuladas conforme a chamada “matriz” desse modo de produção; a “determinação” do nível econômico como “dominância em última instância” em qualquer modo de produção, diferente do “papel dominante” de um nível qualquer nesse modo, que seria inclusive definido por essa “determinação” econômica; (7) “formação social” como uma realidade “historicamente determinada”, enquanto os “modos de produção” seriam “objetos de abstração formal” que, porém, se traduzem por sua existência simultânea numa dada formação social, um deles (feudal, capitalista etc.) sempre sendo nela dominante sobre os outros; e a construção de “conceitos de abstração formal” como objeto de ciência, e não a abordagem de fenômenos empíricos como tendo existência conceitual prévia; em outras palavras, não existiria nada prontamente observável num “modo de produção” que se pudesse chamar de político, econômico, ideológico etc., mas apenas a articulação dessas “instâncias regionais” dentro daquele modo definiria a própria extensão e limites delas, igual relação à que ocorre entre uma “formação social” e os “modos de produção” aí concorrentes. (8)

Dados esses esclarecimentos conceituais, Poulantzas aponta o objetivo central de seu ensaio: elaborar uma teoria da instância regional do político dentro do modo de produção capitalista, em outras palavras, uma teoria sobre o tipo de Estado capitalista. Ele esclarece que “modo de produção” também não se confunde com “relações de produção”, integrantes da “instância regional econômica”, que não é, pois, necessariamente única numa formação social. Como problemas gerais ao tratar os textos não apenas de Marx e Engels, mas também de Vladimir Lenin e Antonio Gramsci, que ele assume como clássicos modernos, Poulantzas aponta a existência de conceitos em “estado prático”, ou seja, elaborados em meio à atuação política, e não como atividade separada; a ausência de um “discurso teórico sistemático” que ligasse esses elementos conceituais; e um discurso implícito, e não explícito, sobre o político, que baseia essas análises, obrigando o autor a extraí-lo cuidadosamente delas. Sobre Marx e Engels, o acadêmico aponta ainda, primeiramente, que A ideologia alemã consiste no ponto de corte entre as “preocupações juvenis” de Marx e o surgimento da chamada “problemática original do marxismo” – no que explicitamente segue Althusser –, não devendo as primeiras, assim, ser sobrevalorizadas, como faziam marxistas do século 20. Segundamente, Poulantzas enxerga no Capital uma abordagem científica do “modo de produção capitalista”, mas com a análise exaustiva apenas de sua “região econômica”, limitando-se a linhas gerais a presença de outras “regiões”, como o político. Mas essa presença não seria ocasional, pois como se lê em Pouvoir politique et classes sociales, dois dos traços do modo de produção capitalista são a autonomia relativa de suas instâncias, permitindo sua análise abstrata separada, e o “papel dominante” (para além da “determinação”) do econômico, justificando sua atenção exaustiva. Em terceiro lugar, muitos dos textos históricos de Marx, Engels, Lenin e Gramsci resultariam de polêmicas basicamente ideológicas, portanto a ideologia, que Poulantzas separa da teoria, deveria ser processada para que então surgissem os conceitos. E finalmente, em quarto, se nas obras propriamente políticas dos quatro autores, muitas delas cheias de referências históricas, os conceitos estão em “estado prático” e as descrições estão “implícitas”, é preciso tirá-los da ordem meramente discursiva e reagrupá-los em sequência lógica. (9)

Nicos Poulantzas aproveita a flutuação e a ambiguidade dos conceitos em Marx e Engels para criar, a partir de seus escritos, uma teoria marxista do Estado capitalista ancorada numa leitura estruturalista. Segundo ele depreende, sobretudo, do Capital, as unidades básicas para se pensar um modo de produção são as estruturas, esse modo mesmo constituindo uma estrutura, mas feito também de instâncias política, econômica e ideológica como “estruturas”. O modo de produção capitalista se caracterizaria por uma autonomia relativa das instâncias, em especial da econômica em relação à política, as quais não influiriam diretamente umas nas outras, mas teriam seus limites definidos pela importância e abrangência de cada uma – contra uma abordagem sistêmica que veria as instituições como entidades equivalentes mutuamente se relacionando. Os conceitos de classe e poder são centrais nessas limitações: Poulantzas vê os contatos entre pessoas como “relações sociais” nas quais seus conflitos de interesse se dão em termos de classe – o modo como se relacionam enquanto produtores –, enquanto poder é a capacidade de impor os próprios interesses sobre outras classes; “interesses” não se devem ler como vontade subjetiva, mas como atuação dos indivíduos como “portadores” das estruturas. Daí decorre principalmente que o “poder” não é instituição, mas essa imposição de classe nas diversas instâncias, e que a função essencial do Estado capitalista é a ocultação, em processos ideológicos e jurídicos, do caráter social da produção, alçando os indivíduos em “cidadãos” e “sujeitos de direito” e a si mesmo em “coletivo público da nação”. Assim, Poulantzas se deixa separar, para efeitos teóricos, a luta econômica, ou disputa individual enquanto trabalhadores, patrões, empresas etc. – proporcionada pela separação entre produtor e meios de produção –, e a luta política de classe (para ele uma redundância), quando o operariado deveria emergir na cena política com organização própria, e não atomizado pela justiça. Isso porque o Estado não seria a soma de partes distribuíveis, mas uma instância com dominação de classe, classe essa nem sempre dominante na região econômica, dada a autonomia desta ante a região política como traço definidor do tipo capitalista de Estado. Esse “tipo” pode ainda variar em formas do Estado capitalista, relacionadas ao grau da citada autonomia, e formas de regime, segundo a representação partidária – não pensada de modo diacrônico – e a composição do bloco no poder, outro conceito-chave na interpretação política de Poulantzas. (10)

O “bloco no poder” não seria a mera distribuição partidária ou classista de cargos ou postos no Estado, mas o arranjo de classes ou frações de classe dominantes no campo da luta política de classe, em que uma das classes ou frações polarizaria o domínio das demais, assim obtendo a hegemonia (conceito usado diferentemente de Gramsci – ver adiante) nesse bloco. A relação do bloco no poder com o Estado estaria longe da univocidade: o segundo, como estrutura, gozaria de uma “unidade própria” e de uma “autonomia relativa” não somente perante as outras instâncias, mas também perante o bloco no poder (lembrando a definição de “poder” não como instituição, mas como a capacidade de fazer valerem interesses de classe). Na verdade, conforme a leitura poulantziana dos textos de Marx e Engels, essa autonomia até mesmo seria uma condição para a dominação de classe, pois, não sendo simples “ferramenta” da(s) classe(s) dominante(s), o Estado teria o papel duplo de apresentar às classes dominadas o interesse, no caso, burguês como “interesse nacional-popular” e de organizar os interesses diversos e, por vezes, irreconciliáveis das classes ou frações de classe dominantes – que, por isso, não logram apresentar-se como dirigentes estatais diretos. Daí também a distinção entre “classe dominante” (no campo da luta política de classes), “classe reinante” (que governa o Estado, mas não é necessariamente dominante) e classe que “detém” o Estado (o “aparelho de Estado” estritamente falando, isto é, exército, burocracia, serviços); apenas a primeira poderia provocar efeitos pertinentes nas relações de poder. Tudo isso implica conclusões que separam Poulantzas dos autores institucionalistas e funcionalistas e o fazem ir além do que escreveram Marx, Engels, Lenin e Gramsci. Primeiramente, ele entende a ideologia não como uma “falsa consciência” ou um conjunto dogmático-doutrinário, mas como uma cultura compartilhada dentro do modo de produção capitalista, que necessariamente “falseia” a realidade, invertendo e obscurecendo as relações de classe, porém atua como forma de legitimação. Segundamente, o uso da força no sentido de “repressão física organizada” é limitado ao Estado, como suposto representante da vontade “nacional-popular” legitimada pela ideologia, limitação que difere o modo de produção capitalista dos outros. Em terceiro lugar, a separação dos poderes não deve ser julgada pela aparência, pois nos fatos eles não quebram a unidade própria do Estado, mas podem servir de “instâncias internas” ocupadas por várias das classes ou frações dominantes, cujo conflito determina a prevalência de um desses poderes sobre os outros. Portanto, também parte da definição da forma de regime, essa prevalência não indica de forma alguma a quebra radical do status quo nem uma “evolução” no sentido diacrônico (e.g. parlamentarismo mais “democrático” do que o presidencialismo). E em quarto, enfim, a burocracia não constitui uma “nova classe”, mas uma “categoria social”, que pode ou não atuar como “força social” dependendo da conjuntura política e de seu uso como “apoio” à(s) classe(s) dominante(s) – como na França, para absorver as classes ligadas aos modos de produção não capitalistas. (11)

Vladimir Lenin e Antonio Gramsci são os outros dois “clássicos marxistas” com quem Nicos Poulantzas dialoga, pois, segundo ele, o russo e o italiano promoveram rupturas na maneira como Marx e Engels eram lidos pela social-democracia europeia e inclusive pelas correntes radicais de esquerda nas décadas de 1920 e 1930. Tendo combatido “reformistas” e “revisionistas” na Segunda Internacional, Lenin imergiu-se nos autores alemães para buscar respostas às questões prementes da transição ao socialismo na Rússia e sintetizar seu método quando situações inusitadas pediam criatividade. Contudo, para Poulantzas, Gramsci manteve diversos “resquícios historicistas” (acusação recorrente em todo Pouvoir politique et classes sociales) advindos de suas leituras anteriores, ora admitindo que a classe operária podia ser o “sujeito da história”, ora sobrevalorizando a particularidade temporal dos fenômenos, sem dar formulações mais gerais. As obras de Lenin são um apoio para pensar as questões do Estado, do poder e das classes e as relações entre eles: é do bolchevique que Poulantzas retém a linha separando a luta econômica e a luta política, as quais nunca são separadas de seu caráter de classe, mas nunca misturadas entre si. “Classe”, diz Lenin, não é uma categoria encerrada na instância econômica e, como pregam as leituras mecanicistas, com impacto direto no político, mas o resultado dos efeitos das estruturas sobre seus portadores (as pessoas), perpassando, pois, todas as regiões de um modo de produção. A particularidade do Estado como estrutura política estaria em refletir todas as contradições que atravessam esse modo, e não em atuar como força arbitral ou controlador: o poder, repete Poulantzas, é a capacidade de uma classe de produzir efeitos pertinentes sobre as outras, e não os “centros de poder” (igrejas, Estado, escolas etc.) entre os quais ele se desloca. Portanto, a centralidade do Estado na transformação revolucionária está em que, por sua “ação aberta” (organização própria), o proletariado não poderia limitar-se às conquistas econômicas, mas conquistar e destruir também o Estado em seu tipo capitalista. A importância da história na reflexão de Lenin está em que qualquer ação política só podia ter como objeto a “conjuntura”, isto é, o “momento atual” a partir do qual se tirariam os conceitos analíticos da análise concreta, e não no sentido teleológico da evolução a um rumo pré-definido (a “Ideia” hegeliana). (12) Poulantzas se inspira ainda no russo ao ressaltar que a luta ideológica não se separa da luta política, e assim se contrapõe a Gramsci duvidando ser possível primeiro a conquista da hegemonia ideológica, e depois da política: a elaboração de uma visão de mundo própria já seria em si um ato político, além do que a tomada do poder pelo operariado não implicaria o apaziguamento automático da ideologia burguesa. (13)

Outro pensador e militante comunista que Poulantzas considera amplamente em suas teorizações é Antonio Gramsci. Segundo ele, os conceitos mais interessantes e aplicáveis trabalhados pelo italiano são os de ideologia e hegemonia: a ideologia não necessariamente pensada como um conjunto de regras ou princípios doutrinários, mas como um sistema ligado à coesão das partes de um modo de produção, e a hegemonia como a adoção mais ou menos tácita dessa ideologia por todas as classes. Todavia, no tocante a esses dois conceitos, restam críticas por parte do acadêmico: enquanto ele entende a “instância ideológica” como estrutura, Gramsci toma a ideologia como ativamente aceita por “classes-sujeitos”; e enquanto a noção estruturalista de “coerção” se aplicaria somente à força física como apanágio do Estado, e a de “hegemonia” à imposição ideológica do Estado dito “nacional-popular” e ao papel dominante de uma das classes dominantes sobre as outras classes dominantes, o italiano abusivamente as estenderia às classes dominadas, sendo a hegemonia o “consentimento disfarçado de coerção” e o próprio “consentimento” uma noção muito vaga e novamente implicando classes-sujeitos. Aliás, uma das mais frequentes críticas de Poulantzas é à vagueza e flutuação conceitual, cujo resultado, porém, ele tenta aproveitar e ressignificar. Um dos cernes de suas reclamações está na separação gramsciana entre Estado e “sociedade civil”, daí decorrendo, por exemplo, uma “politização excessiva” do político e o “voluntarismo” historicista ao considerá-lo não como parte de estruturas passivamente portadas, mas dentro de uma evolução histórica por etapas. E por isso seria falsa também a noção de “bloco histórico”, suposta aplicação do historicismo ao conceito leniniano de “conjuntura”, ou seja, a ligação ao que Poulantzas chama de “momento presente” (numa cronologia) em detrimento do “momento atual”. Outra incorporação crítica é do que Gramsci denomina “equilíbrio instável de compromisso” como base do poder político, mas rejeitando o conceito de “cesarismo” – e nele a inclusão do “bonapartismo” – indicando o “equilíbrio catastrófico” cuja única resolução seria o choque aberto. (14)

O diálogo mais complexo de Nicos Poulantzas se dá, basicamente, com diversos teóricos, acadêmicos, intelectuais e militantes com alguma influência de Max Weber no início do século 20. Poulantzas reconhece a importância de Weber na formulação e abordagem de questões necessárias à análise marxista do Estado, mas critica todas as decorrências teóricas, por exemplo, de seu modelo dos tipos ideais, que ele julga “empirista” por pressupor que deve haver alguma correspondência entre o real e o abstrato, enquanto para Poulantzas a criação de conceitos tem valor de análise científica, e não reprodução descritiva. Quanto aos marxistas, além desse influxo, teria havido ainda, sobretudo pela ação de György Lukács e Karl Korsch, a recorrência contínua a textos que Marx escreveu quando era jovem, não concernindo, pois, segundo Poulantzas, as problemáticas “maduras” que desenvolveu junto com Engels. Entre as consequências desse retorno estaria uma visão antropologista de tudo o que é retomado em Pouvoir politique et classes sociales: o proletariado como uma “classe-sujeito” a quem cabia o desenrolar da história; os “interesses” dos “agentes” na luta de classes refletindo caracteres “psicológicos” (quando, na leitura estruturalista, os “suportes” das estruturas apenas agiriam conforme suas “necessidades objetivas”); a ideologia como uma “falsa consciência” derivada da “alienação” humana; e o Estado em apartação da “sociedade civil”, semelhante a um corpo estranho, manipulável (no essencial pela casse dominante), que a submete a suas vontades. O que Poulantzas chama de leitura historicista da obra marxiana, feita também, entre outros, por Herbert Marcuse, Umberto Cerroni e Lucien Goldmann (além, claro, de Gramsci), implicaria uma visão “voluntarista” da luta de classes: primeiro, porque o Estado e outras entidades são vistos como resultado da vontade das “classes-sujeitos” – ignorando o conceito de estrutura –; e segundo, porque os domínios do político e do econômico são constantemente confundidos, como se “luta de classes” indicasse a prevalência de um sobre outro – ignorando o conceito de práticas políticas e, além disso, caindo na “politização excessiva” ou no “economicismo”. Na crítica de Poulantzas a alguns autores, está igualmente uma correção da noção de poder – não exercido por instituições indivisíveis, capturáveis pelo assalto ao poder, mas presente na luta entre práticas políticas – e, por vezes, da localização da luta de classes apenas no âmbito do político ou do econômico – quando ela ocorreria em todas as instâncias, no campo de práticas políticas, e não, por exemplo, no Estado ou nas relações de produção. (15)

Seria impossível listar à exaustão cada escritor ou corrente que Poulantzas tenta refutar, (16) mas cumpre fechar com palavras gerais sobre as chamadas correntes “funcionalista” e “institucionalista”, ligadas também, segundo o acadêmico, às deduções de Weber. Contrária ao marxismo seria a “análise sistêmica” que fazem de uma formação social, ou seja, todas as instituições se influenciando reciprocamente dentro de um “sistema”, tirando poder umas das outras (concepção da “soma zero”) ou “institucionalizando” a luta de classes por suas funções tecnológicas e burocráticas. Quanto à burocracia, discutida nos últimos quatro capítulos (parte V), suas opiniões são ainda mais duras para com as ditas “teorias das elites”, também de cariz funcionalista: de forma alguma o crescente papel tecnocrático dos burocratas, na sequência do aumento das competências do Estado na sociedade capitalista, deve ser visto como a ascensão de uma nova “classe dirigente”. Atacando a noção de “elites no poder” proposta por Wright Mills, reafirma sua leitura, já citada acima, do que Karl Marx e Friedrich Engels escreveram a respeito, no sentido de uma “autonomia relativa” do aparelho de Estado (a ser diferenciado do poder de Estado) composto ocasionalmente por funcionários de várias classes, mas dentro de uma instância (o político) na qual a hegemonia é exercida por uma classe dominante. Nesse caso, Poulantzas não concede determinação crucial à origem de classe da burocracia, embora, como Lenin, admita que ela possa tornar-se uma “força social” em dadas conjunturas, como é o caso da absorção das classes alheias ao modo de produção capitalista na França.

As diversas aplicações da abordagem estruturalista a partir dos anos de 1950 eram parte de um amplo projeto de dar maior rigor e integração às ciências sociais e humanas, num tempo marcado pela contestação aos grandes paradigmas vigentes, como o marxismo. Nicos Poulantzas, atento às transformações políticas que inevitavelmente concerniam os marxistas, buscou integrar a ciência política a esse plano, embora sua própria filiação a Louis Althusser jamais tenha sido unívoca (cf. bibliografia). Prova disso são as poucas vezes em que o filósofo é citado em Pouvoir politique et classes sociales, obra muito mais repleta da análise exaustiva de Marx e Engels, em especial de seu O capital como “teoria regional do econômico no modo de produção capitalista”, e das interpretações dos “pais fundadores” feitas pelos comunistas Vladimir Lenin e Antonio Gramsci. Os conceitos de “estrutura e suportes”, “prática política”, “efeitos pertinentes” e “instâncias regionais”, entre outros, facilitam a abstração de fenômenos políticos e institucionais, mas não dão conta de como as pessoas e grupos enquanto sujeitos podem influir na conjuntura ou ter outras relações com os muitos domínios de uma formação social diferentes das propostas por Poulantzas. Essa problemática foi abordada por cientistas políticos de extração marxista que tentaram conciliar determinação e agência, bem como entra no núcleo da história social, cuja emergência deve muito às polêmicas anti-althusserianas de Edward P. Thompson. Contudo, o pensador greco-francês, ainda por vivenciar uma complexa evolução em suas ideias, destacou-se por almejar a sistematização teórica de rigor científico a um tema então vulnerável às paixões partidárias e às turbulências geopolíticas.


Bibliografia

AA. VV. Da ideologia. Organizado pelo Centre for Contemporary Cultural Studies da Universidade de Birmingham. Tradução de Rita Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.

BOITO JR., Armando et al. (Orgs.). A obra teórica de Marx: atualidade, problemas e interpretações. São Paulo: Xamã, 2000.

HOBSBAWM, Eric J. et al. História do marxismo. Tradução de Carlos Nelson Coutinho e Nemésio Salles. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. (V. 1. “O marxismo no tempo de Marx”.)

______. História do marxismo. Tradução de Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. (V. 2. “O marxismo na época da Segunda Internacional (Primeira parte)”.)

POULANTZAS, Nicos. Pouvoir politique et classes sociales. V. I. Paris: François Maspero, 1968.

______. Pouvoir politique et classes sociales. V. II. Paris: François Maspero, 1971.

SAES, Décio. A questão da autonomia relativa do Estado em Poulantzas. Crítica Marxista, São Paulo, n. 7, p. 46-66, 1998.

Wikipédia: L’encyclopédie libre. <http://fr.wikipedia.org>.

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Notas (clique no número pra voltar ao texto)

(1) Para diversas análises históricas sobre o trabalho intelectual de Marx e Engels, suas primeiras interpretações e o surgimento do “marxismo” e do movimento operário “marxista”, cf. E. J. HOBSBAWM et al., História do marxismo, v. 1 e 2. Destaca-se o artigo de Georges Haupt, “Marx e o marxismo”. In: op. cit., v. 1, p. 347-375.

(2) Fujo aqui de dois debates importantes, por ora dispensáveis: a sobrevalorização novecentista da ciência e do caráter “científico” exigido de qualquer doutrina sobre o mundo, e as discussões dentro da esquerda radical, já no século 20, sobre o que seria “ciência” e “cientificidade” nas pesquisas sociais e, sobretudo, se era possível a edificação de uma “ciência proletária” contraposta à “ciência burguesa”.

(3) Sobre sua relação com as teorizações de Stalin, cf. Miriam LIMOEIRO-CARDOSO, Sobre Althusser e a crise do marxismo. In: A. BOITO JR. et al. (orgs.), A obra teórica de Marx: atualidade, problemas e interpretações, p. 107-121.

(4) Lançado no Brasil como Poder político e classes sociais. Tradução de Francisco Silva. Revisão de Carlos Roberto F. Nogueira. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

(5) Stuart Hall, Bob Lumley e Gregor McLennan, comentando a apropriação de Antonio Gramsci por Poulantzas, chegam a dizer que seria uma tentação chamar de compulsivas as reiteradas investidas do acadêmico contra os “historicistas”. Cf. Política e ideologia: Gramsci. In: AA. VV., Da ideologia, p. 60-100, sobretudo p. 86 ss.

(6) Como afirma Décio Saes, ao discutir o referido livro, na conclusão do artigo “A questão da autonomia relativa do Estado em Poulantzas”. In: Crítica Marxista, n. 7, 1998, p. 65. Cf. também o verbete “Nicos Poulantzas” da Wikipédia em francês. Disponível nesta página. Acesso em: 02 jul. 2018, 21h44min.

(7) Por exemplo, segundo Poulantzas, o que caracterizava o “modo de produção feudal” era o papel dominante da instância ideológica (na forma de religião), enquanto no “modo de produção capitalista” a instância econômica também tem o papel dominante, além da “determinação” em última instância.

(8) Nicos POULANTZAS, Pouvoir politique et classes sociales, v. I, p. 5-14.

(9) Ibidem, p. 14-19. No livro, as decorrências desses métodos para analisar Marx e Engels são listadas a seguir.

(10) Estas são as principais problemáticas abordadas no primeiro volume de Pouvoir politique et classes sociales, sendo os dois últimos capítulos sobre o Estado absolutista e as revoluções burguesas o laboratório da aplicação conceitual às descrições que Marx e Engels fizeram desses fenômenos históricos.

(11) A aplicação, no volume II de Pouvoir politique et classes sociales, dos pressupostos teóricos do volume I funda-se quase toda nos textos históricos de Marx e Engels, portanto deve muito à análise do bonapartismo francês que, como também pensa Lenin, exemplifica a formação desses traços típicos do Estado capitalista.

(12) Nicos POULANTZAS, Pouvoir politique et classes sociales, v. I, introdução e primeira parte.

(13) Ibidem, v. II, p. 24 ss. No segundo volume, os escritos de Marx e Engels terão papel maior na elaboração dos esquemas do Estado, sendo Lenin evocado quando Poulantzas aceita sua interpretação dos primeiros.

(14) Nicos POULANTZAS, Pouvoir politique et classes sociales, passim, principalmente v. I, parte I, cap. 1, e parte II, cap. 1 (p. 144 ss.); v. II, parte III, cap. 1 e 2, e parte IV, cap. 1.

(15) Nas “relações sociais de produção”, aí sim, ocorre a “luta econômica (de classes)”.

(16) Por isso, é interessante remeter a alguns trechos em que ele anuncia explicitamente essa crítica: Nicos POULANTZAS, Pouvoir politique et classes sociales, v. I, p. 57 ss.; v. II, parte IV, cap. 2.