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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Khristo Grozev: Radev não será novo Orbán

Como você viu, não tenho “aparecido” por aqui com muita regularidade, embora minha intenção fosse continuar programando publicações diárias nos fins de semana. A vida deu um choque de realidade: apesar do material abundante, muita coisa ficava acumulada e resolvi dedicar sábados e domingos pra outras tarefas de organização pessoal ao invés de maratonar em cima do computador como um louco por dois dias seguidos. Porém, sempre que ocorre um evento importante, que consigo pegar “no pulo” ou que logo pode ficar velho, tento fazer um esforço, mesmo que a preparação seja lenta. Tenho coisas interessantes reservadas e espero que um dia volte a fazer programações diárias!

O assunto da semana pros nerds em “Leste europeu” (termo que abomino tanto quanto “Oriente Médio”!) foram as últimas eleições parlamentares na Bulgária, que pela primeira vez desde 1997 deram maioria clara a apenas um partido. Curiosamente, é uma legenda criada menos de dois meses antes, com o genérico nome “Bulgária Progressista” e fundada por ninguém menos que o ex-presidente Rumen Radev, no cargo há quase dez anos e que renunciou pra concorrer ao pleito. Embora o presidente seja eleito pelo voto popular, o regime é parlamentarista e seu cargo é mais cerimonial, impedindo Radev, portanto, de resolver a crise política aberta pela renúncia do premiê Boiko Borisov, que governou de 2011 a 2021.

Em cinco anos, essa foi a oitava eleição parlamentar, pois nenhum governo conseguia formar maioria e logo caía. No fim de 2025, o povo fez grandes protestos contra a classe política, apoiados por Radev, que se sentiu, assim, ungido pra formar o próprio partido. Deu certo: levando em conta o sistema, seu BP conseguiu quase 45% dos votos, mas mais da metade das cadeiras, o suficiente pra mudar juízes da Suprema Corte e o procurador-geral – mas não pra mudar a Constituição. Os antigos partidos saíram desacreditados, e até os socialistas, herdeiros dos comunistas, pela primeira vez não entraram no Parlamento desde a volta da democracia. Os fatos já são bem conhecidos, mas o que eu trouxe foi uma entrevista do jornalista investigativo búlgaro Khristo Grozev pro programa semanal de geopolítica de Ekaterina Kotrikadze na TV Dozhd (TV Rain).

Embora eu tenha incorporado o corte que saiu depois, eu tirei a transcrição de um trecho mais restrito, que omite a apresentação do tema. Usei um site que cria legendas a partir de vídeos do YouTube e confrontei com o áudio, com o agravante que o russo não é a língua materna de Grozev, portanto, ele faz muitos “aaa, ééé”, erros de concordância e construções incomuns, além da pronúncia induzir o leitor a algo “nada a ver”; pode não ter ficado perfeito. Depois traduzi pro português, e dada a importância do documento e o trabalhão que deu pra corrigir, ele também segue abaixo, depois da tradução. No final da página, o vídeo no canal de Kotrikadze, e logo abaixo, brincando com a pecha de “pró-Rússia” de Radev, a ideia que logo me vem à cabeça quando vejo o símbolo do partido BP, rs:



Vamos discutir com Khristo Grozev, jornalista investigativo da Bulgária que está com a gente ao vivo. Olá, Khristo.

Olá, Ekaterina.

Muito obrigada por ter achado um tempo. E de repente percebemos que você deve saber muito mais sobre a Bulgária do que muitas outras pessoas. E estou curiosa pra ouvir sua reação. Pode-se dizer basicamente que Putin substituiu seu protegido Orbán por seu protegido Radev?

Bem, não se pode dizer que se equivalem. Não é como se Putin tivesse recebido as mesmas ferramentas dentro da UE e da OTAN que tinha com Orbán. Ainda assim, a perda de Orbán é significativamente pior em termos absolutos do que o ganho de Radev nas eleições búlgaras, embora estivesse claro, antes da campanha eleitoral, que ele tinha se tornado o candidato preferido, com Russia Today e Sputnik publicando longos artigos em seu favor. Grupos búlgaros que monitoravam a desinformação durante as eleições também viram que o grupo “Matrioshka” e grupos afiliados a Russia Today repostaram milhares de artigos em apoio a ele.

Mas o mais importante a entender é que ele não equivale a Orbán por vários motivos. Primeiro, ele já estava no governo. A razão pela qual ele obteve uma votação tão grande é precisamente a instabilidade da situação política na Bulgária. Há vários anos, a Bulgária não consegue produzir resultados eleitorais que deem a um ou dois partidos votos suficientes pra formar um governo estável, seja de um só homem ou uma coalizão. Por isso, perdi a conta de quantos governos interinos a Bulgária teve nos últimos anos. Muitos deles foram nomeados pelo próprio Radev em sua função de presidente.

E vimos que, embora ele falasse frequentemente, desde o início da guerra, que a Bulgária não se envolveria no apoio à Ucrânia, que não prejudicaria suas relações com a Rússia e que sempre entendeu que a Rússia é muito mais importante pra Bulgária que a Ucrânia, seu governo interino sempre reafirmou o apoio militar à Ucrânia, embora tentasse mantê-lo em segredo. E isso é lógico. O próprio Radev se tornou general durante seu serviço na Bulgária como membro da OTAN. Ele participou de muitos programas de treinamento e instrução nos EUA. E pode-se dizer que parte das declarações consideradas pró-Rússia são retóricas, destinadas a aumentar sua base eleitoral na Bulgária. Mas quando se trata de decisões práticas e pragmáticas, ele segue as mesmas linhas que a UE e a OTAN consideram corretas.

Sim. Mas uma situação em que o ministro das Relações Exteriores de Radev saísse de uma reunião da UE, ligasse pra Lavrov e recebesse instruções de algum oligarca russo seria inimaginável. Estou certa?

Seria inimaginável. E, novamente, pegue o exemplo de seu ministro da Defesa, que ele nomeou no governo interino e agora provavelmente vai voltar ao cargo: um homem leal que estruturou todos os fornecimentos de armas e munições à Ucrânia em 2022-2023. Portanto, é impossível supor que alguém tão pró-OTAN, que seguiu tão estritamente suas políticas, de repente, manche sua reputação e mude sua política por qualquer motivo. Portanto, isso é muita retórica; pode-se considerar isso um prêmio de consolação pra Putin. Ou seja, vai haver outro país, além da Eslováquia, dizendo: “Vamos ser amigos da Rússia”. Mas não espero grandes consequências disso.

Sim, esse é o prêmio de consolação. Entendo, que nem no [show de prêmios] Campo dos Milagres há muitos anos. Khristo, queria te perguntar, de forma mais ampla, sobre o nível atual de influência do Kremlin, da Rússia e de Vladimir Putin nos países europeus. Está diminuindo ou aumentando? Você é um dos melhores investigadores que monitoram isso e, em particular, os serviços de inteligência russos. O quanto você está satisfeito ou, ao contrário, decepcionado com a dinâmica atual?

A perda da Hungria e de Orbán, que era um porta-voz tão poderoso dos movimentos pró-Putin em geral na Europa, pode ser considerada o início de uma espécie de cataclismo. No mínimo, vejo, e pode-se até afirmar, que o presidente Trump tentou dar seu apoio total a Orbán e recebeu em troca uma queda significativa no apoio popular. E se analisarmos isso sob a perspectiva de Trump dando apoio semelhante a outras forças de extrema-direita e pró-Rússia na Europa, acho que podemos considerar isso uma tendência que vai favorecer o declínio desses movimentos pró-Rússia.

Na Bulgária, uma razão completamente diferente levou a essa vitória: a presença de instabilidade por três, quatro anos e corrupção generalizada nas elites empresariais e políticas. Assim, o presidente Radev conseguiu unir duas forças eleitorais decisivas: a juventude anticorrupção e a parcela da população que, por algum motivo, considera a Rússia sua amiga. São pessoas que nunca estiveram na Rússia nem sequer conheceram pessoalmente um russo na vida. Mas, como aprenderam na escola que foi a URSS que sempre nos ajudou, sempre vão votar pela Rússia. Portanto, uniu duas forças, duas forças eleitorais que simplesmente não existem em outros países, são muito mais fracas eleitoralmente. Há muito menos corrupção política na Europa Ocidental que na Bulgária.

E como está o FSB [Serviço Federal de Segurança da Rússia, antigo KGB] na Europa como um todo?

Esse é um assunto à parte. Quero falar sobre isso, porque estamos preparando uma nova investigação sobre o que o FSB e o GRU [Diretoria Principal de Inteligência, voltada pro exterior] estão exatamente fazendo, mas podemos afirmar novamente que os países europeus estão muito mais conscientes e preparados pra responder mais rapidamente a uma ameaça potencial hoje do que estavam há um ano. Portanto, o FSB não está se saindo muito bem. Além disso, entendemos que após nossa grande investigação sobre o novo departamento do FSB e do GRU que deveria substituir o antigo, obsoleto e falho 29155 e similares, eles tiveram que fechar esse novo ninho de fantasmas que tinha sido criado. Então, não posso dizer que o FSB esteja em boa fase.

Bem, boas notícias no essencial. Muito obrigada. Khristo Grozev, jornalista investigativo do Der Spiegel e do Insider, falou ao vivo na TV Dozhd.



Pausa pro humor (quase) anônimo, rs!


Обсудим с Христо Грозевым, журналистом-расследователем из Болгарии. Он присоединяется к нам в прямом эфире. Христо, приветствую.

Здравствуйте, Екатерина.

Спасибо вам большое, что нашли возможность. Так, вдруг мы вспомнили, что вы же должны про Болгарию знать гораздо больше, чем многие другие. И вот интересно, как вы реагируете. Можно ли говорить о том, что в принципе Путин заменил своего парня Орбана своим парнем Радевым?

Ну, нельзя сказать, что это эквивалент. Нельзя сказать, что получил такой же инструментарию внутри Евросоюза и внутри НАТО, как был через Орбана. Всё-таки потеря Орбана значительно хуже в абсолютных измерениях, чем выигрыш Радева на болгарские выборы, хотя перед выборной кампанией было очевидно, что всё-таки он стал предпочитанным кандидатом, а Russia Today и Sputnik делали длинные комментарии в его пользу. И тоже болгарские группы, которые отслеживали дезинформации во время выборов, тоже увидели, что группа “Матрёшка” и группы, которые связаны с Russia Today, перепубликовали, перепостили там тысячи статей его поддержку.

Но всё-таки самое важное, что надо понять, что он не является эквивалентом Орбана по неком нескольким причинам. Во-первых, он уже был в правительстве. Причина, почему он вообще сейчас получил такой огромнейший выигрыш, это именно из-за нестабильности политической ситуации в Болгарии. Уже несколько лет Болгария не может получить результаты выборов, которые бы дали одной партии или там двум партиям достаточно голосов, чтобы они сделали стабильное, либо единоличное, либо коалиционное правительство. Поэтому уже я потерял счёт, сколько временных служебных правительств на последние несколько лет были в Болгарии. Многие из них назначались именно Радевом в качестве его президентской должности.

И мы видели, что хотя он очень часто ещё с начала войны против Украины говорил о том, что Болгарии нельзя включаться в поддержку Украине, что нельзя расшатать вообще отношения с Россией, что надо всегда понимать, что у России намного больше значимости, чем у Украины для Болгарии, то его временное служебное правительство всегда подтверждало военную поддержку Украине, хотя в публичном пространстве они пытались об этом не говорить. А это логично. Сам Радев стал генералом во время его службы в натовской Болгарии. Он был на очень многих тренировках и обучениях в Америке. И можно сказать, что часть из того, что многие называют пророссийское утверждение, они риторические, они предназначены для того, чтобы он увеличил свою электоральную базу в Болгарии. Но когда вот идёт к моменту практических решений, прагматических решений, он следует по тем же самым линиям, которые Евросоюз и которые НАТО считает правильным.

Да. Ну вот ситуации, при которой Министр иностранных дел при Радеве выходит с заседание Европейского Союза и звонит Лаврову и получает поручение от какого-нибудь российского олигарха, она невообразима. Верно я понимаю?

Она невообразима. И ещё раз можно даже взять пример, что с его Министром обороны, которого он назначил в служебном правительстве и сейчас, скорее всего, опять будет министром Обороны – это лояльный человек, который наложил в 2022-2023 годах все поставки оружия и муниции Украине. Поэтому нельзя считать, что настолько пронатовский человек, который настолько следовал этим политикам, сейчас вдруг по каким-то причинам будет плевать на свою репутацию и поменяет политику. Поэтому это очень много риторики, можно считать утешительным выигрышем для Путина. То есть, будет ещё одна страна, кроме Словакии, которая будет говорить: “Давайте будем друзьями с Россией”. Но последствий больших от этого я не ожидаю.

Да, утешительный приз такой. Я понимаю, как в Поле Чудес было ещё много лет назад. А, Христо, я хочу вас спросить в широком смысле о том, каков сейчас уровень влияния, скажем, Кремля, России, Владимира Путина в европейских странах, понижается это влияние, повышается наоборот. То есть вы один из лучших расследователей, кто именно за этим следит и, в частности, за российскими спецслужбами. Насколько динамика сейчас вас радует или наоборот огорчает?

Потеря Венгрии и Орбана, который был настолько громким мегафоном пропутинских вообще движений внутри Европы, можно считаться началом какого-то катаклизма. По крайней мере, я вижу, и даже можно сказать, что президент Трамп пытался дать свою поддержку полностью Орбану и получил в ответ значительное понижение поддержки от населения. А если посмотреть на это с тех глаз, что Трамп такую поддержку даёт и другим крайне правым и пророссийским силам внутри Европы, я думаю, что можно считать, что это тренд, который будет в пользу уменьшения таких пророссийских движений.

В Болгарии совершенно другая причина привела к этому выигрышу: это то, что была нестабильность на протяжении 3-4 лет и огромная коррупция внутри бизнеса и политической элиты. И вот президент Радев смог объединить две решающих электоральных силы: это антикоррупционная молодёжь и та часть населения, которая по каким-то причинам считает Россию своим другом. Это люди, которые никогда не были в России, не встречали даже в жизни своего русского человека. Но из-за того, что они учились в школе, что это Советский Союз нам всегда помогал, они будут всегда голосовать за Россию. Поэтому он объединил две силы, две электоральные силы, которые в других странах просто отсутствуют, намного меньше электорально. Намного меньше политической коррупции в Западной Европе, чем в Болгарии.

А как у ФСБ дела в Европе в целом?

А это отдельная тема. Давайте об этом поговорим, потому что мы сейчас готовим ещё новое расследование о том, что именно ФСБ и ГРУ делают, но можно сказать опять, что европейские страны намного лучше понимают сегодня и готовы быстрее реагировать на потенциальную угрозу, чем год назад. Поэтому ФСБ не очень хорошо. А кроме того, мы понимаем, что после нашего большого расследования о новом ФСБшном, ГРУшном отделении, которое должно было заменить старое, устаревшее и сломанное 29155 и так далее, вот эту самую новую строшилку, которая была создана, им пришлось закрывать. Так что я не могу сказать, что у ФСБ хорошие дни.

Ну, в принципе, неплохие новости. Спасибо вам большое. Христо Грозев, журналист-расследователь Der Spiegel и Insider в прямом эфире телеканала Дождь.



E pra divertir um pouco... Depois da morte do MC Catra, eis que surge a MC Kotri, rs:


sábado, 7 de março de 2026

O melhor e o pior de Olavo de Carvalho

Ele dizia que “matava a cobra e mostrava o pau”. Mas na essência, o virginiano de Campinas (o que dá quase na mesma) não passava de um velho covarde, ressentido, estúpido e pouco instruído (leitura não é sinônimo de educação) que optou por usar sua mediocridade pessoal e profissional pra aplicar diversos tipos de golpe enquanto vivia no Brasil. Precisando fugir pra não arcar com as consequências, continuou enganando e fanatizando as pessoas por meio da internet – no que foi um pioneiro, antes até do boom das redes sociais. Se dizendo um “pensador” de nossa sociedade, idealizou uma realidade inexistente, incompatível com as necessidades e tradições do povo comum e suas múltiplas origens e influências. E pra esse ideal, atraiu uma elite – e uma classe média com sonho de elite – obcecada pelo antipetismo, apavorada com a emergência de novos atores sociais e, em nossa melhor tradução pseudointelectual, carente de um guru que lhes ditasse o que pensar, do que gostar e pelo que ou contra quem lutar.

Olavo de Carvalho não foi um “raio caído em céu azul”, e embora ele tenha se aproveitado do clima de desorientação geral que reinava no Brasil da década de 2010, lembremos que seus coices e charlatanices vêm de longa data, e que mesmo então vários outros picaretas floresceram no meio digital em diversas áreas, em diversos campos do espectro político – mostrando muito mais nosso analfabetismo crítico do que a falta de um “policiamento” ideológico tão caro às ditaduras. Hoje, tendo desaparecido devido a sua própria inépcia em cuidar da saúde, alguns grupelhos radicais e uns poucos políticos “bolsonaristas raiz” insistem em empunhar suas máximas como “pérolas de sabedoria” e “herança filosófica”. Ainda assim, o “casamento” entre Olavo e Jair Messias não foi pessoal nem espontâneo: primeiramente “esposado” pelo filho Eduardo Bolsonaro, o famoso “Bananinha” – já que o pai era um mero milico reaça fracassado sem ideias próprias –, foram “empurrados” pela turba nas manifestações de 2015-16 e se encontraram meio a contragosto na vitória de 2018.

Como diz minha avó, “dois bicudos não se beijam” (ou como ouvi outro dia sobre a China e os EUA, “não pode haver dois tigres no topo de uma mesma montanha”), portanto, a ruptura foi inevitável. Em poucos meses, sem colher os louros que julgava merecidos, mas que sequer foram prometidos pelo novo governo, Olavo partiu pra velha tática de xingamentos, difamação e rancor; basta lembrar que suas duas indicações, Vélez Rodríguez pra Educação e Ernesto Araújo pras Relações Interiores, não duraram muito e hoje vagueiam na irrelevância. Nada disso diminuiu sua popularidade em meios aos apoiadores do caos que se instalava em Brasília, e o conglomerado Brasil Paralelo, com todo o estrago que promove na esfera da popularização de conhecimento, reivindica abertamente o “olavismo”.

Entre aulas fajutas, requisitórios coprolálicos e atuações que passaram pra história como verdadeiros memes, também acabei perpetuando alguns cortes de pensamentos isolados no Pan-Eslavo Brasil, meu finado canal no YouTube, ainda que pra me contrapor ao sujeito. De fato, em certa época quando tinha mais tempo, cheguei a dar olhadas em certos vídeos, e em dado momento a quantidade de cortes foi tão considerável que até me apelidaram de “Eslavo de Carvalho”, rs. E ao fim e ao cabo, resolvi transferir pra cá seus “melhores momentos”, incluindo bobagens, ideias reacionárias e afirmações fora de contexto. Nem todos estão datados nem têm a origem indicada, mas os seis primeiros vêm de uma entrevista remota que ele deu a Leda Nagle, outrora grande nome de nosso jornalismo que, infelizmente, terminou se rendendo ao fascismo tropical. Os títulos são os mesmos, ou quase, que dei no YouTube.

Adicionei também outros dois “clássicos” que não cheguei a republicar, mas estão entre meus “preferidos”... Aproveite o quanto puder e, se desejar, faça comentários e sugestões! IMPORTANTE: as marcas e endereços no vídeo, por se referirem a meu antigo canal, obviamente não funcionam mais.


O Brasil precisa se tornar um país civilizado:


Sobre o preconceito contra religiões, pessoas LGBT e negros:


Todo mundo é analfabeto funcional... menos eu:


Olavo define “fascismo” como o regime atualmente em vigor:


Olavo diz que a única coisa de que sente saudades no Brasil é de pastel com caldo de cana; único e inusitado momento “povão” que conheço dele:


Olavo diz que não tem medo de morrer; “ficar eternamente neste planeta seria um horror” é algo com que, confesso, eu concordo, mas vai de encontro à obsessão da “tecnoligarquia” que hoje se pendurou no saco de Trump:






Iosif Stalin seria “o maior estrategista da história humana”. Na época, muitos me criticaram por tirar este trecho do contexto maior do vídeo completo, cujo conteúdo, porém, afirmando que “Stalin criou o nazismo”, mal tem qualquer valor intelectual ou didático. Mas a intenção foi mesmo provocar, chocar ou fazer rir, pois todo mundo sabia a real posição ideológica do Olavo e não poderia tirar qualquer conclusão positiva dessa fala. O que soa engraçado, no vídeo de janeiro de 2017, é fazer parecer que ao chamar Stalin de “o maior estrategista da história humana”, ele ainda vê algum mérito em sua figura. Segundo o pensador, “tudo aconteceu do jeito que ele disse, e ele obteve tudo o que ele queria”, ficando de fato ao internauta informado a missão de saber que isso não implica nenhuma adesão ao comunismo. O áudio original estava baixo demais, então ao editar, além de cortar o quadro, aumentei consideravelmente o volume:


Outro momento “comunista só que não”, ao dizer que o povo é a fonte de toda democracia (ao som da Internacional):


“Só que não” mesmo, pois afirma que Bolsonaro tinha que combater o comunismo, mas não tomava nenhuma medida nesse sentido:


Não existe uma direita no Brasil:


A política não é uma luta de ideias:


Sobre os comunistas brasileiros (novembro de 2019):


Olavo explica as preliminares sexuais:


Olavo finalmente rompe com Bolsonaro e o manda enrabar condecoração oferecida (começo de junho de 2020, ao som do hino da URSS):


Montagem sem graça (mas que fez algum sucesso!) que fiz com a música da antiga propaganda do Café Seleto (vídeo de 2017):








sábado, 13 de dezembro de 2025

Lukashenka elogia força de Hitler (1995)

Volta e meia estes vídeos são regurgitados do esgoto autocrático que Belarus foi se tornando desde 1994, quando Aliaksandr Lukashenka (eu escrevo o nome em belarusso, e não no russo “Aleksandr Lukashenko”) venceu as únicas eleições livres pra presidente do país recém-independente. A antiga RSS da Bielorrússia elegeu o populista e ex-gestor de fazenda estatal soviética (sovkhoz) que prometia acabar com a corrupção, mas logo de cara já mandou prender, perseguir, exilar, torturar e matar opositores políticos. Isso, em meio a opiniões “intelectuais” no Ocidente o pintando como um antifascista respeitoso da antiga “glória” da “pátria do proletariado internacional”.

Esse “antifascista” deu uma entrevista em 1995 ao jornal alemão Handelsblatt, na qual em certo momento elogiou o “poder férreo” com que o Adolfo levou a Alemanha a seu “ponto culminante” em séculos e, como que antevendo como seria seu mando, disse que esse poder equivalia a sua “compreensão” do presidencialismo. Dizer coisas positivas sobre o adolfismo dá tão ruim entre os próprios alemães que o periódico sequer publicou esse trecho escrito, temendo enroscos judiciais. Contudo, na rádio estatal belarussa a íntegra foi ao ar, provavelmente causando náuseas entre famílias cujos antepassados estiveram entre os primeiros a sofrer o ataque do Reich ao enorme território soviético em 1941.

Tempos depois, tentando se explicar, “a emenda saiu pior que o soneto”, como dizemos aqui, e o tirano só conseguiu tecer ainda mais loas ao pintor austríaco frustrado. A rádio e TV “Nastoiascheie vremia” (também conhecida como “Current Time”) fez uma boa edição do áudio há alguns anos, e foi a partir de suas legendas que consegui traduzir e colocar cada trecho em um parágrafo:


A história da Alemanha, em algum grau, é uma réplica da história de Belarus em determinadas fases. A seu tempo, a Alemanha foi reerguida das ruínas graças a um poder muito férreo. E nem tudo foi apenas ruim na Alemanha com relação ao famoso Adolf Hitler. Pois a ordem alemã levou séculos pra ser formar. Sob Hitler essa formação atingiu seu ponto culminante. É isso que corresponde a nossa compreensão da república presidencialista e, nela, do papel do presidente.

Lukashenka teria elogiado Hitler um dia. Mas eu já falei sobre isso, é uma insensatez absoluta. Se eu tivesse feito isso em Belarus, talvez eu já nem fosse mais presidente há muito tempo. É uma falsificação corriqueira, a mais autêntica falsidade forjada na Polônia com a colaboração de nossos opositores e colaboradores da CIA.

O que eu não declarei? Eu falei sobre Hitler. Bem, havia um fascista no poder. Bem, havia no poder o mais autêntico idiota que aniquilou muita gente, mas unificou a nação. Unificou por meio de um poder férreo nessa fase. Deu resultado? Por isso não se deve me maldizer porque queremos ter na República de Belarus um sério poder férreo.


Mas, como não há mal que dure pra sempre, recebemos neste sábado uma excelente notícia! Num quadro de negociações com os EUA, a quem Lukashenka está recorrendo pra aliviar as sanções, a ditadura belarussa libertou 123 presos políticos, entre os quais alguns famosos, como os políticos Andrei Babaryka e Marya Kalesnikava (na foto) e o Prêmio Nobel da Paz de 2022, Ales Bialiatski. Desses 123, 114 foram pra Ucrânia, recebidos pela organização estatal “Eu Quero Viver”, que ajuda desertores russos fugindo das hordas invasoras ou dos territórios ucranianos ocupados.

Analistas políticos consideram que esse pode ser um passo pra uma tímida liberalização, mas reiteram que, antes de constituírem solturas, esses indultos são antes um exílio forçado, pois os belarussos não são deixados na terra natal, mas mandados contra a própria vontade pra países vizinhos.

Aproveito pra fazer dois adendos em 19/12/2025. O primeiro é esta notícia do portal dissidente Khartya ’97, que traz o vídeo completo da conversa via videoconferência entre o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e os presos políticos belarussos que tinham acabado de ser libertados no domingo. A maioria dos libertos fala em russo, mas o segundo deles fala em belarusso, e Zelensky declara que entende a língua muito bem e sequer pensava que era capaz disso. Claro que sim: o belarusso compartilha muito mais traços com o ucraniano do que com o russo, sobretudo no vocabulário. E é interessante que o presidente lhes fala em ucraniano (que também é mutuamente compreensível), ao invés de falar em russo, sua língua materna, hoje manchada pela agressão genocida de Putler.

Segundo adendo, pelo qual agradeço à amiga Volha Franco: se você estiver em Belarus, cuide de sua segurança! Existe um portal (em inglês, italiano, belarusso, russo e polonês) da associação que protege os direitos humanos, ajuda os presos políticos no país e informa os interessados no assunto. Divulgue entre seus contatos, sobretudo aqueles defensores alienados de Lukashenka e Putin que ainda os consideram “líderes fortes anti-imperialistas”!

Acesse ou guarde também o endereço reserva, o canal do Telegram, o bot do Telegram e o perfil administrador, pra perguntas em geral. Divulgue e leve a sério mesmo, pois serviços desse tipo podem savar vidas quando um país é transformado num campo de concentração a céu aberto. E lembre-se, nenhum estrangeiro está a salvo, pois a qualquer momento, por qualquer pretexto, pode ser preso por um crime inventado e ser usado como moeda de troca com seu país de origem!


sábado, 22 de novembro de 2025

Russa: “Viver 50 já tá ruim, imagine 150”

Uma curtinha pro feriado prolongado.

Há alguns meses, viralizou uma conversa (não tanto) em off entre Vladimir Putin e Xi Jinping, decifrada por leitura labial, em que o ditador moscovita lhe confidencia que a ciência estaria em medida de prolongar a vida humana até os 150 anos. Sabe-se lá de onde ele tirou esse delírio e qual é sua preocupação com isso, dado que o mundo tem muitos outros problemas urgentes pra resolver, esses sim, passíveis de encurtar a vida muito aquém do possível. O vídeo causou bastantes piadas, mas fico pensando se isso não é uma vontade própria, pessoal, pra aproveitar ao máximo toda a roubalheira que ele arrancou ao povo russo, o que não vai conseguir, por ser mortal e não ter verdadeiros amigos.

Povo russo que já está sentindo na carne as consequências da interminável invasão à Ucrânia e sofrendo com inflação, doenças mentais, liberdades tolhidas, perda de entes queridos e isolamento internacional. Discretamente, o canal opositor Sotavision (YouTube) entrevistou populares nas ruas do país pra saber o que eles pensam dessa maluquice do ditador. A maioria, obviamente, respondeu que não só seria antinatural, como também não valia a pena prolongar a vida. Mas esta resposta, que separei usando a republicação da Radio Svoboda, mostra a referida angústia, embora não se saiba qual é a idade da mulher e qual é sua situação geral:


– Vladimir Putin disse que as pessoas poderão viver até 150 anos. A senhora gostaria de viver até os 150?

– Com essa vida, prefiro é viver só até os 50.

– Mas o que há de errado?

– E o que NÃO HÁ de errado?


Na Rússia que conheceu Boris Ieltsin, até os robôs têm que cair de bêbados, rs!


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Rússia sofre com déficit de... palhaços


Endereço curto: fishuk.cc/palhacos-ru

Posso parecer desrespeitoso com os artistas de circo, mas lembre-se de que até mesmo o petê zoou e desceu a lenha no Tiririca em 2010, quando ele anunciou sua primeira candidatura (que se relevaria um sucesso estrondoso), mesmo concorrendo por um partido então aliado a Lula e Dilma. Na edição de sábado, 25 de outubro, do programa ironicamente chamado Notícias Terríveis e apresentado no YouTube da dissidente Novaya Gazeta Evropa, o jornalista Kirill Martynov aludiu a esta reportagem que apareceu no último dia 23 no periódico pró-Kremlin Moskóvski komsomólets. Se você sabe um pouco de história e de russo, já percebeu o saudosismo da URSS...

Assinada por Marina Bliashon, o título é “Anatoli Marchevski falou sobre a escassez de palhaços profissionais na Rússia”, em referência ao idoso artista circense que concedeu a entrevista. Confesso que muito do que ele diz é verdade, sobretudo sobre pedagogia e humor, porém há uma razão pra que Martynov o tenha inserido na rubrica “Cringe” de sua “revista eletrônica semanal” (que é muito melhor, aliás, do que os vídeos aguados e autocensurados do “agente estrangeiro” Aleksei Pivovarov em sua Redaktsia). Muitas de suas preocupações sociais relacionadas ao fenômeno do humor parecem ofensivas, num país que está voltando a ser uma ditadura totalitária e neste exato momento invadindo outro e matando sua população a esmo.

É curioso que a palavra pra “palhaço” (kloun) venha do inglês, assim como o substantivo “feik” e o adjetivo derivado “féikovy”, aplicados, sobretudo, ao que Putler não quer que se diga publicamente sobre a guerra. Depois de traduzir, apenas adicionei algumas notas explicativas e mesmo alusivas a coisas que me vieram à mente sobre o que Marchevski falou. Só canto a bola de que provavelmente os palhaços foram todos mandados pra uma certa “operação especial” contra outro palhaço. E não, você não leu errado, “até” palhaços negros alegram:



Anatoli Marchevski: “Um verdadeiro palhaço é uma mercadoria rara, não um artista de massa.”

Hoje em dia, as artes circenses são de alguma forma negligenciadas, mas é ao circo que vamos pra eterna celebração da vida, pra inspiração e alegria, pra provar que o impossível é possível e pra fé na bondade que os palhaços, ruivos, brancos e até negros, nos dão.

Anatoli Marchevski, artista de circo e Artista Popular da RSFSR [um título honorífico da época], começou recentemente a dar aulas de palhaço. Em entrevista ao MK, o queridinho do público discutiu por que as pessoas vão ao circo hoje em dia, como deve ser um palhaço moderno e como fazer o público rir hoje em dia.

O público de hoje é sofisticado; não é fácil fazê-lo rir. Como o público do circo moderno difere do público soviético?

A questão é que o repertório de um palhaço deve ser moderno e relevante, e as rotinas devem abordar temas familiares e identificáveis para o público. Consequentemente, o repertório muda com a vida: o que emocionava e era engraçado na era soviética é simplesmente incompreensível pro público de hoje. Pra um palhaço, o público mais importante são as crianças; elas reagem de forma muito sincera e direta às piadas do palhaço. Há uma crença comum na comunidade circense de que, se um novo número não fizer sucesso com as crianças, os adultos certamente não o aceitarão.

Há o público do dia a dia — as quintas-feiras são as mais difíceis, as pessoas estão cansadas e ansiosas pelo fim de semana, e o palhaço precisa se esforçar mais e dedicar mais tempo pra estabelecer um contato. Há também o público do fim de semana – avós com netos, pais com filhos, casais apaixonados – que estão em clima de relaxamento e diversão, e é mais fácil pro palhaço. O riso das crianças é sempre espontâneo, muito longo e estrondoso, mas se, por exemplo, a plateia estiver cheia apenas de soldados, a reação às piadas é explosiva, como se fosse um comando (risos): eles começam a rir ao mesmo tempo e depois param de rir ao mesmo tempo. É uma experiência interessante pro palhaço. Em geral, o ritmo da apresentação depende do público. O público também varia de cidade pra cidade.

Qual cidade tem mais circo?

Agora está tudo misturado. Mas, em geral, a cidade mais favorável ao circo é aquela com um circo permanente, funcionando o ano todo e com casas lotadas. Isso significa que o público não vem apenas uma vez por ano, mas regularmente, e, portanto, adquire um melhor entendimento das artes circenses. Na época soviética, todos os artistas de circo aspiravam a fazer turnês por Moscou ou Leningrado [atual São Petersburgo]. Pra um palhaço, Odesa, com seu humor característico e único, era o teste. Acreditava-se que, se suas apresentações fizessem sucesso lá, A URSS e a Europa inteiras estariam abertas pra você. Nosso país é um país circense; fomos líderes no cenário mundial por mais de 60 anos. Nenhum outro país no mundo tem tantos circos permanentes quanto a URSS e a Rússia hoje. As artes circenses sempre receberam apoio estatal e, por sua vez, desempenharam e continuam desempenhando uma função importante: a educação.

Por algum motivo, as artes circenses são menos comentadas do que a pintura, a música, a literatura e o teatro. O que torna as artes circenses únicas?

Fortalecem os laços familiares, porque a família inteira vai ao circo. As artes circenses são envolventes e acessíveis a públicos de todas as idades, não exigindo preparação especial, como ir à ópera ou a uma galeria de arte. E o circo é uma experiência memorável; não há tragédias ou dramas; proporciona uma visão positiva e otimista da vida, surpreende, alegra e impressiona.

O que um espectador deve levar ao sair do circo?

Com certeza, bom humor. O circo nos mostra a importância de acreditar em nós mesmos e em nossas habilidades, e a importância da continuidade geracional, já que os circos são administrados por dinastias, às vezes com duas ou três gerações de artistas na pista. E o circo também responde às perguntas da vida: o que é bom e o que é ruim, como tratar os animais e a natureza e como se comportar em diferentes situações.

Me deixe dar um exemplo. Eu tinha um espetáculo de palhaços chamado Cinderela, no qual as crianças, como espectadoras, participavam ativamente: com seus aplausos, gritos, berros e pisadas, elas salvavam a princesa, impediam que a madrasta malvada a maltratasse e lutavam por justiça. Intuitivamente, elas se aliavam ao bem e entendiam que estavam combatendo o mal. Com esses pensamentos e sentimentos, elas saíam do espetáculo e contavam aos outros como é importante lutar por justiça, ajudar, proteger e demonstrar compaixão pelos necessitados. É isso que as histórias de circo ensinam. Os princípios fundamentais de vida de uma criança são formados por meio da brincadeira, na qual ela se torna parceira dos artistas no picadeiro.

Recentemente você começou a dar aulas de palhaço na faculdade. Como isso se refletiu em sua vida?

Nossas vidas são feitas de acasos, e o acaso é um padrão. Acredito que sim. Agora trabalho no MosITI, o Instituto Iosif Kobzon de Artes Cênicas de Moscou. Lembro-me de Iosif Davydovich [não esqueçamos que ele sempre apoiou os terroristas no Donbás, onde fez shows] com muito carinho; fizemos turnês com ele pela América Central – Cuba, Costa Rica, Panamá – e até fomos ao Japão. Ele era um trabalhador esforçado, uma lenda, um verdadeiro patriota, que elevou a arte dos palcos ao mais alto nível. Sempre tive o mais profundo respeito por ele e, de repente, fui convidado pro instituto que leva seu nome! Se ele estivesse vivo hoje, provavelmente diria: “Oi, Tolia [forma carinhosa de Anatoli]! Vamos trabalhar!” Ele me tratou muito bem, e minha admiração por essa lenda vai permanecer pra sempre.

É ótimo que esse departamento tenha surgido, porque o gênero palhaço tem certos problemas.

Qual?

Há uma escassez de palhaços profissionais. É importante entender que não estamos mais falando de artistas fantasiados de palhaço, mas sim de palhaços com individualidade, filosofia e repertório próprios, que refletem seu mundo interior e sua atitude perante os acontecimentos atuais da sociedade. Se você percebeu, não há novos nomes surgindo no gênero palhaço. Infelizmente, existem programas de circo que funcionam sem um palhaço. O palhaço é o personagem central de uma apresentação circense, o orquestrador do humor do público; ele cria a integridade do espetáculo, ancora o programa; sem um palhaço, não há circo.

Durante 10 anos, apresentei o Festival Mundial de Palhaços no Circo de Iekaterinburg. Era uma celebração mágica de risos e humor. Apenas os melhores palhaços do mundo eram convidados pra este festival. E imagine, de uma população mundial de sete bilhões, só conseguimos encontrar 120 palhaços de verdade – indivíduos que representavam o humor de seus países. Todos tinham repertórios diferentes, mas eram igualmente vibrantes, alegres e talentosos. Repito, palhaços pintados, vestidos e coloridos não são palhaços; um verdadeiro palhaço é uma mercadoria rara. E tal mercadoria não aparece do nada. O nascimento de uma nova estrela dá um baita trabalho não apenas pro próprio artista (além do talento natural, uma atmosfera criativa, ensaios diários e domínio de vários gêneros são cruciais), mas também pra toda uma equipe (diretor, designer, compositor, intérprete, etc.).

Hoje, nós, educadores, enfrentamos uma tarefa ao mesmo tempo emocionante e desafiadora: repor o número cada vez menor de palhaços. Isso é emocionante pra nós porque envolve criatividade e criação. Somos, por assim dizer, pioneiros. Reunimos uma equipe de professores, todos profissionais de circo, experientes e conhecedores, um curso completo de palhaço. Nosso objetivo é não decepcionar.

Diga, o que faz o público de hoje rir? Como você pode fazer os visitantes do circo de hoje rirem?

Do que o público ri? Do engraçado! Mas a questão é o que exatamente é engraçado. O público é diferente e cada um tem um senso de humor diferente. Não há uma resposta específica. O que é engraçado está em constante mudança. O que fazia as pessoas rirem em meus números na URSS não fazia rir em Paris, mas o que era engraçado em Paris não evocava uma reação em nosso público doméstico. Leonid Iengibarov abriu sua própria página na história mundial dos palhaços; ele era um palhaço-filósofo. Ele fez coisas engraçadas e depois entrou num tom menor – um palhaço com o outono em seu coração. Ele tocou em temas de amor, gentileza, solidão. E Iuri Nikulin tinha temas sociais. Ele saía todo enfaixado e lhe perguntavam: “Iura, o que aconteceu? Você foi atropelado por um carro? Caiu da varanda?” E ele respondia: “Não, eu estava na fila pra comprar pratos.” Isso seria engraçado hoje? Não. Eles vão perguntar o que os pratos têm a ver com isso. Durante a era soviética, houve um tempo em que era difícil encontrar utensílios de mesa, com filas enormes nas lojas e, às vezes, até brigas [não lembra em algo a Black Friday?]. Esses eram os conflitos sociais da época...

Pra fazer os visitantes do circo de hoje rirem, você precisa ser capaz de ver o humor na vida a seu redor. Por exemplo, há um piano e um homem sentado numa cadeira, incapaz de alcançar as teclas. O que ele deve fazer pra alcançar o piano? Uma pessoa comum puxaria a cadeira. Mas um palhaço puxaria o piano em direção à mesa! [Tipo Mr. Bean?...] O teatro circense clássico é construído sobre a lógica da ilogicidade. Um palhaço torna engraçado o que não tem graça. Rimos de nossas deficiências, de nosso caráter, mas de uma forma gentil. Um palhaço é uma criança adulta que encara a vida com otimismo. Pra ele, tudo deve ser honesto, justo e, ao mesmo tempo, interessante e educativo, mas de uma forma lúdica.

O que devemos ensinar aos alunos de hoje, futuros palhaços, pra que se tornem verdadeiros artistas de circo?

É desejável que um palhaço domine vários gêneros, porque o circo é uma linguagem corporal, então é importante que ele seja diverso. Você pode tocar piano, pular ou fazer malabarismo. Quanto mais gêneros você dominar, mais expressivo vai ser e mais o público vai se envolver.

Você já teve a chance de “sentir” seus alunos? Que tipo de genética eles tinham?

Os jovens que vieram pra cá são muito bons, levam isso a sério! Alguns planejam trabalhar no teatro mais tarde, e pra eles, esse treinamento é uma maneira de expandir seu alcance de atuação e o aplicar às apresentações. Há aqueles que almejam uma carreira no circo. Muitos têm uma sólida formação de atores. O primeiro passo é determinar em que direção desenvolver cada um deles, e nós vamos lhes dar o máximo de ajuda e apoio possível.



Esse tiozão é um palhaço. Literalmente.

sábado, 12 de julho de 2025

Atuação de Iuli Martov (1917-18)


Endereço curto: fishuk.cc/martov

Embora meu primeiro serviço de tradução tenha sido publicado em 2017 na coletânea Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa, sob a coordenação de Daniel Aarão Reis (a quem sempre vou ser grato por essa oportunidade), esta semana decidi trazer à página alguns dos textos que foram aí publicados, pois certamente sofreram alguma alteração dos editores e algum dia o livro pode se tornar raridade. Em 2022 eu já tinha publicado minhas traduções que não saíram na coletânea, mas agora trago meus outros originais, ainda que sob o risco de estar infringindo algum direito autoral. Infelizmente, nem todos os documentos em russo me foram fornecidos com a indicação da fonte, portanto, ela quase sempre vai estar ausente, mas quando a base mesma da tradução tiver sido conservada, ela vai aparecer após minha tradução ao português, com a ortografia atualizada.

Hoje temos uma seleção dos principais discursos, entrevistas e atividades do chefe menchevique Iúli Mártov (1873-1923), nascido Iúli Tsederbáum, também conhecido como “L. Martov” (como o fundador da URSS, na clandestinidade, que assinava “N. Lenin”, e não “V. Lenin”) e que ficou à esquerda de seu partido durante a 1.ª Guerra Mundial, contra o combate ao lado dos aliados. Lembremos que a social-democracia (marxistas) russa se dividiu entre bolcheviques (programa máximo) e mencheviques (programa mínimo) em 1905 e daria origem a dois partidos diferentes em 1912. Os bolcheviques, que se renomearam “comunistas”, tomaram o poder em 1917, mais tarde jogando na ilegalidade os mencheviques, partes dos quais, porém, passou a apoiar o Poder Soviético em seus inícios. Um deles foi Martov, que só se exilou na Alemanha em 1920 devido a uma forte tuberculose, que finalmente o matou em 1923.

Mantive a formatação do arquivo original, tanto os negritos quanto a divisão dos parágrafos, o que levou alguns a ficarem longuíssimos. Como não tive tempo de fazer novas revisões, me responsabilizo por eventuais erros ou imprecisões. Qualquer observação é bem-vinda, bastando escolher um dos canais de comunicação que apresento no menu à direita da página.


SESSÃO NOTURNA EXTRAORDINÁRIA DO COMITÊ EXECUTIVO CENTRAL DOS SOVIETES DE DEPUTADOS OPERÁRIOS, SOLDADOS E CAMPONESES

A sessão é aberta às 12 horas e 25 minutos da madrugada sob a presidência do cam. Gots. O presidente comunica à assembleia que na ordem do dia consta a questão sobre a avaliação do momento presente.

Discurso de Martov – Sobre a questão dos acontecimentos em curso, o cam. Martov assinala que sem dúvidas, entre os membros do Comitê Executivo Central (CEC), não há quem negue o direito do proletariado à insurreição. Mas no atual momento as condições para tanto não são favoráveis. E embora os mencheviques internacionalistas não se oponham à passagem do poder para as mãos da democracia, eles se manifestam decididamente contra os métodos pelos quais os bolcheviques lutam por esse poder. O cam. Martov encerra com a indicação de que o CEC fez bem, que colocou na ordem do dia da sessão a questão sobre o momento presente, pois ele não cumpriria seu dever revolucionário se não realizasse um balanço das forças. Martov conclama a assembleia a aderir à resolução adotada pelo Conselho da República.

“Rabochaia gazeta”, 26 de outubro de 1917, n. 196.


O CONGRESSO DOS SOVIETES

Antes da abertura – Ao abrir-se o Segundo Congresso Pan-Russo dos Sovietes estavam presentes 562 delegados, dos quais 532 indicaram ser de um partido. Os delegados partidários se repartem da seguinte forma: 252 bolcheviques, 15 internacionalistas unificados, 65 mencheviques (dos quais 30 internacionalistas e 21 defensistas [oborontsy]), 7 sociais-democratas nacionais, 155 socialistas revolucionários (SR, dos quais 16 de direita). [...] Ocorrem o tempo todo reuniões das frações do congresso, principalmente dos mencheviques e SR. Às 9 horas da noite verificou-se que os mencheviques, também incluídos aí os internacionalistas, não julgam possível apoiar nem mesmo indiretamente a aventura bolchevique nem entrar em qualquer combinação que seja, com relação à composição dos órgãos de poder. Por isso os mencheviques decidiram renunciar à participação no congresso e, tendo manifestado sua declaração, abandoná-lo.


Abertura do congresso

PROPOSTA DE MARTOV – Em nome da fração menchevique internacionalista e do Partido Operário Social-Democrata Judeu, Martov apresenta a proposta, em primeiro lugar, de colocar na ordem do dia a questão da resolução pacífica da crise estabelecida. Martov declara que a fração menchevique internacionalista não julga possível assumir a responsabilidade política pela aventura empreendida pelos bolcheviques. Cumpre tomar medidas, diz o orador, para suspender as operações militares de ambos os lados. Martov insiste em que a questão da resolução pacífica dos conflitos seja colocada em primeiro lugar para ser decidida pelo congresso, pois ela é extremamente séria e a guerra civil já começou. Todas as frações aderem à proposta de Martov.


RESOLUÇÕES DOS MENCHEVIQUES

Considerando: 1) que uma conspiração armada foi organizada e realizada pelo partido bolchevique em nome dos Sovietes pelas costas de todos os outros partidos e frações neles representados; 2) que a tomada do poder pelo Soviete de Petrogrado na véspera do Congresso dos Sovietes constitui uma perturbação e uma sabotagem de toda a organização soviética e solapou o significado do congresso como representante plenipotenciário da democracia revolucionária; 3) que essa conspiração está arrastando o país a uma guerra intestina, frustrando a Assembleia Constituinte, concorrendo para a catástrofe militar e levando ao triunfo da contrarrevolução; 4) que a única saída pacífica possível dessa situação continuam sendo as negociações com o Governo Provisório sobre a formação de um poder baseado em todos os estratos da democracia; 5) que o POSDR (unificado) considera sua obrigação diante da classe operária não apenas afastar de si toda responsabilidade pelas ações bolcheviques encobertas pela bandeira dos sovietes, mas também advertir os operários e soldados contra uma política aventureira e nociva para o país e a revolução; a fração do POSDR (unificado) está deixando o presente congresso, convidando todas as outras frações que, assim como ela, recusam-se a levar a responsabilidade pelas ações dos bolcheviques, a reunirem-se imediatamente para debater a situação.

“Rabochaia gazeta”, 26 de outubro de 1917, n.º 196


O CONGRESSO DOS SOVIETES

Na sessão noturna de 25 de outubro, após as declarações dos S[ocialistas] R[evolucionários] e dos mencheviques, o cam. Erlikh toma a palavra para uma declaração não inscrita na ordem do dia.

Segunda declaração do cam. Martov – As notícias que se apresentam aqui exigem de nós, com ainda mais insistência, passos resolutos. (Aparte: “Que notícias? São apenas boatos”.) Aqui se relatam não apenas boatos, mas se vocês chegarem mais perto das janelas, também ouvirão os disparos de canhões. Se vocês querem que seu congresso seja idôneo não apenas porque ele está constituído conforme quaisquer estatutos, mas porque ele replica aos terríveis fatos do dia, vocês devem imediatamente adotar uma resolução afirmando que o congresso considera indispensável a resolução pacífica do conflito. É preciso formar imediatamente um governo democrático inclusivo, o qual a democracia toda reconhecesse. O congresso precisa dizer se deseja cessar o banho de sangue. Para encerrar, o cam. Martov pronuncia a declaração dos mencheviques internacionalistas e do partido operário socialista judeu “Poalei Tsion”.

A saída dos internacionalistas – O cam. Kapelinski apresenta a declaração não inscrita na ordem do dia, em nome dos mencheviques internacionalistas e o partido operário social-democrata judeu “Poalei Tsion”. Acreditamos que no presente momento a situação é terrível, e cumpre tomar medidas urgentes para evitar uma guerra civil que arruinará a revolução. É necessário encontrar um caminho pacífico para solucionar a crise, e quanto a isso nada há a discutir. De nossa parte foi feita a proposta de enviar uma delegação a todas as organizações democráticas para formar um poder democrático. Nossa proposta não apenas não encontrou simpatia, mas também recebeu desaprovação. Tudo isso nos obrigou a abandonar a sessão do congresso. Mas cada momento é precioso, e visto que, apesar de tudo, a atitude negativa para com nossa proposta não teve aqui manifestação incisiva, então voltamos para colocar a questão de uma discussão imediata. Pois bem, nós propomos novamente escolher uma delegação que vá a cada organização democrática. Podemos e devemos todos convergir quanto a isso se queremos realmente formar uma frente revolucionária unida. Lembrem-se de que tropas estão se aproximando de Petrogrado! A catástrofe nos ameaça! Se uma delegação não for imediatamente escolhida, nós sairemos do congresso.


CONGRESSO NACIONAL EXTRAORDINÁRIO DO POSDR (unificado)

O congresso é aberto em 30 de novembro, ao meio-dia.

O atual momento – Esgotadas as declarações não inscritas na ordem do dia, o congresso passa a discutir o primeiro ponto da ordem do dia: a questão do atual momento e das tarefas do partido na Assembleia Constituinte. Informantes: Liber, Martov e Potresov.

Discurso de Martov – O próximo a discursar é o cam. Martov. O golpe de 25 de outubro não foi casual, mas predeterminado pelo curso inteiro da revolução russa. O encerramento da guerra, a criação de condições para o desenvolvimento normal da vida econômica e a solução radical da questão agrária são os três problemas fundamentais de nossa revolução. Elas foram rapidamente assimiladas pelas massas, e o curso ulterior da revolução dependia de quais forças sociais podiam se candidatar para realizar essas tarefas. Objetando ao cam. Liber, o cam. Martov afirma que no curso da revolução, os burgueses podem implantar as fundações da nova ordem, mas a própria revolução pode ultrapassar as forças criadoras deles e, como se deu com as revoluções no Ocidente, pode chegar uma hora em que a revolução burguesa vai se desenrolar contra a burguesia. Isso também ocorreu conosco. Em seguida o cam. Martov demonstra que a democracia pequeno-burguesa e rural não tinha forças para realizar as tarefas da revolução, por não ver em si a vontade de livrar-se da atração pelas classes possuidoras, de atuar sem elas e contra elas. A coalizão com a burguesia e o esforço em fazer a todo o custo o poder de Estado na revolução representar toda a nação tornaram a pequena burguesia imprestável para o papel de líder nacional da revolução, apesar de toda a possibilidade de receber o apoio do proletariado. E aqui uma notável parte da responsabilidade recai sobre nosso partido, que graças às particularidades da evolução da revolução russa exerceu tão forte influência sobre a democracia pequeno-burguesa. Com nossa atitude para com a ideia de coalizão tão longamente predominante no partido, nós refreamos a autodeterminação da democracia burguesa. Há muito a coalizão já estava superada, e apenas a ação bolchevique de 3-5 de julho prolongou seus dias. A rebelião de Kornilov, tendo despertado uma enorme elevação de energia nas massas da democracia, criou um fato novo: em quase toda a parte os poderes locais passaram para as mãos dos órgãos revolucionários. Isso criou um ensejo para uma difusão extraordinariamente ampla da ideia de um governo revolucionário homogêneo. Mas a deliberação democrática não seguiu por esse caminho, e resultou que a aguda contradição entre o humor das massas e a organização do poder central ficou visível a todos; e a única pergunta era se ocorreria um estouro antes da Assembleia Constituinte ou se esta o debelaria. Tanto à esquerda quanto à direita havia grupos interessados em que a questão fosse resolvida por meio de uma explosão espontânea. A coalizão com os burgueses, pela incapacidade deles de cumprir as tarefas da revolução, impeliu o proletariado à ideia de que a solução delas era viável com suas próprias forças. Isso isolou os proletários, tanto mais que a mobilização de 10 milhões de camponeses fez da massa de soldados provisoriamente marginalizados um aliado do proletariado. Deu-se então que o caminho espontâneo já é uma realidade. Antes de tudo devemos constatar que o golpe de outubro, apesar de contrariarmos seu formato, impôs-se tarefas objetivamente progressistas. É indiscutível que o golpe, como toda tentativa de colocar tarefas objetivamente irrealizáveis, pode ser o prólogo da contrarrevolução, pois do contrário ele não pode terminar em fracasso. A única questão é sobre de que forma será efetuada a liquidação desse golpe: se na forma da derrocada da revolução russa ou por meio da restauração da unidade do movimento proletário e da coordenação das forças do proletariado e da democracia pequeno-burguesa. O fato de não estarem cumpridas as tarefas básicas da revolução e de serem impróprios os meios adotados pelos bolcheviques para resolvê-las vai criar a possibilidade de seguir uma segunda via. Isso explica a popularidade do lema do poder revolucionário unido, dos s[ocialistas] p[opulares] aos bolcheviques. Essa é a única chance de salvar a revolução. Pode ser que quando os bolcheviques concordarem com ela, já será tarde; mas nossa tarefa é tomar uma posição que evite à responsabilidade por esse fracasso recair sobre o partido da classe operária. Toda nossa tática na Assembleia Constituinte deve ser construída de forma que esse princípio básico oriente cada [membro] individual de nosso partido. Alguns nutrem a ilusão de que na Assembleia Constituinte, graças à vitória dos s[ocialistas] r[evolucionários], será possível um governo homogêneo sem os bolcheviques e sem elementos censitários. É um engano. Tal poder precisaria se esquivar da pressão das massas proletárias, ainda majoritariamente atraídas pelos bolcheviques, e ele seria, além disso, obrigado a apoiar-se na fração direita da Assembleia Constituinte, o que significaria uma restauração dissimulada da coalizão. Mas agora, depois do que aconteceu, tal coalizão só é possível passando por cima dos cadáveres do movimento proletário. Mesmo que apenas parte da burguesia se aloje no poder, resta-lhe apenas atuar como uma ditadura contrarrevolucionária. O proletariado deve recusar os métodos anárquicos da ditadura contra a democracia; mas a democracia também deve renunciar à ideia de formar um poder sem os proletários. O orador antevê que o desenrolar da luta pelo poder na Assembleia Constituinte será inevitável, e que os atuais detentores do mando não vão largá-lo sem luta. Mas a luta do partido do proletariado deve ser entendida como uma luta por uma reeducação, ou melhor, por uma primeira educação política. À medida que forem crescendo os inevitáveis conflitos internos dos bolcheviques, devemos aparecer na qualidade de uma força que coligue o proletariado em torno da ideia da Assembleia Constituinte. Não temos interesse em acelerar a crise, objetivo que, conforme vemos, é o dos bolcheviques. Para nossos fins, pelo contrário, é proveitosa uma solução gradual da crise. Devemos admitir, além disso, que não temos influência sobre as amplas massas, e nossa tarefa é congregá-las. Para isso, devemos conservar a plena independência de classe. Claro que isso não exclui acordos, mas exclui a dissolução. Precisamos de uma política tal que não nos acomode a incluir todas as forças num só organismo, pois o resultado comum deve resultar da luta dessas forças.

Sessão matinal de 1.º de dezembro – A sessão é aberta ao meio-dia, sob a presidência do cam. Krokhmal. Na ordem do dia está a discussão dos informes sobre a questão do atual momento e das tarefas do partido na Assembleia Constituinte.

Discurso de Martov – Martov começa objetando aos oradores precedentes. Potresov havia proposto combater o bolchevismo tal como os socialistas da Europa Ocidental combatem o antissemitismo. Mas agora a única questão é se eles vão se aliar à burguesia para reprimir os bolcheviques ou lutar apenas por meio da crítica. Os socialistas europeus lutaram contra um socialismo que estava levando os operários a morrer na guerra. Zhores havia até mesmo proposto um acordo e foi nisso apoiado por Kautsky. Levitski diz que eles não podiam “acomodar-se”. Não, em ampla medida era preciso: devia-se atuar de acordo com as circunstâncias. A base do movimento bolchevique repousa na incapacidade de uma coalizão realizar as tarefas da revolução. A realidade mostra que muito podia ter sido feito, mas não o foi a fim de se conservar a coalizão. Trotsky, por exemplo, conseguiu agora a libertação de Chicherin. E o que foi feito quanto a regularizar a indústria e out[ras] questões? Reduzir o bolchevismo às suas aventuras significa fechar os olhos à realidade. Dizem que um acordo com os bolcheviques é inadmissível. Mas no caso contrário é de fato inevitável uma coalizão com uma burguesia dirigida para promover a contrarrevolução aberta por longos anos. Se a burguesia tomar a mão de vocês, será apenas para esmagá-la com a dela mesma. Potresov acerta ao dizer que o regime bolchevique atrai os aventureiros, só que eles também não eram poucos em torno de Kerenski. Era um despotismo, embora muitíssimo esclarecido, mas ele habituava as massas ao arbítrio e com isso deu espaço à insurreição. Potresov censura que em nossos construtos concedemos pouco espaço à Assembleia Constituinte, o que é falso. As teses de meu informe desmentem isso. Pensamos que apenas fortalecendo as instituições democráticas o proletariado pode vencer. Um acordo com os bolcheviques, claro, é um compromisso. Mas é óbvio que com a questão do caráter burguês da revolução não se deve transigir. Um terreno para o acordo só pode se formar no curso dos acontecimentos, da desilusão das massas com o bolchevismo e da separação delas de seus chefes. Por enquanto esse terreno não existe, e talvez ele nem vá existir. Mas nossa consciência estará limpa. Potresov pensa que, isolando-nos do menchevismo e isolando o proletariado, conseguiremos que as massas, tendo se desiludido com o bolchevismo, virão até nós. Não, elas continuarão rodando e varrerão também a nós. Talvez seja isso que acontecerá. Mas é possível que a salvação esteja apenas em manter o movimento ofensivo da revolução, em cumprir as tarefas dela.


Seção noturna de 2 de dezembro

Discurso de Martov – Parte do congresso transformou os debates sobre a questão da guerra e do armistício num tribunal contra os internacionalistas. Isso se faz com vistas a utilizar a ruína do bolchevismo para desacreditar o internacionalismo e renovar a ideia nacional. Ontem nos gritavam: “O que vocês fizeram!”. Só que não fizemos uma política independente diferente da nossa. Seguindo nossa política, em 3-5 de julho, quando os bolcheviques chamaram à rua, nós não os acompanhamos. Também não os acompanhamos quando eles traduziram no front nossas ideias para a língua deles. Não fizemos isso porque não acreditávamos no internacionalismo e no socialismo das massas. Não acreditávamos na paz, à revelia e contra a maioria da democracia. Por isso nossa luta foi orientada para a conquista dessa democracia, ao esclarecimento classista das massas que nos seguiam. E visto que a política de vocês afastava da social-democracia as massas, nós a mantivemos, mesmo que num grau mínimo. Nossos êxitos não são grandes: as eleições mostraram isso. Mas há alguns: de congresso em congresso aumentam nossas forças dentro do partido. Não temos responsabilidade direta pelo que foi feito para alcançar a paz. Mas também não podemos ser acusados daquilo que é culpa dos bolcheviques, pois sempre lutamos contra a interpretação bolchevista das ideias internacionalistas. Estão nos acusando de intervenções contra o “Empréstimo da Liberdade”. Nós discursamos contra ele não porque esse dinheiro deveria ter sido gasto em canhões e espingardas, mas porque ele se destinava a canhões e espingardas inúteis. Para nós já em junho estava claro que era impossível reduzir o exército. Entretanto, apenas em setembro Verkhovski apresentou um projeto de tal redução, e exatamente graças a isso ele teve de ser retirado. Uma redução das forças armadas agiria em proveito da Aliança imperialista e nos interesses de nossos industriais. A questão sobre a existência futura da Rússia não se decide nem com um armistício, nem com uma paz assinada antes da Assembleia Constituinte, nem com uma paz que a assembleia será forçada a reconhecer. A questão sobre o futuro da Rússia pode ser reconsiderada. É indispensável renunciar à política da coalizão, cuja ruína foi mostrada quando não se realizou nem a Conferência de Estocolmo, nem a de Praga. Devemos colocar o partido nos trilhos da luta de classes e lembrar que nossas esperanças devem estar fundadas não na possibilidade de desforra, mas na avaliação do movimento democrático no Ocidente. Dessa forma pode-se conseguir que a insurreição bolchevique também se mostre um passo adiante no curso da revolução.


Sessão de 4 de dezembro – A sessão é aberta ao meio-dia. A palavra sobre a questão da unidade do partido é concedida a Iezhov.

Discurso de Martov – Passa-se a palavra final para o cam. Martov. Martov declara que os internacionalistas nunca ameaçaram sair do partido, como disse Dan. Eles não saíram sequer do Comitê Central (CC). Foi um mal-entendido, imediatamente elucidado, quando os internacionalistas decidiram retirar seus representantes da composição representativa do CC no Comitê de Salvação, mas Abramovich comunicou por engano que haviam sido retirados seus representantes do CC. Já os defensistas, 11 pessoas, realmente haviam saído. Somos acusados, por um lado, de termos reprimido com nossos votos opiniões contrárias às nossas no CC, formando uma maioria artificial, e, por outro lado, com uma organização própria, de termos combatido esse mesmo CC. Enquanto a possibilidade de termos maioria no CC era apenas eventual, é verdade que nos recusamos a fruir essa eventualidade. Mas o compromisso de não fruirmos nossos votos nós não demos. E quando, depois de 25 de outubro, o centro e nós formamos uma maioria bastante regular, estaríamos falseando a vontade do partido se, renunciando ao voto, tivéssemos formado uma maioria artificial na ala direita. Entenderam meu informe como um fundamento de divisão. Foi um erro. Penso que no partido deve haver disciplina, mas em condições de unidade orgânica das diversas tendências quanto ao essencial, e não o domínio de uma fração sobre a outra. Cumpre reconhecer apenas o princípio organizativo geral, deixando que o tato dos centros e frações o ponha em prática, que a consciência de cada fração decida se pode ou não permanecer nas fileiras do partido, tendo aceitado esse princípio. O princípio é reconhecer como critério diretor as noções de solidariedade internacional do proletariado e de luta de classes. Encerrou-se a discussão sobre a questão da unidade do partido. Para elaborar uma resolução sobre essa questão, o congresso elegerá uma comissão composta por Kibrik, Akhmatov, Iezhov e Martov. O congresso passa a discutir as questões sobre a atitude do partido diante da formação de províncias nacionais autônomas, agora ocorrendo em toda a parte, e sobre as necessidades que daí decorrem de mudar as formas como o partido está estruturado. A seção do congresso que estudou essa questão para aprovação unânime não chegou; por isso discursam os informantes de ambas as correntes nela delineadas – os cams. Liber e Semkovski.


Sessão de 7 de dezembro

Discurso de Martov – Eu partilho da opinião expressa na resolução de Martynov. Acredito ser possível entrar na CEC (Comissão Executiva Central), mas apenas quando se formarem condições adequadas para tanto. Saímos do congresso porque percebemos o naufrágio da linha anterior do Soviete e, ao mesmo tempo, o naufrágio de nosso partido. Não julgamos possível permanecer na qualidade de um pequeno e fraco grupo de protesto. Mas com relação a isso a situação agora não está melhor. As eleições mostraram isso. Porém, tenho esperança de que, quão rápido as massas se afastaram de nós, tão rápido pelas também podem nos retornar. E nós, nesse caso, já apoiados nas massas, devemos conduzir a luta não apenas fora, mas também dentro do Smolny. Por isso, não convém atar as mãos ao Comitê Central. Dan manifesta pouco alcance de visão ao não notar que a questão da participação nos Sovietes está estreitamente ligada à política expressa na fórmula “dos NS aos bolcheviques”. Considero prematuro e perigoso dizer que os Sovietes já devem ceder lugar a organizações políticas normais. Se novamente, assim como ocorreu nas jornadas de Kornilov, surgir um perigo contrarrevolucionário, formar-se-á mais uma vez o terreno para a existência dos Sovietes. Todas as revoluções conhecem organizações de massa não autorizadas, e essas organizações sempre se revelam dispostas a lutar contra os órgãos do sufrágio universal. Seria isso fatal? Eu penso exatamente que nossa política de acordo possibilita uma transição indolor do período revolucionário a um regime democrático normal. Essa política colabora para transformar os Sovietes em órgãos normais de pressão política.


1918
Congresso extraordinário
(Quarto Congresso dos Sovietes)

Discurso de Martov – O discurso de Martov causa forte impressão. Em particular prestam muita atenção ao orador quando ele fala da premência em designar uma comissão de inquérito para esclarecer em que circunstâncias foi dada a ordem para que o exército se desmobilizasse, enquanto ele podia ainda oferecer resistência. É preciso achar o culpado. O governo que levou o país a tal situação deve renunciar imediatamente e ceder o poder a uma democracia que o país inteiro reconheça. Onde estão as palavras de Trotsky sobre a guerra santa? – pergunta o orador. Faz muito pouco que Trotsky disse: “Se a Alemanha se recusar a assinar uma paz democrática, nós lhe declararemos uma guerra santa”. Onde está essa guerra? Exigimos – Martov conclui seu discurso – a convocação imediata da Assembleia Constituinte. Abaixo os imperialistas e seus capatazes! Martov desce do púlpito. Ouvem-se tempestuosos aplausos à direita e vaias à esquerda.

“Vecherniaia zvezda”, 16 de março de 1918, n.º 34.


Guerra e paz
(Discursos de Abramovich e Martov)

Com esse nome os mencheviques unificados realizaram ontem seu comício no Museu Politécnico. O comício atraiu um numeroso público, que superlotou a plateia e o balcão; compareceram 2 mil pessoas. Ao contrário do congresso dos Sovietes que se reunia ao lado, o humor aí era acerbamente antibolchevique. Vivo e repleto de ataques espirituosos, o informe de R. Abramovich foi recebido com um entusiasmo já há muito perdido em nossas reuniões públicas; nos momentos mais impressivos, o salão, tomado pela juventude intelectual e operária, lança ao orador entusiásticas ovações que constituem uma sólida manifestação contra os bolcheviques. A guerra civil na Ucrânia, dizia o orador, e a dissolução da Assembleia Constituinte assinalam a desintegração da Rússia em pedaços distintos. Os bolcheviques, agindo sobre os instintos profundos da multidão, conseguiu não a ditadura camponesa e operária, mas uma tirania do grupo predominante no comitê central bolchevista. A afirmação de Lenin de que a paz vergonhosa foi consequência da política do absolutismo e de Kerenski é falsa. Por acaso em 24 de outubro os alemães podiam ter ocupado Dvinsk com uma dezena de soldados em bicicletas? Será que 2 mil soldados russos teriam então fugido de sete alemães, como se passou em fevereiro? Teriam baterias e automóveis sido vendidos ao inimigo, e nas ruas de Petrogrado as metralhadoras saído por 25 rublos cada? E não foi em fevereiro que a tripulação de um célebre cruzador russo vendeu toda a mobília, louça e peças de cobre e dividiu o lucro em 8 mil rublos por cabeça?! Pergunto a vocês, camaradas, quem nos levou a isso?... De todos os lados da plateia se ouvem os brados: “Lenin, Trotsky...” O intento de reconstruir o exército em 24 horas sob princípios eletivos, continua o orador, foi uma ideia absurda, e o desejo dos bolcheviques de tomar o poder arruinou o exército. Em seguida o informante analisa as condições da paz e aponta que o pagamento aos alemães por meio de empréstimos russos equivalerá a liquidar o decreto sobre a anulação dos empréstimos, pois o capital é internacional. A leviandade fanfarrona dos bolcheviques em geral e, em particular, o “gesto vermelho” de Trotsky em Brest nos deram esse tratado vergonhoso recém-anunciado no congresso. Os bolcheviques não podem invocar as faltas de seus antecessores: eles estão no poder e eles são culpados. O informante folheia uma brochura com o acordo de paz e se espanta: onde está o mapa definindo os limites da ocupação alemã e as fronteiras do Estado ucraniano? O tratado faz referência a esse mapa, mas o congresso está obrigado a ratificar a paz às cegas. O orador passa a criticar as condições econômicas da “paz vantajosa”, como é agora chamada na Alemanha, pois ela dará a cada alemão 102 gramas a mais de pão todo dia. Na opinião do orador, o operário russo está doravante condenado ao papel de escravo do capital alemão. O informante encerra caracterizando o telegrama de Wilson ao congresso como uma advertência nos dizendo que em breve a Rússia será uma arena de luta entre as duas coalizões inimigas. Nossa única salvação é nos unirmos e cerrar forças para nos fortificarmos contra a próxima investida. Se criarmos nos Urais um centro de defesa e ao encerrar-se a guerra mundial restaurarmos ao menos em parte nossa potência de combate, termos de ser levados em conta e obrigaremos os imperialistas ocidentais a anularem as condições infamantes da paz bolchevique. Com essa paz, os bolchevistas destroçaram o socialismo alemão; seria cômico esperar que o operário alemão fizesse a revolução contra um poder que lhe deu o pão e a banha ucranianos, a manteiga siberiana, o metal e o carvão russos. Não há pelo que culparmos o operário alemão! O orador termina exigindo que se resista ao inimigo, o que só é possível realizando uma série de premissas políticas: é preciso restaurar a frente única revolucionária e unificar a terra russa. A melhor saída agora é recusar-se a ratificar o tratado de paz e convocar a Assembleia Constituinte. As últimas palavras do orador foram cobertas por tempestuosas e muito demoradas ovações de todo o salão em honra da Assembleia Constituinte. Pronunciando o último informe, L. Martov ilustra em pessoa a luta aferrada que é preciso sustentar no congresso da “oposição”, como testemunham seu semblante exausto e sua voz rouca. Daqui a algumas horas se decidirá a questão da assinatura da paz, diz ele, o que não significará o encerramento da guerra. Essa paz é um ato de partilha da Rússia, e se o país não acordar, ela será o prólogo do desmembramento final. Ao encerrar, L. Martov destaca a importância de terem os bolcheviques mudado o nome de seu partido, transformando-se em “comunistas”: o bolchevismo renegou a social-democracia, e ela não arcará com a responsabilidade pela paz desastrosa. Se for verdade a afirmação de que a revolução está rolando montanha abaixo, então é melhor morrer do que se entregar. Nossa missão é lutar contra a paz humilhante e para restaurar a república democrática. Somente uma Rússia democrática livre libertará os povos irmãos traídos pelos bolcheviques e guiará os povos rumo à reconstrução da Internacional operária. A plateia aplaude ruidosamente o orador. As posições que ele manifesta são tão compartilhadas pelos presentes que não se encontra quem queira contestá-las, e o comício termina sem debates.

“Russkie vedomosti”, 16 de março de 1918.


Os mencheviques e o Poder Soviético

(Entrevista com L. Martov) Pela última vez nos jornais soviéticos mencionava-se a desagregação do partido social-democrata e a passagem massiva de seus membros para o comunismo. Nessa ocasião, nosso colaborador entrevistou uma das figuras mais destacadas desse partido, L. Martov, para que explicasse a verdadeira versão dos fatos. – São reais os rumores – foi a primeira pergunta – sobre uma aproximação entre os mencheviques e o poder soviético? – Pelo visto você se refere ao artigo de Radek sobre “Uma voz da sepultura”, no Pravda. Ele percebe como uma tentativa de aproximação a nossa resolução em que não falamos da Assembleia Constituinte, mas exigimos apenas “uma radical mudança na política do poder soviético”. Está claro que é um absurdo. Uma radical mudança na política soviética é indispensável no crítico momento atual para que as massas populares da Sibéria, dos Urais, da Ucrânia etc. não receiem em unir-se à Grã-Rússia nem se aliem à ocupação estrangeira, que consideramos perniciosa. – Quer dizer então que vocês concordam em conciliar-se com o poder soviético? – De jeito nenhum. Permaneceremos convictos de que apenas na soberania popular, na república democrática as classes trabalhadoras encontrarão o expediente para libertarem-se e salvarem uma revolução ameaçada de todos os lados. – Mesmo assim vocês não desistem da Assembleia Constituinte? – E por quê? Mesmo sob o tsarismo avançamos a cada momento dado exigências cuja realização tornaria mais favoráveis as condições para alcançar a república e convocar a Assembleia Constituinte. Isso em nada implicava, como então nos acusavam os amigos do sr. Radek, a traição ao mote da Assembleia Constituinte. Assim procedemos também agora. – Então seu partido permanecerá na oposição, mesmo que mudem os rumos da política do poder soviético conforme vocês exigem? – Claro, pois a parte do proletariado que nos seguiu não pode confiar num “socialismo imediato” nem na construtividade dos meios pelos quais ele está se implantando. – E o que há de verdade ao dizerem que as massas que seguiam os mencheviques estão os deixando? – Não conheço nenhum fato que respaldasse isso. Pois os argumentos que usam para nos combater residem apenas em povoar as prisões com membros de nosso partido, em fechar todos os nossos jornais e organizações, em declarar nosso partido “fora da lei”. O grau de evolução da classe operária russa não é tal que convencê-la fosse possível aos detentores de semelhantes argumentos. – Mas Radek afirma que vocês podem constatar a saída das massas “pelas listas de membros de seu partido”. – Ah, não. Na maioria dos casos essas listas são reguladas pelas chekas, que com elas realmente reduzem os quadros de nosso partido, mandando-os em parte para o xadrez, e outros (como em Rybinsk, Nizhni [Novgorod] etc.), direto desta para melhor. – Porém, o senhor assentiu que politicamente seu partido atualmente está morto. – Ora, parece-me que a notícia de nossa morte é “um tanto exagerada”, como dizia Mark Twain. Tenho essa segurança ao ver que os nobres comunistas, embora nos declarem como um cadáver, já faz dois meses que não param de se interessar e se ocupar com o que pensamos e o que pretendemos fazer. Como sabemos, sobre os mortos se deve ou falar bem, ou não falar nada. Verdade, esse é um preconceito burguês, mas os comunistas fazem a mesma coisa. Veja por exemplo F. Lassalle. Esse “social-traidor” via no sufrágio universal o alfa e o ômega da ditadura do proletariado. Porém, não apenas lhe ergueram um monumento, como durante sua inauguração nem Lunacharski nem Zinoviev mencionaram suas fraquezas, e nem sequer uma vez o chamaram de “social-canalha” ou “lacaio da burguesia”, e até verteram para o defunto algumas lágrimas mornas. Enquanto isso, embora inventem histórias sobre nós “como que falando de mortos”, continuam nos dirigindo todo tipo de obscenidade. Disso concluo que estamos vivos, apesar de tudo. Em absoluto – diz L. Martov encerrando – a social-democracia marxista é um pessoal muito resistente.

“Utro Moskvy”, 21 de outubro de 1918, n.º 19.



terça-feira, 10 de junho de 2025

De volta pra Yalda do futuro


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Mais uma entrevista do programa diário The World with Yalda Hakim na Sky News (9 de junho de 2025) que degenerou em bate-boca – embora desta vez mais “amigável” –, portanto, em meme. Se bem que nesse caso ele se deve muito mais à semelhança entre as duas envolvidas do que à aparência da treta em si... Sherry Rehman é senadora do Paquistão e vice-presidente do Partido Popular do Paquistão, pertencente (não é uma metáfora!) à dinastia familiar dos Bhutto, que sempre fez oposição ao outro grande partido, a Liga Muçulmana do Paquistão. Este mesmo possui diversas facções, e uma de suas cisões pertence (também sem metáfora!) ao atual primeiro-ministro, Nawaz Sharif, membro da outra grande dinastia política.

A única tentativa de quebrar esse bipartidarismo de fato foi o governo do ex-astro do críquete Imran Khan, que foi premiê por um tempo, mas depois foi deposto e preso sob a acusação de (que novidade!) corrupção. Hakim tentou ao máximo apresentar a Rehman fatos sobre o apoio paquistanês a grupos terroristas muçulmanos, muitos dos quais cometeram atrozes atentados na Índia, mas a senadora sempre negava e se esquivava. Nesse aspecto, todas as dinastias políticas de Islamabad se assemelham... Mas além da “sabonetada”, ficou engraçado como Rehman se parece um pouco com Hakim, só que com mais “botoque” e muito mais batom e pó-de-arroz.

Óbvio que a conversa foi em inglês, mas Yalda Hakim nasceu em 1983 em Cabul, capital do Afeganistão, e com poucos meses de vida sua família fugiu pra Austrália. E ela também é fluente em hindi, urdu (na verdade, duas variantes literárias do “hindustâni”), persa, dari (também duas codificações do mesmo idioma) e pastó (ou pashto). Acho que por eu ter visto uma vez uma entrevista dela em urdu, devo ter pensado que ela fosse paquistanesa, mas em todo caso, os dois países são muito próximos: os mujahedin resistiram à injustificável agressão soviética, mas os Talibã como ideologia nasceram exilados no Paquistão. É uma grande jornalista cujo trabalho todos os brasileiros deviam conhecer!



sábado, 31 de maio de 2025

Duas Romas: Francisco e Cirilo (2022)


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Nesta crônica de Slimane Zeghidour ao Journal international da TV5MONDE, em 17 de abril de 2022, ele dá uma interessante explicação sobre as diferenças persistentes entre o papa de Roma e o patriarca de Moscou. Sempre gosto de todas as suas análises, embora em meados de fevereiro daquele ano ele não acreditasse que a Rússia pudesse invadir a Ucrânia! O jornal vai ao ar todos os dias, ao meio-dia, e a âncora Isabelle Malivoir segue no comando, mas pessoalmente a achei meio mal-educada: imagine, duvidar da capacidade de compreensão da audiência ou talvez da habilidade explicativa de Zeghidour!

No começo da invasão, Francisco ainda mantinha uma posição crítica, mas com o tempo foi sendo cada vez mais acusado de leniência diante de Putin, até sua morte, em 21 de abril de 2025. O novo pontífice, Leão 14, foi mais incisivo contra a agressão, mas enquanto líder espiritual, permanece a necessidade permanente de ser mais “pragmático” quanto a uma aproximação com o patriarca Cirilo. Apesar do atraso, ainda acho uma tradução interessante.



– Junto-me a Slimane Zeghidour, nosso colunista e especialista em religião. Olá, Slimane. Então, uma bênção Urbi et Orbi repleta de uma mensagem aos grandes e poderosos neste tempo de guerra. Trata-se de uma mensagem política do papa ou ele está agindo em sua capacidade de chefe da Igreja Católica?

– Ambos, porque ele é o chefe da Santa Sé e, portanto, o líder espiritual de dois bilhões de católicos, mas também é o monarca do Estado da Cidade do Vaticano. E ele usa, por assim dizer, dois bonés, e é nessa capacidade que ele fala hoje. Agora, com relação à Rússia, devemos lembrar que o Estado russo só reconhece quatro crenças que são consideradas religiões nacionais: o cristianismo ortodoxo, o islã – sim, há 20 milhões de muçulmanos na Rússia –, o judaísmo e o budismo. Nesse contexto, a Igreja Católica, assim como as igrejas evangélicas, é uma igreja estrangeira. Não somente estrangeira, mas rival desde o cisma de 1054, agravado pela queda de Constantinopla, a “segunda Roma”, perante os turcos em 1453. E foi nesse momento que Moscou se tornou a “terceira Roma”, ou seja, o centro, o coração da cristandade no mundo.

E desde então, existe uma rivalidade entre Moscou e Roma. A diferença é que a Igreja Católica tem um único líder, o papa, enquanto as igrejas ortodoxas são, como se costuma dizer, autocéfalas, ou seja, cada país tem seu próprio patriarca. Mas o Patriarca de Moscou e de Todas as Rússias – é seu título completo, Patriarca de Moscou e de Todas as Rússias – governa os ortodoxos russos, mas também uma parte dos ortodoxos do Cazaquistão, da antiga União Soviética e da Ucrânia. Assim, na Ucrânia, a Igreja Ortodoxa Ucraniana decidiu romper sua ligação umbilical com o Patriarcado de Moscou pra se tornar uma Igreja Ortodoxa Ucraniana autônoma. Mas nesse instante, parte da Igreja Ortodoxa Ucraniana se cindiu de sua própria igreja pra permanecer ligada a Moscou. Você pode ter uma noção do cenário.

– Daí a complexidade da posição geral da Igreja com relação a isso.

– Isso. Pra simplificar o quadro, uma grande parte dos cristãos ucranianos são o que chamamos de uniatas, ou seja, ex-cristãos ortodoxos que se uniram ao papado e são chamados de uniatas. Eles são católicos e vivem na parte ocidental do país. É nessa parte, aliás, que se encontram os maiores partidários da independência da Ucrânia e da incorporação à Europa.

– Sim, não tenho certeza se isso simplifica muito as coisas na mente dos telespectadores. A Ucrânia é um espinho no pé da Santa Sé, Slimane? Porque é necessário ao mesmo tempo, como posso dizer, manter o diálogo justamente com a Igreja Ortodoxa Russa e também não ofender todos os cristãos da Ucrânia.

– Pois bem, quanto aos cristãos da Ucrânia, como eu disse, são os uniatas, assim, são ex-cristãos ortodoxos que se uniram a Roma. E isso alimenta uma espécie de paranoia entre os russos, em Moscou, como se a Igreja Católica considerasse toda a ortodoxia russa como uma terra missionária onde mais pessoas deveriam ser convertidas ao catolicismo. É por isso, por exemplo, que o papa de Roma pôde visitar países muçulmanos, incluindo ultraconservadores, mas nunca pôde ir a Moscou. 20 anos atrás, um dos assessores do então patriarca de Moscou e de Todas as Rússias disse à imprensa que o papa em Moscou era como Bin Laden na Casa Branca. Você pode ter uma noção da comparação.

– Muito obrigado, Slimane Zeghidour, e tudo o que você está dizendo, na verdade, faz comprometer esse futuro encontro que o papa desejava.

– Será muito difícil, mas não está fora de questão.


– Je rejoins Slimane Zeghidour, notre éditorialiste et spécialiste des religions. Bonjour, Slimane. Alors, une bénédiction Urbi et Orbi empreinte d’un message aux grands de ce monde en cette période de guerre. Est-ce que c’est un message politique du pape ou est-ce qu’il est dans ses fonctions de chef de l’Église catholique ?

– Les deux, parce qu’il est le chef du Saint-Siège, donc le chef spirituel de deux milliards de catholiques, mais il est aussi le monarque de l’État de la Cité du Vatican. Et il a, si on peut dire, deux casquettes, et c’est à ce titre qu’il parle aujourd’hui. Maintenant, s’agissant de la Russie, il faut rappeler que l’État russe ne reconnait que quatre cultes qui sont considérés comme des religions nationales : le christianisme orthodoxe, l’islam – oui, il y a 20 millions de musulmans en Russie –, le judaïsme et le bouddhisme. Dans ce cadre-là, l’Église catholique, comme les églises évangéliques, est une église étrangère. Non seulement étrangère, mais rivale depuis le schisme de 1054 qui a été aggravée par la chute de Constantinople, « deuxième Rome », en 1453 devant les Turcs. Et c’est à ce moment-là que Moscou est devenue la « troisième Rome », c’est-à-dire, le centre, le cœur de la chrétienté dans le monde.

Et depuis lors, il y a une rivalité entre Moscou et Rome. La différence, c’est que l’Église catholique a un seul chef, c’est le pape, tandis que les églises orthodoxes sont, comme on dit, autocéphales, c’est-à-dire, chaque pays a son propre patriarche. Mais celui de Moscou et de toutes les Russies – c’est son titre complet, patriarche de Moscou et de toutes les Russies – gouverne les orthodoxes russes, mais aussi une partie des orthodoxes du Kazakhstan, de l’ex-Union soviétique et de l’Ukraine. Alors, en Ukraine, l’Église orthodoxe ukrainienne a décidé de rompre son lien ombilical avec le Patriarcat de Moscou pour devenir une Église ukrainienne orthodoxe autonome. Mais à ce moment-là, une partie de l’Église orthodoxe ukrainienne a fait un schisme par rapport à sa propre église pour rester rattachée à Moscou. Vous voyez un peu le paysage.

D’où la complexité du positionnement de l’Église de manière générale face à ça.

Voilà, pour simplifier le tableau, qu’une bonne partie des chrétiens ukrainiens sont ce qu’on appelle des uniates, c’est-à-dire, ce sont d’ex-chrétiens orthodoxes qui se sont ralliés à la papauté et on les appelle les uniates, qui, eux, sont des catholiques et habitent dans la partie ouest du pays. C’est dans cette partie d’ailleurs qu’on trouve les plus grands partisans de l’indépendance ukrainienne et du rattachement à l’Europe.

– Ouais, pas sure que ça simplifie beaucoup dans l’esprit des téléspectateurs. L’Ukraine, c’est une épine dans le pied du Saint-Siège, Slimane ? Parce qu’il faut à la fois, comment dirais-je, maintenir le dialogue avec justement l’Église orthodoxe russe et puis ne pas froisser non plus tous les chrétiens d’Ukraine.

– Alors, pour les chrétiens d’Ukraine, je vous ai dit, ce sont les uniates. Donc ce sont des chrétiens ex-orthodoxes qui se sont ralliés à Rome. Et cela entretient chez les Russes, à Moscou, une sorte de paranoïa, comme si l’Église catholique considérait toute l’orthodoxie russe comme une terre de mission dans laquelle il faudrait encore convertir des gens au catholicisme. C’est pour cela, par exemple, que le pape de Rome a pu aller dans des pays musulmans, y compris ultraconservateurs, mais n’a jamais pu aller à Moscou. Il y a 20 ans, un des conseillers du patriarche de Moscou et de toutes les Russies de l’époque avait dit à la presse que le pape à Moscou, c’est comme Bin Laden à la Maison-Blanche. Vous vous rendez compte un peu de la comparaison.

– Merci beaucoup, Slimane Zeghidour, et tout ce que vous dites effectivement laisse compromettre cette future rencontre que le pape souhaitait.

– Elle sera très difficile, mais pas exclue.