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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Resenha de “O queijo e os vermes” (2006)

Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!

Portanto, estou publicando hoje meu texto universitário mais antigo já saído na página: o primeiro trabalho escrito, entregue no dia 11 de maio de 2006, pra disciplina “Laboratório de História I”, ministrada no 1.º semestre por Sidney Chalhoub, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis. Lá se vão quase 20 anos que escrevi esta resenha sobre o livro O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição, do italiano Carlo Ginzburg (tradução de Maria Betânia Amoroso, 5. reimpr. da 3. ed, São Paulo, Companhia das Letras, 2005), gênero que aprendi a fazer ao longo de minha graduação. Algo de minha indecisão redacional, típica de quem ainda estava se iniciando na rigorosa escrita acadêmica, pode ser percebida na própria versão abaixo, da qual não só precisei atualizar a ortografia, mas também corrigir pontos que realmente não davam pra engolir.

Quem pegasse o arquivo original, veria parte desses deslizes comuns que o Sidney marcou tão incisivamente, tanto que depois ele fez um apanhado geral de todos os trabalhos pra depois nos dar preciosas dicas de redação que levei pra minha vida toda. Porém, como valioso estímulo pra jornada futura, fiquei impressionado ao ver os papéis sem muitos rabiscos e saber que minha primeira resenha causou boa impressão num dos mestres de nossa turma. A julgar pela avaliação final, cuja cor original infelizmente foi perdida pelo preto-e-branco do escâner, rs:



Esse clássico da micro-história tem como principal objetivo demonstrar uma nova visão sobre cultura popular e cultura hegemônica nos princípios da Idade Moderna europeia, que, segundo о escritor italiano Carlo Ginzburg, autor da obra, demonstrando hipóteses formuladas pelo russo Mikhail Bakhtin, se relacionavam seguindo a hipótese da “circularidade”, ou seja, as classes altas influenciavam as classes baixas e vice-versa; além disso, a cultura popular não teria sido passivamente moldada pelas classes dominantes, sendo fruto de tradições que remontavam há séculos e tinham as mais profundas raízes em culturas muito antigas. Tudo isso Ginzburg tenta demonstrar em sua obra-prima, passando por temas que abarcam a Inquisição, a cultura humanista, os principais grupos “hereges” do século 16 e a história das populações do Norte da península Itálica.

O livro conta a história do moleiro Domenico Scandella, dito Menocchio, habitante do Friuli na segunda metade do século 16, acusado pela Inquisição de pronunciar heresias graves sobre Cristo, desrespeitar as autoridades eclesiásticas e afirmar que era um melhor conhecedor de Deus do que o clero. Era conhecido pelos conterrâneos por suas agudas críticas à Igreja Católica, seus dogmas e por sua negação da divindade de Cristo e mesmo da existência de Deus, que, segundo Menocchio, não teria sido o criador do mundo. Após denúncias de testemunhas que se iniciaram em 1583, mesmo ocupando cargos importantes na administração de sua aldeia, Montereale, e vilarejos próximos e tendo trocado ideias com padres que conhecia, o moleiro é preso no ano seguinte e submetido a uma longa série de interrogatórios durante o ano, baseados em relatos de testemunhas que tiveram contato com ele e relataram aos inquisidores suas reações diante de ideias tão incomuns. Nessas ocasiões, o suposto herege tem a oportunidade de relatar sua visão sobre a religião e uma estranha cosmogonia que comparava a criação do mundo, de Deus e dos anjos (entre os quais estaria Ele) à fabricação do queijo por meio do leite e a aparição de vermes no alimento. Ao se defender, acaba atribuindo seus pensamentos a espíritos malignos, mas mesmo assim é condenado à prisão perpétua, da qual é libertado em 1586 após os inquisidores reconhecerem sua debilidade física como sinal de conversão, trocando a pena pelo confinamento em sua aldeia. Porém, após várias idas e vindas, a Inquisição volta a prender Menocchio em 1599 e, definitivamente, é torturado para confessar seus cúmplices e executado em Montereale para servir de exemplo.

Como pano de fundo, hão de se notar três fatos fundamentais para a formação da mentalidade moderna: a Reforma, as Grandes Navegações e o Renascimento, que influenciarão, ainda que indiretamente, o ideário de Menocchio. Sem a revolução cujo ápice se materializaria na figura de Lutero, o protagonista não teria espaço para expor suas ideias ditas heréticas, às quais alcançam dissertações sobre os sacramentos, a Bíblia, os santos e a paixão de Cristo. Ambos têm em comum denúncia da abastança do clero, do uso do latim nas missas como forma de traição e enganação, e dos sacramentos como instrumento de lucro. Porém, Ginzburg, devido à extrema particularidade do caso italiano, que possui muitas diferenças entre as correntes tradicionais, refuta tanto sua ligação com luteranos quanto com outra seita protestante, a dos anabatistas, que eram os maiores críticos dos sacramentos; a colocação em primeiro plano do raciocínio por Menocchio também o distingue dos profetas e pregadores tradicionais, pois ele priorizava seu pensamento e crença. O autor prefere relacioná-lo com uma corrente camponesa de raízes profundas que não sofreu qualquer influência “de cima”, sem qualquer denominação tradicional, que, de uma tradição oral radicada nos campos, prova a existência aí de uma “religião” sem dogmas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, ao modo pré-cristão, um “radicalismo religioso” somado a um materialismo com desejos de mudança social. O materialismo, no caso, pode ser encontrado em sua cosmogonia, segundo a qual Deus, por meio dos anjos, teria criado o mundo com a matéria surgida do movimento do caos e da qual os próprios anjos, inclusive Deus, teriam surgido, pela vontade de uma “santíssima majestade”. Mesmo assim, Menocchio é pouco afeito a esse radicalismo devido à sua grande carga, pondo lado a lado a página impressa e a cultura oral, o que pode ser concluído pelo modo como ele lia, o que é tido como mais importante para sua compreensão. Essa é a primeira prova da tese sobre a independência da cultura camponesa em relação às ideias “superiores” e pré-concebidas, que Ginzburg defenderá durante todo o livro.

O Renascimento será a segunda grande força que encontrará em Menocchio um poderoso eco. Em seu pensamento, podemos encontrar ainda a tolerância, a redução da religião à moralidade e a “equivalência das religiões”, originadas de uma tradição oral camponesa absorvida por hereges humanistas. Dentro do movimento, encontra-se ainda a invenção da imprensa, que quebrou o monopólio do conhecimento pelas pessoas poderosas e foi determinante para a publicação de livros lidos pelo moleiro, nos quais ele busca palavras e o método expositivo para expressá-las e exprimir um materialismo simples de muitas gerações camponesas. Segundo Ginzburg, Menocchio compartilha com Montaigne a ideia da relativização de credos e instituições e, com outros grupos, a redução da religião a um vínculo moral e político, como expressara Maquiavel ao tratá-la como elemento de coesão política. Outro reflexo humanista em suas ideias está em tratar que, durante o caos antecessor da criação do mundo, os quatro elementos estariam se confundindo, além de relacionar a Santíssima Trindade aos mesmos, o que seria reflexo indireto das teorias gregas clássicas sobre a constituição da matéria, sintetizadas especialmente por Aristóteles e resgatadas pelos humanistas junto com outras obras da literatura grega antiga. Já a impressão da Bíblia em língua vulgar, que também estará descrita nas leituras de Menocchio, se relaciona tanto à Reforma, que criticava o uso do latim, como já foi visto (Lutero também quebrou esse monopólio ao traduzir o livro para o alemão), quanto à Renascença, pois não só o primeiro livro impresso foi a Bíblia, como também os humanistas foram os pioneiros na edição de algumas das primeiras obras em línguas modernas.

Há uma enorme relação entre as Grandes Navegações e as leituras de Menocchio, pois é por meio dos livros que ele tomará contato com ideias e lendas formuladas por viajantes a lugares conhecidos, como Jerusalém, a “Terra Santa”, e desconhecidos, como a recém-descoberta América; é por meio dos seus discursos ao tribunal e dos possíveis escritos no qual se inspirava que Ginzburg analisa seu pensamento. A maior parte dos livros era emprestada, volumes que passavam de mão em mão, o que prova o importante papel do coletivismo camponês na difusão do conhecimento; porém, isto não seria possível se boa parte da população da aldeia de Menocchio não tivesse sido alfabetizada em escolas abertas em suas cercanias. Entre esses livros, podem ser citados: a Bíblia em vulgar, Il Fioretto della Bibbia, Il cavalier Zuanne de Mandavilla (As viagens de John Mandeville), Il sogno dil Caravia e, provavelmente, uma edição do Alcorão em italiano. Do Fioretto, podem-se encontrar relações entre a filosofia grega e as tradições cristãs e metáforas que explicam a criação usando elementos cotidianos, e que ajudarão o acusado a expor e sintetizar suas ideias. Nas Viagens, assim como em outros livros, encontram-se relatos a lugares reais e fantasiosos, onde as pessoas de diferentes costumes tão diversos dos europeus vivem na mais perfeita harmonia, o que será uma alusão à ideia de liberdade e tolerância religiosa e sua diversidade. Do Sogno, sai uma crítica à hipocrisia eclesiástica e outros costumes da Igreja Católica. Quanto ao Alcorão, cuja presença é apenas suposta e é associado a um “livro lindíssimo” que Menocchio lera, são nele encontradas descrições sobre um paraíso mítico, delicioso e cheio de prazeres. São livros que não só expressam o desejo por uma nova Igreja, pobre e pura, como no passado, mas visões de um “mundo novo”, expressão que designa relatos sobre a América, escritos estes que ele entende como um exemplo de sociedade a ser alcançada, com detalhes influenciados pelos autores utopistas e pela tradição utópica popular, cuja paixão por um “passado mítico perfeito” pode ser encontrada já na Roma Antiga, com a lenda da “Ætas Aurea” (Idade Áurea).

A atitude de Menocchio e seu discurso impressionam. A maior prova de que certas ideias não podem ser consideradas exclusividade da burguesia renascentista é o fato de ele afirmar com toda a convicção e durante todo o tempo que nunca discutira com ninguém suas ideias, que teriam saído de sua própria cabeça, ainda que ele possa ter trocado informações com um certo Nicola de Melchiori. O acusado também cai muitas vezes em contradição. Primeiro, porque ele faz muitas afirmações que depois acaba desmentindo, como sobre a alma, que, segundo ele, morria junto com o corpo e não se distinguia de espírito, mas depois substituiu pela diferenciação entre os dois, sendo o espírito algo vindo de Deus e que a ele retorna na morte, e as almas, operações da mente que acabam com o corpo. Segundo, porque há grande contraste entre os relatos das testemunhas e os autos dos processos, como quando ele conta aos inquisidores que amar o próximo é mais importante do que amar a Deus, não negando a existência deste, numa atitude de defesa contra os dogmas da Igreja Católica, mas as pessoas relatam que ele negava Deus, a divindade de Cristo e a virgindade de Maria, e atacava o clero e os sacramentos. Fora isso, há a associação da figura do moleiro com o luteranismo e com a figura de alguém espertalhão, enganador e ladrão, sendo os moinhos locais de encontros suspeitos. Já no primeiro processo, Menocchio é condenado como heresiarca, com uma sentença cujo tamanho revela não somente o quão inaudito era o caso julgado, que não se enquadrava em nenhum estereótipo até então traçado, mas também a enorme distância entre a cultura de Menocchio e a dos inquisidores.

A narrativa é enriquecida com relatos sobre o Friuli daquela época, de modo que não se torna cansativa e o enredo principal não é quebrado. O leitor encontrará uma breve referência ao sistema de ocupações de cargos administrativos em Montereale e uma descrição sobre a política e a sociedade de uma área dominada pela cidade de Veneza. Administradora do Friuli desde 1420, colaborou para a permanência de características arcaicas, como resquícios do feudalismo e dominação das terras em mãos de poucas famílias. As lutas entre os nobres favoráveis e contrários a Veneza são entremeadas por lutas camponesas duramente reprimidas, após as quais Veneza decreta séries de benefícios para os camponeses, em detrimento da nobreza, o que não impediu a emigração em massa devido às condições do campo e às pestes frequentes.

Ginzburg utiliza documentos do século 16 guardados em arquivos episcopais, arquiepiscopais, estatais e do Vaticano, como os autos dos processos, cartas de Menocchio aos inquisidores, notas dos escrivães e contratos de casamento, em especial um de sua filha; são documentos que revelam seus pensamentos, suas atividades econômicas e a vida de sua família, além de obras de autores renomados, como Geneviève Bollème, Michel Foucault, Umberto Eco e Robert Mandrou. Tudo isso para traçar a história de alguém que não era um mero repetidor de informações geradas por outras pessoas e que muitas vezes deformava, e em outras reelaborava originalmente os conteúdos dos livros por seu modo de ler, um herdeiro de tradições indo-europeias sobre a criação do mundo relacionada à geração espontânea, que chegaram até ele por meio de relações e migrações culturais, e de uma cultura oral que pertencia não só a ele, mas a uma vasta população da Europa do século 16.



segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Você recebeu a corrente abençoada de são Carlo Orkutis


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Protege contra cancelamentos, tias reacionárias do grupo da família, golpistas do bet e fotos sem camisa de homem grudento.

Repasse pra 5 pessoas e sua internet nunca mais vai cair nem seu 5G vai parar mais de pegar.

Repasse pra 10 pessoas e todos os bolsominions e lulaminions vão parar de brigar online pra sempre.

Repasse pra 50 pessoas e você nunca mais vai receber recomendações do Frei Gilson, do Café com Deus Pai, de pastores engomados ou de perfis bibliacoach em seu feed.

Repasse pra 100 pessoas e as comportas do Forno vão se abrir pra queda direta de Zuckerberg, Bezos, Musk, Durov, Trump e Bananinha juntos, o Équis, as redes da Meta, o Telegrão e o TicoTeco vão parar de funcionar imediatamente e todos os influenciadores de moda, estilo de vida, dancinha, maquiagem, desafios, céquiço e o escambau vão ficar eternamente presos numa ilha deserta sem qualquer acesso ao mundo exterior.

Repasse pra 200 pessoas e você nunca mais vai receber correntes de oração nem ver esta página zoando com o “primeiro santo millennial”, que teve a sorte de nunca ter usado smartphone!


sábado, 31 de maio de 2025

Duas Romas: Francisco e Cirilo (2022)


Endereço curto: fishuk.cc/duasromas

Nesta crônica de Slimane Zeghidour ao Journal international da TV5MONDE, em 17 de abril de 2022, ele dá uma interessante explicação sobre as diferenças persistentes entre o papa de Roma e o patriarca de Moscou. Sempre gosto de todas as suas análises, embora em meados de fevereiro daquele ano ele não acreditasse que a Rússia pudesse invadir a Ucrânia! O jornal vai ao ar todos os dias, ao meio-dia, e a âncora Isabelle Malivoir segue no comando, mas pessoalmente a achei meio mal-educada: imagine, duvidar da capacidade de compreensão da audiência ou talvez da habilidade explicativa de Zeghidour!

No começo da invasão, Francisco ainda mantinha uma posição crítica, mas com o tempo foi sendo cada vez mais acusado de leniência diante de Putin, até sua morte, em 21 de abril de 2025. O novo pontífice, Leão 14, foi mais incisivo contra a agressão, mas enquanto líder espiritual, permanece a necessidade permanente de ser mais “pragmático” quanto a uma aproximação com o patriarca Cirilo. Apesar do atraso, ainda acho uma tradução interessante.



– Junto-me a Slimane Zeghidour, nosso colunista e especialista em religião. Olá, Slimane. Então, uma bênção Urbi et Orbi repleta de uma mensagem aos grandes e poderosos neste tempo de guerra. Trata-se de uma mensagem política do papa ou ele está agindo em sua capacidade de chefe da Igreja Católica?

– Ambos, porque ele é o chefe da Santa Sé e, portanto, o líder espiritual de dois bilhões de católicos, mas também é o monarca do Estado da Cidade do Vaticano. E ele usa, por assim dizer, dois bonés, e é nessa capacidade que ele fala hoje. Agora, com relação à Rússia, devemos lembrar que o Estado russo só reconhece quatro crenças que são consideradas religiões nacionais: o cristianismo ortodoxo, o islã – sim, há 20 milhões de muçulmanos na Rússia –, o judaísmo e o budismo. Nesse contexto, a Igreja Católica, assim como as igrejas evangélicas, é uma igreja estrangeira. Não somente estrangeira, mas rival desde o cisma de 1054, agravado pela queda de Constantinopla, a “segunda Roma”, perante os turcos em 1453. E foi nesse momento que Moscou se tornou a “terceira Roma”, ou seja, o centro, o coração da cristandade no mundo.

E desde então, existe uma rivalidade entre Moscou e Roma. A diferença é que a Igreja Católica tem um único líder, o papa, enquanto as igrejas ortodoxas são, como se costuma dizer, autocéfalas, ou seja, cada país tem seu próprio patriarca. Mas o Patriarca de Moscou e de Todas as Rússias – é seu título completo, Patriarca de Moscou e de Todas as Rússias – governa os ortodoxos russos, mas também uma parte dos ortodoxos do Cazaquistão, da antiga União Soviética e da Ucrânia. Assim, na Ucrânia, a Igreja Ortodoxa Ucraniana decidiu romper sua ligação umbilical com o Patriarcado de Moscou pra se tornar uma Igreja Ortodoxa Ucraniana autônoma. Mas nesse instante, parte da Igreja Ortodoxa Ucraniana se cindiu de sua própria igreja pra permanecer ligada a Moscou. Você pode ter uma noção do cenário.

– Daí a complexidade da posição geral da Igreja com relação a isso.

– Isso. Pra simplificar o quadro, uma grande parte dos cristãos ucranianos são o que chamamos de uniatas, ou seja, ex-cristãos ortodoxos que se uniram ao papado e são chamados de uniatas. Eles são católicos e vivem na parte ocidental do país. É nessa parte, aliás, que se encontram os maiores partidários da independência da Ucrânia e da incorporação à Europa.

– Sim, não tenho certeza se isso simplifica muito as coisas na mente dos telespectadores. A Ucrânia é um espinho no pé da Santa Sé, Slimane? Porque é necessário ao mesmo tempo, como posso dizer, manter o diálogo justamente com a Igreja Ortodoxa Russa e também não ofender todos os cristãos da Ucrânia.

– Pois bem, quanto aos cristãos da Ucrânia, como eu disse, são os uniatas, assim, são ex-cristãos ortodoxos que se uniram a Roma. E isso alimenta uma espécie de paranoia entre os russos, em Moscou, como se a Igreja Católica considerasse toda a ortodoxia russa como uma terra missionária onde mais pessoas deveriam ser convertidas ao catolicismo. É por isso, por exemplo, que o papa de Roma pôde visitar países muçulmanos, incluindo ultraconservadores, mas nunca pôde ir a Moscou. 20 anos atrás, um dos assessores do então patriarca de Moscou e de Todas as Rússias disse à imprensa que o papa em Moscou era como Bin Laden na Casa Branca. Você pode ter uma noção da comparação.

– Muito obrigado, Slimane Zeghidour, e tudo o que você está dizendo, na verdade, faz comprometer esse futuro encontro que o papa desejava.

– Será muito difícil, mas não está fora de questão.


– Je rejoins Slimane Zeghidour, notre éditorialiste et spécialiste des religions. Bonjour, Slimane. Alors, une bénédiction Urbi et Orbi empreinte d’un message aux grands de ce monde en cette période de guerre. Est-ce que c’est un message politique du pape ou est-ce qu’il est dans ses fonctions de chef de l’Église catholique ?

– Les deux, parce qu’il est le chef du Saint-Siège, donc le chef spirituel de deux milliards de catholiques, mais il est aussi le monarque de l’État de la Cité du Vatican. Et il a, si on peut dire, deux casquettes, et c’est à ce titre qu’il parle aujourd’hui. Maintenant, s’agissant de la Russie, il faut rappeler que l’État russe ne reconnait que quatre cultes qui sont considérés comme des religions nationales : le christianisme orthodoxe, l’islam – oui, il y a 20 millions de musulmans en Russie –, le judaïsme et le bouddhisme. Dans ce cadre-là, l’Église catholique, comme les églises évangéliques, est une église étrangère. Non seulement étrangère, mais rivale depuis le schisme de 1054 qui a été aggravée par la chute de Constantinople, « deuxième Rome », en 1453 devant les Turcs. Et c’est à ce moment-là que Moscou est devenue la « troisième Rome », c’est-à-dire, le centre, le cœur de la chrétienté dans le monde.

Et depuis lors, il y a une rivalité entre Moscou et Rome. La différence, c’est que l’Église catholique a un seul chef, c’est le pape, tandis que les églises orthodoxes sont, comme on dit, autocéphales, c’est-à-dire, chaque pays a son propre patriarche. Mais celui de Moscou et de toutes les Russies – c’est son titre complet, patriarche de Moscou et de toutes les Russies – gouverne les orthodoxes russes, mais aussi une partie des orthodoxes du Kazakhstan, de l’ex-Union soviétique et de l’Ukraine. Alors, en Ukraine, l’Église orthodoxe ukrainienne a décidé de rompre son lien ombilical avec le Patriarcat de Moscou pour devenir une Église ukrainienne orthodoxe autonome. Mais à ce moment-là, une partie de l’Église orthodoxe ukrainienne a fait un schisme par rapport à sa propre église pour rester rattachée à Moscou. Vous voyez un peu le paysage.

D’où la complexité du positionnement de l’Église de manière générale face à ça.

Voilà, pour simplifier le tableau, qu’une bonne partie des chrétiens ukrainiens sont ce qu’on appelle des uniates, c’est-à-dire, ce sont d’ex-chrétiens orthodoxes qui se sont ralliés à la papauté et on les appelle les uniates, qui, eux, sont des catholiques et habitent dans la partie ouest du pays. C’est dans cette partie d’ailleurs qu’on trouve les plus grands partisans de l’indépendance ukrainienne et du rattachement à l’Europe.

– Ouais, pas sure que ça simplifie beaucoup dans l’esprit des téléspectateurs. L’Ukraine, c’est une épine dans le pied du Saint-Siège, Slimane ? Parce qu’il faut à la fois, comment dirais-je, maintenir le dialogue avec justement l’Église orthodoxe russe et puis ne pas froisser non plus tous les chrétiens d’Ukraine.

– Alors, pour les chrétiens d’Ukraine, je vous ai dit, ce sont les uniates. Donc ce sont des chrétiens ex-orthodoxes qui se sont ralliés à Rome. Et cela entretient chez les Russes, à Moscou, une sorte de paranoïa, comme si l’Église catholique considérait toute l’orthodoxie russe comme une terre de mission dans laquelle il faudrait encore convertir des gens au catholicisme. C’est pour cela, par exemple, que le pape de Rome a pu aller dans des pays musulmans, y compris ultraconservateurs, mais n’a jamais pu aller à Moscou. Il y a 20 ans, un des conseillers du patriarche de Moscou et de toutes les Russies de l’époque avait dit à la presse que le pape à Moscou, c’est comme Bin Laden à la Maison-Blanche. Vous vous rendez compte un peu de la comparaison.

– Merci beaucoup, Slimane Zeghidour, et tout ce que vous dites effectivement laisse compromettre cette future rencontre que le pape souhaitait.

– Elle sera très difficile, mais pas exclue.



quarta-feira, 28 de maio de 2025

As piores unções pentecostais

Quem curtiu a internet “das antigas” (até 2015, quando muito) conhece essa figurinha aí em cima: é o chamado “Pastor Pilão”, “Pastor Pião (da Casa Própria)” ou ainda “Pastor Zangieff” (em referência ao personagem do jogo e desenho Street Fighter), que numa dessas “possessões” comuns, sobretudo, em igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, começou a girar rápida e compulsivamente, como se fosse um místico sufi ou um bailarino do noroeste do Cáucaso. Supostamente fora de controle e com as forças esgotadas, é finalmente amparado por um certo pastor Marco Feliciano, hoje conhecido por ser a ponta de lança mais execrável do evangelofascismo no Legislativo bananeiro. Não sei se chegou a circular por e-mail, como ocorria no começo, pois só o conheci muitos anos depois, mas as primeiras publicações no YouTube ganharam rapidamente o país.

Esse foi um dos primeiros casos em que tais “manifestações do Espírito Santo” se tornaram virais, primeiro cortadas de programas de TV, depois gravadas diretamente em celulares antigos e smartphones, tornando a vergonha alheia prontamente palatável. Não vou julgar do ponto de vista religioso, porque não tenho uma “fé” que sirva de “metro” pra tanto, e porque muitos evangélicos também condenam tais práticas, sobretudo em suas formas mais espetaculares, e reclamam que nossas igrejas estão “virando circos”. Também pouco me importo se mesmo os defensores das cenas mais inusitadas me julgarem intolerante, pois meu objetivo não é fazer humor com a crença em si, e sim com aspectos que realmente podem parecer risíveis ou mesmo, como qualquer coisa nessa vida, inusitados.


O raizíssimo “Pastor Pilão” foi pioneiro num gênero que inspira piadas até entre os próprios “crentes”. Porém, às vezes basta procurarmos uma coisinha no Google que de repente brota um mundo de informações do nada... e enquanto cientista social, é realmente isso que me interessa rs. Segundo este blog evangélico que encerrou suas atividades em 2018, o famoso meme seria um certo “cantor Moser”, falecido em novembro de 2011 e de quem alguns álbuns podem ser encontrados no YouTube. Pra adiantar aqui, internautas comentaram que ele teria sido gay até se converter, mas então já teria contraído HIV e falecido precocemente. As duas únicas publicações em seu Twitter no longínquo 2011 parecem apenas ser mensagens pra um tal “Pastor Juvenil”, até pedindo que ele o contatasse pelo Orkut, rs. E um de seus seguidores é justamente outra conta sua, um pouco mais ativa, em que se denomina “Presbítero (Levita) Moser”. Não há mais informações biográficas.

Voltando ao tema principal, demorei uns anos pra lançar esta publicação, primeiro porque fui acumulando alguns vídeos, e segundo porque não tinha tempo de fazer algumas edições básicas. Hoje, elas aparecem aqui com pequenas alterações e com as fontes citadas, caso ainda estejam disponíveis. Chamei genericamente de “unções”, como ocorre em alguns casos, mas esse nome pode ser impreciso: perdoe-me pela eventual ignorância terminológica que eu possa ter demonstrado até aqui! Portanto, aí vão As piores unções pentecostais (ou “melhores”, depende do ponto de vista...).

A “unção da galinha” é de longe minha preferida, porque a música, tirada não sei donde, combinou pra caramba! Embora tenha sido publicada por um brasileiro, é de origem afro-americana:


A “unção do helicóptero” é de 2010, brasileiríssima e editada por mim. Segundo os comentários, mistura louvor com exercício físico:


A “unção do macaco” parece ter vindo dos EUA, mas do mundo branco mesmo. Os internautas acharam mais parecido com uma britadeira ou com... Guilherme Boulos, rs:


A “unção do cadeira”, tupiniquim, foi publicada por um canal não por menos chamado “Apostasia”. Tirei os avisos iniciais e finais e fiz uma edição que vai pirar os saudosos dos anos 90! Os comentários estão fechados, mas recomendo altamente o conteúdo do canal, que traz outras unções malucas e “denúncias” de “macumba gospel” (!) e que vai nos informar que “Silas Malafaia é maçom”:


A “unção do axé”, assim denominada por mim mesmo, não foi editada exatamente porque ela justifica o próprio apelido. A conta do Équis foi apagada, mas denunciava (algo assim) as “heresias” que estavam transformando os cultos num “circo”:


A “unção da luta livre” (ou do UFC) é mais um crácico brazuca com edição minha, embora o axé também pareça muito animado. Porém, exceto pela hora em que o pastor leva as ovelhas nas costas, parece mais é um atracamento de machos safados, rs:


Dois vídeos com edições minhas vêm de nossos irmãozinhos africanos: a “unção do futebol” e a “unção do soco”. Não tenho confirmação, mas parecem ter vindo do Quênia ou de países próximos, que foram colônias inglesas (as ex-francesas e ex-portuguesas são mais católicas) e onde essas igrejas estão fazendo muito estrago se expandindo rapidamente:




Em homenagem a meu cabeleireiro Lucas Franco, que também é pastor da Igreja El Roi, segue esta “unção da prótese capilar”, rs! Um belo dia, ele resolveu me mandar uma demonstração desse serviço seu, mas colocou de fundo uma trilha cristã e... Louvai, carecas:


E pra terminar com animação, não exatamente uma unção, mas um pastor da Quadrangular que achei hoje por acaso, imitando várias vezes o passo moonwalk do Michael Jackson, ao som de uma canção deles mesmos. Ouvi um amém???


Adendo (25/3/2026): Desde que começou o bombardeio massivo do Irã pelos EUA e por Israel no último 28 de fevereiro, têm surgido muitas análises sobre a possível influência extremista evangélica sobre as decisões militares de Trump. Neste caso, além do “sionismo cristão” que curva a cabeça a tudo o que diz o Estado judeu, setores enxergam o combate ao país muçulmano como uma “luta do bem contra o mal” (a seu critério escolher quem é quem...). Este vídeo de 2020 da pastora pentecostal Paula White, “assessora presidencial pra assuntos religiosos” no primeiro e neste mandato, viralizou entre mídias e youtubers do mundo todo como uma espécie de indicação da “loucura” que estaria rondando os assessores da Casa Branca. Ela também aparece em vídeos recentes rezando com outros burocratas no Salão Oval, com as mãos “impostas” sobre o Laranjão.

Se você é tupiniquim e viu todos os vídeos acima, não deve lhe parecer estranho, mas é curioso que os comentários ianques da época mostram uma estranha “incredulidade”, enquanto em 2026 tal fenômeno religioso parece mais uma bizarrice em países pouco habituados a ele. Porém, a ênfase tem sido dada no início, em que Trump devia “strike” (golpear) seus inimigos, verbo repetido sete vezes seguidas e associado à sevícia aérea contra Teerã. Ela também pronuncia sequências sem sentido (parecidas com alfabetos), fica repetindo “I hear the sound of victory” (Estou ouvindo o som da vitória) e chega a falar de anjos que estariam vindo da África e da América do Sul. Os internautas não pouparam: “Eles não vieram porque não conseguiram visto”, rs.

Já o cara que fica passando calmamente de toalha por trás dela (“como se tivesse indo pra uma piscina”, comentaram...) é outro show à parte. Pra temperar esta publicação com os azares da geopolítica, por que não lançar agora a unção da bomba ou do bombardeio?


terça-feira, 13 de maio de 2025

Igreja Ateísta do Reino de Dawkins


Endereço curto: fishuk.cc/iard

Há alguns anos achei o vídeo abaixo no canal de um tal Antonio Roberto Vigne, mas só agora tive tempo de fazer uma publicação a respeito, rs. Publicado no YouTube em 2017, diz na descrição que está filmando o guardião do Templo Positivista do Estado do Rio Grande do Sul, o músico Érlon Jacques, que toca alguns hinos da Igreja Positivista (“Filosofia”, segundo Antonio) no órgão do “Templo da Religião da Humanidade”. Convidando os internautas a visitar o local, ele continua: “As prédicas dominicais são discussões filosóficas da proposta de Comte, algo extremamente interessante, pois é um culto coletivo, algo que não se vê facilmente e que merece apreciação social.”

O encontro de senhores e alguns moços parece bem simpático, mas as letras que o músico canta (ambas de sua autoria, suponho), destinadas a formar um futuro hinário positivista, poderiam muito bem ser executadas numa hipotética Igreja Ateísta do Reino de Dawkins! Ou falei cedo demais? Pois a se julgar por um artigo de 2023, o ex-popstar do “movimento neoateísta” da virada das décadas de 2000 e 2010 não renegou o ceticismo, mas aceita hoje o título de “cristão cultural”. Só pra dizer que, se tivesse de escolher entre Yeshua e Maomé, não hesitaria no coming out de sua islamofobia...

No século 19, os adeptos do positivismo de Auguste Comte (pelo menos da vertente chamada “religiosa”) criaram algo chamado “Igreja Positivista”, em que fazem uma espécie de missa, mas “cultuando” a Ciência, a Humanidade e outras coisas prosaicas que eles elevam a uma duvidosa categoria sacra. Enquanto filosofia, o positivismo no Brasil influenciou bastante o movimento republicano, sobretudo os militares, na virada dos séculos 19 e 20, e em cidades como o Rio de Janeiro ainda existem tais “templos”, abertos e funcionando.

Falo aqui em tom de zoeira, não só porque tudo o que cai em minha mão vira meme, mas também porque acho essa história de “religião positivista” uma baita bobeira e perda de tempo. Quem não crê em nada (mais exatamente, quem não crê em forças sobrenaturais), não precisa ficar cultuando nada e vai achar outras formas pra preencher o tempo, em especial pra se aperfeiçoar! Me lembrei desse vídeo ao ser instigado por um artigo de opinião bem aguado, publicado na Folha em 5 de maio por um tal Juliano Spyer, dizendo que “a religião está de volta”, já que, pro “lamento” de ateus e agnósticos, eles não conseguiram a trocar por nada.

Aproveitando a deixa de uma senhora que respondeu dizendo que céticos “não precisam distribuir panfletos nem encher templos”, acrescento que religião não é pra ser “substituída”, mas desmentida, mais exatamente no que tem de crenças errôneas, prejudiciais e concorrentes com o conhecimento científico ou mesmo o simples bom senso. Já os acréscimos pra arte e pra música são outra questão...

Os dois primeiros hinos, que transcrevi abaixo, dispensam explicações. O terceiro é uma homenagem à Liga da Defesa Nacional, entidade patrioteira criada em 1916 em meio ao fogo na periquita causado pela 1.ª Guerra Mundial e que teve o ufanista Olavo Bilac como um dos fundadores. A Liga continua ativa, sobretudo no Rio de Janeiro, e é basicamente ligada ao Exército e movida por um bando de milico reformado com saudades do “tempo em que se cantava o Hino Nacional nas escolas”. Nesta dissertação de mestrado, Tiago Siqueira de Oliveira aborda a história da Liga de maneira crítica.

A quarta canção é a faixa Positivismo, gravada pelo decomposto Noel Rosa. Ao final, o gaudério de lenço no pescoço empunha sua viola e repete o segundo hino, com poucas mudanças, mas numa versão cuja caracterização você pode escolher entre “Chico Mineiro” e “Odair José”, rs. Vários de seus trechos parecem uma involuntária descrição certeira da chamada “geração Z”... Enjoy it:


Livres de Deus
E abençoados pela Ciência
Sem preconceitos
Crendices e avarezas
Pela Santa Humanidade
Erguemos nossos braços
E elevamos nossas mentes

O vício do trabalho
Viver para servir
Pela Fraternidade
O Amor por princípio e por fim

[Dá pra substituir Deus por medo
também, se tiver num culto público,
pra não afrontar os teológicos...

kkkkk]

____________________


Há muito tempo atrás
Existiu uma geração consciente
Não temia assombração
Pra tudo havia explicação
Com causa e consequência
Com causa e consequência

Adorava uma deusa de verdade
A nossa mãe Humanidade
Que se chama Natureza
Que se chama Natureza

Se existisse consciência
Não estariam poluindo a Terra
Com químicas ou com guerra
Envenenando nossos rios
Envenenando nossos rios

Não estaria recebendo agora
Uma geração deformada
Inculta e inconsciente
Que adora ser manipulada
Que adora ser manipulada

Adorava uma deusa de verdade
A nossa mãe Humanidade
Que se chama Natureza
Que se chama Natureza

____________________


Liga nosso Brasil
Liga um ideal
Liga nosso Rio Grande
Liga da Defesa Nacional

Um século de glória
Remonta sua história
Passado sem igual
Tiranos afastados
Heróis condecorados
Orgulho nacional

Liga nosso Brasil
Liga um ideal
Liga nosso Rio Grande
Liga da Defesa Nacional

Um século de glória
Remonta sua história
Passado sem igual
Tiranos afastados
Heróis condecorados
Orgulho nacional
Tchum, tchum!



Dawkins “matando Deus”, segundo o próprio autor da montagem, rs.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Igreja Católica Apostólica Brasileira


Endereço curto: fishuk.cc/icab-papa

Poucos sabem, mas a Terra de Santa Cruz engendrou em 1945 um “cisma” do papado romano, chamado “Igreja Católica Apostólica Brasileira” (ICAB). Ela foi obra de um bispo de esquerda, que achava o Vaticano muito reacionário e (que novidade!) criticava sua intransigência em ignorar nossa realidade. Roteiro conhecido, ele foi excomungado e “virou santo” após falecer, mas curiosamente a ICAB não tem cardeais, como a “ICAR”, e sim um conselho superior de bispos que preside a denominação. Há poucas diferenças nos rituais e ornamentos em relação a Roma, cujo “bispo” eles não chamam de papa e cuja autoridade eles (óbvio, né?) não reconhecem, mas sua presença já se estende pra fora de nossas fronteiras. Uma busca rápida na zinternetx dá várias referências em sites e redes sociais.

Queria destacar apenas esta matéria do Diário do Grande ABC, datada de 10 de março de 2013, exatamente perto da posse do agora finado Jorge Bergoglio, passado à história como Papa Francisco. Focado numa paróquia em Santo André, o artigo já dá bastantes informações básicas sobre a história e a doutrina, suficientes pra uma apresentação rápida. Dois de seus maiores “atrativos” saltam aos olhos: a abolição do celibato sacerdotal e o casamento religioso de divorciados, o que pra um descrente como eu é algo absolutamente irrelevante. Outro “atrativo” é o batismo de filhos de mães solo ou de casais não unidos no papel, embora ele nunca tivesse sido negado, até onde eu saiba, pelos católicos, e que o próprio Francisco tenha mesmo estimulado essa prática, criticando quem a rejeita e citando a necessidade de “não negar sacramentos a quem deseja” e “acolher pessoas já excluídas em outros âmbitos”. Importante: essa página está marcada como “Doutrina da Fé”, ou seja, praticamente o Tribunal da Inquisição!

Se essa proibição pelo menos era “tácita”, isto é, padrecos recalcados que recusavam tais batismos, ela em todo caso ficou na mentalidade do povo, que sempre achou que era impossível batizar seus filhos “não planejados” ou “de pais solteiros”. Meus próprios pais não eram casados e, salvo engano, a Paróquia de Santa Luzia em Guarulhos, SP, onde minha mãe e meus padrinhos me batizaram, era da ICAB, informação que não consegui confirmar por meio de buscas no Google. Inclusive, contatei no Instagram o perfil oficial da igreja e alguns padres que se reivindicam dela pra obter alguma confirmação a respeito, mas jamais obtive retorno. Seja como for, pra todos os efeitos fui católico romano depois, em Bragança Paulista: primeira comunhão, eucaristia e outras formalidades (não sou crismado) jamais negadas, e talvez até pudesse casar “de véu e grinalda” (o que jamais pretendo, aliás, rs) sem levantar suspeitas. Como sempre diz minha mãe: “É tudo a mesma coisa, o que importa é a fé da gente...”

Uns meses atrás, cheguei a ler coisas sobre a ICAB na rede, mas fiquei particularmente pensando sobre como reagiram à passagem do argentino a quem chamam simplesmente “bispo de Roma”. Você sabe que está página sebenta é feita por curiosos, pra curiosos, portanto, a xeretagem daquela histórica segunda-feira me trouxe até esta publicação no perfil pessoal do Facebook pertencente a Dom Antonio Rodrigues, que se descreve como “bispo diocesano de Barra de São João, RJ, da Igreja Católica Apostólica Brasileira”.

Mesmo sem autorização, achei interessante a republicar aqui, pois levanta muitas inquietações que perpassaram o próprio papado de Bergoglio e ainda coligam os progressistas. Descontada a redação por vezes sofrível, que corrigi enquanto tentava mexer o menos possível no original, segue a íntegra do “textão”, mais três comentários de contatos, igualmente revisados, que achei representarem as tendências mais visíveis na atualidade:


NASCEU PARA A VIDA ETERNA O BISPO DE ROMA, PAPA PARA OS SEUS

O Bispo de Roma, Francisco se destacou em muitos campos: sociais, políticos, ambientais, doutrinários e ecumênicos.

Quero frisar o último tema: ecumenismo; este foi o Papa que, enquanto chefe de sua instituição, mais se destacou na busca do diálogo, sobretudo com as grandes religiões, de forma destacada com o islamismo [sic]. Não é surpreendente que tenha sido com o islamismo, afinal, este é o grupo religioso que mais entraves [sic] tem com os cristãos mundo afora e impõe muitas perseguições nos mais diversos países onde são maioria. Nestes locais, os cristãos e parte destes católicos romanos sofrem muito, portanto, a [há?] política necessária de um diálogo, pois sendo minoria, há que ser mais humilde...

No entanto, é lamentável que nos países em que são maioria, como no Brasil, [em] todo clero romano, desde o episcopado até os diáconos, COM RARÍSSIMAS EXCEÇÕES, as práticas e discursos ecumênicos apregoados pelo agora falecido Papa são apenas LETRAS VERBORRÁGICAS.

No Brasil, o clero romano, em sua maioria, é alheio ao ecumenismo, muitos são medievais em seus pensamentos, outros se travestem de ecumênicos, sobretudo, nos organismos como o CONIC [Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil], onde exercem poder, tal como o poder exercido este ano para vetar a entrada da ICAB, dizendo que se a ICAB fosse aceita, eles sairiam. Resultado? O CONIC cedeu à pressão, afinal, os romanos provêm a maior cota financeira de manutenção daquela instituição.

A mentira do diálogo no Brasil é vergonhosamente visível. A tal semana de oração pelos cristãos em muitas, mas muitas paróquias no Brasil, nem acontece.

Lamentavelmente a mensagem deste papa não pegou no clero romano. Existem amizades pessoais entre clero romano e clero nacional, mas algo quase ao estilo das catacumbas, pois o medo de uma relação pública e a possível punição por esta amizade amedrontam o baixo clero romano. Deus sabe que a mensagem ecumênica deste papa NÃO CHEGOU AO BRASIL, pelo menos com as igrejas de tradição católica ou ortodoxas independentes. E onde chegou, com as igrejas chamadas canônicas e protestantes tradicionais, não passa de verdadeiro teatro, pois lá na base, nos seminários, o ecumenismo NÃO É ENSINADO E MUITO MENOS VIVIDO.

Enquanto Bispo católico brasileiro, lastimo a morte deste homem, que sim, muito lutou para que a “cara” romana mudasse, mas não mudou. Rezaremos, sim, por sua alma, embora para os romanos nossa oração não tenha validade alguma. Ainda assim, vamos oferecer nossas orações, com a sincera esperança de que Deus o tenha em sua guarda e proveja à igreja de Roma um novo Papa verdadeiramente católico e sobretudo com horizontes de unidade sem opressão e que tenha coragem de IMPOR o ecumenismo verdadeiro, sem medo de disciplinar os que apenas fazem teatros ecumênicos.

A análise dura, não é sobre quem tentou ser coerente, mas sobre quem acena sim com a cabeça, mas vira as costas e age como se nada tivesse ouvido.

Nesta diocese de Barra de São João – RJ celebraremos, junto da Missa de São Jorge no próximo dia 23/04, por seu descanso eterno.


+Dom Antonio Duarte Santos Rodrigues
Diocesano de Barra de São João RJ.


Padre Wagner Neto: Se no Brasil o senhor acha que o clero romano parou na Idade Média, no que tange ecumenismo, cá na Europa, Portugal e Espanha, eles estão nas cruzadas contra os hereges e, atenção, TODOS que estão fora da Igreja Católica são considerados SEITAS HERÉTICAS... O ecumenismo que Francisco pregoava simplesmente foi distorcido por caras e bocas tortas da maioria do clero romano... Não esqueças que na JMJ [Jornada Mundial da Juventude] DE LISBOA, o finado Papa citou que a Igreja deveria acolher TODOS 102 VEZES... daí pergunto-vos: onde está este acolhimento? No vazio do limbo, infelizmente...

Padre Luiz Bergara (Ortodoxia de Rito Ocidental): Excelência, bom dia. Peço a vossa benção e Deus o abençoe. Retirei a minha marcação de sua publicação. O Sr. Jorge Mario Bergoglio foi um dos maiores promotores do relativismo, do sincretismo religioso e do falso ecumenismo, ou seja, de uma religião totalmente estranha aos tempos apostólicos. Do ponto de vista administrativo, os próprios Sacerdotes Romanos dizem da confusão que foi feita por ele. Enquanto homem, esperamos que ele tenha tido tempo do arrependimento dos seus atos e da conversão sincera, pois enquanto há vida há esperança e sempre devemos lutar pela salvação das almas.

Marlon Misko: Pois é, hoje é um dia de ver e ler muita hipocrisia de católicos romanos sobretudo, que desejavam o mal e a morte do Papa, que o chamavam de comunista por seguir o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, que esnobavam, enfim, desde grande homem e Papa Francisco. Hoje lastimam e se fazem de comovidos por sua morte, escrevem longos textos e tudo mais, não são nem um terço ecumênicos, as palavras de Francisco entravam num ouvido e saiam pelo outro, como diz o ditado popular. Enfim, Deus conhece o coração de todos!!! Que o bom Deus o receba em seu Reino Eterno!


Muitos acharam esta montagem de mau gosto, porque pensavam que se estava zoando com a morte do papa, rs. Mas na verdade, ela representa muitos mais a aura tóxica do atual vice-presidente dos EUA, que se diz “católico conservador”, embora seu embarque no trumpismo após críticas virulentas revele bem sobre o caráter do sujeito...


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Traidor, pilantra, ateu e maconheiro


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Você consegue dizer na lata quais foram os presidentes ateus ou não religiosos que o Brasil já teve? Bem, isso é muito complicado, pois a espiritualidade devia ser tratada como um assunto íntimo, e a adesão a uma religião não significa necessariamente aceitação de todos os seus dogmas ou a imunidade ao ecletismo tão típico de nossas terras. Porém, segundo o que consegui pesquisar na internet, tudo baseado em entrevistas e fontes impressas, posso citar três presidentes que não eram exatamente “religiosos” no sentido que costumamos entender.

Getúlio Vargas foi criado como positivista enquanto frequentava o Exército no Rio Grande do Sul e nunca fez uma profissão explícita de fé. Sua aproximação com o catolicismo após o golpe de 1930 teve fins politicamente táticos, levando em conta que virtualmente toda a população professava essa religião (descontando as exceções que, pra fins estatísticos, ainda eram irrelevantes). Daí emergiram a construção do Cristo Redentor na cidade do Rio de Janeiro e a introdução do ensino religioso nas escolas públicas. Ernesto Geisel, quarto presidente da ditadura civil-militar, era de família luterana e ocasionalmente frequentava seus cultos, embora sumamente pra fins sociais e familiares. Geralmente descrito como agnóstico, estava mais pra “anticlerical”, sobretudo diante do catolicismo, que já fazia razoável oposição naquela época, e teria influenciado na legalização do divórcio em 1977 – muito mais tardiamente do que em outros países do dito “Ocidente Civilizado”.

Pra além desses governos autoritários (se descontarmos o breve período Vargas em 1951-54), Fernando Henrique Cardoso pode ser considerado o único assumidamente irreligioso na democracia, pelo menos por algum tempo e em alguns aspectos. De família de intelectuais abastados, FHC foi acadêmico na área de Ciências Humanas (era sociólogo, mas enveredou por áreas afins) e se exilou pra fugir dos prezidentos milicos. Ingressou no PMDB, hoje MDB, partido originado da única oposição legal à ditadura, e ajudou a fundar o PSDB em 1988, cuja principal razão de ser era a rejeição do fisiologismo e estatismo de Sarney (também do PMDB) e a adesão a princípios de governança transparentes, enxutos e modernos. O modelo era a social-democracia reformista europeia, que em todo caso jamais seria chamada de “esquerda” pelos ultrarradicais, mas que a fachosfera consideraria “comunista”.

A posse do tucano Mário Covas como governador de São Paulo em 1995 foi considerada a vitrine do que o presidente FHC também faria em escala nacional no mesmo ano (Plano Real etc., lembra?), apesar das críticas geradas pela privatização de muitas estatais. Contudo, sem anacronismos, leve em conta o contexto do início da década de 1990, quando o Brasil afundava na hiperinflação e na pobreza, os governos paulistas anteriores de Quércia e Fleury (PMDB) quebraram o estado e os bancos estaduais, hoje privatizados, podiam emitir moeda pra cobrir rombos, enquanto equilíbrio de contas públicas era um conceito inexistente. O que o PSDB conseguiu fazer pode ser considerado uma pequena revolução, infelizmente não levada às últimas consequências...

Não vou citar Dilma, que pelo menos se diz nominalmente católica e que, embora pudesse ter sido agnóstica no passado, pode ter decidido se reaproximar; não cabe a mim julgar. E muito menos Lula, sindicalista inegavelmente católico (pesquisem sobre as origens não comunistas do PT!), fanático pelo finado bispo Bergoglio e atacado de todos os lados por qualquer miudeza. E voltando ao assunto religião, se você achou inédita a ascensão do bolsonarismo na onda do radicalismo evangélico, saiba que o suposto “ateísmo” do Efiagá já lhe rendeu muitas dores de cabeça. Abaixo você pode ver alguns vídeos e ler alguns textos sobre sua candidatura à prefeitura de São Paulo em 1984, quando perdeu pro já ex-presidente (que não ficou nem sete meses) Jânio Quadros, em parte devido ao que hoje chamaríamos de “fake news” sobre “maconha nas escolas” e “descrença em Deus”. Isso diz muito menos sobre o caráter do tucano do que do “homem da vassoura”...

Primeiro, um vídeo de 2019 que achei na página Quebrando o Tabu, uma iniciativa de combate à polarização do debate político. Segundo, o trecho de uma entrevista que ele concedeu ao programa Conversa com Bial em 25 de abril de 2018, seguido de recortes do primeiro vídeo com a frase que dá titulo a esta publicação (“Traidor, pilantra, ateu e maconheiro”, rs) e com a famosa declaração de Bolsonaro em 1999 sobre a “guerra civil pra acabar com os problemas”. Terceiro, os trechos que achei sobre a suposta reconversão de FHC, de uma matéria de Ailton de Freitas pro Globo e uma matéria de Augusto “Covarde” Nunes pro Jornal do Brasil (22 de maio de 2002). E finalmente, dois artigos da Folha de S. Paulo publicados em 2 de abril de 1994 (primeira eleição...) e que fiz questão de transcrever, com atualização ortográfica: um da redação sobre as eleições de 1984 e outro da enviada a Buritis, onde o tucano descansava.

Leia também esta seleta que Vanice Cioccari fez pro Globo chamada “Referências de FH a Deus se multiplicam. Presidente, que se dizia ateu, passa a insistir nas citações e divide religiosos”, datando (que novidade!) das eleições de 1998.













Debate em 1985 afetou candidatura

Em 12 de novembro de 1985, durante o último debate na TV entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, o senador Fernando Henrique Cardoso hesitou em responder a uma pergunta do jornalista Boris Casoy sobre sua crença em Deus. O tropeço foi fatal, e FHC perdeu a eleição para Jânio Quadros. Leia o trecho do debate:

Boris Casoy – Senador, o sr. acredita em Deus?
Fernando Henrique Cardoso – Essa pergunta o sr. disse que não me faria.
Casoy – Eu não disse nada.
Fernando Henrique – Perdão, foi num almoço sobre este mesmo debate.
Casoy – Mas eu não disse se faria ou não.
Fernando Henrique – É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público, que quer usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique Cardoso, que não está em jogo. Devo dizer ao deputado Boris Casoy que esse nosso povo é religioso. Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou, automaticamente, abrindo uma chance para a crença em Deus.

No dia seguinte, em sua última aparição no horário eleitoral, Fernando Henrique disse que estava sendo vítima de uma montagem de seus adversários e narrou sua participação em um culto: “Recordo pungentemente o dia em que rezamos juntos o rabino Sobel, d. Paulo, d. Angélico, o pastor Wright, na igreja da Sé. Chorávamos todos pedindo a infinita misericórdia de Deus porque matavam na tortura brasileiros, aqui em São Paulo.”

Em seguida, perguntou: “É a mim que vão chamar de ateu? É a mim, esses mesmos que foram algozes, direta ou indiretamente, de todo um povo. Não.”


“Acredito em Deus” diz Fernando Henrique (Susi Aissa)

O ex-ministro Fernando Henrique Cardoso, candidato do PSDB à Presidência, disse ontem à Folha que sempre acreditou em Deus. “Eu nunca disse que não acreditava”, afirmou. “Eu acredito em Deus, e já disse isso em outras ocasiões”, disse FHC, que ao contrário de seu sucessor Rubens Ricupero trocou as cerimônias da Semana Santa pelo descanso em sua fazenda, a 200 km de Brasília.

FHC afirmou sua crença em Deus ao ser indagado se não temia perder votos por conta de seu suposto ateísmo, como se acredita que ocorreu em 85 nas eleições para Prefeitura de São Paulo. Segundo Fernando Henrique, sua resposta à pergunta do jornalista Boris Casoy, um dos mediadores do último debate na TV, foi de que esse tipo de assunto não deveria ser abordado.

“Mas, sinceramente, não acredito que aquele episódio tenha pesado no resultado da eleição. A própria Tutu (Tutu Quadros, filha de Jânio), dizia que aquela eleição foi roubada”.

FHC chegou à fazenda na quinta, acompanhado da mulher, Ruth. Ontem de manhã, ao ver os repórteres da Folha se aproximando de sua casa na fazenda, o ex-ministro foi ao seu encontro. “Até aqui vocês me procuram... Eu vim aqui para descansar. Acho que mereço isso”, disse. Acompanhado do administrador da fazenda, Vander, FHC convidou a reportagem para “um papo rápido”. “Eu não quero dar entrevistas”, afirmou o ministro, que vestia jeans, camisa xadrez e botas.



domingo, 20 de abril de 2025

Feliz Páscoa em ucraniano!


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Com as saudações e melhores votos do Erasmo Carlos nipônico, que achei numa reportagem da BBC News Brasil sobre a estagnação tecnológica do Japão, trago dois textos em ucraniano, traduzidos em inglês e com os respectivos áudios, sobre a comemoração e as tradições de Páscoa na Ucrânia! Eles foram dados pela professora de minha turma online de ucraniano e também são seguidos por alguns votos de Feliz Páscoa na língua de Tarás Shevchénko e Lésia Ukraínka. As mensagens estão traduzidas, e o conjunto é tão mais importante quanto o povo ucraniano vive hoje sob Moscou uma tentativa de culturicídio, anterior mesmo à de genocídio, como que tentando assimilar sua identidade à ruSSa! Se os ex-querdistas que ainda consideram o país uma criação artificial da OTAN pra cercar sei lá quem têm olhos e ouvidos, que vejam e ouçam:









Cristo ressuscitou!


Feliz Páscoa!


Desejo(-lhe) uma Feliz Páscoa! Cristo ressuscitou!

sexta-feira, 14 de março de 2025

Jornalixo, relijão e pulitca


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Como não uso redes sociais, fico sabendo dos burburinhos mais recentes (dos quais, poucas semanas depois, todo mundo se esquece) por meio de minha visita matinal ao querido portal Jê Um, não porque gosto de ser “desinformado” pela Grobe, mas simplesmente ele consegue ser uma “súmula da atualidade” mais objetiva e enxuta. Se eu quiser me aprofundar num assunto, simplesmente vou procurar em outras fontes e não fico reclamando que os Leões Marinhos são parciais, manipuladores, cubunistas, oquistas etc.

Mesmo assim, muitas vezes me irrito não só com a linha editorial de quem segura os relhos da bodega, mas com “jornalistas” ou redatores, estagiários, sei lá, que sequer sabem escrever e às vezes “cometem” erros de digitação ou frases truncadas que levam do nada pra lugar nenhum. Mera opinião: a responsabilidade decorrente do alcance do trabalho não permite desculpinhas pra erros crassos (“falta de tempo”, “tava com enxaqueca”, “me distraí com outras coisas” e outros cacoetes de natives digitais...). Por exemplo: não sei quem foi que teve a ideia de botar numa seção de “Política” algo concernente a religião, neste caso, a mais nova modinha da cristonet bananeira.

Depois do Dia das Muié, um tal de Frei Gilson (que já vi cantando na Canção Nova) viralizou com um simples trecho de alguns segundos, dizendo que “a mulher devia ser submissa ao homem”. Também veio à tona que o Genossias e a deputada Nikolle Gadeira, fiscal de banheiros escolares, teriam postado fotos com ele em suas redes sociais. (Nota bene: ELES postaram as fotos, e não ele com os fachos, inversão que deu a entender que o frei era bolsominion.) Deturpação exitosa, viralização do trecho, bastou que a turma do amor que quer destruir o patriarcado, mas se viciou em brinquedinho imposto pelo capetalizmo, encontrasse um novo bode expiatório (no intuito de meramente ser olvidado após, como dissera) pra extravasar a ressaca – e, provavelmente, o fracasso em meter geral – do Carne Levare.

Outra “descoberta”: ele faz lives que se iniciam por volta das 4 da manhã com orações coletivas e conselhos aos fiéis (católicos, pressupunheto), brincadeira que já lhe rendeu milhões de seguidores nas mídias digitais. As grandes descobertas, como era de se esperar, deram o efeito contrário: a tentativa de o “expor” apenas pra própria bolha o tornaram ainda mais famoso, quem certamente concorda com ele (quanto a teologia e ginecologia) e não o conhecia virou fã e, surpresa das surpresas, a treta virtual foi perpassada pela onipresente clivagem “Nine vs. Bozo”! Falo “bolha” e “concordam com ele”, porque de fato, se a pessoa é conservadora ou até reaça, e sabendo que tem até muita fêmea com mentalidade machista, não vai achar nada de mais, e tá achando lindo o ver criticado pelo “petê” e pelos “comunas”. E certamente, quem tá nos eventos ou vê as transmissões já tá vacinado contra a “Caneta Desmanipuladora”...

Mas como um de meus gêneros literários preferidos são os comentários em portais de notícias (já que no YouTube eles são muitos, e quase todos iguais, quase sempre com o mero objetivo de impulsionar o vídeo), por sua espontaneidade, interatividade e mordacidade, além da exigência de se esforçar um pouquinho pra escrever e publicar, segue um florilégio do que li só na quarta-feira de manhã, rs:



Own, o amor crístico entrando em ação logo cedo!



Pega fogo, cabaré aleatório!!!



Reclama da live às 4 da madruga, mas vai buscar “espiritualidade” afundando num Tietê lá do outro lado do mundo...


Mas aparentemente não é só o Monjo Rivotrilson que tá causando atritos entre o vulgo. Uma tal “balada evangélica” que não é gostada nem por carolas, porque o batidão é coisa do KPta, nem pelos neojacobines, já que aparentemente o anfitrião promove algo parecido com uma “cura gay”, tomou as manchetes, entre outras coisas, porque também conta com a participação de uma “cantora” despirocada e ostracizada, cujo único motivo pra aparecer atualmente é se esgoelar em culto e, ao mesmo tempo, bostejar todo tipo de aberração preconceituosa “em nome da fé”:


Aham. Perdoa, confia...



EU ACHO QUE O VÉIO TAVA TENDO UM DERRAME!!!



Ótima resposta à Biroleibe que Pariu... Será que ele é irmão de um tal Jocione, que fez muito sucesso em filmes adultos usando um pseudônimo?



Hoje acordei louco pra assassinar um contexto!



“Cars” Marx (uma concessionária?), ópio “dos povos”... Esse acho que estudou com o Astrolavo, rs.



Mas no final, sempre vai ter aquele troll cético, meu tipo preferido, zoando com todo mundo em qualquer reportagem relativa a igrejas!

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Sexo e religião em good vibes...


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Pra voltar com as publicações regulares, um pouco de humor nesta página, rs. Às vezes pessoas comuns falam coisas aleatórias tão sábias, que mereciam viralizar mais, ou mesmo virar memes! Pra começar, um amigo meu me mandou um tempo atrás a entrevista de um ex-ator pornô chamado Alexandre Senna, cuja fonte não consegui encontrar, mas que deve datar do final dos anos 2000. Ou seja: pelas cercas de mil (!) cenas de sexo que ele teria rodado, seu trabalho deve remontar à época do VHS que se vendia escondido atrás da parece frontal das bancas de revista...

Não vou julgar sobre onde meu amigo obtém esse tipo de conteúdo... mas parece ter saído de uma página de entretenimento (como chamaríamos hoje) LGBT, ou sopas de letrinhas maiores. Senna estava na inauguração de uma boate em São Paulo capital, que incluía, além de outras “diversões adultas”, atrações como esta, na qual ele está debruçado: uma piscina de água quente. Confesso que não é o tipo de conteúdo que curto muito, mas como o ex-ator pronunciou a sábia cena que separei abaixo, não pude deixar de compartilhar, sobretudo com essa proliferação de neoinquisidores como a Ana Campagnolo vindos de todos os lados.

O segundo achei por acaso, procurando outro conteúdo, mas é um senhorzinho anônimo cujo estado não localizei, mas que se identifica como José “Dudé” Tavares. Na publicação de 2017, e aparentemente sem a integridade de suas faculdades mentais, ainda assim (no meio de uma faladeira muito maior) ele diz algo que deveria derreter até o mais duro dos corações bolsonaristas. Se alguém souber de quem ele está falando, ficaria muito feliz de ser informado nos comentários... Divirta-se:


Sexo não tem nada a ver com vida pessoal, não tem nada a ver com família, não tem nada a ver com profissão. Sexo é quando você fecha a porta, é um mundo aonde você viaja, aonde [sic] você faz o que você quer. Se é algo que não vai te prejudicar, algo que não vai te ferir, tá aberto a tudo.


Gente, quando eu digo assim: “Tudo bem, eu não sou contra você ter uma religião ou não.” Mas não é... coloque na sua cabecinha: não é a religião, ou evangélica, ou católica, ou espírita, ou budista que salva, não! Bispo, papa, padre, pastor não salvam ninguém, sabe por quê? Porque são homens, e homem é pecador! Só tem um homem na Terra que cura, porque esse tem o dom de Deus, ele nasceu com o dom de Deus para ser médico, então esse cura. Esse sara e esse cura, é o único. Mas pastor, padre, papa, bispo não cura ninguém. Igreja não ajuda ninguém. Igreja, me desculpe, só atrapalha a vida das pessoas.


O pior é que depois ele “canta” também, rs. Vai encarar???


sábado, 21 de dezembro de 2024

2017: Putin bane Testemunhas de Jeová


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Dedico esta publicação a meu amigo William Cardoso, que sempre nos ajuda em casa com questões de informática, com quem sempre comentei essa proibição e que volta e meia vem nos incomodar com seu “extremismo”, impelindo-me a passar agradáveis momentos em trocas de ideias sobre tudo e mais um pouco.

Um dos capítulos mais vergonhosos da escalada autoritária e sanguinária da ditadura de Vladimir Putin e de sua clique de “eleitos” na Rússia, apoiada por uma “Igreja Ortodoxa Russa” fake que apenas abençoa os crimes do Kremlin, foi a interdição das atividades das Testemunhas de Jeová (doravante JW) em março de 2017 e a consequente dissolução organizativa com, que novidade, confiscação de seus bens pelo Estado em abril seguinte. O pretexto foi uma acusação de atividades “extremistas”, mas sabemos todos que das denominações cristãs existentes na Rússia, os evangélicos, sobretudo os que têm matrizes inspiradas nos EUA, são os mais perseguidos, às vezes insidiosamente, e considerados “agentes e sabotadores estrangeiros”.

Antes mesmo da Copa da FIFA de 2018 (que pra mim, depois da aceitação do Catar e da Arábia Saudita como sedes, ficou totalmente desacreditada), e enquanto eu mesmo, confesso em autocrítica, normalizava a vida no país sem muito conhecimento, por meio desta página e do antigo canal “Pan-Eslavo Brasil” no YouTube, pessoas humildes e comuns eram enjauladas por Putin apenas devido a seu pertencimento religioso. A proibição das JW foi muito comentada ao redor do mundo, mas aparentemente esquecida, e mesmo que eu seja bastante crítico com relação a várias de suas ideias, nunca achei “extremistas” meus conhecidos JW ou de certas afiliações evangélicas, como acho alguns mais visíveis no mainstream, apoiadores de Bolsonaro ou mesmo da RCC católica, pintados como “regra” pela ex-querda pseudoiluminista. Enquanto irreligioso, não preciso elogiar nem concordar com as crenças religiosas de ninguém, mas tolerância cívica, tendo por base as leis do Brasil, é o mínimo que se espera. De todos.

Por falta de tempo e de experiência, este é um dos materiais que mais ficou “encubado” ao longo dos anos, e era pra ter saído legendado no Pan-Eslavo Brasil, e não só traduzido em texto, como se lê agora. E olha que meu canal só começou mesmo a ter um forte crescimento orgânico justamente a partir da Copa de 2018 e das eleições brasileiras no mesmo ano. Já nem lembro mais em que rede, um certo Konstantin Sedov se deu ao esforço de transcrever o vídeo da leitura da sentença, publicado no YouTube no mesmo dia, e até comentou que “o volume e a rapidez da leitura podem ter sido propositais, justamente pra dificultar o entendimento” pelos presentes e possíveis internautas. Trata-se da sessão em que um dos juízes da Suprema Corte (nosso STF) leu a “parte dispositiva” da decisão n.º “АКПИ17-238” de 20 de abril de 2017, dispondo sobre a dissolução definitiva das JW enquanto organização, embora a sentença fosse passiva de “recurso” (ah vá, né!).

O vídeo em que o juiz Iúri Grigórievich Ivanenko lê o texto segue abaixo, junto com um backup caso o canal caia de uma escada ou de uma janela por qualquer motivo. Segundo a “agência” Interfax, as atividades das JW já tinham sido proibidas em 23 de março de 2017, prevendo-se a data de 5 de abril pra análise da “reclamação administrativa” (pra quem conhece o juridiquês, desculpe por qualquer erro e corrija onde tiver certeza de que haja um!) do Ministério da “Justiça” pela Suprema Corte. Em sua própria página, hoje bastante decepada e chamada apenas de “Observatório da imprensa sobre matérias citando as JW”, os seguidores locais relatam como as sentenças contra eles, em vários casos, eram tratadas de forma leviana e sem qualquer apelo.

O relato da oficial RIA Novosti é até bem equilibrado, inclusive trazendo o outro lado, por meio dos advogados de defesa. É curioso como as JW recusam a transfusão de sangue (como se a doutrina consistisse só disso!), mas a extrema-direita global, boa parte dela idólatra de Putin, nega a eficácia das vacinas e vê nisso um “complô de dominação”... Quando meu querido Sedov transcreveu sem custo algum a fala do juiz, o YouTube não era tão avançado quanto hoje, quando, por exemplo, aparecem legendas automáticas, embora imperfeitas. Pra minha alegria, acabei achando no Google por acaso a decisão completa num portal de leis da Rússia, bastando comparar os trechos concernidos, bem como uma ação envolvendo o Conselho da Europa (que Moscou ainda integrava em 2017) contendo uma tradução em inglês da decisão, que salvei à parte no Drive, mas não usei pra cotejar:




Anunciarei a parte dispositiva da decisão. Em nome da Federação Russa, o Supremo Tribunal da Federação Russa, cidade de Moscou, 20 de abril de 2017, composto pelo juiz do Supremo Tribunal da Federação Russa, Iu. G. Ivanenko, junto ao secretário V. A. Stratienko, tendo examinado em sessão aberta do tribunal o processo administrativo sobre a reclamação administrativa do Ministério da Justiça da Federação Russa sobre a dissolução da Organização Religiosa “Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová na Rússia”, as explicações da representante do Ministério da Justiça da Federação Russa, S. K. Borisova, e as objeções dos representantes da Organização Religiosa “Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová na Rússia” V. M. Kalin, S. B. Cherepanov, V. Iu. Zhenkov, Iu. M. Toporov, A. S. Omelchenko e M. V. Novakov, tendo examinado os autos do caso, tendo tomado os depoimentos de testemunhas e os argumentos judiciais, o Supremo Tribunal da Federação Russa, com base nos artigos 175, 180 e 264 do Código de Processo Administrativo da Federação Russa, decidiu:

– cumprir a reclamação administrativa do Ministério da Justiça da Federação Russa;

– dissolver a Organização Religiosa “Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová na Rússia” e as organizações religiosas locais incluídas em sua estrutura;

– converter a propriedade da organização religiosa dissolvida, remanescente após a satisfação das reivindicações dos credores, em propriedade da Federação Russa.

A decisão judicial de cumprir o pedido administrativo de dissolução da Organização Religiosa “Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová na Rússia” está sujeita a execução imediata nos termos do encerramento das atividades da organização e de suas organizações.

A decisão pode ser submetida ao Conselho de Apelações do Supremo Tribunal da Federação Russa no prazo de um mês a partir da data de sua adoção na forma final. A decisão final será tomada nos prazos estabelecidos por lei, e uma cópia da decisão será entregue às partes do processo ou enviada a elas no prazo máximo de três dias a partir da data de sua elaboração. As partes do processo têm o direito de conhecer o conteúdo da ata da audiência e, se for o caso, apresentar comentários sobre ela. As partes compreendem o procedimento e o prazo para recorrer da decisão judicial? Declaro encerrada a sessão do tribunal.


Оглашается резолютивная часть решения. Именем Российской Федерации Верховный Суд Российской Федерации, город Москва, 20 апреля 2017 года, в составе судьи Верховного Суда Российской Федерации Иваненко Ю.Г. при секретаре Стратиенко В.А., рассмотрев в открытом судебном заседании административное дело по административному исковому заявлению Министерства юстиции Российской Федерации о ликвидации Религиозной организации “Управленческий центр Свидетелей Иеговы в России”, объяснения представителя Министерства юстиции Российской Федерации Борисовой С.К., возражения представителей Религиозной организации “Управленческий центр Свидетелей Иеговы в России” Калина В.М., Черепанова С.Б., Женкова В.Ю., Топорова Ю.М., Омельченко А.С., Новакова М.В., исследовав материалы дела, заслушав показания свидетелей и судебные прения, руководствуясь статьями 175, 180, 264 Кодекса административного судопроизводства Российской федерации, Верховный Суд Российской Федерации решил:

– административное исковое заявление Министерства Юстиции Российской Федерации удовлетворить;

– ликвидировать Религиозную организацию “Управленческий центр Свидетелей Иеговы в России” и входящие в её структуру местные религиозные организации;

– обратить имущество ликвидируемой религиозной организации, оставшееся после удовлетворения требования кредиторов, в собственность Российской Федерации.

Решение суда об удовлетворении административного иска о ликвидации религиозной организации “Управленческий центр Свидетелей Иеговы в России” подлежит немедленному исполнению в части прекращения деятельности религиозной организации “Управленческий центр Свидетелей Иеговы в России” и входящих в её структуру местных регионных организаций.

Решение может быть обжаловано в Апелляционную коллегию Верховного Суда Российской Федерации в течение месяца со дня его приятия в окончательной форме. Решение в окончательной форме будет принято в установленные законом сроки, копия решения будет вручена лицам, участвующим в деле или направлена им не позднее трёх дней со дня изготовления. Лица, участвующие в деле, вправе ознакомиться с протоколами судебного заседания и подать на него замечания если таковые будут иметься. Сторонам понятен порядок и срок обжалования судебного решения? Судебное заседание объявляется закрытым.



sexta-feira, 21 de junho de 2024

Nas mãos de Alá os arroz tá limitado


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/maosdeala


Eu estava fazendo minha caminhada matinal nas ruas do bairro, quando passou por mim um SUV com um estepe externo coberto por uma lona com a famosa frase e desenho: “Nas mãos de Deus”. Como estudante de árabe que sou, pensei: Báyna yadáyi-llaah (lit. “Entre as [duas] mãos de Alá”), por que não? Rs.


Hoje encontrei no G1 esta foto dizendo que, devido à crise no Rio Grande do Sul e ao consequente aumento dos preços desse produto majoritariamente produzido no estado, “Os arroz está limitado”, ou seja, existe uma quantidade máxima de sacos que cada cliente pode levar. Pelo jeito, os plurais também estão limitados, rs.


Neste vídeo em russo sobre a língua portuguesa, feito por um youtuber que adora aprender idiomas sozinho (além de outros assuntos culturais), achei o mapa acima (em inglês) das principais características dos falares do português no Brasil. No contexto, “Portuguese S” é a pronúncia do esse como “ch” em fim de sílaba, muito característico do falar do Rio de Janeiro e de algumas regiões do Norte e Nordeste brasileiros.

Sobre a distribuição de “tu” e “você”, o mapa não leva em conta uma característica básica: no registro oral, coloquial e familiar, principalmente, usamos “você” (que também pode ser suprimido, se o verbo sozinho já bastar pro contexto), às vezes abreviado pra “cê” (sobretudo em Minas Gerais e no norte de São Paulo, e geralmente em posição proclítica de sujeito, junto ao verbo), como pronome sujeito ou tônico (usado sozinho ou junto a preposições, ao tipo do moi, toi, lui etc. franceses: “Foi você!”, “Você?”, “É você!”, “pra você”, “com você” etc., mas não “contigo”, e sim “com você”, no limite “cocê”, rs). Porém, como possessivo e objeto direto ou indireto, aparece com as formas do “tu”: “teu/tua”, “vou te falar”, “vou te bater” etc. Fenômeno idêntico ocorre com o voseo rioplatense, sobretudo o argentino (Buenos Aires), em que o “vos” convive com “te”, “tu/tuyo” e algumas formas verbais da segunda do singular, mas não com “ti” (a vos, con vos, para vos etc.).

Outra coisa que me irritou um pouco, embora fosse mais fácil de explicar pros gringos estrangeiros, foi chamar o “erre retroflexo” de “American R”, como se ele tivesse alguma influência do inglês, especialmente do falado nos Estados Unidos. Na verdade, ele é uma herança do tupi, que até o século 18 e sua proibição pelo Marquês de Pombal, era muito mais falado que o próprio português em São Paulo e na chamada região histórica da “Paulistânia”. Se você escutar o espanhol paraguaio (procure no YouTube qualquer discurso do ex-presidente Abdo Benítez!), ou mesmo o guarani falado no Paraguai, vai ouvir a mesmíssima articulação com muito mais frequência.


E pra terminar, este comentarista num canal russo que gosto bastante de assistir e cujo conteúdo é bastante maçante pra que não atraia chupadores de saco. Por que que o carinha precisava insistir em sua origem e pedir a todo custo um alô pra sua cidade, a capital da República da Chuváchia: Cheboksáry? Rs!


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Kiu pravas? Ateisto aŭ B. de Menezes?


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bezerra

Desculpe por eu ter escrito este texto diretamente em esperanto, mas assim que possível vou providenciar uma tradução. Ĉi tiu juna brazila virino havas Jutub-kanalon, en kiu ŝi komentas la librojn pri spiritismo (doktrino de franca deveno, sed tre populara en Brazilo, pri kiu ĝiaj adeptoj diras esti samtempe “scienco, filozofio kaj religio”), kiujn ŝi ĝuste legis, kaj klopodas disvastigi la spiritan doktrinon inter sia publiko. La 11-an de februaro ŝi alŝutis videon pri iu prelego farita de la brazila kuracisto Bezerra de Menezes (1831-1900), unu el la pioniroj de la spiritismo en lia lando, post kiu unu materialista amiko de la viro rifuzis sin kredi je la doktrino. Bedaŭrinde mi ne havas la tempon traduki ŝian videon, sed se vi komprenas la portugalan, rigardu ĝin kaj legu mian respondon, kiun mi sendis al ŝi per retmesaĝo:



Saluton, karega Ĵesika! Kiel vi fartas? Mi esperas, ke vi tre agrable profitas la tempon de Karnavalo per via legado ;)

Mi rigardis vian ĝuigan videon pri la materialisto kaj Bezerra de Menezes. Mi tre ŝatis la historion kaj la manieron, kiel vi ĝin rakontas: vi parolas tre bone kaj via voĉo estas dolĉa! Ŝajnas, ke Menezes estis tre bonkora homo kaj li ne havis alian vivplanon, ol helpi la personojn.

Tamen, kelkaj ideoj venis en mian kapon tiel, ke mi ne scias, ĉu la argumento de Menezes estas tute fidebla:

1) La “materialismo” ne estas doktrino, religio aŭ eĉ vivomaniero: ŝajnas, ke ĉe Menezes ankoraŭ alvenis la konfuzon inter la sciencaj metodoj, kiuj forigas transcendajn hipotezojn por ekspliki la mondon kaj la vivmaniero de iuj, al kiuj gravas nur “materiaj” aferoj (mono, plezuroj, amuzadoj ktp.).

2) Se tiu ne estis la kazo, oni ne povas meti ĉiujn materialistajn pensulojn en la saman sakon: estas diversaj mondrigardoj, kiuj adoptas materialismajn metodojn, sed ne eklaboras el la samaj precipoj. Ekz. oni povas preni la ekonomion, la kulturon, la politkon ktp. kiel precipon por ekspliki la societojn, sed tutegale esti materialisma.

3) Mi timas, ke Menezes erare intermiksis 3 malsamajn aferojn: ekspliko pri la mondo, malpezigo de la homaj suferoj kaj solvo de konkretaj problemoj. Ŝajnas, ke Menezes ne konsideris, ke malpezigi suferojn ne ebligas la solvon de problemoj. Kaj ĉe multaj materialistoj la punkto estas ĝuste ĉi tiu: la mondo estas vere malbela, suferiga, kaj oni devas lerni vivi kun tiaj aspektoj por tiam eltiri fortojn por scii solvi niajn problemojn.

La sciencoj kaj iliaj metodoj ne celas esti “belaj” aŭ “malpezigaj”, sed kiel eble pli precizaj kaj kapablaj solvi konkretajn problemojn. Unu afero estas tio, ĉu la “materialismo” (ŝajne estus pli ĝuste, ke Menezes diru la “scienca metodo”) solvas aŭ ne konkretajn problemojn; alia afero estas tio, ĉu la spiritistoj nomataj de la amiko de Menezes estis aŭ ne trompuloj. Kaj la demando estas simpla: aŭ ili estis trompuloj, aŭ ne. La rakonto pri la konkretaj kazoj ne estas prezentita. Do, oni ne povas konkludi, ĉu Menezes ĝuste defendis tiujn spiritistojn, aŭ ĉu lia amiko povis trafe refuti Menezes-on.

Ĉiuj religiaj kredoj estas respektindaj, ĉar ili klopodas kunigi la personojn ĉirkaŭ komunaj valoroj kaj komunuma sento. Sed laŭ mia opinio, Menezes prezentas ekzistecajn problemojn per iom stranga rakonto: ĉu li pretendas, ke la sciencoj (la “materialismo”) ne povas solvigi ĉiujn problemojn, kaj tiel ignoras, ke la scienca konaĵaro estas senfine kreskanta kolekto? Ĉu li akuzas la sciencojn ne solvi la spiritajn problemojn de la personoj, kaj tiel li ignoras, ke la celo de la sciencoj ne estas la “belo”, sed la precizo kaj la versimilon, ĝuste por solvi la konkretajn problemojn, kiuj plej eble kaŭzas tiujn spiritajn problemojn al la homoj? Aŭ ĉu li ne komprenas la veran esencon de la aserto de sia amiko, nome la spiritisma doktrino, almenaŭ juĝante per la eblaj nenomataj trompuloj, povas esti nekorekta; do, ĝi ne solvus la homajn problemojn, sed faras la homojn forgesi pri ili iomtempe?

Ĉi tiuj ne estas fieremaj asertoj, sed vere instigantaj pensadoj, kiuj al mi venis, kiam mi rigardis vian belan videon. Mi ne petas, ke vi respondu ĉiun el ili, sed nur meditu pri ili, por ke ili servu kiel daŭrigilo de nia kontakto ;) Dankon pro via atenteco, kaj pacon!