terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Como Zamenhof criou o esperanto?


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Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Trata-se de dois textos escritos originalmente em esperanto pelo brasileiro Antônio Luís Lourenço dos Santos, pelo qual ele descreve o material usado por Zamenhof pra criar aquela língua, quais sejam as origens etimológicas do vocabulário e o conhecimento linguístico do médico. Seus títulos em português são “Origem e internacionalidade do esperanto” (escrito e publicado em 1989 pela revista Brazila Esperantisto) e “Conhecimento linguístico de Zamenhof”. Eu os traduzi em português e dei o novo título “Como Zamenhof criou o esperanto?”. Seguem abaixo uma pequena introdução em esperanto e a tradução dos dois textos, com a ortografia e a redação atualizadas!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Temas pri du tekstoj verkitaj originale en Esperanto de la brazilano Antônio Luís Lourenço dos Santos, per kiuj li prisrkibas la materialon uzatan de Zamenhof por krei tiun lingvon, nome la etimologiajn devenojn de la vortaro kaj la lingvoscion de la kuracisto. Iliaj titoloj estas “Deveno kaj internacieco de Esperanto” (verkita kaj publikigita en 1989 de la revuo Brazila Esperantisto) kaj “Lingvoscio de Zamenhof”. Mi tradukis ilin al la portugala lingvo kaj donis la novan titolon “Kiel Zamenhof kreis Esperanton?”. Ĉi-sube vi povas legi miajn du tradukojn al la portugala, nur kun etaj ĝisdatigoj en la ortografio kaj la redaktostilo:



1. Origem e internacionalidade do esperanto

Introdução – Muitos esperantistas, principalmente iniciantes, têm curiosidade em saber como Zamenhof criou o esperanto. A curiosidade não é sobre a história em si da língua, que é muito bem divulgada, mas a origem internacional, ou, em outras palavras, de que línguas vêm a gramática, os afixos, os radicais, os correlativos e outros aspectos linguísticos.

Os esperantistas sabem bem que Zamenhof era um homem genial que dominava muito bem muitas línguas naturais, como o russo (sua língua materna), o alemão, o hebraico, o ídiche (judeu-alemão), o polonês, o francês, o latim e o grego. Além disso, ele sabia um pouco do inglês e do aramaico. Zamenhof usou esse vasto conhecimento pra criar o esperanto. Todavia, dois aspectos então o deixavam com medo: gramática e grandes vocabulários. Investigando a literatura esperantista, encontram-se várias informações dignas de conhecimento, que, embora incompletas, nos dão muitas explicações. Pode-se resumi-las no seguinte:

Gramática – L. L. Zamenhof sabia muito bem o hebraico e, por isso, uma parte importante da gramática vem dessa língua. Os conhecimentos de hebraico foram muito úteis ao Doutor Zamenhof: ele aproveitou muito mais do que externamente parece pra simplificar a língua conforme os moldes hebraicos. Pro vocabulário, o hebraico não pôde ajudar de forma alguma, pois seus radicais não são internacionais; mas a gramática hebraica deu uma enorme inspiração a Zamenhof. Mencionemos somente alguns pontos:

  1. O hebraico não tem artigo indefinido e tem somente um único artigo definido imutável, tal como no esperanto.
  2. No hebraico não há ditongos, pois as letras “ŭ” (ŭo; pronuncia-se “uô”) e “j” (jo; pronuncia-se “iô”) são consoantes, tal como no esperanto.
  3. O hebraico não possui o modo subjuntivo, e o esperanto também não.
  4. Tal como o hebraico, o esperanto também não possui formas especiais simples pra distinguir perfeito e imperfeito nos verbos.
  5. O hebraico e o esperanto só possuem os casos nominativo e acusativo.
  6. A terminação “u” pro imperativo é hebraica e árabe, e não uma invenção caprichosa de Zamenhof.
  7. Tal como no esperanto, o vocabulário hebraico é disposto conforme os radicais. (1)

Entre as experiências do autor do esperanto, houve também a que tratava da necessidade de um “Fundamento Intocável”, que no hebraico é a “Bíblia”, na qual ninguém tem o direito de mudar ou corrigir coisa alguma; nunca se corrige nem o erro mais evidente na língua hebraica. Somente se menciona na borda da página como se deve ler corretamente a palavra errada, mas esta permanece e é eternamente copiada ou representada sem mudanças. Essa intocabilidade do texto modelar eternizou a unidade da língua hebraica através do mundo. Zamenhof criou o “Fundamento Intocável” pro esperanto, e ainda traduziu a Bíblia, que, para muitas pessoas, ainda é um modelo imutável. Certamente a língua vai crescer no uso moderno, todavia, sempre vão se respeitar os modelos intocáveis. Pra nós, esses modelos são o Fundamento do Esperanto, a Crestomatia Fundamental (2) e outras obras de nosso genial mestre.

Esses princípios experimentados no hebraico através de milênios de vivência consideravelmente simplificaram e facilitaram a gramática do esperanto; mas o aspecto externo da língua, aparentemente, é totalmente ocidental, pois os radicais, afixos e terminações gramaticais internacionais são ocidentais. Dizemos “aparentemente”, pois a aglutinação (3) em esperanto também não é ocidental, mas oriental.

Outros pontos gramaticais consideráveis são os seis particípios e a conjunção kaj (e), que Zamenhof tirou do grego, e as formas unidas de uma preposição com o artigo, que se baseiam no italiano, como, por exemplo, ĉe l’ (em casa de), tra l’ (através de), de l’ (de).

Em relação à terminação substantiva “o” e à plural “j”, o sr. N. Z. Majmon forneceu uma suposição muito interessante aos estudos esperantológicos. No perfeito livro de estudos de Gaston Waringhien, Língua e Vida – Ensaios Esperantológicos, o sr. Majmon defende a hipótese de que Zamenhof poderia ter fornecido o final substantivo em esperanto “o” e o plural “j” conforme o modelo do aramaico. Teria eleito Zamenhof, conforme esse modelo, a terminação substantiva singular “o” e a plural “oj”? Seria mais lógico supor que, destinando o esperanto primeiramente ao público europeu, Zamenhof retirou a terminação “o” do italiano (uomo = homo = homem, amico = amiko = amigo, angelo = anĝelo = anjo) ou do espenhol (canto = kanto, estilo = stilo, mano = mano = mão). Todavia, pode ser que inconscientemente justamente a terminação aramaica “o” pra muitos substantivos, com seu “j” no plural, fixando-se na memória subconsciente do mestre durante sua tenra juventude, passando pelos modelos italiano e espanhol, tenha ditado ao mestre sua decisão. Seja assim, seja de outra forma, mas a hipótese do sr. Majmon sem dúvida nos salta aos olhos.

Afixos – Com relação aos grandes vocabulários, o problema foi resolvido ao acaso. O próprio Zamenhof conta esse acontecimento em uma carta de 1895 ao sr. Nikolai Afrikanovich Borovko:

Certa vez, quando estava na 6.ª ou 7.ª série do ginásio, desviei minha atenção por acaso à inscrição “shveytsarskaya” (portaria), que eu já vi muitas vezes, e depois a tabuleta “konditorskaya” (doceria). Esse “skaya” me despertou interesse, e mostrei a mim mesmo que os sufixos dão a possibilidade de, a partir de uma palavra, fazer outras que não precisam ser decoradas separadamente. Este pensamento me possuiu por inteiro, e subitamente senti a terra sob os pés. Sobre os terríveis vocabulários gigantescos caiu um raio de luz, e eles começaram a encolher rapidamente diante de meus olhos. “O problema está resolvido!” – então eu disse. Captei a ideia dos sufixos e comecei a trabalhar muito nesta direção. Compreendi que grande significado pode ter para a língua conscientemente criada o pleno uso dessa força que em línguas naturais funciona só em parte, cegamente e de forma vazia.

Em línguas nacionais, há afixos que frequentemente têm significados diferentes, e, do contrário, também existem vários afixos que expressam a mesma ideia; então, das muitas línguas que Zamenhof sabia, ele pegou seus afixos pra economizar ao aprendiz a aquisição de muitas palavras à parte. Ele escolheu os afixos que têm similares em muitas línguas diversas, facilitando assim a memorização de palavras pra diversos povos. Sobre a etimologia dos afixos, observemos a lista abaixo, não esquecendo que alguns afixos foram processados por Zamenhof e outros foram oficializados pela Academia de Esperanto:

a) Do francês: bo - ad - aĵ - on.
b) Do alemão: ge - mis - ej - em - er - ig - in - ing.
c) Do russo: pra - ar - ĉj - eg - il - nj.
d) Do latim: dis - mal - re - an - ind - ist - ul - um - fi - end.
e) Do grego: ek - id - ism.
f) Do inglês: ebl.
g) Do italiano: aĉ - ec - estr.
h) Das línguas românicas: eks - et.
i) Das línguas eslavas: uj.
j) O sufixo “iĝ”, usado pra ideia de “tornar-se”, aproxima-se de um sufixo italiano, embora isso seja mera coincidência.
k) O sufixo “obl” é composto pela vogal alemã “o” e pelas consoantes “bl” do inglês (doppelt = double = duobla = duplo).
l) O sufixo “op” é uma inversão da preposição distributiva “po”, que em esperanto tem o mesmo significado da equivalente russa. No Plena Ilustrita Vortaro (Dicionário Ilustrado Completo), encontramos um exemplo dela: Ili marŝis po kvar en vicoj = Ili marŝis kvarope en vicoj (Eles marcharam em filas de quatro).

Ainda lembremos, algumas vezes, que embora um sufixo ou outro venha de uma língua definida, pode-se encontrar esse mesmo afixo em várias outras línguas.

Tabela dos correlativos – Também é mencionável a origem da “tabela dos correlativos”. Zamenhof não a inventou arbitrariamente, e seus elementos não foram escolhidos ao acaso. Há tabelas incompletas em línguas eslavas, como, por exemplo, no búlgaro, no russo, no letão, no lituano, no checo, no sérvio e no eslovaco. Zamenhof as estudou e processou logicamente. Vejamos abaixo:

  • “I” – a letra inicial “i” vem do alemão irgendein (de alguma forma), irgendeiner (alguém).
  • “Ĉ” – poderia bem ser do polonês wszyscy (todos).
    “ES” – a terminação “es” concorda com o genitivo do alemão wessen (de quem?), des, dessen (dessa pessoa).
  • “IE” – a terminação “ie” faz lembrar o polonês gdzie (onde?), nigdzie (em nenhum lugar).
  • “K” – a letra inicial “k” corresponde à palavra interrogativa kia (como? de que tipo?).
  • “T” – a letra inicial “t” corresponde à palavra demonstrativa tia (desse tipo).
  • “NEN” – negativa “nen”.

Estas três últimas (K, T, NEN) são comuns a muitas línguas, como o búlgaro, o português, o russo, o italiano, o lituano, o esloveno, o checo, o croata, o letão, o sérvio, o espanhol, o romanche (ou rético), o francês, o polonês e o eslovaco.

Conclusão – De tudo dito acima, podem-se ver diversos aspectos da origem das palavras em esperanto, e principalmente a genialidade de nosso caro e memorável Mestre Zamenhof, que não foi somente um homem genial, mas também possuiu desde a juventude saberes que vários linguistas nunca adquirem sobre a existência e a estrutura de línguas que funcionam internacionalmente; por isso, ele criou nossa admirável língua com perfeita segurança, conforme modelos vivos, e nossa língua internacional viva já se tornou centenária (atualmente com 112 anos).


2. Conhecimento linguístico de Zamenhof

Nosso caro Mestre Zamenhof, o criador do esperanto, tinha ótimos conhecimentos linguísticos que podemos constatar pela compilação abaixo:

Ídiche – Zamenhof sabia bem o ídiche. A primeira língua do menino Lázaro foi um jargão que ele aprendeu de sua mãe, Liba, do bairro em que ele nasceu e na escola hebraica elementar.

Alemão – Zamenhof sabia perfeitamente o alemão. De sua mãe, Liba, ele o aprendeu. Ele estudou o alemão no Ginásio Real de Białystok (três anos), no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia (cinco anos) e na Universidade de Moscou (um ano).

Russo – Zamenhof sabia bem o russo, pois era sua língua materna. Em carta de 8 de março de 1906 a Th. Thorsteinsson, Zamenhof diz: “Minha língua materna é a russa”. O prof. G. Waringhien, em seu estudo sobre Lázaro Zamenhof, publicado em Esperanto, n. 649, de dezembro de 1959, diz: “Zamenhof sempre enxergou o russo como sua língua materna [...] e sentia a Lituânia como sua pátria”. Em carta de 21 de fevereiro de 1905 a A. Michaux, Zamenhof conta: “A língua materna sempre foi para mim o objeto mais querido do mundo. Sempre amei mais essa língua, na qual fui educado, isto é [...] a língua russa; eu a aprendi com o maior prazer; já sonhei em tornar-me um grande poeta russo. Também aprendi com prazer diversas outras línguas, mas elas me interessavam mais na teoria do que na prática [...] Em minha infância muito amei de paixão a língua russa e todo o reino russo; mas logo me convenci de que pagam meu amor com ódio”.

Hebraico – Zamenhof sabia muito bem o hebraico. Em escolas judaicas, a língua hebraica era obrigatoriamente ensinada aos garotos. Zamenhof frequentava a escola elementar hebraica e aprendia o hebraico. Marcos, pai de nosso mestre, foi um ótimo hebraísta, ensinou o hebraico a seu filho e, por isso, Zamenhof o aprendeu a fundo.

Francês – Zamenhof sabia bem o francês. Ele o aprendeu de sua mãe, Liba. Seu pai, na escola estatal de ensino médio, ensinava geografia e línguas modernas, e ajudou seu filho a aprender o francês. Ele estudou francês no Ginásio Real de Białystok e no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia.

Polonês – Zamenhof sabia bem o polonês. Ele o aprendeu já em Białystok, na Rússia (hoje Polônia). Em carta de 21 de fevereiro de 1905, ele revelou a A. Michaux que falava fluentemente em polonês. Com seus familiares, Zamenhof falava o russo, a língua do Estado, pois Varsóvia pertencia à Rússia. Só quando havia um visitante polonês, Zamenhof, por gentileza, usava o polonês. Por isso, os visitantes poloneses na casa de Zamenhof ouviam a língua polonesa.

Latim – Zamenhof sabia bem o latim. Em dezembro de 1873, Zamenhof se mudou pra Varsóvia e começou a aprender latim sozinho. De agosto de 1874 até junho de 1879, ele o estudou no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia. Numa entrevista de agosto de 1907, Zamenhof contou que, na universidade, ele dedicou atenção especial à língua latina.

Grego – Zamenhof sabia muito bem o grego. Em dezembro de 1873, Zamenhof começou a aprendê-lo por conta própria. Ele também o estudou no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia. Apesar de Zamenhof ter boas notas principalmente em grego, ele não se julgou competente o suficiente pra fazer uma tradução do Novo Testamento da língua grega. No prefácio a Gênesis – Primeiro livro de Moisés, Zamenhof conta: “Há tempos atrás já pensava em começar uma tradução sistemática da Bíblia. Deixando o Novo Testamento a outros tradutores mais competentes, escolhi o Antigo Testamento”.

Inglês – Zamenhof lia a língua inglesa. Em carta de 1895 a N. Borovko, Zamenhof diz: “Estando na 5.ª série do ginásio, comecei a aprender inglês”. Em carta de novembro de 1902 a E. A. Lawrence, Zamenhof escreve: “Perdoe por lhe escrever em esperanto, pois domino muito pouco a língua inglesa”.

Italiano – Não há indícios diretos de que Zamenhof soubesse italiano. No artigo “Essência e Futuro da Ideia de uma Língua Internacional”, escrito em 1899, Zamenhof diz:

No que consiste a superioridade do esperanto diante do volapuque (4), é claro que não podemos analisar aqui em todos os detalhes; como exemplo, mostrarei que, enquanto o volapuque soa muito selvagem e indelicado, o esperanto é cheio de harmonia e estética, e por si faz-nos lembrar do italiano.

No artigo “Esperanto: A New International Language”, publicado em The Independent, Nova York, agosto de 1904, Zamenhof, entre outras coisas, escreve: “Apesar de sua construção puramente matemática, todavia, o esperanto agrada aos ouvidos. Sua sonoridade é muito parecida com a do italiano”. A língua italiana é reconhecida como a que soa mais belamente. Exemplos citados acima nos fazem crer que Zamenhof estudou italiano.

Outras línguas – Zamenhof conhecia vários outros idiomas, não como um especialista profissional. Entre eles estão: espanhol, holandês, mordoviano, (5) lituano, árabe, norueguês, dinamarquês, islandês e aramaico. Dessas línguas ele pegou muitas palavras, afixos e a gramática.


Notas (clique pra voltar ao texto)

(1) Por exemplo: a palavra pano (pão) vem antes da palavra paneo (pane, falência), pois o radical da primeira (pan-) é alfabeticamente anterior ao da segunda (pane-).

(2) Crestomatia Fundamental é uma grande coletânea das obras de Zamenhof unidas numa só coleção, que tratam em especial do esperanto.

(3) Fenômeno muito comum em línguas como o húngaro, o alemão e o turco, em que podemos formar infinitas palavras por meio da simples junção de radicais, afixos etc. Exemplos: sukero (açúcar) + kano (cana) = sukerkano (cana de açúcar).

(4) ”Volapuque” (ou volapük = vol, mundo + pük, fala) foi um idioma inventado em 1879 pelo alemão Johann Martin (João Martinho) Schleyer com a mesma finalidade do esperanto, obtendo um certo sucesso até a criação do idioma de Zamenhof, quando muitos clubes volapuquistas começaram a usá-lo.

(5) Refazendo esta nota em 2024, ressalto que o então chamado “mordoviano” (ou mordovínico) era considerado um idioma do grupo fino-úgrico (o mesmo do finlandês e do húngaro) da família urálica de línguas do mundo, nativo da atual República da Mordóvia, na Rússia. Porém, novas classificações falam num ramo “mordoviano” ou “mordovínico” dentro do grupo fino-úgrico, em que se encaixariam dois idiomas, muito pouco falados e não inteligíveis entre si: o moksha e o erzia (ou erzya).

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

ANISTIA É O CAZZO!!!












Por décadas, defendeu a tortura, defendeu uma “guerra civil que matasse 30 mil”, desprezou as famílias dos desaparecidos políticos (“Quem procura osso é cachorro”), elogiou Augusto Pinochet e Alfredo Stroessner, sugeriu “fuzilar a petralhada do Acre”, banalizou o crime de estupro, promoveu a misoginia e o ódio a grupos historicamente discriminados, deixou a pandemia correr solta pra matar o máximo de trabalhadores, planejou um golpe de Estado da forma mais descarada, e a lista tá longe de ser exaustiva.

Mas hoje, chorando na Avenida Paulista e rodeado pelo chorume da escumalha do restolho do milho de cocô daquilo que chamam de “política brasileira”, o Bunda Suja quer anistia! (A referência explícita é aos golpistas do 8 de Janeiro, mas subentende-se que também é pra ele e seus cúmplices mais próximos...)

Pra bom descendente de italiano, que ele também é, mezza parola basta. Portanto, pra evitar o baixo calão num espaço tão digno, ANISTIA É O CAZZO!!! Todo mundo que colaborou com os crimes dos Bolsonaro nestes últimos cinco anos ou mais deve pagar definitivamente, pra que não tenhamos novos 1930, 1937, 1955, 1964, 2016 ou 8 de Janeiro! Haja Hemovirtus pra tanta hemorroida, kkkkk!


domingo, 25 de fevereiro de 2024

Se as cédulas tivessem desenhos...


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Na Índia e no Paquistão, e acredito que em outros países vizinhos, as enormes células de papel pras eleições locais, regionais e nacionais não se contentam em ter os nomes dos partidos e dos candidatos. Quem já leu ou assistiu algo sobre a região, deve ter notado que se imprimem também alguns desenhinhos, em sua maioria com um estilo que consideraríamos de cartilhas infantis de alfabetização, nem sempre com qualquer relação a assuntos eleitorais ou mesmo à ideologia pela qual se deseja votar.

Segundo a Wikipédia em inglês, essas figurinhas se chamam “símbolos eleitorais” e existem porque nesses países, sobretudo Índia e Paquistão, o índice de analfabetismo ainda é bastante alto. Por isso, se não sabem ler os nomes dos partidos e dos candidatos, os eleitores podem associar um desenho (seja um sino, um gato ou mesmo um pneu de carro) a cada um deles, geralmente os conhecendo nas propagandas eleitorais. No Paquistão, por exemplo, esses símbolos (aqui no PDF, há os nomes dos partidos e os nomes dos símbolos, tudo em inglês) são alvo de toda uma deliberação oficial e definidos rigidamente numa longa lista.



Essa sim, é uma escolha difícil, né, Estadão?


Ainda segundo a Wikipédia, os números atribuídos aos partidos brasileiros também são considerados “símbolos eleitorais” que podem facilitar a votação por quem não sabe ou sabe pouco ler ou escrever, e eu diria, quem enxerga mal também. Quando o multipartidarismo voltou ao Brasil, no início da década de 1980, os partidos então existentes receberam algarismos simples: 1 era o PDS (ex-ARENA, partido da ditadura), 2 era o PDT, 3 era o PT, 4 era o PTB (hoje extinto) e 5 era o PMDB (hoje MDB). Porém, com a multiplicação de legendas, precisaram-se de dois algarismos, e nos casos citados, apenas se acrescentou um 1 inicial que segue até hoje: 11 (hoje ligado aos Progressistas), 12, 13, 14, 15...

Atualmente, a existência de números também facilitou o trabalho com as urnas eletrônicas, tecnologia quase única no mundo, que acrescentou ainda as fotos (hoje coloridas!) dos bandidos candidatos, letras bem grandes e teclas em Braille. Porém, como os bolsominions continuam acreditando que deveríamos voltar aos tempos das cédulas, ou pelo menos acrescentar a impressão do voto eletrônico (o que, além de um desperdício, é uma violação do princípio do voto secreto, a não ser que você engula ou enrabe o recibo!), trago aqui uma sugestão. Temendo ferir sensibilidades, podíamos também acrescentar os seguintes desenhos nas cédulas brasileiras, com personalidades do passado e do presente, caso seguíssemos o moderníssimo sistema hindustâni:


Lembrando que essas são as personalidades mais antigas e conhecidas, e certamente não pode ser exaustiva porque não inclui vários políticos mais ou menos jovens de primeiro mandato. Se você tiver sugestões, pode me escrever, pois dependendo do número de figuras, pode surgir toda uma cédula nova. Eu mesmo tive algumas ideias que decidi deixar de fora pra não ficar longo demais, mas resolvi não as externar no momento, rs!


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Kiu pravas? Ateisto aŭ B. de Menezes?


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Desculpe por eu ter escrito este texto diretamente em esperanto, mas assim que possível vou providenciar uma tradução. Ĉi tiu juna brazila virino havas Jutub-kanalon, en kiu ŝi komentas la librojn pri spiritismo (doktrino de franca deveno, sed tre populara en Brazilo, pri kiu ĝiaj adeptoj diras esti samtempe “scienco, filozofio kaj religio”), kiujn ŝi ĝuste legis, kaj klopodas disvastigi la spiritan doktrinon inter sia publiko. La 11-an de februaro ŝi alŝutis videon pri iu prelego farita de la brazila kuracisto Bezerra de Menezes (1831-1900), unu el la pioniroj de la spiritismo en lia lando, post kiu unu materialista amiko de la viro rifuzis sin kredi je la doktrino. Bedaŭrinde mi ne havas la tempon traduki ŝian videon, sed se vi komprenas la portugalan, rigardu ĝin kaj legu mian respondon, kiun mi sendis al ŝi per retmesaĝo:



Saluton, karega Ĵesika! Kiel vi fartas? Mi esperas, ke vi tre agrable profitas la tempon de Karnavalo per via legado ;)

Mi rigardis vian ĝuigan videon pri la materialisto kaj Bezerra de Menezes. Mi tre ŝatis la historion kaj la manieron, kiel vi ĝin rakontas: vi parolas tre bone kaj via voĉo estas dolĉa! Ŝajnas, ke Menezes estis tre bonkora homo kaj li ne havis alian vivplanon, ol helpi la personojn.

Tamen, kelkaj ideoj venis en mian kapon tiel, ke mi ne scias, ĉu la argumento de Menezes estas tute fidebla:

1) La “materialismo” ne estas doktrino, religio aŭ eĉ vivomaniero: ŝajnas, ke ĉe Menezes ankoraŭ alvenis la konfuzon inter la sciencaj metodoj, kiuj forigas transcendajn hipotezojn por ekspliki la mondon kaj la vivmaniero de iuj, al kiuj gravas nur “materiaj” aferoj (mono, plezuroj, amuzadoj ktp.).

2) Se tiu ne estis la kazo, oni ne povas meti ĉiujn materialistajn pensulojn en la saman sakon: estas diversaj mondrigardoj, kiuj adoptas materialismajn metodojn, sed ne eklaboras el la samaj precipoj. Ekz. oni povas preni la ekonomion, la kulturon, la politkon ktp. kiel precipon por ekspliki la societojn, sed tutegale esti materialisma.

3) Mi timas, ke Menezes erare intermiksis 3 malsamajn aferojn: ekspliko pri la mondo, malpezigo de la homaj suferoj kaj solvo de konkretaj problemoj. Ŝajnas, ke Menezes ne konsideris, ke malpezigi suferojn ne ebligas la solvon de problemoj. Kaj ĉe multaj materialistoj la punkto estas ĝuste ĉi tiu: la mondo estas vere malbela, suferiga, kaj oni devas lerni vivi kun tiaj aspektoj por tiam eltiri fortojn por scii solvi niajn problemojn.

La sciencoj kaj iliaj metodoj ne celas esti “belaj” aŭ “malpezigaj”, sed kiel eble pli precizaj kaj kapablaj solvi konkretajn problemojn. Unu afero estas tio, ĉu la “materialismo” (ŝajne estus pli ĝuste, ke Menezes diru la “scienca metodo”) solvas aŭ ne konkretajn problemojn; alia afero estas tio, ĉu la spiritistoj nomataj de la amiko de Menezes estis aŭ ne trompuloj. Kaj la demando estas simpla: aŭ ili estis trompuloj, aŭ ne. La rakonto pri la konkretaj kazoj ne estas prezentita. Do, oni ne povas konkludi, ĉu Menezes ĝuste defendis tiujn spiritistojn, aŭ ĉu lia amiko povis trafe refuti Menezes-on.

Ĉiuj religiaj kredoj estas respektindaj, ĉar ili klopodas kunigi la personojn ĉirkaŭ komunaj valoroj kaj komunuma sento. Sed laŭ mia opinio, Menezes prezentas ekzistecajn problemojn per iom stranga rakonto: ĉu li pretendas, ke la sciencoj (la “materialismo”) ne povas solvigi ĉiujn problemojn, kaj tiel ignoras, ke la scienca konaĵaro estas senfine kreskanta kolekto? Ĉu li akuzas la sciencojn ne solvi la spiritajn problemojn de la personoj, kaj tiel li ignoras, ke la celo de la sciencoj ne estas la “belo”, sed la precizo kaj la versimilon, ĝuste por solvi la konkretajn problemojn, kiuj plej eble kaŭzas tiujn spiritajn problemojn al la homoj? Aŭ ĉu li ne komprenas la veran esencon de la aserto de sia amiko, nome la spiritisma doktrino, almenaŭ juĝante per la eblaj nenomataj trompuloj, povas esti nekorekta; do, ĝi ne solvus la homajn problemojn, sed faras la homojn forgesi pri ili iomtempe?

Ĉi tiuj ne estas fieremaj asertoj, sed vere instigantaj pensadoj, kiuj al mi venis, kiam mi rigardis vian belan videon. Mi ne petas, ke vi respondu ĉiun el ili, sed nur meditu pri ili, por ke ili servu kiel daŭrigilo de nia kontakto ;) Dankon pro via atenteco, kaj pacon!



quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

HÁ 10 ANOS, ESTE COVARDE FUGIA


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/bezerra


... de um povo revoltado com a insistência do presidente em ser um vassalo da ditadura terrorista de Vladimir Putin e com os mais de 100 manifestantes mortos no movimento conhecido como “Euromaidan”. A desinformação do Kremlin, claro, conseguiu implantar mesmo na cabeça de alguns jovens brasileiros “de esquerda”, que ainda eram crianças na época, que o levante foi “um golpe manipulado pelos EUA e liderado por neonazistas” (como se na Rússia não tivesse muito mais neonazis do que na Ucrânia!).

Hoje, alguns radicalizados que se dizem “defensores dos palestinos” inventaram que o mundo dá mais importância pros mortos ucranianos do que pras vítimas do Hamas e do Tsahal (na verdade, na mídia hegemônica hoje é totalmente o contrário), como se crimes de guerra não fossem crimes de guerra em qualquer lugar, e como se fosse Zelensky quem tivesse começado atacando a Rússia. Acontece que tanto a Geórgia desde 2003 (quando o povo derrubou sua kremlinete Eduard Shevardnadze) quanto a Ucrânia desde 2014 avançaram monstruosamente no combate à corrupção, embora muito ainda precise ser feito, e hoje seu IDH é maior do que o do próprio Brasil, o que antes não era o caso. Não é ser colonizado por Moscou, menos ainda enquanto o ex-agente paranoico do KGB continuar no poder, que vai tornar o mundo melhor!

P.S. A título de ilustração humorística, me lembro de ter visto na TV e na internet que essa “tela” de Víktor Ianukóvych circulou nas manifestações em fevereiro de 2014, rs. Na época, diziam que ela tinha sido roubada pelo povo da residência presidencial (na verdade, um palácio nababesco) de Mezhyhíria, um pouco ao norte de Kyiv e que fora um monastério transformado em residência estatal pelos bolcheviques. Com a fuga do ex-presidente, manifestantes invadiram a casa, hoje um “Museu da Corrupção” aberto ao público, mas pouco visitado, e tiraram fotos e selfies com as centenas de objetos valiosos dentro da casa e nos jardins.

Essa moça andou com a “obra” nas manifestações do Euromaidan, mas na verdade se trata de uma criação dela mesma, sem relação com Ianukovych ou a casa, a artista ucraniana Ólga Oléinik, que dizia ter começado há tempos o projeto, de gosto duvidoso, de pintar presidentes pelados (sem modelos vivos, até onde eu saiba!), mas só o revelou depois da insurreição. Ela disse que planejava fazer também um de Poroshénko, presidente que assumiu em junho de 2014, e além do de Ianukovych ela fez junto um de Putin (recomendo que não procurem!!!), divulgado depois da fama súbita. Aí vai mais um exemplar, pro prazer do público, rs:



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Perguntas/respostas sobre esperanto


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Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Seu nome é “Perguntas e respostas sobre o esperanto”, e certamente não é um tom nem um conteúdo que eu externaria atualmente. Mesmo assim, pra fins de registro e memória, decidi o rever, reeditar, corrigir, atualizar e publicar aqui, pois mesmo que eu não seja mais um grande propagandista, acho muito interessantes algumas das ideias que expus aqui:



Até aqui, muitos conceitos e explicações foram apresentados sobre o esperanto, mas não pude deixar de criar uma seção que julguei importante: uma lista das mais frequentes perguntas e suas respostas (ou, como muitos chamam, FAQ – “Frequently Asked Questions” ou “Perguntas Frequentemente Feitas” ou, a título de curiosidade, em esperanto, ODD – “Ofte Demandataj Demandoj”) indagadas por pessoas que pouco ou nunca tiveram contato com esse projeto de idioma internacional. A ideia me veio à cabeça quando muitos colegas de minha escola e outros conhecidos me perguntavam o que é o esperanto, por que ele é parecido com tal idioma, quem o criou, quando ele foi criado e outras perguntas que qualquer pessoa pode fazer a você. Por isso, meu objetivo é não só dar dicas de resposta pra tais perguntas, mas sintetizar boa parte de tudo o que já expressei anteriormente, mas agora de uma forma clara e direta. Se alguém lhe perguntar sobre o esperanto, jamais se embarace! Orgulhe-se de mostrar que você apoia uma solução democrática e fácil pra resolução dos problemas causados pelas barreiras linguísticas!

1) Afinal, o que é o ESPERANTO?
O esperanto é um idioma artificial criado pra ser usado entre pessoas que falam idiomas diferentes, sem que um seja obrigado a saber o idioma do outro, colocando os dois falantes num mesmo nível de comunicação ao minar a dominação de uma determinada língua (um exemplo clássico é quando um turista americano vem ao Brasil: é mais frequente que tentemos falar o inglês ou que ele tente falar o português?).

Um idioma que desempenha tal função é chamado de “idioma internacional”, ou “língua-ponte”, e deve ser neutro, ou seja, não ser ligado a nenhum país ou cultura nem ter elementos de apenas uma ou algumas línguas ou grupos de línguas, para possibilitar essa igualdade de comunicação entre seus usuários. Muitas vezes se lê o termo esperantista, e muitas conotações são dadas a ele, entre práticas e até políticas (como em “comunista”, “nazista” etc.). Prefiro interpretar o termo como “aquele que fala e trabalha em prol do esperanto” (ou seja, não interpretar como “membro de uma filosofia”, mas como “profissional” ou “trabalhador”, como em “maquinista”, “frentista” etc.), não precisando ser aplicado a todos os falantes, que podem usá-lo desde a simples finalidade prática, até trabalhar ativamente dentro do movimento esperantista.

2) Ah, é o “idioma da paz”, né? Mas por que ele é chamado assim?
Muitos conflitos no mundo são causados pelas diferenças culturais, ou seja, ou um povo não tolera os costumes do outro simplesmente porque são diferentes dos seus, ou um povo domina o outro através da potência militar (como no passado) ou da potência midiática e econômica (como ocorre hoje) e a ele impõe sua cultura. Na cultura, está embutida a língua, que também se impõe sobre um povo dominado ou acaba sendo usada em conferências e outros eventos e encontros internacionais, favorecendo apenas o povo que a usa. A imposição de um ou mais idiomas a nível internacional como línguas-ponte acaba apenas acirrando a disputa pela hegemonia cultural dos países, gerando uma discórdia sem fim.

Com o esperanto, nenhum povo ou língua é exclusivamente favorecido, colocando todos os povos no mesmo nível de igualdade de comunicação, o que acontece quando eles se reúnem num plano neutro pra resolver seus problemas. Quando essas disputas culturais por favorecimento internacional acabarem ou forem amenizadas, com certeza isso será um grande passo pro entendimento entre as nações. É claro que muitos falam: “O esperanto não é suficiente pra pacificar o mundo!” É claro que não, mas é um eficaz instrumento pra alcançarmos esse sonho, pois coloca os interlocutores em pé de igualdade, o que é um caminho pro despertar da disposição de todos pra se reunirem e resolverem os problemas do mundo, a começar pelos conflitos culturais! Portanto, um título mais justo pro esperanto seria “a língua da igualdade”.

3) Quando foi criado o esperanto? Quem o criou? Por que ele tem esse nome?
O esperanto foi criado pelo oftalmologista judeu-polonês Ludwig Lejzer (Luís Lázaro ou, em esperanto, Ludoviko Lazaro) Zamenhof, que sabia muitas línguas e a partir delas criou pelo menos dois protótipos (“Lingwe Uniwersala” e “Pra-Esperanto”) antes de chegar ao projeto final, testando diálogos e traduzindo muitas obras antes de divulgá-lo publicamente. A data considerada como o “aniversário” do esperanto é 26 de julho de 1887, quando Zamenhof, com a ajuda do sogro, consegue publicar o Primeiro Livro da Língua Internacional (posteriormente, surge ainda o Segundo Livro, como complemento ao primeiro), que contém gramática básica, vocabulário, textos e exercícios.

Até certo tempo, o esperanto não tinha nome; no Primeiro Livro, Zamenhof ainda não usou seu nome como autor do livro, mas usou o pseudônimo “Doutor Esperanto” (esperanto, na própria língua, significa “aquele que tem esperança”). Algumas pessoas começaram a chamar o idioma de “a língua do Doutor Esperanto”, mas as outras palavras foram caindo até que se chamasse o idioma simplesmente de “Esperanto”. Uma curiosidade: Zamenhof gostava de dizer que ele não era o “criador”, mas o “iniciador” do esperanto.

4) Quantas pessoas no mundo falam o esperanto? Onde ele é falado?
Nunca se chegou a um número preciso sobre seu número de falantes, pois muitas pessoas aprendem o esperanto não só por escolas, mas sozinhas, por meio de cursos por correspondência ou outros métodos autodidáticos [em 2024, por aplicativos como o Duolingo e sites como o Lernu, por exemplo]. Eu mesmo vi num livro o nome “esperanto” pela primeira vez, fui pesquisar na Enciclopédia Barsa pra ver de que língua se tratava, tomei conhecimento de sua estrutura e vasculhei na internet cursos de esperanto pra ter noções básicas e, mais posteriormente, aperfeiçoar-me nos níveis médio e avançado, além de comprar alguns livros e dicionários; resumindo: aprendi sozinho. Enfim, devido à falta de um padrão pra catalogação dos falantes do esperanto e da dispersão dos usuários, os números são calculados usando estimativas de congressos, clubes etc. É comprovado que bem mais de 1 milhão de falantes já usam o idioma de Zamenhof, desde as noções básicas até o emprego em meios técnicos; isso é um dado muito relevante, pois muitos idiomas étnicos (ou seja, falados por minorias étnicas) nem chegam a isso, sendo por isso condenados à extinção (eis também um motivo pelo qual o esperanto pode ser usado pra proteger a memória dessas línguas).

A partir daí, os dados variam muito, com especulações sobre até 10 milhões de falantes, ainda que muitos considerem isso um exagero. Um site [Ethnologue? Omniglot?] diz que o número de falantes varia entre 100 mil (que seria muito pouco) e 3 milhões. Quanto ao lugar onde ele é falado, lembremos que ele não pertence a nenhum grupo étnico nem a país algum, e por isso não pode ser associado a nenhuma região, em especial. Mas em se tratando de locais onde ele é praticado, podemos encontrar esperantistas em todos os continentes (pelo menos nunca ouvi falar de esperantistas na Antártida...), seja em associações sólidas ou em práticas isoladas; os locais onde o movimento mais está presente é na Europa e, acredite, no Brasil, e a sede da Associação Universal de Esperanto (UEA) está em Roterdã, Holanda.

5) De que línguas veio o esperanto?
Sobre isso, você pode ler este texto, disponível em esperanto e em português, com vários detalhes sobre grande parte da gramática do idioma, mas também é possível expressar-se sucintamente quais foram as fontes de inspiração de Zamenhof. Resumindo tudo, costuma-se dizer que 60% do esperanto têm origem latina (latim, francês, espanhol, português, italiano etc.), 30% têm origem anglo-saxônica (inglês, alemão etc.) e 10% têm outras origens. A grande porcentagem latina se deve ao vocabulário, vindo essencialmente dessas línguas, pois os radicais latinos são considerados internacionais.

Mas Zamenhof sabia muitas outras línguas e não deixou de absorver o seu melhor pra criar sua obra-prima. O texto citado acima informa que a língua, por fora, (radicais, afixos, desinências, a conjunção kaj – que significa “e” e vem do grego – e a ordem das palavras) tem aspecto ocidental (línguas indo-europeias), mas sua organização gramatical (organização das palavras conforme os radicais, ausência dos tempos subjuntivos e do aspecto imperfeito aos verbos, aglutinação – aglomeração de radicais pra formação de novas palavras – e grande uso de afixos) sofreu influência oriental (línguas não indo-europeias como o turco e o húngaro, que são respectivamente das famílias túrquica e urálica, à qual também pertence o finlandês, e o hebraico, que é do grupo semítico da família afro-asiática, ao qual também pertencem o árabe e o aramaico). O que é de concordância geral entre os esperantistas é que o grande conhecimento linguístico de Zamenhof fez o esperanto abranger uma vasta gama de elementos facilmente reconhecíveis que não só mostram o quanto ele não está centralizado num grupo exclusivo de línguas, mas como ele é uma ponte eficaz pra rapidez no aprendizado de outros idiomas.

6) Quanto tempo se demora pra aprender o esperanto?
Daí, vai depender de muitos fatores. As fontes mais comuns especulam que se possa dominar o básico dentro de pelo menos 6 meses, ou até um ano, devido à regularidade de sua gramática. Mas eu acho que isso pode variar de acordo com muitos fatores:

  1. Origem do falante: Por ser em boa parte europeu, é claro que quem tem mais domínio de tais línguas (em especial dos grupos românico, germânico e balto-eslavo) aprende-o mais rápido, seja no vocabulário, seja na gramática; veja, por exemplo, se você entende as palavras floro, granda, bela, minuto etc. Mas isso não parece ser importante, pois no Extremo Oriente, além do esperanto estar fazendo um grande sucesso, muitos ainda afirmam que o esperanto é o idioma mais fácil que existe!
  2. Conhecimentos linguísticos prévios: Assim como quem aprende esperanto aprende melhor outros idiomas, o contrário também acontece. Sabendo línguas como o francês, o alemão, o inglês, o italiano, o latim e o grego, você de cara entenderá muitas palavras do esperanto sem precisar recorrer ao dicionário. De tais línguas, respectivamente, vêm palavras como dimanĉo (dimanche = domingo; os dias úteis da semana vêm do francês), knabo (Knabe = garoto), fiŝo (fish = peixe), ĝardeno (giardino, com influência do inglês garden = jardim), apud (apud = próximo a) e kaj (και/kai = e).
  3. Aonde você quer chegar: Vai depender também de qual será seu campo e frequência de uso. Você pretende apenas aprender o básico conversacional pra fazer amigos e usar em outras ocasiões cotidianas, deseja participar de congressos pra acompanhar o progresso da língua, que aplicar o esperanto à sua área de trabalho ou passar o tempo como um genuíno esperantólogo (pessoa que sabe bem sobre a história do idioma e do movimento esperantista) e estudar as pessoas de Zamenhof, René de Saussure, Gaston Waringhien, Claude Piron, Julio Baghy, Ivo Lapenna, Boris Kolker, Edmund Grimley Evans ou outros esperantistas eminentes? Eu, por exemplo, que comecei minha jornada em julho de 2000, até o momento em que escrevi este texto, estava lendo um curso de aperfeiçoamento... Enfim, seus objetivos definem se o básico já é contentável ou se é necessário maior aprofundamento na língua.

7) Qual é o símbolo usado pra identificar o esperanto?
É de consenso geral que a cor usada nos símbolos esperantistas é o verde, que é a cor da esperança, incluída no significado da palavra “esperanto”, ainda que ela não seja obrigatória. Mas esse uso se popularizou tanto que é difícil encontrar alguma coisa esperantista que não seja verde. Quanto aos símbolos, com certeza o mais popular consiste na estrela verde de cinco pontas, com ou sem o “e” branco central. Também é muito conhecida a bandeira oficializada no primeiro Congresso Universal, ocorrido em 1905, na França, de proporções 2:3, verde, em cujo canto superior esquerdo se encontra um campo branco com a estrela verde sem o “e” em seu centro.

Outro símbolo usado pra identificar a presença do esperanto é o chamado La Melono (“O Melão”) ou rugbea pilko (“bola de rugby”), ou ainda Esperanto-ovo (ovo esperantista), devido à sua semelhança com esses objetos, que foi criado por um brasileiro pra comemoração do jubileu centenário do esperanto, ocorrido em 1987 (por isso, ele também é chamado de jubilea simbolo, ou “símbolo do jubileu”). Acredito que ele é bem mais adequado, pois, além de possuir uma harmonia simétrica, é um símbolo mais particular do que a estrela, pois nenhuma outra ideia possui símbolo parecido, levando-nos já diretamente à ideia “esperanto”. Já a estrela de cinco pontas, principalmente se ela não leva o “e” central (que a diferenciaria de outras estrelas de cinco pontas) possui muitos outros significados e empregos. Quanto à bandeira, muitos acreditam que, por se tratar de um idioma, o esperanto não necessita de uma, sendo um símbolo simples o meio mais prático de representá-lo.

8) O esperanto não é uma filosofia ou uma religião?
Muitos fatores levam as pessoas a pensar isso, mas a resposta definitiva é não. O primeiro é a alcunha de “idioma da paz” que ele leva, fazendo com que se concretizasse um ideal entre os falantes do esperanto, que é essa tendência pacifista. Esse ideal é interpretado por muitos como uma “religião” ou uma “filosofia”, mas é somente um sentimento que nasce em muitos após o uso de um idioma neutro que não favorece nenhum povo exclusivamente. O que também muitos chamam de “esperantismo” não é só esse sentimento, mas também, segundo Zamenhof, é a crença na eficácia da adoção de um idioma internacional como língua usada pra pacificar lugares dominados pela disputa hegemônica de uma ou outra língua materna e pra publicação de obras de igual interesse a todos os povos. Ele ainda dizia que cada um poderia guardar pra si a definição de esperantismo ou o sentimento que ele desperta em cada um, e que os conceitos expressos por ele não são obrigatórios.

Assim como também nenhum esperantista era obrigado a seguir uma doutrina pacifista criada também por Zamenhof, chamada “homaranismo”, que em si nada tinha a ver com o esperanto. Também é comum a grande relação entre o esperanto e o espiritismo, que usou esse idioma como língua de trabalho e pra divulgar várias obras, e por isso muitos afirmam que ambos são interdependentes, o que não é verdade. Pra mais informações, leia este artigo meu.

9) Por que o esperanto, mesmo tendo tantos falantes e muitas vezes sendo conhecido como “o idioma internacional”, é pouco divulgado e quase não se ouve falar dele?
Uma das hipóteses escrita pra mim por e-mail foi: “será que existem interesses escusos que não permitem uma maior divulgação dele?”. A história do mundo nos fornece muitas explicações pra isso, pois, assim como a história e por ser ligado a ela, o esperanto é um ser “vivo” sujeito a mutações. Pra mim, em primeiro lugar, as duas Guerras Mundiais foram decisivas pro futuro do movimento: na Primeira, tal como ocorreu com vários empreendimentos que poderiam marcar o século 20, foi impossível a reunião de esperantistas de diversos países, principalmente na Europa, foco das duas guerras, atrasando a evolução do movimento; na Segunda, além da impossibilidade de reunião, os esperantistas se viram perseguidos pelas ditaduras de Hitler e de Stalin, um falando que “o esperanto era a língua que os judeus usariam pra dominar o mundo”, e outro afirmando que “o esperanto era uma língua da burguesia cosmopolita”.

Além disso, a imposição das línguas nacionais aos outros povos e o poder de decisão de suas nações não permitiram divulgação e aplicação amplos dele (sobre isso, ler este outro artigo meu), facilitando a expansão de várias ideias erradas sobre o esperanto, tais como “ele não deu certo”, “ninguém o fala”, “ele foi extinto” e outros absurdos. Outro problema também é que, às vezes, alguns membros e clubes do mundo esperantista não investem em divulgação e outros recursos pra atrair falantes, esperando que novos interessados pelo esperanto apareçam por conta própria e fechando o movimento somente àqueles que já falam esperanto, como se ele fosse um grupo filosófico ou, segundo alguns teóricos, um grupo cultural diaspórico, o que não é verdade.

10) Quais são as vantagens da utilização do esperanto?
Muitas vantagens já foram citadas neste e em outros artigos desta página, mas podemos resumi-las nos seguintes itens:

  • Permite que pessoas que falam idiomas diferentes possam entender-se sem que sejam obrigadas a falar o idioma do outro, causando assim uma relação de dominação.
  • O uso de um idioma-ponte neutro permitiria uma grande economia nos setores de tradução das grandes organizações internacionais, como a ONU e a União Europeia, onde atualmente muitos parlamentares lutam por sua adoção no lugar do uso de todas as línguas do continente ou de apenas uma só, pois seus membros não precisariam do serviço de tradutores e compreenderiam diretamente e sem erros os discursos dos colegas. Isso é possível porque Zamenhof não reservou a si os direitos de uso do esperanto, ficando livre a qualquer pessoa ou órgão sua utilização tal como ele(a) ache mais adequado.
  • Ajuda na compreensão mútua de pessoas que falam uma mesma língua, mas um não compreende o dialeto do outro, principalmente se eles são ininteligíveis. Ao invés de predominar um dialeto, o esperanto pode ser usado como língua-ponte. Um exemplo ocorre na China, onde existem em torno de 100 dialetos do chinês e só o mandarim, falado em Pequim, por meio da mídia, acaba predominando sobre os demais.
  • Sendo um idioma fácil e de rápido aprendizado, o custo de sua aquisição é baixo, e permite que não precisemos permanecer durante vários anos aprendendo gramáticas e pronúncias irregulares de idiomas que variam não só de acordo com a época, mas também com o local em que são falados.
  • De modo barato e rápido, o esperanto também permite que tenhamos contato com elementos de outras línguas, mesmo nunca tendo tido contato com elas, e seu domínio faz com que aprendamos mais fácil outros idiomas, em especial os europeus. Uma universidade realizou pesquisas com alunos que aprenderam francês: aqueles que tiveram contato anterior com o esperanto demoraram seis meses a menos pra aprendê-lo do que os alunos que não tiveram contato com o idioma de Zamenhof.
  • Essa comunicação em pé de igualdade sobre bases neutras desperta no falante do esperanto um sentimento de fraternidade ao sentir a possibilidade de poder se comunicar, trocar ideias e fazer amizades com falantes de outros idiomas, esquecendo-se de todas as suas diferenças, o que não ocorre quando nos vemos obrigados a falar um outro idioma imposto pela força política, militar ou econômica.
  • E essa é mais uma vantagem do esperanto: não se impõe como idioma obrigatório às nações e aos povos, ficando livre o arbítrio de cada um ou de cada coletividade sobre sua utilização ou não, com base nos benefícios que seu uso constante pode trazer.

É com muita garra e força de vontade que nós, esperantistas, devemos lutar pela divulgação da ideia de um idioma neutro e internacional pra que enfim resolvamos os problemas gerados pelas diferenças linguísticas. E investir em meios de fazer o público ver que ele é um idioma, e é um idioma vivo, é o melhor meio de fazê-lo. Experimente uma nova perspectiva de intercâmbio cultural e descubra que deixar o exclusivismo nacional é compreender o mundo e ver seus problemas de uma forma nova!



Esperantistas militando esperançosos pelo esperanto.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Donald Barriga y Pesado vs. OTAN


Se o misterioso seu Madruga europeu não pagar o aluguel, vai mandar a Rússia expulsar ele da vila, kkkkk!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Explicando conceitos sobre esperanto


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Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Seu nome é “Explicação de conceitos acerca do esperanto”, e certamente não é um tom nem um conteúdo que eu externaria atualmente. Mesmo assim, pra fins de registro e memória, decidi o rever, reeditar, corrigir, atualizar e publicar aqui, pois mesmo que eu não seja mais um grande propagandista, acho muito interessantes algumas das ideias que expus aqui:



Esta página tem o objetivo de esclarecer a você algumas ideias expressas em vários meios de comunicação acerca do esperanto, sua história e seus usos, que nem sempre são verdadeiras. Devido às pessoas que adotaram e a algumas obras deixadas por Luís Lázaro Zamenhof, é comum que muitas pessoas associem o esperanto à ideia de religião ou de ideal. Parte dessas associações possui algum fundamento, mas várias correlações não possuem o menor cabimento. Cito o caso de um ex-esperantista que resolveu criar seu próprio projeto de idioma internacional [trata-se do “fasile”, do gaúcho Balduino Egon Breitenbach (n. 1949), que foi lançado em 1999 e, na versão mais recente que consegui encontrar, se chama “fasile21”, mas criatura e criador hoje são praticamente ignorados pelas redes modernas] e, em uma página na qual ele compara seu idioma com o esperanto, escreve que, enquanto a criação de Zamenhof possui focos difusos, com ideal e religião, seu próprio idioma possui como único foco a solução prática; com certeza faltou a este homem refletir um pouco mais sobre o caminho que o esperanto percorreu para chegar até nossos dias.

Sem misticismo, poesia, romantismo ou idealismo excessivo, procurarei explicar com os conhecimentos que adquiri por que normalmente se pensa que o esperanto é um ideal ou o idioma de uma filosofa ou religião. Acredito que há dois motivos principais para que se façam tais associações: 1) O conjunto de obras de cunho filosófico deixadas por Zamenhof; 2) A adoção do esperanto pelos espíritas para a publicação de várias obras.

Esperanto: uma doutrina? – As idéias de Zamenhof são inicialmente fundamentais pro entendimento do “idealismo esperantista”. O criador do esperanto foi, antes de tudo, um filósofo por natureza. Desde criança, sempre conviveu com os conflitos étnicos dentro da região onde morava: a Polônia dominada pelo Império Russo, onde vários grupos étnicos viviam sobre o mesmo chão, era palco de várias disputas entre tais grupos e das opressão tsarista, que procurava manter uma hegemonia cultural nos territórios dominados. Além do mais, Zamenhof, por ser judeu, já sofria desde criança as perseguições dos vizinhos. Nesse clima de total desigualdade, nossa criança-prodígio sempre meditava sobre as causas de tais conflitos e como um idioma-ponte poderia resolver todos esses problemas, pra que as etnias em atrito pudessem se entender mutuamente. Por isso, desde a época ginasial, Zamenhof já havia começado a criar seu projeto de idioma internacional (a pouco conhecida “Lingwe Uniwersala”), tendo que reconstrui-lo após várias perseguições por parte de seu pai. Mesmo formado médico e especializado como oftalmologista, nunca deixou seu trabalho pelo esperanto de lado, vendo o fruto de seu trabalho refletido nos diversos congressos e encontros que realizou na Europa e nos EUA.

Daquela velha ideia de sua infância, vemos nossa conhecida frase: “A diversidade de línguas é a única, ou ao menos a principal causa da dispersão da família humana e de sua divisão em partes inimigas”, expressa em uma carta escrita em russo a um conhecido, onde ele conta vários detalhes de sua vida e da criação do esperanto. Daí, surgiu o que se chamou de “idéia interna” do esperanto ou “esperantismo”. Segundo Zamenhof, “a essência do esperanto é a plena neutralidade, e a ideia do esperantismo apresenta somente um sentimento de fraternidade indefinido e uma esperança que são naturalmente geradas pelo constante encontro sob um fundamento linguístico neutro e que todo esperantista tem o pleno direito não só de comentar a si tal como ele queira, mas até de geralmente aceitá-lo ou não”. Por isso, temos aqui uma prova da conceituação de Zamenhof de um idioma internacional como auxiliar nos processos de paz por ajudar reunir as culturas numa base neutra: uma ideia naturalíssima que já expressei neste artigo e que, como disse Zamenhof, pode ser aceita ou não. Por isso muitos chamam o esperanto de “língua da paz”.

Esperanto: uma religião? – O trabalho de Zamenhof não se limitou ao esperanto e seus benefícios, mas à elaboração de um sistema filosófico que ele chamou de homaranismo, pois, como eu já disse, ele era um filósofo nato. Basicamente, a ideia do homaranismo é a de que o homem, acima de todas as suas características pessoais (raça, cor, língua materna, religião etc.), é parte integrante da humanidade: Zamenhof era um humanitarista! Composta de doze dogmas, sua base filosófica, chamada de “Declaração de homarano” (em esperanto, homarano significa “membro da humanidade”), expressa várias ideias e visões sobre ideais humanos, preconceito entre os povos, igualdade, direito à escolha de língua e religião, nacionalidade e mais. A principal correlação do esperanto com religião são os fatos do homaranismo apresentar uma ideia pra proposição de uma religião neutra, em que pessoas de todos os credos possam se unir em princípios filosóficos neutros, e de Zamenhof ter escrito a maior parte desses documentos em esperanto; mas em seus vários escritos sobre o homaranismo, Zamenhof deixa claro que devemos separar o esperanto do homaranismo, pois ele diz: “o homaranismo é um programa político-religioso especial e totalmente definido [em detrimento da idéia interna, que representa pra ele apenas um sentimento], que apresenta meu credo puramente privado e que totalmente não concerne aos outros esperantistas”.

A declaração ainda expressa como um idioma internacional é fundamental na concretização dos ideais do homaranismo, por este ser um programa cultural de bases neutras, mas, pra mostrar como o esperanto não tem nenhuma ligação estrutural com o homaranismo, Zamenhof escreveu no 9.º dogma: “Os novos homaranistas, que não dominam ainda a ‘língua dos homaranos’, podem em um primeiro tempo usar nas reuniões a língua que eles quiserem (...). Como atualmente só existe uma língua neutra, chamada ‘esperanto’, os homaranistas justamente a aceitam; todavia, eles reservam a si o direito de substitui-la algum tempo depois por outra língua, se isto se mostrar útil”. Conclusão: quem fala esperanto não precisa seguir os princípios do homaranismo, e quem possui as mesmas ideias filosóficas de Zamenhof não é obrigado a falar esperanto.

Um bom livro pra que você possa conhecer mais sobre as ideias de Zamenhof e de seu homaranismo é Homaranismo; a ideia interna, do espírita Délio Pereira de Souza, (Rio de Janeiro, Spirita Eldona Societo F. V. Lorenz, 1992). Apesar de ser o melhor comentário contemporâneo sobre o homaranismo na visão do espiritismo, o autor mistura os conceitos de “ideia interna” e homaranismo, a começar pelo título do livro. Ele ainda escreve na página inicial: “Despretensioso comentário à ideia interna do esperanto, segundo seu criador, Dr. Lázaro Luís Zamenhof”. É claro que o criador do esperanto deu total permissão pra que cada um interprete a “ideia interna” tal com queira, mas o livro inteiro praticamente só fala das concepções filosóficas de Zamenhof concernentes ao homaranismo, enquanto a “ideia interna” é algo relacionado à língua esperanto. Apesar disso, não deixe de ler esta genial obra, que apresenta uma alternativa pra este mundo tão conturbado.

Esperanto: uma língua de espíritas? – Coincidência ou não, o Brasil é o país onde se desenvolveu o espiritismo e onde se encontra o maior número de espíritas do mundo, mesmo seguindo uma doutrina criada por um francês, Allan Kardec, e é também o país onde podemos encontrar o maior número de esperantistas (por isso se diz também no meio esperantista que o Brasil é a capital da “Esperantolândia”). Possivelmente, isso se explica pelo fato dos espíritas terem adotado o esperanto como uma de suas línguas de trabalho, através da qual eles escrevem livros, fazem palestras etc., apoiando intensamente seu uso e sua difusão. Assim, nas principais livrarias espíritas, podemos encontrar vários livros sobre ou em esperanto: eu mesmo, quando ia pra Mongaguá, no litoral paulista, gostava muito de visitar a livraria espírita que havia no local não pra comprar livros espíritas, mas sim pra encontrar materiais sobre ou em esperanto (sejam livros espíritas ou não) e conversar com professores e alunos do “idioma da paz”.

Como sabemos, os espíritas têm um ideal e, segundo eles, pra concretizar esse ideal, o esperanto seria uma ferramenta muito eficaz, pois sua neutralidade pode fazer com que ele colabore, ainda que com pouca intensidade, no processo de paz mundial. A ideia é parecida com a do homaranismo: tem-se uma ideia e um idioma que ajudará na concretização desse ideal. Devido a essa estreita relação entre o esperanto e os ideais pacifistas, muitos acabam confundindo as coisas e pensando que o esperanto é um sistema filosófico. Ora, lemos que Zamenhof já separava o esperanto do homaranismo e disse que os homaranistas podem usar qualquer idioma; assim, provamos que o esperanto não tem o rígido caráter doutrinário ou filosófico, mas é apenas um instrumento destinado a essas e a outras realizações, de acordo com o desejo do falante, seja na religião, no turismo, na diplomacia etc. Uma famosa frase diz que “o esperanto não é de ninguém, mas de todos”, ou seja, ninguém possui propriedades exclusivas sobre o idioma, com relação a alterações, vendas de materiais etc., mas ao mesmo tempo todos têm o direito de aprender e colaborar pro crescimento do esperanto; por isso, não se pode dizer que o esperanto é “língua dos espíritas”, mas, se me permitem, que os espíritas são do esperanto, assim como todos aqueles que se dedicam a trabalhar por ele.

Não, esperanto: uma língua DE TODOS! – “O esperanto não pertence a ninguém, mas ao mesmo tempo pertence a todos”. Sabendo disso, em 1912, durante o 8.º Congresso de Esperanto, Zamenhof se abstém da liderança das causas esperantistas e dispensa o constante título de “Mestre”, como nos informa o livro Doutor Esperanto, de Walter Francini (São Paulo, Associação Paulista de Esperanto, 1973): “Não envolver o esperanto com as ideias filosóficas de seu criador, evitar que o mundo considere ‘esperantismo’ [que Francini também define com o esforço pra expansão da língua neutra, resultando na compreensão mútua e na troca de informações úteis entre os povos] e ‘homaranismo’ como uma coisa só. Fora da posição de líder do esperanto, ele teria mais liberdade para defender o seu ideal ético. Ele também quer dar mais liberdade aos esperantistas, possibilitando-lhes tomar decisões próprias, desligadas de qualquer influência dele, mesmo involuntária”. Zamenhof concebeu sua obra-prima como um presente à humanidade, algo a que todos pudessem ter acesso facilmente, sendo recompensados pelas grandes facilidades e vantagens que seu uso proporciona, e não com um instrumento pro benefício de poucos, apenas aos quais o uso do idioma “internacional” estaria restrito. Portanto, associar o esperanto a uma filosofia, religião ou outro tipo de entidade fechada é um grave erro!

Quem fala esperanto deseja ver a humanidade mais unida, sejam quais forem suas características pessoais, não se digladiando por motivos fúteis, mas promovendo um grande intercâmbio cultural por meio de bases linguísticas neutras! O mundo atual precisa de uma ponte que una a todos com justiça, e o esperanto é um grande auxiliar nesse objetivo. Sua grande mobilidade faz com que qualquer setor seja beneficiado por seu uso: a diplomacia, a cultura, o turismo, a amizade, a religião, a economia e qualquer outro, sendo o idioma independente de qualquer filosofia ou sistema filosófico: separar o esperanto dos idealismos de Zamenhof, mas compreender sua utilidade pra eles e pra qualquer outra causa honesta é compreender como o mundo possui um grande instrumento pro progresso, mas está dando pouco valor a ele, ou o está usando de forma errada.

Conclusão – Espero que com este documento você tenha se esclarecido sobre algumas ideias confusas que o principiante pode ter a respeito do esperanto, pra que ele possa aprendê-lo livremente e sem medo de se prender a determinados preceitos ético-filosóficos. Lembre-se: o esperanto não é uma filosofia, uma religião ou uma doutrina, mas o idioma de quem deseja se sentir um verdadeiro cidadão do mundo sem deixar de ser o que é e entendendo as diferenças entre todos nós, respeitando os preceitos particulares de cada um.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Confisco ou expropriação?





Você escolhe!!!

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Que é e pra que serve o esperanto?


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Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Seu nome é “O que é e pra que serve o esperanto? ou Dissertação pessoal acerca dos benefícios do uso de um idioma internacional”, e certamente não é um tom nem um conteúdo que eu externaria atualmente. Mesmo assim, pra fins de registro e memória, decidi o rever, reeditar, corrigir, atualizar e publicar aqui, pois mesmo que eu não seja mais um grande propagandista, acho muito interessantes algumas das ideias que expus aqui:



“La Melono” (O Melão), um dos símbolos usados pra identificar o esperanto.


Quantas línguas e dialetos dessas línguas temos no mundo? 5 mil? 6 mil? 8 mil? 10 mil? Ou até mais? É, sabemos que dentro da espécie Homo sapiens sapiens, a variação entre suas formas de comunicação ao longo dos tempos e de acordo com o grupo onde vive é consequência de algumas características peculiares desse animal, como a capacidade de criar história, cultura, abstrações pra representação da realidade e uma enorme quantidade de técnicas. Por isso, cada grupo humano, de acordo com suas necessidades, criou sua própria maneira de se comunicar, seja falada, seja grafada. E hoje temos essa enorme variedade de línguas ou idiomas, cada um com suas peculiaridades: os idiomas eslavos possuem as chamadas consoantes palatizadas, como, por exemplo, podemos notar nos nossos sons “lh” e “nh” que, para eles, são o “l” e o “n” palatizados; os idiomas semitas, como o árabe, o hebraico e o aramaico, não costumam grafar as vogais, grafando apenas os sons consonantais; enquanto o idioma havaiano possui apenas 13 grafemas pra escrever seus poucos sons (A, E, H, I, K, L, M, N, O, P, U, W e um apóstrofo pra representar uma parada glotal), os dialetos chineses usam mais de 5 mil símbolos pra expressar incontáveis ideias e combinações de ideias; o idioma silbo, usado em La Gomera, nas Ilhas Canárias, é formado só por assobios; os surdos-mudos comunicam-se por uma linguagem que usa gestos dos membros superiores e da face; os cegos leem usando um alfabeto formado por pontos em relevo tateados pelos dedos das mãos; e por aí, por aí vai, nesse mundão afora...

Se você é cristão, é muito provável que tenha uma Bíblia Sagrada, ainda que guardada lá no fundo daquele baú velho; se não for, aproveite a oportunidade pra conhecer um pouco sobre a Bíblia. Perceba que o Antigo Testamento possui histórias pra explicar as mais variadas características humanas e cósmicas, como a existência do homem, da mulher, do mal, do Sol, da Lua, das estrelas e dos mares, o uso da roupa pelo ser humano etc. Uma delas explica a existência da divisão humana pelas línguas que, estando no livro do Gênesis, capítulo 11, do versículo 1 ao versículo 9, vale a pena ser relembrada:

O mundo inteiro falava a mesma língua, com as mesmas palavras. (...) Então Javé desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo. E Javé disse: “Eles são um povo só e falam uma só língua. Isso é apenas o começo de seus empreendimentos. Agora, nenhum projeto será irrealizável para eles. Vamos descer e confundir a língua deles, para que um não entenda a língua do outro”. (...) Por isso, a cidade recebeu o nome de Babel, pois foi aí que Javé confundiu a língua de todos os habitantes da terra (...).

Por isso, no ocidente cristão, é comum que alguém use a expressão “Babel” ou “Torre de Babel” ao comentar as divergências linguísticas no mundo. Mas, como eu já disse, essa variação possui explicação racional e o humano, como um ser também “racional”, deveria ter uma capacidade brilhante pra resolver todos os problemas que surgem da diferença entre línguas. Quero deixar claro que não considero a diferença linguística como um problema, mas as barreiras linguísticas, pois diferenças se devem à cultura de cada um, e ser contra “a” ou “uma” cultura é um terrível desmando, mas as barreiras são os problemas que decorrem dessas diferenças, e que devem ser resolvidos. Mas como? Fazendo com que todos na Terra adotem um só idioma? Substituindo as línguas faladas por algo escrito ou gesticulado? Ou criando um idioma que todos soubessem falar e, por meio dele, pudessem se comunicar sem incompreensões? Assim, quando se fala em esperanto, é sobre esta última solução que devemos dissertar.

“Esperanto” significa “aquele que tem esperança”: esperança em ver um mundo mais justo, a começar pela justiça na comunicação e no respeito à diversidade cultural!

Normalmente, quando falamos de um idioma que é mundialmente compreendido e usado como principal meio de comunicação dentro dos eventos de nível global, podemos chamá-lo de ”idioma internacional”. Chamá-lo de “universal”, tal como fazemos com vários outros elementos conhecidos em toda a Terra, é um erro, pois, segundo até o que a astronomia conseguiu descobrir sobre o Universo, somos os únicos seres que usam a comunicação falada. Na história do mundo, tivemos muitos idiomas considerados internacionais, e ainda teremos (e em um período bem mais curto do que em outras épocas!), sendo os contextos dos mais variados. Na Antiguidade, tivemos dois idiomas que serviam como ponte no mundo ocidental conhecido até então, considerado “civilizado”: o grego, que perdurou até os tempos do Império Romano devido à grande culturalidade e às importantes contribuições de seu povo pra humanidade, e o latim, que foi implantado à força aos povos conquistados, que deram origem às línguas românicas. Mesmo após a queda de Roma como centro do mundo, o latim ainda continuou sendo a língua-ponte dos povos europeus, usada em livros, escolas, ordens religiosas, tratados etc.

Entre a Idade Média e a Idade Moderna, os principais homens de cultura europeus começam a escrever em suas respectivas línguas maternas, e começam a ascender línguas de grandes impérios colonialistas, como o português, o espanhol, o francês e o inglês; estas duas, pertencentes às nações posteriormente mais fortes, começam a dominar o cenário mundial e vão parar na boca de falantes que podem estar a milhares de quilômetros de distância do lugar de origem de suas línguas. Expandidas pela força das armas e do dinheiro, afirmam-se na diplomacia mundial e tornam-se sinal de prestígio. Poucos séculos mais tarde, começa a 1.ª Guerra Mundial e, com ela, consolida-se o poder econômico e militar dos Estados Unidos: aos poucos, o francês vai cedendo definitivamente seu lugar ao inglês, tendo hoje um papel bem reduzido em relação àquele que possuía durante a Belle Époque. Na 2.ª Guerra Mundial, Hitler ainda tem sonhos de pôr o mundo nas mãos da Alemanha e, assim, o idioma alemão como grande comunicador, e, ao fim da luta, a União Soviética, também consolidada como superpotência, parece querer pôr o russo na boca de todos os países subjugados.

Na situação atual, podemos dizer que o inglês é a língua considerada internacional, pois seus principais falantes maternos detêm o poder econômico do mundo, possuem grande influência na diplomacia, seja para resolver problemas, seja para costurar acordos, e guardam consigo os segredos tecnológicos e científicos mais avançados. Se formos considerar por esse lado, vemos que muitos países estão crescendo e, em breve, poderão superar os Estados Unidos em potencialidade; consequentemente, levarão para o topo também seus respectivos idiomas. Assim, muitos especulam que os próximos idiomas que podem ascender no século 21 são o espanhol, o alemão, o japonês e o mandarim [lembre-se que escrevi isso em 2005!]. O último merece uma atenção especial, pois é o idioma de uma nação que está tendo uma excelente taxa de crescimento anual do PIB e, segundo especulações, pode ser a principal potência dentro de 30 anos.

E é nesse vaivém de línguas que nós, reles mortais falantes de outros idiomas menores do mundo, espectadores de uma história que nunca foi tão mutante, somos a cada século obrigados a aprender novos idiomas pra fazer e aparecer. Idiomas que possuem pronúncias diferentes das nossas, com sons que não estamos acostumados a articular, construções sintáticas que confundem nossas mentes, grafias irregulares que atrapalham o dom de se escrever bem (isso é um problema até mesmo pra um falante nativo de algumas dessas línguas que seguem as chamadas “tradições” e se veem perdidos num sistema ortográfico totalmente etimológico, como o português, o inglês e o francês); imagine quando o mandarim alcançar o status de idioma internacional, se formos obrigados a decorar aqueles 5 mil caracteres só pra termos uma comunicação escrita de nível básico! E então? Qual seria a melhor solução pra tudo isso?

Se os poderes político, econômico e tecnológico de um país não o fizessem sedento de poder mundial e não impusessem a dominação de sua língua sobre outras culturas, as várias instituições mundiais poderiam usufruir de um idioma que tivesse largas aplicações no comércio, turismo, cultura, política, diplomacia e troca de informações entre pessoas que falam idiomas diferentes, numa base neutra de comunicação, que não privilegiasse esta ou aquela cultura ou país. Um idioma que usasse palavras das línguas já existentes pra que a maioria, ao ler os primeiros trechos nesse idioma, pudesse, sem estudo prévio, compreender boa parte do que está escrito; ou do contrário: ao ser aprendido, ajudasse a compreender várias palavras e estruturas nos outros idiomas. Seria muito bom se, pra comunicação internacional, usássemos somente um idioma fácil, bonito e neutro, sem a obrigatoriedade de aprendermos difíceis línguas nacionais; isto seria bom fazermos em último caso, quando precisássemos morar com os povos que as falam ou fôssemos linguistas que estudam suas mais diversas propriedades. Mas esse idioma, sendo gerado desses diversos idiomas, nos estimularia a aprendê-los pra conhecermos as mais diversas culturas e sabermos de onde vem nosso idioma internacional.

Pensando nisso, um polonês chamado Ludwig Lejzer (ou, em português, Luís Lázaro) Zamenhof, nas últimas décadas do século 19 e nas primeiras do século 20, chegou à seguintes sábias conclusões:

1) A diversidade de línguas é a única, ou ao menos a principal, causa da dispersão da família humana e de sua divisão em partes inimigas.

2) Nem mesmo uma centena de grandes invenções e descobertas fará na vida da humanidade uma revolução tão grande e tão benéfica como a adoção de uma língua internacional!

E dedicou sua vida a aprender diversos idiomas e elaborar o que seria esse projeto de idioma internacional. Tornando-se poliglota, fez várias e sofridas tentativas, até chegar a seu fruto final: o esperanto, por meio do primeiro livro, publicado em 26 de julho de 1887. Fez várias traduções e escreveu várias obras pra comprovar a praticidade de seu idioma e, enfim, organizou na cidade francesa de Boulogne-sur-Mer, em 5 de agosto de 1905, o primeiro Congresso Universal de Esperanto, onde quase mil pessoas provaram, na prática, a eficiência e praticidade de um idioma internacional. O número de falantes cresceu e, mesmo após a 1.ª Guerra Mundial (1914-1918), quando o movimento acabou se esfacelando, e após a morte de Zamenhof, em 1917, o movimento segue até a 2.ª Guerra Mundial, quando novamente sofre duras perseguições e é reprimido pelos vários movimentos totalitários em voga na Europa. Ainda assim, sobrevive a todas as tempestades, é agraciado pela UNESCO em 1954 e até hoje conta com milhões de falantes espalhados por quase todos os países do mundo, que fazem amizade entre si, trocam informações sobre suas culturas, aprendem mais sobre outros países e religiões e ajudam a desenvolver o esperanto a nível prático.

Lembre-se: um idioma internacional não serve para substituir os outros e fazer com que todos nós usemos apenas uma língua no mundo. Ao contrário: ele serve apenas como uma ponte entre os mais diversos falares, podendo ser ainda usado como um instrumento de defesa das línguas étnicas menores, faladas por poucas pessoas!

Mas o esperanto é, de fato, “o” idioma internacional?

Como disse o grande empresário e esperantista brasileiro Flávio Rebelo, “para que uma língua seja mundial, não é suficiente chamá-la assim”. Por isso, é muito importante o trabalho dos esperantistas, ou seja, pessoas que trabalham em prol da divulgação e do uso prático do esperanto nos mais diversos meios. Os diversos clubes, associações e entidades de esperanto estão aí pra ajudar na divulgação popular, na edição de material literário e fonográfico, e na reunião de esperantistas, pra que se possa usar e divulgar o idioma. Visto que o esperanto não é o idioma oficial de qualquer povo ou país, cabe aos falantes promover formas de torná-lo útil na comunicação internacional. Isso comumente se faz através de palestras, cursos e materiais de divulgação (cartazes, sites etc.) pra provar que o esperanto existe e é um idioma vivo de nosso tempo. Além disso, várias associações especializadas cuidam da tradução dos vocábulos pra designar os mais diversos elementos de todas as áreas do conhecimento e vivência humanos. Todas essas ações em prol do esperanto fazem parte do que se costuma chamar “movimento esperantista”. Você, que está aprendendo ou pretende aprender esperanto, tem um papel muito importante nessa caminhada, pois possui em suas mãos uma ferramenta muito importante pra melhorar a comunicação mundial: ajude a divulgar o esperanto e, assim, aumentar o número de pessoas no mundo que possam se comunicar usando uma base neutra e politicamente honesta!

Oficialmente, o esperanto não é exatamente reconhecido pelos órgãos internacionais como “o idioma internacional”, pois esse papel é desempenhado, ainda mais dentro desses órgãos, pelo inglês. Apesar disso, o esperanto provou e hoje ainda constantemente prova sua eficácia, pois milhões de pessoas que falam idiomas diferentes o usam pros mais diversos fins, em especial pra fazer amizades e trocar informações culturais. Se ele fosse hoje naturalmente aplicado nas atividades desses órgãos, com certeza só surgiriam benefícios, e a homogeneidade linguística de apenas algumas nações desapareceria por completo. Mesmo com tantos projetos de idiomas internacionais apresentados e usados, o esperanto é hoje o mais largamente usado e conhecido projeto, sendo por isso imediatamente relacionado à ideia de “idioma internacional”; isso porque ele possui uma genialidade fantástica em sua gramática e uma clareza de compreensão em suas palavras, de modo que ele não deturpou os vocábulos, como se fez em alguns projetos, ou manteve a pronúncia e a gramática irregulares como nos idiomas existentes, como se fez em outros: dessa forma, ele foi acolhido e largamente utilizado por vários especialistas e pessoas inteligentes.

Por esses motivos não se reconhece nas instituições internacionais o esperanto como “o idioma internacional”, mas, por suas vastas aplicações, conquistas e sucessos, pode-se afirmar com toda segurança que ele é uma das conquistas do século 20 e uma das promessas do século 21: basta ver como esperantistas lutam no Parlamento Europeu pra um maior apoio a suas aplicações oficiais! O esperanto tem todas as condições para ser reconhecido realmente como o idioma internacional, mas precisamos vencer todas as barreiras políticas que impedem tal realização a nível mundial. E é pra isso que lutam os esperantistas, divulgando a ideia de um idioma internacional e ensinando pra todos o esperanto, possibilitando a todos o acesso a uma preciosa ferramenta no degelo das cabeças de pedra dos poderosos que insistem em impor suas vontades e se esquecem que nosso mundo é um enorme formigueiro de culturas que precisam de uma base neutra pra se compreender e conviver em harmonia.

Por isso, não hesite: comece agora mesmo a aprender o ESPERANTO, e seja mais um entre os que acreditam na eficiência da adoção de um idioma-ponte neutro pra comunicação entre pessoas de línguas diferentes a fim de promover uma emancipação cultural mais justa e, consequentemente, a tão sonhada paz entre os povos, em cuja realização um idioma internacional neutro seria um dos maiores auxiliares!



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Conhece o “corno Dmitri Peskov”?



Parte daquelas séries de piadas antigas de “tipos de corno”, podemos classificar como o “corno Dmitri Peskov” aquele pra quem as pessoas ligam dizendo o que tá acontecendo, ele diz que não tá sabendo de nada e que não vai comentar, kkkkk!!!

No YouTube, tem vários vídeos com essa temática “tipos de corno”, mas este é o mais abrangente, apesar da imagem única e da narração tediosa:


E pra ressuscitar um meme de meu antigo canal: como não pode faltar em nenhuma sexta-feira, que tal uma “cerveja radioativa” russa? Rs:


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O último discurso (“O grande ditador”)


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/chaplin-discurso

Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Trata-se do belo discurso proclamado por Charles Chaplin, no papel de Adenoid Hynkel, no filme O grande ditador, em que ele parodia Adolf Hitler e seus objetivos totalitários. O interessante é que no bairro dos judeus na “Tomânia”, muitas placas e nomes de lojas estão escritos num esperanto mais ou menos correto! Quem traduziu o discurso pro esperanto foi o esperantista alemão Hans-Georg Kaiser (n. 1954), também conhecido pelo pseudônimo “Cezaro”. Infelizmente o endereço original não existe mais, mas você ler seu blog atual e a tradução em português do texto de Chaplin. Seguem abaixo esta tradução (atualizei a ortografia), a tradução de Kaiser e uma pequena introdução em esperanto!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Temas pri la bela alparolo proklamita de Charles Chaplin, rolanta Adenoid Hynkel, en la filmo La granda diktatoro, en kiu li parodias Adolfon Hitleron kaj liajn totalismajn celojn. Interese, ke en la kvartalo de la gejudoj en “Tomania”, multaj afiŝoj kaj nomoj de vendejoj estas skribitaj en pli-malpli korekta Esperanto! La Esperanta tradukinto de la alparolo estas la germana Esperantisto Hans-Georg Kaiser (n. 1954), ankaŭ konata sub la kromnomo “Cezaro”. Bedaŭrinde la originala adreso ne plu ekzistas, sed vi povas legi lian nuntempan blogon kaj la portugallingvan tradukon de la teksto de Chaplin:



Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis!” A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No capítulo 17 do Evangelho de São Lucas, está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, mas escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!


Mi petas pri pardono, sed mi ne deziras esti imperiestro. Tio ne estas mia afero. Mi volas regi aŭ konkeri neniun. Mi volonte helpus al ĉiu, – se eblas. Al judoj, ne-judoj... nigruloj... blankuloj.

Ni ĉiuj volas helpi al ni reciproke: Homaj estaĵoj estas tiel. Ni volas vivi en reciproka feliĉo, ne per reciproka enmizerigo. Ni ne deziras hati kaj malestimegi nin. En ĉi tiu mondo estas loko por ĉiu. Kaj la bona tero estas riĉa kaj povas provizi ĉiujn.

La maniero de l’ vivo povas esti libera kaj agrabla, sed ni perdis la vojon. Avido venenis la homajn animojn, barikadis per malamo la mondon, puŝis nin en mizeron kaj al sangoverŝado. Ni evoluis rapidecon, sed enfermis nin mem. Maŝinoj, kiuj donas abundon, postlasis nin en bezono. Nia scio faris nin cinikaj, niaj sperto kaj lerto duraj kaj malafablaj. Ni pensas tro multe, ni sentas tro malmulte. Pli ol maŝinoj ni bezonas humanecon. Pli ol lerto kaj sperto ni bezonas afablecon kaj ĝentilecon. Sen tiuj kvalitoj vivo estos violenta kaj la volo de ĉiu perdita.

La aviadilo kaj la radio pli proksimigis nin. La vera naturo en tiuj aĵoj ja krias al homa boneco, krias al la universala frateco, al la unueco de ni ĉiuj. Jam nun mia voĉo atingas milionojn da senesperaj viroj, virinoj, kaj etaj infanoj - en la tuta mondo, viktimojn de sistemo, kiu torturas homojn kaj enkarcerigas senkulpulojn. Al tiuj, kiuj povas aŭskulti min, mi diras: “Ne malesperiĝu!” La mizero, kiu venis super nin, estas nenio alia krom la pasado de avido – la amareco de homoj, kiuj timas la homan progreson. La hato de la homaro pasos, kaj la diktatoroj elmortos, kaj la potencon, kiun ili forprenis de la homoj, revenos al la homoj. Kaj tiom longe, kiom homoj scios morti, la libero ne pereos.

Soldatoj! Ne fordonu vin al la bestaĉoj! kiuj malestimegas kaj sklavigas vin – kiuj komandas viajn vivojn, kiuj diras al vi, kion vi devas fari, kion pensi kaj kion senti. Kiuj severe trejnas kaj endietigas vin, kiuj traktas vin kiel bruton kaj nutras kanonojn per vi. Ne fordonu vin al tiuj kontraŭnaturaj uloj, al tiuj maŝinuloj kun maŝinmensoj kaj maŝinkoroj! Vi ne estas maŝinoj. Vi estas homoj! Kun la amo al la humaneco en viaj koroj! Ne malamu! Nur la ne-amataj malamas, kaj la kontraŭnaturaj!

Soldatoj! Ne batalu por la sklaveco! Batalu por la libero! En la deksepa ĉapitro de Sankta Luko estas skribite, ke la regno de Dio “...estas inter vi.” Nek en unu homo, nek en homgrupo, sed en ĉiuj! En vi! Vi, la homoj, posedas la povon, la povon krei maŝinojn. La povon krei feliĉon! Vi, la homoj, havas la povon por fari la vivon bela kaj libera, por fari el tiu vivo mirindan aventuron. Do – en la nomo de la demokratio – ni uzu tiun povon. Ni ĉiuj unuiĝu. Ni batalu por nova mondo, por humana mondo, por deca mondo, kiu ebligos al la homoj labori, kiu havigos al la junularo futuron, kaj sekurecon al la maljunularo.

Per tio, ke ili promesis al ni tiujn aferojn, la bestaĉoj transprenis la potencon. Sed ili mensogis! Diktatoroj liberigas sin mem, sed ili sklavigas la popolojn. Ni nun batalu por liberigi la mondon – por ŝiri teren naciajn barojn – por forigi la avidon, la malamon kaj la netoleremon. Ni batalu por mondo de prudento, en kiu la scienco kaj la progreso kondukos al al feliĉo de ĉiuj. Soldatoj, en la nomo de la demokratio, ni unuiĝu!

Hannah, ĉu vi povas aŭdi min? Kie ajn vi estas, rigardu supren al mi, Hannah! La nuboj leviĝas. Aperas la suno! El la tenebro ni eliras en la lumon. Ni alvenas en nova mondo, en pli afabla mondo, en kiu la homaro venkos sian avidon, sian malamon kaj sian brutalecon. Rigardu supren al mi, Hannah! La homa animo ricevis flugilojn kaj finfine ekflugas. Ĝi flugas en la ĉielarko, en la lumo de l’espero. Rigardu supren al mi, Hannah! Rigardu min!



Hannah