sábado, 13 de julho de 2024

Biden e o presidente ucraniano Putin


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No alto de seus 75 anos e mais testada do que nunca pela agressão de Putin à Ucrânia, a idosa OTAN tá parecendo aqueles modões de viola com humor de tiozão: “é véia, mais funciona”, “enverga, mais num quebra”... Que diga a premiê romana Janja Melão, cujas fotos fazendo caretas enquanto se encontrava com outros líderes nos EUA viralizaram nas redes sociais e nos jornais. Essa cara de entojo coincidiu com uma pequena distância física de Viktor Orbán, teoricamente seu parceiro húngaro de ideias, mas nada como a “virada de zóio” que pode ser facilmente encontrada no Google. Se Biden parece claudicar por causa da idade, a Sorella d’Italia pode ter sofrido na hora errada efeitos colaterais de remédios, rs.

Contudo, o maior “sucesso” que eu não podia deixar de eternizar aqui, mesmo com as muitas versões que circularam na internet, foram as duas gafes de Biden que quase o tiraram de vez da corrida pela White House, mas que por sua gigantesca dimensão, vão entrar pra sempre pro anedotário geopolítico. Durante o encerramento da cúpula da organização, em Washington, o presidente ucraniano Zelensky não podia deixar de comparecer, como em qualquer evento internacional em que ele se presta à celebridade pop. Porém, na presença dos outros governantes, Biden encerrou seu discurso convidando a tomar a palavra “o presidente Putin”, embora o ex-comediante não parecesse demonstrar irritação. Com direito até à gargalhada alta de um presente que parecia Ciro Gomes quando Soraya Thronicke chamou Kelmon Souza de “candidato padre” no debate da TV Globo, o gerontocrata logo tentou emendar, dizendo que “eles estavam combatendo Putin, a maior preocupação deles”.

Não transcrevi o diálogo, mas sua sequência cômica pode ser vista abaixo com as legendas do Jornal Nacional. Obviamente, Volodymyr não podia se irritar, sob o risco de perder a ajuda bilionária prometida pelos membros do tratado, mas seu maior sentimento era de medo, pois se Biden perder a reeleição ou deixar a disputa, um governo Trump 2 pode cortar toda a ajuda militar e se entender com o Kremlin, embora o humor do magnata falido seja imprevisível. Igualmente, os outros líderes presentes não ousaram falar da saúde do anfitrião, pois também temem a volta daquele que ameaçou escangalhar a estrutura de segurança da Europa (hoje terceirizada pros EUA, bem entendido). Mas se o plano era mostrar que o democrata tinha condições de concorrer, o plano foi por água abaixo: após chamar Stalin de Hitler Zelensky de Putin, Biden chamou Kamala Harris de “vice-presidente Trump” durante sua coletiva de imprensa que fechou os trabalhos. Esse ele não teve tempo, nem se deu ao trabalho, de corrigir...

Se até um Lula-Alckmin elegemos em 2022, impensável em 2006, talvez ainda tenhamos a esperança de uma dobradinha que enfim vai reconciliar os EUA, rs. Sem mais delongas, seguem os trechos com pequenas edições, tirados do Telegraph, da CNN americana e do Jornal Nacional, além da gafe sobre a vice no Jornal Hoje:









terça-feira, 9 de julho de 2024

Mélenchon, líder da esquerda britânica


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Este meme interessante, que faz uma paródia com o quadro A Liberdade guiando o povo, geralmente confundido com a revolução de 1789, mas na verdade retratando uma em 1830, se refere à tomada de posição de muitos astros da música e do esporte a respeito das eleições extraordinárias francesas do último domingo, algo não muito comum nos pleitos. A maioria pura e simplesmente pediu pro povo não votar na extrema-direita, outros só pediram pra “irem votar”, enquanto o futebolista Mbappé pediu pra “não votarem nos extremos”. O campeão, porém, acabou comemorando nas redes a derrota da Reunião Nacional dos Le Pen, cujo bloco ficou em terceiro lugar, e “sua máscara caiu”. Daí o aparecimento daquela montagem em várias contas do Équis, mas na verdade já ouvi falar de uma canção de um grupo pop francês com o mesmo título há alguns anos, mesmo antes do bicampeonato da seleção.

Após a “vitória” do grande bloco de esquerda, a lacração idiota começou a cantar vitória muito cedo na Banânia. Embora a Nova Frente Popular (em referência à Frente Popular antifascista que ocupou brevemente o poder em 1936 e 1938) tenha obtido a maioria relativa dos votos, a RN ampliou consideravelmente sua presença na Assembleia Nacional e conseguiu mesmo passar A França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, se esta for tomada isolada e fora da NFP. Além disso, todos os outros três componentes da frente (socialistas, comunistas e verdes) têm alguma birra com a LFI, portanto, meu receio é que em breve essa união emergencial se esfacele e que eles não consigam indicar um nome consensual pra ser o novo primeiro-ministro de Emmanuel Macron.

Nos últimos anos, Melocoton conseguiu superar os índices de rejeição da La Peña, de tão autoritário, grosseiro e polêmico (flertes com Putin e com o Hamas e arroubos antissemitas) que se revelou após chegar em terceiro nas eleições presidenciais de 2022. Mesmo os outros partidos de esquerda têm medo de o indicar pra liderança do governo, e as demais legendas (do centro que parece direita à extrema-direita que na verdade é fascista) sequer querem conversa com ele. Isso abriu a crise política na França, à véspera das Olim-Piadas, diante da previsível dificuldade de formar um novo governo, que inclusive impeliu Macron a manter Gabriel Attal por um tempo no Palácio de Matignon.


No Jornal Hoje de 8 de julho, também nos primeiros dias do novo governo trabalhista de Keir Starmer no Reino Unido (após 14 anos de domínio conservador), o correspondente Rodrigo Carvalho deve estar com os miolos tão abarrotados de informações sobre a política europeia que sem querer chamou Melocoton de líder de uma das principais forças da esquerda britânica, a chamada França Insubmissa (na verdade, muito mais pra um Jeremy Corbyn...). Primeiro, ela não é “chamada”, mas esse é o nome do partido e ponto. E segundo, uma França Insubmissa dentro do Reino Unido seria uma inusitada pegadinha de Joana d’Arc a partir do além, rs. Se a véia da Casa do Pão de Queijo tem arroubos de ditador, acho que ainda tá cedo pra ele tentar atravessar a Mancha na pele de Napoleão:


Poema de banheiro (ou a adaptação de um modelo famoso) sobre o “suspiro retido” nas eleições francesas:


Se a vitória da esquerda tivesse se dado no Brasil (em resumo, uma presidência ou uma utópica maioria parlamentar do PT), com certeza os bozos teriam dito que este meme, viralizado nos últimos dias, estaria fazendo parte do programa dos primeiros anos de alfabetização do MEC, inspirado nos ensinamentos de Paulo Freire (que era católico!), igual à mamadeira de pinto atribuída a Haddad em 2022:


sábado, 6 de julho de 2024

Pezeshkiyа̄n será presidente do Irã


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Ontem, sexta-feira, terminaram as “eleições presidenciais” no Irã, ditadura teocrática onde quem tem a verdadeira última palavra é o “guia supremo”, o aiatolá Ali Khamenei, um idoso particularmente sádico e recalcado à frente do grande país há sôfregos 35 anos. Após o assassinato por um agente do Mossad, Eli Kopter, do presidente Ebrа̄him Raisi, que não passava de uma versão piorada de Khamenei e se preparava exatamente pra o suceder como “guia supremo”, foram convocadas novas eleições pra presidência, que dada a natureza do regime, não passaram de uma encenação. A começar pelo fato de que vários candidatos, sem motivo aparente, sempre têm sua participação interditada por uma comissão estrita de outros velhos igualmente sádicos e recalcados.

Como eu disse na publicação anterior, ocorreu um raro segundo turno entre um candidato considerado “ultraconservador” (que bateu outros quatro que eram ainda piores do que ele) e outro considerado “progressista”, seja lá o que isso queira dizer num meio totalitário. E como também brinquei aqui, foi praticamente uma turnê da nova dupla sertaneja Moderado & Linha Dura, rs. Como era de se esperar numa votação farsesca, compareceram apenas 40% da população apta a votar no primeiro turno, e pouco menos da metade no segundo turno. Mas surpreendentemente, segundo os resultados anunciados hoje, o “Moderado” ganhou e vai fazer carreira solo: seu nome é Mas’ud Pezeshkiyа̄n (transliteração que prefiro, no lugar da mais comum Masoud Pezeshkian), cirurgião sem experiência política que já foi ministro da Saúde no começo do século e, ao menos de boca, prega uma reaproximação com os EUA e um relaxamento da repressão às mulheres sem véu ou com véu mal colocado.

Outros dados são ainda mais curiosos: sua esposa, ginecologista, morreu num acidente de carro e ele criou sozinho seus quatro filhos, não tendo se casado de novo. Seus pais são de origem azerbaijana, “minoria-maioria” que vive na fronteira do Azerbaijão propriamente dito, algo tanto mais notável quanto Raisi e outros dignatários morreram exatamente enquanto voltavam daquele país, após encontro com o ditador Ilham Aliyev. Quer mais? Além do persa, ele também é fluente em azerbaijano e curdo (talvez nas duas maiores variantes, kurmanji e sorani?), lembrando que Jîna Emînî, inspiração da grande revolta em 2022-23, era exatamente curda e residente na região do Curdistão iraniano. Dou um prêmio pra quem se oferecer a ensinar um pouco de inglês pro “Vovô Pezê”, mas em todo caso, também tive outra ideia de montagem pra essa ocasião diferente, rs:



Aproveitando a ocasião, embora o Irã não seja um país de língua e cultura árabes, seguem alguns resultados de meu estudo de árabe, conforme o volume 4 do manual Gateway to Arabic, do querido professor Imran Hamza Alawiye. São dois pequenos diálogos em inglês apresentados pra versão, seguidos das respectivas versões em árabe que eu mesmo fiz e das versões vocalizadas (sinais que não são usados o tempo todo, os harakaat, em vermelho). Apenas no segundo texto não vocalizado, infelizmente esqueci de pôr o ponto sobre uma consoante enfática “daad”, que sem ele é pronunciada como a outra enfática “saad”. Não repeti os nomes das personagens:












terça-feira, 2 de julho de 2024

Eleições 2029, “dois mil vinte e quê”...


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Estão dizendo que 2024 está sendo o ano com mais eleições de nível nacional, incluindo presidenciais, ocorrendo simultaneamente em vários países: presidenciais na Rússia, nos EUA, na Venezuela, no México, no Egito, no Irã, na Mauritânia, parlamentares na Índia, na União Europeia, no Reino Unido, na França, na Coreia do Sul, na Geórgia... mesmo que ocorram em contextos praticamente autoritários, com pouco peso das urnas sobre ou contra o poder central! Sem contar, claro, países onde possa estar havendo eleições municipais ou locais, como é o caso do Brasil em outubro próximo.

Devido ao acidente de helicóptero, perfeitamente evitável, que livrou a humanidade do presidente iraniano Ebrahim Raisi (na verdade, um boneco do aiatolá Khamenei) em maio, o Irã teve de convocar eleições suplementares marcadas pra última sexta-feira. Caso raro, a farsa foi pro segundo turno, e na frente está um médico e ex-ministro da Saúde, candidato considerado “moderado” por defender alguns retoques na diplomacia, na economia e no tratamento das mulheres, embora tenha defendido a repressão sangrenta aos protestos de 2022 após o assassinato da jovem curda Jîna Emînî pela polícia da “moralidade”. Os outros três aceitos na disputa são considerados pela mídia ocidental “ultraconservadores”, ou seja, é de fanático, misógino e carniceiro pra baixo, e foi um deles que passou em segundo.

Os analistas também chamam os ultraconservadores de “linha-dura”, de forma que se um candidato é moderado e o outro é linha-dura, temos formada talvez a primeira dupla sertaneja de origem iraniana: Moderado & Linha Dura, rs!

Mas o principal astro desta publicação é o simpático âncora do jornal em francês das 22h na principal TV da Mauritânia, país de maioria árabe na África Ocidental, mas com outras etnias, como os negros uolofes. Yadali Hacen apresentou a edição de 29 de junho de 2024, quando ocorreu a eleição presidencial no país de história marcada por vários golpes militares, muitos anos de ditadura (como a do primeiro presidente pós-independência, que reinou de 1961 a 1978) e apenas uma transição pacífica de poder. O atual presidente, que buscava um segundo mandato, foi justamente o participante dessa primeira transição pacífica e, se confirmados os números de domingo à noite (quando estou editando este texto), está reeleito no primeiro turno. No primeiro trecho, o velhinho tenta dizer “2024” em francês (deux-mille-vingt-quatre), mas erra duas vezes: primeiro, chama o corrente ano de “2029”, e depois, até tenta falar o “quatro”, mas acaba saindo “quoi”, que em francês significa “quê”.

No segundo trecho, ele está prestes a repetir as principais manchetes do dia, mas seu celular toca de repente e ele precisa parar a chamada urgentemente, ao que acaba entrando a vinheta com as cenas externas, depois narradas por Hacen. É um encerramento incômodo pro que ele mesmo chamou de “jornada muito eleitoral”! Muito estranho alguém trazer um telefone pra bancada de um telejornal, e ainda por cima não ligar o modo silencioso, mas curiosamente esse celular parece nem ser um smartphone, por causa do formato, do toque e do jeito que ele o pega pra apertar o botão de desativação. Ou o país é pobre, ou o âncora é minimalista, ou ele simplesmente é um “vovozão antitecnologia”, rs:


Et bienvenue à votre [journal des] 22 heures de ce samedi, 29 juin 2029 [deux-mille-vingt-neuf], une journée électorale par excellence. Et pour cause, puisqu’aujourd’hui c’était l’élection présidentielle, donc, deux-mille-vingt-quoi. Ils étaient plus d’un million neuf-cents [mille] électrices et électeurs…

E bem-vindos a seu [jornal das] 22 horas deste sábado, 29 de junho de 2029, uma jornada eleitoral por excelência. Não é por menos, pois hoje foi a eleição presidencial, então, de dois mil e vinte e quê. Foram mais de um milhão e novecentas [mil] eleitoras e eleitores…


Donc, ce journal est à présent terminé, merci à vous… [Le portable sonne] Merci à vous, mesdames, mesdemoiselles et messieurs de l’avoir suivi…

Então, este jornal está agora terminando... [Toca o telefone] Obrigado a vocês, senhoras, senhoritas e senhores, por o terem assistido…


E pra terminar, este meu comentário sobre a foto do discurso que Gabriel Attal, primeiro-ministro da França, fez logo após o primeiro turno das eleições legislativas, somente pra dizer que “temos de barrar a extrema-direita”. Cê é burro, moleque, esse negócio de “o outro não”, ainda mais quando teu presidente tá totalmente desacreditado, é um sinal reverso pro povo votar exatamente “no outro”!