Mostrando postagens com marcador Documentários. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Documentários. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de junho de 2026

Mentiras sobre biolaboratórios na Ucrânia

Desde a anexação ilegal da Crimeia e o início da incursão terrorista no Donbás em 2014, a propaganda ligada à ditadura de Vladimir Putin tem espalhado pelo mundo uma história sobre biolaboratórios secretos mantidos pelos EUA na Ucrânia. Por supostamente produzirem armas químicas, o Kremlin se achou no direito de começar sua intervenção militar pra debelar essa “ameaça ocidental”, omitindo que não só esses laboratórios eram de conhecimento público, mas também não produziam nada pra destruição em massa. Bem ao contrário do ditador sírio Bashaar al-Asad, que jogou gás tóxico num bairro opositor inteiro com apoio logístico russo...

É difícil comprovar laços diretos entre Donald Trump e os serviços secretos da antiga URSS e da Rússia, mas não se pode negar uma confluência de interesses entre a extrema-direita MAGA e o expansionismo reacionário putinista. Enquanto os adeptos atlânticos de teorias da conspiração miram contra as “elites globalistas” e os “destruidores dos valores tradicionais”, o novo tsar se aproveita de qualquer força política que possa desestabilizar a fauna política dos países inimigos, esteja ela à direita ou à esquerda. Tulsi Gabbard, escolhida pelo presidente como diretora da Inteligência Nacional dos EUA, renunciou há alguns dias devido a sua discordância quanto à condução da atual guerra contra o Irã, embora tenha alegado “razões familiares”.

Em seu vídeo de “despedida” nas redes sociais, pra não negar a estirpe, a trumpista exumou do nada o fantasma dos “biolaboratórios americanos secretos” espalhados pela Ucrânia, dizendo que o governo (Biden, suponho?) tentou fazer de tudo pra negar sua existência. Se você tem um amigo “anti-imperialista” e “anti-OTAN” (no Hemisfério Sul!) que espalha bobagens semelhantes, plantando a discórdia e não explicando o resto, mande isto pra ele: na última edição de seu programa semanal de geopolítica na TV Dozhd, Ekaterina Kotrikadze exibe uma reportagem produzida por Daria Levchuk explicando exatamente do que se trata.

Os biolaboratórios ianques existem, como existem em dezenas de países. Porém, as informações sobre eles são públicas, além do que são instalações com fins médicos e científicos, e não militares. Nunca se esqueça que tudo o que vem do Kremlin atualmente é 200% mentiroso, a não ser que façamos uma leitura “a contrapelo” de seus discursos e descubramos como realmente funciona essa ditadura terrorista. Seguem o vídeo incorporado diretamente do canal de Kotrikadze, a tradução em português e, pra não desperdiçar o material, o texto em russo:


Ekaterina Kotrikadze – Os biolaboratórios secretos dos EUA na Ucrânia, uma das principais teorias da conspiração com que a propaganda russa tenta justificar a guerra. A diretora da Inteligência Nacional dos EUA também entrou nessa história. Na véspera de sua renúncia, Tulsi Gabbard anunciou sobre uma rede global de biolaboratórios financiados por Washington e acusou seu próprio Estado de esconder a verdade sobre o que realmente estava escrito em seus documentos. Que tipo de laboratórios operavam na Ucrânia e por que a publicação de Gabbard já está sendo considerada um presente político pro Kremlin? Daria Levchuk traz os detalhes.

Tulsi Gabbard – Eles não apenas mentiram, mas também ameaçaram quem tentasse dizer a verdade.

Daria Levchuk – Centenas de manchetes russas foram publicadas com a mesma redação: os EUA admitiram manter mais de 40 biolaboratórios na Ucrânia, sobre os quais mentiram pro mundo durante anos. No final de maio, a diretora da Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, anunciou sua renúncia. Em seu discurso de despedida, em 12 de junho, falou sobre uma rede global de biolaboratórios financiados por Washington.

Apresentador do Canal 1 – A inteligência americana divulgou novos materiais sobre a investigação das atividades dos biolaboratórios financiados pelo orçamento dos EUA. Mais de 40 deles estão na Ucrânia.

TG – A publicação de hoje revela, pela primeira vez, informações sobre a existência, localização e financiamento desses biolaboratórios financiados pelos EUA. Todas essas informações foram deliberadamente ocultadas por muito tempo por pessoas influentes que afirmavam que tais laboratórios jamais existiram.

DL – O comunicado oficial do gabinete de Gabbard consiste em apenas quatro páginas de um documento com texto parcialmente editado. Ele descreve laboratórios em centros regionais de diagnóstico na Ucrânia, ou seja, os locais habituais onde os patógenos são armazenados e estudados. Outro detalhe notável: o mapa dos biolaboratórios mostra incorretamente a localização de Kyiv e indica cidades inexistentes: Cherniv [Chernov, em russo] e Zakarpattia. Afirma ainda que laboratórios ucranianos supostamente existiriam também na Crimeia, território ocupado pela Rússia.

Igor Slabykh, especialista em EUA – Gabbard está no cargo há mais de um ano. E, no fim, tudo o que conseguiu encontrar foram quatro documentos. O cabeçalho diz que um laboratório veterinário em Kharkiv foi alvo de desinformação por parte da Rússia. Bem, é exatamente disso que todos estão falando. Sim, aí realmente há informações sobre o que foi financiado. Sim, ninguém o nega. Sim, há informações sobre quanto dinheiro foi alocado. Mas aí não há informações sobre quais armas biológicas específicas estavam sendo desenvolvidas; esses dados não existem. Certo. Mas quais experimentos específicos foram conduzidos? Não há informações. Portanto, é propaganda pura e simples.

DL – A publicação do gabinete da diretora de Inteligência Nacional dos EUA afirma que informações sobre o financiamento americano pra laboratórios foram anteriormente “ocultadas deliberadamente por indivíduos influentes, em particular o imunologista Anthony Fauci e representantes do governo do ex-presidente americano Joe Biden. Isso diz respeito a aproximadamente 120 instalações em 30 países, incluindo mais de 40 na Ucrânia”. No entanto, as informações contidas no comunicado já são conhecidas há muito tempo. Os EUA de fato ajudaram a Ucrânia a modernizar laboratórios de diagnóstico e referência nos quadros do programa Biological Thread Reduction (Redução de Ameaças Biológicas), ligado à Convenção sobre as Armas Biológicas, segundo confirmou o Ministério da Saúde da Ucrânia.

Ministério da Saúde da Ucrânia – A essência do acordo é combater a ameaça de surtos de doenças infecciosas perigosas. Esse acordo é público e não menciona nenhum programa biológico militar nem o envolvimento de quaisquer recursos do Ministério da Defesa da Ucrânia.

Aleksandra Filippenko, americanista – O programa, lançado em 1991, existiu de forma totalmente transparente. Não havia segredo militar nem qualquer tipo de segredo em geral. Além disso, os sites oficiais das embaixadas americanas descrevem detalhadamente esse programa conjunto de combate a ameaças, o Programa Nunn-Lugar. Basicamente, tratava-se de um programa criado pra neutralizar diversos laboratórios que estavam sendo instalados nos territórios das então repúblicas soviéticas e, posteriormente, nos países pós-soviéticos, devido ao fato que, após a dissolução da URSS, ninguém tinha recursos pra os manter.

William Moser, diplomata – Os EUA têm interesses humanitários que vão além de questões de poder e influência. E acredito que seja importante que os EUA continuem esse trabalho.

DL – No entanto, pra propaganda russa, esses quatro slides estão se tornando a prova do que eles vêm afirmando desde 2022: a Ucrânia é um campo de testes pro desenvolvimento de armas biológicas americanas.

Maria Zakharova – Agora os americanos também vão verificar tudo aquilo que anteriormente, como eu já disse, a comunidade internacional supostamente civilizada negava.

Kirill Dmitriev – A verdade russa sobre os biolaboratórios de Obama e Biden na Ucrânia, que colocaram o mundo em perigo e cuja existência era anteriormente negada pelo deep state e pela mídia tradicional, foi confirmada em pleno Dia da Rússia.

Mikhail Favorov, epidemiologista – O financiamento terminou após a construção e o treinamento. Eles mantiveram o nível de anticorpos por seis meses e, depois disso, o financiamento direto pra manutenção dos laboratórios foi interrompido. Agora, o financiamento é direcionado aos países onde os laboratórios foram criados. E isso faz parte do acordo.

DL – A propaganda russa transformou o tema dos biolaboratórios ucranianos em uma verdadeira teoria da conspiração. Mesmo antes da invasão em larga escala, agências de inteligência e a mídia controlada já construíam uma narrativa sobre laboratórios secretos dos EUA. E de acordo com uma investigação do Insider, uma unidade do GRU esteve envolvida na elaboração desse conceito, sistematicamente o integrando em companhias de informação, desde mosquitos de combate até armas que visam exclusivamente o gene dos russos.

Apresentador da REN TV – O Ministério da Defesa divulgou hoje novos dados assustadores sobre os biolaboratórios na Ucrânia. Descobriu-se que vários programas secretos estavam sendo simultaneamente implementados sob controle dos EUA. Por exemplo, eles estavam estudando a transmissão de doenças de morcegos pra humanos. A possibilidade da infecção se espalhar por meio de aves também foi investigada.

Apresentador da TVTs – O Pentágono admitiu que estavam transformando mosquitos em armas biológicas. Os insetos estavam se tornando vetores dos vírus da febre amarela, zika e chicungunha.

Dmitri Medvedev – A maior ameaça agora vem dos biolaboratórios em território ucraniano. Ao longo da operação militar especial [nome oficial da invasão à Ucrânia], foram obtidas evidências de que componentes de armas biológicas estavam realmente sendo produzidos perto de nossas fronteiras.

DL – A diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, vem falando sobre biolaboratórios na Ucrânia desde o início da invasão russa.

TG – Existem mais de 25 biolaboratórios financiados pelos EUA operando na Ucrânia. Se o trabalho deles for destruído, isso pode levar ao vazamento e à disseminação de patógenos mortais pelo território americano e pelo mundo. Portanto, eles devem ser protegidos pra evitar o surgimento de novas pandemias.

DL – Após uma enxurrada de críticas, ela esclareceu que não estava falando de armas biológicas. No entanto, isso não a impediu de divulgar comentários de políticos americanos de direita, contrastando as garantias anteriores do governo Biden com as declarações atuais de autoridades de inteligência.

Jen Psaki, secretária de imprensa de Biden – A Rússia tem um histórico de espalhar mentiras descaradas desse tipo, incluindo alegações de que os EUA ou a Ucrânia estariam supostamente desenvolvendo programas de criação de armas químicas e biológicas.

TG – Pessoas influentes vêm afirmando há anos que esses laboratórios não existem.

DL – A presença desses laboratórios na Ucrânia é um problema? Sim, mas, segundo especialistas, não do tipo que os talk shows russos estão discutindo.

MF – Quando há uma guerra, todos correm risco. É um perigo muito sério. Não se trata apenas de exposição bacteriológica. Pode ser sobre eletricidade, sei lá, ou um depósito de lixo nuclear. Existe risco? Sim. De que tipo? As pessoas que trabalham aí são as que correm maior risco. Se os laboratórios forem bombardeados, elas podem adoecer. Se adoecerem, podem infectar outras pessoas.

AF – Parece que isso é um presente pra Rússia, um presente pro Kremlin, um presente pra Putin, um presente pra propaganda russa, que, naturalmente, começou a afirmar que todas as preocupações da Rússia com relação aos biolaboratórios na Ucrânia são justificadas.

DL – Tulsi Gabbard está deixando o cargo de diretora de Inteligência Nacional, sem nunca ter se tornado uma voz efetiva da comunidade de inteligência sob Trump. Após seu desentendimento com o atual governo sobre o Irã e uma série de outras questões de política externa, ela foi gradualmente afastada de reuniões importantes e de qualquer influência real nas decisões. E agora, tendo renunciado, volta à esfera pública no cômodo papel de denunciante. E os produtos que surgiram com o slogan “Vance-Gabbard 2028” sugerem que a história dos laboratórios pode se tornar apenas o primeiro episódio de sua futura carreira política.

AF – A questão principal é financeira. E é isso que Tulsi Gabbard enfatiza. E é a isso que ela apela. Ela está falando sobre como o dinheiro dos contribuintes americanos foi gasto nuns laboratórios em algum lugar, sabe-se lá pra quê.

Megyn Kelly, jornalista – Tulsi Gabbard poderia se candidatar à presidência em 2028?

TG – Eu nunca descarto nenhuma oportunidade de servir a meu país.



Екатерина Котрикадзе – Секретные биолаборатории США в Украине, одна из главных теорий заговора, которыми российская пропаганда пытается объяснить войну. К этой истории подключилась и глава американской Нацразведки. Накануне в своей отставке Тулси Габбард заявила о глобальной сети биолабораторий, финансируемых Вашингтоном и обвинила собственное государство в сокрытии правды о том, что на самом деле написано в её документах. Что за лаборатории такие работали в Украине и почему публикацию Габбард уже называют политическим подарком Кремлю? В материале Дарьи Левчук.

Тулси Габбард – Они не просто лгали, они угрожали тем, кто пытался рассказать правду.

Дарья Левчук – Сотни российских заголовков вышли с одинаковой формулировкой: США признали, что содержали более 40 биолабораторий в Украине, о которых годами врали миру. В конце мая директор Национальной разведки США Тулси Габбард объявила о своей отставке. На прощание 12 июня она сообщила о глобальной сети биолабораторий, финансируемых Вашингтоном.

Ведущий Первого канала – Американская разведка обнародовала новые материалы о расследовании деятельности биолабораторий, которые финансировались из бюджета США. Более 40 из них на Украине.

ТГ – Сегодняшняя публикация впервые раскрывает информацию о существовании, местонахождении и финансировании этих биолабораторий, финансируемых США. Все эти сведения долгое время намеренно скрывались влиятельными людьми, которые утверждали, что таких лабораторий вообще не существует.

ДЛ – Официальный релиз офиса Габбард – это всего четыре страницы документа с частично отредактированным текстом. В нём описываются лаборатории при областных диагностических центрах Украины, то есть обычные места, где хранят и изучают патогены. Примечательно другое: на карте биолабораторий неправильно показано расположение Киева и обозначены несуществующие города: Чернов и Закарпатье. А также указано, что украинские лаборатории якобы есть и в оккупированном России и Крыму.

Игорь Слабых, эксперт по США – Габбард работает на своём посту больше года. И в итоге всё, что она смогла найти – это четыре документа. В шапке его говорится о том, что ветеринарная лаборатория в Харькове стала объектом дезинформации со стороны России. Ну, как бы это как раз вот о том, о чём все и говорят. Да, действительно, там есть информация о том, что спонсировалось. Да, никто это не отрицает. Да, есть информация, сколько денег выделялось. Но нет информации там о том, какое конкретно биологическое оружие разрабатывалось, информации этой нету. Хорошо. А какие конкретные эксперименты проводились? Информации этой нету. Ну, то есть это это чистой воды пропаганда.

ДЛ – В публикации офиса директора Нацразведки США заявляется, что ранее информация об американском финансировании лабораторий “умышленно замалчивалась влиятельными лицами, в частности, иммунологом Энтони Фаучи и представителями администрации экс-президента США Джо Байдена. Речь идёт примерно о 120 объектах в 30 странах мира, из них более 40 в Украине”. Но изложенное в релизе уже давно известно. США действительно помогали Украине модернизировать диагностические и референс-лаборатории в рамках программы Biological Thread Reduction, связанной с конвенцией о запрете биологического оружия, что подтверждал Минздрав Украины.

Минздрав Украины – Суть сделки – противодействие угрозе вспышек опасных инфекционных заболеваний. Это соглашение есть в публичном доступе, и в нём вообще речь не идёт о военно-биологических программах или привлечении любых мощностей Минобороны Украины.

Александра Филиппенко, американист – Программа, которая была запущена в 1991 году, а существовала совершенно в открытую. Никакой военной тайны и вообще никакой тайны в этом не было. Более того, на официальных сайтах американских посольств подробно описана вот эта программа совместное противодействие угрозам, Программа Нанна-Лугара. Ну, вообще это программа, которая была создана для того, чтобы обезвредить разные лаборатории, которые создавались на территории стран, тогда ещё советских, а потом уже вот постсоветских стран, в связи с тем, что после развала Советского Союза ни у кого не было денег на их консервацию.

Уильям Мозер, дипломат – У Соединённых Штатов есть гуманитарные интересы, которые выходят за рамки вопросов силы и влияния. И я считаю, что для США важно продолжать такую работу.

ДЛ – Тем не менее, эти четыре слайда становятся для российской пропаганды доказательством того, о чём они твердили с 2022 года. Украина – полигон для разработки американского биологического оружия.

Мария Захарова – Теперь будут американцы ещё проверять всё то, что раньше, как я уже сказала, мировое сообщество вот это самое якобы цивилизованное отрицало.

Кирилл Дмитриев – Российская правда о биолабораториях Обамы и Байдена в Украине, которые подвергали мир опасности и существование которых ранее отрицали глубинное государство и традиционные СМИ, получило подтверждение в День России.

Михаил Фаворов, эпидемиолог – Финансирование закончилось после строительства и после обучения. Там это полгода они поддерживали титра и потом это финансирование прямого для сохранения лабораторий больше не было никогда. Они переходят на финансирование стран, где они были созданы. И это входит в договор.

ДЛ – Российская пропаганда превратила тему украинских биолабораторий в полноценную теорию заговора. Ещё до полномасштабного вторжения спецслужбы и подконтрольные медиа выстраивали сюжет о секретных лабораториях США. А по данным расследования Инсайдер, к разработке этой концепции было причастно подразделение ГРУ, которое системно встраивало её в информационные компании, от боевых комаров до оружия, поражающего уникальный ген русского человека.

Ведущая РЕН ТВ – Новые жуткие данные о биолабораториях на Украине сегодня сообщили в Министерстве обороны. Выяснилось, что под контролем США шла реализация сразу нескольких секретных программ. К примеру, изучали передачу заболевания от летучих мышей к человеку. Также следовалась возможность распространения инфекции с помощью птиц.

Ведущий ТВЦ – В Пентагоне сознали, что делали из комаров биооружие. Насекомые становились переносчиками жёлтой лихорадки и вирусов зика и чикунгунья.

Дмитрий Медведев – Наибольшая угроза сейчас исходит из биолабораторий на территории Украины. В ходе СВО были получены доказательства, что рядом с нашими границами фактически производились компоненты биологического оружия.

ДЛ – Глава Нацразведки Тулси Габбард говорит о биолабораториях в Украине ещё с начала российского вторжения.

ТГ – В Украине действует более 25 биолабораторий, финансируемых США. Если их работа будет нарушена, это может привести к утечке и распространению смертельно опасных патогенов по территории США и всего мира. Поэтому их необходимо обезопасить, чтобы предотвратить возникновение новых пандемий.

ДЛ – После шквала критики она уточнила, что речь идёт не о биологическом оружии. Однако это не мешало ей распространять комментарии правых американских политиков, которые противопоставляют прежние заверения администрации Байдена нынешним выступлением представителей разведки.

Джен Псаки, пресс-секретарь Байдена – У России есть история распространения откровенной лжи подобного рода, включая утверждения о том, что США или Украина якобы ведут программы по созданию химического и биологического оружия.

ТГ – Влиятельные люди годами утверждали, что этих лабораторий не существует.

ДЛ – Есть ли вообще проблема в наличии таких лабораторий в Украине? Да, но, по мнению экспертов, не та, о которой говорят российские ток-шоу.

МФ – Когда идёт война, риск есть у всех. Это очень серьёзная опасность. Это не только относится к бактериологическому воздействию. Это может относиться к электричеству, я не знаю, к хранилищу ядерных отходов. Риск есть? Да. Какой? Люди, которые там работают, вот кто под большим риском. Если по лабораториям бомбят, они могут заболеть. Если они заболеют, они могут заразить других.

АФ – Кажется, что это подарок России, подарок Кремлю, подарок Путину, подарок российской пропаганде, которая, конечно же, естественно стала говорить о том, что оправданы совершенно все опасения России относительно биолабораторий в Украине.

ДЛ – Тулси Габбард уходит с поста директора Национальной разведки, так и не став полноценным голосом разведсообщества при Трампе. После её несогласия с действующей администрацией по Ирану и ряда других внешнеполитических тем, её постепенно отстранили от ключевых совещаний и реального влияния на решение. Теперь же, уйдя в отставку, она возвращается в публичное поле в удобной для себя роли разоблачительницы. А появившийся мерч с надписью “Vance-Gabbard 2028” намекает, что история с лабораториями может стать лишь первой серией в её дальнейшей политической карьере.

АФ – Главный вопрос финансовый. И на это делает упор Тулси Габбард. И к этому она апеллирует. Она говорит о том, что вот деньги американских налогоплательщиков тратились на какие-то лаборатории где-то, непонятно зачем.

Мегин Келли, журналистка – Может ли Тулси Габбард баллотироваться в президенты в 2028 году?

ТГ – Я никогда не исключаю ни одной возможности послужить своей стране.



sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ucrânia NÃO persegue língua russa!

Qualquer conversa com uma ucraniana ou ucraniano exilado ou uma simples pesquisa em fontes que não sejam de propaganda vinda diretamente do Kremlin ou feita por simpatizantes direitistas ou esquerdistas de Putin já bastaria pra desmentir a ideia de que “há um genocídio de russos no Donbás” e que “a junta neonazista que deu um golpe de Estado em 2014 proibiu o uso da língua russa”. Ou melhor, basta uma imersão na realidade ucraniana que esses mitos, como diz o hino nacional, se desfazem “como o orvalho sob o Sol”.

Minha experiência pessoal pode ser suspeita, mas antes de 2014, sempre conversei no Facebook e no VK com ucranianos em russo (que aprendi na Unicamp de 2007 a 2010), e nunca nenhum deles expressou, até pra meu espanto, qualquer sinal de “russofobia” (e o inverso também vale). A partir de 2014, nas mesmas redes sociais, obviamente a hostilidade aumentaria, mas nenhum ucraniano jamais se recusou a usar o russo comigo; é óbvio que não converso com extremistas, que existem dos dois lados e sempre foram ínfima minoria.

Chegam 2022, quando eu já não usava mais várias redes sociais, e a invasão putinista, com sua leva de massacres civis e a proibição da cultura ucraniana nos territórios “libertados”. E ainda assim... ainda assim, sites ucranianos de notícias mantêm versões em língua russa; canais informativos que de Kyiv também transmitem pelo YouTube têm programas e vídeos inteiros em russo; todas essas mesmas mídias recebem, geralmente online, especialistas de outras nações, incluindo Israel, falantes de russo, e ucranianos (entre os quais destaco o politólogo Volodymyr Fysenko, sem contar os próprios funcionários do governo) falam na língua de Pushkin pra mídias russófonas exiladas.

Eu mesmo, se não soubesse russo, não teria nem uma fração do conhecimento que tenho sobre a guerra; só não domino ucraniano por falta de tempo, e não de vontade. Pra se ter uma noção, a língua russa sempre esteve tão integrada à vida pública ucraniana que todas as tentativas, incluindo as de 2014, de reduzir seu papel foram invariavelmente barradas pela Rada Suprema (o parlamento). Ucranianas e ucranianos no exterior, inclusive no Brasil, geralmente ensinavam russo porque sempre teve muito mais demanda que o ucraniano, mas muitos pararam exatamente por causa da facada nas costas dada por Putin. Hoje, se você sair numa rua da Rússia portando um tryzub (brasão nacional), uma bandeira ucraniana ou vestimentas que, nas mesmas cores dispostas na mesma forma, sejam remotamente semelhantes, é no mínimo detido e multado pesadamente por “simbologia extremista”!

A leitura da ótima história da Ucrânia por Serhii Plokhy já nos revela como, pelo contrário, foi o Império Russo, ao longo dos séculos 18 e 19, enquanto se expandia a partir dos territórios moscovitas originais, que proibiu o uso do ucraniano (que já era, adiciono, uma língua separada pelo menos desde o fim da Idade Média) em nome de um nacionalismo centrado no “grande irmão” e tutor dos “pequenos russos” e “russos brancos” (belarussos; sem relação com a reação antibolchevique). Na URSS, apenas sob Stalin, e especialmente de 1929-30 até a invasão alemã, a russificação forçada foi brutal, e embora Brezhnev e Gorbachov não perseguissem abertamente o ucraniano, sua negligência como língua pública, sobretudo da ciência e política, em prol do russo fizeram estragos enormes.

Já recaio no domínio do improvável, mas imagine a seguinte situação: e se o Brasil implicasse pra que o Uruguai adotasse o português não como obrigatório nas escolas (o que já acontece, aliás) ou mesmo cooficial, mas oficial, com os mesmos direitos do espanhol, alegando ter sido a “Cisplatina” uma “região histórica” do finado Império? Ou que a Bolívia e o Paraguai apenas sugerissem que a língua de Cervantes fosse oficializada no Acre (outrora sob domínio de La Paz), Rondônia, Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul, devido à proximidade das populações? O militante de sofá vai bater o pé e alegar uma falsa equivalência. Mas não, é essa mesma a linha de raciocínio.

Portanto, como nos informa Dmitri Gorkaliuk, influenciador moldovo que mantém o canal Málenkaia straná (Pequeno País), é natural que Kyiv, após a independência, promovesse políticas de revitalização do ucraniano em todas as esferas. Mas pra propaganda imperialista do Kremlin, qualquer favorecimento do ucraniano só pode vir em “detrimento” do pobre e coitado russo! A língua de Lenin, da Comintern, anteparo ao “nacionalismo fascista” de todo mundo que não mimetizasse Moscou, dirá nossa esquerda desinformada! E por mais que esses mitos possam ser facilmente derrubados, nunca é demais colaborar pra internet em língua portuguesa com qualquer conteúdo anti-Putin que seja.

Por isso, decidi separar deste vídeo recente, em que Gorkaliuk faz um especial de “perguntas e respostas”, um questionamento sobre a suposta “perseguição” de falantes de russo na Ucrânia. Eu apresentei todo esse pano de fundo pré-2022 porque ele foca exatamente na atualidade, o que não tira seu valor, pois muitos moldovos, sobretudo os de língua e cultura russas, são facilmente enganados pela propaganda moscovita, e é ela que Gorkaliuk se propõe a combater. Após traduzir, só tirei a referência a seu vídeo sobre o fechamento da Casa Russa na Moldova, mas pus o link pra quem se interessar:


A segunda pergunta: o que está acontecendo com os falantes de russo na Ucrânia? Eles estão realmente sendo oprimidos? O mito da opressão contra os falantes de russo é um dos principais argumentos usados pela propaganda russa para justificar a guerra.

Maria Zakharova, porta-voz da diplomacia russa (arquivos): “A Rada [Suprema, parlamento ucraniano] decidiu que o ucraniano será o único idioma oficial na Ucrânia.”

Mas o fato é que, mesmo com o início da uma guerra em grande escala, o idioma russo não desapareceu na Ucrânia. Sim, o ucraniano é obrigatório há muito tempo nas instituições públicas de ensino e no setor de serviços. Essa é uma política de Estado que visa fortalecer o idioma oficial. Mas no dia a dia, em casa e até mesmo fora dela, as pessoas falam o idioma que quiserem. Ninguém invade seu apartamento e o multa por falar russo na cozinha.

Além disso, a cultura em língua russa existe na Ucrânia. Livros em russo são vendidos nas lojas e artistas se apresentam cantando em russo. De fato, muitos deles voluntariamente passaram a usar o ucraniano depois de 2022. Existe o canal de TV estatal Dom, que transmite em russo. Veículos de comunicação como a UNIAN publicam vídeos e mantêm perfis em redes sociais em russo.

Quanto ao ensino, sim, o ucraniano se tornou obrigatório nas escolas, mas isso não implica que as crianças apanhem de palmatória por falarem russo, e sim que o Estado quer que seus cidadãos dominem o idioma oficial. Exatamente como na França, onde se ensina em francês, e na Alemanha, em alemão. Acredito que a relutância de muitos ucranianos em falar a língua do agressor dispensa explicações. Mas, como dizem na russófona Odesa, escolha voluntária e imposição são duas coisas muito diferentes.

Com relação à Moldova e às preocupações quanto à opressão linguística em nosso país, o governo decidiu fechar a Casa Russa em Chișinău. As autoridades justificaram a decisão dizendo que as atividades do centro iam além do intercâmbio cultural. E realmente, se analisarmos o que faziam centros russos semelhantes em diversos países, fica claro que não se tratava de Pushkin e Dostoievski, mas de promover a política do Kremlin sob o disfarce de cultura.

A Casa Russa não era o único espaço, nem um espaço necessário, pra cultura ou comunicação. Seu fechamento foi uma medida sanitária, para eliminar uma instituição que, sob o disfarce de cultura, praticava manipulação e interferência política. É exatamente por isso que existe tanta histeria em torno do assunto. Não porque ela fosse importante pra sociedade, mas porque era útil pro Kremlin.

Portanto, a resposta é simples. Os falantes de russo não estão sendo oprimidos nem na Ucrânia nem na Moldova. A Ucrânia segue uma política linguística voltada pro fortalecimento do idioma oficial. E esse é um direito soberano seu. Mas os militares russos não estão apenas oprimindo os ucranianos; estão os matando. As regiões de língua russa são as que mais têm sofrido com a guerra.


Второй вопрос. Что происходит с русскоязычными в Украине? Их, правда, притесняют? Миф о притеснении русскоязычных – один из главных аргументов российской пропаганды для оправдания войны.

“Рада приняла решение относительно того, что единственным государственным языком на Украине будет только украинский.”

Но факт состоит в том, что даже с началом полномасштабной войны русский язык в Украине никуда не исчез. Да, украинский уже давно стал обязательным для государственных учреждений образования и сферы услуг. Это политика государства, направленная на укрепление государственного языка. Но в быту, дома, да и вне его, люди говорят на том языке, на каком хотят. Никто не вырывается к вам в квартиру и не штрафует за русский разговор на кухне.

Более того, русскоязычная культура в Украине существует. Русскоязычные книги продаются в магазинах, русскоязычные артисты выступают. Правда, многие из них после 2022 года сознательно перешли на украинский. Есть государственный телеканал Дом, вещающий на русском. Медиа типа УНИАНа выкладывают видео и ведут соцсети на русском языке.

Что касается образования, да, украинский стал обязательным в школах, но это не значит, что русскоязычных детей бьют по рукам за русское слово. Это значит, что государство хочет, чтобы его граждане владели государственным языком. Точно так же, как во Франции обучают на французском, а в Германии на немецком. Нежелание многих украинцев говорить на языке агрессора, думаю, не требует объяснений. Но, как говорят в русскоязычной Одессе, добровольный выбор и притеснение – это две большие разницы.

Что касается Молдовы и опасений по поводу притеснения языка у нас, правительство приняло решение закрыть Русский дом в Кишинёве. Власти объяснили это тем, что деятельность центра выходила за рамки культурного обмена. И действительно, если посмотреть на то, чем занимались подобные российские центры в разных странах, становится понятно, это не про Пушкина и Достоевского, это про продвижение кремлёвской политики под видом культуры.

Русский дом не был ни единственным, ни необходимым пространством для культуры или общения. Его закрытие – это санитарная мера. Убрать структуру, которая под видом культуры занималась политической манипуляцией и вмешательством. Именно поэтому вокруг него так много истерики. Не потому, что он был важен обществу, а потому, что он был полезен Кремлю.

Так что ответ простой. Русскоязычных ни в Украине, ни в Молдове не притесняют. Украина проводит языковую политику, направленную на укрепление государственного языка. И это её суверенное право. А вот российские военные не просто притесняют украинцев, а убивают их. Больше всего от войны пострадали именно русскоязычные регионы.



Pro humor de cada dia, um penteado diferente, rs.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A Pérsia “roubou” o conceito de Irã!

Há algum tempo acompanho no YouTube o canal Hikma History, de um rapaz com sotaque (a meus ouvidos) levemente britânico e identificado como Tariq, que afirma estar fazendo seu PhD em História. Entre outras coisas, “hikma” em árabe significa “conhecimento, sabedoria”, e o assunto é justamente a história política do mundo muçulmano desde a Idade Média europeia, abrangendo de antigos impérios até os ditadores modernos. De um ponto de vista laico, sem proselitismos. Eu também achava que sua pronúncia de alguns nomes era baseada no persa, ainda que desconfiasse que ele não fosse iraniano.

Porém, após uma pesquisa, descobri esses dias que o estudante é um imigrante afegão de nome completo Tariq Basharat, sua língua materna é o pastó – e não o persa, do qual ele teria um conhecimento básico – e ele mora nos EUA, e não no Reino Unido. Há poucas informações soltas sobre sua biografia, e embora sua data de nascimento seja desconhecida (ao menos sem uma conta no LinkedIn; aparenta estar na faixa dos 30), ele teria vindo do Afeganistão com oito anos de idade, segundo uma página que reúne informações sobre youtubers relevantes. Exceto em vídeos antigos, só recentemente ele começou a mostrar mais seu rosto, intercalando com as já célebres gravuras lindíssimas.

Praticamente TODOS os seus vídeos são ótimos e úteis, mas raramente resolvo os traduzir pra transformar em texto aqui, como fiz ontem com o vídeo do francês Mounir Laggoune, da Finary, sobre a Suíça. Sendo um vídeo explicando como o atual Irã, que até 1935 se chamava Pérsia e era herdeiro de um império milenar, “surrupiou” a identidade iraniana – que abarca diversos povos – como exclusividade dos persas, possui considerável interesse e utilidade pros brasileiros hoje, se acompanham o noticiário internacional. Imprimi um tom mais informal à linguagem e, sempre que possível, tentei achar versões portuguesas dos nomes endógenos.



A história é um tema muito útil no âmbito da política. Ela pode ser usada pra conectar uma nação a um passado antigo, repleto de contos de glória e conquistas. No período moderno, vários países muçulmanos começaram a demonstrar grande interesse pela história de suas nações. A Pérsia, bastião da civilização que sempre foi, abraçou esse desenvolvimento com entusiasmo. Tanto que seu governante autocrático e modernizador, Reza Shah Pahlavi, decidiu mudar oficialmente o nome do país pro seu nome histórico, “Irã”. Esse era o termo pelo qual a região era conhecida no passado.

O único problema era que o termo, na verdade, implicava uma área muito maior que apenas o atual Irã. Pérsia deriva de Fars, que é apenas uma das muitas províncias do Irã. Consequentemente, os persas tiveram um papel dominante na formação da cultura iraniana. No entanto, a mudança oficial do nome foi criticada por muitos intelectuais em países vizinhos como o Afeganistão, porque “o nome do todo foi dado a uma parte”. Junte-se a mim enquanto discuto a formação das identidades modernas e como a história pode moldá-las.

Nem todos os iranianos são persas, bem como nem todas as pessoas que se identificam como persas são necessariamente de origem iraniana. Eu explico: em sua definição mais literal, alguém é iraniano se a língua nativa de seus ancestrais puder ser incluída no grupo linguístico iraniano do ramo indo-iraniano, que por sua vez pertence à grande família linguística indo-europeia. De acordo com essa definição, um osseto cristão lutando contra a Geórgia e a Rússia hoje é tão iraniano quanto um persa xiita comerciando em Shiraz. Existem hoje aproximadamente 200 milhões de falantes nativos de línguas iranianas, como o pastó, o curdo e o persa, que por si só representa quase metade desses 200 milhões. Todas essas línguas descendem da mesma língua hipotética proto-iraniana, que surgiu há cerca de 4 mil anos na estepe pôntica-cáspia, após a separação dos povos iranianos e indo-arianos ou índicos.

Os antigos iranianos cultuavam um panteão de deuses, com Aúra-Masda como ser supremo. Eles se distinguiam por sua devoção a Aúra-Masda e se definiam por essa devoção: a coleção de textos sagrados zoroastrianos conhecida como Avestá define “Arya” – um termo que se traduz mais ou menos como “iraniano” nos dias de hoje – em parte pelo culto da pessoa a Aúra-Masda. Se ela não a cultuava, essa pessoa não era iraniana. Os diversos povos iranianos gradualmente se espalharam pela Europa Oriental, Ásia Central e Oriente Médio. Entre os diversos grupos de iranianos, nenhuma cultura teve uma presença mais duradoura em toda a região do que a dos persas.

O primeiro Império Persa, fundado por Ciro, da dinastia dquemênida, por volta de 559 AEC, foi mais poderoso e influente que qualquer outro império na história que o precedeu. A cultura persa era vista pelos contemporâneos como refinada e irretocável, enquanto Ciro era conhecido como um adversário implacável e um governante benevolente. À medida que ele e seus sucessores xás conquistavam mais territórios, interagiam com os diversos povos do Levante, da Mesopotâmia e da Ásia Central. Com o tempo, muitos desses povos adotaram os costumes persas e ampliaram a extensão do Grande Irã. De fato, a cultura persa era tão estimada que os conquistadores de terras persas tentavam se legitimar como governantes por meio de suas próprias conexões com o prestígio persa. Alexandre [“o Grande”] da Macedônia misturou elementos helenísticos e persas em sua conquista do Império Aquemênida, frequentemente enfatizando demais o aspecto persa aos olhos de seus súditos macedônios.

Mesmo cerca de um milênio após a conquista muçulmana, permaneceu na moda entre os não persas reivindicar descendência genética ou filosófica de figuras como Ciro. Mais tarde, em 224 EC, surgiu um segundo Império Persa sob a dinastia sassânida, cujos governantes patrocinaram avanços incríveis na ciência e na literatura e buscaram ativamente emular seus predecessores aquemênidas. Até a era sassânida, o termo “Ērān” era usado apenas em referência às terras onde os iranianos viviam, sendo, portanto, mais conceitual do que tangível. Foi durante a era sassânida que Ērān passou a ser usado também para se referir às terras controladas pelo Ērānšahr [ou Iranshahr], endônimo sassânida que significa Império dos Iranianos.

Essencialmente, o conceito de Irã é anterior à hegemonia persa, embora as noções de identidades iraniana e persa continuem a interagir e se influenciar mutuamente. A noção de Irã como uma nação com fronteiras, no entanto, é uma ideia inerentemente persa. A rápida conquista de todo o Império Sassânida pelos califas islâmicos destruiu o Irã politicamente. Mas a cultura persa sobreviveu aos califados ortodoxo [rashidun] e omíada, até permear a cultura dos califas abássidas muçulmanos. Então, no contexto do declínio dos abássidas no século 9, diversas dinastias iranianas muçulmanas afirmaram sua autoridade no Iraque, na Pérsia, no Corassã e na Transoxiana. Esse período ficou conhecido como o Interlúdio [Intermezzo] Iraniano ou Renascimento Persa.

Apesar de estarem sob a suserania dos abássidas, na prática esses Estados desfrutavam de independência, que utilizaram para revitalizar o espírito nacional iraniano. Curiosamente, dos cerca de 15 estados regionais durante o Interlúdio, apenas dois (taíridas e buídas) eram provavelmente de origem étnica persa. Os 13 restantes incluíam três dinastias de origem iraniana oriental, quatro dinastias de origem iraniana cáspia, cinco dinastias de origem curda, pelo menos em parte, e uma dinastia de origem turca que tinha sido culturalmente persianizada. Apesar de suas origens díspares, cada uma dessas dinastias contribuiu de alguma forma pra revitalizar a influência cultural persa no Grande Irã.

O Interlúdio serviu como uma expressão de rebelião contra a dominação cultural e política dos árabes sobre os iranianos. Isso se estendeu à esfera religiosa, já que alguns dos Estados do Interlúdio eram xiitas. Os buídas do Irã e do Iraque simbolizavam isso: eram xiitas duodecimanos que orgulhosamente destacavam seus laços com a Pérsia pré-islâmica. Os governantes buídas gravaram muitas inscrições na capital aquemênida, Persépolis, e fizeram referência constante ao Ērānšahr, ou Grande Irã. De muitas maneiras, o xiismo ofereceu aos iranianos a possibilidade de serem diferentes, mantendo sua recém-descoberta identidade islâmica, que a essa altura já estava integrada à consciência iraniana. Isso se tornou importante aos safávidas mais tarde, quando buscavam se diferenciar dos otomanos.

Além disso, o xiismo lhes deu espaço pra expressar suas práticas culturais juntamente com suas práticas religiosas, considerando que o xiismo era muito menos ortodoxo que o islamismo sunita dominante. Nesse contexto, a rebelião antiabássida do Movimento Curramita foi uma seita sincrética que se inspirou tanto no islamismo xiita quanto no zoroastrismo. Na época, os xiitas ainda estavam formulando o cânone de suas crenças – pros xiitas duodecimanos, esse processo só se completou no século 17 com as obras de Mohamed Baqer al-Majlesi.

Mais ao norte dos emirados buídas, nas costas isoladas do mar Cáspio, a antiga religião zoroastriana ainda mantinha uma forte presença. No Tabaristão, Mardavij estabeleceu a dinastia ziárida com a intenção de restaurar um império iraniano nativo, com o zoroastrismo como religião oficial. Logo depois, os ziárias se converteram ao islã, mas os cronistas árabes consistentemente se referiam aos dailamitas e guilitas que viviam na região como ateus, provavelmente devido à sua heterodoxia religiosa. Assim, de modo geral, o Interlúdio Iraniano permitiu que marcadores de identidade pré-islâmicos – a herança aquemênida e sassânida, o zoroastrismo, bem como a língua persa – fossem incorporados de forma robusta a uma identidade iraniana muçulmana.

Falando em persa, a obra quintessencial da literatura iraniana, a Epopeia dos Reis [Shāhnāmeh], também surgiu durante este Interlúdio. Desde sua conclusão, há mais de mil anos, moldou o conceito de nacionalidade iraniana. Servindo nas cortes dos samânidas e dos gasnévidas, o poeta Ferdusi compilou centenas de contos persas de grande importância cultural, incluindo textos do Irã pré-literário e histórias de sua própria autoria. A origem persa dos contos da Epopeia dos Reis, portanto, vinculou para sempre os iranianos a uma herança cultural persa compartilhada. A Epopeia redefiniu o significado de ser iraniano e até hoje permanece uma fonte de unidade e reverência para milhões de iranianos.

Mais de 900 anos após a Epopeia dos Reis definir a identidade iraniana, o espectro do imperialismo europeu do século 20 desencadeou intensos debates sobre a melhor forma de proteger a nação iraniana – e a quem essa nação pertencia. Em 1925, após anos conduzindo o Irã à ruína, a dinastia cajar foi deposta por Reza Shah Pahlavi. O novo xá declarou à comunidade internacional em 1935 que não era o “Xá da Pérsia”, mas sim o “Xá do Irã”, e que a partir de então seu país deveria ser chamado apenas “Irã”. O pedido de Reza Shah tinha como objetivo obter legitimidade histórica pra sua nação. As nações ocidentais prontamente adotaram a mudança de nome, mas a declaração de Reza Shah provocou uma reação muito mais diversa entre os não persas no Grande Irã.

Nesse período, no mundo islâmico, houve uma explosão repentina de interesse pela herança pré-islâmica, especialmente por sua capacidade de legitimar o Estado-nação. No Afeganistão vizinho, havia uma intelectualidade vibrante e em expansão, ansiosa por explorar o rico passado antigo de sua nação. O historiador afegão Ahmad Ali Kohzad denunciou a mudança de nome como uma tentativa persa de reivindicar a posse do Grande Irã em sua totalidade, opinando amargamente que “o nome do todo foi dado a uma parte”. Contudo, Kohzad também reconheceu, ainda que relutantemente, a enorme influência persa sobre o Grande Irã como um todo.

Nesse sentido, Reza Shah, que nasceu Reza Khan numa família mazandarani do Cáspio, lançou uma campanha de persianização que visava eliminar as identidades culturais de não persas, incluindo os mazandaranis étnicos. Os povos turcos foram os principais alvos, embora muitos dos arquitetos e apoiadores mais fervorosos dessa política de assimilação forçada fossem azerbaijanos étnicos que tinham rejeitado sua etnia turca em favor de uma identidade persa.

Além do Oriente Médio, a política identitária desempenhava um papel fundamental na política europeia. Reza Shah era um admirador de Hitler. Da mesma forma, seu filho e sucessor, Mohammed Reza Shah, chegou a fazer alusão positiva à teoria da raça ariana ao descrever o Irã como semelhante às “outras nações arianas da Europa”. Lembremos que na época, a Europa e o Ocidente eram vistos como o ápice da civilização. Muitos líderes do Oriente Médio, incluindo Atatürk, amigo de Reza Shah, sentiam que precisavam se tornar semelhantes aos europeus pra serem fortes e poderosos como eles.

Ambos os xás da dinastia Pahlavi fomentaram essa fusão entre o excepcionalismo persa e o secularismo radical que o acompanhava e reprimiram brutalmente qualquer descontentamento manifestado pelos influentes clérigos islâmicos do país e pelas massas iranianas em geral. Isso culminou com a deposição de Mohammad Reza em 1979 e a instalação de uma teocracia islâmica ultraconservadora em seu lugar, inaugurando uma Pérsia sem monarquia pela primeira vez na história registrada e um futuro instável.

As identidades iraniana e persa se misturaram e divergiram com tanta frequência ao longo de mais de 2 mil anos que, às vezes, é difícil discernir quais aspectos de cada uma são distintos. A autoridade duradoura e relativamente incontestada da república islâmica, portanto, pode potencialmente redefinir permanentemente a identidade iraniana mais uma vez. O domínio do islã no Irã não é novidade, mas a rejeição da herança persa pela liderança iraniana, sim. Ferdusi relatou com orgulho mais de mil anos de tradição cultural persa zoroastriana na Epopeia dos Reis, embora ele próprio fosse muçulmano.

O atual Estado iraniano se mantém distante de grande parte da herança persa, intrinsecamente ligada à terra. Só o tempo vai dizer se ele vai se engajar com a identidade persa histórica ou contribuir pro desenvolvimento de uma nova. Meu palpite é que vai ter o mesmo efeito pendular das reformas modernizadoras dos Pahlavi: fazer com que, no final, um número suficiente de iranianos retorne ao extremo oposto.



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Como a Suíça criou o país perfeito?

Achei por acaso o vídeo incorporado no final da página, publicado em 19 de novembro de 2025 no canal do Finary, um aplicativo francês que ajuda na gestão das finanças pessoais. Foi gravado por Mounir Laggoune, um dos fundadores e atual CEO da Finary, que tenta explicar brevemente qual seria o “segredo” por trás da riqueza e bem-estar dos habitantes da Suíça, embora ela tivesse tudo pra “dar errado”, ou melhor, a princípio “nada a seu favor”, como ele diz. Decidi o traduzir porque, embora em formato texto fique bastante longo, o vídeo em si é curtinho e contém o essencial dos argumentos que outros vídeos também apresentam.

Laggoune é formado pela Escola Superior de Ciências Econômicas e Comerciais (ESSEC) francesa e, embora não seja historiador nem sociólogo, teve o mérito de apresentar também os pontos fracos do “modelo suíço”. Se você não gostou de suas credenciais, recomendo ver o documentário (26 de março de 2024) da própria TV suíça de língua francesa com o mesmíssimo tema, incluindo honestamente as partes “podres” desse crescimento, como o assentimento em depositar ouro alemão durante a 2.ª Guerra Mundial. Deixei a redação em estilo mais informal, mas qualquer erro que possa haver é de minha responsabilidade: se você achar algum ou se achar que certas passagens podiam ter sido traduzidas de outra forma, pode comentar!

Obviamente nem todas as passagens têm tradução literal, e também inseri algumas explicações entre chaves quando necessário. Lembremos que Laggoune fala enquanto francês, portanto, fiz algumas adaptações quando ele não cita explicitamente a Europa e a França. Por fim, a divisão em parágrafos é minha, mas mantive os subtítulos que ele próprio inseriu e apenas pulei uma parte no meio em que ele simplesmente faz a propaganda de seu Finary:



Adendo (1/2/2026): Recentemente, o italiano Simone Guida, do canal Nova Lectio, também lançou um vídeo sobre a Suíça, enfatizando os aspectos da segurança e a dificuldade de invasão estrangeira gerada pela topografia. Ele se aprofunda mais no contexto histórico (guerras, tratados etc.) e retoma alguns dos planos estatais de defesa também apresentados por Laggoune, pincelando no final aspectos mais propriamente econômicos e sociais destrinchados pelo francês:


A Suíça tem tudo pra fracassar. Sem petróleo, sem acesso ao mar. 60% de seu território é coberto de montanhas. Porém, um em cada sete suíços é milionário. Um funcionário do comércio, um caixa ou ainda um recepcionista ganha em média 52 mil euros por ano. Já um engenheiro chega a 102 mil euros por ano. Esse pequeno país e 9 milhões de habitantes intriga pela constância de seu sucesso. Tranquilo, metódico, discreto. Então, como a Suíça transformou seus piores defeitos em seus melhores atributos? Me deixem lhes contar a história excepcional do país que nada tinha a seu favor.

Como a Suíça enriqueceu – A maioria dos países ricos têm um trunfo secreto. Alguns descobriram o ouro negro. Já a Suíça recebeu o ouro neutro. O ouro negro é o petróleo vendido em troca de ouro. O ouro neutro é a neutralidade que atrai o ouro dos outros. Ao contrário do que se podia crer, a famosa neutralidade suíça na verdade não era uma escolha, mas um cruzamento de circunstâncias. Desde seus princípios, a Suíça é um país instável. Ela era conhecida por vender, ao preço mais alto possível, mercenários que estavam entre os melhores da Europa. Aliás, desde sua criação, em 1506, a Guarda Pontifícia sempre foi suíça.

Congresso de Viena, 1815, Napoleão foi vencido. A Grã-Bretanha, a Áustria, a Prússia e a Rússia selam o destino da Suíça. As maiores potências querem pacificar a Europa. Em comum acordo, elas impõem a neutralidade à Suíça. Alguns anos mais tarde, a Constituição Federal de 1848 ratifica definitivamente o fim do mercenariado suíço, que era, porém, um ramo componente da economia. O plano das grandes potências deu certo. Concretamente, a neutralidade suíça não é uma escolha moral, mas uma obrigação. Mas ao contrário do petróleo, que pode ser vendido imediatamente, a neutralidade permanece como um estatuto diplomático, uma assinatura sobre o papel.

Durante 100 anos, a Suíça permaneceu como um país médio, nem rico, nem pobre. Foi em 1914 que tudo vai mudar. Os beligerantes da Grande Guerra procuram um lugar seguro pra seus ativos. A Suíça lhes apresenta três argumentos convincentes. O primeiro, segurança física. Eram os próprios signatários do Congresso de Viena que estavam em guerra: ocupados com a defesa de suas fronteiras ou a condução de invasões, violar o acordo invadindo a Suíça não lhes traria nenhum ganho estratégico. Portanto, a Suíça não vai ser invadida.

O segundo argumento é a estabilidade monetária. Em toda a Europa, a guerra é financiada pela emissão monetária. A cada dia que passa, as moedas perdem seu valor. A fim de evitar uma deflação massiva, o Banco Central Suíço decide abandonar o padrão-ouro. Mas em virtude de sua não intervenção no conflito, o franco suíço resiste bem melhor à inflação do que as moedas vizinhas.

O terceiro é a tributação. A fim de financiar a guerra, os Estados aumentam massivamente os impostos. O resultado imediato é uma fuga de capitais privados rumo à Suíça. Durante a Grande Guerra, os fundos gerados pelos bancos suíços vão triplicar. Pela primeira vez, a neutralidade é convertida em ouro. A Suíça repete exatamente a mesma manobra durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, é o único país industrializado com todas as infraestruturas ainda intactas. As fábricas suíças podem produzir pro continente inteiro. Os capitais continuam afluindo.

Mas então, a neutralidade basta por si só pra transformar qualquer país pequeno em caixa-forte mundial? Bem, na verdade não. Em 1939, a Bélgica se declara neutra. Resultado, foi invadida em 1940. Sua neutralidade não protegeu nem suas fronteiras, nem sua economia. Por quê? Até aqui, podíamos acreditar que a Suíça simplesmente teve sorte: uma neutralidade imposta e vizinhos ocupados em guerrearem entre si. Mas a verdade é que a partir do século 20, a Suíça decidiu tomar o controle de seu destino a fim de armar sua neutralidade. Ela entendeu antes de todo mundo que um tratado, na verdade, não protege ninguém. Tinta sobre um pedaço de papel não basta. Pra Suíça, sua postura de entreposto central financeiro e diplomático era uma questão de sobrevivência. Invadir a Suíça implicaria destruir o lugar onde ainda se faziam os negócios. Fosse o ouro aliado ou o nazista, a Suíça não fazia distinção.

O segredo bancário suíço data de 1934, mas há muito tempo os bancos suíços ofereciam contas numeradas. Elas não são anônimas no sentido estrito, mas permitem uma proteção que não é oferecida em nenhum outro lugar. Em 2013, o economista Gabriel Zucman tinha feito este cálculo: 80% das fortunas offshore na Suíça não estariam declaradas às autoridades fiscais dos países de residência. O Banco Nacional Suíço, a imprensa e o consenso universitário mais prudente falam antes em 10%. Mas a Suíça, ao contrário da Bélgica, sabia que a diplomacia não bastaria.

O plano de redução nacional visava implodir o máximo possível de caminhos sob túneis e pontes [em caso de invasão estrangeira]. Contavam-se entre 2 e 3 mil instalações de destruição. O túnel de Gothar, por exemplo, continha 3,5 toneladas de explosivos, o bastante pra condenar a passagem durante ao menos alguns meses ou até alguns anos. O exército suíço não precisava vencer, mas apenas tornar a invasão dispendiosa demais.

O terreno e a criatividade são a dissuasão nuclear da Suíça. Se isso viesse a falhar, a ordem era simples: recolher-se nos Alpes pra forçar o invasor numa guerra em declive contra 430 mil homens que conhecem perfeitamente o ambiente. Dos 4 milhões de habitantes da época, é proporcionalmente mais que a França e inclusive a Alemanha.

A Suíça: um modelo perfeito – Hoje, mesmo se a neutralidade suíça é contestada, a cultura dessa neutralidade continua bem enraizada. Genebra abriga mais de 40 organizações internacionais, entre as quais a ONU, a OMS ou ainda a OMC. Todos os anos, ocorrem aí mais de 3,5 mil reuniões diplomáticas. Ao contrário de diversos países europeus, o serviço militar continua sendo obrigatório na Suíça. Cada cidadão, se assim o deseja, pode guardar em casa sua arma, um fuzil de assalto SIG SG 550. Com 28 armas detidas por cada 100 habitantes, a Suíça é um dos países europeus mais armados. Porém, isso não a impede de ter uma das taxas de homicídio mais baixas do mundo.

As estruturas de redução nacional continuam presentes, mas não são mais operacionais. A isso se juntam mais de 9 milhões de vagas em abrigos subterrâneos que abarcam amplamente a população. A título de comparação, somente 4% dos franceses poderiam garantir uma vaga em um de nossos poucos milhares de abrigos. Concretamente, as coisas não mudam. Se o pior viesse a acontecer, cada suíço podia se refugiar aí. Neutralidade, mas armada.

No imaginário popular, a Suíça é o país dos bancos e da relojoaria de luxo. Patek Philippe vende o relógio mais caro do mundo por 31 milhões de francos suíços. Os bancos suíços controlam 11,6 trilhões de dólares em ativos, ou seja, cerca de 11 vezes o PIB nacional. Mas no total, a indústria bancária e financeira suíça só representa 10% de seu PIB. Já sua relojoaria mal chega a 1,5%. Reduzir a Suíça aos bancos e aos relógios é ignorar quase 90% do que faz sua riqueza atual.

Pra além dos clichês, eis o que dizem os números sobre os setores em que as suíças e os suíços realmente trabalham. A Suíça não tem acesso ao mar, porém, sedia MSC, o primeiro grupo mundial de transporte marítimo de contêineres. A partir de Genebra, a MSC controla mais de 800 navios e cerca de 20% do comércio marítimo mundial em contêineres. O setor de transportes e logística representa cerca de 4% do PIB suíço. A Suíça não tem nenhuma matéria-prima, porém, é a sede da Nestlé, o maior grupo agroalimentar ao mundo. Vitol, Mercuria, Cargill: Genebra é o principal entreposto do comércio mundial. É aí que se decide o destino de uma parte do petróleo que consumimos ou ainda dos cereais que comemos.

Vocês sabem que a Suíça se constitui de 60% de montanhas, das quais 25% constituem terrenos inacessíveis. Isso não impede o setor imobiliário e de construção de pesarem 21% do PIB em 2025. A Suíça não tem petróleo nem um Vale do Silício, porém, exporta mais valor per capita que a China e os EUA. Seu motor principal é a indústria farmacêutica e química, que representa cerca de 7% do PIB e mais de 49% das exportações suíças. Dois gigantes, Roche e Novartis, dominam o cenário mundial.

Mas então, por que tamanho sucesso? Como esse país de 9 milhões de habitantes sem nada a seu favor é tão presente e influente em tantos setores? Pra começar a entender isso na história da Suíça, suas vantagens sempre se deveram a uma dose de sorte e a decisões ponderadas.

O alinhamento planetário – Eu lhes dizia que a Suíça sempre teve um pouco de sorte. Ela se encontra no coração do que os geógrafos chamam de “banana azul”, o arco europeu que concentra 80% da riqueza e da população do continente. De Londres a Milão, passando pelo Ruhr, por Zurique e Genebra, no corredor econômico mais denso do mundo ocidental. A Suíça está bem no meio, mas a sorte não explica tudo sozinha. Entre os países, a Suíça é como a Apple: ela não busca fazer mais barato, mas melhor. Novartis e Roche desenvolvem medicamentos inovadores e testes que o mundo inteiro adquire. ABB e Georg Fischer produzem equipamentos industriais raros, insubstituíveis e únicos.

A Suíça ocupa o primeiro lugar mundial do Índice Global de Inovação 2025. Seu segredo é um sistema educativo dual, único no mundo. A partir dos 16 anos, cerca de 70% dos jovens escolhem sua grade. Eles alternam entre escola e empresa durante três ou quatro anos. Um marceneiro iniciante pode facilmente ganhar entre 4 e 4,5 mil francos suíços, não descontados os impostos. Os ofícios manuais são respeitados e mesmo concorridos. A trilha da formação técnica na Suíça é bem mais valorizada e socialmente aceita que na França.

As universidades não ficam pra trás e figuram entre as melhores do mundo. O EPFL, o ETH de Zurique e a Universidade de St. Gallen rivalizam todos os anos com o MIT ou Stanford. Aliás, deixam bem pra trás a Politécnica Nacional francesa. Os egressos dessas faculdades vão parar em indústrias de ponta. Farmacologia, finanças, engenharia, tecnologia: 27 ganhadores do Prêmio Nobel são suíços. No país, teoria e prática contribuem de mãos dadas e em pé de igualdade pra competitividade nacional. Resultado, um PIB per capita de 103 mil dólares, o terceiro maior do mundo, mesmo preservando uma taxa horária média de 38 francos suíços, também uma das mais altas do mundo. Já o salário bruto médio é de 7 mil francos mensais, e a taxa de desemprego é de 2,8%, ou seja, três vezes menor que na França.

Mas a Suíça faz mais que produzir recursos: ela produz confiança.

A cultura da confiança, do trabalho e da disciplina financeira – Na Suíça, a democracia direta dá aos cidadãos um poder único. Eles podem bloquear ou aprovar qualquer lei por referendo. Crescimento rima com estabilidade. Na Suíça, a democracia direta provoca decisões, de fato, lentas, mas raramente erradas. Sem crise política explosiva, sem revolução fiscal, sem ideologia dominante, somente um pragmatismo frio. Tomemos o exemplo do sistema de transporte ferroviário: em 2024, 93,2% dos trens suíços chegaram pontualmente. Na Suíça, “pontualmente” significa menos de três minutos de atraso, contra cinco minutos na França, seis na Alemanha e 15 na Itália. A Suíça ocupa o primeiro lugar no ranking europeu de pontualidade global. A França, com 91,9% de pontualidade pra seus trens regionais em 2019, fica no 11.º lugar entre 16 países analisados.

É isso o pragmatismo suíço. Além disso, esse modelo de democracia valoriza a responsabilidade individual e reforça uma cultura da confiança. 62% dos suíços entrevistados confiam em suas instituições. A média da OCDE está em 39%. Na França, esse número até cai pra 30%. Essa confiança também se reflete na relação com o dinheiro. Trabalhar, gastar pouco, poupar, investir. O sistema previdenciário suíço se assenta em três pilares: a aposentadoria pública, a previdência profissional obrigatória e a poupança privada voluntária. Esses dois últimos pilares funcionam por capitalização: os suíços poupam e investem ao longo de toda a sua vida ativa. Resultado, uma das taxas de poupança mais altas do mundo e uma população acostumada a pensar no longo prazo.

Mas é sobretudo na disciplina orçamentária que essa cultura se revela. Na década de 1990, as finanças federais suíças sofreram uma profunda crise. O endividamento explodiu em várias dezenas de pontos do PIB em uma década. A resposta: em 2001, os suíços aprovam por 85% um novo artigo constitucional sobre o freio ao endividamento. A regra é muito simples: as despesas não podem ultrapassar as receitas, exceto em caso de crise econômica maior. Desde então, o Parlamento e o Conselho Federal são constitucionalmente obrigados a respeitar essa regra durante a elaboração do orçamento, o que trouxe a disciplina de volta. Em 2024 o orçamento consolidado da Confederação apresentou um superávit de 11,3 bilhões de francos suíços. Não são os impostos que permitem isso, mas um sistema econômico público espantosamente performático. Mas então, pra onde vai esse excedente? Em grande parte, pro reembolso de dívidas anteriores e pra constituição de reservas.

Os paradoxos suíços – A Suíça parece regulada como um relógio, ao menos na aparência: por trás do mostrador bem cuidado, a engrenagem ainda está longe de funcionar perfeitamente. Como eu lhes dizia há pouco, o salário bruto médio na Suíça é de cerca de 7 mil francos mensais. Pra uma família de quatro pessoas, os gastos correntes atingem de 5 a 6 mil francos. Um apartamento de 60 m² em Lausanne fica entre 2,4 e 2,8 mil francos suíços por mês. Já a alimentação é 58% mais cara que na França. Pra certos produtos, os preços chegam a dobrar. Se ajustamos o poder de compra, os suíços seriam apenas 11% mais ricos que os alemães. Apesar dos salários duas vezes maiores, eles são apenas entre 30 e 50% mais ricos que os franceses. Não há método milagroso: os salários suíços são acompanhados de preços suíços.

A Suíça tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo. Mas esse sistema não é gratuito. Todo adulto deve contratar um plano básico obrigatório que custa entre 350 e 450 francos suíços por mês. Na Suíça, as deduções obrigatórias são menores, mas cada um é responsável por sua saúde. Claro que quanto mais recursos você tem, melhor vai ser sua cobertura.

A Suíça é classificada como o 4.º pior país da Europa em termos de déficit habitacional. A taxa de proprietários é de 42%, uma das mais baixas da Europa. Em outras palavras, 58% dos lares pagam aluguel. No cantão de Zurique, um dos mais ricos da Suíça, apenas 9% dos casais entre 30 e 40 anos podem pensar em comprar um apartamento.

A Suíça está longe de ser um modelo de justiça social entre os países ricos. Na Suíça, a pobreza está igualmente presente. Nesse país liberal por excelência, 8,1% da população vive abaixo da linha da pobreza. Curiosamente, a taxa é de 10,1% na Noruega, um país igualmente rico que apostou, contudo, numa abordagem radicalmente oposta e baseada na redistribuição. A taxa também está entre 14 e 15% na França. Mas ao contrário da Noruega, a Suíça ainda está atrasada com relação à paridade entre homens e mulheres. Elas ganham em média 19% menos que os homens. Em participação econômica feminina, a Suíça ocupa o 20.º lugar entre os 33 países da OCDE. Isso se deve, sobretudo, ao custo exorbitante do cuidado com as crianças, um dos mais elevados do mundo.

Desde 2018, os bancos suíços são legalmente obrigados a coletar os dados discais de seus clientes que residem no exterior e, a seguir, partilhá-los com as autoridades fiscais dos países parceiros: trata-se do EAR, o Intercâmbio Automático de Informações. Porém, a recente falência do Crédit Suisse gera questionamentos: nos cofres do banco, contas ligadas a criminosos de alto nível, traficantes e oligarcas. Apesar da regulação, a cultura da discrição segue resistente.

As lições do laboratório suíço – A Suíça é um paradoxo vivo: um país minúsculo, sem acesso ao mar, sem petróleo, em um século se tornou uma caixa-forte, uma fábrica de patentes e um porto de estabilidade. Deveríamos então importar o modelo suíço pra França? A Suíça prova que um país rico pode muito bem focar a educação em torno de suas subsidiárias profissionais, uma lição pro elitismo francês das grandes écoles [grandes escolas superiores].

Já a neutralidade suíça constitui um atributo inigualável. Mas pra França, seria muito complicado adicionar esse atributo a seu arsenal. Com a bomba nuclear e territórios nos cinco continentes, a França se engaja em numerosos jogos de alianças pra proteger seus interesses e sobrevivência. É simplesmente impossível pensar em neutralidade.

A democracia suíça é frequentemente citada como o sistema político perfeito. Podíamos ser inspirados por ela? A resposta a essa pergunta mereceria um vídeo inteiro. Não se pode negar que a Suíça é um ideal de riqueza e gestão orçamentária. Mas atenção: não é uma condição suficiente pra garantir a felicidade de seus habitantes. O país ocupa o 3.º lugar na classificação do PIB per capita, mas o 13.º entre os países mais felizes, logo atrás da Nova Zelândia, que só ocupa, porém, o 25.º lugar em termos de PIB per capita.

O laboratório suíço tem o mérito de provar que um jogo aparentemente perdido de antemão não sela o destino de uma nação. Com as decisões certas e um pouco de criatividade, ela pode até fazer disso uma vantagem brilhante. Hoje, a questão mais inquietante é o reverso da medalha da lendária estabilidade suíça. A produtividade só cresce entre 0,3 e 0,5% por ano, ou seja, duas vezes mais devagar do que na década de 1990. É o indício de uma economia com dificuldades pra inovar no plano tecnológico fora das finanças e da farmacologia. Os dois gigantes Roche e Novartis respondem sozinhos por quase 40% das despesas privadas com pesquisa e desenvolvimento do país.

Mas ao contrário do que se poderia crer, no quesito startups, a Suíça se destaca com admiráveis 13 “unicórnios” [que ultrapassam valor de mercado de US$ 1 bilhão] registrados. Na França, há 29 “unicórnios”. Porém, você talvez nunca tenha ouvido falar dos “unicórnios” suíços: os investimentos em startups suíças são predominantemente voltados pra deep tech e pra bio tech. São setores conhecidos por seus tempos extremamente longos de maturação e suas gigantescas demandas de capitais.

Essa escolha se coaduna com o posicionamento econômico da Suíça: não fazemos mais barato, fazemos melhor. Por isso, apesar dessas inovações, a estagnação continua inquietando. Uma estagnação dourada e confortável, mas perigosa. Apesar da excelência de sua educação científica, a Suíça ocupa apenas o 12.º lugar mundial em IA. Já a França ocupa o 5.º lugar. Cerca de 60% da energia suíça ainda provêm do petróleo e do gás. Atualmente, o país está atrasado em suas metas de transição energética pra 2030.

Finalmente, a pergunta levantada pela Suíça e que todos os países ricos se fazem mais cedo ou mais tarde é parecida com a da Noruega: deve-se correr atrás do crescimento quando o conforto basta? Em outras palavras, a verdadeira riqueza não consiste naquele momento em que nos permitimos desacelerar? A Suíça ainda não tem a resposta, mas é um excelente laboratório pra encontrá-la. A Noruega, com condições de partida parecidas e com a mesma riqueza, tomou a direção totalmente oposta. Qual desses dois modelos vai triunfar, é o futuro que vai dizer.



domingo, 7 de setembro de 2025

O mito da economia planejada


Endereço curto: fishuk.cc/gosplan

A ilustração talvez não condiga muito com o conteúdo do texto, mas nesta conjuntura em que os fãs de Vladolf Putler querem ver em sua expansão imperial uma espécie de “URSS 2.0”, enquanto culpam o capetalizmu e o Ossidentx Mauvadaum pelo colapso da “união de povos nada livres”, é sempre bom recordar o nível de coitadismo e autopiedade contido tanto em certos discursos pró-Rússia quanto na mitologia bolchevista ainda ruminada por seitas acadêmicas mundo afora. E nada melhor do que o conteúdo produzido pela própria comunidade democrática no exílio, informado pela vivência na própria pele e pelos estudos mais avançados feitos in loco, pra refrescar nossa mente contra o discurso de “guerra fria”, seja de matiz ultraconservador ou antiliberal.

Na condição cultural em que ainda vive nosso esplêndido gigante Fazendil, traduzir essa nova produção e a divulgar ao máximo de pessoas possível é uma tarefa urgente, ainda que primária perto do nível em que a desinformação do Kremlin se infiltrou entre alguns grupos intelectuais e midiáticos. E a Novaya Gazeta Evropa, com seu genial editor-chefe Kirill Martynov e da qual já publiquei partes de análises históricas aqui, conta também com o economista Denis Morokhin, que apesar de sua semelhança com o “casseta” Marcelo Madureira, traz os problemas econômicos passados e presentes da Rússia com rara leveza didática. Foi o caso da série “Rossíiskoi ekonómike ostálos”, que apareceu em quatro partes e cujo título pode ser traduzido como “Ainda resta à economia russa...”, no sentido do tempo que ainda pode demorar pra um real colapso com o desvario causado pela invasão da Ucrânia.

A tese básica de Morokhin é a de que jamais foram feitas as reformas necessárias pra que a Rússia se tornasse uma verdadeira economia capitalista de mercado, saudável e pujante. Os problemas deixados pelo terraplanismo que foi a total estatização da economia (mal administrada, ainda por cima) no período soviético, além de terem sido enormes, não receberam as soluções devidas da parte dos reformadores sob Ieltsin. Abriu-se caminho, então, à simples espoliação das empresas públicas pelos antigos administradores burocratas (tornados “oligarcas”) e à excessiva intervenção estatal sob Putin.

O boom econômico provocado na década de 2000 pelo aumento no preço das commodities (fenômeno, aliás, também observado no Brasil nos primeiros governos de Lula) não foi revertido em industrialização e criação de reservas de emergência, enquanto permitiu a aquiescência geral diante do autoritarismo. Embora não claramente visível, o declínio se tornaria inevitável a partir da anexação da Crimeia (2014) e dos gastos militares desenfreados, culminando na invasão em larga escala da Ucrânia (2022) e na recessão que estaria agora ameaçando uma economia quase toda reenquadrada pela militarização da sociedade.

Este é o primeiro episódio, cujo mérito reside exatamente na desmistificação da economia planejada, que alguns idiotas de internet ainda querem romantizar aqui, e por isso não vou traduzir os três seguintes. Você vai ver que a culpa não é (só) de Gorbachov, da globalização, do Til Çan ou do ET Bilu, e que aquele bigodudo georgiano idolatrado por revolucionários de sofá fez muito pra quase destruir o país. Fiz uma transcrição em russo baseada na correção da legenda baixada, a partir da comparação com a fala de Morokhin, mas não vou a publicar, como fiz com o vídeo sobre Ivan Ilin, e posso enviar num arquivo à parte a quem me pedir. O Google Tradutor deu o texto-base em português, mas a parte mais árdua é justamente a da correção manual, nem sempre fácil por causa da necessária pesquisa de termos específicos. Notas minhas estão entre colchetes.


Este é o Univermag de Moscou em 1991. Prateleiras vazias. Nelas, uma carne assustadora e intragável. Cliente de olhares perdidos. Na cesta, uma seleção escassa: macarrão, leite. E este é um supermercado em Moscou em 2025. Meio quilômetro de produtos, uma enorme seleção, uma abundância completa de produtos.

Enquanto isso, já faz quatro anos que a Rússia trava uma guerra na Ucrânia e está sob as maiores sanções da história. A Rússia está praticamente isolada da economia global aberta. Como a economia planificada e distributiva da URSS conseguiu sobreviver a uma série de abalos? Como construíram em seu lugar uma economia de mercado e por que agora a guerra não a destruiu, apesar das inúmeras previsões de seu colapso iminente?

Vamos trilhar esse caminho juntos em nosso projeto “Ainda resta à economia russa...”. Serão quatro episódios. Meu nome é Denis Morokhin. Sou observador econômico da Novaya Gazeta Evropa. Se inscreva em nosso canal do YouTube pra não perder os próximos episódios.

Introdução – Você sabe o que um soviético podia comprar numa loja? Você tem ideia geral de como eram essas lojas? Talvez você tenha respondido sim ou não, mas na Rússia já cresceram duas gerações de pessoas acostumadas à abundância de produtos. É difícil acreditar agora que as lojas possam estar vazias, mas era exatamente assim que eram. A Rússia esteve à beira da fome na década de 1980, depois passou pelos prósperos anos 2000 e terminou na atual economia de guerra, quando trilhões de rublos são desperdiçados em tanques e assassinatos. Como foi isso?

Murmansk, anos 80 – Me deixem contar algumas histórias sobre mim. Esta é Murmansk, a maior cidade do mundo no Ártico, em meados da década de 1980. Me lembro bem de como as prateleiras das lojas eram repletas de potes de seiva de bétula. Também se vendia o queijo processado “Druzhba”, e o queijo de verdade só estava disponível pela manhã e esgotava rapidamente. Os laticínios incluíam leite e kefir em garrafas de vidro, mas a smetana era extremamente rara. Ainda em Murmansk, não havia ovos e eles deviam ser trazidos de Leningrado, de trem.

Além disso, a cesta básica de um soviético incluía um macarrão gordo, grosseiro e pálido, ervilhas malpassadas, cevada perolada e painço. Também se vendiam enlatados: carne cozida barata, carne ou peixe em conserva (závtrak turísta) e algas Laminaria. Também pó de sopas em saquinhos. Mas não havia trigo sarraceno, o favorito de todos. Só estava disponível pra diabéticos, em seções especiais. E pra o comprar, era preciso apresentar um atestado médico. No hortifrúti havia repolho, cenoura e pepino. Mas batatas, no início da década de 1980, só eram trazidas ocasionalmente. E comprá-las exigia ficar na fila a noite toda. Uma lembrança de infância: pra se aquecerem numa cidade do norte, as pessoas em fila acendiam fogueiras no pátio do hortifrúti.

Aliás, por que exatamente com as batatas havia tantos problemas? Ocorre que até 40% dos legumes e verduras simplesmente não chegavam às prateleiras. Eram armazenados e transportados indevidamente, apodrecendo ao longo do caminho. O maior mal da agricultura no final da URSS era a mecanização quase ausente: tudo devia ser feito à mão. Mas havia as famosas viagens pra colher batatas. Todos os anos, centenas de milhares de estudantes, engenheiros, professores e cientistas eram afastados do trabalho e levados aos campos pra colheita moribunda. Mas isso não fazia muito sentido: cada vez menos legumes e verduras chegavam às lojas, mas a TV soviética chamava esse esforço insensato de “batalha pela colheita”.

Mas minha Murmansk ainda era bem mais sortuda que outras cidades. Murmansk é um porto importante. Portanto, via de regra era peixe que se vendia. Mesmo que fosse o mais simples. É claro que aqui não estamos falando de iguarias. Por exemplo, o salmão só podia ser comprado, como se dizia na URSS, “por baixo do balcão” ou “pela porta dos fundos” [de forma ilegal, usando contatos e conhecidos]. Bem, por exemplo, capelim, arinca (eglefim) e bacalhau, havia alguns nas lojas. Halibute e perca defumados eram muito caros. E muito poucos tinham condições de os comprar.

Murmansk também tinha a sorte de ter por perto as bases da Frota do Norte e da aviação militar, e os dirigentes soviéticos se importavam com os militares, deixando de lado o resto do povo. Por isso, nas lojas das cidades militares fechadas quase sempre havia comida. E se você tivesse um passe, tudo era simples. Depois do trabalho, você pegava um ônibus, viajava cerca de uma hora e meia até a base militar e voltava pra casa à noite com sacolas pesadas. Aliás, por que só à noite? Sim, porque mesmo numa cidade fechada você ficava algumas horas em filas e, ao mesmo tempo, recebia xingamentos dos moradores locais, como “Aí estão eles de novo comprando todas as nossas salsichas”.

Me lembro de uma segunda história. Fomos visitar São Petersburgo. Nossos amigos moravam na periferia da cidade, onde as lojas eram totalmente vazias. E à noite, depois do trabalho, iam ao centro levando a filha pequena pra comprar salsichas no mercado da avenida Nevski. Você perguntaria: “Por que devia ir ao centro com uma criança?” É simples: eles davam meio quilo de salsicha por pessoa, e a criança garantia meio quilo a mais de comida. Também me lembro bem dos cupons de alimentação. “Que papel é esse que você sempre esconde num lugar seguro?”, perguntei uma vez a minha avó. “É carne e manteiga”, ela respondeu. A manteiga era na verdade uma margarina muito ruim.

Podemos listar infinitamente os produtos que agora são vendidos em qualquer loja, mas que os soviéticos nunca experimentaram. Isso inclui iogurte, nozes, abacate, chá verde e até chocolate de verdade feito de grãos de cacau, porque em vez disso vendiam uma barra doce que nem tinha gosto de chocolate. Quero lembrar à parte uma iguaria inédita: bananas. Essas frutas eram trazidas a Murmansk uma vez por ano e verdes. Você tinha que ficar na fila o dia todo. Escreviam na palma de sua mão o número de seu lugar na fila, e se saísse, não lhe permitiam voltar. Cada pessoa recebia 1 kg de bananas e, em casa, as frutas verdes eram postas junto à janela. Você tinha que esperar até ficarem maduras.

Por que na URSS as prateleiras eram vazias? – Nunca houve abundância de produtos na URSS. A carência de produtos essenciais começou muito antes da década de 1980. Nas décadas de 1920 e 1930, o governo soviético saqueou os camponeses durante a coletivização stalinista. Stalin precisava da destruição completa da propriedade privada no campo. E o ditador soviético também acreditava que milhões de pequenas propriedades camponesas não podiam alimentar o país e que, portanto, suas terras e gado deviam ser confiscados e transferidos todos pro colcoz. Alegava-se que só uma propriedade comunista comum podia alimentar o país, e quem se opusesse a ela devia ser morto ou exilado pra Sibéria.

A experiência fracassou completamente. O golpe sobre o campo foi tão fatal que, após a coletivização, o país não conseguia mais alimentar a si mesmo. Na década de 1960, o colapso da economia e uma verdadeira fome eram iminentes. Como não havia o que comer, a população começou a se rebelar e, para a reprimir, as autoridades enviaram tropas a Novocherkassk. Os moradores saíram para protestar, indignados porque a comida tinha sumido das lojas, mas os preços continuavam subindo. Os militares começaram a atirar. Cerca de 100 pessoas foram mortas ou feridas.

Mas então o povo soviético foi salvo da fome pelo milagre da descoberta de petróleo na Sibéria. A URSS começou a vendê-lo por dólares, que eram usados pra comprar grãos e outros produtos no exterior. De 1970 a 1980, a URSS aumentou em 15 vezes sua receita com exportação de petróleo aos países ocidentais, chegando a 15 bilhões de dólares por ano. Graças a isso, nos mesmos 10 anos o país aumentou suas compras de grãos no exterior em 12 vezes. Em 1980, importou 30 milhões [de dólares].

Assim, por pouco a fome total foi evitada, mas não por muito tempo. 13 de setembro de 1985 foi o dia sombrio do colapso da economia soviética e, no geral, um dos pontos de virada da história contemporânea. O então ministro do Petróleo da Arábia Saudita, Ahmad Yamānī, fez um anúncio histórico: “O país não vai mais limitar sua produção de petróleo”. Na sequência, a produção saudita aumentou 3,2 vezes e os preços do petróleo despencaram seis vezes. Foi uma sentença de morte pra URSS. Ela não podia vender nada no mercado mundial a não ser petróleo e gás. A tragédia foi agravada pelo fato de 1985 ter sido o pior ano pra agricultura e um recorde na importação de grãos. Então, a URSS comprou 45 milhões de toneladas do produto no exterior. Isso representa cerca de um quarto da necessidade de grãos. Em poucos anos, a URSS ficou sem dinheiro e não tinha mais como comprar alimentos no exterior pra se alimentar.

Tanques em vez de comida – Os líderes soviéticos mantiveram seus cidadãos literalmente à beira da fome, enquanto jogavam dinheiro fora. Por exemplo, a URSS fornecia petróleo e gás aos países socialistas da Europa Oriental praticamente de graça. Era assim que Moscou comprava a lealdade. O segundo projeto caro que a URSS não queria abandonar foi a produção de enormes volumes de armas. O Kremlin sequer levantou a questão da redução dos gastos militares até 1988, quando se tornou óbvio que não havia mais dinheiro. Submarinos nucleares, voos espaciais, participação em guerras no mundo todo. Todo o dinheiro foi parar nisso. O erário foi esgotado por uma série de projetos insensatos, como desviar rios do norte ao sul ou drenar turfeiras nos arredores de Moscou, as quais, aliás, queimaram terrivelmente em 2010 e cobriram a capital com fumaça cáustica.

Como resultado, no final da década de 1980, a URSS não tinha nem reservas de ouro suficientes pra comprar alimentos. E assim, os bancos do mundo recusaram empréstimos à URSS, pois os credores viam que ela não tinha com que pagá-los. Já nos anos de altos preços do petróleo, ela era considerada uma mutuária confiável. Em 1990 e 1991, os dirigentes soviéticos e, depois, russos admitiram: “A fome e os motins da fome são uma questão de meses”. Ao mesmo tempo, talões de racionamento e cartões de fidelidade foram amplamente introduzidos pra que pessoas de regiões vizinhas não viessem a Moscou comprar salsicha.

Multidões afluíam de Vladimir, Tula, Riazan, Iaroslavl e outras cidades à capital. E os trens em que chegavam eram chamados de trens da salsicha. Finalmente, a noção de ajuda humanitária se consolidou no uso comum. Suprimentos alimentares do exterior fixados na memória do povo com o apelido pernas de Bush: coxas de frango congeladas, mingau instantâneo, caixas de leite em pó e papinha de bebê trazidos de avião. E tudo isso se tornou a prova de que a economia planejada soviética não funcionava.

O fracasso da economia planificada – Por que a economia planificada soviética fracassou? Numa economia de mercado, à qual nos acostumamos todos ao longo das décadas, funcionam centenas de milhares e até milhões de empresas privadas. Elas fabricam e vendem o que os clientes desejam. Por exemplo, vejamos os brinquedos infantis. As crianças geralmente pedem que lhes comprem heróis de desenhos, pôneis coloridos, Pikachus. E você pode encontrar isso em qualquer loja.

Mas na URSS não era assim. Numa loja infantil soviética, se vendia apenas o que o ministério responsável pelas lojas infantis escolhia. As autoridades não se importavam, por exemplo, com a Cheburashka, que as crianças realmente queriam. Além disso, negócios privados sempre correm riscos: algo pode ser fabricado, mas não ser comprado, e a empresa vai à falência. Nos habituamos tanto a isso que nem conseguimos imaginar como poderia ser de outra forma. Mas na URSS tudo isso era completamente diferente.

Da década de 1920 até 1991, havia apenas um ator no mercado: o Estado. O comércio, tanto interno quanto externo, era estritamente monopolizado e as autoridades decidiam tudo. As autoridades fixavam o preço das mercadorias, as quais, segundo se dizia, eram “vendidas ao preço estatal”. Aliás, essa expressão tinha outro significado. Se estava ao preço estatal, na verdade não estava à venda. Ou seja, o povo soviético vivia numa economia de escassez, com as mercadorias disponíveis a um círculo restrito de pessoas que controlavam a distribuição. Havia coisas que podiam ser compradas em algumas lojas com vitrines em Moscou e Leningrado, como o GUM ou o Gostiny Dvor. Esse modelo centralizado não resistia à concorrência com o mercado e, como resultado, o funcionamento de toda a economia não conseguia cobrir uma grande parte das despesas do país, pois em 1993-1994 o déficit orçamentário da Rússia ultrapassava 10% do PIB. Isso é cerca de seis vezes mais do que agora.

O buraco foi remendado pela simples impressão de dinheiro. A isso chamaram empréstimos do Banco Central ao governo. O resultado foi que o dinheiro se desvalorizou e o erário secou. Andrei Nechaiev, Ministro da Economia do primeiro governo Ieltsin, lembrou que no início das reformas, as reservas cambiais russas somavam apenas 26 milhões de dólares, e agora são 690 bilhões de dólares. É verdade que quase metade desse dinheiro está retido desde a invasão da Ucrânia, mas ainda assim é impossível comparar esses valores. Além disso, até o final da década de 1980, a URSS emprestou muito dinheiro pra se alimentar. E segundo várias estimativas, o país tinha acumulado, no final de sua existência, cerca de 100 bilhões de dólares em dívida externa, mas não tinha dinheiro pra pagá-la.

Terapia de choque – Em 1991, a União Soviética se dissolveu. O governo russo conseguiu implementar as reformas conhecidas como terapia de choque. O choque consistia na liberação dos preços. Depois que todas as empresas foram autorizadas a definir seus próprios preços, eles dispararam. E não foram apenas as lojas russas. As empresas foram autorizadas a comprar produtos importados por conta própria. E afinal, semana após semana as lojas gradualmente começaram a encher.

Ao mesmo tempo, começou a privatização em pequena escala. Embora ainda não afetasse fábricas ou empresas grandes, as lojas, cabeleireiros, organizações de serviços e similares começaram a passar pra mãos privadas. E nos primeiros dois anos da privatização em pequena escala, em 1992 e 1993, foram privatizadas mais de 85 mil das mais de 100 mil pequenas empresas em todo o país. As pequenas empresas deixaram de ser estatais e passaram a ser privadas. Além disso, os cidadãos puderam comprar e vender dólares livremente e manter moeda estrangeira em contas bancárias. Lembremos que na URSS, isso podia levar as pessoas a serem longamente presas no GULAG ou até fuziladas.

As autoridades pararam de imprimir dinheiro e de investir enormes somas em projetos insensatos, como a rodovia transpolar ao longo do oceano Ártico através do permafrost ou o túnel até a ilha Sacalina. Cortaram-se os gastos estatais. E o principal, começou-se a gastar muito menos em tanques, mísseis e rifles e retiraram-se as enormes tropas dos países da Europa Oriental que se tornaram livres. E o plano em que se baseava toda a economia soviética se transformou em licitações (contratos) públicas. Finalmente, foi então que as autoridades implantaram um sistema de impostos pra empresas na economia de mercado. Em particular, surgiu o IVA, que se tornou uma fonte nova e muito grande de restauração do erário. E foram elaborados novos impostos pras empresas petrolíferas, porque era necessário restaurar o erário, antes reabastecido pela impressão de dinheiro.

As desvantagens das reformas – Bem, é claro que a crise da economia soviética era tão profunda que cada conquista das reformas teve um efeito negativo. Embora a liberação dos preços tenha enchido as lojas, levou à hiperinflação. Agora reclamamos de uma inflação altíssima girando em torno de 10% ao ano: verdade que é muito pra economia. Mas no fim de 1992, os preços tinham aumentado em média mais de 25 vezes: significa que a inflação foi de 2 500% em um ano. Você podia ir à loja e ver a manteiga custando 100 rublos num dia e 150 rublos no dia seguinte.

Praticamente todos os russos viram suas rendas caírem drasticamente na década de 1990. Os primeiros anos das reformas foram muito dolorosos para a esmagadora maioria das famílias. Frequentemente a privatização se resumia à tomada do controle pelos diretores, não tendo os trabalhadores comuns as mesmas oportunidades. E quando começou a privatização por vouchers, os funcionários inferiores simplesmente vendiam seus cheques, porque precisavam de algo pra viver hoje, mas não havia dinheiro suficiente, e alguns trocavam o voucher por uma garrafa de vodca.

Eis, por exemplo, a famosa história de como o oligarca Aleksei Mordashov se tornou proprietário da Severstal, uma das maiores produtoras de metal laminado. O esquema, chamado de vendas controladas, foi descrito em detalhes pela revista Forbes. Em meados da década de 1990, Mordashov criou a empresa Severstal Invest, da qual ele detinha 76%. A Severstal vendia metal a essa empresa a um preço baixo, e a Severstal Invest o revendia a um preço muito mais alto. Tendo acumulado capital, esta primeiro comprou ações da Severstal num leilão e, em seguida, comprou ações de trabalhadores que corriam pra vender suas ações por ser impossível viver com seus salários, em todo caso, há muito tempo atrasados.

A reforma tributária também teve um efeito negativo, já que pouquíssimas pessoas pagavam impostos. Em 1994, o orçamento não recebeu um décimo do que deveria. Em meados da década de 1990, esse número tinha crescido cerca de uma vez e meia, atingindo a enorme dívida tributária de 25 bilhões de dólares das empresas com o orçamento. Um dos motivos foram as alíquotas excessivamente altas: 32% de imposto de renda corporativo e 28% de IVA. Tudo isso ajudava a preencher o orçamento, mas não eram os pagamentos de impostos que cresciam como uma bola de neve. O orçamento continuou sofrendo de falta de dinheiro, os preços subiam e não havia como pagar benefícios e pensões, e muito menos aumentar o apoio social.

Podia ter sido feito melhor? – Economistas que estudaram as reformas de Ieltsin criticam com razão os reformistas e, sobretudo, sua lentidão e indecisão. Tudo devia ter sido feito mais rápido, e não por etapas, como o governo russo fez no início da década de 1990. E muitas reformas também foram iniciadas, mas não concluídas. A indecisão, por exemplo, residia em não ousarem privatizar a terra, o que teria ajudado, mais rapidamente, a lançar um novo agronegócio e a resolver o problema da escassez de alimentos. Mas os comunistas e uma parte significativa dos eleitores se opuseram veementemente.

O desamparo das autoridades também se refletiu no fato de grandes empresas acumularem dívidas fiscais por meses e anos a fio, empresas do porte, por exemplo, da Gazprom ou da Norilsk Nickel [Nornickel desde 2016]. Pra obrigá-las a cumprir suas obrigações fiscais, foi preciso convocar reuniões extraordinárias do governo, pôr as empresas sob pressão e reiterar as exigências. Os bens e contas bancárias da Gazprom foram confiscados. Em muitos aspectos, a lentidão das reformas foi motivada pelo confronto político entre o presidente e os parlamentares russos, o qual levou em 1993 a uma crise política generalizada e a tiroteios nas ruas de Moscou.

E os reformadores não explicaram aos russos os objetivos e o sentido das reformas, quando era necessária uma campanha educacional completa. [Como escreveu Pedro Doria, parte do sucesso do Plano Real se deveu justamente à receptividade de uma população previamente informada, o que hoje podia não dar totalmente certo, tamanho o poder da desinformação veiculada pela internet.] Além disso, o sistema de previdência social era extremamente precário e muitas pessoas se sentiam abandonadas e roubadas. Isso drasticamente privou de apoio o governo Ieltsin. Todos esses problemas não foram resolvidos e se acumularam por meses e anos, até a segunda metade da década de 1990. E eles começaram então a prenunciar outra crise econômica generalizada.

Conclusão – O que aconteceu depois? Centenas de fábricas fecharam, resultando em mais de 10 milhões de desempregados. Havia produtos em abundância nas prateleiras das lojas, mas poucos tinham condições de os comprar. IUKOS, Nornickel, Sibneft: os principais recursos naturais e as maiores empresas do país passaram às mãos de oligarcas ligados ao poder. Tudo isso na próxima parte de nossa série.