domingo, 11 de janeiro de 2026

Metodologia do trabalho científico (1)

O filósofo mineiro Antônio Joaquim Severino (n. 1941) tem uma longa trajetória nacional e internacional, tendo se especializado em filosofia da educação, por isso mesmo conhecido por diversos trabalhos que versam sobre a vida na universidade e a prática científica. Seu livro Metodologia do trabalho científico, lançado pela primeira vez em 1975, se tornou uma referência pra jovens graduandos como eu (na segunda metade da década de 2000), que inicialmente achou num sebo uma edição tão ou mais velha do que este mesmo que lhe escreve. Anos depois, achei em outro “alfarrábio” uma edição mais nova, e com base nela (22. ed. rev. e ampl., São Paulo, Cortez, 2002) fiz um fichamento quase completo do texto, que achei esses dias entre meus arquivos digitais.

Obviamente nada substitui a leitura do livro (baixe aqui uma versão digital!), e obviamente nenhum livro de metodologia substitui as alegrias e as cabeçadas da prática, como dizia meu orientador, que me achava muito obcecado por esses tratados teóricos. Felizmente, com o tempo fui levando os “metodólogos” menos a sério, mas numa época em que eu conseguia ler mais por ainda não ter sido sugado pelo mundo das redes sociais, as dicas de Severino foram importantíssimas pra que eu mesmo me inspirasse nas fases futuras do TCC, mestrado e doutorado. Esta primeira publicação só não contém os capítulos 7 e 8, que vão aparecer amanhã devido ao tamanho do fichamento e do detalhamento de seu conteúdo.

Segundo minhas próprias observações, fichei o livro em 2012 (defendi o TCC em fevereiro, mas já tinha lido aquela edição anterior) e deixei alguns capítulos de fora, por razões diversas. No meio, também podem ser encontrados adendos meus com links pra versões públicas de alguns dos textos citados, os quais felizmente consegui atualizar, sempre que possível, com a norma ou legislação vigente na atualidade. Não alterei o conteúdo e mudei muito pouco a redação. Boa leitura, e espero que você possa aproveitar!


Capítulo I – A organização da vida de estudos na universidade

Na universidade, os resultados do processo de aprendizado dependem em grande parte do próprio estudante, pois lhe são exigidas maior autonomia, uma autoatividade crítica e rigorosa e um trabalho bastante individualizado (p. 23-24).


1. Os instrumentos de trabalho

As habilidades profissionais próprias de cada área são embasadas pelo conhecimento teórico assimilado na universidade por meio do ensino em classe e fixado pelo estudo pessoal (p. 24).

Para a concretização desse estudo, são muito importantes os instrumentos bibliográficos, que são inicialmente textos básicos, especialmente dicionários, textos introdutórios, textos de história e revistas especializadas, e passam posteriormente para textos monográficos e especializados (p. 24-25). Os textos básicos servem como uma iniciação provisória às primeiras categorias da área e são progressivamente substituídos pelos especializados (p. 25).

É errado passar todo o curso universitário lendo introduções e textos genéricos, mas eles são muito úteis numa etapa inicial e provisória (pp. 25-26). Além disso, o professor não pode deixar o estudante totalmente dependente nem deixá-lo sozinho com material avançado, mas ensiná-lo a pensar, conduzindo-o nos primeiros passos e deixando-o livre depois para conduzir com autonomia seus estudos (p. 26).

O estudante exigente assina revistas e periódicos especializados, pois além dos artigos especializados, eles contêm repertórios bibliográficos, resenhas e outros dados sobre a vida científica e cultural (p. 26). Ele também participa de eventos extraescolares, como simpósios, congressos, encontros, semanas etc. (p. 27).

Nenhum estudante ou profissional deve ceder à especialização excessiva, mas se abrir à interdisciplinaridade, complementando o núcleo central que é seu curso com áreas afins, devendo, por isso, também adquirir textos básicos e revistas dessas áreas (p. 27).

Os dicionários especializados também são importantes (p. 27).


2. A exploração dos instrumentos de trabalho

Sendo o material de pesquisa a base do estudo pessoal, ele deve ser documentado, assim como o conteúdo das aulas complementado por aquele estudo (p. 28).

Ao anotar uma aula, o importante não é taquigrafar ou gravar, mas anotar as ideias principais, que constroem o texto final por meio do contexto em que foram apreendidas e do material de referência que as completa (p. 28-29). (Re)construir o texto após a aula é um ótimo aprendizado, pois evita a “decoreba” e faz o estudante pensar no que está escrevendo e pesquisar mais (p. 29).


3. A disciplina do estudo

O projeto de trabalho que adota a documentação, a pesquisa e a síntese é mais rígido e exige organização, mas é mais eficiente e produtivo (p. 30).

O essencial do estudo produtivo não é dividir minuciosamente o horário, mas usar bem o tempo disponível, estabelecendo prioridades (p. 30).

Após duas horas de estudo, é imprescindível um intervalo de meia hora (p. 32).


Fluxograma da vida de estudo (p. 31):

Antes de qualquer aula, é preciso se preparar, especialmente com leituras prévias. Durante a aula, deve-se participar do debate.

Após a aula, em casa, deve-se reorganizar a matéria documentada e assimilá-la. Pode-se complementá-la com os instrumentos à mão e, assim, dar início, com outras leituras, à preparação para a próxima aula.

Na nova aula, os pontos da anterior devem ser retomados e, se necessário, esclarecidos.


Capítulo II – A documentação como método de estudo pessoal


1. A prática da documentação

O saber se constitui na reflexão dentro de determinada área do conhecimento, mas para se fazer isso é preciso se munir de informações. Por isso, o bom estudante e futuro profissional deve ter um domínio pleno de sua área de especialização, um domínio razoável de áreas afins e uma ampla cultura geral, obtidos apenas por meio de criteriosa documentação de todo o material que lhe chega às mãos (p. 36).


2. A documentação temática

A documentação temática, útil para o estudo em geral ou para um trabalho específico, organiza o material em temas e subtemas de uma determinada área. Nesse conjunto se guardam os fichamentos de leituras particulares, aulas, conferências e seminários e a transcrição de ideias pessoais importantes para projetos futuros, para que não se percam com o passar do tempo (p. 37).


3. A documentação bibliográfica

A documentação bibliográfica reúne informações de livros, artigos e outros escritos sobre certos assuntos dentro de uma área do saber. Ela se constrói em níveis progressivamente aprofundados, começando por um apanhado geral, que pode se dar pelo contato com o sumário, as orelhas, o prefácio e a introdução, até chegar ao próprio conteúdo do texto, preferencialmente sintetizando sua análise temática (p. 39).


4. A documentação geral

A documentação geral se constitui na preservação de material retirado de fontes perecíveis e efêmeras, nem sempre encontráveis fora da época de publicação, como recortes de jornais, xérox de revistas, apostilas, entre outros. Também se guardam aí os textos-roteiros de seminários, trabalhos didáticos, textos de conferências etc. (p. 40).


5. Documentação em folhas de diversos tamanhos

[Embora fuja do tema geral do item:] Autores muito relevantes para determinada área do conhecimento devem ter abertas fichas respectivas só para eles, contendo dados biográficos, bibliográficos e os pontos mais importantes de seu pensamento (p. 42).


6. Vocabulário técnico-linguístico

Dentro do fichário da documentação temática, é importante que se faça também uma espécie de glossário com conceitos e categorias importantes para a compreensão da área de especialização, ou seja, um vocabulário técnico-linguístico com termos a ela referentes (p. 42).


Capítulo III – Diretrizes para a leitura, análise e interpretação de textos


1. Delimitação da unidade de leitura

A primeira providência do leitor-estudante diante de um texto é a delimitação de uma unidade de leitura, ou seja, uma unidade portadora de sentido sobre a qual se dará o trabalho de decodificação e compreensão. Esse trabalho deve ser contínuo, sem intervalos entre as diferentes etapas de análise, mudando-se de unidade apenas quando a anterior já estiver esgotada (p. 51).


2. A análise textual

A primeira leitura analítica do texto deve ser a textual, ou seja, passar o texto por alto, fazer uma leitura corrida, sentir seu estilo, seu método (p. 51-52).

Nessa etapa da análise também se devem tirar todas as dúvidas a respeito do texto, como dados sobre o autor do texto, o vocabulário desconhecido, as referências a fatos históricos, autores e doutrinas. As indagações devem ser anotadas à parte e sanadas após a leitura corrida, a análise textual (p. 52).

A análise textual também viabiliza a esquematização do texto, ou seja, uma visão de conjunto, a estrutura redacional, a apresentação das ideias mais relevantes, auxiliadas pela divisão da unidade em introdução, desenvolvimento e conclusão. Isso é diferente do resumo, que é mais complexo (p. 53).


3. A análise temática

A análise temática é a compreensão da mensagem global da unidade, a absorção do autor sem a intervenção nele, a colocação de perguntas ao texto relativas a: tema (o assunto), problema (uma indagação ou dificuldade que o autor se propõe a resolver), tese (tomada de posição que o autor se propõe a defender, que deve ser representada por uma oração, proposição ou juízo completo, e não apenas uma expressão, como o tema), raciocínio (argumentação de defesa da tese) e ideias secundárias (temas paralelos ao tema central, mas não indispensáveis ao raciocínio) (p. 54-55).

A análise temática é que serve de base para um resumo, síntese ou roteiro de leitura (resumo orientador para seminários e estudo dirigido) do texto ou da unidade (p. 55).


4. A análise interpretativa

A análise interpretativa, como diz o nome, interpreta o texto, situa as ideias do autor no tempo, no espaço, na esfera mais ampla do pensamento desse autor e no contexto de sua área de atuação (destacando a perspectiva, as semelhanças e as diferenças com os colegas da área) (p. 56).

Interpretar é ir além da mera mensagem do texto, é tomar uma posição, é ler nas entrelinhas, é explorar as consequências do argumento do autor e forçá-lo a um diálogo, o que é mais difícil e delicado porque exige cuidado com a interferência da subjetividade do leitor e uma preparação, maturação ou informação intelectual maior (p. 56). Interpretar é, acima de tudo, extrair os pressupostos do texto, que muitas vezes justificam a posição do autor (p. 56-57).

Após a extração dos pressupostos do texto, faz-se uma aproximação de suas ideias com outras semelhantes em outros lugares e autores, mas que tenham recebido abordagem diferente. Em seguida, faz-se a crítica da unidade ou do texto, que consiste, num primeiro momento, no levantamento de sua originalidade, alcance, validade e contribuição à discussão do problema, e, posteriormente, na própria crítica pessoal às posições do texto, que é o momento mais exigente de maturidade e vivência intelectual (p. 57-58).


5. A problematização

Problematizar o texto, antes de ser a definição de seu problema central, o que já foi feito anteriormente, é o levantamento, para discussão e reflexão, das questões nele implícitas ou explícitas, é a tomada da unidade como um todo e a extração de problemas para a reflexão pessoal ou a discussão em grupo (p. 58).


6. A síntese pessoal

A síntese pessoal, baseada nos problemas, questões e reflexões levantados, é uma elaboração pessoal relativa ao texto ou à unidade que se trata mais da construção lógica de uma redação do que da simples leitura, embora uma leitura atenta seja condição para uma redação bem feita (p. 58). Ela é exigida em atividades didáticas como tarefa específica ou parte de relatórios ou de roteiros de seminários e constitui um bom exercício de raciocínio que garante o amadurecimento intelectual (p. 59).


Capítulo IV – Diretrizes para a realização de um seminário


1. Objetivos

O objetivo do seminário é levar os participantes a uma reflexão aprofundada sobre um tema, a partir de textos e em equipe. Todos os participantes devem realizar uma leitura analítica do texto principal, de modo que desenvolvam com ele um contato íntimo, a compreensão da mensagem central, a interpretação judiciosa e crítica e a discussão da problemática nele implícita ou explícita (p. 63). Pelo menos em cursos avançados, todos os participantes devem fazer a análise textual (p. 64).


2. O texto-roteiro didático

Tendo se preparado e pesquisado bastante, o coordenador do seminário, para facilitar a participação de toda a equipe, faz um texto-roteiro apostilado e entrega a todos antes do dia da reunião do seminário. Há várias formas de se fazer esse texto-roteiro (p. 64)

O texto-roteiro didático possui uma apresentação da temática do seminário, uma breve visão de conjunto da unidade (não um resumo lógico, mas uma lista dos principais assuntos abordados) e um esquema geral do texto (a estrutura redacional com os assuntos abordados arrolados em tópicos) (p. 64). Neste esquema, ele facilita a tomada de posição dos participantes quando da preparação da leitura (p. 64-65). Esse texto pode conter ainda:
- a situação da unidade no texto de onde foi extraída, na obra do autor, em seu pensamento geral e em seu contexto histórico-cultural;
- a lista dos conceitos, doutrinas e ideias principais, feita durante a análise textual e seguindo a técnica da documentação;
- um roteiro de leitura sintetizando os momentos lógicos centrais, conforme a análise temática, indicando-os mais do que os explicitando, para se compararem as várias compreensões do texto pelos participantes;
- a problematização com o levantamento de questões importantes que surgem com o texto, questões menos lacônicas do que provocadoras do raciocínio;
- uma orientação bibliográfica especializada e comentada, com as obras consultadas pelo coordenador, mas sem listar o texto básico e o eventual complementar, nem obras de referência geral ou mesmo de referência especializada (enciclopédias, tratados, dicionários etc.) (p. 65-66).

O coordenador também apresenta ao grupo um texto com reflexões pessoais sobre o tema que ele estudou com mais profundidade (p. 66).


3. O texto-roteiro interpretativo

Grupos mais adiantados, que não precisam de detalhamento com fins didáticos em suas atividades, podem simplificar o esquema anterior por meio do texto-roteiro interpretativo (p. 66). O coordenador elabora um novo texto sobre a temática do texto básico ou sobre uma temática apresentada previamente, fundindo todas as etapas da leitura analítica num discurso que maior contribuição dará quanto mais pessoal for. Quando se parte de um tema específico, e não de um texto básico, o coordenador pode apresentar um texto que comporta os problemas e questões que ele deseja ver discutidos pelo grupo no seminário (p. 67).

Esse tipo de texto-roteiro é uma boa base para um seminário, mas exige uma participação mais ativa, madura e comprometida de todo o grupo por meio da leitura e compreensão aprofundadas do texto básico e, a partir disso, do porte de questões a serem postas ao coordenador na hora da apresentação. Nesse modelo, reserva-se um tempo inicial para que o coordenador apresente sua reflexão e então se iniciem os debates, que devem, obviamente, contar com a participação de todo o grupo e de todos os participantes, para que não vire uma mera exposição de um estudante para o professor (p. 67).


4. O texto-roteiro de questões

Outro modelo, ainda mais maduro e exigente da participação honesta e dedicada de todo o grupo, é o texto-roteiro de questões, em que o coordenador entrega aos membros um conjunto de perguntas problematizadoras e que devem ser respondidas com reflexão e pesquisa, para debate e confronto entre as diversas opiniões (p. 68).


5. Orientação para a preparação do seminário

O uso do texto-roteiro auxilia na participação no seminário, mas não substitui a leitura profunda e crítica do texto básico, que exige a comparação da compreensão de todos os participantes com a compreensão do coordenador, o levantamento de problemas para discussão geral e a demanda por esclarecimentos e explicações por todos de suas respectivas posições (p. 69). Deve-se fazer a documentação temática com anotações pessoais das conclusões elaboradas durante a discussão do grupo (p. 70).


6. Esquema geral de desenvolvimento do seminário

Estas são as principais etapas de execução do seminário, devendo o professor introduzir o evento e realizar uma síntese final (p. 70):
- o coordenador apresenta as tarefas do dia, as orientações de procedimento dos participantes no seminário e o cronograma das atividades em classe;
- o coordenador faz uma breve introdução para localizar seu seminário na temática geral e com relação aos seminários anteriores;
- o coordenador esclarece eventuais dúvidas do grupo sobre o texto roteiro e faz-se uma revisão de leitura para dirimir incompreensões do texto básico;
- execução das atividades pelo grupo e pelos participantes, coordenados pelo coordenador;
- o coordenador apresenta sua reflexão pessoal para introduzir a discussão geral.


Conclusão

Se o seminário ultrapassar duas horas, deve ser feita uma pausa (p. 71).

O coordenador deve entregar ainda ao professor uma avaliação da participação dos membros do grupo (p. 71).

Embora se trabalhe no seminário apenas capítulos ou partes de capítulos, é necessário que o estudante leia a obra inteira em questão, na língua original ou em tradução confiável (p. 71).


Capítulo V – Diretrizes para a elaboração de uma monografia científica

Os trabalhos científicos são aquelas produções teóricas, científicas e filosóficas às quais se impõem as diretrizes da monografia científica, exigindo organização prévia e metodologia de criação, após o amadurecimento de um raciocínio ao qual se aplica um plano e um método. Tal sistematização aperfeiçoa o aprendizado e a disciplina exigida para o amadurecimento intelectual (p. 73).

Preparar um trabalho científico exige:
1) determinar um tema e um problema;
2) levantar a bibliografia a respeito do tema e do problema;
3) ler e documentar a bibliografia;
4) construir logicamente o trabalho;
5) redigir o trabalho (p. 73-74).


1. As etapas da elaboração


1.1. Determinação do tema-problema-tese do trabalho

Escolhido o assunto, é o estudante quem deve delimitar bem o tema, que deve estar bem definido na hora de começar o trabalho, além de determinada a perspectiva de abordagem. Trabalhos acadêmicos com fins didáticos e propedêuticos devem ter espaço para a pesquisa positiva de livros ou de campo, abordando um tema já estudado por outros, mas com outra perspectiva, e podendo haver consulta a documentação (p. 74).

O tema deve ser colocado em forma de problema, deve ser problematizado, já que argumentar é fazer uma demonstração que solucione um problema (p. 74-75). Essa colocação e problematização levam à hipótese geral, a qual, transformada em solução a ser defendida, toma a forma de tese ou ideia central do trabalho. Assim, o trabalho lida com apenas uma ideia, uma hipótese, uma tese, uma posição que só pode ser tomada após a discussão de alternativas possíveis. A tese/ideia central porta a mensagem principal a ser demonstrada pelo raciocínio lógico (p. 75). Essas determinações unívocas devem anunciar e garantir o caráter monográfico do trabalho (p. 76).

O amadurecimento do trabalho tem três fases concomitantes, não necessariamente separadas:
1) a invenção e formulação de hipóteses mediante um pensamento provocador;
2) o cotejamento dessas intuições com os fatos da pesquisa positiva ou com intuições alheias, com abandono, acréscimo e reformulação de ideias;
3) a composição do trabalho, já com uma posição amadurecida e uma formulação definitiva (p. 76).


1.2. Levantamento da bibliografia

Com tema, problema e hipótese formulados, faz-se a localização, o levantamento e a busca metódicos de documentos que possam interessar ao assunto (p. 76). Levantar a bibliografia é classificar livros e documentos similares conforme determinados critérios, recorrendo-se a repertórios, boletins e catálogos bibliográficos e escolhendo as obras de forma criteriosa, apenas as que interessarem especificamente ao assunto do trabalho. Informações bibliográficas também são encontradas em enciclopédias, dicionários especializados, monografias, tratados, textos didáticos, revistas e fichários de bibliotecas (p. 77).

As informações coletadas são transmitidas a fichas bibliográficas que formam fichários e que contêm também os códigos dos documentos na biblioteca, resenhas e rápida apreciação dos livros. Dados de catálogos e outras fontes bibliográficas também são encontrados em CD-ROMs, bancos de dados da internet e programas de busca (p. 78).


1.3. Leitura e documentação

A leitura e a documentação constituem a pesquisa propriamente dita, após o levantamento bibliográfico (p. 78).


1.3.1. O plano provisório do trabalho

Antes da leitura, faz-se um primeiro roteiro estruturado do trabalho, com as grandes ideias vindas de seus vários aspectos e que serve para orientar a leitura e torná-la mais fecunda por meio de uma ideia-diretriz (p. 78-79). Ele dá ainda as linhas mestras do trabalho, percebidas intuitivamente ou sugeridas pelo problema que a tese levanta ou por estudos anteriores, as quais mostram o que deve ser retido nos textos lidos. Ao longo do trabalho, o roteiro é reformulado, só surgindo a versão definitiva no fim da pesquisa positiva (p. 79).


1.3.2. A leitura de documentação

Com o roteiro provisório, buscam-se nos documentos os elementos importantes para o trabalho, mas antes é preciso fazer uma triagem na bibliografia, pois nem tudo precisará ser lido, e aí entram as resenhas, a opinião de especialistas ou o contato direto com a obra, lendo-se o sumário, o prefácio, a introdução, as “orelhas” e algumas passagens (p. 79).

Ao se partir para a leitura, vai-se dos textos mais recentes e mais gerais para os mais antigos e mais específicos, mas também se deve atentar, em se tratando da generalidade, para as condições de quem está fazendo o trabalho, como o nível em que se encontra, a dificuldade do tema e a familiaridade do autor da obra com o assunto e a área (p. 79-80). Parte-se das obras gerais (enciclopédias, dicionários, tratados etc.) para as monografias especializadas e artigos de revista. A leitura não é analítica, mas uma seleção dos elementos que apoiem o novo raciocínio em desenvolvimento (p. 80).


1.3.3. A documentação

A leitura é feita junto com a documentação dos elementos importantes que vão surgindo, ou seja, com a tomada de apontamentos que vão ajudar na realização do trabalho e constituir um primeiro rascunho dele. Não se aconselha anotar em cadernos por não ser prático (p. 80).

Os elementos válidos vão para as fichas de documentação, nas quais se põem entre aspas as citações literais e sem aspas as sínteses de ideias (p. 80-81). As fichas têm também referências que indicam a fonte e, no alto à direita, um título e um subtítulo de identificação das fichas. Elas podem registrar ainda ideias novas que vão surgindo durante a leitura (p. 81).


1.4. A construção lógica do trabalho

A construção lógica do trabalho é a coordenação inteligente de suas ideias, quando pode haver mudança no plano provisório para se construir o definitivo (p. 81-82). A ordem lógica do pensamento nem sempre coincide com a ordem de descobertas e de intuição, devendo predominar o critério de inteligibilidade do texto. Os raciocínios colhidos nas fontes ou excogitados pelo pesquisador se encadeiam logicamente para demonstrar a hipótese inicial, devendo ser o trabalho um todo inteligível e orgânico, uma unidade com sentido intrínseco e autônomo e com unidades (capítulos, parágrafos) organizados logicamente pela estrutura do discurso (p. 82).

Estrutura formal do trabalho:
1) Introdução ‒ Levanta o estado da questão, o que já foi escrito, os objetivos, relevância e interesse do trabalho, as intenções do autor; enuncia o tema, o problema, a tese e os procedimentos; encerra-se com uma justificação do plano de trabalho (p. 82-83). Ela transmite o teor da problematização do tema e a natureza do raciocínio, deve ser sintética e tratar apenas da temática intrínseca do trabalho, sendo a última parte a ser escrita (p. 83).
2) Desenvolvimento ‒ É o corpo do trabalho, estruturado segundo as necessidades do plano definitivo, com partes que não surgem pelo critério de simetria espacial, mas de logicidade e clareza, e com subtítulos portadores de sentido. Deve-se expor e provar a fundamentação lógica do tema, comparando posições que se entrechocam e partindo de verdades certas para verdades novas (p. 83).
3) Conclusão ‒ É uma síntese breve que recapitula os resultados de modo sintético e mostra o ponto de vista do autor sobre os resultados e o alcance deles (p. 83).


1.5. A redação do texto

A redação do trabalho é a expressão e comunicação literária do encadeamento lógico do pensamento. Faz-se antes de tudo um primeiro rascunho, que é todo lido, revisado e corrigido. O estilo deve ser sóbrio e preciso, importando mais a clareza do que a estética, e determinado pela natureza do raciocínio específico àquela área do saber. Só se usa terminologia técnica quando for necessário ou em trabalhos especializados, e nunca se deve gerar uma linguagem que seja hermética ou esotérica ao leitor (p. 84).


1.6. A construção do parágrafo

Os parágrafos expressam as etapas do raciocínio, cuja natureza, assim, determina o tamanho e a complexidade deles (p. 84-85). É incorreto dividir o texto em muitos parágrafos ou não dividi-lo nunca ou pouco. Eles também têm introdução, desenvolvimento e conclusão, ou podem comportar premissas e conclusão, e são articulados conforme a estrutura lógica do raciocínio, muitas vezes se iniciando por conjunções que demonstram formas de se passar de uma etapa lógica a outra (p. 85).

A parte 2 do capítulo V não foi fichada, pois seu tratamento do uso do Microsoft Word (versão 97), das normas de formatação e da padronização bibliográfica certamente está desatualizado ou pode ser consultado em fontes mais modernas.


3. Formas de trabalhos científicos

As diretrizes metodológicas tratadas acima são gerais e universais, válidas a qualquer trabalho que comunique descobertas de informações científicas (p. 128). Apesar dessa validade geral, esses trabalhos são diferentes em seus objetivos, na natureza do objeto abordado e nas exigências próprias de cada área, e abaixo estão listados aqueles geralmente pedidos nas várias fases da vida do estudante-pesquisador e aos quais se adaptam as normas mencionadas (p. 128-129).


3.1. Trabalho científico e monografia

A monografia é um tipo específico de trabalho científico, restrito a um só assunto e um só problema, tratados de uma forma determinada. Por isso, generalizar esse nome para certos trabalhos escolares é incorreto, pois o trabalho é tão monográfico quanto mais único, delimitado e aprofundado for um tema, sem qualquer implicância na extensão, generalidade ou valor didático (p. 129).

Assim, teses, dissertações e outros trabalhos que exigem pesquisa rigorosa são monografias científicas, mas desenvolvidos quase sempre na pós-graduação, diferentemente dos trabalhos de graduação e mesmo de pós-graduação componentes do processo didático, abordados neste momento (p. 129). Aos últimos devem ser aplicadas as orientações vistas até aqui, como, por exemplo, aos “trabalhos de pesquisa”, “trabalhos de aproveitamento”, relatórios, roteiros, resumos e resenhas, todos fazendo parte de um processo didático distinto da pesquisa pessoal, ampla, autônoma, rigorosa e profunda, característica das dissertações, teses e ensaios (p. 129-130).


3.2. Os trabalhos didáticos

Os trabalhos didáticos, relatórios científicos dos estudos universitários, fazem parte da escolaridade da graduação, de uma formação técnica e científica que ensina a buscar, nas fontes corretas, o conhecimento complementar ao passado no curso e a explorar o patrimônio cultural e a realidade contextual em torno do estudante. Essa ampliação do conhecimento e iniciação ao método da pesquisa e da reflexão, porém, muitas vezes são obscurecidas pelo fato de vários trabalhos, por serem mal orientados, se tornarem colagens ruins de produções alheias (p. 130).

Os trabalhos didáticospodem, conforme o nível do estudante e os objetivos do curso e da própria produção, ser mais ou menos monográficos; não exigem originalidade e geralmente recapitulam e sintetizam posições de outros textos e pesquisas, sendo qualificados, portanto, pelo bom uso do material já existente, de forma a contribuir de maneira inteligente para a aprendizagem. Entre eles se incluem os “comunicados científicos” de pesquisas de campo ou experimentais e as “memórias” de fim de curso, que retomam o conteúdo abordado num curso específico (p. 130).


3.3. O resumo de textos

O resumo ou síntese de textos é outra espécie de trabalho didático, baseado numa obra inteira ou num só capítulo que geralmente é objeto de fichamento nessa ocasião. O trabalho não é de elaboração, mas de extração de ideias e exercício de leitura, a fim de sintetizar as ideias, e não as palavras de um texto (não é sua miniaturização), o que não deve ser confundido com o resumo técnico-científico, a ser tratado na p. 173, item 5.1 (p. 131).


3.4. A resenha bibliográfica

A resenha nas revistas especializadas sintetiza e comenta livros importantes, que assim têm conhecido seu conteúdo antes que se tome a decisão de lê-los ou não, e fundamenta a atualização bibliográfica dos estudiosos, devendo fazer parte de seu arquivo de documentação bibliográfica ou geral de sua área de especialização (p. 131). A resenha é informativa se apenas expõe o conteúdo do livro, crítica se opina sobre seu valor e alcance, e crítico-informativa se faz as duas coisas (p. 131-132).

As partes lógico-redacionais da resenha são as seguintes (p. 132):
1) Um cabeçalho com os dados bibliográficos completos;
2) Uma breve informação sobre o autor, dispensável se ele for muito conhecido;
3) Uma exposição resumida do conteúdo, uma listagem objetiva dos principais pontos conforme os capítulos ou cada parte, na qual entra uma análise temática do assunto, objetivos, ideia central e etapas principais do raciocínio;
4) Um comentário crítico que assinala os aspectos positivos (qualidade científica, literária ou filosófica, originalidade etc.) e/ou negativos (falhas, incoerências, limitações etc., sem atacar a pessoa ou as condições de existência do autor, mas apenas suas ideias e posições), geralmente feito ao final ou difuso na resenha (expõe e comenta ao mesmo tempo).

É interessante, da mesma forma, contextuar a obra dentro do pensamento geral do autor e das condições gerais da área abrangida no tempo da produção (p. 132).

O capítulo VI também não foi fichado, por tratar da “Internet como fonte de pesquisa” de uma forma que hoje está bastante obsoleta e incompleta.



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