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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Joãozinho Xará: “Fif lamitê fhancô ciriân!”

Quase meio ano depois de sua primeira aparição com Ray-Ban em ambientes fechados, o que suscitou dúvidas sobre sua vida privada, o copríncipe de Andorra Mané Marcão voltou a usar o acessório em público durante a primeira visita à Assíria de um presidente gaulês desde 2009, último encontro entre o Sarkolula amigo de ditadores e a Girafa de Damasco. Desta vez, ele finalmente vai encontrar in loco seu novo parça Joãozinho Xará (que antes era Joãozinho e agora é Xará), ex-corno e ex-jihadista que tomou o lugar de um regime esfarinhado.

A geopolítica tá tão maluca que nem mesmo os analistas mais calejados estão dando conta. Se antes brincávamos que nosso “subcontinente” podia ser chamado de “América Latrina”, agora parece que cada vez mais nos encaminhamos pra um Oriente Mérdio. Não que a região nunca tivesse sido um barril de pólvora acendido pelo emperializmu mauvadaum ossidentau, mas até mesmo as monarquias absolutistas árabes que tentavam se passar por ilhas de calmaria vendendo petróleo pro Til Çan sofrem com os rebosteios da Pérsia despirocada. A dinastia Al-Asad, com o aporte financeiro e militar da antiga URZZ e da atual Moscóvia, parecia irremovível, mas com um bombardeio do Bibi do Hamas aqui e um revés da “República Islâmica” ali, Joãozinho Xará pôde passear tranquilamente do norte ao sul.



Se ele não vestiu o conjunto do Toninho do Diabo como a Yalda Musa Hakim enquanto entrevistava Sucker Tarlson, o agente transatlântico do Kremlin – o cenário mesmo por ele preparado parecendo mais uma liturgia pro KPta –, pelo menos inicialmente adotou o viralizado look Fidel Castro e agora está se “desdemonizando” pra encher o rabo de euro$$$... Durante a recente visita que lhe fez o ex-banqueirinho, Xará até reciclou seu francês do colegial pra dar um “Viva à amizade franco-síria”.

Se ele não achou que estivesse encarnando o General Wojciech Jaruzelski nem apanhou de novo de sua “mãe-lher”, tanto mais que recentemente houve uma fofoca de caso extraconjugal com uma atriz de origem iraniana, o extremo-centrista também parece ter trazido de volta o artigo óptico deixado pra trás pelo tirano apeado durante a fuga. Não é a coisa mais engraçada do mundo, mas achei interessante deixar pro registro, sobretudo porque nos lembra o vetusto adágio: Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. E neste caso é recíproco...



quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Marcelo Rebelo ou Fernando Rosa?

Em outras ocasiões, quando publiquei aqui trabalhos de fins de semestre, já tive a oportunidade de falar sobre Fernando Rosa Ribeiro, meu professor de História da África na Unicamp, no primeiro semestre de 2008, com quem simpatizei bastante e cujas aulas eram muito agradáveis. O que não falei foi que nas primeiras aulas, ele tinha o hábito de primeiro nos falar (em público, não pessoalmente!) as coisas em inglês, depois em português, atitude que ele dizia “ser benéfica no futuro” pra nós, mas bastante zoada nos corredores.

No final do semestre, ou pouco depois do fim das aulas (não me lembro ao certo), Fernando simplesmente desapareceu da Unicamp, não foi mais localizado nem mesmo por sua PED e até foi exonerado por “abandono de cargo”. A única foto pública que encontrei dele foi na página deste centro de pesquisa, no qual ele parece, porém, ter ocupado um cargo conhecido (e depois abandonado de novo?...) na década de 2010.

Em seu discurso de anteontem, 23 de setembro, Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, parece ter encarnado o espírito do Fernando e decidido deixar os intérpretes loucos em suas cabines (ou lhes poupando trabalho?). Em alguns trechos, ele simplesmente falava breves frases em português e depois traduzia em inglês, embora na maior parte do tempo lesse em inglês com forte sotaque. O trecho apenas em português não foi muito longo, sendo irônico que tenha sido o único representante de país de maioria lusófona que não fez todo o discurso na língua de Camões, Machado e Coelho.

Mas pra piorar, ao contrário de alguns governantes e do próprio secretário-geral António Guterres, conterrâneo de Sousa, o presidente fazia essas alternâncias sem um critério claro, sem blocos bem distintos apenas num ou noutro idioma. Chegou a subitamente enxertar um trecho em francês, ao falar do Haiti, e outro bem curto, em espanhol, ao falar da América Latina! Nesse trecho, a tecla SAP do véio ficou simplesmente desregulada e parecia não atender aos comandos do controle remoto... Nos outros, como eu disse acima, é puro suco de Fernando Rosa que você pode desfrutar agora:







Aqui, então, parece que ele tá fazendo um bizarro cálculo matemático na EMEF Dilma Rousseff pra no fim, como seria de se esperar, não chegar a lugar nenhum:


sábado, 3 de maio de 2025

Vladimir Kara-Mourza (RFI, 14/4/2025)

Le matin du 14 avril 2025, le politicien et historien russe Vladimir Kara-Mourza a concédé une interview à la Radio France Internationale (RFI) pour parler de son opposition à la dictature de Vladimir Poutine, sa prison en Russie et sa vie dans l’exil. Ci-dessus on peut regarder l’intégralité de son entretien avec Arnaud Pontus sur la chaine officielle, mais j’ai trouvé son contenu si important que j’ai décidé, même sans autorisation, d’en publier la transcription.

J’ai utilisé le logiciel Microsoft Clipchamp pour Windows 11 à fin d’extraire de la vidéo une première version des sous-titres par IA, après j’ai confronté le résultat avec l’audio et enfin j’ai finalisé la rédaction finale du texte. Kara-Mourza parle couramment le français, mais j’ai dû supprimer les traits les plus répétitifs d’oralité et corriger la grammaire. Comme le français n’est pas aussi ma langue maternelle, mon travail peut ne pas être parfait, mais j’espère avoir fait une contribution à ceux qui étudient « la langue de Molière » ou qui, par n’importe quelle raison, préfèrent avoir le texte écrit :


Bonjour, Vladimir Kara-Mourza !

Bonjour, merci beaucoup pour l’invitation.

Merci à vous d’être sur RFI aujourd’hui. Il y a trois ans, en avril 2022, vous avez été arrêté puis condamné à 25 ans de prison pour haute trahison. La justice russe vous reprochait d’avoir critiqué l’invasion de l’Ukraine. Vous avez été libéré en aout dernier lors du plus grand échange de prisonniers avec l’Ouest depuis la fin de la guerre froide. Comment allez-vous aujourd’hui, huit mois après votre libération ?

Ça me semble parfois encore que je regarde un film, parce que, à dire la vérité, j’étais absolument sûr que j’allais mourir dans cette prison en Sibérie. Cet échange en aout dernier, c’était un miracle, et en fait c’était le premier échange depuis 1986, qui a libéré non seulement les otages, les citoyens occidentaux qui étaient dans les prisons russes, mais aussi les prisonniers politiques russes. Et ça, pour moi, c’était un message très important, très clair et très fort des pays occidentaux, surtout les États-Unis et l’Allemagne. Et le signal était qu’ils comprennent très bien que les vrais criminels sont au Kremlin. Ce sont les gens qui ont commencé la guerre en Ukraine. Ce n’était pas nous qui étions en prison, parce qu’on nous avait exprimé contre cette guerre. Et c’était aussi un message très fort de solidarité de la part des pays occidentaux avec tous ces gens en Russie. Il y a des millions de gens en Russie aujourd’hui qui sont contre cette guerre, qui sont contre le régime autoritaire de Vladimir Poutine et c’est très important que le monde libre s’est exprimé comme ça

Aujourd’hui, Vladimir Kara-Mourza, la guerre continue en Ukraine. Les discussions pour un cessez-le-feu n’ont toujours pas abouti. Est-ce que vous le souhaitez, ce cessez-le-feu ?

Je veux que cette guerre se termine le plus vite possible, parce qu’il y a déjà des centaines de milliers de vies humaines qui sont perdues à cause de cette agression, à cause de cette guerre criminelle menée par le régime autoritaire de Vladimir Poutine.

Mais pour que la guerre s’arrête, il faut que Poutine le veuille. Est-ce que Vladimir Poutine veut la paix ?

Non, bien sûr qu’il ne veut pas la paix. Et il faut dire que vous avez utilisé la phrase « cessez-le-feu », ça c’est absolument correct. On ne peut pas dire « la paix », parce qu’il n’y aura pas de paix pendant que Vladimir Poutine reste au pouvoir.

C’est à dire, il ne peut pas y avoir de paix totale et véritable tant que Vladimir Poutine est au pouvoir ?

À long terme, la seule façon d’assurer la paix, la stabilité et la sécurité sur le continent européen, à long terme, c’est d’avoir une Russie démocratique, une Russie qui va respecter les lois, les droits et les libertés de nos propres citoyens, et aussi qui va respecter les frontières de ses voisins et les normes du comportement civilisé dans le monde. Parce qu’en Russie, la répression à l’intérieur et l’agression à l’extérieur vont toujours ensemble, donc il n’y aura pas de paix pendant que Poutine reste au pouvoir. Mais le cessez-le-feu est possible.

Alors, vous dites aussi que tout accord de cessez-le-feu doit prévoir la libération de tous les prisonniers de guerre.

Absolument ça. Pour moi, ça c’est le plus important, parce que pour l’instant on voit ces négociations entre les représentants de l’administration Trump aux États-Unis et le régime de Poutine en Russie. Et ils parlent de minéraux, ils parlent du retour des compagnies américaines en Russie, ils parlent des avoirs gelés, je ne sais pas de quoi, ils parlent tout le temps d’argent. Et en fait, les deux envoyés, Monsieur Witkoff du côté américaine et Monsieur Dmitriev du côté russe, ce sont des gens qui ont dédié leurs vies à l’argent, n’ont rien à faire avec la diplomatie. Et donc, pour ça c’est même plus important que l’Europe, l’Union européenne pose cette question, comme vous avez dit, de la libération de tous les otages, de tous les captifs de cette guerre. Parce qu’il y a des centaines de milliers de vies humaines qui ont été déjà perdues et on ne peut pas les faire retourner. Mais c’est possible encore de sauver les dizaines de milliers de vies humaines, des gens qui sont des otages et des captifs de cette guerre. Je parle, bien sûr, des prisonniers de guerre des deux côtés, mais ça c’est prévu par la 3e Convention de Genève, donc ça c’est hors question. Je parle aussi des milliers d’otages civils ukrainiens qui ont été forcément déportés en Russie

Notamment les enfants.

Je parle aussi des milliers d’enfants ukrainiens qui ont été kidnappés. En fait, si on dit la vérité en Russie ou dans les territoires occupés par la Russie et, ça c’est très important, je parle aussi des prisonniers politiques russes, les citoyens russes, mes concitoyens qui sont en prison aujourd’hui parce qu’ils se sont exprimés contre cette guerre d’agression, ce qui est arrivé à moi. Mais maintenant, pendant qu’on parle avec vous, il y a, selon les organisations de défense des droits humains, il y a plus de 1 500 prisonniers politiques en Russie. La catégorie la plus nombreuse parmi eux, ce sont les Russes qui se sont exprimés contre cette guerre criminelle. Et pour beaucoup d’entre eux, comme par exemple Alexeï Gorinov ou Maria Ponomarenko et beaucoup d’autres, ce n’est pas seulement une question de captivité, ce n’est pas seulement une question d’emprisonnement illégal, mais c’est aussi une question de vie ou mort, et il faut sauver ces gens-là.

Vladimir Kara-Mourza, vous nous dites, les émissaires russes et américains ne parlent que d’argent. Est-ce que la méthode qu’applique le président Trump vous semble être la bonne ? Est-ce que vous comprenez cette logique ?

Je crois que la politique de l’administration actuelle des États-Unis est honteuse, elle est complètement contre-productive, parce qu’en fait c’est une politique de rapprochement, de normalisation des relations avec Vladimir Poutine. Et je voudrais rappeler à tout le monde que Vladimir Poutine, d’abord, il n’est pas un président légitime. Il reste au pouvoir depuis 25 ans, même s’il y a une limite constitutionnelle en Russie de deux termes, il a trouvé des trucs pseudo-légales pour contourner cette limite constitutionnelle. Et il faut rappeler aussi que l’année dernière, en 2024, le Parlement européen et l’Assemblée parlementaire du Conseil de l’Europe ont passé des résolutions reconnaissant Vladimir Poutine pour ce qu’il est : un usurpateur illégitime. Mais il est plus que ça. Il est aussi un assassin. Il est un meurtrier. Parce que c’est sous son commandement que les deux chefs principaux de l’opposition démocratique russe, Boris Nemtsov et Alexeï Navalny, ont été assassinés. C’est sous son commandement qu’il y a des gens qui meurent chaque jour en Ukraine, y compris des enfants récemment à la ville de Krivoï Rog [ukr. Kryvy Rih]. Pendant tous les 25 ans que Vladimir Poutine reste au pouvoir, il tue, il tue, il tue, il tue, il tue à l’intérieur de la Russie, il tue en dehors de la Russie. Et c’est important de rappeler tous ces dirigeants occidentaux, surtout américains, qui veulent normaliser les relations avec Vladimir Poutine, qui veulent rendre cette légitimité à Vladimir Poutine qu’il ne mérite pas et qui veulent encore une fois serrer la main de Vladimir Poutine, c’est important de les rappeler que c’est une main couverte de sang.

Vous craignez que, dans le sillage de Donald Trump, certains considèrent que Vladimir Poutine est redevenu fréquentable ?

Mais on le voit. Si on regarde ce que Monsieur Trump a fait dans ces derniers deux mois, depuis qu’il est retourné à la Maison Blanche. Il a invité Vladimir Poutine à rejoindre le G8. L’Amérique a voté à l’ONU contre l’Ukraine, avec la Russie, avec la Biélorussie, avec la Corée du Nord. Comme on se souvient, les États-Unis ont suspendu l’aide, l’assistance militaire à l’Ukraine, ce qui a causé des centaines de morts en Ukraine. Et puis on voit aussi, si on parle des actions pratiques, l’administration Trump a totalement détruit l’infrastructure internationale de l’assistance pour la démocratie et les droits humains. Et maintenant l’administration Trump est en train de détruire le système des médias américains qui diffusait l’information objective non seulement pour les Russes, mais aussi pour des Cubains, pour des Iraniens, pour des Chinois, pour des millions et des millions de gens autour du monde qui vivent actuellement sous des régimes autoritaires.

Vous le disiez tout à l’heure, l’objectif, votre objectif, c’est d’arriver à une Russie démocratique. Dans une société qui est aussi verrouillée que la Russie aujourd’hui, avec une propagande qui est omniprésente, comment est-ce que l’opposition peut diffuser son message ?

En fait, pour moi, l’une des raisons principales de la chute du régime communiste était le fait que ce régime, au début des années 90, avait déjà été délégitimisé aux yeux d’une large partie de la population grâce aux programmes de radio qui étaient diffusés par les pays occidentaux et qui étaient écoutés par des millions et des millions de gens en Union soviétique et dans d’autres pays communistes. Et en fait, c’étaient les mêmes gens qui écoutaient, disons, à la Radio Liberté dans les années 70 qui sont allés aux barricades en aout 1991 pendant notre révolution démocratique en Russie. Si c’était possible de faire ça avec les technologies des 1970, c’est surement possible de le faire maintenant. Maintenant il y a l’internet. Oui, il y a une grande censure de l’internet sous le régime de Poutine, mais il y a des VPN, il y a d’autres moyens pour contourner cette censure. Le problème, c’est qu’on voit très souvent que l’Occident, les entreprises occidentales et les gouvernements occidentaux, au lieu d’aider les citoyens russes à avoir cette vérité, à avoir cette information objective, on voit les compagnies occidentales aider le régime de Poutine à censurer cette information, par exemple...

Sont complices, en fait.

Absolument, elles sont complices. Dans quelques derniers mois, par exemple, la très connue compagnie américaine Apple a enlevé plus de 50 systèmes de VPN, le système qui aide les gens à contourner la censure, à la demande du régime de Poutine. Ce n’était pas le régime de Poutine qui l’a fait, c’était Apple. Et comme je viens de vous dire, maintenant l’administration Trump est en train de détruire le système des médias internationaux. Et il y a quelques jours, la cheffe de la chaine principale de propagande russe Russia Today, Margarita Simonian, était sur la télé très heureuse des actions de l’administration américaine. Elle a dit que nous, malheureusement, nous n’avons jamais pu en finir avec ces médias. Mais maintenant, c’est les États-Unis d’Amérique qui le font eux-mêmes.

Ils le font. Où est l’alternative démocratique en Russie, Vladimir Kara-Mourza ?

Il y a des millions et des millions de gens en Russie qui sont contre cette guerre, qui sont contre ce régime, qui veulent que la Russie soit un pays normal, civilisé, européen, démocratique. On a vu par exemple, l’année dernière, pendant le théâtre qu’étaient nos « élections présidentielles », entre guillemets. Quand c’était...

Mascarade, vous voulez dire, c’était du cinéma ?

Enfin, c’était juste Poutine et quelques clowns qu’il avait sélectionnés. Mais, en même temps, il y avait un candidat, un avocat, un ex-député du Parlement russe, il s’appelle Boris Nadejdine, qui a annoncé sa candidature à la présidence russe comme un candidat anti-guerre. Il a dit qu’il était contre la guerre en Ukraine. Et la réaction publique était complètement incroyable. Tout d’un coup, on a vu partout en Russie les files d’attente, les queues énormes, des gens qui voulaient signer les pétitions pour faire registrer ce candidat. J’étais en prison à l’époque et je recevais beaucoup de lettres de toute la Russie et presque chaque lettre était à propos de ces queues énormes, des gens qui votaient avec leurs pieds, si vous voulez, pour le candidat anti-guerre. Parce que la propagande poutinienne veut que tout le monde croie que tous les Russes soutiennent la guerre, tous les Russes soutiennent le régime. Mais vous savez qu’ils peuvent falsifier les élections, ce qu’ils font, ils peuvent falsifier les sondages, ce qu’ils font. Mais il n’y a rien qu’ils puissent faire avec les images des milliers et des milliers de gens partout en Russie qui croient en un avenir démocratique et paisible.

Donc il y a une soif démocratique en Russie et au-delà ?

Il y a beaucoup de gens qui veulent des changements. Il y a beaucoup de gens qui veulent que ce régime finalement perde le pouvoir. Et j’ai aucun doute, non seulement comme un homme politique, mais surtout aussi comme un historien, que le jour viendra quand la Russie sera un pays normal, civilisé et démocratique, et ce jour-là, on pourra finalement avoir une Europe qui sera libre, entière et en paix.

Vladimir Kara-Mourza, je le disais au début de l’entretien, vous avez été libéré en aout dernier après avoir passé deux ans et trois mois en prison. Comment avez-vous fait pour tenir tout ce temps, dont 11 mois à l’isolement ?

Absolument. En fait, selon la loi internationale, l’isolement de plus de 15 jours est officiellement considéré comme une forme de torture. Et je n’avais jamais compris pourquoi, mais maintenant je comprends très bien, parce que, quand tu restes tout le temps dans cette petite cellule, quatre murs, une petite fenêtre avec des barreaux métalliques, tu es seul tout le temps. Tu ne peux pas parler à personne, tu ne parlais nulle part. Tu ne peux rien faire, parce que, par exemple, même pour écrire, ils te donnent papier et stylo seulement pour une heure et demie pendant chaque jour, puis ils te les prennent. Et aussi, c’était interdit pour moi d’appeler à ma femme, d’appeler à mes enfants, je ne pouvais pas les contacter par téléphone. Ça, c’est une vieille pratique soviétique : quand le régime veut punir non seulement les opposants politiques, mais aussi leurs familles. Et c’est... je vais être honnête avec vous, c’est très difficile, dans des circonstances comme ça, de garder la tête. Il est très important de remplir la tête avec quelque chose d’important, de remplir le cerveau, si vous voulez, remplir le temps aussi. Et donc, moi, j’apprenais l’espagnol, j’avais un livre que je lisais tout le temps, du matin au soir, j’apprenais l’espagnol. Et évidemment je ne pensais jamais que j’allais l’utiliser, parce que, comme j’ai déjà dit, je ne croyais pas que je vais sortir. Mais après ce miracle de cet échange, l’année dernière, il y a quelques semaines, j’étais à Madrid pour des rencontres, pour des réunions avec des députés espagnols. Je pouvais pratiquer et apparemment maintenant je peux parler l’espagnol.

Donc aussi parler espagnol ?

Oui, même le temps en prison peut être utilisé pour quelque chose pratique.

À quoi ressemble votre vie aujourd’hui ? C’est celle d’un exilé ? Est-ce que vous vous sentez libre ?

Je me sentais libre même en prison, parce que je restais toujours avec mes convictions, je restais toujours avec mes principes. Ils peuvent te mettre en prison physiquement, mais ils ne peuvent pas arrêter ton esprit. Et maintenant, c’est un peu fou, parce que le problème, c’est que je n’ai vraiment pas eu de transition entre l’isolement dans une prison sibérienne et la vie de maintenant, quand je suis, je ne sais pas, dans quatre ou cinq pays différents chaque semaine, c’est un peu fou, à dire la vérité. Mais il y a tellement de choses à faire, il y a tellement de problèmes à discuter, parce que, comme j’ai déjà dit, il y a plus de 1 500 prisonniers politiques en Russie et pour beaucoup d’eux, c’est la question de survivre littéralement. Et il faut faire tout ce qu’on peut pour libérer ces gens-là dont le seul « crime », entre guillemets, c’est le fait qu’ils ne sont pas restés silencieux en face des atrocités commises par le régime de Vladimir Poutine.

Et est-ce que vous vous sentez menacé, observé, tout en étant en dehors de la Russie ?

Je n’y pense pas, parce que c’est une route vers la paranoïa, et ce n’est pas la route que je veux prendre. Je sais que j’ai raison, je sais que ce que je fais est correct et je sais que je suis du bon côté de l’histoire. Je sais aussi que ce que font nos collègues dans l’opposition démocratique russe, c’est important et je vais continuer à le faire malgré tout.

Merci beaucoup, Vladimir Kara-Mourza, d’être venu sur RFI.

Merci à vous, c’est un plaisir.

Et bonne journée.



segunda-feira, 24 de março de 2025

Votos de fim de ano dos presidentes da França desde 2007

Esta publicação reúne a tradução direta do francês pro português de todos os discursos de fim de ano dos presidentes da República Francesa de 2007 a 2024, e ao longo dos anos pode seguir sendo atualizada. Desde que o Pan-Eslavo Brasil, meu canal no YouTube, foi “suicidado” pelo Google em agosto de 2021, tomei como tradição obrigatória publicar aqui, todo começo de ano, pelo menos os discursos comemorativos dos presidentes da França, da Rússia, da Bulgária e da Moldova. Os dois últimos, por mera afinidade cultural, e os dois primeiros, devido a minha familiaridade com suas línguas e meus longos anos de pesquisa sobre a antiga URSS e de contato com a história da Rússia contemporânea.

Sempre fui muito perfeccionista, portanto, legendar pra mim sempre foi uma atividade meio penosa, mesmo que em se tratando de uma atividade amadora e de uns poucos minutos de audiovisual. Como o Pan-Eslavo Brasil era focado nos países eslavos, os votos de Feliz Ano Novo de Vladimir Putin saíam com maior regularidade, a partir de 2018, 2019, mais ou menos, e, sobretudo, quando chegou em casa a internet por fibra óptica. Além disso, a cada novo ano, seus discursos ficavam mais curtos e mais repetitivos, o que tornava a tarefa ainda mais fácil, sem contar que tenho pleno domínio do vocabulário soviético e burocrático de Putin. Quanto à França, fui deixando de legendar os discursos de Emmanuel Macron, porque ele já começou falando mais do que a média dos anteriores, e a cada ano, ao contrário do Kremlin, aumentava ainda mais, me desanimando num cotidiano cada vez mais premido pelo doutorado.

O YouTube acabou, o doutorado também, mas “Ainda estou aqui” na página, e como ela é hoje meu único meio de comunicação, tento atualizar com uma publicação por dia, por mais besta que seja o conteúdo. Lembra? Começou com uma por semana, depois uma a cada dois dias, depois tive intervalos de longas pausas, e finalmente tô “firmão” aqui, rs. Outra vantagem é que, ao contrário dos discursos anteriores, traduzidos palavra por palavra e com ocasionais consultas ao dicionário, agora tomei a coragem de usar o Google Tradutor, mas de forma sábia: a “máquina” me dá o texto central, mas o reviso todo, confrontando com o original. É o mínimo que se espera de alguém que, mesmo sem formação oficial, se arroga o título de tradutor!

Portanto, esta iniciativa vem preencher uma lacuna, pois em anos anteriores, tanto na página quanto no antigo canal, apareceram discursos isolados com votos de fim de ano de Putin, François Hollande e Emmanuel Macron (sem contar Aliaksandr Lukashenka, dono de Belarus que – pra minha alegria! – só fala russo), também listados abaixo, quando já antigos. A iniciativa também se alinha a minha atividade preferida de tradução, que foi a razão de eu ter fundado tanto meu finado canal quanto está página: disponibilizar ao público leigo ou especializado documentos que podem servir pra pesquisa e compreensão históricas, contornando as barreiras linguísticas e dando a oportunidade pra que todo mundo tire criticamente suas próprias conclusões por meio do acesso direto às fontes. Em cada publicação, estão listadas as fontes dos vídeos e, quando fosse o caso, dos textos já transcritos.

Por enquanto, estou começando com Nicolas Sarkozy e passando por François Hollande e Emmanuel Macron, mas no futuro, se eu achar os vídeos, talvez eu também traduza as alocuções de 1974-1975 a 2006-2007 feitas por Valéry Giscard d’Estaing, François Mitterrand e Jacques Chirac, embora eu não vá legendar o audiovisual. Procurei manter um estilo mais formal e padronizado, sem as constantes abreviações e oralidades que emprego aqui, e com recursos gramaticais que também costumo evitar (futuro do presente simples, pronome enclítico). Cada ano se refere ao que vai começar no dia seguinte, ou seja, pro qual o presidente está fazendo votos ainda na noite de Réveillon (votos pra 2010 feitos em 31/12/2009, votos pra 2025 feitos em 31/12/2024 etc.).

Lembrando, claro, que devido à agilização produtiva, decidi manter sem legendas os vídeos posteriores ao Pan-Eslavo Brasil e publicar apenas os textos. Portanto, se você tem vontade de se voluntariar pra colocar legendas, sinta-se livre pra me contatar! Se você tiver essa coragem, também permito que coloque em seu próprio YouTube ou outra rede social as legendas com meu texto, mas por favor, em prol da educação, pelo menos cite o autor (i.e. eu) e o link da tradução original.


Nicolas Sarkozy (2007-2012)


François Hollande (2012-2017)


Emmanuel Macron (2017-2022 e 2022-2027)



sábado, 15 de março de 2025

Trump tem mesmo as cartas?


Endereço curto: fishuk.cc/cartas-ua


Entre as várias montagens feitas por IA com a treta de Zelensky com Trump no Saguão Ovíparo, esta parece muito engraçada, de tão infantil, e brinca com a afirmação do Tio Patinhas de que “a Ucrânia não tinha cartas”, figurando a suposta falta de elementos pra sair em vantagem numa hipotética negociação com Putler. Adivinha o que começou a aparecer aos montes: cartas de baralho, rs!

Mas a situação no front, a que mais interessa na prática, está muito mais complicada do que parece, e segui-la é tão estonteante quanto acompanhar cada mudança de tom e linguagem da Bely Dom. Se os ucranianos podem deixar a região russa de Kursk a qualquer momento – por falta de recursos, e não porque “estão cercados”, como quer fazer crer certa propaganda –, a ofensiva invasora praticamente estagnou há semanas. Mesmo na região ucraniana de Donetsk (“DNR” é o ânus da tua genitora!), os porcos estão escorregando e sendo detidos pela defesa patriótica, e sequer a miúda Pokrovsk pôde ser completamente tomada, e nem vai ser, ao que tudo indica. Portanto, com esse virtual “congelamento” (a não ser que um milagre permita a Kyiv retomar territórios), pode-se falar na verdade de uma “guerra de atrição”, sem resultado pra ninguém.

É curioso como o Kremlin quer apresentar a retomada de Kursk, especialmente da cidade de Sudzha, como uma “grande vitória” na parada de Nove de Maio. Na verdade, era uma manobra que ele sequer devia ter permitido, demorou mais de seis meses pra retomar a iniciativa e só agora o Cabeça de Rola resolveu “zelenskizar” e visitar a região totalmente fardado. Antes, em manobras militares, ele aparecia só com um jaquetão camuflado por cima do traje social, mas agora parece que até ele resolveu “dispensar o terno”. Pra piorar, não só o ditador jamais tinha ido visitar os civis afetados, como os próprios propagandistas da TV estatal zombavam da cara deles, dizendo que tinham que “resistir em armas” e que “reclamavam demais”! Pra quem sequer foi visitar o Crocus City Hall depois do atentado (do qual chegaram a acusar até a “junta de Quiévi”), é um passo e tanto, e certamente um indício de fragilidade...



Mas hoje, quem tem a autoridade pra falar em cartas são dois intelectuais muito especiais que quero trazer aqui, embora eu não tenha tido tempo de transcrever nem traduzir o conteúdo. (Se alguém se voluntariar, fique à vontade pra me escrever!) Primeiro, o professor e pesquisador britânico Tarás Kúzio, politólogo de ascendência ucraniana, explicou na edição de 13 de março de 2025 do programa International Edition, da Voice of America, que Putin nunca quis a paz, porque sequer reconhece a existência da Ucrânia enquanto Estado independente e os ucranianos, como um povo diferente dos russos. E segundo, o jornalista e diretor Antoine Vitkine falou na edição de 12 de março do programa francês C dans l’air de sua investigação (Operação Trump: os espiões russos à conquista da América) sobre as relações de um Donald à beira da falência na década de 1980 com a máfia soviética, parte da qual gangrenaria a futura política russa.




“Vovô, deixa eu tirar um pentelho de sacóvski uma casquinha de feijão da sua boca?”


Quinta-feira passada a Palmirinha (com toques de Velha Surda/Boris Casoy, claro!) ressuscitou na TV francesa como “Palmirinho”, o tiozão do churrasco, rs:


sábado, 11 de novembro de 2023

Macron critica a “linguagem inclusiva”


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/macron-neutro



“Non, Greta, non existe essa coisa de menine!”


No dia 30 de outubro de 2023, o presidente francês Emmanuel Macron inaugurou a chamada Cidade Internacional da Língua Francesa (ou CILF) no castelo de Villers-Cotterêts, situado na cidade de mesmo nome e onde o rei Francisco 1.º assinou em 1539 uma ordenação (ou édito) que transformava o francês, então também conhecido como o “dialeto parisiense” das elites e dos intelectuais, em língua oficial do direito e da administração no lugar do latim medieval. Por essa razão, o documento também é considerado a “certidão de nascimento” do francês como língua de unificação nacional, depois expandida ao redor do mundo. Visando deixar uma grande marca em sua turbulenta administração, Macron aventava já em 2018 a ideia de reformar o castelo pra torná-lo um espaço internacional de reunião e incentivo a escritores e pensadores francófonos de todo o planeta, bem como um espaço de arte e memória, à maneira do Museu da Língua Portuguesa (São Paulo), mas de dimensões bem maiores.

Do nada, enquanto faz seu sonífero discurso de inauguração de quase uma hora, Macron arranca aplausos sinceros (único momento em que isso acontece antes do fim) de uma plateia geriátrica ao atacar dois tipos de “linguagem inclusiva” mais ou menos correntes em nossas línguas europeias modernas. O primeiro, obviamente, é resumido na frase “o masculino faz o neutro”, ou seja, se quiséssemos incluir pessoas de várias identidades de gênero, bastava usarmos o masculino, já que ele seria o “gênero universal por excelência”. Não tenho certeza se foi uma referência às pessoas que se identificam (em bom mussunzês...) como “não bináries” ou à prática, bem mais antiga, de colocar juntas as terminações de gênero masculino e feminino numa só palavra. Explico: em português, por uma questão de etiqueta, é comum separarmos terminações masculinas e femininas com parênteses ou barras, em frases como, por exemplo, “Estimados(as) professores(as) brasileiros(as)” ou “Estimados/as professores/as brasileiros/as”, ou mesmo invertendo a ordem – “Estimadas(os)...” ou “Estimadas/os...”.

Embora por vezes tanto a escrita quanto a leitura (sobretudo em voz alta) fiquem cansativas, ainda mais quando é o radical todo que muda com o gênero, e não apenas a terminação (palavras como “meu/minha”, “seu/sua” etc.), isso jamais incomodou alguém e sempre foi visto como uma evolução do “espírito do tempo”, e não como “modismo”, segundo disse Macron. Porém, alguns problemas se põem. Primeiro, têm se popularizado rapidamente os conversores de texto em voz nos aparelhos eletrônicos pra pessoas de baixa ou nenhuma visão, e esses programas ainda não forma treinados pra verbalizar tais sutilezas (muito menos comuns, aliás, em línguas com marcação de gênero irrisória, como o inglês e o mandarim). A vocalização, pois, fica truncada, o que é especialmente prejudicial em mensagens acadêmicas e institucionais. Segundo, o grafismo do francês é diferente, pois enquanto o português substitui vogais, o francês adiciona letras, sejam vogais ou consoantes, pra formar o feminino, mesmo que nem sempre a pronúncia mude. Isso faz com que ao invés de parênteses, eles prefiram usar pontos (os quais vi mais vezes) pra circundar as formas protuberantes: nossa frase acima ficaria “Estimé.e.s professeur.e.s brésilien.ne.s” (é mais corrente a forma escrita professeur/s pra ambos os gêneros). Realmente, penosa de ler, mais ainda de digitalizar...

E terceiro, ligado tanto à acessibilidade quanto a aspectos culturais: a visibilização das pessoas que em questão de gênero (mas não de sexualidade, atenção!) dizem não se identificar nem como homens, nem como mulheres (como pode ocorrer com homoafetivos ou transgêneros) e se autodenominam “não binárias não bináries”. Confundindo a questão de “gênero” em linguística com a questão de “gênero” em biologia, elas (as pessoas!) não gostam do uso de morfemas masculinos ou femininos, e estão quebrando a cabeça pra se concederem uma representação linguística, algo obtido malemá com vogais não reservadas a gêneros. Em português, já vemos formas nas quais traduziríamos nossa frase-exemplo como “Estimades professôries [sic!] brasileires”, e que realmente ainda não sei se pretendem representar apenas as pessoas “não bináries” ou toda e qualquer identificação de gênero, sem distinção. Outro debate é sobre a compulsoriedade: devem as instâncias oficiais se virarem pra incluir alguma expressão “neutra” ou, pelo contrário, proibirem seu uso inclusive no ensino escolar público? Me divirto muito com bolsominions que nas redes sociais, não juntando lé com cré, pra atacarem os políticos ou conglomerados de mídia que eles odeiam, usam ironicamente “Globe”, “Lule” etc.

As formas com “e”, “u” (“êlu” por “ele” ou “ela”) e o escambau, ao menos, são mais decifráveis pela informática, e talvez por isso começaram a prevalecer, do que as primeiras formas não referentes a nenhum gênero, expressas com sinais não alfabéticos ou consoantes ilegíveis, como “Estimad@s professor_s brasileirxs”. Por razões de sobrevivência, os usuários de leitores automáticos começaram a implorar pela rejeição desses hieroglifos, mas o debate continua, e já vimos que vai além da mera e antiga inclusão das mulheres na linguagem comum. Os principais tópicos: o “não binarismo” exigiria uma expressão linguística? Uma “linguagem inclusiva” passaria pela invenção de formas diferentes? Qual seria a utilidade prática, pro grosso da população que sequer domina a norma culta tradicional, e não pra uma pequena parte? Essas formas deveriam ser impostas ou proibidas? E se fosse deixado ao costume dar a última palavra, será que pegariam ou, como muitos “modismos”, morreriam esquecidas? Na França, a própria Brigitte Macron, professora aposentada de francês, já causou espécie ao condenar publicamente as formas iel, iels, que valeriam respectivamente por il, elle (ele, ela) e ils, elles (eles, elas).

Apenas como disclaimer, quero ressaltar que estou escrevendo aqui apenas fatos, e não minha opinião, sobre a qual eu poderia escrever um longo texto, e mesmo assim sem tirar conclusões definitivas, pois nem os gramáticos normativos, nem as pessoas religiosas, são os formatadores das verdades da vida. Questão diferente, ainda, é a linguagem neutra tecnicamente falando, ou seja, a construção ou tradução de textos que, na medida do possível, usem mínima ou nenhuma forma que faça alusão a gênero e que, segundo gente do ramo, já é uma demanda crescente. Dando meu único exemplo grosseiro, é como se ao invés de dizermos “Bom dia a todos e todas”, “Bom dia a todas e todos” ou “Bom dia a todas, todos e todes” (Alexandre Padilha!), saudássemos “Bom dia pra todas as pessoas” (que já vi professoras usando, até meio constrangidas), “Bom dia pra todo mundo”, “Bom dia, pessoal” ou simplesmente... “Bom dia”.

A versão escrita no site do Palácio do Élysée, que confrontei com meu texto de ouvido, tem algumas diferenças com a fala e até alguns erros, pois quando Macron diz lisible (legível), lemos visible (visível). Como o canal do YouTube da presidência ainda não permitia o download de outras fontes, também acabei tirando o trecho concernente do canal estatal France 24. Seguem o vídeo com uma pequena montagem “humorística”, a transcrição e minha imperfeita tradução:


Il faut permettre à cette langue de vivre, de s’inspirer des autres, de voler des mots, y compris à l’autre bout du monde, et j’y reviendrai tout à l’heure, de continuer à inventer... mais d’en garder aussi les fondements, les socles de sa grammaire, la force de sa syntaxe, et de ne pas céder aux airs du temps. Dans cette langue, le masculin fait le neutre. On n’a pas besoin d’y rajouter des points au milieu des mots, ou des tirets, ou des choses pour la rendre lisible.

É preciso permitir que essa língua viva, inspire-se nas outras, roube palavras, inclusive do outro lado do mundo, e voltarei a isso daqui a pouco, continue inventando... mas também preserve seus fundamentos, as bases de sua gramática, a força de sua sintaxe, e não ceda aos modismos de cada época. Nesta língua, o masculino faz o neutro. Não é necessário, no meio das palavras, acrescentar pontos, hifens ou coisas para torná-la legível.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Frases e verbos básicos em francês


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Quando eu ainda tinha meu canal Pan-Eslavo Brasil no YouTube, fiz esta iniciativa meio às pressas, em parte por causa da final da Copa do Mundo de 2018, em parte pra sistematizar o material que reuni ao dar o cursinho de francês no programa TOPE da Unicamp no primeiro semestre daquele ano. Vocês podem ver algumas frases básicas traduzidas e pronunciadas por mim, bem como os padrões de conjugação dos verbos regulares dos chamados 1.º e 2.º grupos, além das conjugações dos verbos auxiliares irregulares être (ser, estar) e avoir (ter, haver), sempre no tempo presente do indicativo (indicatif présent). Minha pronúncia tá longe de ser perfeita, e o material não pretende ser exaustivo.

Por incrível que pareça, esqueci de colocar uma das frases mais básicas do universo: “Por favor”! Existem duas formas de você dizê-la: S’il te plait (se diz “silhteplê”) caso esteja falando com alguém de sua intimidade, S’il vous plait (se diz “silhvuplê”) caso esteja falando com alguém sem intimidade ou com duas ou mais pessoas. Você pode encontrar mais comumente a ortografia plaît pro verbo, com acento circunflexo, ambas estão corretas. Lembre-se bem desta distinção: o pronome tu (2.ª pessoa do singular) só é usado com crianças, amigos, parentes ou parceiras(os), ou quando dois jovens criam uma relação não tão formal; o pronome vous (2.ª pessoa do plural) deve ser tomado como “padrão” mesmo quando nos dirigimos a uma só pessoa, e é usado com desconhecidos, superiores, idosas(os) e outras pessoas adultas com quem não temos intimidade. Em geral, a pessoa com quem você está falando avisa quando deseja ou “autoriza” você a usar tu, dizendo On se tutoie ? (Vamos nos tutear? Pode usar “tu” comigo).

Leia outros textos que oferecem ajuda sobre aspectos diversos da língua francesa em minha página!



sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Denegrir é mesmo um termo racista?


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Backup de umas notas nervosas que fiz nos stories do WhatsApp na manhã de 17 de outubro de 2022. Pra não estragar o papel desta página como uma espécie de portfólio meu, censurei alguns termos chulos e ocultei nomes cuja menção pudesse me comprometer:




Manchar por sua linguagem alguém em sua reputação (tradução do francês).


1. Enegrecer (pretejar?), tingir de preto. 2. Denegrir, enegrecer (obscurecer?) (tradução do francês).




segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Verbos franceses findos em -eter/-eler


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No segundo semestre de 2019, terminei virando monitor informal de um curso de extensão em tradução a partir da língua francesa, que eu mesmo estava frequentando, lecionado pela professora Marie-Lou no IEL/Unicamp. Como eu era um dos alunos com maior conhecimento de francês na turma, visto que muitos ainda estavam no nível básico (tendo cursado estágios anteriores com a própria Marie-Lou), eu tirava por e-mail dúvidas gramaticais de francês, como a de um colega que segue abaixo. O texto na sequência é minha resposta enviada, aqui com algumas adaptações e observações explicativas.
A que se deve a diferença na conjugação dos verbos acheter e jeter? Ambos são regulares com terminação “-er”, e, segundo a apostila [material complementar do curso], ambos têm um som de “e” fraco antes da terminação “-er”. Mas, no caso do jeter, você dobra o “t” nas conjugações. Já no caso do acheter, você põe um acento grave no primeiro “e”.

Essa é uma das dúvidas aparentemente inexplicáveis em francês. O francês tem uma ortografia altamente etimológica, ou seja, existem várias maneiras de representar os mesmos sons (e vários grafemas que, na verdade, nem som têm) que não se explicam pela lógica ou pela comodidade, mas pela evolução histórica das palavras. Por isso, por exemplo, pro mesmo conjunto “vérr” podemos escrever ver (verme), vers (rumo a), vert (verde) e verre (copo)! Pra nós, reles mortais, cabe apenas decorar esses adornos.

No caso dos verbos que terminam com as grafias “-eter” e “-eler”, existe um cuidado especial em que pode ajudar entendermos o conceitos de formas verbais rizotônicas e arrizotônicas (também útil em português). As formas rizotônicas são aquelas em que a sílaba tônica cai na raiz, por exemplo, “compro” e “achète”. As arrizotônicas são aquelas em que essa sílaba cai na terminação, por exemplo, “compramos” e “achetons”.

Pela regra, as formas arrizotônicas mantêm a grafia do infinitivo original, ou seja, “-eter” e “-eler” (com um só “t” ou “l” e “e” fraco ou mudo). Então, nosso problema se resume às formas rizotônicas, em que o primeiro “e” (que faz parte da raiz) é tônico, portanto obriga a certas mudanças ortográficas na palavra. Em francês, há dois jeitos do “e” não ser pronunciado fraco: 1) ele ser seguido de duas ou mais consoantes; 2) ser colocado um acento gráfico nele (“ê” ou “è”).

Há uma regra básica pros “e” não fracos segundo a qual, quando o “e” está numa sílaba fechada (foneticamente terminada em consoante), ele é aberto (como no português “café”), e quando está numa sílaba aberta (foneticamente terminada em vogal), é fechado (como no português “cadê”). No caso do “e” aberto em sílaba fechada, temos duas ortografias possíveis, portanto, pra aquelas terminações verbais com som “-él” ou “-ét”: “-èle(nt)/-ète(nt)” ou “-elle(nt)/-ette(nt)”.

Infelizmente, não há uma regra clara sobre se devemos dobrar a consoante final ou acrescentar o acento grave, e mesmo os dicionários muitas vezes não concordam entre si quanto à forma correta. A boa notícia é que, pela “ortografia recomendada” de 1990, que permite escrever o francês com algumas simplificações, esses verbos terminados em “-eter” e “-eler” podem ser conjugados sempre sob o modelo “-èle(nt)” e “-ète(nt)”, exceto justamente... jeter, appeler e derivados, que mantêm a ortografia histórica.

Os livros do [Jacques] Derrida [filósofo sobre quem nos focamos], infelizmente, não seguem a “ortografia recomendada”, embora isso não seja motivo de celeuma nas aulas. Dito isso, vou dar alguns exemplos nas duas ortografias pra ficar mais claro (apenas com o presente do indicativo), indicando com negrito as terminações problemáticas e com sublinhado a vogal tônica:

ACHETER (comprar): j’achète, tu achètes, il/elle/on achète, nous achetons, vous achetez, ils/elles achètent.

JETER (jogar, lançar): je jette, tu jettes, il/elle/on jette, nous jetons, vous jetez, ils/elles jettent.

Vou acrescentar o modelo do verbo appeler (chamar), porque ele tem uma pegadinha adicional: o “p” sempre duplo, que neste caso deriva da etimologia da raiz, e não da terminação: j’appelle, tu appelles, il/elle/on appelle, nous appelons, vous appelez, ils/elles appellent.

Reparou? Onde temos a voga tônica na raiz (“achet-” ou “jet-”), colocamos o acento grave ou dobramos a consoante (“achèt-” ou “jett-”). E onde temos a vogal tônica na terminação (“-ons” e “-ez”, nestes casos), não dobramos a consoante nem colocamos acento.




quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Reforma ortográfica da língua francesa


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Desde 2015, sob a presidência de François Hollande, tem ganhado mais corrência e visibilidade a chamada nova ortografia da língua francesa, cujos princípios, porém, remontam a 1990, mesmo ano em que foi proposta a reforma ortográfica da língua portuguesa. Como nos países lusófonos, as propostas de retificação geraram diversas opiniões, das favoráveis às contrárias, na França, Canadá, Bélgica, Suíça e outros países onde o francês é usado correntemente. Em toda reforma ortográfica de um idioma moderno, sempre se escondem por trás interesses financeiros, estéticos e filosóficos, mas num mundo em que a atividade da leitura e escrita praticamente se democratizou, mudanças assim têm sido cada vez mais dramáticas. Além de implicar atividades extras aos já sobrecarregados professores, ela termina meio que por invalidar toda uma massa documental impressa, bem como o muito mais crescente acervo digital.

Nesta postagem especial, quero passar ao leitor de português o máximo possível de informações históricas e linguísticas sobre as chamadas retificações ortográficas da língua francesa, também chamadas “nova ortografia”, propostas pelas instâncias francófonas responsáveis, entre as quais a Académie française (Academia Francesa). O uso dessa “nova ortografia” não é obrigatório, mas é recomendado, por isso é importante que todo estudante e professor a conheça desde já. Existe um ótimo site especializado em francês que traz material completo pra curiosos, alunos, docentes, escritores e jornalistas e do qual tirei a maior parte das regras. Na Wikipédia francesa há o básico do resumo histórico que também mostro aqui.

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Ao conjunto de retificações ortográficas do francês é atribuído o objetivo de tornar a ortografia mais simples ou de suprimir-lhe certas incoerências, conforme um relatório do Conselho Superior Francês para a Língua Francesa. O texto foi publicado entre os documentos administrativos da edição de 6 de dezembro de 1990 do Diário Oficial da República Francesa, e na época a Academia Francesa, sem contar com a íntegra da resolução, aprovou os princípios que a norteavam. Contudo, em 2016, a mesma instituição criticava a “exumação” de um projeto que, 25 anos após sua elaboração, não tinha contado com a “sanção do uso” e reafirmava o alinhamento aos princípios da reforma em 1990, e não a aprovação das regras.

As regras anteriores da ortografia francesa são também chamadas “tradicionais” ou “antigas”, e enquanto o Conselho Internacional da Língua Francesa (CILF), representando todos os países francófonos, mostrou-se favorável à reforma, a Academia Francesa aceita integralmente as duas regras, sem considerar uma delas incorreta e preferindo a “recomendação” à “imposição” do novo texto. Na França, as autoridades escolares públicas decidiram em junho de 2008 usar a “ortografia revisada” como referência dos programas e materiais, mas até 2010 as regras fixas ainda eram pouco conhecidas, e sua aplicação variava entre professores e entre dicionários. Porém, na prática muitos estudantes já as aplicavam sem saber, enquanto na Bélgica e na Suíça seu ensino já estava plenamente consolidado. Entre os franceses, apenas com a citada decisão de 2008 começou-se a ter uma noção maior da reforma.

Desde o século 16, houve inúmeras tentativas de reformar a ortografia francesa, sobretudo no sentido de suprimir-lhe o caráter etimológico (ou seja, o uso de certas letras ao invés de outras conforme a origem da palavra ou do afixo). Apenas em 1740 uma primeira reforma substancial foi consagrada na terceira edição do Dicionário da Academia Francesa, atingindo cerca de 5 mil palavras, mas nos anos 1980 um movimento de acadêmicos retoma o tema da necessidade de se revisar a ortografia. Por volta de 1988, o governo da França constatou que a ortografia complexa, a variação entre dicionários e a ausência de regras claras quanto à incorporação e sistematização de neologismos estava dificultando, ou até fazendo recuar, a difusão internacional da língua francesa. Em 1989, a mobilização de linguistas e a recomposição, sob o governo do premiê Michel Rocard, das instituições oficiais de consulta linguística favoreceram as discussões sobre a reforma ortográfica, até a publicação do referido documento de dezembro de 1990, aprovado por diversas organizações francesas.

Mesmo assim, a partir de 1991, iniciou-se na França uma resistência organizada às novas regras, invocando a manutenção de uma tradição consolidada. Diante dos calorosos debates lançados, a Academia Francesa reforçou sua posição contrária a um caráter obrigatório e impositivo da reforma, enquanto o CILF sublinhou que as decisões tinham sido tomadas conjuntamente entre os países francófonos, nos quais teria havido, em geral, ampla receptividade do acordo. Ainda hoje, há aqueles que se opõem por princípio, rejeitando qualquer tipo de modificação, e aqueles que criticam o crescimento do número de exceções a memorizar, resultante, por exemplo, do desaparecimento do acento gráfico em certas flexões de uma palavra, mas não em outras. Os gramáticos reformistas, por sua vez, julgam a reforma insuficiente, não tocando nos aspectos etimológicos que fazem realmente a ortografia complexa.

A nova ortografia francesa, no aspecto da obrigatoriedade, diferencia-se da reforma lançada à língua portuguesa, que desde 1990 demorou a ser ratificada por um número mínimo de países, gerando até hoje muita resistência, sobretudo em Portugal, cujo padrão linguístico tem uma porção de palavras muito mais atingida do que o brasileiro. Mas o contraste é maior com a reforma da ortografia alemã de 1996, imposta mais firmemente com prazos, inclusive, pra adaptação das escolas, mas posteriormente abandonada por vários jornais e pela província alemã do Schleswig-Holstein. De fato, na França não há lei específica sobre o assunto, deixado ao encargo da Academia Francesa, portanto fora do escopo do Estado. Tanto que o texto de 1990 saiu na parte administrativa do Diário Oficial, portanto sem valor compulsório. Contudo, como a maioria dos documentos estatais da França já é redigida na “ortografia recomendada”, me interesso que os estudantes falantes do português, em especial no Brasil, dominem o assunto, evitando futuros contratempos.

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Quais são as principais regras da nova ortografia retificada e recomendada da língua francesa? No geral, como no Acordo Ortográfico de 1990 pra língua portuguesa, trata-se de mudanças na acentuação gráfica, na ortografia de palavras e no uso do hífen, ou traço de união, visando basicamente suprimir certas diferenciações de uso e adequar a escrita a mudanças de pronúncia que ocorreram nos últimos tempos.

A primeira delas se refere ao uso do hífen ao se escreverem numerais cardinais por extenso. Boa parte dos números compostos liga seus elementos com hífen: dix-sept, dix-huit, dix-neuf (17, 18, 19), vingt-deux até vingt-neuf (22 a 29) – o mesmo com outras dezenas até 60 –, soixante-dix (70 = 60 + 10, no peculiar sistema francês de contagem), soixante-douze até soixante-dix-neuf (72 a 79), quatre-vingt-un a quatre-vingt-dix (81 a 90), bem como quatre-vignt-onze até quatre-vingt-dix-neuf (91 a 99). Contudo, não levavam hífen as dezenas terminadas em 1 ou 11 – “et un” e “et onze” –, bem como suas formas ordinais “et unième” e “et onzième”: vingt et un (21), trente et un (31) etc., soixante et onze (71 = 60 + 11).

Atualmente, todas as formas numerais compostas, cardinais ou ordinais, podem levar hífen. Assim, temos vingt-et-un, trente-et-un, soixante-et-onze etc., bem como os ordinais vingt-et-unième, trente-et-unième, soixante-et-onzième etc. (Lembre-se que a forma premier, -ère só se usa com o número 1 absoluto.) O mesmo com deux cents (200), un million cent (1.000.100) e outros, que se tornam deux-cents, un-million-cent etc.

Assim podem se distinguir agora, conforme se diz na língua francesa, as escritas de soixante et un tiers (60 + 1/3) e de soixante-et-un tiers (61/3). Em francês, tiers (se lê “tiérr”) significando “terço”, “terça parte”, é invariável: em português não há essa confusão, pois no primeiro caso usaríamos “terço”, e no segundo, “terços” (“s” bem audível).

Outra mudança está nos substantivos compostos, em que um hífen une verbo + substantivo (como pèse-lettre, “pesa-cartas, balança de correio”) ou preposição + substantivo (como sans-abri, “sem-abrigo, sem-teto, desabrigado”). Em geral, a marca do plural em francês, quase sempre a letra “s”, não se pronuncia, portanto a pronúncia da palavra no singular é a mesma da palavra no plural. O grande problema é que, na ortografia, não havia (como em português) uma regra clara pra flexão do plural nos compostos, seja representando um ou mais elementos.

Pela nova regra, nos casos citados acima, coloca-se a marca do plural sempre e somente quando a quantidade estiver no plural. Por exemplo, escrevia-se sempre un/des compte-gouttes (um/alguns conta-gotas), com “s” final, independente de se estar no singular ou plural. Agora, escreve-se un compte-goutte no singular e des compte-gouttes no plural. Já com un/des après-midi (uma/algumas tardes, período/s da tarde), a forma era sempre a do singular, mas agora o plural pode receber a marca: un après-midi, mas des après-midis.

Alguns compostos seguem invariáveis, como prie-Dieu (genuflexório), por causa da maiúscula de nome próprio, e trompe-la-mort (pessoa que se arrisca a ponto de desafiar a morte), por causa do artigo invariável no meio. Uma palavra como garde-pêche (policial fluvial que fiscaliza a pesca e navegação; ou navio de vigilância sobre a pesca marítima) se escrevia no plural gardes-pêche, mas agora é garde-pêches, todas as formas se pronunciando “gárrd-péch”. Afirma-se que a nova regra suprime incoerências como un/des cure-dent (um/alguns palito/s de dente) só ter forma singular, e un/des cure-ongles (um/alguns limpador/es de unhas), só plural.

Na língua francesa, ao contrário do português, o grafema “é” (“e” com acento agudo) soa como nosso “ê” fechado, enquanto o grafema “è” (“e” com acento grave) soa como nosso “é” aberto. Via de regra, o som “é” fechado só aparece em sílabas abertas (terminadas em vogal), e o som “è” aberto, em sílabas fechadas (terminadas em consoante), o que terminou gerando problemas em palavras com “é” gráfico historicamente percebido como aberto, mas se tornando fechado, na pronúncia, ao evoluir a língua. É o que quase sempre acontece com “é” gráfico seguido de consoante(s), esta(s) seguida(s) de um “e” fraco, e atualmente mudo.

Exemplo: uma palavra como événement (evento, acontecimento) é historicamente percebida com esta divisão: “é-vé-ne-ment” (algo como “ê-vê-nâ-mã”), mas o “e” gráfico, na evolução, foi sumindo na pronúncia. Assim que, foneticamente, teríamos “é-vén(e)-ment”, e como a segunda sílaba se fecha, termina se falando algo como “ê-vénn-mã”. A ortografia não acompanhou a mudança, mas a reforma propõe que se escreva évènement, com acento grave. Uma série de palavras sofre o mesmo problema, como réglementaire (regulador/a, regulamentar), agora règlementaire. Isso as adequaria a uma “regra de base”, já vigente, por exemplo, em avènement (advento, chegada) e règlement (regulamento, pagamento).

Fenômeno igual ocorre nos tempos futuro e condicional do indicativo dos verbos conjugados pelo modelo de céder (ceder, conceder, renunciar), assim como em formas do tipo puissé-je (possa eu, que eu possa – agora puissè-je): je céderai (eu cederei) → je cèderai, ils régleraient (eles regularão, pagarão, arrumarão) → ils règleraient. A sílaba com um “e” fraco, de fato mudo, se chama sílaba muda, e a regra passa a ser que antes de sílaba muda, escreve-se e pronuncia-se apenas “è”. As exceções ficam por conta dos prefixos dé- e pré-, do é- inicial em vocábulos e dos termos médecin (médico/a, remédio) e médecine (medicina, sistema médico, purgante).

Outro ponto que costuma causar problemas a quem está aprendendo o francês como língua estrangeira é o uso do acento circunflexo (^), que em português tem a função bem definida de fechar o timbre das vogais “a”, “e” ou “o”. Em francês pode aparecer em todas as vogais (exceto “y”), causando modificação sonora no “a”, no “e” e no “o”, mas não mudando a pronúncia do “i” e do “u”. Em todos os casos, sua origem é etimológica, em geral indicando uma consoante (quase sempre “s”) histórica que caiu, na pronúncia, após a vogal e antes de outra consoante, mas tendo sobrevivido em palavras da mesma origem e sentido aparentado no português: pâte (pasta), bête (besta), île (ilha, espanhol isla), hôpital (hospital), coûter (custar). É algo parecido com o uso da letra “h” muda em português.

Dado que, segundo os reformadores, nas letras “i” e “u” o acento não tem nenhum papel fonético e que seu uso não pode ser justificado pela etimologia, pois seria aleatório, constituindo, assim, uma das causas centrais de erros, propõe-se aboli-lo nesses dois casos. Assim, as palavras acima se escreveriam ile e couter, bem como, por exemplo, paraître (parecer, assemelhar-se) seria paraitre, e flûte (flauta) seria flute; e o que vale pro infinitivo vale pras outras flexões do verbo.

Apenas dois casos constituem exceção. O primeiro são cinco palavras em que a ambiguidade poderia ser muito frequente: (devido) contra du (do = de + o), mûr (maduro) contra mur (muro, parede), sûr (seguro, certo) contra sur (sobre, em cima de), jeûne (jejum) contra jeune (jovem) e as formas dos verbos croire (crer, acreditar) e croitre (crescer, aumentar) que se confundiriam sem acento, como je crois, tu crois, il croit etc. (eu creio, tu crês, ele crê) contra je croîs, tu croîs, il croît etc. (eu cresço, tu cresces, ele cresce). Os três primeiros adjetivos citados, contudo, quando estão no feminino singular ou no plural, perdem o acento circunflexo, por não haver ambiguidade escrita: due(s) (devida/s), mure(s) (madura/s), sure(s) (segura/s); dus (devidos), murs (maduros), surs (seguros).

O segundo caso de exceção são algumas terminações de dois tempos verbais pouco empregados no francês moderno: o passé simple (passado simples) e o subjonctif imparfait (subjuntivo imperfeito), que têm regras próprias de utilização, mas pela morfologia equivalem grosso modo, na nomenclatura brasileira, ao pretérito do perfeito simples (indicativo) e ao imperfeito do subjuntivo, tempos bem mais usados em português. Vou dar primeiro um exemplo na conjugação mais básica, que é a do primeiro grupo dos verbos terminados em -er, como danser. Duas de suas formas no plural do passé simple são nous dansâmes (nós dançamos) e vous dansâtes (vós dançastes, vocês dançaram), e uma forma sua no singular do subjonctif imparfait é qu’il/elle dansât (que ele/a dançasse).

Também é comum o uso dos verbos avoir (ter, haver, possuir) e être (ser, estar) no subjonctif imparfait, nas formas qu’il eût (que ele tivesse) e qu’il fût (que ele fosse), como auxiliares de outro tempo ainda mais literário, sem tradução exata em português, chamado subjonctif plus-que-parfait (subjuntivo mais-que-perfeito). Por exemplo: qu’il eût dansé e qu’il fût allé (auxiliar être com o verbo aller, “ir”). O passé simple desses dois verbos também tem um circunflexo que não se retira: nous fûmes, vous fûtes (nós fomos, vós fostes/vocês foram) e nous eûmes, vous eûtes (nós tivemos, vós tivestes/vocês tiveram). Vamos ver também um exemplo de verbo do segundo grupo dos terminados em -ir, que é finir (acabar, terminar, findar): nous finîmes, vous finîtes, qu’il/elle finît (nós acabamos, vós acabastes, que ele/a acabasse).

Sabemos como o sistema verbal francês é estrambólico, e aqui temos outro exemplo de saliência sem qualquer impacto na pronúncia, mas retificada pela reforma ortográfica. Os verbos terminados em -eler e -eter têm toda uma dificuldade de conjugação advinda do fato que, dependendo da flexão, o primeiro “e” se mantém fraco ou, ganhando a tonicidade, se pronuncia “é” aberto. Dependendo do verbo, essa pronúncia “éll/ét” era grafada èl/èt ou ell/ett, o que gerava infindas listas mnemônicas, até mesmo diferentes entre dicionários. Todos esses verbos foram reduzidos à mesma regra dos verbos peler (pelar, depilar, descascar) e acheter (comprar), isto é, -èl- e -èt-. Vamos usar o exemplo dos verbos amonceler (acumular, amontoar) e épousseter (espanar): antes havia formas como j’amoncelle (eu amontoo) e ils époussettent (eles espanam), em contraste com nous amoncelons (nós amontoamos) e vous époussetez (vós espanais).

Agora, é preferível escrever j’amoncèle, ils époussètent etc., inclusive em formas nas quais o “è” não é tônico, mas é aberto: tu époussèteras (tu espanarás) ao invés de tu époussetteras. Substantivos derivados de verbos por meio do sufixo -ment (nosso “-mento”) vão pelo mesmo caminho: amoncèlement (acumulação) é preferível a amoncellement. Pra variar, existem as exceções: os dois verbos appeler (chamar, invocar, apelar) e jeter (jogar, lançar, aitrar), além de seus compostos, como rappeler (reconvocar, chamar de volta, lembrar) – incluindo interpeler (interpelar, fazer pensar, interrogar) –, rejeter (rejeitar, jogar de novo, vomitar) etc. Assim, por exemplo, temos je pèle, j’achète etc. (eu descasco, eu compro), mas j’appelle (eu chamo, incluindo je m’appelle, “eu me chamo, meu nome é”), je jette (eu jogo) etc.

Numa área menos espinhosa, também se decidiu adotar um plural nativizado às palavras emprestadas de outras línguas pelo francês, ou seja, a simples adição do “s” mudo no lugar do plural original. Isso é válido, sobretudo, com vocábulos ingleses, que recebem “-es” dependendo da terminação, como match (partida esportiva) e miss, que formam matches e misses por terminarem nas sibilantes “tch” e “ss”. O francês as incorporou apenas juntando, por exemplo, o artigo indefinido: des matches, des misses. Contudo, como o francês nunca diferenciou seu número na pronúncia, estipulou-se adicionar apenas o “s” gráfico, ignorando o plural original: des matchs, des miss (palavras já terminadas em “s” não recebem outro).

Sempre que possível, também se põem acentos gráficos conforme a pronúncia do francês, assim evitando a hesitação na pronúncia. Por exemplo, o “re” de revolver era por regra pronunciado não fraco, algo como “râ”, mas forte e fechado, como nosso “rê”, mesmo isso não sendo indicado na escrita. Palavras assim passam a seguir as regras francesas, e neste caso temos a nova grafia révolver. Segundo os reformadores, os plurais regulares são familiares à maioria dos francófonos e permitem uma integração efetiva dos empréstimos.

E as composições e os prefixos unidos com hífen à palavra, que tanto tiraram o sono dos reformadores e escritores brasileiros? Na França, buscou-se dar uma solução simples, estendendo a ligação sem o hífen e privilegiando a grafia unida, além dos seguintes casos onde esta é sistemática: 1) palavras compostas com contr(e)- e entr(e)-; 2) palavras compostas com extra-, infra-, intra-, ultra-; 3) palavras compostas com elementos “eruditos” (hydro-, socio- etc.); 4) onomatopeias e estrangeirismos. Como exemplo do primeiro caso, temos contre-appel (segunda chamada) e entre-temps (nesse ínterim, enquanto isso), que passam a contrappel e entretemps. Pro segundo caso, cite-se extra-terrestre, que se torna extraterrestre. Ilustrando o quarto caso, tic-tac e week-end (“fim de semana”, que suplantou fin de semaine na França) dão em tictac e weekend. E além deles, vejamos porte-monnaie (porta-moedas, porta-níqueis), agora portemonnaie.

Agora, novamente as minúcias: palavras terminadas em -olle e verbos (junto com seus derivados) terminados em -otter passam a se escrever com uma só consoante (-ole, -oter). Exceções: as palavras colle (cola, castigo escolar, grupo de colhedores de uvas), folle (louca, rede de pesca, boiola) e molle (aroeira, mole – feminino), e os verbos em -otter derivados de uma palavra em -otte (como botter, “calçar botas, chutar, agradar”, de botte, “bota”). Exemplos da regra: corolle (corola de flor) → corole, frisotter (fazer cachinhos ou ondinhas, frisar de leve) → frisoter, frisottis (cachinhos de cabelo) → frisotis. Afirma-se que assim desaparecem algumas incongruências, unificando a ortografia de várias terminações.

Lembram-se do saudoso trema no português? Pois é, ele permanece em francês, mas com algumas mudanças: a mais evidente delas é seu uso nas sílabas “gue” e “gui”, em que pode ocorrer, como em nossa língua, a ambiguidade de se pronunciar ou não a letra “u” como uma semivogal. Mas no caso do francês, os casos são bem mais restritos, em especial com os adjetivos terminados em “u”, entre eles aigu (agudo, acerbo) e ambigu (ambíguo). Eles formam o feminino com o acréscimo de um “e” mudo, ou seja, teoricamente aigue e ambigue. Porém, a sílaba final seria pronunciada apenas como um “g” gutural, e pra que se mantenha a pronúncia do “u” vocálico, coloca-se o trema no “e”: aiguë, ambiguë. Esse trema, pela regra nova, desloca-se pro “u”: aigüe, ambigüe. O mesmo se dá em derivados com outras letras: ambiguïté (ambiguidade) → ambigüité.

Segundo a reforma ortográfica, algumas palavras também passam a ter o trema sobre o “u”, pra deixar claro que ele é pronunciado, e não mudo. O caso mais claro é o do verbo argüer (argumentar, arguir), pra se dizer “arrgu-ê”, e não “arr-guê”: j’argüe, nous argüons (eu argumento, nós argumentamos). Além disso, há certas palavras em que o dígrafo “eu” (sempre depois de um “g” com som de “j”) não é pronunciado como o “ö” alemão (ou como em bleu), mas como o “ü” alemão (ou como o “u” normal francês): gageüre (aposta, desafio), mangeüre (roedura, roído), rongeüre (roedura, tormento), vergeüre (marca de água, risco, traço, metal pra fabricação de papel). Antes, essa pronúncia era decorada, agora o trema a indica na escrita.

A nova ortografia também leva em conta pronúncias que se transformaram ao longo do tempo (sim, as línguas mudam!) ou cuja representação, por algum motivo, era irregular, inserindo acentos gráficos pra corresponder aos fatos: assener (assentar, dar com força, enviar, impor) → asséner, papeterie (fábrica, comércio ou loja de papel e papelaria) → papèterie, québecois (quebequense, de Québec, no Canadá) → québécois. Além disso, palavras terminadas em -illier cujo segundo “i” do sufixo não se pronuncia mais (exceto nomes de árvores, como groseillier, groselheira) cortam essa letra: joaillier (joalheiro) → joailler, serpillière (aniagem, pano pra confecção de fardos) → serpillère. Finalmente, em caso de formas concorrentes, privilegiam-se: 1) a versão mais “francesa” (leadeur a leader – líder, chefe, guia); 2) a ausência de circunflexo (allo a allô – alô, no telefone); 3) o plural regular, como já vimos (matchs, miss, babys a matches, misses, babies); e outros detalhes, dedicados especialmente à lexicografia e à criação de palavras.

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Essas são as regras básicas que concernem diretamente à ortografia e à pronúncia, mas existe um outro detalhe, mais vinculado à gramática, que deixei aqui em separado. O francês usa amplamente tempos verbais compostos, em que o verbo principal fica no participe passé, literalmente “particípio passado”, ou nosso particípio terminado em “-ado”, “-ido”, “-to” ou outras formas irregulares. Muitas formas de particípio têm a formação do feminino em “e” e do plural em “s” que não interferem na pronúncia, fazendo com que as quatro formas do participe passé de laisser (deixar) tenham a mesma pronúncia “lessê” (igual, inclusive, à do infinitivo): laissé, laissée, laissés, laissées. Isso causa confusão, principalmente, na concordância em formas “encavaladas” com outros verbos.

Conforme a reforma proposta, não apenas o particípio de faire (fazer), mas também de laisser, deve permanecer invariável antes de um verbo no infinitivo. Assim, formas como elle s’est laissée maigrir (ela se deixou emagrecer) e je les ai laissés partir (eu os deixei partir) podem se escrever respectivamente elle s’est laissé maigrir (ela se deixou emagrecer) e je les ai laissé partir (eu os deixei partir). A ortografia muda, mas a pronúncia não.

Quem puder, perceba que esta postagem basicamente traduz quase todas as informações já contidas em francês no referido site de popularização da orthographe recommandée de 1990. Existe aí também uma lista parcial das ditas “anomalias” corrigidas em certos grupos de palavras, quanto a ortografias que não seriam mais justificadas pelo tempo. Porém, pra quem domina bem o francês lido, sugiro muito que procurem o documento público Les rectifications de l’orthographe, elaborado pelo Conseil supérieur de la langue française e publicado na parte administrativa do Journal officiel de la République française. Considero-o imprescindível aos profissionais da língua (professores, tradutores e escritores), e ele é completo nas regras ortográficas, palavras retificadas e princípios político-filosóficos dos reformadores. Estou à disposição pra tirar qualquer dúvida de vocês!



François Hollande

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Sobre o número e o gênero em francês


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/flexao-fr


Pra terminar o material básico do cursinho no TOPE da Unicamp, que tenho sistematizado aqui no site, vamos falar agora sobre flexão dos substantivos e adjetivos, ou seja, sua indicação de número (singular ou plural) e gênero (masculino e feminino). Infelizmente, como tive de abreviar o conteúdo das aulas, não pude me aprofundar nos adjetivos, mas no essencial, vale pra eles também o que digo aqui diretamente apenas dos substantivos. A flexão destes é mais complexa e variada.

Esta postagem é dividida em quatro partes: como podemos encontrar palavras do gênero masculino, como identificamos se uma palavra é do gênero feminino, como realizar a formação do feminino a partir do masculino quando isso é possível (e os casos em que o feminino vem de um vocábulo separado) e como fazer corretamente a formação do plural. Felizmente, a formação do plural não está sempre imbricada à “formação” do feminino, como nas línguas eslavas. Mas recomendo que não se procure decorar o conteúdo deste texto, que em geral é aprendido na prática. Minha intenção principal tem sido a de que as últimas postagens sirvam mesmo de material de consulta constante.


Le genre masculin (O gênero masculino)

Em geral são substantivos que pertencem ao gênero masculino:

  • Palavras indicando homens e animais machos: un homme (um homem), le boucher (o açougueiro), le tigre (o tigre).
  • Palavras que designam árvores e arbustos: le chêne (o carvalho), le sapin (o pinheiro), le laurier (o louro).
  • Nomes de dias, meses e estações do ano:
    • janvier, février, mars, avril, mai, juin, juillet, août, septembre, octobre, novembre, décembre.
    • l’été (o verão), l’automne, l’hiver, le printemps.
    • lundi (segunda-feira), mardi, mercredi, jeudi, vendredi, samedi, dimanche.
  • Nomes de idiomas: le français (o francês), le portugais (o português), l’espagnol (o espanhol).
  • Nomes de rios e países terminados em consoante e “e” mudo: le Nil (o Nilo), le Danube (o Danúbio), le Rhône (o Reno), l’Amazone (o Amazonas), le Gange (o Ganges), le Portugal (Portugal), le Danemark (a Dinamarca). Exceções (rios): la Seine (o Sena), la Tamise (o Tâmisa), bem como la Volga (o Volga).


Le genre féminin (O gênero feminino)

Em geral são substantivos que pertencem ao gênero feminino:

  • Palavras indicando mulheres e animais fêmeas: la mère (a mãe), la bonne (a empregada), la génisse (a bezerra).
  • Nomes de países terminados em “e” mudo: la Russie (a Rússia), la Belgique (a Bélgica), la France (a França), la Suisse (a Suíça). Exceção: le Mexique (o México), bem como le Chili (o Chile).
  • Dias santos e festas religiosas: la Toussaint (Dia de Todos os Santos, 1.º de novembro), la Pentecôte (Pentecostes).
    • Noël (Natal) é masculino, mas se usado com artigo definido (à la Noël, no Natal) é feminino.
    • Pâques (Páscoa) é tido por masculino singular em geral, usado sem artigo (à Pâques prochain, na próxima Páscoa), mas é feminino plural nas expressões Pâques fleuries (Domingo de Ramos) e Joyeuses Pâques ! (Feliz Páscoa!).
  • Com algumas exceções, é feminina a maioria dos substantivos terminados em duas consoantes seguidas de “e” mudo: la botte (a bota), la couronne (a coroa), la terre (a terra), la masse (a massa), la lutte (a luta).

Alguns substantivos variam de gênero de acordo com o sexo da pessoa designada, gênero indicado apenas pelo artigo usado: un/une artiste (um/uma artista), le/la Russe (o russo/a russa), un/une aide (um/uma assistente), un/une domestique (um/uma servente), un/une enfant (uma criança = menino/menina), un/une malade (um/uma paciente), un/une propriétaire (um proprietário/uma proprietária).

Substantivos com um gênero pra ambos os sexos: un ange (um anjo), un amateur (um amador/uma amadora), un auteur (um autor/uma autora), le médecin (o médico/a médica), le peintre (o pintor/a pintora), le sculpteur (o escultor/a escultora), le témoin (a testemunha); une dupe (um otário/uma otária), une personne (uma pessoa), la recrue (o recruta), la sentinelle (a sentinela), la victime (a vítima).

Alguns substantivos mudam de significado ao mudar de gênero:

  • un aide (o assistente), une aide (a assistente; a ajuda).
  • le critique (o crítico), la critique (a crítica = opinião).
  • le faux (a falsificação), la faux (a foice).
  • le livre (o livro), la livre (a libra = 500 g, “meiquilo”).
  • le mode (o método, o modo), la mode (a moda).
  • le mort (o morto), la mort (a morte).
  • le page (o pajem), la page (a página).
  • le poste (o posto, o cargo), la poste (o correio).
  • le tour (o truque, a mágica; o giro), la tour (a torre).
  • le vapeur (o navio a vapor), la vapeur (o vapor).
  • le voile (o véu, a cortina), la voile (a vela de barco).

A palavra gens (pessoas) é considerada masculina quando antecede o adjetivo, e feminina quando o sucede: des gens heureux (pessoas felizes), de bonnes gens (boas pessoas).


La formation du féminin (A formação do feminino)

A regra de ouro pra se formar um substantivo feminino a partir de um masculino, é: adiciona-se a terminação “-e” muda, que pode ou não alterar a pronúncia: un ami (um amigo), une amie (uma amiga); le candidat (o candidato), la candidate (a candidata). No primeiro caso, apenas a pronúncia do artigo diferencia o gênero/palavra: [æ̃n‿ami], [yn ami]. No segundo, o artigo não é imprescindível além da mudança de pronúncia que ocorre no final: [kɒ̃dida], [kɒ̃didat].

Porém, há inúmeras exceções a essas regras, exceções que por vezes também têm “exceções”. Seguem abaixo algumas delas.

Substantivos terminados em “e” não mudam no feminino: un élève (um aluno), une élève (uma aluna).

Substantivos terminados em “t” e “n” dobram essa consoante, que em geral passa a ser pronunciada: le chat (o gato), la chatte (a gata); le chien (o cachorro), la chienne (a cadela). Exceções: substantivos terminados em “-in”, “-ain” ou “-an”. Ex.: le cousin (o primo), la cousine (a prima); le souverain (o soberano), la souveraine (a soberana); le faisan [føzɒ̃] (o faisão), la faisane [føzan] (a faisoa).

Substantivos terminados em “-er”, cuja pronúncia é “ê”, mudam a terminação para “-ère”, que se pronuncia “érr”: un ouvrier (um operário), une ouvrière (uma operária).

Como regra, os substantivos terminados em “-eur” [-œʁ] mudam a terminação para “-euse” [-øz]: le vendeur (o vendedor), la vendeuse (a vendedora). Há exceções:

  • le pécheur (o pecador), la pécheresse (a pecadora); un enchanteur (um mágico), une enchanteresse (uma mágica); le vengeur (o vingador), la vengeresse (a vingadora).
  • os terminados em “-teur”, que fazem em “-teuse” ou “-trice”: le chanteur (o cantor) > la chanteuse (a cantora), un acteur (um ator) > une actrice (uma atriz).
  • os adjetivos ou substantivos inférieur, supérieur, mineur (“menor”, em sentidos figurados) e prieur (prior, em certos conventos) fazem apenas com a adição de um “-e” mudo: inférieure, supérieure etc.; quando mineur significa “mineiro”, faz mineuse, e quando prieur significa “pessoa que reza”, faz prieuse.

Com estas terminações, há outra alteração junto ao acréscimo do “-e”: “-f” > “-ve”, “-x” > “-se”, “-eau”/“-el” > “-elle”. Ex.: le veuf (o viúvo), la veuve (a viúva); un époux (um esposo), une épouse (uma esposa); le jumeau (o gêmeo), la jumelle (a gêmea); Gabriel > Gabrielle.

Algumas derivações de masculino para feminino são irregulares:

  • un abbé (um abade), une abbesse (uma abadessa).
  • le duc (o duque), la duchesse (a duquesa).
  • le dieu (o deus), la déesse (a deusa).
  • le prince (o príncipe), la princesse (a princesa).
  • le Grec (o grego), la Grecque (a grega).
  • le Turc (o turco), la Turque (a turca).

Alguns conceitos usam palavras diferentes para os dois gêneros:

  • le bœuf (o boi), la vache (a vaca).
  • le cheval (o cavalo), la jument (a égua).
  • le coq (o galo), la poule (a galinha).
  • le père (o pai), la mère (a mãe).
  • le fils (o filho), la fille (a filha).
  • le frère (o irmão), la sœur (a irmã).
  • un homme (um homem), une femme (uma mulher).
  • le roi (o rei), la reine (a rainha).


Le nombre pluriel (O número plural)

Como em inglês, a regra básica é: adiciona-se um “s” mudo ao final da palavra: l’homme (o homem), les hommes (os homens); le lit (a cama), les lits (a cama). Em ambos os casos, a marca do plural estará na pronúncia do artigo. Mas há casos que merecem atenção especial.

Os substantivos com singular terminado em “s”, “x” ou “z” não mudam de forma: le bois (o bosque), les bois (os bosques); la noix (a noz), les noix (as nozes); le nez (o nariz), les nez (os narizes).

Substantivos com singular em “-al” [al] trocam a terminação para “-aux” [o] em geral: le bocal (o bocal), les bocaux (os bocais); le mal (o mal), les maux (os males). Exceções (dentre várias): le bal (o baile), les bals (os bailes); le carnaval (o carnaval), les carnavals (os carnavais); le chacal (o chacal), les chacals (os chacais); le choral (o coral), les chorals (os corais); le festival (o festival), les festivals (os festivais).

No plural, os finais “-eau”, “-au” e “-eu” têm um “x” mudo no singular: le bateau (o barco), les bateaux (os barcos); le noyau (o núcleo, o caroço), les noyaux (os núcleos, os caroços); un cheveu (um fio de cabelo), des cheveux (fios de cabelo, o/s cabelo/s). Exceções: le bleu (o azul), les bleus (os azuis); le pneu (o pneu), les pneus (os pneus).

Os substantivos terminados em “-ail” [aj] (éventail – leque, épouvantail – espantalho) fazem o plural com “s”, mas sete deles fazem em “-aux” [o]: bail (arrendamento), corail (coral marítimo), émail (esmalte), soupirail (respiradouro), travail (trabalho), vitrail (vitral) e vantail (batente de porta ou janela).

Os substantivos terminados em “-ou” (clou – prego, trou – buraco) fazem o plural com “s”, mas sete deles acrescentam, ao invés, um “x” igualmente mudo: bijou (joia), caillou (seixo), chou (couve), genou (joelho), hibou (coruja), joujou (brinquedo) e pou (piolho).

Estes substantivos têm sua consoante final pronunciada e sua vogal com timbre aberto no singular, mas têm a consoante muda e a vogal com timbre fechado no plural: un os [ɔs] (um osso), des os [o] (ossos); un œuf [œf] (um ovo), des œufs [ø] (ovos); le bœuf [bœf] (o boi), les bœufs [bø] (os bois).

Via de regra, a palavra œil [œj] (olho) tem o plural yeux [jø] (olhos); les yeux = [lezjø]. Presente em alguns compostos, seu plural é regular: œils-de-bœuf (claraboias), œils-de-perdrix (calos), œils-de-serpent (pedras preciosas).

Alguns substantivos são pluralia tantum, ou seja, só se empregam no plural: mascs. décombres (escombros), frais (despesas); fems. entrailles (entranhas), funérailles (funerais), ténèbres (trevas).

Usados no plural, alguns substantivos mudam de sentido: le ciseau (o cinzel de escultor), les ciseaux (a/s tesoura/s); la lunette (a luneta), les lunettes (os óculos); la vacance (a vacância), les vacances (as férias).