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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

V. Kará-Murzá em francês (8/10/2026)


    Na manhã de 8 de outubro de 2026, o político e historiador russo Vladímir Kará-Murzá concedeu uma nova entrevista em francês à Rádio França Internacional (RFI), desta vez se concentrando nos movimentos de oposição na Rússia, em especial o partido Iábloko, contrário à guerra, e na incapacidade das potências ocidentais de frear a agressão de Putin contra a Ucrânia. Abaixo você pode assistir à íntegra de sua conversa com o jornalista Arnaud Pontus no canal oficial, e achei o conteúdo tão importante que decidi, mesmo sem autorização, traduzir pro português e colocar aqui. No portal da RFI em inglês também há uma transcrição adaptada da entrevista, mas não a usei pra fins de comparação.

Usei o site Turboscribe pra tirar do vídeo uma primeira versão da transcrição usando a tecnologia IA, depois comparei o resultado com o áudio e finalmente traduzi com o Google a versão corrigida, tendo revisado manualmente o resultado. Sendo um grande intelectual, Kará-Murzá é fluente em francês, mas tive que tirar alguns cacoetes orais mais repetitivos e corrigir a gramática. Não sendo o francês minha língua materna, meu trabalho pode não estar perfeito, mas espero que possa ter contribuído a quem se interessa pelo assunto:


Olá, Vladimir Kará-Murzá.

Olá e muito obrigado por seu convite.

Nós que agradecemos por estar aqui na RFI. Após mais de quatro anos e meio de guerra na Ucrânia, a Rússia intensifica seus ataques, especialmente contra a capital, Kyiv. Estaria Vladimir Putin, hoje, embarcando numa fuga pra frente?

Vladimir Putin está no poder há quase 27 anos. Durante todo esse tempo, esse homem continuou matando em nosso país, no interior da Rússia, e também fora de nossas fronteiras. O regime de Putin significa guerra. O regime de Putin significa agressão. O regime de Putin significa represálias. Portanto, enquanto esse homem permanecer no poder, essa guerra vai continuar. De fato, esse é o único jeito dele se manter no poder, porque obviamente ele é um usurpador e não possui nenhuma legitimidade democrática, já que não há eleições na Rússia há muitos anos.

Houve eleições recentemente, as eleições legislativas em setembro?

Entre aspas, sim, claro. Eleições entre aspas, isso sem falar do controle total do governo sobre a mídia e o sistema político. Mas mesmo nessas condições, como você sabe muito bem, o único partido contrário à guerra, chamado Iábloko – um partido liberal que se opõe à guerra na Ucrânia e pede um cessar-fogo imediato –, foi excluído do pleito pelo regime de Putin. Eles temiam que, mesmo com todo o controle, toda a censura e todas as manipulações, não conseguissem esconder o fato de que milhões e milhões de pessoas na Rússia se opõem a essa guerra e a essa ditadura. Isso poderia ser uma repetição do que vimos em Belarus há seis anos, em 2020.

Mesmo numa eleição que não passa de uma farsa, que não é uma eleição de verdade, se existe uma alternativa na cédula, milhões de russos votam nela, e por isso o regime de Putin excluiu esse partido da disputa. Mas, ao mesmo tempo, eles deram uma clara e eloquente demonstração de medo, pois admitiram que toda aquela propaganda sobre todos na Rússia estarem aparentemente apoiando essa guerra não passa de uma grande mentira.

Vladimir Kará-Murzá, como você entende a estratégia de Putin? Que ele precisa absolutamente da guerra pra se manter no poder, que essa é a única maneira dele continuar?

Todo ditador precisa de inimigos.

Inimigos internos ou externos?

Ambos. Ao mesmo tempo, é claro. E as coisas estão ligadas. Eu, por exemplo, fui preso porque me opus publicamente à guerra na Ucrânia. São os dois lados da mesma moeda.

Gostaria de relembrar brevemente que você foi condenado a 25 anos de prisão por condenar essa guerra na Ucrânia, a invasão russa da Ucrânia, e que foi condenado por alta traição.

Sim, agora é isso. Na Rússia de hoje em dia, é considerado crime manifestar-se publicamente contra o governo, sobretudo contra a guerra. Temos agora mais de 2 mil presos políticos identificados na Rússia, pelo que se pode sabe até o momento. Em meados da década de 1980, havia cerca de 750 presos políticos identificados nominalmente em toda a URSS, isso englobando o que são hoje 15 países. Só a Rússia, atualmente, tem mais de 2 mil presos políticos. E, claro, a categoria que cresce mais rapidamente é a de pessoas, meus compatriotas russos, que se manifestam publicamente contra essa guerra criminosa e cruenta que o regime de Putin está travando na Ucrânia.

Vladimir Kará-Murzá, você fala em presos políticos. Há alguns dias, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, negou categoricamente a existência de presos políticos na Rússia. O que esse tipo de declaração lhe inspira?

Nada de novo aqui. Na década de 1950, por exemplo, Nikita Khruschov, então líder da URSS, disse exatamente a mesma coisa. De fato, é uma simples repetição direta. Ele dizia que não havia prisioneiros políticos na URSS, mas apenas criminosos ou loucos. Afinal, como você sabe muito bem, os dissidentes eram enviados pelo regime soviético não apenas a prisões, mas também a hospitais psiquiátricos. Isso é uma forma de tortura. Portanto, não surpreende nem um pouco que o porta-voz da propaganda putinista diga isso.

O que me surpreende – e acredito ser importante falar sobre isso aqui em Paris – é que, como você sabe, há duas semanas a França pediu a suspensão das sanções contra dois grandes oligarcas do Kremlin, Alisher Usmanov e Mikhail Fridman. A União Europeia o fez em conjunto, mas por iniciativa da França. E pra mim, antes de tudo, isso é um sinal muito perigoso de que o Ocidente, a UE e, especificamente, a França estão dispostos a retomar o business as usual com o regime de Putin, a normalizar novamente as relações com o Kremlin. Mas o fato da França estar tão determinada, por razões que desconheço, a suspender as sanções contra esses dois oligarcas próximos a Putin é algo absolutamente incompreensível pra mim. Por que o governo francês não pediu, pelo menos, a libertação de alguns prisioneiros políticos russos que estão à beira da morte?

Você gostaria de ter criado uma moeda de troca? Que houvesse uma troca, de certa forma? Teria sido mais aceitável, nesse contexto, suspender as sanções contra oligarcas russos em troca da libertação de prisioneiros políticos?

Primeiramente, como já disse, pra mim é completamente incompreensível por que a França fez isso, em primeiro lugar, porque o que foi que eles fizeram, Fridman ou Usmanov? Eles criticaram o regime de Putin? Não. Eles tomaram distância da guerra na Ucrânia? Não. E não consigo ver absolutamente nenhuma razão pra França estar tão determinada a suspender as sanções. Mas o que digo é: se o governo francês tinha suas razões, as quais desconheço, pra suspender as sanções contra esses dois senhores realmente próximos do Kremlin e da ditadura de Putin, enquanto a guerra na Ucrânia continua e as represálias dentro da Rússia aumentam a cada dia, o mínimo que a França podia fazer era exigir, em troca, a libertação de, sei lá, uma centena de presos políticos russos que podem morrer amanhã ou na semana que vem.

E pra mim, o fato da França não ter feito isso é espantoso, incompreensível. E, se me permite a palavra, em minha opinião, é vergonhoso. Mas também preciso dizer que não quero ficar sentado aqui criticando apenas a França, pois não é só ela. Existe uma tendência perigosa em todo o mundo ocidental. Por exemplo, há um mês, o Canadá suspendeu as sanções contra outro oligarca putinista, Anatoli Chubais, novamente sem qualquer motivo.

Você quer nos dizer que existe uma tendência geral no mundo de pensar: “Ora, pois, no fim das contas vamos poder conversar, vamos ter que conversar com Putin”.

Mas isso é uma loucura total, porque, pra mim, uma das lições mais claras da história do século 20 é que as tentativas de apaziguar um agressor, na verdade, nunca levaram à paz. Sempre levam a mais guerra, mais sangue, mais dor e mais crimes. Porque tentar apaziguar um agressor, um ditador, só serve pra aumentar seu apetite e suas ambições. E já vimos isso acontecer com Vladimir Putin ao longo dos últimos 27 anos.

E pra mim, é absolutamente espantoso que os países ocidentais estejam prestes a fazer isso novamente. Há apenas uma semana, Donald Trump, presidente dos EUA, convidou Putin pra cúpula do G20 em Miami, em dezembro. Lembre-se que Putin tem um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra. E o presidente dos EUA, aparentemente a democracia mais importante do mundo, o convida pra uma cúpula... Não tenho palavras, nem em russo, e não apenas em francês, pra descrever o que penso sobre tudo isso.

A Rússia é acusada com frequência pela Europa de intensificar, em seu território, o que se chama de ataques híbridos, tentativas de sabotagem e violações do espaço aéreo por drones. Você vê nisso uma tentativa de intimidação por parte do presidente russo? E a resposta europeia lhe parece suficientemente firme?

Primeiro, por favor, não chame Putin de presidente. Ele não é presidente, é um ditador sob vários aspectos.

Entendo o que você diz. Vladimir Putin está tentando intimidar os europeus? E os europeus estão dando a resposta adequada?

Quanto à primeira pergunta, sim. Quanto à segunda, não, infelizmente. Porque, mais uma vez, vemos essa tendência muito perigosa...

Estão querendo normalizar as relações, é isso?

Apaziguar, normalizar as relações com alguém que não entende só a linguagem dos princípios, a linguagem de uma posição firme. Mas, infelizmente, não vemos isso. E, sobretudo, com o crescimento do apoio político a forças pró-Putin aqui na França, na Alemanha, em outros países da Europa Ocidental... Normalmente, trata-se da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Eles são... Talvez sejam diferentes em qualquer outro aspecto, mas quanto à atitude perante Putin, são realmente iguais. E isso é muito perigoso, em minha opinião.

Com certeza. Há um descontentamento crescente entre os cidadãos russos, hoje na Rússia, devido aos efeitos da guerra na Ucrânia. Vemos incursões de drones ucranianos quase diariamente, escassez de combustível, cortes de internet... Será que tudo isso pode ter um desdobramento político? Se fôssemos um pouco românticos, seríamos tentados a perguntar: acaso poderia haver uma revolta?

É apenas uma questão de tempo até que ocorram grandes mudanças políticas na Rússia. Vimos uma demonstração muito clara de medo por parte do Kremlin, em agosto de 2026, quando Putin excluiu o Iábloko, único partido contrário à guerra, das eleições legislativas, pois percebeu que, mesmo com todo o controle, toda a censura e tudo a seu dispor, haveria milhões de russos que votariam nesse partido. Mas o problema pro Kremlin é que, tudo bem, eles conseguiram excluir da disputa o partido de oposição, o partido contrário à guerra. Mas isso não muda o fato de haver milhões de pessoas na Rússia hoje que se opõem a essa ditadura e a essa guerra, que querem que a Rússia um dia se torne um país normal, democrático, europeu. E mesmo que Vladimir Putin não o queira realmente, esse dia chegará.

Mas a oposição russa poderia tirar algum proveito político disso? A oposição russa está hoje muito desunida e fragmentada.

Não acredito sequer que se possa usar a palavra “oposição” quando se fala de uma ditadura. “Oposição” é um termo do vocabulário dos países democráticos, como aqui na França. Mas a questão, pra mim, não é a oposição, mas os milhões de russos, incluindo muitos jovens, que têm uma visão muito diferente pro futuro de nosso país. Sabe, no dia em que o Iábloko, o partido contrário à guerra, foi excluído do pleito, a decisão partiu formalmente da Suprema Corte, embora todos saibam que foi Putin quem decidiu. Mas naquele dia havia milhares de pessoas ao redor da Corte, jovens, de fato a geração de meus filhos, com 18, 19, 20 anos, algo assim. E eu via os vídeos e as fotos de Moscou e observava como aqueles jovens gritavam palavras de ordem contra a guerra, cantavam e riam diante dos policiais que estavam ali. E eu pensava: essa juventude é o futuro da Rússia, enquanto o ditador septuagenário no Kremlin não é e nunca vai ser.

O opositor russo exilado Garry Kasparov afirmou que sua vida corria perigo. Na última quinta-feira, ele disse ter sido informado pelos serviços de segurança lituanos e americanos de que devia tomar medidas de precaução. Você também é um opositor exilado: se sente igualmente em perigo?

Não penso nisso. Todos conhecem a realidade do regime de Vladimir Putin.

Você não acha que, como opositor exilado, poderia sofrer ameaças diretas ou correr risco de vida?

Veja, pra mim, permanecer em meu país sempre foi uma questão de princípio. A razão pela qual estou aqui é aquela troca de prisioneiros que você mencionou. Pra mim, sempre foi uma questão de princípio ficar em nossa terra, em minha casa, em meu país. E o FSB, o serviço de segurança de Putin, me envenenou duas vezes, em 2015 e em 2017. Depois, me deram esses 25 anos de prisão: podiam ter me matado lá dentro a qualquer momento. Portanto, não há nada de novo. A única novidade aqui é que, aparentemente, agora coisas assim também podem acontecer nos EUA. Porque antigamente havia aquela teoria de que, na década de 1970, os serviços secretos americano e soviético firmaram um “acordo de cavalheiros” pra não realizar ações desse tipo em território um do outro.

Não se elimina ninguém no país do outro.

Exatamente. Mas, com essa notícia, esse anúncio do Departamento de Justiça americano [que Kará-Murzá chama erroneamente de “ministério”], a questão da repressão transnacional em si não é novidade. Sabemos que o regime de Putin ataca seus opositores políticos não apenas na Rússia, mas também no exterior. Isso ocorreu em Londres, em Berlim, mas nunca, até agora, nos EUA. Então, a verdadeira novidade aqui é que, aparentemente, isso também pode ocorrer em solo americano.

Você não se sente protegido? Não há ameaça, você se sente seguro onde quer que esteja exilado?

Não penso nisso. Tenho trabalho demais pra pensar nessas coisas, porque...

Você toma precauções especiais?

Não, na verdade, não. O que se pode fazer?

Pois é, estamos conversando livremente, você chegou aqui tranquilamente.

O que se pode fazer? Não, se vivermos cada dia pensando nisso, ficamos paranoicos. E tenho trabalho demais pra entrar nessa enrascada.

E já fico claro que isso não vai o intimidar, de qualquer forma, Vladimir Kará-Murzá?

Não, mas acredito no que estou fazendo. Amo meu país e quero que a Rússia tenha um futuro normal, que a Rússia se torne um país civilizado, moderno, europeu, democrático, e vou fazer tudo o que estiver a meu alcance pra que esse dia chegue um pouco mais cedo.

Obrigado, Vladimir Kará-Murzá, por ter vindo à RFI.

Muito obrigado a vocês.



segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Vladimir Kara-Mourza (RFI, 8/10/2026)


    Le matin du 8 octobre 2026, le politicien et historien russe Vladimir Kara-Mourza a concédé une nouvelle interview à la Radio France Internationale (RFI), cette fois-ci en se concentrant sur les mouvements d’opposition en Russie, notamment le parti anti-guerre Yabloko, et l’incapacité des puissances occidentales à freiner l’aggression de Poutine contre l’Ukraine. Ci-dessus on peut regarder l’intégralité de son entretien avec Arnaud Pontus sur la chaine officielle, mais j’ai trouvé son contenu si important que j’ai décidé, même sans autorisation, d’en publier la transcription.

J’ai utilisé le site Turboscribe pour extraire de la vidéo une première version des sous-titres par IA, après j’ai confronté le résultat avec l’audio et enfin j’ai finalisé la rédaction finale du texte. Kara-Mourza parle couramment le français, mais j’ai dû supprimer les traits les plus répétitifs d’oralité et corriger la grammaire. Comme le français n’est pas aussi ma langue maternelle, mon travail peut ne pas être parfait, mais j’espère avoir fait une contribution à ceux qui étudient « la langue de Molière » ou qui, par n’importe quelle raison, préfèrent avoir le texte écrit :


Bonjour, Vladimir Kara-Mourza.

Bonjour et merci beaucoup pour votre invitation.

Merci à vous d’être ici sur RFI. Après plus de quatre ans et demi de guerre en Ukraine, la Russie intensifie ses frappes, notamment sur la capitale Kiev. Est-ce que Vladimir Poutine est aujourd’hui engagé dans une fuite en avant ?

Vladimir Poutine est au pouvoir maintenant depuis presque 27 ans. Pendant tout ce temps-là, cet homme a continué à tuer dans notre pays, dans la Russie à l’intérieur, aussi au-dehors de nos frontières. Le régime de Poutine, ça veut dire la guerre. Le régime de Poutine, ça veut dire l’agression. Le régime de Poutine, ça veut dire les représailles. Et donc, pendant que cet homme reste au pouvoir, cette guerre va continuer. C’est le seul moyen pour lui, en fait, de rester au pouvoir parce que, évidemment, il est un usurpateur, il n’a aucune légitimité démocratique, bien sûr, parce qu’on n’a pas eu d’élections en Russie pendant beaucoup d’années.

Il y a eu des élections récemment, les élections législatives en septembre ?

Entre guillemets, oui, bien sûr. Les élections, entre guillemets, on ne parle même pas du contrôle total du gouvernement sur les médias, sur le système politique. Mais même dans des conditions comme ça, comme vous le savez très bien, le seul parti anti-guerre, qui s’appelle Yabloko – un parti libéral qui s’oppose à la guerre en Ukraine et demande un cessez-le-feu immédiat –, il a été exclu du scrutin par le régime de Poutine. Parce qu’ils avaient peur que, même avec tout le contrôle, même avec toute la censure, même avec toutes les manipulations, ils ne pourraient pas cacher le fait que des millions et des millions de gens en Russie s’opposent à cette guerre, s’opposent à cette dictature. Ça pourrait être une répétition de ce qu’on avait vu en Biélorussie il y a six ans, en 2020.

Même dans une élection qui est une farce d’élection, qui n’est pas une vraie élection, mais s’il y a une alternative sur le scrutin, des millions de Russes ont voté pour cette alternative, et c’est pour ça que le régime de Poutine a exclu ce parti du scrutin. Mais en même temps, ils ont fait une très grande déclaration de peur, et une déclaration très claire de peur, parce qu’ils ont accepté que toute la propagande qu’apparemment tout le monde en Russie soutient cette guerre, c’est un grand mensonge.

Vladimir Kara-Mourza, qu’est-ce que vous comprenez à la stratégie de Poutine ? Qu’il lui faut absolument la guerre pour se maintenir au pouvoir, que c’est la seule façon pour lui de continuer ?

Chaque dictateur a besoin des ennemis.

Ennemis de l’intérieur ou ennemis de l’extérieur ?

Les deux. En même temps, bien sûr. Et c’est lié. Moi, par exemple, j’étais en prison parce que je me suis opposé publiquement à la guerre en Ukraine. Ce sont les deux côtés de la même médaille.

Je vais rappeler au passage que vous avez été condamné à 25 ans de prison pour avoir condamné cette guerre en Ukraine, l’invasion russe en Ukraine, et que vous avez été condamné pour haute trahison.

Oui, c’est ça maintenant. C’est un délit criminel maintenant, dans la Russie d’aujourd’hui, de s’exprimer publiquement contre le gouvernement, surtout contre la guerre. On a maintenant plus de 2 000 prisonniers politiques connus en Russie, jusqu’à ce qu’on puisse savoir à l’instant. Au milieu des années 80, il y avait à peu près 750 prisonniers politiques connus par nom dans l’ensemble de l’Union soviétique. Ça veut dire 15 pays d’aujourd’hui. La Russie seulement aujourd’hui a plus de 2 000 prisonniers politiques. Et bien sûr, la catégorie qui augmente le plus vite, ce sont des gens, ce sont mes concitoyens russes, qui s’expriment publiquement contre cette guerre criminelle et sanglante que le régime de Poutine mène en Ukraine.

Vladimir Kara-Mourza, vous parlez des prisonniers politiques. Il y a quelques jours, Dmitri Peskov, qui est le porte-parole du Kremlin, a nié catégoriquement l’existence de prisonniers politiques en Russie. Qu’est-ce que ça vous inspire, ce genre de déclaration ?

Rien de nouveau ici. Dans les années 1950, par exemple, Nikita Khrushchov, alors le dirigeant de l’URSS, a dit exactement la même chose. En fait, c’est juste directement la répétition. Il a dit qu’on n’a pas de prisonniers politiques en Union soviétique. On a seulement soit des criminels, soit des fous. Parce que, comme vous savez très bien, des dissidents de l’Union soviétique étaient envoyés pas seulement dans les prisons, mais aussi dans les hôpitaux psychiatriques par le régime soviétique. C’est une forme de torture. Et donc, ce n’est pas étonnant du tout que le porte-parole de la propagande poutinienne le dise.

Ce qui est étonnant pour moi – et je crois que c’est important d’en parler ici à Paris –, c’est que, comme vous savez, il y a deux semaines, la France a demandé de lever des sanctions contre deux grands oligarques du Kremlin, Alicher Ousmanov et Mikhaïl Fridman. L’Union européenne l’a fait en ensemble, mais à cause de l’initiative française. Et d’abord, pour moi, c’est un signal très dangereux que l’Occident, l’Union européenne et la France spécifiquement soient prêtes à retourner à business as usual avec le régime de Poutine, à normaliser à nouveau les relations avec le Kremlin. Mais, si la France était aussi déterminée pour des raisons dont je ne sais pas, de lever des sanctions contre ces deux oligarques proches à Poutine, c’est absolument incompréhensible pour moi. Pourquoi le gouvernement français n’a pas demandé au moins de libérer quelques prisonniers politiques russes qui sont en train de mourir ?

Vous auriez voulu créer une monnaie d’échange ? Que ce soit un échange, en quelque sorte ? Ça aurait été plus acceptable, dans ce cadre-là, lever des sanctions contre des oligarques russes en échange de libération de prisonniers politiques ?

Premièrement, comme j’ai déjà dit, pour moi, c’est complètement incompréhensible pourquoi la France a fait ça, dans le premier cas, parce que, qu’est-ce qu’ils ont fait, Friedman ou Ousmanov ? Est-ce qu’ils ont critiqué le régime de Poutine ? Non. Est-ce qu’ils ont fait leur distance avec la guerre en Ukraine ? Non. Et il n’y a pas de raison du tout que je peux voir pourquoi la France était aussi déterminée de lever des sanctions. Mais, ce que je dis, si le gouvernement français avait ses raisons, dont je ne sais pas, de lever des sanctions contre ces deux messieurs qui sont vraiment proches du Kremlin et de la dictature de Poutine, pendant que la guerre en Ukraine continue, pendant que les représailles à l’intérieur de la Russie augmentent chaque jour, au moins, le minimum que la France pouvait faire est de demander en échange de la libération, je ne sais pas, d’une centaine de prisonniers politiques russes qui peuvent mourir demain, la semaine prochaine.

Et le fait que la France ne l’a pas fait, pour moi, c’est stupéfiant, c’est incompréhensible. Et si vous me permettez ce mot, à mon avis, c’est honteux. Mais aussi, il faut dire, je ne veux pas m’asseoir ici et critiquer juste la France, ce n’est pas juste la France. Il y a une tendance dangereuse dans l’ensemble du monde occidental. Par exemple, il y a un mois, le Canada a enlevé des sanctions d’un autre oligarque poutinien, Anatoly Tchoubaïs, encore sans aucune raison.

Vous voulez nous dire qu’il y a une tendance générale dans le monde à se dire : « Bon, bah, finalement on va pouvoir parler, il va falloir parler avec Poutine ».

Mais c’est complètement fou, parce que pour moi, l’une des leçons les plus claires de l’histoire du XXème siècle, c’est que l’apaisement d’un agresseur ne mène jamais à la paix, en fait. Ça mène toujours à plus de guerre, plus de sang, plus de douleur, plus de crime. Parce que l’apaisement d’un agresseur, l’apaisement d’un dictateur, ne sert qu’à accroitre son appétit, ses ambitions. Et on a déjà vu ça avec Vladimir Poutine pendant ces dernières 27 années.

Et pour moi, c’est absolument stupéfiant que les pays occidentaux aillent le faire encore. Il y a juste une semaine, Donald Trump, le président des États-Unis, a invité Poutine pour le sommet du G20 à Miami en décembre. Je vous rappelle que M. Poutine a un mandat d’arrêt de la Cour pénale internationale comme criminel de guerre. Et le président des États-Unis, la plus importante démocratie du monde, apparemment, l’invite pour un sommet... Je n’ai pas de mots, même dans le russe, pas seulement en français, pour décrire ce que je pense de tout ça.

La Russie, elle est accusée très régulièrement par l’Europe de multiplier sur son sol ce qu’on appelle des attaques hybrides, des tentatives de sabotage, des violations de l’espace aérien par des drones. Est-ce que vous y voyez une tentative d’intimidation du président russe ? Et est-ce que la réponse européenne vous semble suffisamment ferme ?

D’abord, n’appelez pas, s’il vous plaît, M. Poutine président. Il n’est pas un président. Il est un dictateur à plusieurs facteurs.

J’entends ce que vous dites. Est-ce que Vladimir Poutine tente d’intimider les Européens ? Et est-ce que les Européens ont la bonne réponse ?

La première question, oui. La deuxième, non, malheureusement. Parce qu’encore une fois, on voit cette tendance très dangereuse...

On est en train de vouloir normaliser les relations, c’est ça ?

D’apaiser, de normaliser les relations avec quelqu’un qui ne comprend pas que la langue des principes, la langue d’une position forte. Mais malheureusement, on ne le voit pas. Et surtout, avec la croissance du soutien politique pour des forces pro-Poutine ici en France, en Allemagne, dans d’autres pays de l’Europe occidentale... Normalement, c’est soit l’extrême gauche, soit l’extrême droite. Ils sont... Peut-être qu’ils sont différents dans tout autre sens, mais en ce qui concerne leur attitude à M. Poutine, ils sont vraiment les mêmes. Et ça, c’est vraiment dangereux, à mon avis.

Absolument. Il y a un mécontentement croissant des citoyens russes, aujourd’hui, en Russie, du fait des effets de la guerre en Ukraine, on voit la percée des drones ukrainiens quasi quotidiennement, les pénuries d’essence, les coupures d’internet... Est-ce que tout ça peut avoir une traduction politique ? On serait tenté de dire, si on était un peu romantique, est-ce qu’il pourrait y avoir une révolte ?

C’est seulement une question de temps, quand il y aura des grands changements politiques en Russie. On a vu une déclaration très claire de peur de la part du Kremlin, en août cette année, en août 2026, quand Poutine a exclu Yabloko, le seul parti anti-guerre, du scrutin législatif, parce qu’il a réalisé que même avec tout le contrôle, toute la censure, tout ce qu’il a, il y aurait des millions de Russes qui auraient voté pour ce parti. Mais le problème pour le Kremlin est le fait que, ok, ils ont pu écarter le parti d’opposition, le parti anti-guerre du scrutin. Mais ça ne change pas le fait qu’il y a des millions de gens en Russie aujourd’hui qui s’opposent à cette dictature, qui s’opposent à cette guerre, qui veulent que la Russie un jour devienne un pays normal, démocratique, européen. Et même si Vladimir Poutine ne le veut pas vraiment, ce jour viendra.

Mais est-ce que l’opposition russe peut en tirer un bénéfice politique ? L’opposition russe, très désunie, très disparate aujourd’hui.

Je ne crois même pas qu’on puisse utiliser le mot « opposition » quand on parle d’une dictature. L’opposition, c’est quelque chose du vocabulaire des pays démocratiques, comme ici en France. Mais pour moi, ce n’est pas à propos de l’opposition. Pour moi, c’est à propos des millions de Russes, y inclus beaucoup de jeunes, qui ont une vision très différente pour l’avenir de notre pays. Vous savez, le jour où Yabloko, le parti anti-guerre, a été exclu du scrutin, formellement c’était la Cour suprême qui a fait la décision – bien sûr, tout le monde sait que c’était M. Poutine. Mais autour de la Cour suprême, pendant ce jour-là, il y avait des milliers de gens, des jeunes, en fait c’est la génération de mes enfants, 18, 19, 20 ans, quelque chose comme ça. Et je regardais les vidéos, les photos, de Moscou, et je regardais comme ces jeunes, comme ils scandaient des slogans anti-guerre, comme ils chantaient, comme ils riaient en face de ces policiers qui étaient là-bas. Et je pensais que cette jeunesse-là, c’est l’avenir de la Russie, et le dictateur septuagénaire au Kremlin ne l’est pas, et ne le sera jamais.

L’opposant russe en exil Garry Kasparov a affirmé que sa vie était en danger. Il a dit jeudi dernier avoir été informé par les services de sécurité lituaniens et américains qu’il devait prendre des mesures de précaution. Vous êtes vous-même opposant, en exil, est-ce que vous vous sentez également en danger ?

Je n’y pense pas. Tout le monde connait la réalité du régime de Vladimir Poutine.

Vous ne pensez pas qu’en tant qu’opposant en exil, vous pourriez être menacé directement ou en danger sur votre vie ?

Regardez, pour moi, c’était toujours une question de principe de rester dans mon pays. La raison pour laquelle je suis ici, c’est à cause de cet échange de prisonniers que vous avez mentionné. Pour moi, c’était toujours une question de principe de rester chez nous, chez moi, dans mon pays. Et le FSB, le service de sécurité de Poutine, m’a empoisonné deux fois, en 2015 et en 2017. Puis ils m’ont donné ces 25 ans de prison, ils pouvaient me tuer en prison chaque jour où j’étais là-bas. Donc ce n’est rien de nouveau. La seule chose qui est nouvelle ici, c’est qu’apparemment, maintenant, des choses comme ça peuvent se passer aussi aux Etats-Unis. Parce qu’avant, il y avait cette théorie que dans les années 1970, les services secrets américains et soviétiques ont fait ce « gentlemen’s agreement », qu’ils ne font pas des choses comme ça sur les territoires de l’un et de l’autre.

On n’élimine pas dans le pays de l’autre.

Exactement. Mais avec cette nouvelle, cette annonce du Ministère [sic pour « Département »] de la Justice américain, la nouvelle ici, la répression transnationale, ce n’est pas une nouvelle. On sait que le régime de Poutine attaque ses opposants politiques pas seulement en Russie, mais aussi en dehors. On a eu ça à Londres, à Berlin, mais jamais, jusqu’à maintenant, aux Etats-Unis. Donc ça, c’est vraiment la nouvelle ici, qu’apparemment ça peut se passer aussi sur le territoire américain.

Vous ne vous sentez pas à l’abri ? C’est une menace, vous vous sentez en sécurité, là où vous êtes en exil ?

Je n’y pense pas. J’ai trop de travail pour penser à ces choses comme ça, parce que...

Vous prenez des précautions particulières ?

Non, pas vraiment. Qu’est-ce qu’on peut faire ?

Oui, on parle librement ensemble, vous êtes arrivé comme ça.

Qu’est-ce qu’on peut faire ? Non, si on passe chaque jour en y pensant, on devient paranoïaque. Et j’ai trop de travail pour aller dans cette route.

Et ça ne vous intimidera pas de toute façon, on l’a compris ça, Vladimir Kara-Mourza ?

Non, mais je crois en ce que je fais. J’aime mon pays et je veux que la Russie ait un futur normal, que la Russie devienne un pays civilisé, moderne, européen, démocratique, et je vais faire tout ce que je peux pour que ce jour arrive un peu plus tôt.

Merci, Vladimir Kara-Mourza, d’être venu sur RFI.

Merci beaucoup à vous.



domingo, 4 de outubro de 2026

Atritos entre Macron e Bolsonaro (2019)


    Esta é a republicação de parte de um conteúdo que tinha aparecido em 2019 sob o título geral de “Memes sobre Bolsonaro”, e sua aparição não tem nada a ver com a jornada eleitoral hodierna. Como tô expurgando parte de minha página de conteúdo que hoje acho muito sem graça ou de mero valor humorístico, sem acrescentar muito pra cultura, decidi pelo menos guardar dois vídeos, um com tradução, da época em que Emmanuel Macron começou a se indispor com Jair Messias por causa daquela infame reação a um moleque que comparou Michelle (“bonita”) com Brigitte (“feia”). Os textos abaixo seguem praticamente os mesmos, portanto, devem ser lidos dentro da conjuntura da época, levando-se em conta possíveis evoluções posteriores.

No ápice das turbulências internacionais em que Bolsonaro se meteu, sou a última pessoa a passar o pano pro Macron, que de fato foi oportunista ao se tornar presidente “alternativo”, fundando um partido com as iniciais do próprio nome, após ter servido como ministro das Finanças do socialista François Hollande. Mas também é difícil defender certas molecagens vindas de Abraham Weintraub, um ministro da Educação que pouco entende de sua própria área.

Pior foi o Bolsonaro cair na pegadinha de um Zé Mané no Facebook qualquer fazendo comparação besta entre esposas, algo além de tudo extremamente machista. Não vou repetir a história já muito difundida nas mídias. Já falei várias vezes que nunca quis apoiar nem atacar o presidente de forma ativa, mas como cidadão e pagador de impostos (como adoram falar os que não gostam de filme pornô ou gay se beijando na rua) tenho o direito de criticar essas atitudes, mesmo que o ofendido não seja digno dos melhores juízos.

Pra piorar o mico, junto a Macron nesta coletiva de imprensa estava Sebastián Piñera, presidente de nosso vizinho Chile que ainda por cima já teve de ouvir Bolsonaro falar bem do assassino Pinochet. Leiam a transcrição da fala, já traduzida em português no vídeo:


“Il se trouve qu’hier il [Bolsonaro] a considéré que c’était une bonne idée que son ministre [Weintraub] ‒ ça n’arrive jamais en France qu’un ministre de la République insulte quelque dirigeant que ce soit ‒ profère des insultes à mon endroit et lui, qu’il tienne des propos extraordinairement irrespectueux à l’égard de mon épouse. Qu’est-ce que je peux vous dire ? C’est triste. C’est triste, mais c’est triste d’abord pour lui et pour les Brésiliens. Et donc... moi, je pense que les femmes brésiliennes ont sans doute honte de lire ça de leur président. Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements, ils attendent quand on est président qu’on se comporte bien à l’égard des autres. Et comme j’ai beaucoup d’amitié et de respect pour le peuple brésilien, j’espère très rapidement qu’ils auront un président qui se comporte à la hauteur.”


Os “conservadores” brasileiros, vendo no mundo anglo-saxão seu modelo ideal, sempre criticaram a França e os intelectuais franceses ou radicados no país como mentores de nossa esquerda “utópica, radical e irrealista”, tendo Rousseau como mestre fundador. E parece que infelizmente, essa rusga chegou ao nível do Estado, com Bolsonaro se friccionando com Macron e a imprensa francesa ressaltando os traços mais autoritários do governo em Brasília. Dada a qualidade e interesse do conteúdo, mesmo que eu não detenha os direitos autorais da matéria, fiz um vídeo com o áudio do repórter Elcio Ramalho, do serviço em português brasileiro da Rádio França Internacional (RFI). Ele trouxe em seu programa “RFI Convida” de 6 de agosto de 2019 o jurista brasileiro Rubens Casara, que está fazendo seu pós-doutorado em Nanterre, na França.

Os temas principais da conversa foram a partidarização política do Poder Judiciário no Brasil, sua submissão aos interesses econômicos e o conceito de “pós-democracia”, segundo o qual o Estado de direito consolidado nas últimas décadas, que impunha limites ao arbítrio de certos agentes, está perdendo sua força. Ao contrário do que defendem os partidários da Lava-Jato, Casara pensa que a justiça brasileira tem partido político, sim, e tem desvelado cada vez mais sua defesa do status quo econômico em detrimento dos pobres e necessitados. A “pós-democracia”, pra ele, significa que Estados autoritários são aceitos pelo consenso geral pra que esse poder continue firme e forte: o modelo neoliberal de economia perderia seu caráter clássico pra assumir uma feição mais restritiva e predatória.

Cabe lembrar que a RFI tem uma orientação progressista levemente de esquerda e que ela tem dado ampla voz aos críticos e opositores de Bolsonaro, sobretudo brasileiros que residem em Paris ou em outras partes da França. Além disso, devido a divergências culturais, valorativas e diplomáticas, o governo do PSL [do qual Bolsonaro sairia em novembro de 2019 e que se fundiria com o Democratas em 2021-22 pra formar o atual partido União Brasil] tem entrado em constante conflito com o presidente Emmanuel Macron, que pretende ser uma espécie de “meio-termo” entre as direitas nacionalistas e as esquerdas combativas. Ouça também a transmissão completa da RFI, com outros quadros informativos.


sábado, 22 de agosto de 2026

15 anos sem Gaddafi: a Líbia destruída


    Hoje vamos de algo mais “leve”, se é que de leve a reportagem tem só o tamanho mesmo. Há 15 anos assistíamos aos bombardeios de países da OTAN contra a infraestrutura da Líbia e as tropas do ditador Moammar Gaddafi, mais conhecido como “o rei africano dos looks”. Seu legado ainda é contraditório: se opôs à ingerência ocidental no país riquíssimo em petróleo e redistribuiu essa riqueza pra alcançar o maior IDH do continente; porém, foi extremamente brutal contra os críticos, financiou o terrorismo ao redor do mundo e surrupiou a maior parte dos royalties do ouro negro, enquanto a população ficava só com o mínimo necessário.

Minha geração (nasci em 1988) se acostumou, ou se resignou, a ver os EUA e seus aliados europeus intervirem militarmente em países africanos e asiáticos sob pretextos humanitários, pra fazer gato e sapato dos governos e instituições locais. Claro que a grande maioria era tiranias sanguinárias, mas a derrubada delas devia ser obra do próprio povo. O levante armado contra Gaddafi eclodiu na esteira das “revoltas árabes” de 2011, quando ele acabou massacrando a oposição – como Bashar al-Asad, que só cairia após 13 anos de guerra civil –, mas foi enfraquecido pela intervenção da OTAN, que o acusou de promover um “banho de sangue”, embora os próprios ocidentais tivessem feito a mesma coisa.

Gaddafi terminou assassinado em circunstâncias misteriosas em 20 de outubro de 2011, em Sirte – cidade natal aonde tinha fugido –, mas seu regime já tinha praticamente terminado em 23 de agosto, quando os rebeldes tomaram o controle das instalações do governo na capital Trípoli. A guerra civil em si terminou antes do fim do ano, mas pelo menos dois governos paralelos, apoiados por grupos diferentes de países, até hoje disputam o monopólio do reconhecimento internacional. Nesta edição de 21 de agosto de 2026 do Jornal da África (Rádio França Internacional), da qual separei o trecho, os âncoras introduzem o relato da jornalista Houda Ibrahim, feito nos dois últimos parágrafos.

Após usar esta ferramenta online pra transcrever o áudio por IA e corrigir os poucos erros ainda cometidos, traduzi sem usar o Google e adaptei a transliteração do árabe dos nomes líbios a minha própria prática, mais baseada na fonologia. Deixei a transcrição pra ajudar quem esteja aprendendo francês.



15 anos após a queda de Moammar Gaddafi, a Líbia continua dividida. Fraturado entre dois governos rivais que buscam se eternizar, o país mergulha numa profunda crise institucional e securitária. Porém, em 20 de agosto de 2011, enquanto caía o regime de Gaddafi, esperava-se um vento de liberdade e prosperidade. Mas hoje os líbios estão presos num verdadeiro inferno econômico, reféns de um impasse político cujo fim eles não conseguem enxergar. Reportagem de Houda Ibrahim.

Curiosamente, os 15 anos da queda de Gaddafi foram acompanhados por uma onda de violência que castigou o leste e o oeste do país, começando pelo assassinato em Benghazi do General [Fawzi] Al-Mansori, chefe do serviço de inteligência do Marechal Khalifa Haftar, passando pelo lançamento de drones contra instalações energéticas essenciais em Zawiya, no oeste. Os dois poderes são responsáveis em medida igual pela crise que se transforma numa realidade à qual as partes envolvidas, dentro e fora da Líbia, se adaptam e pra qual deixam de buscar uma verdadeira solução.

No final, as eleições gerais aguardadas pro fim de 2023 não ocorreram. O Estado desmoronou, assim como a transição política. As forças que emergiram de suas ruínas conseguiram construir interesses que tornam vantajoso pra eles manter o status quo. Ano após ano, as administrações, as redes econômicas, os aparelhos de segurança e as elites locais vão se enraizando nessa realidade, tornando cada vez mais difícil a unificação do Estado. A unidade implica necessariamente uma redistribuição do poder, das riquezas e da influência.



15 ans après la chute de Muammar Kadhafi, la Libye reste toujours divisée. Fracturée par deux gouvernements rivaux qui cherchent à se pérenniser, le pays, s’enfonce lui dans une crise institutionnelle et sécuritaire profonde. Pourtant, le 20 août 2011, le régime de Muammar Kadhafi tombait, à l’espoir d’un vent de liberté et de prospérité. Mais les Libyens sont pris aujourd’hui dans un véritable enfer économique, otages d’une impasse politique dont ils ne voient pas la fin. [Reportage de] Houda Ibrahim.

Curieusement, le 15e anniversaire de la chute de Kadhafi s’est accompagné d’une série de violences qui ont touché l’Est et l’Ouest du pays, à commencer par l’assassinat à Benghazi du général al-Mansouri, chef du service de renseignement du maréchal Khalifa Haftar, en passant par les frappes de drones ayant visé des installations énergétiques vitales à Zawiya à l’Ouest, renvoyant dos à dos les deux pouvoirs responsables de la crise qui se transforme en une réalité à laquelle les parties prenantes, internes et externes, s’adaptent, en cessant de chercher une vraie solution.

Les élections générales espérées pour fin 2023 n’ont finalement pas eu lieu. L’État a échoué, tout comme la transition politique. Les forces qui ont émergé de cet échec ont réussi à construire des intérêts qui rendent le statu quo avantageux pour elles. Année après année, les administrations, les réseaux économiques, les appareils sécuritaires et les élites locales sont racinées dans cette réalité, rendant l’unification de l’État de plus en plus difficile. L’unité implique nécessairement une redistribution du pouvoir, des richesses et de l’influence.


sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Conheça os diversos tipos de guerra


Endereço curto: fishuk.cc/guerras

Achei interessante este artigo escrito por Anoushka Notaras e publicado em 9 de maio de 2025 na seção “Connaissances” do portal da Rádio França Internacional (RFI). Em português, o título ficaria “Guerra convencional, total, assimétrica, híbrida ou informacional: do que estamos falando?”, e traduzi usando o Google e depois cotejei com o original francês, fazendo leves adaptações. Dedico a meus leitores nerds em geopolítica e àqueles que agora precisam achar um uso prático pra bomba atômica feita em casa, rs:



A guerra é um fenômeno tão antigo quanto a humanidade. Desde os primeiros confrontos tribais até os conflitos contemporâneos, os homens desenvolveram estratégias de guerra e as foram adaptando de acordo com as transformações geopolíticas e sociais, aproveitando os avanços técnicos. Da Antiguidade e das conquistas de Alexandre, o Grande, às campanhas napoleônicas, das guerras mundiais do século 20 aos conflitos atuais, todas as formas de guerra foram exploradas. Aqui está uma visão geral, em treze palavras-chave.

Guerra convencional e não convencional – A guerra convencional, ou guerra regular, é um conflito armado entre forças regulares (infantaria, blindados, força aérea, marinha) de dois ou mais Estados que se opõem de acordo com regras estabelecidas (direito da guerra) usando armas convencionais (não nucleares, cibernéticas, de destruição em massa, biológicas ou químicas). Seus objetivos são enfraquecer, neutralizar ou derrotar o inimigo para obter um ganho territorial, político ou estratégico.

A guerra não convencional, ou guerra irregular, se refere a uma ampla gama de operações conduzidas usando métodos de enfrentamento diferentes dos da guerra convencional: guerrilhas, guerras cibernéticas, terrorismo, ações clandestinas ou apoio a grupos armados. Seus objetivos são desestabilizar ou controlar o inimigo sem necessariamente recorrer ao conflito direto.

Guerra total/guerra de alta intensidade – A guerra total é um conflito armado no qual todos os recursos militares, econômicos e humanos de uma nação são mobilizados. Não há mais distinção entre combatentes e civis, transformando toda a população num alvo. A propaganda pode ser usada pra obter apoio.

Seu objetivo é derrotar o inimigo e obter sua rendição destruindo todas as suas alavancas de resistência: seus recursos militares, mas também sua economia e sua infraestrutura. A Primeira e a Segunda Guerra Mundiais são exemplos disso.

No contexto atual de tensões geopolíticas e ameaças armadas, fala-se cada vez mais em guerra de alta intensidade. Ela consiste no emprego massivo de armas convencionais de alta intensidade, contando com a sofisticação tecnológica dos equipamentos com o objetivo de atingir a máxima letalidade num espaço e duração limitados. A França, por exemplo, integrou essa tipologia de guerra na nova lei de programação militar pra 2024-2030.

Guerra preventiva/guerra preemptiva – A guerra preventiva refere-se à ação militar tomada por um Estado para neutralizar uma ameaça de médio ou longo prazo antes que ela se materialize. Ela se distingue da guerra preemptiva, que responde a uma ameaça iminente e certa.

Seu objetivo [guerra preventiva] é manter uma posição de superioridade e impedir que o adversário adquira poder de ação ou capacidades militares suscetíveis de alterar o equilíbrio de poder. Ao contrário da legítima defesa, essa forma de antecipação estratégica é juridicamente controversa porque é considerada especulativa.

A invasão do Iraque em 2003, ordenada pelo governo Bush para “livrar o Iraque das armas de destruição em massa” sob a cobertura das resoluções 678 e 687 da ONU, é um exemplo de guerra preventiva.

Guerra assimétrica – Refere-se a um conflito entre beligerantes de força desigual: de um lado, o exército regular de um Estado, e do outro, um adversário geralmente mais fraco que usa táticas não convencionais, como guerrilha ou terrorismo. O objetivo do mais fraco é vencer por meio do desgaste e da desestabilização política e psicológica do adversário. Exemplos incluem as táticas do Viet Cong contra o exército americano durante a Guerra do Vietnã (1955-1975), a insurreição dos Talibã no Afeganistão (2001-2021) ou ainda o combate ao Daesh [vulgo Estado Islâmico].

Guerra híbrida – Refere-se a uma estratégia militar e política que combina meios militares convencionais (exércitos regulares) com meios não convencionais (ciberataques, espionagem, uso de mercenários, desinformação, pressões econômicas ou diplomáticas).

Sua natureza multifacetada, flexível e sofisticada permite ao agressor dar uma resposta adaptada aos objetivos do momento mantendo a ambiguidade quanto à sua responsabilidade direta e, assim, escapar de represálias internacionais.

Ao semear confusão no processo de tomada de decisão do adversário, a guerra híbrida possibilita adquirir vantagens geopolíticas significativas a um custo limitado. A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e suas intervenções no Donbás são exemplos disso.

Ciberguerra (guerra cibernética) – Refere-se a ações defensivas e ofensivas realizadas por um ator estatal ou não estatal no espaço digital (internet, sistemas informáticos e dispositivos eletrônicos). Seu objetivo é espionar, manipular, roubar ou hackear dados confidenciais de um adversário para enfraquecer ou paralisar sua infraestrutura crítica (energia, transporte, finanças, saúde, comunicação).

Exemplos incluem o Stuxnet , vírus de computador que desativou as centrífugas nucleares do Irã em 2010, e os ataques russos à rede americana Starlink, que possibilita aos ucranianos acessarem a internet. A ciberguerra também pode matar, como aconteceu com uma paciente após o ciberataque a um hospital na Alemanha em 2020.

Guerra por procuração (proxy war) – Refere-se a um conflito no qual pelo menos dois Estados ou potências externas se opõem indiretamente, sem comprometer suas próprias forças militares, fornecendo apoio aos beligerantes envolvidos no terreno (financiamento, armas, inteligência, assistência, treinamento).

Ao fazer isso, essas potências buscam preservar seus interesses estratégicos, expandir sua influência geopolítica, enfraquecer o adversário e evitar o risco de conflito direto.

É o caso da guerra civil na Síria (desde 2011) na qual Rússia, EUA, Irã e outros países estão envolvidos, e da guerra no Iêmen (desde 2014), que opõe o governo no poder, apoiado pela Arábia Saudita e seus aliados, e os rebeldes hutis, apoiados pelo Irã.

Guerrilha e guerra contrainsurrecional – A guerrilha, também conhecida como “pequena guerra”, remete à revolta popular espanhola contra as forças de ocupação napoleônicas de 1808 a 1812. É uma forma de guerra assimétrica, essencialmente política, travada por grupos armados irregulares e móveis – rebeldes, guerrilheiros [partisans] ou civis armados – contra um exército regular mais poderoso. Para compensar sua inferioridade material, seus combatentes usam táticas de desestabilização, ataques surpresa, emboscadas, sabotagem e desgaste, contando com um profundo conhecimento do terreno e com o apoio de uma parte da população.

Embora as guerrilhas tenham assumido várias formas ao longo da história (revolucionárias com Mao na China ou Castro em Cuba, independentistas com o Viet Cong vietnamita ou a FLN argelina, étnicas com os curdos no Oriente Médio ou os tâmeis no Sri Lanka), elas evoluíram hoje consideravelmente ao se adaptar à globalização e às novas tecnologias.

A guerra contrainsurrecional se refere às ações militares, políticas, econômicas e psicológicas realizadas por um Estado contra movimentos insurrecionais armados pra defender ou preservar sua autoridade.

Guerra tecnológica – A guerra tecnológica é travada tanto no domínio militar quanto no civil. Refere-se à competição entre Estados ou atores não estatais pra adquirir ou manter sua superioridade e autonomia no campo das tecnologias com forte impacto estratégico nos setores econômico e geopolítico: IA, cibersegurança, semicondutores, telecomunicações, infraestruturas digitais, gestão de dados etc. Ela exige investimentos massivos em pesquisa e desenvolvimento, políticas econômicas protecionistas ou mesmo espionagem industrial.

Os rápidos desenvolvimentos nessas tecnologias de ponta têm consequências diretas nos métodos e meios de guerra, como o uso de sistemas automatizados (drones autônomos, ciberataques, robôs) pra reduzir a exposição dos combatentes, lançar ataques cirúrgicos ou mesmo controlar o espaço eletrônico e as infraestruturas digitais.

Embora as guerras tecnológicas estejam redefinindo as relações globais de poder, elas também apresentam, sobretudo, novos desafios éticos, humanitários e legais.

“Zona cinzenta” (gray zone) – Em geopolítica, a “zona cinzenta” se refere a uma área na qual o controle do Estado soberano é enfraquecido ou ausente, deixando espaço pra micropoderes alternativos, desregulação social e ambiguidade legal. As ações hostis aí realizadas se enquadram no conceito de guerra híbrida (ciberataques, desinformação, pressões econômicas, presença militar disfarçada) e visam enfraquecer o adversário, mas evitando conflitos abertos.

A região do Kivu, no leste da República Democrática do Congo, onde grupos armados lutam pelo controle dos recursos minerais, é um exemplo. Ou o norte do Kosovo, onde a autoridade kosovar é contestada pela minoria sérvia, gerando uma situação de autoridades concorrentes e desregulação social.

Guerra informacional – Refere-se ao uso estratégico da informação e de tecnologias de comunicação pra infligir danos ou obter vantagem sobre um adversário. No contexto geopolítico, ela é utilizada principalmente na internet e nas redes sociais e visa influenciar ou manipular a opinião pública semeando dúvida e discórdia (desinformação, propaganda), desestabilizar as instituições ou destruir sistemas de informação (hackeamento informático).

Podemos citar o exemplo dos americanos que espalharam informações falsas sobre a presença de armas químicas no Iraque pra convencer a opinião mundial da legitimidade da segunda Guerra do Golfo, em 2003. Ou o caso da Rússia, acusada de interferir na eleição presidencial americana em 2016, por meio de campanhas no Facebook e no Twitter.

Guerra comercial – Refere-se ao confronto econômico entre países que impõem mutuamente medidas restritivas a suas trocas comerciais visando proteger seus respectivos interesses e dominar o mercado global. Essas medidas, que fazem parte de uma política protecionista, concernem principalmente a tarifas alfandegárias e cotas de exportação.

A guerra comercial entre os EUA e a China entre 2018 e 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump, atingiu uma escalada total em abril de 2025, quando o republicano, de volta à Casa Branca, impôs uma tarifa de 145% sobre produtos chineses importados pros EUA, à qual Pequim respondeu com uma tarifa de 125% sobre produtos americanos importados pra China. Diante das múltiplas consequências desse conflito (interrupção do comércio global, penalização de empresas, aumento de preços pros consumidores), foi anunciada uma trégua de 90 dias pelas duas maiores potências econômicas globais em 12 de maio de 2025, acompanhada de uma redução em suas respectivas tarifas. Mas o braço-de-ferro não acabou, e se essas batalhas visam manter ou adquirir predominância econômica, elas atendem plenamente aos desígnios geopolíticos das partes envolvidas.



domingo, 11 de maio de 2025

V. Kará-Murzá em francês (14/4/2025)

Na manhã de 14 de abril de 2025, o político e historiador russo Vladímir Kará-Murzá concedeu uma entrevista em francês à Rádio França Internacional (RFI) pra falar de sua oposição à ditadura de Vladimir Putin, sua prisão na Rússia e sua vida no exílio. Abaixo você pode assistir à íntegra de sua conversa com o jornalista Arnaud Pontus no canal oficial, e achei o conteúdo tão importante que decidi, mesmo sem autorização, traduzir pro português e colocar aqui. No portal da RFI em português também há uma versão reduzida do programa, mas não a usei pra fins de comparação.

Usei o programa Microsoft Clipchamp do Windows 11 pra tirar do vídeo uma primeira versão da transcrição usando a tecnologia IA, depois comparei o resultado com o áudio e finalmente traduzi com o Google a versão corrigida, tendo revisado manualmente o resultado. Sendo um grande intelectual, Kará-Murzá é fluente em francês, mas tive que tirar alguns cacoetes orais mais repetitivos e corrigir a gramática. Não sendo o francês minha língua materna, meu trabalho pode não estar perfeito, mas espero que possa ter contribuído a quem se interessa pelo assunto:


Olá, Vladimir Kará-Murzá!

Olá, muito obrigado pelo convite.

Obrigado por estar na RFI hoje. Três anos atrás, em abril de 2022, você foi preso e condenado a 25 anos de prisão por alta traição. A Justiça russa o acusava de criticar a invasão da Ucrânia. Você foi libertado em agosto passado na maior troca de prisioneiros com o Ocidente desde o fim da guerra fria. Como você está hoje, oito meses após sua libertação?

Às vezes ainda parece que estou assistindo a um filme, porque, para dizer a verdade, eu tinha certeza absoluta de que morreria naquela prisão na Sibéria. Essa troca em agosto passado foi um milagre e, de fato, foi a primeira troca desde 1986, que libertou não apenas os reféns, os cidadãos ocidentais que estavam nas prisões russas, mas também os prisioneiros políticos russos. E isso, para mim, foi uma mensagem muito importante, muito clara e muito forte dos países ocidentais, especialmente dos EUA e da Alemanha. E o sinal foi que eles entendem muito bem que os verdadeiros criminosos estão no Kremlin. São as pessoas que começaram a guerra na Ucrânia. Não éramos nós, que estávamos presos porque nos manifestamos contra essa guerra. E também foi uma mensagem muito forte de solidariedade dos países ocidentais com todas essas pessoas na Rússia. Há milhões de pessoas na Rússia hoje que são contra esta guerra, que são contra o regime autoritário de Vladimir Putin, e é muito importante que o mundo livre tenha se expressado assim.

Hoje, Vladimir Kará-Murzá, a guerra continua na Ucrânia. As negociações de cessar-fogo ainda não foram bem-sucedidas. Você deseja esse cessar-fogo?

Quero que essa guerra termine o mais rápido possível, porque centenas de milhares de vidas humanas já foram perdidas por causa dessa agressão, por causa dessa guerra criminosa travada pelo regime autoritário de Vladimir Putin.

Mas para que a guerra termine, Putin deve querer que ela termine. Vladimir Putin quer paz?

Não, claro que ele não quer paz. E é preciso dizer que você usou a expressão “cessar-fogo”, que está absolutamente correta. Não podemos dizer “paz”, porque não haverá paz enquanto Vladimir Putin permanecer no poder.

Ou seja, não pode haver paz total e verdadeira enquanto Vladimir Putin estiver no poder?

No longo prazo, a única maneira de garantir paz, estabilidade e segurança no continente europeu é ter uma Rússia democrática, uma Rússia que respeite as leis, os direitos e as liberdades de nossos próprios cidadãos e que também respeite as fronteiras de seus vizinhos e as normas de comportamento civilizado do mundo. Porque na Rússia, a repressão interna e a agressão externa sempre andam de mãos dadas, portanto, não haverá paz enquanto Putin permanecer no poder. Mas um cessar-fogo é possível.

Então você também diz que qualquer acordo de cessar-fogo deve incluir a libertação de todos os prisioneiros de guerra.

Absolutamente. Para mim, isso é o mais importante, porque no momento estamos vendo essas negociações entre representantes do governo Trump nos EUA e o regime de Putin na Rússia. E eles falam sobre minerais, sobre o retorno de empresas americanas para a Rússia, sobre os ativos congelados, não sei o quê, falam sobre dinheiro o tempo todo. E, de fato, os dois enviados, o sr. Witkoff do lado americano e o sr. Dmitriev do lado russo, são pessoas que dedicaram suas vidas ao dinheiro e não têm nenhuma relação com a diplomacia. E por isso, é ainda mais importante que a Europa, a União Europeia avancem essa questão, como você disse, da libertação de todos os reféns, de todos os prisioneiros dessa guerra. Porque há centenas de milhares de vidas humanas que já foram perdidas e não podemos recuperá-las. Mas ainda é possível salvar dezenas de milhares de vidas humanas, pessoas que são reféns e prisioneiras desta guerra. Estou falando, é claro, dos prisioneiros de guerra de ambos os lados, mas isso é coberto pela 3.ª Convenção de Genebra, portanto, está fora de debate. Falo também dos milhares de reféns civis ucranianos que foram deportados à força para a Rússia.

Principalmente crianças.

Falo também dos milhares de crianças ucranianas que foram sequestradas. De fato, se dissermos a verdade na Rússia ou nos territórios ocupados pela Rússia, e isso é muito importante, também estou falando dos presos políticos russos, os cidadãos russos, meus concidadãos que hoje estão presos porque se manifestaram contra essa guerra de agressão, que foi o que aconteceu comigo. Mas agora, enquanto estou falando com você, há, segundo as organizações de defesa dos direitos humanos, mais de 1 500 presos políticos na Rússia. O maior grupo entre eles são os russos que se manifestaram contra essa guerra criminosa. E para muitos deles, como por exemplo Aleksei Gorinov ou Maria Ponomarenko e muitos outros, não é apenas uma questão de cativeiro, não é apenas uma questão de prisão ilegal, mas também uma questão de vida ou morte, e essas pessoas devem ser salvas.

Vladimir Kará-Murzá, você nos diz que os enviados russos e americanos só falam de dinheiro. Você acha que a abordagem do presidente Trump é a correta? Você entende essa lógica?

Acredito que a política do atual governo dos EUA é vergonhosa, é completamente contraproducente, porque de fato é uma política de reaproximação, de normalização das relações com Vladimir Putin. E eu gostaria de lembrar a todos que Vladimir Putin, antes de tudo, não é um presidente legítimo. Ele está no poder há 25 anos, embora haja um limite constitucional de dois mandatos na Rússia, e ele encontrou truques pseudolegais para contornar esse limite constitucional. E devemos lembrar também que no ano passado, em 2024, o Parlamento Europeu e a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa aprovaram resoluções reconhecendo Vladimir Putin pelo que ele é: um usurpador ilegítimo. Mas ele é mais do que isso. É também um assassino. É um homicida. Porque foi sob seu comando que os dois principais líderes da oposição democrática russa, Boris Nemtsov e Aleksei Navalny, foram assassinados. É sob seu comando que pessoas morrem todos os dias na Ucrânia, incluindo crianças recentemente na cidade de Krivoi Rog [ucr. Kryvy Rih]. Em todos esses 25 anos em que Vladimir Putin permanece no poder, ele mata, mata, mata, mata, ele mata dentro da Rússia, ele mata fora da Rússia. E é importante lembrar a todos os dirigentes ocidentais, especialmente aos americanos, que querem normalizar as relações com Vladimir Putin, devolver a Vladimir Putin essa legitimidade que ele não merece e apertar a mão de Vladimir Putin mais uma vez, é importante lembrá-los de que é uma mão coberta de sangue.

Você tem medo de que, seguindo os passos de Donald Trump, alguns considerem que Vladimir Putin tenha novamente se tornado frequentável?

Mas estamos vendo isso. Se observarmos o que o sr. Trump fez nos últimos dois meses desde que retornou à Casa Branca. Ele convidou Vladimir Putin para se juntar novamente ao G8. Os EUA votaram na ONU contra a Ucrânia e junto com a Rússia, Belarus e Coreia do Norte. Como lembramos, os Estados Unidos suspenderam a ajuda e a assistência militar à Ucrânia, o que causou centenas de mortes no país. E então vemos também, se falamos de ações práticas, que o governo Trump destruiu completamente a infraestrutura internacional de assistência à democracia e aos direitos humanos. E agora o governo Trump está destruindo o sistema de mídias americanas que disseminavam informações objetivas não apenas para os russos, mas também para os cubanos, os iranianos, os chineses, para milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo que atualmente vivem sob regimes autoritários.

Você dizia agora mesmo que seu objetivo é alcançar uma Rússia democrática. Em uma sociedade tão isolada como a russa de hoje, com propaganda onipresente, como a oposição pode difundir sua mensagem?

Na verdade, para mim, uma das principais razões para a queda do regime comunista foi o fato de que esse regime, no início da década de 1990, já havia sido deslegitimado aos olhos de grande parte da população graças aos programas de rádio que eram transmitidos pelos países ocidentais e eram ouvidos por milhões e milhões de pessoas na União Soviética e em outros países comunistas. E, de fato, foram as mesmas pessoas que ouviam, digamos, a Rádio Liberdade na década de 1970 que saíram às barricadas em agosto de 1991, durante nossa revolução democrática na Rússia. Se era possível fazer isso com a tecnologia da década de 1970, certamente é possível agora. Agora existe a internet. Sim, há muita censura online sob o regime de Putin, mas existem VPNs e outras maneiras de driblar essa censura. O problema é que muitas vezes vemos que o Ocidente, as empresas e governos ocidentais, em vez de ajudar os cidadãos russos a terem essa verdade, essa informação objetiva, os vemos ajudando o regime de Putin a censurar essa informação, por exemplo...

São cúmplices, de fato.

Com certeza são cúmplices. Nestes últimos meses, por exemplo, a tão conhecida empresa americana Apple removeu mais de 50 sistemas VPN, o sistema que ajuda as pessoas a driblarem a censura, a pedido do regime de Putin. Não foi o regime de Putin que fez isso, foi a Apple. E como acabei de lhe dizer, agora o governo Trump está destruindo o sistema de mídias internacionais. E há alguns dias, a chefe do principal canal de propaganda da Rússia, Russia Today, Margarita Simonian, estava na TV, muito feliz com as ações do governo americano. Ela disse que, infelizmente, nunca conseguimos acabar com essas mídias. Mas agora são os próprios Estados Unidos da América que estão o fazendo.

Estão o fazendo. Onde está a alternativa democrática na Rússia, Vladimir Kará-Murzá?

Há milhões e milhões de pessoas na Rússia que são contra essa guerra, que são contra esse regime, que querem que a Rússia seja um país normal, civilizado, europeu, democrático. Vimos, por exemplo, no ano passado, durante o teatro que foram nossas “eleições presidenciais” entre aspas. Quando foi...

Uma farsa, você quer dizer, era uma encenação?

Bem, eram apenas Putin e alguns palhaços que ele havia selecionado. Mas, ao mesmo tempo, havia um candidato, um advogado, ex-deputado do Parlamento russo, chamado Boris Nadezhdin, que anunciou sua candidatura à presidência russa como um candidato antiguerra. Ele disse que era contra a guerra na Ucrânia. E a reação do público foi completamente incrível. De repente, vimos filas por toda a Rússia, enormes filas de pessoas querendo assinar as petições para registrar esse candidato. Na época, eu estava na prisão e recebia muitas cartas de toda a Rússia, e quase todas eram sobre essas filas enormes, pessoas votando com os pés, por assim dizer, no candidato antiguerra. Porque a propaganda putinista quer que todos acreditem que todos os russos apoiam a guerra e todos os russos apoiam o regime. Mas você sabe que eles podem fraudar eleições, o que eles fazem, eles podem fraudar pesquisas, o que eles fazem. Mas não há nada que eles possam fazer com as imagens das milhares e milhares de pessoas em toda a Rússia que acreditam em um futuro democrático e pacífico.

Então há uma sede por democracia na Rússia e além?

Há muitas pessoas que querem mudanças. Há muitas pessoas que querem que este regime finalmente perca o poder. E não tenho dúvidas, não apenas como político, mas também, sobretudo, como historiador, de que chegará o dia em que a Rússia será um país normal, civilizado e democrático, e nesse dia, finalmente poderemos ter uma Europa livre, integral e em paz.

Vladimir Kará-Murzá, como eu disse no início da conversa, você foi libertado em agosto passado, depois de passar dois anos e três meses na prisão. Como você conseguiu aguentar todo esse tempo, incluindo 11 meses na solitária?

Absolutamente. De fato, segundo o direito internacional, mais de 15 dias de solitária são oficialmente considerados uma forma de tortura. E nunca entendi o porquê, mas agora entendo muito bem, porque quando você fica o tempo todo nessa pequena cela, quatro paredes, uma janelinha com grades de metal, você está sozinho o tempo todo. Você não pode falar com ninguém, você não fala em lugar nenhum. Você não pode fazer nada, porque, por exemplo, até para escrever, eles te dão papel e caneta apenas por uma hora e meia por dia, e depois eles te tomam. E também eu era proibido de ligar para minha esposa e meus filhos, eu não podia contatá-los por telefone. Essa é uma velha prática soviética, quando o regime quer punir não apenas os opositores políticos, mas também suas famílias. E é... vou ser honesto com você, é muito difícil, em circunstâncias como essa, manter a cabeça fria. É muito importante ocupar a mente com algo importante, preencher o cérebro, se preferir, preencher o tempo também. E então, fiquei estudando espanhol, eu tinha um livro que eu lia o tempo todo, da manhã até a noite, eu estava estudando espanhol. E obviamente nunca pensei que iria usá-lo, porque, como eu já disse, não achava que seria libertado. Mas depois do milagre dessa troca, no ano passado, algumas semanas atrás, eu estava em Madri para encontros e reuniões com deputados espanhóis. Consegui praticar e aparentemente agora consigo falar espanhol.

Então, falar também espanhol?

Sim, até mesmo o tempo na prisão pode ser empregado em algo prático.

Com o que se parece sua vida hoje? Com a de um exilado? Você se sente livre?

Eu me sentia livre mesmo na prisão, porque nunca fui privado de minhas convicções, de meus princípios. Eles podem te aprisionar fisicamente, mas não podem parar seu espírito. E agora é um pouco louco, porque o problema é que eu não tive realmente uma transição entre o isolamento em uma prisão siberiana e a vida atual, quando estou, não sei, em quatro ou cinco países diferentes a cada semana, é um pouco louco, para ser sincero. Mas há tantas coisas para fazer, há tantos problemas para discutir, porque, como eu já disse, há mais de 1 500 presos políticos na Rússia e, para muitos deles, é literalmente uma questão de sobrevivência. E devemos fazer tudo o que pudermos para libertar essas pessoas cujo único “crime” entre aspas é o fato de não terem se calado diante das atrocidades cometidas pelo regime de Vladimir Putin.

E você se sente ameaçado, observado, mesmo estando fora da Rússia?

Não penso nisso, porque é um caminho para a paranoia, e não é o caminho que quero seguir. Eu sei que estou certo, sei que o que estou fazendo é correto e sei que estou do lado certo da história. Também sei que o que nossos colegas da oposição democrática russa estão fazendo é importante, e vou continuar o fazendo apesar de tudo.

Muito obrigado, Vladimir Kará-Murzá, por ter vindo à RFI.

Obrigado, é um prazer.

E tenha um bom dia.