Tendo guardado por alguns anos meus primeiros trabalhos escritos da graduação em História na Unicamp em seu formato impresso original, com as correções, observações e notas dos professores, resolvi um dia digitalizar a maioria deles, quando não tivesse backup dos arquivos Word originais. Nunca tinha pensado em os publicar na página, mas quando percebi que o navegador Chrome estava avançado o suficiente pra detectar textos automaticamente e possibilitar sua cópia pra outros programas, decidi tentar fazer isso com essas relíquias, que de fato só exigiram alguns reparos pontuais, pois o conteúdo saiu quase todo com espantosa exatidão!
Portanto, estou publicando hoje meu texto universitário mais antigo já saído na página: o primeiro trabalho escrito, entregue no dia 11 de maio de 2006, pra disciplina “Laboratório de História I”, ministrada no 1.º semestre por Sidney Chalhoub, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis. Lá se vão quase 20 anos que escrevi esta resenha sobre o livro O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição, do italiano Carlo Ginzburg (tradução de Maria Betânia Amoroso, 5. reimpr. da 3. ed, São Paulo, Companhia das Letras, 2005), gênero que aprendi a fazer ao longo de minha graduação. Algo de minha indecisão redacional, típica de quem ainda estava se iniciando na rigorosa escrita acadêmica, pode ser percebida na própria versão abaixo, da qual não só precisei atualizar a ortografia, mas também corrigir pontos que realmente não davam pra engolir.
Quem pegasse o arquivo original, veria parte desses deslizes comuns que o Sidney marcou tão incisivamente, tanto que depois ele fez um apanhado geral de todos os trabalhos pra depois nos dar preciosas dicas de redação que levei pra minha vida toda. Porém, como valioso estímulo pra jornada futura, fiquei impressionado ao ver os papéis sem muitos rabiscos e saber que minha primeira resenha causou boa impressão num dos mestres de nossa turma. A julgar pela avaliação final, cuja cor original infelizmente foi perdida pelo preto-e-branco do escâner, rs:

Esse clássico da micro-história tem como principal objetivo demonstrar uma nova visão sobre cultura popular e cultura hegemônica nos princípios da Idade Moderna europeia, que, segundo о escritor italiano Carlo Ginzburg, autor da obra, demonstrando hipóteses formuladas pelo russo Mikhail Bakhtin, se relacionavam seguindo a hipótese da “circularidade”, ou seja, as classes altas influenciavam as classes baixas e vice-versa; além disso, a cultura popular não teria sido passivamente moldada pelas classes dominantes, sendo fruto de tradições que remontavam há séculos e tinham as mais profundas raízes em culturas muito antigas. Tudo isso Ginzburg tenta demonstrar em sua obra-prima, passando por temas que abarcam a Inquisição, a cultura humanista, os principais grupos “hereges” do século 16 e a história das populações do Norte da península Itálica.
O livro conta a história do moleiro Domenico Scandella, dito Menocchio, habitante do Friuli na segunda metade do século 16, acusado pela Inquisição de pronunciar heresias graves sobre Cristo, desrespeitar as autoridades eclesiásticas e afirmar que era um melhor conhecedor de Deus do que o clero. Era conhecido pelos conterrâneos por suas agudas críticas à Igreja Católica, seus dogmas e por sua negação da divindade de Cristo e mesmo da existência de Deus, que, segundo Menocchio, não teria sido o criador do mundo. Após denúncias de testemunhas que se iniciaram em 1583, mesmo ocupando cargos importantes na administração de sua aldeia, Montereale, e vilarejos próximos e tendo trocado ideias com padres que conhecia, o moleiro é preso no ano seguinte e submetido a uma longa série de interrogatórios durante o ano, baseados em relatos de testemunhas que tiveram contato com ele e relataram aos inquisidores suas reações diante de ideias tão incomuns. Nessas ocasiões, o suposto herege tem a oportunidade de relatar sua visão sobre a religião e uma estranha cosmogonia que comparava a criação do mundo, de Deus e dos anjos (entre os quais estaria Ele) à fabricação do queijo por meio do leite e a aparição de vermes no alimento. Ao se defender, acaba atribuindo seus pensamentos a espíritos malignos, mas mesmo assim é condenado à prisão perpétua, da qual é libertado em 1586 após os inquisidores reconhecerem sua debilidade física como sinal de conversão, trocando a pena pelo confinamento em sua aldeia. Porém, após várias idas e vindas, a Inquisição volta a prender Menocchio em 1599 e, definitivamente, é torturado para confessar seus cúmplices e executado em Montereale para servir de exemplo.
Como pano de fundo, hão de se notar três fatos fundamentais para a formação da mentalidade moderna: a Reforma, as Grandes Navegações e o Renascimento, que influenciarão, ainda que indiretamente, o ideário de Menocchio. Sem a revolução cujo ápice se materializaria na figura de Lutero, o protagonista não teria espaço para expor suas ideias ditas heréticas, às quais alcançam dissertações sobre os sacramentos, a Bíblia, os santos e a paixão de Cristo. Ambos têm em comum denúncia da abastança do clero, do uso do latim nas missas como forma de traição e enganação, e dos sacramentos como instrumento de lucro. Porém, Ginzburg, devido à extrema particularidade do caso italiano, que possui muitas diferenças entre as correntes tradicionais, refuta tanto sua ligação com luteranos quanto com outra seita protestante, a dos anabatistas, que eram os maiores críticos dos sacramentos; a colocação em primeiro plano do raciocínio por Menocchio também o distingue dos profetas e pregadores tradicionais, pois ele priorizava seu pensamento e crença. O autor prefere relacioná-lo com uma corrente camponesa de raízes profundas que não sofreu qualquer influência “de cima”, sem qualquer denominação tradicional, que, de uma tradição oral radicada nos campos, prova a existência aí de uma “religião” sem dogmas e cerimônias, ligada aos ciclos da natureza, ao modo pré-cristão, um “radicalismo religioso” somado a um materialismo com desejos de mudança social. O materialismo, no caso, pode ser encontrado em sua cosmogonia, segundo a qual Deus, por meio dos anjos, teria criado o mundo com a matéria surgida do movimento do caos e da qual os próprios anjos, inclusive Deus, teriam surgido, pela vontade de uma “santíssima majestade”. Mesmo assim, Menocchio é pouco afeito a esse radicalismo devido à sua grande carga, pondo lado a lado a página impressa e a cultura oral, o que pode ser concluído pelo modo como ele lia, o que é tido como mais importante para sua compreensão. Essa é a primeira prova da tese sobre a independência da cultura camponesa em relação às ideias “superiores” e pré-concebidas, que Ginzburg defenderá durante todo o livro.
O Renascimento será a segunda grande força que encontrará em Menocchio um poderoso eco. Em seu pensamento, podemos encontrar ainda a tolerância, a redução da religião à moralidade e a “equivalência das religiões”, originadas de uma tradição oral camponesa absorvida por hereges humanistas. Dentro do movimento, encontra-se ainda a invenção da imprensa, que quebrou o monopólio do conhecimento pelas pessoas poderosas e foi determinante para a publicação de livros lidos pelo moleiro, nos quais ele busca palavras e o método expositivo para expressá-las e exprimir um materialismo simples de muitas gerações camponesas. Segundo Ginzburg, Menocchio compartilha com Montaigne a ideia da relativização de credos e instituições e, com outros grupos, a redução da religião a um vínculo moral e político, como expressara Maquiavel ao tratá-la como elemento de coesão política. Outro reflexo humanista em suas ideias está em tratar que, durante o caos antecessor da criação do mundo, os quatro elementos estariam se confundindo, além de relacionar a Santíssima Trindade aos mesmos, o que seria reflexo indireto das teorias gregas clássicas sobre a constituição da matéria, sintetizadas especialmente por Aristóteles e resgatadas pelos humanistas junto com outras obras da literatura grega antiga. Já a impressão da Bíblia em língua vulgar, que também estará descrita nas leituras de Menocchio, se relaciona tanto à Reforma, que criticava o uso do latim, como já foi visto (Lutero também quebrou esse monopólio ao traduzir o livro para o alemão), quanto à Renascença, pois não só o primeiro livro impresso foi a Bíblia, como também os humanistas foram os pioneiros na edição de algumas das primeiras obras em línguas modernas.
Há uma enorme relação entre as Grandes Navegações e as leituras de Menocchio, pois é por meio dos livros que ele tomará contato com ideias e lendas formuladas por viajantes a lugares conhecidos, como Jerusalém, a “Terra Santa”, e desconhecidos, como a recém-descoberta América; é por meio dos seus discursos ao tribunal e dos possíveis escritos no qual se inspirava que Ginzburg analisa seu pensamento. A maior parte dos livros era emprestada, volumes que passavam de mão em mão, o que prova o importante papel do coletivismo camponês na difusão do conhecimento; porém, isto não seria possível se boa parte da população da aldeia de Menocchio não tivesse sido alfabetizada em escolas abertas em suas cercanias. Entre esses livros, podem ser citados: a Bíblia em vulgar, Il Fioretto della Bibbia, Il cavalier Zuanne de Mandavilla (As viagens de John Mandeville), Il sogno dil Caravia e, provavelmente, uma edição do Alcorão em italiano. Do Fioretto, podem-se encontrar relações entre a filosofia grega e as tradições cristãs e metáforas que explicam a criação usando elementos cotidianos, e que ajudarão o acusado a expor e sintetizar suas ideias. Nas Viagens, assim como em outros livros, encontram-se relatos a lugares reais e fantasiosos, onde as pessoas de diferentes costumes tão diversos dos europeus vivem na mais perfeita harmonia, o que será uma alusão à ideia de liberdade e tolerância religiosa e sua diversidade. Do Sogno, sai uma crítica à hipocrisia eclesiástica e outros costumes da Igreja Católica. Quanto ao Alcorão, cuja presença é apenas suposta e é associado a um “livro lindíssimo” que Menocchio lera, são nele encontradas descrições sobre um paraíso mítico, delicioso e cheio de prazeres. São livros que não só expressam o desejo por uma nova Igreja, pobre e pura, como no passado, mas visões de um “mundo novo”, expressão que designa relatos sobre a América, escritos estes que ele entende como um exemplo de sociedade a ser alcançada, com detalhes influenciados pelos autores utopistas e pela tradição utópica popular, cuja paixão por um “passado mítico perfeito” pode ser encontrada já na Roma Antiga, com a lenda da “Ætas Aurea” (Idade Áurea).
A atitude de Menocchio e seu discurso impressionam. A maior prova de que certas ideias não podem ser consideradas exclusividade da burguesia renascentista é o fato de ele afirmar com toda a convicção e durante todo o tempo que nunca discutira com ninguém suas ideias, que teriam saído de sua própria cabeça, ainda que ele possa ter trocado informações com um certo Nicola de Melchiori. O acusado também cai muitas vezes em contradição. Primeiro, porque ele faz muitas afirmações que depois acaba desmentindo, como sobre a alma, que, segundo ele, morria junto com o corpo e não se distinguia de espírito, mas depois substituiu pela diferenciação entre os dois, sendo o espírito algo vindo de Deus e que a ele retorna na morte, e as almas, operações da mente que acabam com o corpo. Segundo, porque há grande contraste entre os relatos das testemunhas e os autos dos processos, como quando ele conta aos inquisidores que amar o próximo é mais importante do que amar a Deus, não negando a existência deste, numa atitude de defesa contra os dogmas da Igreja Católica, mas as pessoas relatam que ele negava Deus, a divindade de Cristo e a virgindade de Maria, e atacava o clero e os sacramentos. Fora isso, há a associação da figura do moleiro com o luteranismo e com a figura de alguém espertalhão, enganador e ladrão, sendo os moinhos locais de encontros suspeitos. Já no primeiro processo, Menocchio é condenado como heresiarca, com uma sentença cujo tamanho revela não somente o quão inaudito era o caso julgado, que não se enquadrava em nenhum estereótipo até então traçado, mas também a enorme distância entre a cultura de Menocchio e a dos inquisidores.
A narrativa é enriquecida com relatos sobre o Friuli daquela época, de modo que não se torna cansativa e o enredo principal não é quebrado. O leitor encontrará uma breve referência ao sistema de ocupações de cargos administrativos em Montereale e uma descrição sobre a política e a sociedade de uma área dominada pela cidade de Veneza. Administradora do Friuli desde 1420, colaborou para a permanência de características arcaicas, como resquícios do feudalismo e dominação das terras em mãos de poucas famílias. As lutas entre os nobres favoráveis e contrários a Veneza são entremeadas por lutas camponesas duramente reprimidas, após as quais Veneza decreta séries de benefícios para os camponeses, em detrimento da nobreza, o que não impediu a emigração em massa devido às condições do campo e às pestes frequentes.
Ginzburg utiliza documentos do século 16 guardados em arquivos episcopais, arquiepiscopais, estatais e do Vaticano, como os autos dos processos, cartas de Menocchio aos inquisidores, notas dos escrivães e contratos de casamento, em especial um de sua filha; são documentos que revelam seus pensamentos, suas atividades econômicas e a vida de sua família, além de obras de autores renomados, como Geneviève Bollème, Michel Foucault, Umberto Eco e Robert Mandrou. Tudo isso para traçar a história de alguém que não era um mero repetidor de informações geradas por outras pessoas e que muitas vezes deformava, e em outras reelaborava originalmente os conteúdos dos livros por seu modo de ler, um herdeiro de tradições indo-europeias sobre a criação do mundo relacionada à geração espontânea, que chegaram até ele por meio de relações e migrações culturais, e de uma cultura oral que pertencia não só a ele, mas a uma vasta população da Europa do século 16.

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