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sábado, 18 de julho de 2026

Sorria: a Argentina pode estar roubando


erickfishuk.blogspot.com/pessi



Este meme resume a publicação. Pesquise a respeito.


Se já não disse aqui, escrevo agora: não gosto nem de jogar nem de assistir a futebol e só me interesso por ele na medida em que se relaciona a temas de minha predileção, como história, política, geopolítica, culturas e idiomas. E humor também, claro. E pra minha alegria, cada Copa do Mundo tem se tornado sempre mais geopolítica, sendo a deste ano o ápice do processo. A começar por se realizar em três países ao mesmo tempo, sendo que um deles, o Zesteite, se situa “de sanduíche” entre os outros dois, os quais, pra piorar, estão com as relações diplomáticas azedadas com o primeiro. E sempre pode ficar ainda pior: os três logo caíram fora do torneio, e o Canadá está literalmente “esfumaçando” a final que vai se realizar no vizinho do sul.

A coisa fica ainda mais divertida com a popularização das redes sociais, hoje facilmente portáveis nos smartphones a um bolso de distância. Mesmo quem não as usa acaba recebendo respingos das intermináveis discussões, com seus memes, polêmicas e virais de todo tipo, um novo modo de expressão a ser estudado pela história cultural. Por essas razões, mesmo em se tratando da campanha abominável da çelessão Canalhinha, ela se torna assunto entre todos os jornalistas e figuras públicas e condiciona a relação do gado trouxa público com o resto da competição. E o que pode mais eriçar um tupiniquim senão um sucesso da eterna rival Argentina, pior, sua segunda chegada consecutiva ao final do certame? Por alguns instantes a crônica bananeira se precipitou em comparar o que “nós” erramos com o que “eles” acertaram, mas mesmo do exterior podemos perceber que a coisa não é direta assim.

Quero testemunhar a impressão positiva que me têm despertado os textos de Milly Lacombe no UOL, a besta-fera da Machosfera horrorizada com sua intromissão “woke” num âmbito outrora monopolizado por bovinos de barrigão Pilsen e pinto murcho. Reconheço que também sou “uouquista” (não “oquista”, atenção!), mas não sou radical, e também julgo que a Milly não é. Concomitantes ao avanço da horda do Méçi Careca de fase em fase, começaram a aparecer vídeos de youtubers lixo tentando dissertar “Por que a Argentina é um país tão racista?”, sugeridos até junto a programas estrangeiros nada a ver com o assunto e que sigo regularmente. Pra meu alívio e agrado, a Milly fez um ótimo contraponto a esse antirracismo freestyle, dizendo que nossa história teve um racismo muito mais violento materializado na escravidão e que ele continua até hoje estruturando nossas relações sociais. Eu acrescentaria que justamente o fato de nossa equipe, ao contrário da argentina, contar com muitos jogadores de cor (até porque técnico negro nunca vi; feliz foi Pelé que não enveredou pela mesma cilada do Marabola!), assistidos por um público majoritariamente descorado, só mostra que esse foi um dos poucos espaços em que lhes foi permitido alcançar destaque, em detrimento da política, da economia e da ciência.

O destino me pegou de surpresa: e não é que jornalistas de outros países começaram justamente a apontar a dimensão inaudita do racismo na torcida platina, sem contar outros trambiques que estariam favorecendo os tricampeões? De fato, exceto casos isolados que ocorrem em nossos próprios campeonatos nacionais, nunca vi os fanáticos amarelentos imitarem símios, jogarem bananas ou gritarem ofensas contra a melanina alheia. Isso não limpa a ignomínia de como o tecido social do Gigante Adormecido (e jamais despertado) foi construído, mas talvez eu (e a Milly?) tenha subestimado a vergonha alheia que os hermanos despertam em quem compartilha com eles a mesma arquibancada. E dois artigos da mídia estrangeira me despertaram justamente pra essa reflexão, além de trazer elementos interessantíssimos pra deixarem as neymarzetes com a pulga atrás da orelha.

O primeiro é uma reportagem de Adèle Léron publicada na RFI francesa e intitulada “Copa do Mundo de 2026: por que a Argentina é alvo de suspeitas de favoritismo?”, e o segundo é uma entrevista dada pelo escritor Adam Elder ao jornalista George Louis Martínez, da americana NPR e intitulada “Por que muitos fãs de futebol podem torcer contra a Argentina na final da Copa?”. De família equatoriana, George usa o apelido “A Martínez” (assim mesmo, sem ponto, lê-se “ei Martínez”), mas aqui me referi a ele como “George Martínez” por praticidade. Também não mantive os links do original francês nem adicionei notas explicativas pra certas pessoas e coisas. Sugiro uma pesquisa à parte, especialmente o caso de IShowSpeed.

Da série “traduzi sem autorização, phodasse”, no caso da entrevista, como ela não veio com uma transcrição, obtive-a usando esta ferramenta online quase perfeita, devendo ter o resultado cotejado com o áudio, sobretudo quando as pessoas falam meio rápido, o que ocorreu na conversa. Pra fins de pesquisa e registro histórico de raridades, mantive a transcrição do áudio da NPR, após revisar a redação, em especial a divisão de parágrafos, que o site faz de modo totalmente aleatório. Se alguém mais entendido que eu em termos técnicos do ludopédio quiser sugerir alguma escolha melhor pra tradução, sobretudo se souber um pouco de inglês e francês, comente à vontade. Boa leitura e, pra quem for assistir, boa final:



Após se classificar pras semifinais da Copa do Mundo de 2026 com uma campanha considerada fácil e marcada por diversas decisões controversas da arbitragem, a Argentina se tornou alvo de acusações de favorecimento. No centro das críticas está Lionel Messi, pra quem esta Copa, apresentada como a última, alimenta fantasmas, teorias e desconfiança com relação à FIFA.

“Lionel Messi consegue seu juiz favorito pra semifinal Inglaterra-Argentina.” A manchete do Daily Mail dá o tom. Na véspera do confronto entre as duas seleções, o tabloide britânico reacende as acusações de favoritismo contra o time argentino.

Apresentado como “o juiz favorito” do capitão argentino , a nomeação do americano Ismail Elfath reforça em muitos a crença de que Lionel Messi estaria obtendo um tratamento preferencial nesta Copa do Mundo.

Essas teorias surgiram antes mesmo do início da Copa. Em 5 de dezembro de 2025, durante o sorteio, internautas já expressavam surpresa com os adversários oferecidos à Argentina. Um passeio, segundo alguns. A Albiceleste enfrentaria Argélia, a Jordânia e, enfim, a Áustria. Depois, Cabo Verde nos 16 avos de final [sim, esse é o nome oficial em português da bizarrice inventada por Infantino...], o Egito nas oitavas e, finalmente, a Suíça nas quartas. Esse trajeto alimentou suspeitas: até as semifinais, Lionel Messi e seus companheiros não teriam enfrentado nenhuma seleção entre as dez melhores da classificação da FIFA. Isso seria, aliás, inédito na história das Copas.

De forma inversa, os outros semifinalistas tiveram um torneio mais difícil. A França enfrentou o Senegal (3x1) e o Marrocos (2x0), ambos finalistas da última Copa Africana de Nações, além da Noruega, que eliminou o Brasil. A Espanha se livrou de Portugal e depois da Bélgica, enquanto a Inglaterra precisou derrotar o México antes de eliminar a Noruega de Erling Haaland.

No papel, portanto, o caminho da Argentina parece bem mais suportável que o de seus principais concorrentes.

Arbitragem polêmica – Um sorteio favorável, mas também decisões da arbitragem que estão sendo criticadas.

Logo na primeira partida contra a Argélia, Messi escapou de qualquer punição após esmagar o tornozelo de Aïssa Mandi na primeira meia-hora de jogo. No entanto, o ex-árbitro internacional Bruno Derrien considera que o camisa 10 “podia ter sido expulso”. Amplamente dominada, a Argélia acabou perdendo por 3x0, e seu técnico anunciou que iria exigir explicações da FIFA.

As partidas seguintes reforçaram ainda mais essa impressão entre alguns torcedores. A partir das fases eliminatórias, a Argentina teve dificuldades pra vencer. Em três ocasiões, os campeões do mundo foram atropelados, chegando a ficar atrás no placar. E em todas elas, as decisões da arbitragem inverteram o rumo dos jogos.

Primeiro, contra Cabo Verde. Incapaz de superar a 64.ª colocada na classificação mundial, a Albiceleste se beneficiou de várias intervenções controversas: uma falta na entrada da área em Hélio Varela que não foi punida, um toque de mão de Cristian Medina que também passou imune e uma falta cobrada às pressas por Lionel Messi enquanto o goleiro Vozinha ainda tomava posição na trave. A Argentina acabou vencendo por 3x2 nos acréscimos.

Os técnicos tomam partido – No jogo contra o Egito, o cenário se repetiu. Perdendo por 2x0 até os 79 minutos, a Albiceleste conseguiu virar (3x2). Após o jogo, o técnico egípcio exigiu a demissão do juiz francês François Letexier. Ele citou especificamente um pênalti não marcado após um puxão na camisa de Hamdy Fathy, um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez na área e a anulação de um gol egípcio após revisão do VAR.

Finalmente, contra a Suíça. Dominada durante grande parte do jogo, a Argentina se aproveitou de um inesperado empurrão do destino. Aos 71 minutos, após revisão do VAR, o juiz português João Pinheiro anulou o cartão amarelo do argentino Paredes e o deu a Breel Embolo por simulação.

Já com esse cartão, o atacante suíço foi expulso e deixou o campo, deixando seu time com dez jogadores. Após o jogo, o técnico suíço denunciaria “cotoveladas, cabeçadas e soladas” que ficaram impunes.

À medida que a Argentina avança na Copa, apanhados de decisões controversas se multiplicam no TikTok e no X. Uma delas, intitulada “Uma compilação de nove minutos de faltas cometidas pela Argentina contra a Suíça sem consequências”, já soma centenas de milhares de visualizações.

Outros internautas também se surpreenderam com os meros três minutos de acréscimo concedidos contra Cabo Verde, enquanto outros jogos da Copa obtiveram seis ou até dez minutos, devido às pausas pra hidratação.

Messi no centro das teorias – Essas suspeitas não são novas. Ainda durante a vitória da Argentina no Catar em 2022, diversas decisões da arbitragem alimentaram o debate. A Albiceleste, em particular, foi beneficiada com cinco pênaltis, mais que qualquer outra seleção naquela Copa.

É principalmente a figura de Lionel Messi que alimenta essas teorias. Em 2017, Gianni Infantino declarou ao La Nación que “seria injusto Messi se aposentar sem ter conquistado uma Copa do Mundo”, acrescentando que o argentino precisava “marcar sua época”, tal como Diego Maradona tinha feito.

Aos 39 anos, esta edição é apresentada como a última Copa do camisa 10. A conquista do título selaria definitivamente seu espaço entre os maiores jogadores da história. Com ou sem a ajuda dos juízes...



George Martínez – Não é difícil adivinhar que os torcedores da seleção espanhola de futebol vão torcer contra a Argentina este fim de semana, quando os dois times se enfrentarem na final da Copa do Mundo, mas há muito mais gente ao redor do mundo torcendo pra que a Argentina perca. Adam Elder é um escritor especializado em esportes e cultura. Adam, o que há no estilo de jogo da Argentina que, historicamente, gera tanta rejeição?

Adam Elder – Pois é, há muita coisa envolvida aí. A Argentina ganhou três Copas, mas sempre teve um estilo que divide opiniões. Eles conseguem jogar com talento e, claro, têm Lionel Messi, mas também sabem jogar com brutalidade, digamos, chutando o adversário, subindo nas costas, derrubando com força, pressionando o juiz. Tudo isso é comum na América Latina. Tanto é que escrevi sobre isso num livro meu, mas a questão é que ninguém faz isso melhor que a Argentina.

Eles basicamente conseguem jogar tanto em alto nível quanto de forma muito baixa, e com frequência os vemos fazendo as duas coisas. Além disso, há episódios bem documentados de racismo da parte de torcedores e jogadores, com músicas e outras manifestações, especialmente contra pessoas negras; seja contra a seleção francesa, composta em grande parte por jogadores negros, ou espectadores famosos, como o streamer IShowSpeed na Copa deste ano.

GM – É, houve muito disso, o que anda prejudicando a imagem da Argentina, mas quatro anos atrás a situação parecia diferente. Parecia que as pessoas queriam ver Lionel Messi ganhar uma Copa. Então, o que realmente mudou de lá para cá?

AE – Muita coisa mudou durante esta edição. Eles chegaram como os atuais campeões, e a trajetória tem sido incrível. Lionel Messi, aos 39 anos, liderando o time na reta final de sua carreira. Ele marcou seis gols, se não me engano, nos três primeiros jogos, e as partidas têm parecido eventos quase religiosos. A emoção é avassaladora: a paixão, o barulho. É uma grande história.

O problema é que muitos têm a impressão de que a FIFA, entidade vilã que comanda o futebol, também gosta muito dessa narrativa, se você olhar de um certo ângulo. É quase como se as coisas tivessem tomado outro rumo após a fase de grupos – depois que a Argentina por pouco superou Cabo Verde, a indiscutível zebra da Copa –, pois, nos três jogos seguintes, muitos torcedores diriam que a Argentina foi beneficiada por decisões generosas da arbitragem, pelo uso muito generoso do VAR [o que inclusive fez os brasileiros criarem o apelido “VARgentina”!] e também pela falta de uso dele quando talvez fosse necessário.

Então, como acabei de dizer, a FIFA já aparece por si só como vilã; junte a isso o estilo de jogo peculiar da Argentina, as viradas incríveis que a seleção protagonizou e, talvez, uma arbitragem favorável, e chegamos ao cenário atual.

GM – Há décadas existe o sentimento, entre muitos latino-americanos, de que os argentinos se consideram superiores de alguma forma, o que faz com que sempre torçam contra eles. Mas o que você acha da ironia de que, neste caso, os latino-americanos prefiram torcer pra Espanha, nação que por séculos colonizou a América Latina?

AE – Pois é, esse é só um dos aspectos. Parece que sob vários pontos de vista vai ser um grande confronto. Obviamente há implicações ligadas à colonização e, veja bem, se a Argentina jogar como tem jogado em toda esta Copa – algo que, como discutimos, tem se desenvolvido mais ou menos por cinco semanas –, vai ser um jogo realmente interessante. Não vejo a hora de assistir e, pra ser claro, acho que tudo isso faz dos esportes algo bem melhor. Adoro ter um vilão. Claro, sou escritor, mas pessoalmente adoro isso.



George Martínez – It’s an easy assumption that fans of Spain’s national soccer team will be rooting against Argentina this weekend when the two teams face off in the World Cup final, but there are a lot more people around the world hoping Argentina loses. Adam Elder is a sports and culture writer. Adam, so what’s about the way Argentina plays that’s historically been unpopular?

Adam Elder – Oh boy, there’s so much going on here. Well, Argentina’s won three World Cups, but they’ve always had a style that’s very polarizing. You know, they can play with flair, and of course they have Lionel Messi, but they can also play with brutality, let’s say, kicking you, climbing on you, chopping you down, working the ref. This stuff is common throughout Latin America. In fact, I wrote about it in a book of mine, but the thing is, no one does this stuff better than Argentina.

They can essentially play at the highest levels or the lowest, and often you’ll see them doing both. Now, there’s also been some well-documented racism by fans and players and songs and whatnot, particularly towards black people; whether it’s about the French national team made up largely of black players or famous spectators like the streamer IShowSpeed at this year’s World Cup.

GM – Yeah, so there’s been a lot of that which hasn’t helped Argentina lately, but it seemed like four years ago things were different. It seemed like people wanted to see Lionel Messi win a World Cup. So what really has changed between then and now?

AE – A lot’s changed within this tournament. They came in as the defending champions, and it’s been this great story. Lionel Messi, aged 39, leading the team, twilight of his career. He scored six goals, I believe, in the first three games, and their matches have resembled these quasi-religious events. It’s emotionally overwhelming, the passion, the noise. It’s a great story.

The problem is, it appears to many that FIFA, soccer’s villainous governing body, likes that storyline a lot as well, if you look at it from a certain angle. It’s almost as if things took a turn after group play, after Argentina barely got past Cape Verde, the tournament’s undisputed Cinderella team, because in their next three matches, a lot of fans watching would contend that Argentina benefited from some generous calls, some very generous use of VAR, the video assistant referee, and also the non-use of it when perhaps it was needed.

So FIFA is, as I just said, such this great villainous organization on their own, and you combine now with Argentina’s occasional style of play and these incredible comebacks they’ve staged and, you know, perhaps generous refereeing, and this is where we are right now.

GM – You know, there’s been a decades-long feeling by many Latin Americans that Argentines believe themselves to be superior somehow, so that means they’ll always root against them. But what do you think of the irony that in this case, Latin Americans would rather root for Spain, the nation that colonized Latin America for hundreds of years?

AE – Yeah, I mean, that’s just one layer of it. It’s looking like a great matchup in so many ways. There’s obviously some colonial implications and, you know, if Argentina show up the way they’ve been playing throughout this tournament, which, as we talked about, has changed in the past five weeks or so, it’s going to be a really interesting game. I’m looking forward to it, and to be clear, I think all this stuff makes sports much better. I love having a villain. Of course, I’m a writer, but I personally love this stuff.


terça-feira, 23 de junho de 2026

Mentiras sobre biolaboratórios na Ucrânia

Desde a anexação ilegal da Crimeia e o início da incursão terrorista no Donbás em 2014, a propaganda ligada à ditadura de Vladimir Putin tem espalhado pelo mundo uma história sobre biolaboratórios secretos mantidos pelos EUA na Ucrânia. Por supostamente produzirem armas químicas, o Kremlin se achou no direito de começar sua intervenção militar pra debelar essa “ameaça ocidental”, omitindo que não só esses laboratórios eram de conhecimento público, mas também não produziam nada pra destruição em massa. Bem ao contrário do ditador sírio Bashaar al-Asad, que jogou gás tóxico num bairro opositor inteiro com apoio logístico russo...

É difícil comprovar laços diretos entre Donald Trump e os serviços secretos da antiga URSS e da Rússia, mas não se pode negar uma confluência de interesses entre a extrema-direita MAGA e o expansionismo reacionário putinista. Enquanto os adeptos atlânticos de teorias da conspiração miram contra as “elites globalistas” e os “destruidores dos valores tradicionais”, o novo tsar se aproveita de qualquer força política que possa desestabilizar a fauna política dos países inimigos, esteja ela à direita ou à esquerda. Tulsi Gabbard, escolhida pelo presidente como diretora da Inteligência Nacional dos EUA, renunciou há alguns dias devido a sua discordância quanto à condução da atual guerra contra o Irã, embora tenha alegado “razões familiares”.

Em seu vídeo de “despedida” nas redes sociais, pra não negar a estirpe, a trumpista exumou do nada o fantasma dos “biolaboratórios americanos secretos” espalhados pela Ucrânia, dizendo que o governo (Biden, suponho?) tentou fazer de tudo pra negar sua existência. Se você tem um amigo “anti-imperialista” e “anti-OTAN” (no Hemisfério Sul!) que espalha bobagens semelhantes, plantando a discórdia e não explicando o resto, mande isto pra ele: na última edição de seu programa semanal de geopolítica na TV Dozhd, Ekaterina Kotrikadze exibe uma reportagem produzida por Daria Levchuk explicando exatamente do que se trata.

Os biolaboratórios ianques existem, como existem em dezenas de países. Porém, as informações sobre eles são públicas, além do que são instalações com fins médicos e científicos, e não militares. Nunca se esqueça que tudo o que vem do Kremlin atualmente é 200% mentiroso, a não ser que façamos uma leitura “a contrapelo” de seus discursos e descubramos como realmente funciona essa ditadura terrorista. Seguem o vídeo incorporado diretamente do canal de Kotrikadze, a tradução em português e, pra não desperdiçar o material, o texto em russo:


Ekaterina Kotrikadze – Os biolaboratórios secretos dos EUA na Ucrânia, uma das principais teorias da conspiração com que a propaganda russa tenta justificar a guerra. A diretora da Inteligência Nacional dos EUA também entrou nessa história. Na véspera de sua renúncia, Tulsi Gabbard anunciou sobre uma rede global de biolaboratórios financiados por Washington e acusou seu próprio Estado de esconder a verdade sobre o que realmente estava escrito em seus documentos. Que tipo de laboratórios operavam na Ucrânia e por que a publicação de Gabbard já está sendo considerada um presente político pro Kremlin? Daria Levchuk traz os detalhes.

Tulsi Gabbard – Eles não apenas mentiram, mas também ameaçaram quem tentasse dizer a verdade.

Daria Levchuk – Centenas de manchetes russas foram publicadas com a mesma redação: os EUA admitiram manter mais de 40 biolaboratórios na Ucrânia, sobre os quais mentiram pro mundo durante anos. No final de maio, a diretora da Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, anunciou sua renúncia. Em seu discurso de despedida, em 12 de junho, falou sobre uma rede global de biolaboratórios financiados por Washington.

Apresentador do Canal 1 – A inteligência americana divulgou novos materiais sobre a investigação das atividades dos biolaboratórios financiados pelo orçamento dos EUA. Mais de 40 deles estão na Ucrânia.

TG – A publicação de hoje revela, pela primeira vez, informações sobre a existência, localização e financiamento desses biolaboratórios financiados pelos EUA. Todas essas informações foram deliberadamente ocultadas por muito tempo por pessoas influentes que afirmavam que tais laboratórios jamais existiram.

DL – O comunicado oficial do gabinete de Gabbard consiste em apenas quatro páginas de um documento com texto parcialmente editado. Ele descreve laboratórios em centros regionais de diagnóstico na Ucrânia, ou seja, os locais habituais onde os patógenos são armazenados e estudados. Outro detalhe notável: o mapa dos biolaboratórios mostra incorretamente a localização de Kyiv e indica cidades inexistentes: Cherniv [Chernov, em russo] e Zakarpattia. Afirma ainda que laboratórios ucranianos supostamente existiriam também na Crimeia, território ocupado pela Rússia.

Igor Slabykh, especialista em EUA – Gabbard está no cargo há mais de um ano. E, no fim, tudo o que conseguiu encontrar foram quatro documentos. O cabeçalho diz que um laboratório veterinário em Kharkiv foi alvo de desinformação por parte da Rússia. Bem, é exatamente disso que todos estão falando. Sim, aí realmente há informações sobre o que foi financiado. Sim, ninguém o nega. Sim, há informações sobre quanto dinheiro foi alocado. Mas aí não há informações sobre quais armas biológicas específicas estavam sendo desenvolvidas; esses dados não existem. Certo. Mas quais experimentos específicos foram conduzidos? Não há informações. Portanto, é propaganda pura e simples.

DL – A publicação do gabinete da diretora de Inteligência Nacional dos EUA afirma que informações sobre o financiamento americano pra laboratórios foram anteriormente “ocultadas deliberadamente por indivíduos influentes, em particular o imunologista Anthony Fauci e representantes do governo do ex-presidente americano Joe Biden. Isso diz respeito a aproximadamente 120 instalações em 30 países, incluindo mais de 40 na Ucrânia”. No entanto, as informações contidas no comunicado já são conhecidas há muito tempo. Os EUA de fato ajudaram a Ucrânia a modernizar laboratórios de diagnóstico e referência nos quadros do programa Biological Thread Reduction (Redução de Ameaças Biológicas), ligado à Convenção sobre as Armas Biológicas, segundo confirmou o Ministério da Saúde da Ucrânia.

Ministério da Saúde da Ucrânia – A essência do acordo é combater a ameaça de surtos de doenças infecciosas perigosas. Esse acordo é público e não menciona nenhum programa biológico militar nem o envolvimento de quaisquer recursos do Ministério da Defesa da Ucrânia.

Aleksandra Filippenko, americanista – O programa, lançado em 1991, existiu de forma totalmente transparente. Não havia segredo militar nem qualquer tipo de segredo em geral. Além disso, os sites oficiais das embaixadas americanas descrevem detalhadamente esse programa conjunto de combate a ameaças, o Programa Nunn-Lugar. Basicamente, tratava-se de um programa criado pra neutralizar diversos laboratórios que estavam sendo instalados nos territórios das então repúblicas soviéticas e, posteriormente, nos países pós-soviéticos, devido ao fato que, após a dissolução da URSS, ninguém tinha recursos pra os manter.

William Moser, diplomata – Os EUA têm interesses humanitários que vão além de questões de poder e influência. E acredito que seja importante que os EUA continuem esse trabalho.

DL – No entanto, pra propaganda russa, esses quatro slides estão se tornando a prova do que eles vêm afirmando desde 2022: a Ucrânia é um campo de testes pro desenvolvimento de armas biológicas americanas.

Maria Zakharova – Agora os americanos também vão verificar tudo aquilo que anteriormente, como eu já disse, a comunidade internacional supostamente civilizada negava.

Kirill Dmitriev – A verdade russa sobre os biolaboratórios de Obama e Biden na Ucrânia, que colocaram o mundo em perigo e cuja existência era anteriormente negada pelo deep state e pela mídia tradicional, foi confirmada em pleno Dia da Rússia.

Mikhail Favorov, epidemiologista – O financiamento terminou após a construção e o treinamento. Eles mantiveram o nível de anticorpos por seis meses e, depois disso, o financiamento direto pra manutenção dos laboratórios foi interrompido. Agora, o financiamento é direcionado aos países onde os laboratórios foram criados. E isso faz parte do acordo.

DL – A propaganda russa transformou o tema dos biolaboratórios ucranianos em uma verdadeira teoria da conspiração. Mesmo antes da invasão em larga escala, agências de inteligência e a mídia controlada já construíam uma narrativa sobre laboratórios secretos dos EUA. E de acordo com uma investigação do Insider, uma unidade do GRU esteve envolvida na elaboração desse conceito, sistematicamente o integrando em companhias de informação, desde mosquitos de combate até armas que visam exclusivamente o gene dos russos.

Apresentador da REN TV – O Ministério da Defesa divulgou hoje novos dados assustadores sobre os biolaboratórios na Ucrânia. Descobriu-se que vários programas secretos estavam sendo simultaneamente implementados sob controle dos EUA. Por exemplo, eles estavam estudando a transmissão de doenças de morcegos pra humanos. A possibilidade da infecção se espalhar por meio de aves também foi investigada.

Apresentador da TVTs – O Pentágono admitiu que estavam transformando mosquitos em armas biológicas. Os insetos estavam se tornando vetores dos vírus da febre amarela, zika e chicungunha.

Dmitri Medvedev – A maior ameaça agora vem dos biolaboratórios em território ucraniano. Ao longo da operação militar especial [nome oficial da invasão à Ucrânia], foram obtidas evidências de que componentes de armas biológicas estavam realmente sendo produzidos perto de nossas fronteiras.

DL – A diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, vem falando sobre biolaboratórios na Ucrânia desde o início da invasão russa.

TG – Existem mais de 25 biolaboratórios financiados pelos EUA operando na Ucrânia. Se o trabalho deles for destruído, isso pode levar ao vazamento e à disseminação de patógenos mortais pelo território americano e pelo mundo. Portanto, eles devem ser protegidos pra evitar o surgimento de novas pandemias.

DL – Após uma enxurrada de críticas, ela esclareceu que não estava falando de armas biológicas. No entanto, isso não a impediu de divulgar comentários de políticos americanos de direita, contrastando as garantias anteriores do governo Biden com as declarações atuais de autoridades de inteligência.

Jen Psaki, secretária de imprensa de Biden – A Rússia tem um histórico de espalhar mentiras descaradas desse tipo, incluindo alegações de que os EUA ou a Ucrânia estariam supostamente desenvolvendo programas de criação de armas químicas e biológicas.

TG – Pessoas influentes vêm afirmando há anos que esses laboratórios não existem.

DL – A presença desses laboratórios na Ucrânia é um problema? Sim, mas, segundo especialistas, não do tipo que os talk shows russos estão discutindo.

MF – Quando há uma guerra, todos correm risco. É um perigo muito sério. Não se trata apenas de exposição bacteriológica. Pode ser sobre eletricidade, sei lá, ou um depósito de lixo nuclear. Existe risco? Sim. De que tipo? As pessoas que trabalham aí são as que correm maior risco. Se os laboratórios forem bombardeados, elas podem adoecer. Se adoecerem, podem infectar outras pessoas.

AF – Parece que isso é um presente pra Rússia, um presente pro Kremlin, um presente pra Putin, um presente pra propaganda russa, que, naturalmente, começou a afirmar que todas as preocupações da Rússia com relação aos biolaboratórios na Ucrânia são justificadas.

DL – Tulsi Gabbard está deixando o cargo de diretora de Inteligência Nacional, sem nunca ter se tornado uma voz efetiva da comunidade de inteligência sob Trump. Após seu desentendimento com o atual governo sobre o Irã e uma série de outras questões de política externa, ela foi gradualmente afastada de reuniões importantes e de qualquer influência real nas decisões. E agora, tendo renunciado, volta à esfera pública no cômodo papel de denunciante. E os produtos que surgiram com o slogan “Vance-Gabbard 2028” sugerem que a história dos laboratórios pode se tornar apenas o primeiro episódio de sua futura carreira política.

AF – A questão principal é financeira. E é isso que Tulsi Gabbard enfatiza. E é a isso que ela apela. Ela está falando sobre como o dinheiro dos contribuintes americanos foi gasto nuns laboratórios em algum lugar, sabe-se lá pra quê.

Megyn Kelly, jornalista – Tulsi Gabbard poderia se candidatar à presidência em 2028?

TG – Eu nunca descarto nenhuma oportunidade de servir a meu país.



Екатерина Котрикадзе – Секретные биолаборатории США в Украине, одна из главных теорий заговора, которыми российская пропаганда пытается объяснить войну. К этой истории подключилась и глава американской Нацразведки. Накануне в своей отставке Тулси Габбард заявила о глобальной сети биолабораторий, финансируемых Вашингтоном и обвинила собственное государство в сокрытии правды о том, что на самом деле написано в её документах. Что за лаборатории такие работали в Украине и почему публикацию Габбард уже называют политическим подарком Кремлю? В материале Дарьи Левчук.

Тулси Габбард – Они не просто лгали, они угрожали тем, кто пытался рассказать правду.

Дарья Левчук – Сотни российских заголовков вышли с одинаковой формулировкой: США признали, что содержали более 40 биолабораторий в Украине, о которых годами врали миру. В конце мая директор Национальной разведки США Тулси Габбард объявила о своей отставке. На прощание 12 июня она сообщила о глобальной сети биолабораторий, финансируемых Вашингтоном.

Ведущий Первого канала – Американская разведка обнародовала новые материалы о расследовании деятельности биолабораторий, которые финансировались из бюджета США. Более 40 из них на Украине.

ТГ – Сегодняшняя публикация впервые раскрывает информацию о существовании, местонахождении и финансировании этих биолабораторий, финансируемых США. Все эти сведения долгое время намеренно скрывались влиятельными людьми, которые утверждали, что таких лабораторий вообще не существует.

ДЛ – Официальный релиз офиса Габбард – это всего четыре страницы документа с частично отредактированным текстом. В нём описываются лаборатории при областных диагностических центрах Украины, то есть обычные места, где хранят и изучают патогены. Примечательно другое: на карте биолабораторий неправильно показано расположение Киева и обозначены несуществующие города: Чернов и Закарпатье. А также указано, что украинские лаборатории якобы есть и в оккупированном России и Крыму.

Игорь Слабых, эксперт по США – Габбард работает на своём посту больше года. И в итоге всё, что она смогла найти – это четыре документа. В шапке его говорится о том, что ветеринарная лаборатория в Харькове стала объектом дезинформации со стороны России. Ну, как бы это как раз вот о том, о чём все и говорят. Да, действительно, там есть информация о том, что спонсировалось. Да, никто это не отрицает. Да, есть информация, сколько денег выделялось. Но нет информации там о том, какое конкретно биологическое оружие разрабатывалось, информации этой нету. Хорошо. А какие конкретные эксперименты проводились? Информации этой нету. Ну, то есть это это чистой воды пропаганда.

ДЛ – В публикации офиса директора Нацразведки США заявляется, что ранее информация об американском финансировании лабораторий “умышленно замалчивалась влиятельными лицами, в частности, иммунологом Энтони Фаучи и представителями администрации экс-президента США Джо Байдена. Речь идёт примерно о 120 объектах в 30 странах мира, из них более 40 в Украине”. Но изложенное в релизе уже давно известно. США действительно помогали Украине модернизировать диагностические и референс-лаборатории в рамках программы Biological Thread Reduction, связанной с конвенцией о запрете биологического оружия, что подтверждал Минздрав Украины.

Минздрав Украины – Суть сделки – противодействие угрозе вспышек опасных инфекционных заболеваний. Это соглашение есть в публичном доступе, и в нём вообще речь не идёт о военно-биологических программах или привлечении любых мощностей Минобороны Украины.

Александра Филиппенко, американист – Программа, которая была запущена в 1991 году, а существовала совершенно в открытую. Никакой военной тайны и вообще никакой тайны в этом не было. Более того, на официальных сайтах американских посольств подробно описана вот эта программа совместное противодействие угрозам, Программа Нанна-Лугара. Ну, вообще это программа, которая была создана для того, чтобы обезвредить разные лаборатории, которые создавались на территории стран, тогда ещё советских, а потом уже вот постсоветских стран, в связи с тем, что после развала Советского Союза ни у кого не было денег на их консервацию.

Уильям Мозер, дипломат – У Соединённых Штатов есть гуманитарные интересы, которые выходят за рамки вопросов силы и влияния. И я считаю, что для США важно продолжать такую работу.

ДЛ – Тем не менее, эти четыре слайда становятся для российской пропаганды доказательством того, о чём они твердили с 2022 года. Украина – полигон для разработки американского биологического оружия.

Мария Захарова – Теперь будут американцы ещё проверять всё то, что раньше, как я уже сказала, мировое сообщество вот это самое якобы цивилизованное отрицало.

Кирилл Дмитриев – Российская правда о биолабораториях Обамы и Байдена в Украине, которые подвергали мир опасности и существование которых ранее отрицали глубинное государство и традиционные СМИ, получило подтверждение в День России.

Михаил Фаворов, эпидемиолог – Финансирование закончилось после строительства и после обучения. Там это полгода они поддерживали титра и потом это финансирование прямого для сохранения лабораторий больше не было никогда. Они переходят на финансирование стран, где они были созданы. И это входит в договор.

ДЛ – Российская пропаганда превратила тему украинских биолабораторий в полноценную теорию заговора. Ещё до полномасштабного вторжения спецслужбы и подконтрольные медиа выстраивали сюжет о секретных лабораториях США. А по данным расследования Инсайдер, к разработке этой концепции было причастно подразделение ГРУ, которое системно встраивало её в информационные компании, от боевых комаров до оружия, поражающего уникальный ген русского человека.

Ведущая РЕН ТВ – Новые жуткие данные о биолабораториях на Украине сегодня сообщили в Министерстве обороны. Выяснилось, что под контролем США шла реализация сразу нескольких секретных программ. К примеру, изучали передачу заболевания от летучих мышей к человеку. Также следовалась возможность распространения инфекции с помощью птиц.

Ведущий ТВЦ – В Пентагоне сознали, что делали из комаров биооружие. Насекомые становились переносчиками жёлтой лихорадки и вирусов зика и чикунгунья.

Дмитрий Медведев – Наибольшая угроза сейчас исходит из биолабораторий на территории Украины. В ходе СВО были получены доказательства, что рядом с нашими границами фактически производились компоненты биологического оружия.

ДЛ – Глава Нацразведки Тулси Габбард говорит о биолабораториях в Украине ещё с начала российского вторжения.

ТГ – В Украине действует более 25 биолабораторий, финансируемых США. Если их работа будет нарушена, это может привести к утечке и распространению смертельно опасных патогенов по территории США и всего мира. Поэтому их необходимо обезопасить, чтобы предотвратить возникновение новых пандемий.

ДЛ – После шквала критики она уточнила, что речь идёт не о биологическом оружии. Однако это не мешало ей распространять комментарии правых американских политиков, которые противопоставляют прежние заверения администрации Байдена нынешним выступлением представителей разведки.

Джен Псаки, пресс-секретарь Байдена – У России есть история распространения откровенной лжи подобного рода, включая утверждения о том, что США или Украина якобы ведут программы по созданию химического и биологического оружия.

ТГ – Влиятельные люди годами утверждали, что этих лабораторий не существует.

ДЛ – Есть ли вообще проблема в наличии таких лабораторий в Украине? Да, но, по мнению экспертов, не та, о которой говорят российские ток-шоу.

МФ – Когда идёт война, риск есть у всех. Это очень серьёзная опасность. Это не только относится к бактериологическому воздействию. Это может относиться к электричеству, я не знаю, к хранилищу ядерных отходов. Риск есть? Да. Какой? Люди, которые там работают, вот кто под большим риском. Если по лабораториям бомбят, они могут заболеть. Если они заболеют, они могут заразить других.

АФ – Кажется, что это подарок России, подарок Кремлю, подарок Путину, подарок российской пропаганде, которая, конечно же, естественно стала говорить о том, что оправданы совершенно все опасения России относительно биолабораторий в Украине.

ДЛ – Тулси Габбард уходит с поста директора Национальной разведки, так и не став полноценным голосом разведсообщества при Трампе. После её несогласия с действующей администрацией по Ирану и ряда других внешнеполитических тем, её постепенно отстранили от ключевых совещаний и реального влияния на решение. Теперь же, уйдя в отставку, она возвращается в публичное поле в удобной для себя роли разоблачительницы. А появившийся мерч с надписью “Vance-Gabbard 2028” намекает, что история с лабораториями может стать лишь первой серией в её дальнейшей политической карьере.

АФ – Главный вопрос финансовый. И на это делает упор Тулси Габбард. И к этому она апеллирует. Она говорит о том, что вот деньги американских налогоплательщиков тратились на какие-то лаборатории где-то, непонятно зачем.

Мегин Келли, журналистка – Может ли Тулси Габбард баллотироваться в президенты в 2028 году?

ТГ – Я никогда не исключаю ни одной возможности послужить своей стране.



sábado, 20 de junho de 2026

Entrevista del Che em francês (1964)

Esta rara entrevista está online no canal da RTS (Rádio e Televisão Suíça em francês) há quase 19 anos, mas não chegou a 1,4 milhão de visualizações, enquanto vídeos muito mais fúteis e ultrajantes chegam a muito mais do que isso em poucas horas nos canais grandes. Pra se ter uma noção, a imagem ainda tem o selo da então existente TSR (Televisão Suíça Romanda), que em 2010 se fundiria com a RSR (Rádio Suíça Romanda) pra criar a rede pública RTS. Descobri sua existência após assistir à última edição do programa semanal Géopolitis da mesma RTS, sobre a história do bloqueio a Cuba pelos EUA e da atual escalada da crise entre os dois países, sobretudo a penúria geral que assola a ilha caribenha. A apresentadora disse que a entrevista de Ernesto “Che” Guevara à mídia suíça era “inédita”, mas entendi que ela nunca tinha ido ao ar (foi mostrado um trecho exíguo). Quando localizei algo parecido com a íntegra no próprio YouTube, pensei como o Pica-Pau: “Fui tapeado!”

Se nem na própria Helvécia o vídeo era muito conhecido, que dirá nesta Terra de Santa Cruz? Hora de fazer mais uma tradução que pudesse fazer sucesso entre meus compatriotas, sobretudo aqueles vestidos de camiseta com a cara descabelada do revolucionário argentino e braço direito de Fidel Castro! Segundo a RTS, a conversa ocorreu em Genebra, em abril de 1964, conduzida por René Burri pro programa Point, apresentado pelo jornalista Jean Dumur. Então ministro da Indústria de Cuba, El Che minimiza os efeitos até então visíveis do embargo imposto por Washington e notavelmente mostra hesitação em tomar partido na disputa sino-soviética, o maior racha do mundo socialista até então. (Havana finalmente tomaria o partido de Moscou e de sua gorda mesada, mas essa é outra história.)

Considera-se que esse seja o único registro público do francês falado por Ernesto Guevara, que teria, segundo comentários à publicação de 2007, passado boa parte de sua juventude lendo renomados escritores franceses no original, devido ao repouso prolongado imposto por sua condição de asmático. Eis aqui, então, mais uma tentativa de contribuir pra tradução da história do comunismo em português, ressaltando que editei profundamente o texto em francês das legendas que baixei por meio de um site. Em grande parte, não corresponde à fala, mas tenta passar as ideias originais mantendo o máximo do estilo, e o resultado segue depois da tradução. A base desta saiu do Google Tradutor, que deu várias soluções interessantes, mas o resultado foi atentamente cotejado com minha transcrição editada.

Adicionei notas explicativas entre colchetes e links pra páginas relacionadas quando necessário, nas duas versões, e realmente a conversa parece “começar no meio”, subentendendo-se já estar em discussão um assunto. Se havia um trecho gravado antes disso ou se foi um mero cacoete linguístico de René Burri, jamais saberemos:


Mas, em sua opinião, houve alguma mudança na atitude dos EUA com relação a Cuba?

Talvez, eu lhe digo, seja difícil lhe responder diretamente. De qualquer forma, não baseamos nossa posição escutando ou observando o que os EUA fazem ou o que os EUA querem. Bem, conduzimos nossa política internacional e, naturalmente, observamos atentamente o que eles fazem porque é nosso inimigo, estão perto de nós, são muito poderosos.

Hoje, nos últimos dias, há algumas vozes americanas, nós as conhecemos, o senador [James William] Fulbright [presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA], por exemplo, que falaram numa linguagem completamente diferente. Mas imediatamente, o sr. [David Dean] Rusk [secretário de Estado dos EUA], o sr. Thomas Mann [diplomata americano que forjou a política de intervenção direta nos países latino-americanos], falaram na linguagem usual, e não podemos saber se a atitude de Fulbright, por exemplo, reflete realmente uma mudança na posição dos EUA ou se é simplesmente uma voz isolada.

O bloqueio econômico imposto pelos EUA tem afetado a vida em Cuba?

Sim, antes de mais nada, tem mudado completamente a vida em Cuba. Mudamos nossas fontes de suprimento, que passaram a ser a Europa, especialmente os países socialistas. Mudamos nosso próprio estilo de vida, e os artigos de luxo, bens de consumo durável, digamos assim – não sei o termo em francês –, quase desapareceram em Cuba. Havia muitas coisas em falta. Nossas indústrias passaram por um período bastante longo sem peças de reposição, e às vezes era preciso parar. Não conseguíamos as manter funcionando, mas essa situação até forçou nossa industrialização no setor mecânico.

E neste momento podemos nós mesmos suprir quase todos os suprimentos mecânicos essenciais, isto é, peças de reposição e, naturalmente, tudo o que não podemos comprar de países socialistas ou outros países da Europa. Pois devemos considerar que Cuba é um país onde quase toda a indústria, toda a técnica e toda a tecnologia dependiam dos EUA e das fábricas dos EUA, e mudar tudo isso é algo muito difícil. Conseguimos fazer isso e, desde o ano passado, o bloqueio já é realmente um completo fracasso.

Mas você está satisfeito com a atual situação econômica de Cuba?

Não, nunca podemos estar satisfeitos. Aspiramos a muito mais, mas o ano passado foi o pior, especialmente no início, quando a economia estava em seu ponto mais baixo. Desde esse momento, começamos a expandir nossa indústria e agricultura, e podemos dizer que essa é a direção geral que a economia está tomando, uma melhora gradual e sustentada. Infelizmente, não é algo maravilhoso, mas todos os dias podemos ver os resultados concretos do que estamos fazendo, e pro povo isso é encorajador.

A ajuda soviética a Cuba é necessária pra vocês?

Naturalmente é necessária. Acho que a ajuda de todos os povos é necessária. Se você que saber se é indispensável, acho que não. Mas precisamos esclarecer bem o que estamos chamando de ajuda, pois sempre há alguns erros, alguns equívocos. Por exemplo, os americanos falam da ajuda soviética em termos comerciais, e temos um comércio bilateral muito forte em ambos os lados. Isso não é ajuda. A ajuda soviética consiste em alguns acordos de longo prazo, como os acordos sobre a cana-de-açúcar e os acordos pra fornecer empréstimos de longo prazo pra conclusão de empresas industriais. Isso é muito importante pra nosso desenvolvimento. E digo que a URSS, você me perguntou, não sei se você está se referindo especificamente à URSS ou aos países socialistas. Mas temos esse tipo de relacionamento com todos os países socialistas.

Mas ainda há soldados soviéticos em Cuba?

Técnicos, mais exatamente. Eles estão lá, sim.

Vocês precisam deles?

Eles são nossos instrutores em algumas áreas.

Em quais áreas?

Na área de tecnologia de defesa avançada. Abatemos um U-2: só a URSS consegue fazer isso, a China também, acredito, e naturalmente é uma técnica muito difícil. Até agora não a dominamos.

Qual é a posição de Cuba diante do conflito que opõe Moscou a Pequim?

Lamentamos profundamente essas questões. Até agora não nos pronunciamos sobre isso nem vamos nos pronunciar oficialmente.

O sr. Khrushchov deseja convocar uma conferência comunista mundial pra resolver esse conflito de uma forma ou de outra. Se essa conferência acontecer, Cuba vai participar?

Esta pergunta está irmanada à anterior. Não vamos nos pronunciar sobre esse assunto. De qualquer forma, não considero este momento oportuno.

Quais são atualmente as relações de Cuba com o resto da América Latina?

São fracas. Mantemos relações diplomáticas com cinco países e relações comerciais com apenas dois ou três. Elas não são significativas. O bloqueio americano foi imposto aos países latino-americanos, creio eu, de forma mais eficaz que em outras regiões do mundo. Os países americanos [i.e. das três Américas] nos condenaram em Punta del Este, no Uruguai, numa conferência em 1962. Fomos expulsos da Organização dos Estados Americanos e muitos países romperam suas relações diplomáticas e comerciais conosco. Essa situação permanece até hoje.

Você acha que existem atualmente países na América Latina maduros, prontos pra uma revolução do tipo castrista, do tipo cubano?

Existem alguns onde a luta já está em curso. Não se fala disso aqui, mas há luta na Venezuela, na Guatemala e talvez em outros países onde o povo pegou em armas. Aconteceu conosco: lutamos por muitos anos e ninguém falava de nós.

Você mencionou a Venezuela e a Guatemala, mas Cuba está ajudando os revolucionários desses países?

Apenas moralmente. Cuba considera que a luta deles é justa, mas só os ajuda até esse ponto.


Mais d’après vous, est-ce qu’il y a quelque chose de changé dans l’attitude des États-Unis à l’endroit du Cuba ?

Peut-être je vous dis, c’est difficile à vous répondre directement. En tout cas, nous ne fixons pas notre position en écoutant, en regardant ce que les États-Unis font ou ce que les États-Unis veulent. Bon, nous faisons notre politique internationale et naturellement nous regardons avec attention ce qu’ils font parce que c’est notre ennemi, ils sont près de nous, ils sont très forts.

Aujourd’hui, dans ces derniers jours, il y a quelques voix américaines, on les connait, le sénateur [James William] Fulbright [président de la Commission des affaires étrangères du Sénat des États-Unis], par exemple, qui a parlé un langage absolument différent. Mais immédiatement monsieur [David Dean] Rusk [secrétaire d’État des États-Unis], monsieur Thomas Mann [diplomate américain qui a forgé la politique d’intervention directe dans les pays latino-américaines] ont parlé dans le langage habituel, et nous ne pouvons pas savoir si l’attitude de Fulbright, par exemple, correspond vraiment à un changement de la position des États-Unis ou si elle n’est qu’une voix isolée.

Est-ce que le blocus économique imposé par les États-Unis a affecté la vie à Cuba ?

Oui, en premier lieu, il a fait changer absolument toute la vie à Cuba. Nous avons changé nos sources de ravitaillement, qui se sont déplacées vers l’Europe, surtout vers les pays socialistes. Nous avons changé toute notre vie même, et les articles de luxe, les articles de consommation à long terme, on peut dire – je ne connais pas le mot en français –, et ça a presque disparu à Cuba. Il y avait beaucoup de choses qui manquent. Nos industries sont passées par une période assez longue où il n’y avait pas de pièces de rechange, il a fallu s’arrêter quelquefois. Nous ne pouvons pas les mettre en fonctionnement, mais cette condition même a forcé notre industrialisation dans la mécanique.

Et en ce moment nous pouvons fournir presque tous les ravitaillements essentiels de type mécanique, c’est-à-dire des pièces de rechange par notre propre main, et naturellement ce que nous ne pouvons pas acheter dans des pays socialistes ou dans d’autres pays de l’Europe. Parce qu’on doit considérer que Cuba est un pays où presque toute l’industrie, toute la technique et toute la technologie dépendaient des États-Unis et des usines des États-Unis, et changer tout ça, c’est une chose assez difficile. Nous l’avons pu faire, et depuis cette dernière année, le blocus est déjà vraiment un échec absolu.

Mais vous êtes satisfait de la situation économique actuelle à Cuba ?

Non, jamais on ne peut être satisfait. Nous aspirons à beaucoup plus, mais l’année dernière a été l’année plus basse, surtout dans les premières parties de l’année, où l’économie était dans le moment le plus bas. Depuis ce moment, nous avons commencé à accroitre notre industrie, notre agriculture, et ça c’est, on peut dire, la direction générale que suit l’économie, c’est-à-dire, une amélioration progressive, soutenue. Malheureusement ce n’est pas une chose merveilleuse, mais chaque jour on peut voir concrètement les choses que nous faisons, et c’est encourageant pour le peuple.

L’aide soviétique à Cuba, est-ce qu’elle vous est nécessaire ?

Naturellement qu’il est nécessaire. Je pense que l’aide de tous les peuples est nécessaire. Si vous demandez si elle est indispensable, je pense que non. Mais on doit préciser bien ce qu’on appelle l’aide, parce qu’il y a toujours quelques erreurs, quelques tromperies. Par exemple, les Américains parlent de l’aide soviétique en ce qui concerne le commerce, et nous avons un très fort commerce sur une base bilatérale de part et d’autre. Ça n’est pas de l’aide. L’aide soviétique, ce sont quelques accords à long terme, comme les accords pour la canne à sucre et les accords pour fournir des crédits à long terme aux entreprises industrielles complètes. C’est très important pour notre développement. Et je dis, l’Union soviétique, vous m’avez demandé, je ne sais pas si vous parlez précisément de l’Union soviétique ou des pays socialistes. Mais c’est avec tous les pays socialistes que nous avons ce type de relation.

Mais est-ce qu’il y a encore des soldats soviétiques à Cuba ?

Nous disons, techniciens. Ils sont là, oui.

Ils vous sont nécessaires ?

Ils sont nos professeurs dans quelques domaines.

Dans quels domaines ?

Dans le domaine de la technique supérieure de la défense. Nous avons fait tomber un U-2, seulement l’Union soviétique peut le faire, la Chine aussi, je crois, et naturellement c’est une technique très difficile. Nous ne la dominons pas jusqu’à ce moment.

Quelle est la position de Cuba face au conflit qui oppose Moscou à Pékin ?

Ces questions, nous les déplorons beaucoup. Nous n’en avons pas parlé jusqu’à ce moment et nous n’en parlerons pas officiellement.

Monsieur Khrouchtchov désire réunir une conférence communiste mondiale pour résoudre d’une façon ou d’une autre ce conflit. Si cette conférence a lieu, est-ce que Cuba y participera ?

Cette question est frère de la précédente. Nous ne parlerons pas de cette question. Je ne trouve pas ce moment opportun, en tout cas.

Quels sont les rapports actuellement de Cuba avec le reste de l’Amérique latine ?

Ils sont faibles. Nous avons des relations diplomatiques avec cinq pays et nous avons des relations commerciales avec deux ou trois seulement. Elles ne sont pas importantes. Le blocus américain s’est imposé aussi aux pays de l’Amérique latine, je pense, plus efficacement que dans d’autres régions du monde. Les pays américains [c.à.d. des trois Amériques] nous ont condamné à Punta del Este, en Uruguay, lors d’une conférence en 1962. Nous avons été expulsés de l’Organisation des États américains et beaucoup de pays ont coupé leurs relations diplomatiques et commerciales avec nous. C’est la situation jusqu’à ce moment.

Pensez-vous qu’il y a, à l’heure actuelle, en Amérique latine des pays mûrs, prêts pour une révolution du type castriste, du type cubain ?

Il y en a quelques-uns où il y a déjà la lutte. Ici on n’en parle pas, mais la lutte existe au Venezuela, au Guatemala et peut-être dans d’autres pays où le peuple lutte avec les armes. Ça s’est passé avec nous : nous avons lutté pendant de longues années et personne ne parlait de nous.

Vous avez parlé du Venezuela et du Guatemala, mais est-ce que Cuba aide les révolutionnaires de ces pays ?

Moralement seulement. Il considère que leur lutte est juste, mais il ne les aide que jusqu’à ce point.



El Che usando a boca pra verificar se essa Coca é Fanta.

domingo, 24 de maio de 2026

José Roberto do Amaral Lapa (Globo Ciência)

Há alguns dias, terminei a leitura da coletânea O garimpeiro dos cantos e antros de Campinas: homenagem a José Roberto do Amaral Lapa, organizada por Olga Rodrigues de Moraes von Simson e publicada em 2000 pela Editora da Unicamp. Inicialmente concebida como um presente-surpresa pra marcar a aposentadoria compulsória do querido professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), ocorrida quando ele completou 70 anos em 1999, acabou se tornando um monumento póstumo, já que o docente viria a falecer em plena preparação do livro. Idealizada pelo Centro de Memória-Unicamp (CMU) que ele ajudou a fundar, reúne transcrições de entrevistas dadas por Lapa em anos bem diferentes, fotos de vários momentos da carreira, depoimentos de ex-colegas, ex-funcionários e ex-estudantes (em alguns dos quais foi mantido o tempo presente, dado o inesperado de sua morte), artigos sobre temas de sua predileção e uma lista exaustiva de seus cargos, livros, artigos científicos e jornalísticos, entrevistas e prêmios.

Embora ele fosse historiador, não conheci o “professor Lapa”, ou simplesmente “o Professor”, como diziam que ele era chamado, pois só ingressei na graduação em 2006, e mesmo que tenha ouvido falar seu nome de passagem, não o associei à pessoa, só agora totalmente conhecida por mim. Nascido em Campinas em 1929, formou-se em História e em Direito no que seria a futura PUC de Campinas, lecionou na Unesp de Marília e foi um dos primeiros professores do IFCH, onde concluiu sua carreira, tendo realizado seu sonho de voltar à terra natal. Após publicar muitas obras seminais sobre a economia colonial brasileira, Lapa realizou outro grande sonho de se tornar “o historiador” por excelência de Campinas, quando lançou A cidade: os cantos e os antros em 1995, com excelente reimpressão apenas em 2008. Apaixonado pela história local, esse livro se tornou referência obrigatória de toda uma prolífica área que se formaria, mas seu papel na fundação do CMU, iniciado com arquivos do Judiciário quase incinerados e no qual ele trabalhou até falecer, foi a realização maior de sua paixão de sempre.

Em meio à listagem exaustiva de suas entrevistas, consta na p. 324 uma participação na edição de 21 de janeiro de 1994 do antigo programa Globo Ciência (1984-2014) da TV Globo (onde mais?), sem mais detalhes. Há muitas outras participações suas em jornais e programas da EPTV, a afiliada da Globo em Campinas e região (mas não em Bragança Paulista, abarcada pela TV Vanguarda). Nunca assisti ao Globo Ciência assiduamente, mas sempre escutava falar, sobretudo nos intervalos comerciais, e seu próprio formato me dá um pouco de nostalgia da infância, quando a TV aberta era mais rica em conteúdo educativo e quando nos aferrávamos aos poucos suportes existentes pra nos informar, na ausência da saturante abundância da internet contemporânea. Apesar da imagem de benevolência passada por fundações de financiamento como a de Roberto Marinho e a do Banco do Brasil, o pouco destaque dado a esse tipo de conteúdo, influindo no generalizado atraso cultural do país atual, se nota pelo tempo dedicado (menos de meia hora) e aos horários na grade (sábado ou domingo no começo da manhã).

Todavia, não posso dizer que esse modelo não deixou frutos nas mídias modernas, em especial o YouTube, os quais, além de terem sido inspirados por mitos como Carl Sagan, Susan Greenfield, Neil deGrasse Tyson e, em menor medida, Richard Dawikins, certamente tinham idade (não tô chamando de velhos, rs!) e disposição pra assistir a essas relíquias. Entre muitos divulgadores de ciência e conhecimento, longe de fazer uma lista exaustiva, presto minha homenagem ao Pirulla, ao também unicamper Sérgio Sacani, a Átila Iamarino, Natália Pasternak, Dráuzio Varella, Marcelo Gleiser, a Leon e Nilce, bem com aos canais mais recentes “Olá Ciência” e “Nunca vi 1 cientista” e os que agora também avançam a outras ciências além das exatas e biológicas. Confesso que, mesmo eu sendo “dotô”, essa não é uma seara que assisto com tanta frequência quanto boletins de notícias, youtubers de atualidades e alguns semanários geopolíticos. Portanto, se você quer lembrar algum outro divulgador ou mídia (sem esquecer as revistas da própria Editora Globo...) que marcou ou marca sua juventude, escreva nos comentários, por favor. E faça teu próprio merchã, se quiser!

Voltando ao assunto: boa parte das informações sobre o Globo Ciência vem da Wikipédia, mas também há um bom texto de 2021 com as mesmas informações, reorganizadas e acrescidas de dois vídeos da abertura, no próprio portal Memória Globo. Em 2011, o programa foi incorporado ao Globo Cidadania, chamado de “bloco” (sequer de programa!) e conduzido por Sandra Annenberg (hoje no Globo Repórter com o mítico William Bonner). Finalmente esse “bloco” foi fundido em 2014 com vários outros “Globo alguma nerdice” no esquecido Como Será, sob a mesma liderança e, embora mais longo, sob o mesmo horário sonífero de começo das manhãs de sábado. Ele mesmo foi extinto em 2019 e reprisado até 2022, quando foi substituído por reprises do próprio Globo Repórter.



Conhece essa careca? Rs.


Entre as várias mudanças de horário e formato, a edição com o professor Lapa, que falava sobre a preservação de arquivos e também abordou instituições no Rio de Janeiro, foi feita no período aberto em 1991, quando o Globo Ciência foi relegado ao domingo cedinho, e fechado em outubro de 1995, quando voltou aos sábados. Mais exatamente, desde 1992 era apresentado pela simpática jornalista Anna Terra, que aparece no vídeo abaixo, e contava com apenas uma ou duas reportagens. Curiosamente, o dia citado na coletânea caiu numa sexta-feira, o que poderia indicar que se trata da data de gravação, e não de exibição. A edição disponível mais próxima que localizei foi a de 16 de janeiro de 1994, realmente um domingo, sendo plausível, pois, que o CMU possa ter aparecido no dia 23, uma semana depois, e não 21.

Sem muita expectativa, procurei por esse episódio no YouTube (sabia que talvez fosse praticamente impossível achar pelos arquivos públicos da própria Globo), e entre as poucas edições completas, achei uma sem data, nem mesmo o ano. E eis que, apesar da imagem passável com um áudio bem nítido, encontro na segunda metade do vídeo o professor Lapa, eternizado pelo herói Rodolfo Paes, que acredito ser o dono do canal! Não tentei discernir outras características do vídeo que pudessem confirmar a data certa, mas não há dúvidas de que seja o episódio mencionado na coletânea em sua homenagem. Pra que a descoberta se torne pública, e como minha própria homenagem a quem fez grande diferença em nossa historiografia e no IFCH, mesmo eu não o tendo conhecido, segue o episódio completo, seguido da transcrição da reportagem sobre os centros de documentação. Após um oferecimento comercial das Americanas com a cômica e saudosa Nair Bello, ela começa aos 14 min 05 seg, enquanto o próprio Lapa aparece aos 26 min 14 seg.

Infelizmente não localizei nada a respeito de Anna Terra, ainda mais que há várias homônimas, sobretudo no Instagram, e com a profissão parecida. O único registro fiável parece ser esta publicação de janeiro de 2012 no blog do jornalista cearense Wilson Ibiapina, cujas últimas postagens antecedem em pouco sua própria morte, em 2023. Anna é descrita como gaúcha e incluída com o próprio Wilson e outros quatro ex-colegas entre “globais dos anos 80”, tendo ela trabalhado na emissora em Brasília e então residindo em São Paulo. Os seis teriam se reunido na capital federal pra um almoço, e Anna aparece à frente, de blusa branca. Único registro online da profissional, nenhuma menção ao Globo Ciência no texto... Quanto ao repórter Wilson Ferreira Junior (se não falarmos ainda do cinegrafista João de Andrade), ele parece ter tido bem mais êxito, a julgar por seu LinkedIn e Instagram, que acredito serem dele devido à semelhança física.

Pra aumentar o mistério, buscando no Google pelo nome do repórter, achei o que se apresenta como parte do anuário de produções da Unicamp, relacionado à participação dos docentes do Departamento de História do IFCH em diversos tipos de eventos em 1993. Há uma menção ao professor Lapa, com a seguinte observação (acredito que redigida em primeira pessoa): “Recebemos no dia 29/10 [deve ser isso, há um ele minúsculo no lugar do número um], uma equipe do Programa Globo Ciência, da TV Globo, chefiada pelo jornalista Wilson Ferreira Júnior, que veio produzir uma matéria sobre todos os serviços que este Centro presta à Unicamp e à comunidade, Centro de Memória-Unicamp.” Era possível na época produzir algo em outubro e só exibir em janeiro? Como alguém acostumado ao imediatismo das lives, me parece estranho, o que deixa este texto ainda mais aberto a contribuições e correções externas, se necessárias!


Anna Terra: Fotografias, filmes, documentos, jornais. Sem esses registros do passado e do presente, os pesquisadores não podem reconstruir a história das cidades, dos países, das civilizações. A reportagem principal do Globo Ciência de hoje mostra três instituições brasileiras especializadas na preservação da memória do nosso país. São arquivos privados e públicos que estão abertos a especialistas e também a qualquer um de nós. O repórter Wilson Ferreira Junior e o cinegrafista João de Andrade trabalharam no Rio de Janeiro e em Campinas para mostrar como funcionam os centros de documentação.

Wilson Ferreira Junior: Nos primeiros anos do século 20, um prefeito do Rio de Janeiro mudou a cara da cidade. Pereira Passos, o prefeito, construiu grandes avenidas, derrubou as casas velhas do Centro, encomendou novos quiosques e até banheiros públicos. O que Pereira Passos fez trouxe consequências para o Rio e para o país, já que a cidade era capital da República. O saneamento melhorou, diminuiu a incidência de doenças infectocontagiosas e a cidade ficou mais parecida com as capitais europeias.

Essa história só pode ser contada porque existem fotos, documentos e outros registros guardados em arquivos como o da cidade do Rio de Janeiro. São os arquivos que permitem aos historiadores [e ao público em?] geral reconstituírem e analisarem a história de sua cidade, de seu próprio país. Mas isso não é um privilégio de profissionais. A Constituição brasileira garante a todos o acesso à informação: qualquer cidadão que estiver interessado pode recorrer aos arquivos públicos para fazer consultas a respeito do que quiser. Desde fatos importantes da história até simples curiosidades, como saber, por exemplo, qual era a cara desse lugar onde estamos agora há mais ou menos 90 anos.

Esta foto faz parte do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que guarda 30 mil fotos, 40 mil negativos e 1 220 metros de documentos, além de outros tipos de material que reconstituem trechos da história da cidade desde o século 17 até a década passada [de 1980]. O acervo do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, de certa forma, conta a história da própria cidade. E nesse acervo existem documentos muito antigos, alguns deles muito valiosos, que datam inclusive do tempo em que o Brasil era um Império. Esses documentos, os mais valiosos, estão guardados num cofre. E nós vamos ter a oportunidade de conhecer alguns desses documentos agora com a ajuda do Roberto Paulo, que é um museólogo aqui do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro. Vamos, portanto, abrir o cofre e vamos dar uma olhada nesses documentos. Vamos lá, Roberto!

Aqui há um auto de juramento da coroação de Dom Pedro 1.º. 1.º de dezembro de 1822, quando ele jurou a coroa depois da Independência. Aqui nós temos outros documentos: esse, por exemplo, assinado por José Bonifácio de Andrade e Silva. Veja aqui a assinatura.

Roberto Paulo Freire: Aqui é a respeito do matadouro lá em Santa Cruz. Inclusive Dom Pedro 1.º ia a cavalo até Santa Cruz.

WFJ: Além desses livros, que basicamente datam da época do Império, existem muitas outras... né?

RPF: Muitos outros que estão à disposição aqui no nosso arquivo, vários assuntos quem contam nossa história...

WFJ: O arquivo da cidade está completando 100 anos de vida, mas as pessoas que o procuram não têm acesso a todos os documentos do acervo. Isso porque só estão identificados e catalogados 25% deles. O resto permanece em depósitos e vai sendo colocado à disposição do público a conta-gotas.

José Maria Jardim: 75% do acervo não se sabe ainda. E isso que nós estamos fazendo no momento: de que se trata, como chegaram e como estão. O nosso esforço nesse momento é de abrir essa caixa-preta. Mas essa caixa-preta só é compreensiva se nós abrirmos também uma outra dimensão dessa caixa-preta, que é o que se encontra, na verdade, nos arquivos da prefeitura. Reverter isso significa uma política arquivística, significa o reconhecimento desses acervos que se encontram nos órgãos da administração municipal, o recolhimento imediato daqueles que são de valor histórico, de valor para a pesquisa científica e, mais do que isso, uma política de intervenção na produção da documentação hoje.

Locutor: Uma vida a serviço do Brasil. [Toca parte do refrão Hino à Bandeira.] Getúlio Vargas, em contato direto com os trabalhadores do Brasil, presta conta dos atos do seu governo, num exemplo do mais puro sentimento democrático e prova de respeito e amor ao povo.

WFJ: Você e todos nós podemos ver esse filme hoje porque o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas o conservou. O CPDOC, ao contrário do arquivo da cidade, que guarda documentos públicos, é especializado em guardar arquivos pessoais de homens públicos brasileiros que tiveram projeção nacional a partir de 1930. Aqui se pode ver um dossiê sobre o nazismo no Rio Grande do Sul, que pertencia ao general Cordeiro de Farias, ou a carta de demissão de João Goulart do cargo de ministro do Trabalho, ou ainda o manuscrito do discurso escrito por Amaral Peixoto quando da fusão dos estados do Rio e da Guanabara. São mais de 1,5 milhão de documentos que pertenceram a 110 pessoas importantes, principalmente políticos.

Suely Braga: São os documentos que essas pessoas julgaram interessante em algum momento da vida preservar. São os documentos pessoais, como cartas, telegramas, discursos, tem originais de discursos, tem manuscritos, nós temos muitas fotografias, discos, filmes, impressos. Quer dizer, toda a natureza, todo o documento que se julgou por bem, por um motivo ou por outro, guardar ao longo do exercício da sua vida pública.

WFJ: É comum, então, que pesquisadores procurem aqui arquivos pessoais de políticos, de pessoas proeminentes para fazer um confronto com arquivos públicos, por exemplo?

SB: A natureza do documento privado, pessoal, é diferente. É um documento muito mais solto, muito mais fluido. Quer dizer, não teve toda a pressão que tem o documento público, que ele tem que estar num formato, num padrão, você tem regras de como se pronunciar, como expressar uma ideia. No arquivo privado, não. Você vai ver o político falando livremente sobre determinado assunto. Você vai ver o original de um discurso que muitas vezes não é exatamente a versão que ele proferiu em plenário. Quer dizer, esse trabalho de confronto, poder ter esses vários tipos de fonte, é fundamental para o desenvolvimento de qualquer pesquisa.

WFJ: Apertado em um andar do prédio da GV [a FGV, Fundação Getúlio Vargas] no Rio, o CPDOC tem 50 funcionários, dos quais 33 são pesquisadores. Fundado em 1973, recebe pesquisadores externos e também promove pesquisas próprias.

Alzira Abreu: Houve uma primeira parte das atividades dos primeiros anos [em que] nós trabalhamos muito com os anos 30, 37. Houve um outro período que trabalhamos já com os anos 50, e nesse momento nós estamos muito voltados já para o período 64, que nós estamos trabalhando com o regime militar. Não só com a articulação do regime, da revolução de 64, do golpe, mas também como é que ele se desenvolveu.

WFJ: Todos os arquivos, museus, bibliotecas e instituições que lidam com documentos históricos têm uma preocupação permanente com a conservação e a restauração desses documentos. Tanto que várias dessas instituições têm laboratórios próprios de restauração. É o caso do Centro de Memória da Unicamp, em Campinas, que tem no seu laboratório técnicos especializados em mexer com documentos como esses, que ilustram, aliás, as causas mais frequentes de deterioração, como mordidas de roedores, ação de insetos, de fungos e de inundações. Aqui no laboratório de restauração, documentos como esses são totalmente recuperados e se transformam em documentos como esse daqui, já totalmente recuperado e pronto para ser manuseado pelos pesquisadores.

O processo de restauração começa com uma limpeza feita com pincel largo e bisturi. Nos documentos mais sujos, os restauradores aplicam também pó de borracha. Depois de limpos, os papéis passam por três banhos diferentes: um com água destilada aquecida a 50 °C, o segundo com hidróxido de cálcio para diminuir a acidez do papel – a acidez é a responsável pela fragilidade dos papéis velhos –, o terceiro com uma cola à base de celulose, que impede o ressecamento e devolve a maciez ao documento. O próximo passo é a secagem natural. O processo termina na mesa de luz, onde é feita a reconstituição estética com tiras de papel natural e cola neutra.

Quanto tempo se leva, em média, para restaurar um livro daqueles que nós vimos todos deteriorados, para transformar num livro reconstituído?

Dulce Fernandes Barata: Olha, depende muito dos materiais disponíveis. Depende inclusive dos equipamentos. Eu acredito que de seis meses a um ano.

WFJ: E as técnicas de restauro, elas são sempre artesanais, como a senhora faz aqui, com o seu pessoal no laboratório, ou já existem equipamentos modernos que podem fazer isso em substituição ao trabalho manual?

DFB: Ah, existe com certeza, em outras instituições nacionais e internacionais. As pessoas têm usado muito o que eles chamam de restauração em massa, usado principalmente com auxílio das máquinas, máquina de obturação de papel, tem as máquinas, as câmeras de desacidificação de papéis, e isso auxilia enormemente, a produção do trabalho ganha muito na qualidade e no tempo. Porque se os trabalhos são feitos artesanalmente, nós vamos ter uma luta contra o tempo, ao passo que se tiver equipamentos, tecnologias avançadas como várias instituições têm, então a restauração vai ganhar demais em termos de quantidade e qualidade.

WFJ: Os documentos que são restaurados no Centro de Memória da Unicamp fazem parte de um acervo que reúne material histórico de Campinas e região dos últimos 200 anos. São processos do Tribunal de Justiça, arquivos da Santa Casa local, registros de escravos, da Estrada de Ferro Mogiana e das antigas fazendas de café. As fotos, negativos e todo o material visual também são conservados caprichosamente. Tudo é arquivado em sala especial, com temperatura e umidade controladas, embalado em papel neutro. Além de conservar o arquivo, o Centro de Memória tem um setor de publicações que divulga o acervo através de livros, revistas e boletins. O diretor do Centro diz que instituições como a sua ajudam a diminuir os efeitos de um dos grandes problemas brasileiros: a falta de memória.

Qual é o papel dos arquivos e centros de memória nessa resistência contra a perda do patrimônio cultural brasileiro?

José Roberto Lapa: Simplesmente recolher a documentação escrita, a documentação que pode ser por via oral, a documentação, no sentido mais largo que possa ter a palavra, representa muito, mas não tudo. A preservação da memória deve envolver forçosamente o direito e cidadania de acesso à informação. Isto é, se nós recolhermos o acervo que está correndo perigo, que está correndo o risco de se perder, não nos basta depositar esse acervo e salvá-lo. É preciso organizá-lo, é preciso acessá-lo da maneira mais ágil, mais fácil que se consiga. É preciso universalizar o seu uso e, sobretudo, transformá-lo num gerador de conhecimento, a fim de que o documento na sua frieza, o documento muitas vezes até naquilo que não está nele escrito, naquilo que ele deixa implícito, possa ter uma dinâmica e ir ao encontro do interessado e permitir a ele que a partir do documento, através do documento, além do documento, ele possa ter conhecimento histórico e contribuir para que, com esse conhecimento histórico, ele possa, quem sabe, até mudar para melhor a sociedade em que ele vive.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

Khristo Grozev: Radev não será novo Orbán

Como você viu, não tenho “aparecido” por aqui com muita regularidade, embora minha intenção fosse continuar programando publicações diárias nos fins de semana. A vida deu um choque de realidade: apesar do material abundante, muita coisa ficava acumulada e resolvi dedicar sábados e domingos pra outras tarefas de organização pessoal ao invés de maratonar em cima do computador como um louco por dois dias seguidos. Porém, sempre que ocorre um evento importante, que consigo pegar “no pulo” ou que logo pode ficar velho, tento fazer um esforço, mesmo que a preparação seja lenta. Tenho coisas interessantes reservadas e espero que um dia volte a fazer programações diárias!

O assunto da semana pros nerds em “Leste europeu” (termo que abomino tanto quanto “Oriente Médio”!) foram as últimas eleições parlamentares na Bulgária, que pela primeira vez desde 1997 deram maioria clara a apenas um partido. Curiosamente, é uma legenda criada menos de dois meses antes, com o genérico nome “Bulgária Progressista” e fundada por ninguém menos que o ex-presidente Rumen Radev, no cargo há quase dez anos e que renunciou pra concorrer ao pleito. Embora o presidente seja eleito pelo voto popular, o regime é parlamentarista e seu cargo é mais cerimonial, impedindo Radev, portanto, de resolver a crise política aberta pela renúncia do premiê Boiko Borisov, que governou de 2011 a 2021.

Em cinco anos, essa foi a oitava eleição parlamentar, pois nenhum governo conseguia formar maioria e logo caía. No fim de 2025, o povo fez grandes protestos contra a classe política, apoiados por Radev, que se sentiu, assim, ungido pra formar o próprio partido. Deu certo: levando em conta o sistema, seu BP conseguiu quase 45% dos votos, mas mais da metade das cadeiras, o suficiente pra mudar juízes da Suprema Corte e o procurador-geral – mas não pra mudar a Constituição. Os antigos partidos saíram desacreditados, e até os socialistas, herdeiros dos comunistas, pela primeira vez não entraram no Parlamento desde a volta da democracia. Os fatos já são bem conhecidos, mas o que eu trouxe foi uma entrevista do jornalista investigativo búlgaro Khristo Grozev pro programa semanal de geopolítica de Ekaterina Kotrikadze na TV Dozhd (TV Rain).

Embora eu tenha incorporado o corte que saiu depois, eu tirei a transcrição de um trecho mais restrito, que omite a apresentação do tema. Usei um site que cria legendas a partir de vídeos do YouTube e confrontei com o áudio, com o agravante que o russo não é a língua materna de Grozev, portanto, ele faz muitos “aaa, ééé”, erros de concordância e construções incomuns, além da pronúncia induzir o leitor a algo “nada a ver”; pode não ter ficado perfeito. Depois traduzi pro português, e dada a importância do documento e o trabalhão que deu pra corrigir, ele também segue abaixo, depois da tradução. No final da página, o vídeo no canal de Kotrikadze, e logo abaixo, brincando com a pecha de “pró-Rússia” de Radev, a ideia que logo me vem à cabeça quando vejo o símbolo do partido BP, rs:



Vamos discutir com Khristo Grozev, jornalista investigativo da Bulgária que está com a gente ao vivo. Olá, Khristo.

Olá, Ekaterina.

Muito obrigada por ter achado um tempo. E de repente percebemos que você deve saber muito mais sobre a Bulgária do que muitas outras pessoas. E estou curiosa pra ouvir sua reação. Pode-se dizer basicamente que Putin substituiu seu protegido Orbán por seu protegido Radev?

Bem, não se pode dizer que se equivalem. Não é como se Putin tivesse recebido as mesmas ferramentas dentro da UE e da OTAN que tinha com Orbán. Ainda assim, a perda de Orbán é significativamente pior em termos absolutos do que o ganho de Radev nas eleições búlgaras, embora estivesse claro, antes da campanha eleitoral, que ele tinha se tornado o candidato preferido, com Russia Today e Sputnik publicando longos artigos em seu favor. Grupos búlgaros que monitoravam a desinformação durante as eleições também viram que o grupo “Matrioshka” e grupos afiliados a Russia Today repostaram milhares de artigos em apoio a ele.

Mas o mais importante a entender é que ele não equivale a Orbán por vários motivos. Primeiro, ele já estava no governo. A razão pela qual ele obteve uma votação tão grande é precisamente a instabilidade da situação política na Bulgária. Há vários anos, a Bulgária não consegue produzir resultados eleitorais que deem a um ou dois partidos votos suficientes pra formar um governo estável, seja de um só homem ou uma coalizão. Por isso, perdi a conta de quantos governos interinos a Bulgária teve nos últimos anos. Muitos deles foram nomeados pelo próprio Radev em sua função de presidente.

E vimos que, embora ele falasse frequentemente, desde o início da guerra, que a Bulgária não se envolveria no apoio à Ucrânia, que não prejudicaria suas relações com a Rússia e que sempre entendeu que a Rússia é muito mais importante pra Bulgária que a Ucrânia, seu governo interino sempre reafirmou o apoio militar à Ucrânia, embora tentasse mantê-lo em segredo. E isso é lógico. O próprio Radev se tornou general durante seu serviço na Bulgária como membro da OTAN. Ele participou de muitos programas de treinamento e instrução nos EUA. E pode-se dizer que parte das declarações consideradas pró-Rússia são retóricas, destinadas a aumentar sua base eleitoral na Bulgária. Mas quando se trata de decisões práticas e pragmáticas, ele segue as mesmas linhas que a UE e a OTAN consideram corretas.

Sim. Mas uma situação em que o ministro das Relações Exteriores de Radev saísse de uma reunião da UE, ligasse pra Lavrov e recebesse instruções de algum oligarca russo seria inimaginável. Estou certa?

Seria inimaginável. E, novamente, pegue o exemplo de seu ministro da Defesa, que ele nomeou no governo interino e agora provavelmente vai voltar ao cargo: um homem leal que estruturou todos os fornecimentos de armas e munições à Ucrânia em 2022-2023. Portanto, é impossível supor que alguém tão pró-OTAN, que seguiu tão estritamente suas políticas, de repente, manche sua reputação e mude sua política por qualquer motivo. Portanto, isso é muita retórica; pode-se considerar isso um prêmio de consolação pra Putin. Ou seja, vai haver outro país, além da Eslováquia, dizendo: “Vamos ser amigos da Rússia”. Mas não espero grandes consequências disso.

Sim, esse é o prêmio de consolação. Entendo, que nem no [show de prêmios] Campo dos Milagres há muitos anos. Khristo, queria te perguntar, de forma mais ampla, sobre o nível atual de influência do Kremlin, da Rússia e de Vladimir Putin nos países europeus. Está diminuindo ou aumentando? Você é um dos melhores investigadores que monitoram isso e, em particular, os serviços de inteligência russos. O quanto você está satisfeito ou, ao contrário, decepcionado com a dinâmica atual?

A perda da Hungria e de Orbán, que era um porta-voz tão poderoso dos movimentos pró-Putin em geral na Europa, pode ser considerada o início de uma espécie de cataclismo. No mínimo, vejo, e pode-se até afirmar, que o presidente Trump tentou dar seu apoio total a Orbán e recebeu em troca uma queda significativa no apoio popular. E se analisarmos isso sob a perspectiva de Trump dando apoio semelhante a outras forças de extrema-direita e pró-Rússia na Europa, acho que podemos considerar isso uma tendência que vai favorecer o declínio desses movimentos pró-Rússia.

Na Bulgária, uma razão completamente diferente levou a essa vitória: a presença de instabilidade por três, quatro anos e corrupção generalizada nas elites empresariais e políticas. Assim, o presidente Radev conseguiu unir duas forças eleitorais decisivas: a juventude anticorrupção e a parcela da população que, por algum motivo, considera a Rússia sua amiga. São pessoas que nunca estiveram na Rússia nem sequer conheceram pessoalmente um russo na vida. Mas, como aprenderam na escola que foi a URSS que sempre nos ajudou, sempre vão votar pela Rússia. Portanto, uniu duas forças, duas forças eleitorais que simplesmente não existem em outros países, são muito mais fracas eleitoralmente. Há muito menos corrupção política na Europa Ocidental que na Bulgária.

E como está o FSB [Serviço Federal de Segurança da Rússia, antigo KGB] na Europa como um todo?

Esse é um assunto à parte. Quero falar sobre isso, porque estamos preparando uma nova investigação sobre o que o FSB e o GRU [Diretoria Principal de Inteligência, voltada pro exterior] estão exatamente fazendo, mas podemos afirmar novamente que os países europeus estão muito mais conscientes e preparados pra responder mais rapidamente a uma ameaça potencial hoje do que estavam há um ano. Portanto, o FSB não está se saindo muito bem. Além disso, entendemos que após nossa grande investigação sobre o novo departamento do FSB e do GRU que deveria substituir o antigo, obsoleto e falho 29155 e similares, eles tiveram que fechar esse novo ninho de fantasmas que tinha sido criado. Então, não posso dizer que o FSB esteja em boa fase.

Bem, boas notícias no essencial. Muito obrigada. Khristo Grozev, jornalista investigativo do Der Spiegel e do Insider, falou ao vivo na TV Dozhd.



Pausa pro humor (quase) anônimo, rs!


Обсудим с Христо Грозевым, журналистом-расследователем из Болгарии. Он присоединяется к нам в прямом эфире. Христо, приветствую.

Здравствуйте, Екатерина.

Спасибо вам большое, что нашли возможность. Так, вдруг мы вспомнили, что вы же должны про Болгарию знать гораздо больше, чем многие другие. И вот интересно, как вы реагируете. Можно ли говорить о том, что в принципе Путин заменил своего парня Орбана своим парнем Радевым?

Ну, нельзя сказать, что это эквивалент. Нельзя сказать, что получил такой же инструментарию внутри Евросоюза и внутри НАТО, как был через Орбана. Всё-таки потеря Орбана значительно хуже в абсолютных измерениях, чем выигрыш Радева на болгарские выборы, хотя перед выборной кампанией было очевидно, что всё-таки он стал предпочитанным кандидатом, а Russia Today и Sputnik делали длинные комментарии в его пользу. И тоже болгарские группы, которые отслеживали дезинформации во время выборов, тоже увидели, что группа “Матрёшка” и группы, которые связаны с Russia Today, перепубликовали, перепостили там тысячи статей его поддержку.

Но всё-таки самое важное, что надо понять, что он не является эквивалентом Орбана по неком нескольким причинам. Во-первых, он уже был в правительстве. Причина, почему он вообще сейчас получил такой огромнейший выигрыш, это именно из-за нестабильности политической ситуации в Болгарии. Уже несколько лет Болгария не может получить результаты выборов, которые бы дали одной партии или там двум партиям достаточно голосов, чтобы они сделали стабильное, либо единоличное, либо коалиционное правительство. Поэтому уже я потерял счёт, сколько временных служебных правительств на последние несколько лет были в Болгарии. Многие из них назначались именно Радевом в качестве его президентской должности.

И мы видели, что хотя он очень часто ещё с начала войны против Украины говорил о том, что Болгарии нельзя включаться в поддержку Украине, что нельзя расшатать вообще отношения с Россией, что надо всегда понимать, что у России намного больше значимости, чем у Украины для Болгарии, то его временное служебное правительство всегда подтверждало военную поддержку Украине, хотя в публичном пространстве они пытались об этом не говорить. А это логично. Сам Радев стал генералом во время его службы в натовской Болгарии. Он был на очень многих тренировках и обучениях в Америке. И можно сказать, что часть из того, что многие называют пророссийское утверждение, они риторические, они предназначены для того, чтобы он увеличил свою электоральную базу в Болгарии. Но когда вот идёт к моменту практических решений, прагматических решений, он следует по тем же самым линиям, которые Евросоюз и которые НАТО считает правильным.

Да. Ну вот ситуации, при которой Министр иностранных дел при Радеве выходит с заседание Европейского Союза и звонит Лаврову и получает поручение от какого-нибудь российского олигарха, она невообразима. Верно я понимаю?

Она невообразима. И ещё раз можно даже взять пример, что с его Министром обороны, которого он назначил в служебном правительстве и сейчас, скорее всего, опять будет министром Обороны – это лояльный человек, который наложил в 2022-2023 годах все поставки оружия и муниции Украине. Поэтому нельзя считать, что настолько пронатовский человек, который настолько следовал этим политикам, сейчас вдруг по каким-то причинам будет плевать на свою репутацию и поменяет политику. Поэтому это очень много риторики, можно считать утешительным выигрышем для Путина. То есть, будет ещё одна страна, кроме Словакии, которая будет говорить: “Давайте будем друзьями с Россией”. Но последствий больших от этого я не ожидаю.

Да, утешительный приз такой. Я понимаю, как в Поле Чудес было ещё много лет назад. А, Христо, я хочу вас спросить в широком смысле о том, каков сейчас уровень влияния, скажем, Кремля, России, Владимира Путина в европейских странах, понижается это влияние, повышается наоборот. То есть вы один из лучших расследователей, кто именно за этим следит и, в частности, за российскими спецслужбами. Насколько динамика сейчас вас радует или наоборот огорчает?

Потеря Венгрии и Орбана, который был настолько громким мегафоном пропутинских вообще движений внутри Европы, можно считаться началом какого-то катаклизма. По крайней мере, я вижу, и даже можно сказать, что президент Трамп пытался дать свою поддержку полностью Орбану и получил в ответ значительное понижение поддержки от населения. А если посмотреть на это с тех глаз, что Трамп такую поддержку даёт и другим крайне правым и пророссийским силам внутри Европы, я думаю, что можно считать, что это тренд, который будет в пользу уменьшения таких пророссийских движений.

В Болгарии совершенно другая причина привела к этому выигрышу: это то, что была нестабильность на протяжении 3-4 лет и огромная коррупция внутри бизнеса и политической элиты. И вот президент Радев смог объединить две решающих электоральных силы: это антикоррупционная молодёжь и та часть населения, которая по каким-то причинам считает Россию своим другом. Это люди, которые никогда не были в России, не встречали даже в жизни своего русского человека. Но из-за того, что они учились в школе, что это Советский Союз нам всегда помогал, они будут всегда голосовать за Россию. Поэтому он объединил две силы, две электоральные силы, которые в других странах просто отсутствуют, намного меньше электорально. Намного меньше политической коррупции в Западной Европе, чем в Болгарии.

А как у ФСБ дела в Европе в целом?

А это отдельная тема. Давайте об этом поговорим, потому что мы сейчас готовим ещё новое расследование о том, что именно ФСБ и ГРУ делают, но можно сказать опять, что европейские страны намного лучше понимают сегодня и готовы быстрее реагировать на потенциальную угрозу, чем год назад. Поэтому ФСБ не очень хорошо. А кроме того, мы понимаем, что после нашего большого расследования о новом ФСБшном, ГРУшном отделении, которое должно было заменить старое, устаревшее и сломанное 29155 и так далее, вот эту самую новую строшилку, которая была создана, им пришлось закрывать. Так что я не могу сказать, что у ФСБ хорошие дни.

Ну, в принципе, неплохие новости. Спасибо вам большое. Христо Грозев, журналист-расследователь Der Spiegel и Insider в прямом эфире телеканала Дождь.



E pra divertir um pouco... Depois da morte do MC Catra, eis que surge a MC Kotri, rs: