É incrível como mesmo entre brasileiros comuns, persiste a lenda de que a expansão da OTAN rumo ao leste da Europa ou uma suposta ameaça que a aliança teria feito à Rússia teria sido a razão pra agressão de Vladimir Putin à Ucrânia. A invasão não foi uma mera tentativa de anexação ou de derrubada do governo pró-UE, mas uma verdadeira vingança em que se tentou aniquilar o vizinho enquanto Estado e, se não quisesse se assimilar aos russos, enquanto povo. E mais do que por qualquer “ameaça” externa real ou, mais provavelmente, imaginada, parte da elite dirigente russa (política, econômica, intelectual e militar) foi movida por ganância, xenofobia e expansionismo. Essa é apenas uma sumarização de como pode ser classificada uma predação não muito diferente daquelas realizadas por Bush filho em seu tempo e por Donald Trump na atualidade.
Porém, muito mais poderia ser dito, embora eu duvide que os fazedores de opinião “antiamericanos”, mesmo dentro do governo Lula, dessem qualquer ouvido ao lado agredido. Já durante a acumulação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, ao longo de janeiro e fevereiro de 2022 (quando eu mesmo estive entre os que duvidavam da hoje chamada “invasão em larga escala”, tendo a guerra começado já em 2014, com o roubo da Crimeia e a desestabilização do Donbás), os serviços de informação ocidentais não foram os únicos a alertarem pro pesadelo que estava por vir. Dentro da própria Rússia, como sabemos, já havia um sentimento antiguerra e de relativa amizade com os ucranianos comuns, numa troca corriqueira de turistas, trabalhadores, estudantes e mercadorias.
O mais revelador é saber que mesmo conservadores geopolíticos entre os militares (pelo menos entre aqueles a quem se permitia alguma expressão) não somente recusavam as razões pra uma possível invasão, mas também foram muito mais incisivos na crítica ao regime, a que chamavam de incapaz e falido. Os próprios “insiders” há muito já viam coisas completamente ocultas pela rede de propaganda espalhada ao redor do mundo e materializada em pretensos portais de “notícias” como RT, Sputinik, RBTH (Russia Beyond, hoje também Gateway to Russia) e similares. Hoje trago minha tradução de uma carta aberta assinada pelo coronel-general (patente hoje inexistente no Brasil) reformado Leoníd Grigórievich Ivashóv (n. 1943), na qualidade de presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, grupo de tendência nacionalista e pró-soviética.
Intitulada “Kanún voiný” (lit. “A véspera da guerra”, mas que também pode ser traduzido como “Às vésperas da guerra”), foi lançada em 31 de janeiro de 2022, quando ainda se considerava haver uma “crise” entre Rússia e Ucrânia e quando Putin começava a reunir soldados na fronteira sul. Listando uma série de consequências negativas de uma invasão total, Ivashov alerta que tal erro poderia, na pior das hipóteses, levar à extinção da própria Rússia enquanto Estado, além de a isolar do resto do mundo e afastar a Ucrânia definitivamente. Descontemos seu passado como auxiliar dos genocidas de Slobodan Milošević no Kosovo e sua reprodução acrítica da mentira sobre o “genocídio de russos” no leste da Ucrânia.
Mesmo que ele já estivesse rompido com Putin praticamente desde o início da década de 2000 e fosse um crítico de longa data, pode-se pensar por que um ex-oficial de alto escalão tinha certeza de que o ataque aconteceria, mesmo com o Kremlin gritando aos quatro ventos que isso era “espantalho ocidental”. Eu respondo: a decisão já tinha sido tomada junto com Sergei Shoigú no fim de 2021, e aquela bizarra reunião em Moscou com o chefe do FSB gaguejando foi mero teatro de bajulação. As críticas abertas seguiram ao longo de fevereiro de 2022, e muito do que Ivashov conjeturou pode ser considerado uma previsão, embora eu deixe a você a tarefa de julgar o quanto ele acertou ou errou.
Também se fica a pensar por que este senhor ainda não “caiu de uma janela” nem “passou mal depois do chá”, tanto mais que em 2026 vários militares graduados e membros da “oligarquia” econômica têm sido presos sob acusações de corrupção muito mal explicadas. Ivashov talvez não represente um perigo imediato e pode ser visto como parte dos “milicos de pijama” apegados ao passado e sem poder de influência ou decisão. Ainda em maio de 2022, renunciou à presidência da referida Assembleia “por razões de idade e saúde”, e fora das Wikipédias as referências mais recentes que achei foram uma entrevista de 2023 a um portal russo hoje fora do ar e um vídeo gravado em 2025 e noticiado na Alemanha. Em ambas as ocasiões, Ivashov afirma que não só acertou em suas previsões, mas também que a realidade se revelou “ainda pior”.
Vou me abster de descrever melhor a vida e o pensamento do militar, deixando parte da tarefa a duas publicações, também traduzidas por mim, lançadas na época pela VOA em russo, antes de Trump a fechar em seu segundo mandato: o artigo “Para especialistas, a carta aberta do General Ivashov é um sinal e um desafio ao Kremlin”, assinada por Viktor Vladimirov, e conversas com politólogos reunidas em “O ‘nacional-patriota’ General Ivashov se manifestou contra uma guerra com a Ucrânia”. Notas explicativas minhas estão entre colchetes:
Manifesto da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia
ao Presidente e aos cidadãos da Federação Russa
A humanidade vive hoje a expectativa de uma guerra. E a guerra significa inevitáveis sacrifícios humanos, destruição, sofrimento de um grande número de pessoas, a liquidação de seu modo costumeiro de vida e a quebra dos sistemas de suporte à vida dos Estados e povos. Uma grande guerra é uma enorme tragédia, um crime grave cometido por alguém. Acontece que a Rússia se encontra no centro dessa catástrofe iminente. E, talvez, pela primeira vez em sua história.
Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados.
Mas o que ameaça a própria existência da Rússia hoje? Existem ameaças desse tipo? Pode-se argumentar que as ameaças são de fato evidentes – o país está à beira do fim de sua história. Todas as áreas vitais, incluindo a demografia, estão se deteriorando constantemente, e o ritmo de declínio populacional está batendo recordes mundiais. Essa degradação é sistêmica e, em qualquer sistema complexo, a destruição de um dos elemento pode levar ao colapso do sistema inteiro.
E essa, em nossa visão, é a principal ameaça perante a Federação Russa. Mas essa ameaça é de natureza interna, emanando do modelo de Estado, da qualidade do poder, da condição da sociedade. E as causas de sua emanação são internas: a inviabilidade do modelo de Estado, a completa ineficácia e falta de profissionalismo do sistema de poder e administração e a passividade e desorganização da sociedade. Em tais condições, nenhum país sobrevive por muito tempo.
Quanto às ameaças externas, elas sem dúvida existem. Mas, em nossa avaliação especializada, elas não são atualmente críticas nem ameaçam diretamente a existência da Rússia enquanto Estado ou seus interesses vitais. A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras.
Portanto, a escalada da situação em torno da Ucrânia é principalmente artificial e egoísta, beneficiando certas forças internas, inclusive a Federação Russa. Com a desintegração da URSS, no qual a Rússia (Ieltsin) desempenhou um papel decisivo, a Ucrânia se tornou um Estado independente, membro da ONU e, de acordo com o artigo 51 da Carta da ONU, tem o direito à defesa individual e coletiva.
Os dirigentes da Federação Russa ainda não reconheceram os resultados do referendo pela independência da DNR (República Popular de Donetsk) e da LNR (República Popular de Luhansk), além de terem enfatizado repetidamente em nível oficial, inclusive durante o processo de negociação de Minsk, que seus territórios e população pertencem à Ucrânia.
O esforço por manter relações normais com Kyiv, sem destacar relações especiais com a DNR e a LNR, também foi expresso repetidamente no alto escalão.
A questão do genocídio perpetrado por Kyiv nas regiões do sudeste não foi levantada nem na ONU nem na OSCE. Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder.
Mas a Rússia não se tornou esse país. Seu modelo de desenvolvimento e seu mecanismo de política externa de cooperação internacional afugentam praticamente todos os seus vizinhos, e não apenas eles.
A anexação da Crimeia e de Sebastopol pela Rússia e o não reconhecimento desses territórios como dela pela comunidade internacional (o que significa que a esmagadora maioria dos Estados do mundo continua os considerando parte da Ucrânia) demonstram de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna.
As tentativas de forçar a “paixão” pela Rússia e sua liderança por meio de ultimatos e ameaças de uso da força são insensatas e extremamente perigosas.
O emprego da força militar contra a Ucrânia, em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais. Em terceiro lugar, milhares (dezenas de milhares) de jovens saudáveis morreriam em ambos os lados, o que sem dúvida impactaria na futura situação demográfica em nossos declinantes países. No campo de batalha, se isso acontecer, as tropas russas entrarão em confronto não somente com as tropas ucranianas, entre as quais estarão muitos jovens russos, mas também com tropas e equipamentos de muitos países da OTAN, e os Estados-membros da aliança serão obrigados a declarar guerra à Rússia.
O presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, deixou claro de que lado a Turquia lutará. E pode-se presumir que os dois exércitos de campo e a marinha da Turquia receberão ordens para “libertar” a Crimeia e Sebastopol e possivelmente invadir o Cáucaso.
Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente.
O Presidente o governo e o Ministério da Defesa não podem deixar de entender essas consequências, eles não são tão estúpidos.
Surge a questão: quais são os verdadeiros objetivos de provocar tensões beirando à guerra e de lançar uma possível ação militar em larga escala? E percebe-se que esse é o caso pelo número e pela composição bélica dos grupos de tropas que estão se formando em ambas as partes – pelo menos 100 mil soldados de cada lado. A Rússia, expondo suas fronteiras orientais, está transferindo unidades rumo às fronteiras com a Ucrânia.
Em nossa opinião, a liderança do país, percebendo que é incapaz de retirar o país de uma crise sistêmica – mesmo ao custo de possivelmente provocar uma revolta popular e uma mudança de poder no país –, com o apoio da oligarquia, da burocracia corrupta, da mídia subornada e das forças de segurança, decidiu intensificar uma linha política voltada à destruição final da Rússia enquanto Estado e ao extermínio da população nativa do país.
E a guerra é o meio para atingir esse objetivo, visando manter temporariamente seu poder antinacional e preservar as riquezas saqueadas do povo. Não conseguimos avançar outra explicação.
Nós, oficiais da Rússia, exigimos que o Presidente da Federação Russa abandone sua política criminosa de provocar uma guerra na qual a Federação Russa se encontrará sozinha contra as forças combinadas do Ocidente, crie condições para a implementação prática do artigo 3 da Constituição da Federação Russa [que aponta o povo como fonte de todo o poder e proíbe a usurpação unipessoal desse poder] e renuncie ao cargo.
Apelamos a todos os militares da reserva e reformados, bem como aos cidadãos da Rússia, para que demonstrem vigilância e organização, apoiem as reivindicações do Conselho da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia, oponham-se ativamente à propaganda e provocação de uma guerra e impeçam um conflito civil interno que envolva o uso da força militar.
Coronel-General L. G. Ivashov
Presidente da Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia
Na opinião de Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”.
O coronel-general reformado Leonid Ivashov, conhecido por suas visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas, lançou um apelo em sua qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” contra uma guerra da Rússia com a Ucrânia. Ele acusou de prepararem tal guerra a liderança da Rússia e o presidente Vladimir Putin, cuja renúncia ele pediu.
A declaração é datada de 31 de janeiro. No dia anterior, o cientista político Ivan Preobrazhenski chamou a atenção para ela, seguido por outros comentaristas online.
Segundo Ivashov, “Anteriormente, a Rússia (URSS) travava guerras (justas) forçadas, geralmente quando não restava outra saída, quando os interesses vitais do Estado e da sociedade se encontravam ameaçados”. No entanto, escreve o general, a única ameaça existencial à Rússia agora é a deterioração de sua vida interna. Já as ameaças externas “não são atualmente críticas”. “A estabilidade estratégica como um todo está conservada, as armas nucleares estão sob controle confiável e os contingentes da OTAN não estão se reforçando nem demonstrando atividades ameaçadoras”, escreve Ivashov.
Conforme o apelo, a Ucrânia tem o direito à defesa individual e coletiva Estado independente. “Naturalmente, para que a Ucrânia continuasse sendo uma vizinha amigável com a Rússia, era preciso que ela demonstrasse a atratividade de seu modelo de Estado e de seu sistema de poder”, escreve Ivashov. Ele também observa que a esmagadora maioria dos países do mundo não reconhece a Crimeia e Sebastopol como territórios anexados à Rússia, o que demonstra “de forma convincente o fracasso da política externa da Rússia e a falta de atratividade de sua política interna”.
Na opinião do general, o uso da força militar contra a Ucrânia “em primeiro lugar, colocará em questão a existência da própria Rússia enquanto Estado; em segundo lugar, transformará para sempre russos e ucranianos em inimigos mortais”. Ivashov também teme a entrada de países da OTAN no conflito, particularmente a Turquia. “Além disso, a Rússia será inequivocamente classificada como um país que ameaça a paz e a segurança internacional, sujeita a severas sanções, transformada em um pária na comunidade internacional e provavelmente destituída de seu estatuto de Estado independente”, afirma o general. Ele acredita que a Rússia está a “provocar tensões beirando à guerra” para distrair a população dos problemas internos. O apelo exige que o presidente “abandone sua política criminosa de provocar uma guerra”.
De 1996 a 2001, Ivashov chefiou a Diretoria Principal de Cooperação Militar Internacional do Ministério da Defesa da Rússia e ocupou outros altos cargos no Ministério da Defesa. Ele ganhou notoriedade, em particular, por suas avaliações extremamente negativas da operação da OTAN contra a Sérvia [que ainda integrava o que tinha restado da Iugoslávia] em 1999. Após ser reformado, escreveu para o jornal Zavtra e outros veículos, criticando as políticas do governo da Rússia sob uma perspectiva “nacional-soberanista”. Também criticou a OTAN e o Ocidente.
A “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia” é uma organização social que reúne oficiais da reserva com visões pró-soviéticas e nacional-patrióticas. Sua direção inclui, por exemplo, o Coronel Vladimir Kvachkov e outras figuras proeminentes.
Nas últimas semanas, a Rússia concentrou uma grande força armada na fronteira com a Ucrânia, e unidades e equipamentos adicionais estão chegando para exercícios em Belarus. Os países ocidentais temem que a Rússia possa lançar uma invasão em larga escala ao território da Ucrânia, o que Moscou nega estar planejando.
O coronel-general reformado Leonid Ivashov, presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”, manifestou-se contra a política de Putin e os preparativos para uma guerra com a Ucrânia.
A política do Kremlin de se preparar para uma guerra com a Ucrânia é criminosa em sua essência. Assim escreveu o coronel-general russo reformado Leonid Ivashov em uma carta aberta intitulada “A véspera da guerra”, na qualidade de presidente da “Assembleia de Oficiais de Toda a Rússia”. Ele também pediu ao presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, que renunciasse ao cargo.
“A carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população” – O político e ex-deputado da Duma Estatal da Rússia, Gennadi Gudkov, comentou ao serviço russo da VOA que conhece pessoalmente Leonid Ivashov. Ele acredita não ser surpresa que Ivashov desfrute de grande respeito entre os oficiais. “É claro que suas opiniões sobre a política do Kremlin foram bastante controversas em vários momentos”, acrescentou. “Mas o fato de ter agora se manifestado de forma tão dura e contundente contra o envolvimento da Rússia em uma guerra com a Ucrânia, pedido a renúncia de Putin e apontado que o sistema de poder criado pelo presidente está se deteriorando e representa o principal perigo para o país – tudo isso diz muito. Sua carta atesta mudanças muito sérias no humor das mais diversas camadas da população.”
Está ficando absolutamente claro que a sociedade russa como um todo não quer uma guerra com a Ucrânia, constatou Gennadi Gudkov. A seu ver, a ideia de lutar em solo estrangeiro, ainda mais enquanto agressor, é completamente inaceitável para a maioria da população do país. “Parece-me que esse é um ponto de virada muitíssimo importante”, continuou. “As pessoas percebem que a guerra será excepcionalmente injusta e se recusam resolutamente a aceitá-la. Portanto, para o Kremlin é um sinal sério que deveria ser levado em conta.”
O ex-deputado também concorda que as tensões em torno da Ucrânia estão se intensificando em grande parte para distrair os cidadãos de questões internas urgentes. “Nos canais de TV federais, ouve-se de tudo, menos o que realmente preocupa as pessoas. Diariamente, instiga-se o ódio contra o mundo exterior. Enquanto isso, o próprio Putin entende perfeitamente que não há nem se espera qualquer pré-condição para um ataque da OTAN à Rússia. Todas essas ameaças que o Kremlin propaga por meio de suas mídias são míticas e não representam nenhum perigo real para o país. Portanto, Ivashov está absolutamente certo”, sumarizou Gennadi Gudkov.
“Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo” – Essa é uma mensagem significativa, afirma o cientista político Abbás Galliamov ao serviço russo da VOA. Ele acredita que Putin e a sociedade em geral já se acostumaram com as críticas liberais à política externa expansionista do Kremlin. “E aqui temos uma verdadeira sensação”, diz. “Inesperadamente, Ivashov expressou essencialmente os mesmos argumentos dos liberais, embora já combatesse a expansão da OTAN rumo ao leste quando ninguém realmente conhecia Putin. É um homem cujos méritos, aos olhos dos ‘patriotas nacionais’, geralmente não precisam de confirmação adicional. Ele é conhecido por suas visões nacionalistas e, em certos círculos, carrega a aura de patriarca.”
Portanto, é claro que isso foi um choque, forçando todos a reavaliar a situação, argumenta Abbás Galliamov. Em sua visão, tal conversão de patriotas em liberais, sobretudo quando realizada por uma figura conhecida, demonstra claramente qual lado, da perspectiva da influência sobre a opinião pública, está atualmente mais forte.
“É evidente que os argumentos do Kremlin não estão conseguindo causar o devido impacto no público em geral nem convencer não apenas seus oponentes, mas até mesmo potenciais aliados – pessoas que supostamente vestem o mesmo ‘casaco de Budiónny’ [referência ao traje histórico do Exército Vermelho]”, explicou. “Surpreendentemente e com razão, Ivashov observou que a causa primeira do que está acontecendo em torno da Ucrânia é amplamente determinada pelo desejo do Kremlin de desviar a atenção pública de questões internas para questões externas.”
Putin simplesmente se sente desconfortável sem um inimigo, considera o cientista político. “Não é coincidência que, desde seus primeiros dias no poder, ele tenha constantemente se ocupado em congregar a sociedade ‘contra alguém’. Nem é por acaso que ele retrate seus próprios críticos internos como agentes de algum inimigo externo. Hoje, a maioria eleitoral que ele outrora obtinha está se desfazendo. Você confirmará isso em qualquer estudo sociológico. Há muito tempo o índice de aprovação do presidente está abaixo de 50%, sem falar no índice de aprovação de seu partido Rússia Unida. E nessa situação, Putin não tem outra escolha senão tentar restaurar o paradigma que um dia o levou ao sucesso”, concluiu Abbás Galliamov.
