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domingo, 17 de agosto de 2025

Ligações entre o sânscrito e o russo


Endereço curto: fishuk.cc/sanscrito-ru


Este artigo foi um dos mais interessantes cuja tradução eu já tinha publicado em meados dos anos 2000, mas que, devido à falta de acesso ao “verdadeiro original”, receei por muitos anos em republicar nesta página. Trata-se do artigo “Links Between Russian and Sanskrit” (Ligações entre o russo e o sânscrito), escrito pelo professor Durga Prasad Shastri e publicado pela primeira vez em fevereiro de 1964. Ele também circula pelas redes com o título em russo “Связь между русским языком и санскритом”, mas a primeira versão que li foi em esperanto (“Ligoj inter rusa lingvo kaj sanskrito”), traduzida por D. Brechalov, num site russo sobre a pouco conhecida filosofia “homaranista” esboçada por L. L. Zamenhof, iniciador do esperanto.

Meu interesse pelo artigo e por minha própria tradução (feita na adolescência!) ressurgiu quando recentemente retomei o contato com Thiago Gastaldello, que fez na década de 2000 uma graduação em linguística, se debruçou longamente sobre o sânscrito e também fala esperanto. Na época, ele mantinha um blog bilíngue chamado “Se oriente, rapaz!”, hoje não mais atualizado, mais ainda acessável, e talvez nos tenhamos conhecido devido a meu extinto “Sites Sobre Idiomas” (ou SSI), que mantive de 2002 a 2009 e não era mais do que uma coleção de links pra outras páginas com recursos de aprendizado. (Lembrando que as ferramentas modernas, especialmente os apps, inexistiam, e YouTube já havia, mas quase ninguém usava.)

Revendo o blog do Thiago, me deparei com uma reprodução de minha tradução, ela mesma também disponível de forma arquivada, a partir de outro site desativado meu, mas integralmente dedicado ao esperanto. Usando essa última cópia, decidi enfim trazer hoje uma “reciclagem” de minha tradução, embora não a tivesse confrontado com uma reprodução do inglês que terminei achando (reitero que traduzi do esperanto, portanto, me abstive de publicar justamente por ser uma tradução indireta).

Após uma nova rodada de pesquisas, inclusive em fóruns de falantes de russo, descobri que Durga Prasad Shastri (às vezes transcrito Durgaprasad Shastri, ou ainda Durgaprasad Khatri) foi um famoso romancista indiano que escrevia em hindi, nasceu em 1895 em Varanasi – filho de outro célebre romancista – e morreu em 1974. Na Wikipédia em hindi não há nenhuma referência nesse sentido, mas várias fontes o descrevem como professor de sânscrito ou mesmo “sanscritólogo”, que teria viajado à Rússia em 1963 e se espantado com a semelhança dessa língua com o russo, cujo intérprete, portanto, ele teria dispensado. Muito da narração beira a lenda, e mesmo sendo verdade que, enquanto escritor, Shastri pudesse ter algum conhecimento de sânscrito (a fonte de neologismos cultos em hindi, como o grego e o latim pra Europa Ocidental), certamente ele não era acadêmico nem pesquisador: o artigo foi publicado na sequência de uma conferência a uma sociedade cultural indo-soviética e só apareceu em russo em 1996.

Pra quem é linguista de profissão, suas comparações limitadas a um vocabulário superficial chegam a parecer pueris, atitude semelhante à de listas comparando palavras em sânscrito e russo que às vezes aparecem junto com versões do artigo na internet. Além disso, eu mesmo, tendo aprendido em anos mais recentes o básico da escrita devanágari e um pouco de hindi e estando, portanto, mais ou menos habilitado pra fazer pesquisas comprovando suas comparações, nem sempre consegui reconstituir os exemplos que ele cita. Nesta nova edição, que também revê problemas da transcrição do russo que eu tinha deixado de lado, trouxe as versões em cirílico e, sempre que pude, também em devanágari pro sânscrito.

Desta forma, à guisa de notas minhas, coloquei as versões nas escritas originais e as traduções entre colchetes, podendo dispensar a maior parte das notas do tradutor pro esperanto, que em grande parte não fez justamente senão trazer as frases em russo, mas escritas na ortografia esperantista. Por isso, embora conservasse o conteúdo e a posição dessas notas no texto principal, mantive o número original com que elas apareciam (e, assim, a numeração parece “banguela”). Não fiz mudanças em minha própria tradução, mas apenas a atualização ortográfica (o texto é anterior a 2009) e algumas correções de estilo. Sugestões são sempre bem-vindas!



Se me perguntassem sobre duas línguas no mundo parecidas uma com a outra, eu responderia sem qualquer hesitação: “russo e sânscrito”. Isso não é porque algumas palavras de ambas as línguas se parecem, como também é o caso de muitas línguas que pertencem à mesma família. Por exemplo, palavras comuns são encontradas no latim, no alemão, no sânscrito, no persa e no russo, que são originados do grupo indo-europeu de línguas. É admirável que se pareçam a estrutura das palavras, o estilo e a sintaxe, também havendo relações mais próximas entre as regras gramaticais de nossas duas línguas – isso causa a séria atenção de todo o conhecedor de linguística que deseje saber muito mais sobre as ligações próximas que apareceram já em um passado remoto entre os povos da URSS e da Índia.

Palavra universal – Pegue, por exemplo, a mais famosa palavra russa deste século: “sputnik” [спутник]. Ela consiste de três partes: (a) o prefixo “s” [с], (b) o radical substantivo “put” [путь; caminho] e (c) o sufixo “nik” [ник]. A palavra russa “put” [путь] é comum a muitas outras línguas da família indo-europeia, nomeadamente a palavra inglesa “path” e a palavra sanscrítica “path” [पथ्]. E totalmente! A similaridade entre o russo e o sânscrito continua, até o último grau. A palavra sanscrítica “pathik” [पथिक्] significa “pessoa que vem seguindo um caminho”, isto é, “viajante”. A língua russa pode formar também as palavras “putik” [путик] (2) e “putnik” [путник]. E a parte espantosa da história da palavra “sputnik” é que “sa” ou “s” deve ser adicionado como prefixo em sânscrito e em russo para formar as palavras “sapathik” [सपथिक्] em sânscrito e “sputnik” em russo. Ambas as línguas têm o mesmo significado lógico para suas palavras: “pessoa que vem pelo mesmo caminho”. (3) Tenho que agradecer ao povo soviético pela escolha de palavra tão internacional e universal.

Quando vim para Moscou, a empregada de meu hotel deu-me a chave do quarto n.º 234 e disse: “Dvesti tridtsat chetyre” [Двести тридцать четыре]. Naquele momento não pude decidir se eu estava de pé diante de uma senhorita bonita em Moscou, ou na Benares ou na Ujjain de nosso período clássico mais de 2000 anos atrás. Em sânscrito, 234 é “Dvishat tridasha chatvari” [não se sabe ao certo de onde ele tirou essa forma; segundo pesquisa, uma das formas alternativas mais próximas para expressar o número seria “dviśatcatustriṃśat”]. Pode, em algum lugar, existir relação mais próxima? É duvidoso que ainda existam duas línguas diversas que conservaram uma antiga herança e se assemelhem tanto na pronúncia até os dias de hoje. Tive a oportunidade de visitar a vila de Kachalov, a cerca de 25 quilômetros de Moscou, e fui convidado para almoçar junto a uma família russa de agrônomos. A velha senhora apresentou-me um jovem casal, dizendo em russo: “On moi syn i oná moiá snokhá” [Он мой сын и она моя сноха; Ele é meu filho e ela é minha nora].

Quão fortemente eu desejei que Panini, o grande gramático hindu que viveu cerca de 2 600 anos atrás, pudesse estar junto de mim e ouvisse a língua de seu próprio tempo, tão admiravelmente conservada com todas as suas nuanças possíveis nessa parte do mundo. A palavra russa “syn” [filho] é “son” em inglês e “sūnu” [सूनु] em sânscrito. Também a palavra “madīy” [मदीय्] do sânscrito pode ser comparada a “moi” [meu] do russo e a “my” da língua inglesa. Mas somente em russo e em sânscrito o pronome possessivo “moy” e “madīy” deve transformar-se em “moiá” e “madīyā” [मदीया], pois trata-se da palavra “snokhá”, que é feminina. A palavra russa “snokhá” é “snukha” em sânscrito [na pesquisa só apareceu स्नुषा, snuṣā] e pode ser pronunciada da mesma forma. As relações entre o filho e a esposa do filho definem-se por palavras similares em ambas as línguas.

Perfeitamente correto – Eis outra frase russa: “Tot vash dom, etot nash dom” [Тот ваш дом, этот наш дом; Aquela é vossa casa/a casa de vocês, esta é nossa casa]. Em sânscrito ela fica: “Tat vas dham, etat nas dham” [não consegui confirmar nada parecido]. “Tot” e “tat” [तत्] são pronomes demonstrativos, singulares em ambas as línguas e que mostram o objeto da distância. É sempre o mesmo princípio em russo e em sânscrito. “Dhām” [धाम्] em sânscrito é “dom” em russo, possivelmente porque o “h” aspirado não existe em russo.

As línguas modernas do grupo indo-europeu, como o inglês, o francês, o alemão e até mesmo o hindi, que provém diretamente do sânscrito, devem usar a palavra “ser” na referida frase, sem a qual ela não pode existir como proposição correta em todas essas línguas. Somente a língua russa e o sânscrito estão perfeitamente corretos gramaticalmente e também idiomaticamente sem “ser” na referida frase. A própria palavra “ser” (9) se parece muito à russa “iest” [есть] e à sanscrítica “asti” [अस्ति], ou ainda “iestestvó” [естество] em russo e “astitva” [अस्तित्व] em sânscrito, ambas significando “existência” (10). Isso deixa claro que não somente a sintaxe e a ordem das palavras são semelhantes, mas a própria plenitude de expressão e o espírito foram conservados em ambas as línguas em uma forma original sem modificações.

Permitam-me dar, no fim do artigo, uma regra simples e muito útil da gramática de Panini para mostrar o quão profundamente ela é aplicável para a formação de palavras no russo. Panini mostrou de que maneira seis pronomes transformam-se em advérbios de tempo pela simples adição de “-da”. Atualmente, a língua russa tem apenas três das seis palavras do sânscrito de Panini, mas elas seguem a mesma regra de 2 600 anos para receberem seus advérbios de tempo. Ei-las:

PronomesSignificados
kim [किम्]quem
tatesse
sarva [सर्व]todo


Advérbios:

SânscritoRussoSignificado
kadā [कदा]kogdá [когда]quando
tadā [तदा]togdá [тогда]então
sadā [सदा]vsegdá [всегда]sempre


A letra “g”, nas palavras russas, usualmente é usada para mostrar a união, em um todo, de coisas que existem separadamente. Nenhuma língua indiana ou europeia mostra essa capacidade de conservar o antigo sistema de nossas línguas, apenas o russo o faz. Já é tempo de fortalecer a investigação de ambos os ramos, importantíssimos, da família indo-europeia, e alguns capítulos fechados da história antiga do mundo devem ser abertos para o bem de todos os povos.


Notas do tradutor esperantista

(2) Conforme a gramática russa, esta palavra significa “pequeno caminho”, “caminhozinho”, mas ela nunca é usada.

(3) Em esperanto, “samvojano”. [Esta palavra, em português, não tem uma tradução exata, podendo ser toscamente transliterada por “companheiro de jornada”.]

(9) No original inglês, “is”.

(10) A palavra russa “iestestvó” significa “essência”, “natureza”.



sábado, 26 de julho de 2025

Carta de Arlo Tatum a Pedro Catallo


Endereço curto: fishuk.cc/arlotatum
Aniversário do primeiro manual de esperanto


Por volta de junho de 2015, estava fazendo pesquisas pra meu mestrado no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/Unicamp), quando uma das funcionárias com quem eu tinha amizade, talvez a Silvia Modena, me disse que havia no acervo alguns materiais de movimentos pacifistas em esperanto, quando soube que eu falava esse idioma. Eram realmente poucas coisas, algumas não catalogadas, mas ajudei Silvia e suas colegas com a tradução do conteúdo, quando muito ao menos pra entender do que se tratava. A ela sou pessoalmente grato por ter, por sua vez, me ajudado várias vezes em que necessitava, e à equipe do AEL em geral por me ter permitido copiar algumas dessas coisas em esperanto – e, tacitamente, publicá-las.

Do que guardei, achei interessante lançar apenas esta carta escrita em 1958 a um certo Peiro Catallo, sobre quem não achei nenhuma informação nos motores de busca comuns (teria havido erro de datilografia?), morador da cidade de São Paulo e falante do esperanto. O remetente era Arlo Tatum (1923-2014), americano radicado no Reino Unido e conhecido por ter liderado diversas organizações pacifistas e antimilitaristas, inclusive a Internacional dos Resistentes à Guerra (WRI), da qual ele era secretário-geral quando escreveu a carta. Fundada nos Países Baixos em 1921 e atualmente sediada em Londres, a WRI (ou IRG) tem como atividades principais a orientação a objetores de consciência, o apoio a movimentos antiguerra não violentos e o combate à militarização juvenil.

Cantor lírico de formação, Tatum dedicou a maior parte de sua vida às atividades antimilitares e pacifistas, mas não se sabe ao certo por que ele escreveu ao cidadão brasileiro (imigrante?) e qual era a função deste no movimento internacional. Fica óbvio que ele é fluente em esperanto, língua que esteve na origem da própria WRI, e além do obituário escrito por sua esposa pro Guardian, há a nota de pesar da WRI. Tendo dado a forma final à tradução no início de julho de 2015, espero que sua publicação possa ajudar um pouco nessa história e, se alguma alma caridosa colaborar, a descobrir quem é Peiro Catallo...

Adendo (3/8/2025): Parece que meu apelo foi ouvido! Uma nobre alma que leu estas linhas e a quem sou muito grato me enviou um e-mail dizendo que provavelmente não há nenhum “Peiro”, mas que pode se tratar de Pedro Catallo (1901-1969). Militante anarquista de São Paulo, deixou extensa obra teatral e textos de crítica social, mas parece ter sido esquecido pelos estudiosos do movimento operário brasileiro. Ainda ativo, o Centro de Cultura Social (CCS), do qual Catallo foi destacado militante, começou a republicar suas obras no primeiro semestre deste ano, mas somente pela propaganda e pelo portal é impossível saber qual era sua relação com o esperanto ou com a WRI/IRG. De fato, o idioma também era popular entre os anarquistas, sobretudo espanhóis, e deixo apenas o link acima disponível pra quem deseje se aprofundar.



28 de abril de 1958

Peiro Catallo,
Rua Cesário Galeno, 430,
Tatuapé - Saõ Paulo [sic], Sp.,
Brasil.


Caro amigo,

Desejei lhe escrever porque a perigosa situação internacional obriga a que nós todos, que pensamos seriamente na questão da paz mundial, colaboremos no objetivo de encontrar soluções pacíficas a esses problemas que nosso mundo enfrenta.

Por isso, a Internacional dos Resistentes à Guerra julga oportuno tentar na atualidade ampliar sua influência no Brasil. Embora nossa organização seja totalmente pacifista e abarque apenas membros pacifistas, damos boas-vindas à cooperação e apoio de todos os que queiram trabalhar efetivamente pela paz mundial. Segue anexa uma folha volante [panfleto] que explica a base de nossa organização.

Atualmente só podemos publicar livretos em esperanto uma vez por ano, em parte porque menos de 600 pessoas em nossa lista de assinantes conseguem usar a língua internacional. Porém, quanto mais crescer o número de pessoas solicitando nossa literatura em esperanto, tanto mais nos será possível publicá-la.

Gostaria de manter contato regular conosco? Nossa publicação trimestral “La Militrezistanto” [“O Resistente à Guerra”] aparece em inglês, francês e alemão. Se você entende alguma dessas línguas, nós a enviaríamos com prazer, juntamente com nossas publicações em esperanto, sempre que elas aparecerem. Temos também um suprimento limitado de material em espanhol.

Peço-lhe que responda a esta carta e nos encoraje em nosso trabalho. Talvez você aproveite para especificar em que língua você gostaria de receber as publicações da IRG. Se recebermos bastantes respostas a esta carta, estou certo de que a IRG desejará muito abreviar o prazo entre nossas publicações em esperanto.

Cordialmente a serviço da paz,



Arlo Tatum
Secretário-Geral



28 Aprilo, 1958

Peiro Catallo,
Rua Cesário Galeno, 430,
Tatuapé - Saõ Paulo [sic], Sp.,
Brasil.


Kara amiko,

Mi volis skribi al vi ĉar la ganĝera [sic; danĝera] internacia situacio necesigas ke ni ĉiuj, kiuj serioze pripensas la problemon de mondpaco, kunlaboru kun la celo trovi pacajn solvojn de tiuj problemoj, kiujn frontas nia mondo.

La Internacio de Militrezistantoj tial sentas ke taŭgas provi plivastigi ĝian influon en Brazilo je la nuna tempo. Kvankam ni estas tute pacifista organizaĵo, kaj la anaro entenas nur pacifistojn, ni bonvenigas la kooperon kaj subtenon de ĉiuj, kiuj volas labori efektive por mondpaco. Enmetita estas flugfolio, kiu klarigas la bazon de nia organizaĵo.

Nuntempe ni povas eldoni libretojn en Esperanto nur unufoje ĉiujare, parte ĉar malpli ol 600 personoj sur nia elsendlisto kapablas uzi la internacian lingvon. Tamen, ju pli la nombro da personoj dezirantaj nian literaturon en Esperanto kreskas, des pli kreskos nia ebleco eldoni ĝin.

Ĉu vi ŝatus regulan kontakton kun ni? Nia kvaronjara eldonaĵo “La Militrezistanto” aperas en la angla, franca, kaj germana lingvoj. Si [sic; se] vi komprenas iun el ĉi tiuj lingvoj, ni plezure sendus ĝin al vi, aldone al niaj Esperantaj eldonaĵoj kiam ajn ili aperas. Ni havas ankaŭ limigitan provizon de materialo en la hispana lingvo.

Mi petas vin, respondu al ĉi tiu letero kaj kuraĝigu nin en nia laboro. Eble vi prenus la okazon mencii en kiu lingvo vi volus ricevi eldonaĵojn de la I. de M. Se sufiĉe multaj respondas al ĉi tiu letero, mi estas certa ke la I. de M. tre deziros mallongigi la tempon inter niaj Esperantaj eldonaĵoj.

Via en la servo de paco,



Arlo Tatum
Ĝenerala Sekretario


quarta-feira, 6 de março de 2024

Declaração de Pequim pelo esperanto


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/pequim-eo

Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Se anteontem relancei o artigo jornalístico sobre o 89.º Congresso Universal de Esperanto em Pequim, capital da China, em 2004, republico agora a “Pekina Deklaracio” (Declaração de Pequim), adotada no fim do mesmo encontro. Os autores evidenciam os progressos do esperanto nos últimos cem anos e parabenizam o governo chinês, que então apoiava a iniciativa dos esperantistas. Leia abaixo o original em esperanto, reproduzido no extinto portal “Ĝangalo”, minha tradução ao português e uma pequena introdução em esperanto!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Se antaŭhieraŭ mi relanĉis ĵurnalan artikolon pri la 89-a Universala Kongreso de Esperanto en Pekino, ĉefurbo de Ĉinio, en 2004, mi nun republikigas la Pekina Deklaracio, adoptita en la fino de la sama renkonto. La geaŭtoroj notigas la progresojn de Esperanto dum la lastaj cent jaroj kaj gratulas al la ĉina registaro, kiu tiam apogis la iniciaton de la geesperantistoj. Ĉi-sube vi povas legi la Esperantan originalon reproduktitan en la ne plu aktiva portalo “Ĝangalo” kaj mian tradukon al la portugala:


La 89-a Universala Kongreso de Esperanto, okazinta en Pekino, Ĉinio, de la 24-a ĝis la 31-a de julio 2004, kun 2 031 partoprenantoj el 51 landoj, traktinte la temon “Lingva egaleco en internaciaj rilatoj”, notante, ke la jaro 2004 markas 50 jarojn da oficialaj rilatoj inter UEA kaj Unesko, memorante, ke rezolucioj de Unesko notis la rezultojn atingitajn per Esperanto sur la kampo de internaciaj intelektaj interŝanĝoj kaj por la proksimigo de la popoloj de la mondo kaj rekonis, ke tiuj rezultoj respondas al la celoj kaj idealoj de Unesko, notante la “Raporton pri Homa Evoluigo 2004” de la Evoluiga Programo de Unuiĝintaj Nacioj, kiu asertas, ke la libereco de esprimado kaj la uzado de lingvo estas nedisigeblaj, alte taksante la agadon de la ĉina registaro, kiu, cele al pli justa kaj diverseca aliro al internacia interkompreniĝo, subtenas la instruadon kaj utiligon de Esperanto, konforme al la spirito de la rezolucio de Unesko,

DEKLARAS

  • ke demokratia kaj egalrajta komunikado en internaciaj rilatoj estas esenca por internacia interkompreno kaj paca kunlaboro surbaze de egalaj lingvaj rilatoj,
  • ke estas bezonata nova internacia lingva ordo, kiu garantiu egalecon, diversecon kaj demokration en lingvaj aferoj kaj efikan komunikadon inter nacioj kaj aliaj homgrupoj lingve malsamaj, ĉar en la nuna monda lingva situacio, kun kreskanta superrego de iuj lingvoj super aliaj, ne eblas realigi tiujn principojn,
  • ke neŭtrala komuna lingvo estu kerna elemento en tiu ordo, por atingi unuecon en diverseco inter la diversaj lingvoj kaj kulturoj je internacia nivelo,
  • ke sekve la internacia lingvo Esperanto, pruvinte dum pli ol cent jaroj siajn utilecon kaj praktikecon, meritas seriozan konsideron fare de internaciaj organizoj, ties membro-ŝtatoj kaj ĉiuj personoj kaj organizaĵoj de bona volo, kiuj respektas kaj deziras pacon kaj pacan kompreniĝon en egaleca etoso en nia hodiaŭa mondo,
  • ke por krei novan internacian lingvan ordon, kiu kontribuos al internacia kompreno kaj mondpaco, necesas forte subteni la enkondukadon de Esperanto en lernejojn, konforme al la spirito de la Unesko-rezolucioj, ĉar tio faciligas lingvolernadon ĝenerale kaj antaŭenigas internaciecan aliron al la mondo.


O 89.º Congresso Universal de Esperanto, ocorrido em Pequim, China, de 24 a 31 de julho de 2004, com 2 031 participantes de 51 países, que trataram do tema “Igualdade linguística nas relações internacionais”, lembrando que o ano de 2004 marca os 50 anos de relações oficiais entre a UEA (Associação Universal de Esperanto) e a Unesco, lembrando que resoluções da Unesco apontaram os resultados atingidos pelo esperanto sobre o campo do intercâmbio intelectual internacional e pela aproximação dos povos do mundo e reconheceram que esses resultados correspondem aos objetivos e ideais da Unesco, apontando o “Relatório sobre Evolução Humana 2004” do Programa Evolutivo das Nações Unidas, que garante que a liberdade de expressão e de uso de uma língua são inseparáveis, altamente avaliando a ação do governo chinês, que, visando ao mais justo e diversificado acesso à compreensão mútua internacional, sustenta o ensino e a utilização do esperanto, em conformidade ao espírito da resolução da Unesco,

DECLARA

  • que uma comunicação democrática e de direitos iguais nas relações internacionais é essencial para a compreensão mútua internacional e colaboração pacífica com base em relações linguísticas igualitárias,
  • que precisa-se de uma nova ordem linguística internacional que garanta a igualdade, a diversidade e a democracia em causas linguísticas, e de uma comunicação eficiente entre nações e outros grupos humanos de línguas diferentes, pois na atual situação linguística mundial, com a crescente dominação de algumas línguas sobre outras, não é possível realizar esses princípios,
  • que uma língua neutra comum deve ser o elemento essencial nessa ordem, para que se atinja a unidade na diversidade entre as diversas línguas e culturas a nível internacional,
  • que por conseguinte a língua internacional esperanto, comprovando por mais de cem anos sua utilidade e praticidade, merece uma consideração séria das organizações internacionais, de seus estados-membros e de todas as pessoas e organizações de boa vontade que respeitam e desejam a paz e a compreensão pacífica em uma atmosfera igualitária no nosso mundo de hoje,
  • que para que se crie uma nova ordem linguística internacional que contribuirá com a compreensão internacional e com a paz mundial, é fortemente necessário sustentar a introdução do esperanto nas escolas, em conformidade ao espírito das resoluções da Unesco, pois isso facilita o aprendizado de línguas em geral e adianta um acesso internacionalista ao mundo.



Grupo representativo dos falantes e propagandistas do esperanto pelo mundo.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Carta sobre a origem do esperanto


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Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Trata-se do famoso excerto de uma carta privada de L. Zamenhof ao russo Nikolái Afrikánovich Boróvko, escrita talvez em 1895 e impressa com permissão de ambos os correspondentes. Vladímir Gernét a traduziu do original russo (cujo texto, porém, se perdeu) pro esperanto e a publicou na revista Lingvo Internacia (Língua Internacional), n. 6-7, p. 115-119. Gernet é indicado como o tradutor, e certamente o próprio Zamenhof e o marquês de Beaufront revisaram o texto, e eu o traduzi pro português. Leia abaixo uma pequena introdução em esperanto e a íntegra da carta!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Temas pri celebra eltiro el privata litero de L. Zamenhof al la ruso Nikolaj Afrikanoviĉ Borovko, skribita eble en 1895 kaj presita kun permeso de ambaŭ korespondantoj. Vladimir Gernet tradukis ĝin el la rusa originalo (kies teksto, tamen, perdiĝis) al Esperanto kaj publikigis ĝin en la revuo Lingvo Internacia, n. 6-7, p. 115-119. Gernet estas indikata kiel la tradukinto, kaj certe Zamenhof mem kaj la Markizo de Beaufront revizis la tekston, kaj mi tradukis ĝin al la portugala. Ĉi-sube vi povas legi la tutan tradukon:



...O senhor me pergunta: como apareceu em mim a ideia de criar uma língua internacional e como foi a história da língua esperanto do momento de seu nascimento até hoje? Toda a história pública da língua, isto é, começando do dia em que saí abertamente com ela, é ao senhor mais ou menos conhecida; aliás, por muitas causas, é ainda inoportuno tocar neste período da língua; por isso, vou contar ao senhor, em traços comuns, somente a história do nascimento da língua.

Será difícil para mim contar ao senhor tudo isso em detalhes, pois muita coisa eu mesmo já esqueci: a ideia à qual dediquei toda minha vida para sua efetivação apareceu em mim – é engraçado dizê-lo – na mais tenra infância e, a partir desse tempo, nunca me abandonou; eu vivi com ela e nem posso me imaginar sem ela. Essa circunstância esclarecerá ao senhor em parte por que eu trabalhei sobre ela com tanta obstinação e porque eu, apesar de todas as dificuldades e da amargura, não abandonei essa ideia, tal como muitos outros fizeram tendo trabalhado no mesmo campo.

Nasci em Białystok, província de Grodno. Este lugar de meu nascimento e de meus anos infantis deu a direção a todos os meus objetivos futuros. Em Białystok, a população é formada de quatro elementos distintos: russos, poloneses, alemães e judeus; cada um desses elementos fala uma língua própria e se relaciona sem amizade com os outros elementos. Em tal cidade, mais do que em qualquer outro lugar, a natureza impressionante sente a pesada infelicidade da diversidade linguística e se convence a cada passo de que a diversidade de línguas é a única, ou ao menos a principal causa que dispersa a família humana e a divide em partes inimigas. Fui educado como um idealista; ensinaram-me que todos os homens são irmãos e, enquanto isso, na rua e no quintal, a cada passo tudo me fazia sentir que os homens não existem: existem somente russos, poloneses, alemães, judeus etc. Isso sempre atormentava fortemente minha alma infantil, embora muitos possivelmente rirão desta “dor pelo mundo” na infância. Por então me parecer que os “adultos” possuíam uma espécie de força todo-poderosa, eu constantemente repetia a mim mesmo que, quando eu fosse adulto, sem falta afastaria esse mal.

É claro que pouco a pouco eu me convencia de que nem tudo se faz tão fácil como parece a uma criança; fui jogando fora diversas utopias de criança, uma após a outra, e só o sonho por uma língua humana nunca pude jogar fora. De um modo confuso, eu de certa forma me atirei a ele, embora, é claro, sem quaisquer planos definidos. Não me lembro quando, mas em toda a ocasião, suficientemente cedo se formava em mim a consciência de que a língua única só pode ser neutra, não pertencendo a nenhuma das nações hoje vivas. Quando passei da Escola Real de Białystok (ela ainda era ginásio) para o segundo ginásio clássico de Varsóvia, fui durante algum tempo seduzido por línguas antigas e sonhava em um dia viajar pelo mundo inteiro e, com discursos flamejantes, inclinaria os homens a reviver uma dessas línguas para uso comum. Posteriormente, já não lembro quando, cheguei a uma firme convicção de que isso era impossível, e comecei a sonhar ocultamente com uma língua nova e artificial. Então, frequentemente começava alguns testes, elaborava riquíssimas declinações e conjugações artificiais. Mas uma língua humana com sua infinita, como me pareceu, pilha de formas gramaticais, com suas centenas de milhares de palavras, com as quais os grossos dicionários me atemorizavam, pareceu-me uma máquina tão artificial e colossal, que não foi só uma vez que eu dizia a mim mesmo: “Fora, sonhos! Esse trabalho não está conforme às forças humanas!” e, todavia, eu sempre voltava a meu sonho.

Eu aprendi alemão e francês na infância, quando ainda não se pode comparar e fazer conclusões; mas estando na 5.ª série do ginásio, quando comecei a aprender inglês, a simplicidade de sua gramática lançou-se em meus olhos, principalmente graças à íngreme passagem através dela das gramáticas latina e grega. Então, notei que a riqueza de formas gramaticais é apenas um cego acaso histórico, mas não é necessária à língua. Sob tal influência, comecei a vasculhar a língua e retirar as formas desnecessárias, e notei que a gramática sempre mais e mais derretia em minhas mãos, e logo cheguei à menor gramática possível, que ocupava, sem ser inútil à língua, não mais do que algumas páginas. Então, comecei mais seriamente a abandonar meu sonho. Mas ainda os léxicos gigantes nunca me deixavam tranquilo.

Uma vez, quando eu estava na 6.ª ou 7.ª série do ginásio, eu por acaso desviei a atenção à inscrição “shveytsarskaya” (portaria), que eu já tinha visto muitas vezes, e depois à tabuleta “konditorskaya” (doceria). Esse “skaya” despertou-me interesse e mostrou-me que os sufixos dão a possibilidade de se fazerem, de uma palavra, outras palavras que não precisam ser aprendidas separadamente. Esse pensamento me possuiu por inteiro, e subitamente senti o chão sob os pés. Sobre os terríveis léxicos gigantes caiu um raio de luz, e eles rapidamente começaram a encolher diante de meus olhos.

“O problema está resolvido!” – então eu disse. Eu captei a ideia dos sufixos e comecei a trabalhar bastante nessa direção. Eu compreendi que grande significado pode ter para uma língua criada conscientemente o uso pleno dessa força, cuja eficácia nas línguas naturais é pouca, cega, irregular e incompleta. Comecei a comparar palavras, procurar entre elas relações constantes e definidas, e todo dia eu retirava do vocabulário uma nova série enorme de palavras, substituindo esse colosso por um sufixo que significava uma certa relação. Então, notei que uma pilha muito grande de palavras puramente radicais (ex. “mãe”, “estreito”, “faca” etc.) podiam ser facilmente transformadas em palavras compostas, formadas [em esperanto, patrino, mallarĝa, tranĉilo], e desaparecer do léxico. A mecânica da língua estava diante de mim como que sobre as palmas das mãos, e já começava agora a trabalhar regularmente, com amor e esperança. Logo depois eu já tinha escrita toda a gramática e um pequeno dicionário.

A propósito, aqui eu direi algumas palavras sobre o material para o vocabulário. Muito antes, quando eu procurava e descartava tudo de inútil da gramática, eu quis usar os princípios da economia também para as palavras e, convencido de que tanto faz que forma terá essa ou aquela palavra se somente concordarmos que ela expressa a ideia dada, simplesmente inventava palavras, penando que elas fossem as mais curtas possíveis e não tivessem um número desnecessário de letras. Eu disse a mim mesmo que ao invés de usar palavras de 11 letras, como interparoli [conversar], podemos muito bem expressar a mesma ideia, por exemplo, com uma palavra de duas letras, como “pa”. Por isso, simplesmente escrevia a série matemática dos conjuntos de letras mais curtos, mas facilmente pronunciáveis, e a cada um eu dava o significado de uma palavra definida (ex. a, ab, ac, ad, ... ba, ca, da, ... e, eb, ec, ... be, ce, ... aba, aca, ... etc.). Mas eu logo descartei essa ideia, pois os testes feitos comigo mesmo me mostraram que tais palavras inventadas são muito difíceis de ser aprendidas e ainda mais difíceis de ser memorizadas. Então, já me convencia de que o material para o léxico deveria ser latino-germânico, sendo mudado só o quanto pedissem a regularidade e outras condições importantes da língua. “Já estando sobre essa terra”, logo notei que as línguas modernas possuem uma enorme provisão de palavras prontas já internacionais, que são conhecidas por todos os povos e constituem um tesouro para uma futura língua internacional – e obviamente me utilizei desse tesouro.

No ano de 1878, a língua já estava mais ou menos pronta, embora entre a então “lingwe uniwersala” [língua universal] e o atual esperanto ainda havia uma grande diferença. Eu a divulguei entre meus colegas (eu então estava na 8.ª série do ginásio). A maioria deles foi seduzida pela ideia e pela incomum facilidade da língua, o que os percutia, e começaram a aprendê-la. Em 5 de dezembro de 1878, nós todos solenemente festejamos juntos a santificação da língua. Durante essa festa, houve discursos na nova língua, e com entusiasmo cantamos o hino, cujas palavras iniciais eram as seguintes:


“Malamikete de las nacjes
Kadó, kadó, jam temp’ está!
La tot’ homoze in familje
Konunigare so debá.”

(“A inimizade entre as nações
Caia, caia, já é tempo!
Toda a humanidade, em uma só família,
Deve se unir.”)


Sobre a mesa, além da gramática e do dicionário, repousavam algumas traduções na nova língua.

Assim se encerrou o primeiro período da língua. Então, eu ainda era muito jovem para sair publicamente com meu trabalho, e eu decidi esperar ainda cinco, seis anos e, durante esse tempo, cuidadosamente testei a língua e plenamente a trabalhei na prática. Meio ano depois da festa de 5 de dezembro, acabamos o curso ginasial e nos dispersamos. Os futuros apóstolos da língua experimentaram falar um pouco da “nova língua” e, deparando-se com as zombarias dos adultos, eles logo se apressaram em desconfessar a língua, e eu fiquei totalmente só. Prevendo só zombarias e perseguições, decidi esconder meu projeto de todos. Durante 5 anos e meio de minha permanência na universidade, nunca falava com ninguém sobre meu trabalho. Esse tempo foi muito difícil para mim. A “clandestinidade” me atormentava; obrigado a cuidadosamente esconder meus pensamentos e planos, quase não permanecia em nenhum lugar, não participava de nada, e a mais bela época da vida – os anos de estudante universitário – foram para mim os mais tristes. Às vezes eu tentava me distrair na sociedade, mas me sentia como um estranho, suspirava e ia embora, e de tempos em tempos acalmava meu coração com algum poema na língua trabalhada por mim. Mais tarde, coloquei um desses poemas (Mia penso, “Meu pensamento”) na primeira brochura editada por mim; mas aos leitores que não sabiam em que circunstâncias esse poema foi escrito, ele obviamente aparenta ser estranho e incompreensível.

Durante seis anos trabalhei aperfeiçoando e testando a língua, – e eu tive bastante trabalho, embora no ano de 1878 me parecesse que a língua já estava totalmente pronta. Fiz muitas traduções para minha língua, escrevi nelas obras originais e vários testes me mostraram que o que me parecia totalmente pronto na teoria, ainda não estava pronto na prática. Tive de esculpir, substituir, corrigir e transformar radicalmente muita coisa. Palavras e formas, princípios e exigências impeliam e atrapalhavam uns aos outros, enquanto na teoria, tudo separadamente e em pequenos testes, eles me parecessem totalmente bons. Tais objetos, como a preposição universal je [usada quando nenhuma das outras consegue expressar o sentido desejado], o verbo elástico meti [pôr, colocar, meter], a terminação neutra, mas definida, -aŭ etc., provavelmente nunca mergulhariam teoricamente em minha cabeça. Algumas formas, que para mim pareciam uma riqueza, agora se mostravam, na prática, um peso morto; assim, por exemplo, tive de jogar fora alguns sufixos desnecessários. No ano de 1878, parecia-me que, para a língua, era suficiente ter gramática e léxico; eu atribuía a sobrecarga e a deselegância da língua somente ao fato de que eu ainda não a dominava bem o suficiente; então, a prática sempre mais e mais me convencia de que a língua ainda precisava de uma espécie de “algo” insondável, o elemento de coligação que dava à língua vida e um “espírito” definido, totalmente formado. (O desconhecimento do espírito da língua é a causa pela qual alguns esperantistas, que leram muito pouco na língua esperanto, escrevem sem erros, mas em um estilo pesado, desagradável – enquanto os esperantistas mais experientes escrevem em um estilo bom e totalmente idêntico, qualquer que seja a nação à qual eles pertençam. Sem dúvida, com o tempo, o espírito da língua, embora aos poucos e imperceptivelmente, mudará muito; mas se os primeiros esperantistas, pessoas de diversas nações, não encontrassem na língua um espírito fundamental todo definido, cada um começaria a puxar para seu lado e a língua permaneceria eternamente, ou ao menos durante um tempo muito longo, uma coleção de palavras desengonçada e sem vida.) Então, comecei a evitar traduções literais desta ou daquela língua e penei em pensar diretamente na língua neutra. Depois, notei que a língua, em minhas mãos, já deixava de ser uma sombra sem fundamentos desta ou daquela língua, com a qual eu estava lidando neste ou naquele minuto, e recebia seu próprio espírito, sua própria vida, a própria fisionomia definida e claramente expressa, já independente de qualquer tipo de influência. A fala já fluía sozinha, flexível, graciosa e totalmente livre, como uma língua materna viva.

Por um longo tempo, uma circunstância ainda me fazia adiar minha saída pública com a língua: durante um longo tempo, um problema não ficou resolvido, e que tem um enorme significado para uma língua neutra. Eu sabia que todos me diriam: “Sua língua só será útil para mim quando o mundo inteiro a aceitar; por isso, não posso aceitá-la até que o mundo inteiro a aceite.” Mas dado que o “mundo” não é formado sem “unidades” antes separadas, a língua neutra não podia ter futuro até que conseguisse tornar-se útil para cada pessoa à parte, independentemente se já é uma língua aceita ou não pelo mundo. Fiquei muito tempo pensando nesse problema. Finalmente, os chamados “alfabetos secretos”, que não exigem que o mundo os aceite de antemão e dão a um destinatário totalmente desinformado a possibilidade de entender tudo o que você escreveu somente se você lhe passar a “chave” com os significados, conduziu-me a pensar em arranjar também a língua aos modos de tal “chave”, que, contendo em si não somente todo o léxico, mas também toda a gramática de elementos separados, totalmente independentes e ordenados em ordem alfabética, daria a possibilidade do destinatário/leitor totalmente desinteressado, de qualquer nação, compreender imediatamente sua carta.

Terminei a universidade e comecei minha prática médica. Agora, já começava a pensar na saída pública com meu trabalho. Aprontei o manuscrito de minha primeira brochura (Dr. Esperanto – Uma língua internacional: Prefácio e manual completo) e comecei a procurar um editor. Mas pela primeira vez, eu aqui encontrei a amarga prática da vida, a demanda financeira com a qual, posteriormente, ainda devia e devo batalhar muito fortemente. Durante dois anos, em vão procurei um editor. Quando eu já tinha encontrado um, ele aprontou minha brochura para edição durante meio ano e, ao fim, recusou. Finalmente, depois de longos esforços, eu mesmo consegui editar minha primeira brochura em julho do ano de 1887. Antes disso, eu estava muito excitado; eu sentia que estava diante do Rubicão (*) e que do dia em que aparecesse minha brochura, eu já não teria a possibilidade de regressar; eu sabia que sorte esperava um médico que depende do público, se esse público via nele um fantasioso, um homem que se preocupa com “causas apensas”; eu sentia que estaca pondo em jogo toda a tranquilidade futura e as existências minha e de minha família; mas eu não podia deixar a ideia que adentrou meu corpo e meu sangue, e... eu atravessei o Rubicão. (*)


Luís Lázaro Zamenhof.


(*) Nota de tradução – “Atravessar o Rubicão” (em esperanto, transiri Rubikonon: frase que se costuma proferir quando se toma uma decisão arrojada e decisiva, em referência a um pequeno rio que separava a Itália da Gália Cisalpina. (Dicionário Completo Esperanto-Português, Federação Espírita Brasileira, 1996.)



terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Como Zamenhof criou o esperanto?


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/criacao-eo

Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Trata-se de dois textos escritos originalmente em esperanto pelo brasileiro Antônio Luís Lourenço dos Santos, pelo qual ele descreve o material usado por Zamenhof pra criar aquela língua, quais sejam as origens etimológicas do vocabulário e o conhecimento linguístico do médico. Seus títulos em português são “Origem e internacionalidade do esperanto” (escrito e publicado em 1989 pela revista Brazila Esperantisto) e “Conhecimento linguístico de Zamenhof”. Eu os traduzi em português e dei o novo título “Como Zamenhof criou o esperanto?”. Seguem abaixo uma pequena introdução em esperanto e a tradução dos dois textos, com a ortografia e a redação atualizadas!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Temas pri du tekstoj verkitaj originale en Esperanto de la brazilano Antônio Luís Lourenço dos Santos, per kiuj li prisrkibas la materialon uzatan de Zamenhof por krei tiun lingvon, nome la etimologiajn devenojn de la vortaro kaj la lingvoscion de la kuracisto. Iliaj titoloj estas “Deveno kaj internacieco de Esperanto” (verkita kaj publikigita en 1989 de la revuo Brazila Esperantisto) kaj “Lingvoscio de Zamenhof”. Mi tradukis ilin al la portugala lingvo kaj donis la novan titolon “Kiel Zamenhof kreis Esperanton?”. Ĉi-sube vi povas legi miajn du tradukojn al la portugala, nur kun etaj ĝisdatigoj en la ortografio kaj la redaktostilo:



1. Origem e internacionalidade do esperanto

Introdução – Muitos esperantistas, principalmente iniciantes, têm curiosidade em saber como Zamenhof criou o esperanto. A curiosidade não é sobre a história em si da língua, que é muito bem divulgada, mas a origem internacional, ou, em outras palavras, de que línguas vêm a gramática, os afixos, os radicais, os correlativos e outros aspectos linguísticos.

Os esperantistas sabem bem que Zamenhof era um homem genial que dominava muito bem muitas línguas naturais, como o russo (sua língua materna), o alemão, o hebraico, o ídiche (judeu-alemão), o polonês, o francês, o latim e o grego. Além disso, ele sabia um pouco do inglês e do aramaico. Zamenhof usou esse vasto conhecimento pra criar o esperanto. Todavia, dois aspectos então o deixavam com medo: gramática e grandes vocabulários. Investigando a literatura esperantista, encontram-se várias informações dignas de conhecimento, que, embora incompletas, nos dão muitas explicações. Pode-se resumi-las no seguinte:

Gramática – L. L. Zamenhof sabia muito bem o hebraico e, por isso, uma parte importante da gramática vem dessa língua. Os conhecimentos de hebraico foram muito úteis ao Doutor Zamenhof: ele aproveitou muito mais do que externamente parece pra simplificar a língua conforme os moldes hebraicos. Pro vocabulário, o hebraico não pôde ajudar de forma alguma, pois seus radicais não são internacionais; mas a gramática hebraica deu uma enorme inspiração a Zamenhof. Mencionemos somente alguns pontos:

  1. O hebraico não tem artigo indefinido e tem somente um único artigo definido imutável, tal como no esperanto.
  2. No hebraico não há ditongos, pois as letras “ŭ” (ŭo; pronuncia-se “uô”) e “j” (jo; pronuncia-se “iô”) são consoantes, tal como no esperanto.
  3. O hebraico não possui o modo subjuntivo, e o esperanto também não.
  4. Tal como o hebraico, o esperanto também não possui formas especiais simples pra distinguir perfeito e imperfeito nos verbos.
  5. O hebraico e o esperanto só possuem os casos nominativo e acusativo.
  6. A terminação “u” pro imperativo é hebraica e árabe, e não uma invenção caprichosa de Zamenhof.
  7. Tal como no esperanto, o vocabulário hebraico é disposto conforme os radicais. (1)

Entre as experiências do autor do esperanto, houve também a que tratava da necessidade de um “Fundamento Intocável”, que no hebraico é a “Bíblia”, na qual ninguém tem o direito de mudar ou corrigir coisa alguma; nunca se corrige nem o erro mais evidente na língua hebraica. Somente se menciona na borda da página como se deve ler corretamente a palavra errada, mas esta permanece e é eternamente copiada ou representada sem mudanças. Essa intocabilidade do texto modelar eternizou a unidade da língua hebraica através do mundo. Zamenhof criou o “Fundamento Intocável” pro esperanto, e ainda traduziu a Bíblia, que, para muitas pessoas, ainda é um modelo imutável. Certamente a língua vai crescer no uso moderno, todavia, sempre vão se respeitar os modelos intocáveis. Pra nós, esses modelos são o Fundamento do Esperanto, a Crestomatia Fundamental (2) e outras obras de nosso genial mestre.

Esses princípios experimentados no hebraico através de milênios de vivência consideravelmente simplificaram e facilitaram a gramática do esperanto; mas o aspecto externo da língua, aparentemente, é totalmente ocidental, pois os radicais, afixos e terminações gramaticais internacionais são ocidentais. Dizemos “aparentemente”, pois a aglutinação (3) em esperanto também não é ocidental, mas oriental.

Outros pontos gramaticais consideráveis são os seis particípios e a conjunção kaj (e), que Zamenhof tirou do grego, e as formas unidas de uma preposição com o artigo, que se baseiam no italiano, como, por exemplo, ĉe l’ (em casa de), tra l’ (através de), de l’ (de).

Em relação à terminação substantiva “o” e à plural “j”, o sr. N. Z. Majmon forneceu uma suposição muito interessante aos estudos esperantológicos. No perfeito livro de estudos de Gaston Waringhien, Língua e Vida – Ensaios Esperantológicos, o sr. Majmon defende a hipótese de que Zamenhof poderia ter fornecido o final substantivo em esperanto “o” e o plural “j” conforme o modelo do aramaico. Teria eleito Zamenhof, conforme esse modelo, a terminação substantiva singular “o” e a plural “oj”? Seria mais lógico supor que, destinando o esperanto primeiramente ao público europeu, Zamenhof retirou a terminação “o” do italiano (uomo = homo = homem, amico = amiko = amigo, angelo = anĝelo = anjo) ou do espenhol (canto = kanto, estilo = stilo, mano = mano = mão). Todavia, pode ser que inconscientemente justamente a terminação aramaica “o” pra muitos substantivos, com seu “j” no plural, fixando-se na memória subconsciente do mestre durante sua tenra juventude, passando pelos modelos italiano e espanhol, tenha ditado ao mestre sua decisão. Seja assim, seja de outra forma, mas a hipótese do sr. Majmon sem dúvida nos salta aos olhos.

Afixos – Com relação aos grandes vocabulários, o problema foi resolvido ao acaso. O próprio Zamenhof conta esse acontecimento em uma carta de 1895 ao sr. Nikolai Afrikanovich Borovko:

Certa vez, quando estava na 6.ª ou 7.ª série do ginásio, desviei minha atenção por acaso à inscrição “shveytsarskaya” (portaria), que eu já vi muitas vezes, e depois a tabuleta “konditorskaya” (doceria). Esse “skaya” me despertou interesse, e mostrei a mim mesmo que os sufixos dão a possibilidade de, a partir de uma palavra, fazer outras que não precisam ser decoradas separadamente. Este pensamento me possuiu por inteiro, e subitamente senti a terra sob os pés. Sobre os terríveis vocabulários gigantescos caiu um raio de luz, e eles começaram a encolher rapidamente diante de meus olhos. “O problema está resolvido!” – então eu disse. Captei a ideia dos sufixos e comecei a trabalhar muito nesta direção. Compreendi que grande significado pode ter para a língua conscientemente criada o pleno uso dessa força que em línguas naturais funciona só em parte, cegamente e de forma vazia.

Em línguas nacionais, há afixos que frequentemente têm significados diferentes, e, do contrário, também existem vários afixos que expressam a mesma ideia; então, das muitas línguas que Zamenhof sabia, ele pegou seus afixos pra economizar ao aprendiz a aquisição de muitas palavras à parte. Ele escolheu os afixos que têm similares em muitas línguas diversas, facilitando assim a memorização de palavras pra diversos povos. Sobre a etimologia dos afixos, observemos a lista abaixo, não esquecendo que alguns afixos foram processados por Zamenhof e outros foram oficializados pela Academia de Esperanto:

a) Do francês: bo - ad - aĵ - on.
b) Do alemão: ge - mis - ej - em - er - ig - in - ing.
c) Do russo: pra - ar - ĉj - eg - il - nj.
d) Do latim: dis - mal - re - an - ind - ist - ul - um - fi - end.
e) Do grego: ek - id - ism.
f) Do inglês: ebl.
g) Do italiano: aĉ - ec - estr.
h) Das línguas românicas: eks - et.
i) Das línguas eslavas: uj.
j) O sufixo “iĝ”, usado pra ideia de “tornar-se”, aproxima-se de um sufixo italiano, embora isso seja mera coincidência.
k) O sufixo “obl” é composto pela vogal alemã “o” e pelas consoantes “bl” do inglês (doppelt = double = duobla = duplo).
l) O sufixo “op” é uma inversão da preposição distributiva “po”, que em esperanto tem o mesmo significado da equivalente russa. No Plena Ilustrita Vortaro (Dicionário Ilustrado Completo), encontramos um exemplo dela: Ili marŝis po kvar en vicoj = Ili marŝis kvarope en vicoj (Eles marcharam em filas de quatro).

Ainda lembremos, algumas vezes, que embora um sufixo ou outro venha de uma língua definida, pode-se encontrar esse mesmo afixo em várias outras línguas.

Tabela dos correlativos – Também é mencionável a origem da “tabela dos correlativos”. Zamenhof não a inventou arbitrariamente, e seus elementos não foram escolhidos ao acaso. Há tabelas incompletas em línguas eslavas, como, por exemplo, no búlgaro, no russo, no letão, no lituano, no checo, no sérvio e no eslovaco. Zamenhof as estudou e processou logicamente. Vejamos abaixo:

  • “I” – a letra inicial “i” vem do alemão irgendein (de alguma forma), irgendeiner (alguém).
  • “Ĉ” – poderia bem ser do polonês wszyscy (todos).
    “ES” – a terminação “es” concorda com o genitivo do alemão wessen (de quem?), des, dessen (dessa pessoa).
  • “IE” – a terminação “ie” faz lembrar o polonês gdzie (onde?), nigdzie (em nenhum lugar).
  • “K” – a letra inicial “k” corresponde à palavra interrogativa kia (como? de que tipo?).
  • “T” – a letra inicial “t” corresponde à palavra demonstrativa tia (desse tipo).
  • “NEN” – negativa “nen”.

Estas três últimas (K, T, NEN) são comuns a muitas línguas, como o búlgaro, o português, o russo, o italiano, o lituano, o esloveno, o checo, o croata, o letão, o sérvio, o espanhol, o romanche (ou rético), o francês, o polonês e o eslovaco.

Conclusão – De tudo dito acima, podem-se ver diversos aspectos da origem das palavras em esperanto, e principalmente a genialidade de nosso caro e memorável Mestre Zamenhof, que não foi somente um homem genial, mas também possuiu desde a juventude saberes que vários linguistas nunca adquirem sobre a existência e a estrutura de línguas que funcionam internacionalmente; por isso, ele criou nossa admirável língua com perfeita segurança, conforme modelos vivos, e nossa língua internacional viva já se tornou centenária (atualmente com 112 anos).


2. Conhecimento linguístico de Zamenhof

Nosso caro Mestre Zamenhof, o criador do esperanto, tinha ótimos conhecimentos linguísticos que podemos constatar pela compilação abaixo:

Ídiche – Zamenhof sabia bem o ídiche. A primeira língua do menino Lázaro foi um jargão que ele aprendeu de sua mãe, Liba, do bairro em que ele nasceu e na escola hebraica elementar.

Alemão – Zamenhof sabia perfeitamente o alemão. De sua mãe, Liba, ele o aprendeu. Ele estudou o alemão no Ginásio Real de Białystok (três anos), no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia (cinco anos) e na Universidade de Moscou (um ano).

Russo – Zamenhof sabia bem o russo, pois era sua língua materna. Em carta de 8 de março de 1906 a Th. Thorsteinsson, Zamenhof diz: “Minha língua materna é a russa”. O prof. G. Waringhien, em seu estudo sobre Lázaro Zamenhof, publicado em Esperanto, n. 649, de dezembro de 1959, diz: “Zamenhof sempre enxergou o russo como sua língua materna [...] e sentia a Lituânia como sua pátria”. Em carta de 21 de fevereiro de 1905 a A. Michaux, Zamenhof conta: “A língua materna sempre foi para mim o objeto mais querido do mundo. Sempre amei mais essa língua, na qual fui educado, isto é [...] a língua russa; eu a aprendi com o maior prazer; já sonhei em tornar-me um grande poeta russo. Também aprendi com prazer diversas outras línguas, mas elas me interessavam mais na teoria do que na prática [...] Em minha infância muito amei de paixão a língua russa e todo o reino russo; mas logo me convenci de que pagam meu amor com ódio”.

Hebraico – Zamenhof sabia muito bem o hebraico. Em escolas judaicas, a língua hebraica era obrigatoriamente ensinada aos garotos. Zamenhof frequentava a escola elementar hebraica e aprendia o hebraico. Marcos, pai de nosso mestre, foi um ótimo hebraísta, ensinou o hebraico a seu filho e, por isso, Zamenhof o aprendeu a fundo.

Francês – Zamenhof sabia bem o francês. Ele o aprendeu de sua mãe, Liba. Seu pai, na escola estatal de ensino médio, ensinava geografia e línguas modernas, e ajudou seu filho a aprender o francês. Ele estudou francês no Ginásio Real de Białystok e no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia.

Polonês – Zamenhof sabia bem o polonês. Ele o aprendeu já em Białystok, na Rússia (hoje Polônia). Em carta de 21 de fevereiro de 1905, ele revelou a A. Michaux que falava fluentemente em polonês. Com seus familiares, Zamenhof falava o russo, a língua do Estado, pois Varsóvia pertencia à Rússia. Só quando havia um visitante polonês, Zamenhof, por gentileza, usava o polonês. Por isso, os visitantes poloneses na casa de Zamenhof ouviam a língua polonesa.

Latim – Zamenhof sabia bem o latim. Em dezembro de 1873, Zamenhof se mudou pra Varsóvia e começou a aprender latim sozinho. De agosto de 1874 até junho de 1879, ele o estudou no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia. Numa entrevista de agosto de 1907, Zamenhof contou que, na universidade, ele dedicou atenção especial à língua latina.

Grego – Zamenhof sabia muito bem o grego. Em dezembro de 1873, Zamenhof começou a aprendê-lo por conta própria. Ele também o estudou no 2.º Ginásio Masculino de Varsóvia. Apesar de Zamenhof ter boas notas principalmente em grego, ele não se julgou competente o suficiente pra fazer uma tradução do Novo Testamento da língua grega. No prefácio a Gênesis – Primeiro livro de Moisés, Zamenhof conta: “Há tempos atrás já pensava em começar uma tradução sistemática da Bíblia. Deixando o Novo Testamento a outros tradutores mais competentes, escolhi o Antigo Testamento”.

Inglês – Zamenhof lia a língua inglesa. Em carta de 1895 a N. Borovko, Zamenhof diz: “Estando na 5.ª série do ginásio, comecei a aprender inglês”. Em carta de novembro de 1902 a E. A. Lawrence, Zamenhof escreve: “Perdoe por lhe escrever em esperanto, pois domino muito pouco a língua inglesa”.

Italiano – Não há indícios diretos de que Zamenhof soubesse italiano. No artigo “Essência e Futuro da Ideia de uma Língua Internacional”, escrito em 1899, Zamenhof diz:

No que consiste a superioridade do esperanto diante do volapuque (4), é claro que não podemos analisar aqui em todos os detalhes; como exemplo, mostrarei que, enquanto o volapuque soa muito selvagem e indelicado, o esperanto é cheio de harmonia e estética, e por si faz-nos lembrar do italiano.

No artigo “Esperanto: A New International Language”, publicado em The Independent, Nova York, agosto de 1904, Zamenhof, entre outras coisas, escreve: “Apesar de sua construção puramente matemática, todavia, o esperanto agrada aos ouvidos. Sua sonoridade é muito parecida com a do italiano”. A língua italiana é reconhecida como a que soa mais belamente. Exemplos citados acima nos fazem crer que Zamenhof estudou italiano.

Outras línguas – Zamenhof conhecia vários outros idiomas, não como um especialista profissional. Entre eles estão: espanhol, holandês, mordoviano, (5) lituano, árabe, norueguês, dinamarquês, islandês e aramaico. Dessas línguas ele pegou muitas palavras, afixos e a gramática.


Notas (clique pra voltar ao texto)

(1) Por exemplo: a palavra pano (pão) vem antes da palavra paneo (pane, falência), pois o radical da primeira (pan-) é alfabeticamente anterior ao da segunda (pane-).

(2) Crestomatia Fundamental é uma grande coletânea das obras de Zamenhof unidas numa só coleção, que tratam em especial do esperanto.

(3) Fenômeno muito comum em línguas como o húngaro, o alemão e o turco, em que podemos formar infinitas palavras por meio da simples junção de radicais, afixos etc. Exemplos: sukero (açúcar) + kano (cana) = sukerkano (cana de açúcar).

(4) ”Volapuque” (ou volapük = vol, mundo + pük, fala) foi um idioma inventado em 1879 pelo alemão Johann Martin (João Martinho) Schleyer com a mesma finalidade do esperanto, obtendo um certo sucesso até a criação do idioma de Zamenhof, quando muitos clubes volapuquistas começaram a usá-lo.

(5) Refazendo esta nota em 2024, ressalto que o então chamado “mordoviano” (ou mordovínico) era considerado um idioma do grupo fino-úgrico (o mesmo do finlandês e do húngaro) da família urálica de línguas do mundo, nativo da atual República da Mordóvia, na Rússia. Porém, novas classificações falam num ramo “mordoviano” ou “mordovínico” dentro do grupo fino-úgrico, em que se encaixariam dois idiomas, muito pouco falados e não inteligíveis entre si: o moksha e o erzia (ou erzya).

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Por que esperanto é pouco divulgado


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/eo-divulgado

Aqui está outro texto que publiquei num antigo site sobre esperanto por mim mantido entre 2005 e ca. 2007. Trata-se da tradução em português, a partir do esperanto, de um pequeno texto aparecido pela primeira vez em 2001 ou 2002. Ele faz parte de um conjunto de perguntas frequentes sobre o esperanto, e consistindo na 2.ª pergunta, tinha como título “Se Esperanto estas tiel bona, kial ĉiuj ne jam adoptis ĝin tra la tuta mondo?” (“Se o esperanto é tão bom, por que todos já não o adotaram no mundo todo?”) e foi compilado, reescrito e ampliado pela espanhola Olga López. Em meu site, o publiquei com o título “Kial Esperanto estas malmulte disvastigata?” (“Por que o esperanto é pouco divulgado?”), e seguem abaixo minha tradução e o original, com uma pequena introdução em esperanto!


Jen alia teksto, kiun mi publikigis en malnova retejo pri Esperanto de mi subtenita inter 2005 kaj ĉ. 2007. Ĝi estas traduko de Esperanto al la portugala lingvo de mallonga teksto unuafoje aperigita en 2001 aŭ 2002. Ĝi estas parto de kompilaĵo kun oftaj demandoj pri Esperanto, kaj konsistanta el la 2-a demando, havis la titolon “Se Esperanto estas tiel bona, kial ĉiuj ne jam adoptis ĝin tra la tuta mondo?” kaj estis kompilita, reverkita kaj daŭrigota de la hispanino Olga López. En mia retejo, mi republikigis ĝin kun la titolo “Por que o esperanto é pouco divulgado?” (“Kial Esperanto estas malmulte disvastigata?”), kaj ĉi-sube vi povas legi la portugallingvan tradukon kaj la Esperantan originalon:



As causas são econômicas, culturais, políticas, mas principalmente devido a informações propositalmente errôneas que o atacam já faz mais de um século.

Econômicas: A língua imposta ao resto do mundo (ontem o francês, hoje o inglês, amanhã possivelmente o alemão ou o japonês) dá a seu país de origem uma grande quantia em dinheiro através de direitos autorais de livros e filmes. Eles também difundem costumes e modos de vida que criam a necessidade por mercadorias avulsas, como calças jeans e Coca Cola, o que gera dinheiro para a metrópole.

Culturais: Apoiam-se sobre a língua, e a cultura anglo-americana foi a que mais se difundiu pelo mundo tal como se vê em nossas TVs, de onde aprendemos sobre os problemas de moradores de Nova York ou da Califórnia com mais frequência do que sobre os de Quioto, Catmandu, Addis Abeba ou Tijoco de Abajo (ilha de Tenerife).

Políticas: Canais informativos oficiais fluem em uma direção: de cima pra baixo. A moda, os gostos e os modos de pensar sempre vêm do mundo anglófono, com exceção de coisas sem importância. A informação é um poder, e aquele que controla a informação pode controlar a opinião de qualquer um e o modo de pensar de nações inteiras. Se eu posso falar em alguma língua tão facilmente quanto o espanhol com um amigo do Irã – por exemplo – que domina a mesma língua tão facilmente quanto o árabe, ela seria altamente perigosa para todos os que temem a verdade, pois me aproximo da cultura dele e assim repenso muitas “verdades” oficiais, e a suposta superioridade dos modos ocidentais de pensar e viver possivelmente apresentariam outra cara, menos desejada do que usualmente se acha, geralmente. Se poucos de nós podem fazer isso, isso não importa aos poderosos do Ocidente, pois são apenas alguns lunáticos que deixaram o rebanho. Se todos nós fizessem isso, muitas políticas deveriam ser refeitas – principalmente aquelas tocantes ao Terceiro Mundo (*) –, pois quando mentiras oficiais colidem com vivências reais das pessoas, elas reagem contra seus anunciadores.

(*) Atualmente (2024), a expressão “Terceiro Mundo” não é mais tão comum quanto, por exemplo, “países em desenvolvimento” ou “subdesenvolvidos” e “Sul Global”.


Éticas: A Lei do Mais Forte não tolera que as outras pessoas mantenham poder de decisão. Se cada povo da Terra fosse escutado, não haveria tanta diferença entre o Norte e o Sul. Junto às Nações Unidas podem-se escutar todos os países, mas somente em alguma das seis línguas poderosas que marginalizam e discriminam as outras duas mil, novecentas e noventa e três! Expressa-se exatamente o que se quer dizer na própria língua tão bem como em nenhuma outra língua, e se é necessário discutir ou lutar por uma proposta ou uma emenda, a própria língua é a mais adequada. Esse é o maior mal junto à ONU e o que a Comunidade Europeia quer evitar por meio de seu fantasioso plano multilíngue que engole três quartos do orçamento. Quando os senhores europeus estão terminando de falar, resta pouco dinheiro para fazer o que eles disseram que iam fazer, pois já gastaram quase todo o disponível para traduzir sua conversa... De fato, o uso exclusivo do inglês para relações internacionais já produziu o resultado indesejável de se considerar condenável tudo o que não é inglês, como, por exemplo, o uso do véu facial pelas mulheres muçulmanas, ou os turbantes indianos, que são tão respeitados religiosamente quanto a fidelidade conjugal ou uma caridade cristã.

Se tudo isso pudesse ser debatido igualitária e camaradamente por pessoas de diversas culturas, a atual “doca” desabaria, pois uma informação não seria mais filtrada por tradutores, intérpretes e agências de notícias que censuram – consciente ou inconscientemente – aquilo que eles transmitem conforme alguns interesses criados, entre os quais seu interesse intermediador não é o menor...

Por isso, nenhum país investe um tostão para ajudar na divulgação de um idioma fácil, confiável e democrático, que respeita os direitos dos habitantes dos países para falar da maneira que eles quiserem. Durar um século e ser falado pelo mundo todo é uma garantia de que, de fato, o esperanto é mesmo bom.


La kaŭzoj estas ekonomiaj, kulturaj, politikaj, sed ĉefe pro misinformaĵoj volantaj, kiuj atakas ĝin de antaŭ ol jarcento.

Ekonomiaj: La lingvo altrudita al resto de la mondo (hieraŭ la franca, hodiaŭ la angla, morgaŭ eble la germana aŭ la japana) donas al sia originlando grandan kvanton da mono kiel kopirajtoj de filmoj kaj libroj. Ankaŭ ili disvastigas kutimojn kaj vivmanierojn, kiuj kreas bezonojn por apartaj varoj, kiel drelikaj pantalonoj kaj Coca Cola, kio faras monon por la metropolo.

Kulturo: Apogas sin sur la lingvo, kaj angl-usona kulturo plej disvastiĝis tra la mondo tiel, kiel oni vidas sur niaj televidoj, el kie ni lernas pri la problemoj de loĝantoj de Novjorko aŭ Kalifornio pli ofte ol pri tiu de Kjoto, Katmandu’, Addis Abeba aŭ Tijoco de Abajo (insulo Tenerifo).

Politikaj: Oficialaj informaj kanaloj fluas unudirekten: supre malsupren. Modo, plaĉoj kaj pensmanieroj ĉiam venas el la angla mondo, escepte pri sengravaj aferoj. Informado estas povo, kaj tiu, kiu kontrolas informadon, povas kontroli la onian opinion kaj pensamanieron de tutaj nacioj. Se mi povas paroli iulingve tiel facile kiel hispane kun amiko de Irano – ekzemple – kiu regas saman lingvon tiel facile kiel la araban, ĝi estus alte danĝera por ĉiuj, kiuj timas veron, ĉar mi alproksimiĝas multe al lia kulturo kaj tial repensas multajn oficialajn “verojn” kaj la supozita supereco de la manieroj okcidentaj por pensi kaj vivi eble prezentus alian vizaĝon, malpli dezirata ol oni kutime opinias, ĝenerale. Se malmultaj el ni povas fari tion, ne gravas al povuloj okcidentaj, ĉar estas nur kelkaj lunatikoj kiuj lasis la ŝafaron. Se ni ĉiuj farus tion, multaj politikoj devus refariĝi – ĉefe tiuj tuŝantaĵ la Trian Mondon (*) –, ĉar kiam oficialaj mensogoj kolizias realajn vivaĵojn de personoj, ili reagas kontraŭ siaj eldirantoj.

(*) Nuntempe (2024), la termino “Tria Mondo” ne estas plu tiel ofte uzata, kiel ekz. “evoluiĝantaj” aŭ “malplej evoluigitaj landoj” kaj “Globala Sudo”.


Etikaj: La Leĝo de la Plej Fortulo ne toleras, ke aliuloj tenu decidan povon. Se ĉiu popolo el la Tero estus aŭskultita, ne estus tiom da diferenco inter Nordo kaj Sudo. Ĉe Unuiĝintaj Nacioj oni povas aŭskulti ĉiujn landojn, sed nur en iu el la ses povaj lingvoj, kiuj marĝenigas kaj disriminacias la aliajn du mil naŭcent naŭdek tri! Oni esprimas ekzakte tion, kion oni volas diri en la propra lingvo tiel bone, kiel en neniu alia lingvo, kaj se necesas diskuti aŭ lukti por propono aŭ amendo, pli taŭgas sia lingvo. Tiu estas la plej granda malbono ĉe UN kaj kion la Eŭropa Komunumo volas eviti pere de sia ĥimera plurlingva plano, kiu englutas tri kvaronojn de budĝeto. Kiam la eŭropaj moŝtoj estas finintaj paroli, restas malmulte da mono por fari tion, kion ili diris, ke ili faros, ĉar ili jam elspezis preskaŭ ĉion havebla por traduki sian babiladon... Fakte, la ekskluziva uzo de la angla por internaciaj rilatoj jam produktis la nedezireblan rezultaton konsideri kondamneblan ĉion neanglan, ekzemple uzo de vizaĝvualo de la muslimaj virinoj, aŭ hindaj turbanoj, kiuj estas tiel religieme respektindaj, kiel geedza fido aŭ karitato kristana.

Se ĉion ĉi oni povus pridiskuti egalnivele kaj kamarade de diverskulturaj personoj, la aktuala “doko” elfalus, ĉar informo ne plu filtriĝos de tradukistoj, intepretistoj kaj novaĵagentejoj kiuj cenzoras – konscie aŭ nekonscie – tiujn, kiujn ili trasendas laŭ kelkaj kreitaj interesoj, inter kiuj siaj inter-ista intereso ne estas la plej malgranda...

Tial neniu lando investas eĉ unu peseto por helpi disvastiĝon de idiomo facila, fidebla kaj demokratia, kiu respektas la rajton de landuloj por paroli tiel ajn, kiel ili volas. Daŭriĝi centjaro kaj esti parolata tra la tuta mondo estas garantio ke, fakte, Esperanto ja estas bonega.



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Mensagem aos esperantistas (2006)


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Em 2004, 2005 e 2006, nos dias 26 de julho, enviei mensagens pros e-mails de conhecidos esperantistas que eu conseguia achar na internet, comemorando o dia em que apareceu o primeiro manual de esperanto escrito em russo pelo oftalmologista polonês Ludwik Lejzer Zamenhof. Eu considerava esse dia digno de comemoração como o verdadeiro “Dia do esperanto”, ao contrário de muitas pessoas que o comemoram no dia 15 de dezembro, aniversário de Zamenhof, atitude que eu achava muito personalista. Minha intenção era fazer isso todos os anos, mas a partir de 2007 comecei a me ocupar cada vez mais com a graduação em História e deixei aos poucos o movimento esperantista, embora jamais tivesse esquecido a língua. Após as mensagens de 2004 e 2005, finalmente seguem abaixo uma introdução em esperanto e a última mensagem que escrevi em 2006!


La 26-an de julio de la jaroj 2004, 2005 kaj 2006 (kiam mi estis 17-19-jara!), mi skribis mesaĝojn kaj sendis al la retpoŝtaj adresoj de pluraj esperantistaj geamikoj, kiujn mi ekkonis per interreto. Mia celo estis memorigi la tagon, kiam aperis la unua manlibro de Esperanto, en la rusa lingvo, verkita de la pola okulkuracisto Ludoviko Lazaro Zamenhof. Mi konsideris tiun tagon memoriginda kiel la vera “Esperanto-tago”, kontraŭe al multaj personoj, kiuj memorigas ĝin en la 15-a de decembro, naskiĝtago de Zamenhof, sed tiun elekton mi trovis tre personeca. Mi celis sendi tiajn mesaĝojn en la sekvantaj jaroj, sed de 2007 mi devis pli okupiĝi pri la universitata kurso de Historio kaj forlasis la movadon, kvankam mi neniam forgesis la lingvon. Post la mesaĝoj de la jaroj 2004 kaj 2005, finfine mi republikigas la lastan tekston, kiun mi dissendis en 2006:



Caros amigos e amigas esperantistas,

Eis-me aqui novamente, pelo terceiro ano, lembrando vocês do mais importante dia do movimento esperantista: o aparecimento do livro Uma Língua Internacional: Prefácio e Manual Completo, o primeiro sobre o esperanto. Este ano quero fazê-los refletir sobre alguns temas que relevaram até agora o ano de 2006 e que podem ser relacionados a nossa língua. Primeiramente, seja parabenizada a Itália pela vitória da copa do mundo de futebol e pela recepção do Congresso Universal de 2006! O futebol deu um motivo a muitos conflitos entre times e possivelmente até a uma guerra entre Honduras e El Salvador entre as décadas de 1960 e 1970, chamada “guerra do futebol”, cujos verdadeiros motivos são outros, mas mostraram o poder que esse esporte tem junto a alguns povos.

Apesar disso, o futebol ainda pode ser considerado o “esporte universal”, pois em quase todos os países ele é praticado, principalmente por pessoas das classes médias e pobres. Talvez não seja coincidência que os vencedores das copas do mundo de futebol costumaram nos últimos tempos receber os congressos, pois o futebol e o esperanto têm os mesmos objetivos, que são unir o maior número possível de pessoas junto ao mesmo ideal de paz e fraternidade por algo que agrada a todos e favorece não somente esse ou aquele povo. E é admirável ver crianças em países, que às vezes os brasileiros não conhecem, usando a camisa da seleção brasileira de futebol! Assim pode-se provar o valor internacional do futebol a todas as pessoas e principalmente àqueles que se alegram ao ver os jogadores jogarem em homenagem àquelas pessoas que os admiram e gostam de ver a boa prática do esporte.

Todavia, este ano vocês assistiram ao fiasco do Brasil no campeonato diante da França (e parabéns a vocês, franceses, pelo mágico jogador que é Zidane, este duas vezes, em 1998 e 2006, derrotando o Brasil em campeonatos mundiais). Costuma-se atribuir essa derrota à arrogância dos jogadores que jogam em times europeus, como por exemplo Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo e outros, considerados “estrelas” do futebol mundial. Mas com esse fiasco concluímos que um time não pode se fazer somente de estrelas, mas verdadeiros jogadores. E isso pode ser aplicado também ao movimento esperantista.

Louis de Beaufront, arrogante membro do movimento que se dava muita importância junto aos esperantistas, ao fim saiu do movimento para sustentar o idioma Ido, criado em 1907, durante uma época de crise para o esperanto. Como se sabe, depois o esperanto prosperou, exceto durante as duas Guerras Mundiais, e se tornou o mais falado projeto de língua internacional no mundo. Igualmente, o técnico da seleção brasileira não é mais Parreira, mas Dunga, o capitão do time que ganhou a copa de 1994, e ele já disse que chamará, em sua maioria, jogadores que jogam no Brasil. Assim, ele quer afastar os “Beaufronts” do time, e eu espero que possamos continuar igualmente, com simplicidade, humildade e bom coração em nossas ações, não permitindo que novos “Beaufronts” possam aparecer para dividir os esperantistas com querelas inúteis.

Em segundo lugar, um triste acontecimento é a guerra entre Israel e a milícia Hezbollah, que ocasionou a invasão do Líbano por Israel. Pensava-se que no novo século os conflitos por ocasião da imigração em massa de judeus à Palestina e a consequente criação de Israel se acabassem, mas o resultado foi inverso. A guerra de fato se intensificou e parece que não se encontrará tão rápido uma solução diplomática. Nostálgico é o tempo em que judeus e árabes conviviam em paz na Palestina, muitos deles usando o esperanto como língua-ponte, como mostrou há pouco tempo a Libera Folio sobre as associações palestinas e egípcias antes de 1948.

Os opositores do esperanto costumam dizer que a língua não é suficiente para pacificar o mundo. De fato, ela não é, mas sua ajuda seria insubstituível, como provou a citada reportagem. O aforismo de Zamenhof de que a diversidade de línguas é a única causa do ódio entre os homens é incompleto, pois parece a conclusão marxista de que “a luta de classes é o motor da história”. Mas ainda assim ele permanece atual: se judeus e árabes tivessem um elemento comum para se compreender, que não pertencesse a outro povo que quisesse ver a região pacificada por interesses próprios, a diplomacia e a tolerância para a existência de dois estados amigos (um judeu e outro palestino) ou de um só Estado, no qual os dois povos convivessem fraternal e pacificamente, seria mais eficaz.

Os esperantistas não apoiam essa guerra e desejam de coração que judeus e árabes se compreendam para sempre. Desse conflito podemos concluir também que não é suficiente que uma das partes imponha sua decisão à outra, mas as duas entrem em acordo para que ambas conquistem seus objetivos, mas permitam que os outros também sejam respeitados. Da mesma forma, os esperantistas devem respeitar aqueles que não apoiam o esperanto ou até mesmo batalham contra ele, ou aqueles que apoiam outro projeto de língua internacional.

Todavia, existem também querelas no próprio movimento, principalmente entre a UEA e a Esperanta Civito (“Cidade Esperantista”), ambas prosseguindo uma “guerra civil” desde 1998! Só falta as duas partes disputarem o apoio das associações nacionais pela força das armas... Creio que ambas as organizações deveriam se unir e, deixando suas diferenças, lutassem por interesses comuns, que são o conhecimento geral do esperanto, o uso da língua pelo maior número possível de associações e congressos e o apoio monetário, moral e intelectual a organizações que batalham pela paz no mundo. Porque o esperanto é a língua da união, e não da dispersão!

Enfim, os temas acabaram... Este ano creio que não escrevi tão “movimentista”, batalhador e com ilusões como nos anos anteriores. Meu objetivo agora é convencer as pessoas a extrair das situações cotidianas lições que sirvam não somente para o movimento esperantista, mas para a vida em geral, para que possamos ser pessoas mais compassivas e tolerantes e menos arrogantes e com sede de guerra, da mesma forma como foi o grande Luís Lázaro Zamenhof, nosso mais querido exemplo. Parabéns a todos!


Karaj Esperantaj geamikoj, Jen mi denove, je la tria jaro, memoriganta vin pri la plej grava tago de la Esperanta movado: la apero de la libro Lingvo Internacia: Enkonduko kaj Plena Manlibro, la unua pri Esperanto. Ĉi-jare mi volas pensigi vin pri kelkaj temoj, kiuj reliefigis ĝis nun la jaron 2006 kaj kiuj povas esti rilatataj al nia lingvo. Unue, estu gratulata Italio pro la venko en la futbala mondpokalo kaj por la akcepto de la UK de 2006! Futbalo donis kialon al multaj konfliktoj inter teamoj kaj eble eĉ milito inter Honduraso kaj Salvadoro inter la 1960-aj kaj 1970-aj jaroj, nome “milito de la futbalo”, kies veraj kialoj estas aliaj, sed montris la povon, kiun ĉi tiu sporto havas ĉe kelkaj popoloj.

Malgraŭ tio, futbalo ankoraŭ povas esti konsiderata la “universala sporto”, ĉar en preskaŭ ĉiuj landoj ĝi estas ludata ĉefe de personoj de la mezaj kaj malriĉaj sociaj klasoj. Verŝajne ne estas koincido, ke la gajnantoj de la futbalaj mondpokaloj kutimis lastatempe akcepti la kongresojn, ĉar futbalo kaj Esperanto havas la samajn celojn, nome unuigi kiel eble la plej grandan nombron da personoj ĉe sama idealo de paco kaj frateco per io, kio plaĉas ĉiujn kaj favoras ne nur tiun aŭ alian popolon. Kaj estas mirinde vidi infanojn en landoj, kiujn foje la gebrazilanoj ne konas, uzantajn la ĉemizon de la futbala brazila teamo! Tiel oni povas pruvi la internacian valoron de la futbalo por ĉiuj personoj kaj ĉefe por tiuj, kiuj ĝojiĝas vidante la ludistojn ludi omaĝe al tiuj personoj, kiuj admiras ilin kaj ŝatas vidi bonan praktikon de tiu sporto.

Tamen, ĉi-jare, vi spektis la fiaskon de Brazilo en la ĉampioneco antaŭ Francio (kaj gratulojn al vi, gefrancoj, pro la magia ludisto, nome Zidane, ĉi tiu dufoje, en 1998 kaj 2006, malvenkigante Brazilon en mondaj ĉampionecoj). Oni kutimas atribui tiun malvenkon al la aroganteco de la ludistoj, kiuj ludas en Eŭropaj teamoj, ekzemple Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Ronaldo kaj aliaj, konsiderataj “steluloj” de la monda futbalo. Sed per nia fiasko ni konkludis, ke teamo ne povas fariĝi nur el steluloj, sed veraj ludistoj. Kaj tio povas esti aplikata ankaŭ al la Esperanta movado.

Louis de Beaufront, aroganta movadano, kiu opiniis sin tre grava ĉe la esperanitstaro, fine eliris el la movado por subteni la lingvon Ido, kreita en 1907, dum kriza epoko por Esperanto. Kiel oni scias, poste Esperanto prosperis, escepte dum la du Mondmilitoj, kaj fariĝis la plej parolata projekto por internacia lingvo en la mondo. Same, la teamestro de la brazila teamo ne estas plu Parreira, sed Dunga, la “kapitano” de la ludistaro, kiu gajnis la mondpokalon en 1994, kaj li jam diris, ke alvokos pleje ludistojn, kiuj ludas en Brazilo. Tiel, li volas forigi la “Bofrontojn” de la teamo, kaj mi esperas, ke ni povu daŭri same, kun simpleco, mildeco kaj bonkoreco en niaj agoj, ne permesante, ke novaj “Bofrontoj” povu aperi por dividi la esperantistaron per senutilaj kvereloj.

Due, malfeliĉa okazo estas la milito inter Israelo kaj la milico Hezbollah, kiu okazigis la invadon al Libano fare de Israelo. Oni pensis, ke en la nova jarcento la konfliktoj okaze de la amasa enmigrado de judoj al Palestino kaj la sekva kreado de Israelo ĉesiĝus, sed la rezulto estis inversa. La milito ja intensiĝis kaj ŝajnas, ke oni ne baldaŭ trovus diplomatian solvon. Nostalgia estas la tempo, en kiu judoj kaj araboj kunvivis pace en Palestino, multaj el ili uzantaj Esperanton kiel pontlingvon, kiel montris freŝdate Libera Folio pri la palestinaj kaj egiptiaj asocioj antaŭ 1948.

La kontraŭuloj de Esperanto kutimas diri, ke la lingvo ne estas sufiĉa por pacigi la mondon. Ja, ĝi ne estas, sed ĝia helpo estas neanstataŭebla, kiel pruvis la citata raportaĵo. La aforismo de Zamenhof, ke la diverseco de lingvoj estas la sola kialo de la malamo inter la homoj, estas neplena, ĉar ĝi similas al la marksisma konludo, ke “la klasbatalo estas la movilo de la historio”. Sed eĉ tiel ĝi restas aktuala: se judoj kaj araboj havus komunan elementon por interkompreniĝi, kiu ne apartenus al alia popolo, kiu volus vidi la regionon pacigata pro propraj interesoj, la diplomatio kaj la tolero por la ekzisto de du amikaj ŝtatoj (unu palestina kaj alia juda) aŭ de unu nur ŝtato, en kiu la du popoloj kunvivadus frate kaj pace, estus pli efika.

La geesperantistoj ne apogas ĉi tiun militon kaj deziras elkore, ke judoj kaj araboj interkompreniĝu por ĉiam. El tiu konflikto ni povas konkludi ankaŭ, ke ne sufiĉas, ke unu parto el la batalantoj altrudu sian decidon al la alia, sed la du agordu, por ke ambaŭ konkeru siajn celojn, sed permesu, ke la aliuloj ankaŭ estu respektataj. Same la esperantistoj devas respekti tiujn, kiuj ne apogas Esperanton aŭ eĉ batalas kontraŭ ĝi, aŭ tiujn, kiuj apogas alian projekton por internacia lingvo.

Tamen ekzistas ankaŭ la kvereloj en la movado mem, ĉefe inter UEA kaj la Esperanta Civito, ambaŭ daŭrigantaj “civilan militon” ekde 1998! Nur mankas, ke la du partoj disputu la apogon de la landaj asocioj per la forto de armiloj... Mi kredas, ke ambaŭ organizoj devus unuiĝi kaj, lasante iliajn malsamojn, lukti por komunaj interesoj, nome la ĝenerala konado pri Esperanto, la uzo de la lingvo fare de kiel eble pli da asocioj kaj kongresoj, kaj la apogo mona, morala kaj intelekta al organizoj, kiuj batalas por la paco en la mondo. Ĉar Esperanto estas la lingvo de la kunigo, ne de la disigo!

Do, la temoj finiĝis... Ĉi-jare mi kredas, ke mi ne skribis movademe, bataleme kaj iluzieme kiel en antaŭaj jaroj. Mia celo nun estas konvinki la personojn eltiri el la ĉiutagaj okazoj lecionojn, kiuj servas ne nur por la Esperanta movado, sed por la vivado ĝenerale, por ke ni povu esti personoj pli kompatemaj kaj toleremaj, kaj malpli arogantaj kaj militemaj, same kiel estis la granda Ludwig Lejzer Zamenhof, nia plej kara ekzemplo. Gratulojn al ĉiuj!



sábado, 3 de fevereiro de 2024

Mensagem aos esperantistas (2005)


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Em 2004, 2005 e 2006, nos dias 26 de julho, enviei mensagens pros e-mails de conhecidos esperantistas que eu conseguia achar na internet, comemorando o dia em que apareceu o primeiro manual de esperanto escrito em russo pelo oftalmologista polonês Ludwik Lejzer Zamenhof. Eu considerava esse dia digno de comemoração como o verdadeiro “Dia do esperanto”, ao contrário de muitas pessoas que o comemoram no dia 15 de dezembro, aniversário de Zamenhof, atitude que eu achava muito personalista. Minha intenção era fazer isso todos os anos, mas a partir de 2007 comecei a me ocupar cada vez mais com a graduação em História e deixei aos poucos o movimento esperantista, embora jamais tivesse esquecido a língua. Há dois dias apareceu a mensagem de 2004, e agora seguem abaixo uma introdução em esperanto e a mensagem que escrevi em 2005!


La 26-an de julio de la jaroj 2004, 2005 kaj 2006 (kiam mi estis 17-19-jara!), mi skribis mesaĝojn kaj sendis al la retpoŝtaj adresoj de pluraj esperantistaj geamikoj, kiujn mi ekkonis per interreto. Mia celo estis memorigi la tagon, kiam aperis la unua manlibro de Esperanto, en la rusa lingvo, verkita de la pola okulkuracisto Ludoviko Lazaro Zamenhof. Mi konsideris tiun tagon memoriginda kiel la vera “Esperanto-tago”, kontraŭe al multaj personoj, kiuj memorigas ĝin en la 15-a de decembro, naskiĝtago de Zamenhof, sed tiun elekton mi trovis tre personeca. Mi celis sendi tiajn mesaĝojn en la sekvantaj jaroj, sed de 2007 mi devis pli okupiĝi pri la universitata kurso de Historio kaj forlasis la movadon, kvankam mi neniam forgesis la lingvon. Antaŭ du tagoj mi aperigis la mesaĝon de 2004, kaj nun mi republikigas la tekston, kiun mi dissendis en 2005:



Caros amigos e amigas esperantistas,

Eu não sei se vocês ainda se lembram, mas há precisamente um ano enviei uma mensagem a alguns de vocês lembrando-os do 26 de julho, dia em que Zamenhof, no ano de 1887, conseguiu a primeira edição do primeiro livro sobre o esperanto. Portanto, decidi fazer isso todo ano, para que vocês se lembrem do mais festivo momento na história do esperanto, que justamente é o aparecimento da língua! Que belo dia é este a todos nós que nos beneficiamos pelo uso de uma língua neutra internacional depois que encontramos amigos, uma bela literatura e um ideal pacífico! Vocês todos talvez devem perguntar: “Por que você festeja o 26 de julho, e não o 15 de dezembro, quando Zamenhof nasceu?” Meus caros, a mais nobre herança que esse grande homem nos deixou não é ele mesmo, mas o esperanto! O motivo pelo qual nos unimos não é Zamenhof ou o homaranismo, mas de fato o esperanto! É claro que se tem o direito de festejar o aniversário de Zamenhof, mas não nascemos para cultuá-lo, nem ao esperanto (ele não é um ídolo, algo que se cultua); nossa missão é divulgar nossa língua! Porque o próprio Zamenhof se separou dos direitos e da liderança do movimento no 8.º Congresso Universal, ocorrido em Cracóvia, Polônia: “Agora que a maturidade de nossa causa é já absolutamente indubitável, dirijo-me a vós, caros companheiros, com um pedido que já há muito queria dirigir-vos mas adiei até agora, temendo fazê-lo muito cedo. Eu peço que vós me libereis deste encargo que eu, por razões naturais, desempenhei em nossa causa durante 25 anos”. E mais, temos outro motivo para não o cultuar, pois, a seguir, ele diz: “Peço-vos que a partir de agora deixeis de ver em mim um mestre, deixeis de honrar-me com esse título”. (*)

(*) Valter Francini, Doutor Esperanto: o romance do Dr. Lázaro Luís Zamenhof, criador da língua internacional, 2. ed., Brasília, Federação Espírita Brasileira, 1983, p. 112.


Muitos acontecimentos fizeram-se entre 26 de julho de 2004 e hoje, e a maioria delas foi ótimo. Por exemplo: a ampliação do Ĝangalo, o maior portal em esperanto da rede; os pedidos pelo esperanto junto à União Europeia, entre eles os trabalhos da polonesa Margarete Handzlik por nossa língua no Parlamento Europeu; o Congresso Universal coroado de sucesso em Pequim, sendo um de seus dias o 26 de julho; a divulgação do esperanto no site de relacionamentos Orkut por várias “comunidades”, pelas quais muitas pessoas conhecem, aprendem e discutem sobre nossa língua, e pelo qual alguns brasileiros organizaram um grupo de estudos no MSN Messenger; o aparecimento de meu site, “O site esperantista de Erick Fiszuk”, a 15 de janeiro, no qual esperantistas e lusófonos podem encontrar muitas informações sobre o esperanto e textos traduzidos; o aparecimento de grupos de esperanto em universidades do Brasil e da Ásia; e outros sucessos que nem dá para listar... Outro sucesso digno de relevância é a criação (não sei quando) do programa EK, que possibilita a quem tem Unicode escrever as letras acentuadas usando o teclado normal (não o usei para escrever esta mensagem porque não sei se todos vocês têm fontes especiais). Ora, convencidos por eles, não podemos continuar nossa marcha pelo esperanto, crendo que nossa causa não é vã, mas benéfica a toda a humanidade?

Um homem relevante no movimento esperantista foi o polonês Kazimierz Bein, mais conhecido pelo apelido Kabe. Em 1911, ele abandonou o movimento porque, conforme ele, o movimento nunca mudava seus procedimentos e a causa não progredia. Vinte anos depois, ele voltou aos círculos esperantistas para acompanhar seus progressos e concluiu que o movimento permanecia o mesmo. Hoje, acompanhando os progressos que os esperantistas ocasionaram nas últimas décadas (cursos, clubes, sites, programas de computador, resoluções internacionais, encontros etc.), podemos dizer com acerto que Kabe errou. O movimento esperantista nunca esteve melhor do que agora e os principais frutos de nosso trabalho são os novos esperantistas que constantemente aparecem junto a nós, crentes no ideal da paz internacional e na possibilidade de adoção de uma língua internacional por todos os países para a comunicação e relações internacionais. Mais e mais pessoas colocam no coração a língua que Zamenhof criou pagando com seu tempo livre e de divertimentos, e seu esforço infinito. E isso podemos constatar pelos sites esperantistas que registram os pedidos de incontáveis esperantistas por cursos e clubes.

O esperanto é, sim, o idioma da paz e da igualdade, e ninguém pode negar esta condição que Zamenhof já constatava. Sustentaram-no pessoas corajosas, que tomaram para si o ideário de paz e fraternidade internacionais, e creram que o mundo poderá ser um pouco melhor se ele adotar uma língua internacional. Os outros projetos de idioma internacional não conseguiram se sustentar porque eles não continham o ideário coligador e o espírito batalhador (necessário para a divulgação da língua, pois não se pode esperar que as pessoas conheçam a língua por si mesmos), por isso seus adeptos são pessoas sem coragem, envergonhadas, que abandonam as coisas com facilidade, amorfos e descompromissados, para os quais sua principal missão era mostrar os principais erros dos projetos de mais sucesso e falar mal deles. Esses que atualmente assim seguem, com seus projetos de idioma, terão o mesmo futuro. Todavia, não podemos tornar religioso o ideário esperantista, pois ele é não somente opcional para os esperantistas, mas conforme o próprio Zamenhof, ele é indefinível, indescritível, e todos podem interpretá-lo conforme suas próprias convicções. O assim chamado “esperantismo”, portanto, pode ser a força que nos move e nos encoraja para continuar nos esforços pela divulgação do esperanto.

Assim, esperantistas, acabei minha mensagem. Quero parabenizar a todos vocês pelo dia que é não somente do esperanto, mas nosso, e pedir a vocês que não permaneçam somente aliciando e rezando pelo pleno sucesso do esperanto, mas principalmente agindo e, conforme o próprio nome da língua, tendo esperança. Muito obrigado!


Karaj Esperantaj geamikoj,

Mi ne scias, ĉu vi ankoraŭ memoras, sed antaŭ precize unu jaro mi sendis mesaĝon al kelkaj el vi memoriganta pri la 26-a de julio, tago, en kiu Zamenhof, en la jaro 1887, sukcesis la unuan eldonon de la unua libro pri Esperanto. Do, mi decidis, ke mi faru tion ĉiujare, por ke vi memoru pri la plej festa momento en la historio de Esperanto, kiu ĝuste estas la apero de la lingvo! Kia bela tago estas ĉi tiu al ĉiuj ni, kiuj bonfariĝis per la uzo de internacia neŭtrala lingvo post tiam, kiam ni trovis amikojn, riĉan beletron kaj pacan idearon! Vi ĉiuj verŝajne volas demandi: “Kial vi festigas la 26-an de julio, kaj ne la 15-an de decembro, kiam Zamenhof naskiĝis?” Gekaruloj, la plej nobla heredo, kiun tiu granda homo lasis al ni, ne estis li mem, sed Esperanto! La kialo, pro kiu ni kuniĝis, ne estas Zamenhof aŭ homaranismo, sed ja Esperanto! Kompreneble oni rajtas festigi la naskiĝdaton de Zamenhof, sed ni ne naskiĝis por kulti lin, nek Esperanton (ĝi ne estas kultendaĵo); nia misio estas disvastigi nian lingvon! Ĉar Zamenhof mem disiĝis el la rajtoj kaj la ĉefeco de la movado en la 8-a Universala Kongreso, okazigita en Krakovo, Pollando: “Nun, kiam la matureco de nia afero jam estas absolute nedubebla, mi turniĝas al vi, karaj kunuloj, per peto, kiun jam antaŭ longe mi volis direktigi al vi, sed mi prokrastis ĝis nun, timante fari ĝin tre frue. Mi petas, ke vi liberigu min de ĉi tiu ofico, kiun mi, pro naturaj kialoj, okupis en nia afero dum 25 jaroj”. Krome, ni havas alian kialon por ne kulti lin, ĉar, sekve, li diras: “Mi petas al vi, ke ekde nun vi haltu vidi min kiel majstron, haltu honori min per ĉi tiu moŝto”. (*)

(*) Valter Francini, Doutor Esperanto: o romance do Dr. Lázaro Luís Zamenhof, criador da língua internacional [Doktoro Esperanto: la romano de D-ro Lazaro Ludoviko Zamenhof, kreinto de la internacia lingvo], 2-a eldono, Brazilja, Federação Espírita Brasileira, 1983, p. 112.


Multaj okazoj fariĝis inter la 26-a de julio 2004 kaj hodiaŭ, kaj la plejmulto el ili estas bonega. Ekzemple: la ampleksigo de Ĝangalo, la plej ega Esperanta portalo en la reto; la plendoj por Esperanto ĉe Eŭropa Unio, inter ili la laboroj de la polino Margareto Handzlik por nia lingvo en la Eŭropa Parlamento; la sukcesa UK en Pekino, estinta unu el ĝiaj tagoj la 26-a de julio; la disvastigo de Esperanto en la rilat-retejo Orkut per pluraj “komunumoj”, per kiuj multaj homoj ekkonas, lernas kaj pridiskutas nian lingvon, kaj per kiu kelkaj gebrazilanoj organizis studgrupon en MSN-Mesaĝilo; la aperigo de mia retejo, “La Esperanta retejo de Eriko Fiŝuk”, la 15-an de januaro, en kiu esperantistoj kaj portugallingvanoj povas trovi multajn tradukitajn informojn pri Esperanto kaj tekstojn; la apero de Esperanto-grupoj en universitatoj de Brazilo kaj Azio; kaj aliaj sukcesoj nelistigeblaj... Alia sukceso reliefiginda estas la kreo (mi ne scias kiam) de la programo EK, kiu ebligas al tiuj, kiuj havas Unikodon, skribi la supersignitajn literojn uzante la normalan klavaron (mi ne uzis ĝin por skribi ĉi tiun mesaĝon pro tio, ke mi ne scias, se ĉiuj vi havas specialajn tiparojn). Nu, konvinkitaj per ili, ĉu ni ne povas daŭri nian marŝadon por Esperanto, kredantaj, ke nia afero ne estas vana, sed boniga al ĉiu homaro?

Reliefa homo en la Esperanta movado estis la polo Kazimierz Bein, pli konata per la kromnomo Kabe. En 1911, li forlasis la movadon pro tio, ke laŭ li la movado neniam ŝanĝis siajn procedojn kaj la afero ne progresis. Post dudek jaroj li revenis al la Esperantaj rondoj por akompani ĝiajn progresojn kaj konkludis, ke la movado restis la sama. Hodiaŭ, akompanante la progresojn, kiujn la esperantistoj okazigis dum la lastaj jardekoj (kursoj, kluboj, retejoj, komputilaj programoj, internaciaj rezolucioj, renkontiĝoj ktp.) ni trafe povas diri, ke Kabe eraris. La Esperanta movado neniam estis pli bona ol nun, kaj la ĉefaj fruktoj de nia laboro estas la novaj esperantistoj, kiuj konstante aperas ĉe ni, kredantaj la idearon pri la internacia paco kaj la eblon de adopto de internacia lingvo fare de ĉiuj landoj por internaciaj komunikado kaj rilatiĝado. Pli kaj pli da homoj en la tuta mondo enkorigas la lingvon, kiun Zamenhof kreis pagante per lia libera kaj amuzfara tempo, kaj lia senfina klopodo. Kaj tion ni povas konstati per la Esperantaj retejoj, kiuj registras la petojn de nenombreblaj esperantistoj por kursoj kaj kluboj.

Esperanto ja estas la lingvo de la paco kaj la egaleco, kaj neniu povas nei ĉi tiun kondiĉon, kiun jam Zamenhof konstatis. Ĝin subtenis kuraĝaj homoj, kiuj enhavigis por si idearon pri la internaciaj paco kaj frateco kaj kredis, ke la mondo povos esti iom pli bona, se ĝi adoptos internacian lingvon. La aliaj projektoj de internacia lingvo ne sukcesis subteniĝi pro tio, ke ili ne enhavis la kunigecan idearon kaj la klopodeman spiriton (bezonatan por la disvastigo de la lingvo, ĉar oni ne povas atendi, ke la homoj ekkonu la lingvon per si mem), tial iliaj anoj estis homoj senkuraĝaj, hontemaj, forlasemaj, neklopodemaj kaj nekompromisiĝemaj, por kiuj ilia ĉefa misio estis montri la ĉefajn erarojn de la plej sukcesaj projektoj kaj paroli malbone pri ili. Tiuj, kiuj nuntempe kondutas same, kun siaj lingvoprojektoj, havos la saman estontecon. Tamen, ni ne povas religiigi la Esperantan idearon, ĉar ĝi estas ne nur nedeviga por la esperantistoj, sed, laŭ Zamenhof mem, ĝi estas nedifinebla, nepriskribebla, kaj ĉiuj povas interpreti ĝin laŭ siaj propraj konvinkoj. La tiel nomata “esperantismo”, do, povas esti la forto, kiu movas kaj kuraĝigas nin por daŭri en la klopodoj por la disvastigo de Esperanto.

Do, geesperantistoj, mi finis mian mesaĝon. Mi volas gratuli ĉiujn vin pro la tago, kiu estas ne nur de Esperanto, sed nia, kaj peti al vi, ke ni ne restu nur varbantaj kaj preĝantaj por la plena sukceso de Esperanto, sed ĉefe agantaj kaj, laŭ la propra nomo de la lingvo, esperantaj. Dankegon!